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Floresta e Ambiente

On-line version ISSN 2179-8087

Floresta Ambient. vol.19 no.4 Seropédica Oct./Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.4322/floram.2012.045 

ARTIGO ORIGINAL

 

Diversidade de Trichocomaceae isolada de solo e serrapilheira de Floresta Atlântica

 

Diversity of soil and litter isolated Trichocomaceae in Atlantic Forest

 

 

Marcelo Elias FragaI; Marcos Gervasio PereiraII

INúcleo de Pesquisa Micológica e Micotoxicológica, Departamento de Microbiologia e Imunologia Veterinária, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ, Seropédica/RJ, Brasil
IIDepartamento de Solos, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ, Seropédica/RJ, Brasil

Autor(es) para correspondência

 

 


RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo avaliar a diversidade e a sucessão da família Trichocomaceae em áreas com diferentes graus de antropização, denominadas área mais impactada e área menos impactada. O estudo foi realizado no Parque Natural Municipal do Curió, Paracambi-RJ. Foram selecionadas duas áreas, com diferentes graus de alteração antrópica, sendo em cada uma destas delimitado um talhão de aproximadamente 1.000 m2, sendo nestes realizadas coletas de terra e serrapilheira para a avaliação da fertilidade e da micobiota. De maneira geral, observa-se que, na área mais impactada, ocorreram os maiores valores de pH, Ca e K. Os maiores valores de serrapilheira aportada, observados nesta área, também contribuem para os maiores valores de K, elemento facilmente lixiviável no material em decomposição. Os maiores valores de Unidades Formadoras de Colônias (UFC) no solo e na serrapilheira, 9 × 104 e 5,4 × 104, respectivamente, foram observados na área mais impactada. Também nesta área foram verificados os maiores valores de Ca no solo e na serrapilheira, o que sugere que esse nutriente pode estar contribuindo para o maior número de UFCs. Para a área menos impactada, os valores de UFC estiveram entre 4 × 104 para serrapilheira e 5 × 104 para o solo, não sendo observada nenhuma associação clara entre um maior número de UFCs e os teores de nutrientes no solo e/ou na serrapilheira. O número total de fungos isolados foi de 87, pertencentes a quatro gêneros e 22 espécies diferentes, sendo 16 Penicillium spp., quatro Aspergillus spp., um Paecilomyices sp. e um Trichoderma sp. Não foi observada uma clara associação entre as variáveis climáticas e o número de UFCs. O maior número de UFCs foi observado na área mais impactada tanto no solo quanto na serrapilheira. Os maiores teores de Ca quantificados nesta área sugerem que esse nutriente pode estar contribuindo para o aumento das UFCs. O genêro Penicillum, em ambas as áreas, foi o mais representativo.

Palavras-chave: micobiota, diversidade, impacto do uso do solo.


ABSTRACT

The purpose of the present study was to assess the diversity and succession of family Trichocomaceae in areas with different levels of human disturbance, namely, most impacted area and least impacted area. This research was carried out in "Parque Natural Municipal Curió" (Natural City Preserve) in Paracambi, State of Rio de Janeiro. Two areas with different levels of human disturbance were selected and, in each of these areas, a 1,000 m2 plot was delimited, where soil and leaf litter samplings were collected for fertility and mycobiota assessment. In general, the most impacted area presented the highest values for pH, Ca and K. The highest values of leaf litter yield were also observed in this area, which contributed to the higher values of K - an element easily leachable in mulch. The highest values of Colony Formation Units (CFU) in soil and litter: 5.4 × 104 and 9 × 104, respectively, were observed in the most impacted area. This area also presented the highest values for Ca in soil and litter, which suggests that this nutrient may contribute to the greater number of CFUs. For the least impacted area, the CFU values were between 4 × 104 for litter and 5 × 104 for soil; no clear association was observed between the higher number of CFUs and the concentrations of nutrients in soil and/or litter. The total number of fungi isolated was 87, belonging to four different genera and 22 species, with 16 Penicillium spp., four Aspergillus spp., one Paecilomyces sp. and one Trichoderma sp. No clear association was noticed between climatic variables and the number of CFUs. The greatest amount of CFUs was observed in the most impacted area, both in soil and leaf litter. The higher concentration of Ca quantified in this area suggests that this nutrient may be contributing to the increase in CFUs. The genera Penicillium spp. was the most representative fungus in both areas.

Keywords: mycobiota, diversity, impact of soil use.


 

 

1. INTRODUÇÃO

O conhecimento acerca das florestas tropicais desempenha papel fundamental na elaboração de estratégias mundiais para a conservação da biodiversidade (Lima & Guedes-Bruni, 1997). Nesses ambientes, vários estudos têm sido realizados no tocante à avaliação da diversidade florística (Andreata et al., 1997; Tonhasca Junior, 2005), ao aporte e à decomposição de serrapilheira (Pereira et al., 2010; Paula et al., 2009) e à diversidade de microfungos em solo (Abreu & Pfenning, 2008), porém poucos são os estudos relacionados à família Trichocomaceae.

O Parque Natural Municipal Curió de Paracambi, criado por meio do Decreto Municipal nº 1001 de 29 de Janeiro de 2002, foi definido como Unidade de Proteção Integral, com área total de 1.100 ha, e está situado no município de Paracambi-RJ; esse parque está inserido no domínio da Mata Atlântica, formação de Floresta Ombrófila Densa Submontana. Essa Unidade de Conservação (UC) faz parte do corredor de Biodiversidade Tinguá-Bocaina que, por sua vez, está inserido no Corredor da Serra do Mar, tendo como limites a Reserva Biológica do Tinguá e o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Para Peixoto (1991-1992), comparando-se a biodiversidade da Mata Atlântica com outras regiões tropicais, dentre os dados de maior destaque há o grande número de espécies de Myrtaceae e a quantidade de fungos associados à rizosfera. Hawksworth & Rossman (1997) indicaram que um número alto de espécies de fungos não conhecidas deve ser encontrado em florestas tropicais, no futuro, enfatizando a necessidade de amostragens nessas regiões.

A estimativa mais aceita do número total de espécies de fungos no planeta é de 1,5 milhão, considerada conservadora, pois nesta não foi computada a diversidade de fungos associados a insetos nem a diversidade de fungos endófitos. A proporção de nomes de espécies de fungos descritas versus espécies válidas, apresenta-se com base na proporção de sinonímia de 2,5:1, aumentando em aproximadamente 25 mil o número estimado de espécies válidas. Existem aproximadamente 100 mil espécies de fungos conhecidas, cerca de 7% do total de 1,5 milhão (Hawksworth, 2001).

Na biosfera, o habitat mais rico em fungos é o solo. A principal função desses organismos é a decomposição da matéria orgânica, envolvendo pelo menos quatro grupos distintos: celulolíticos, hemicelulolíticos, pectinolíticos e ligninolíticos (Tauk, 1990).

Fungos decompositores têm uma maior importância no ciclo de carbono e nutrientes do ecossistema, porém são sensíveis a distúrbios, poluição e mudanças ambientais (Frankland et al., 1996). O impacto nas mudanças ambientais pode influenciar na diversidade de fungos via decomposição; por isso, é importante conhecer a taxa e o número de decomposição, a frequência de ocorrência e a função das espécies de fungo presentes (Frankland, 1966).

O baixo nível de diversidade pode corresponder à dominância de poucas espécies, as quais podem apresentar uma vantagem seletiva sobre as demais. As espécies da família Trichocomaceae se enquadram nessas condições; no inverno, quando há baixo índice de chuva, a diversidade aumenta. O gênero Aspergillus, como um dos principais da família Trichocomaceae, é predominante em solos tropicais e subtropicais (Persiani et al., 1998).

As condições abióticas no interior da camada de serrapilheira, com destaque para a temperatura e a umidade, bem como a composição química da serrapilheira, podem apresentar uma grande variabilidade. Outro fator a ser considerado é a decomposição do material depositado, promovida pelos fungos. Estes possuem capacidades de decomposição distintas em função da produção de enzimas. Tal fato parece uma provável explicação para os efeitos positivos da riqueza de espécies fúngicas na decomposição de serrapilheira (Domsch et al., 1980).

Segundo Attenschwiler et al. (2005), a diversidade de espécies que compõem a serrapilheira e as espécies decompositoras podem influenciar significativamente a decomposição e a liberação de nutrientes para o solo, sendo estes de grande relevância para a comunidade de organismos presentes, bem como para o funcionamento dos ecossistemas. Embora existam poucos estudos acerca do efeito da serrapilheira - em especial, de sua composição química -, na comunidade microbiana do solo (abundância e diversidade), acredita-se que estes atributos possam atuar efetivamente nos organismos do solo.

A partir do exposto, o presente trabalho teve como objetivo avaliar a diversidade e a sucessão da família Trichocomaceae em áreas com diferentes graus de antropização, denominadas área mais impactada e área menos impactada, em um fragmento de Mata Atlântica, localizado em Paracambi-RJ.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

2.1. Área de estudo

O Parque Natural Municipal do Curió (coordenadas geográficas: 7.505.350-7,499,750 N e 635.650-632.500 E) possui uma área de aproximadamente 1.100 ha. A área que compreende o Parque pertenceu à extinta Companhia Têxtil Brasil Industrial, que funcionou até o ano de 1996, tendo sido fundada no ano de 1871, após a desativação da Fazenda Ribeirão dos Macacos, onde, em função dos pés de café que são observados, supõe-se que esta era a principal atividade agrícola da área (Figura 1).

A área localiza-se na formação geomorfológica serras e morros altos, na suíte da Serra das Araras, estando localizada na Serra de Paracambi. Para o estudo, foram selecionadas duas áreas, denominadas área mais impactada, definida com alto grau de antropização, e área menos impactada, que apresentava baixo grau de antropização. Os critérios utilizados para a definição das áreas foram os seguintes: a) área mais impactada, localizada próxima a trilhas e onde foi observada a ocorrência de espécies exóticas; b) área menos impactada, que apresentava um maior sub-bosque e maior acúmulo de serrapilheira na superfície do solo. As áreas localizavam-se nas seguintes coordenadas: 22º 35' 45.1" S e 43º 42' 15.1" WO; 22º 35' 46.5" S e 43º 42' 17.1" WO, a área com maior grau de antropização, e 22º 34' 28.3" S e 43º 41' 09.6" WO; 22º 34' 26.6" S e 43º 41' 10.6" WO, a área menos impactada. Em cada uma das áreas, foi delimitado um talhão de aproximadamente 1.000 m2.

Os dados metereológicos utilizados foram temperatura (T) do ar, umidade relativa (UR) e precipitação, sendo estes obtidos da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro), na Estação Experimental de Avelar-RJ (Lat.: 22º 21' S e Long.: 43º 25' W).

2.2. Amostragem solo

Foram coletadas 32 amostras compostas, cada uma delas constituída a partir de dez amostras simples coletadas aleatoriamente. Em cada ponto de amostragem do solo (camada de 5-10 cm), também foram coletadas amostras de serrapilheira. Foram também medidas, no momento das coletas, as temperaturas do solo e da serrapilheira, com auxílio de um geotermômetro. Após a coleta, as embalagens com as amostras foram armazenadas a 4 ºC, até o momento da análise. As coletas foram realizadas nos meses de abril, julho, novembro e fevereiro.

2.3. Caracterização da micobiota e isolamento

A micobiota foi quantificada por unidade formadora de colônia (UFC). Os isolamentos foram feitos em 5 g de solo ressuspendido em 45 mL de 0,1 % de peptona, contendo 0,1% de Tween 80 em frasco Erlenmeyer; em seguida, foi agitado por 30 min em homogeneizador de haste vertical a 150 rpm. O meio de cultura utilizado foi Dicloran Rosa de Bengal Cloranfenicol (DRBC), realizado com alíquotas de 0,1 mL das respectivas diluições (102 a 106), transferidas para os tubos de cultura contendo 0,9 mL de meio de cultura. Posteriormente, foi retirado 0,1 mL dessa solução, que foi plaqueado em forma de gotas, com cinco repetições para cada diluição. As placas de Petri foram incubadas em estufas a 25 ºC por 5 dias. A leitura foi baseada em presença ou ausência de UFC sobre cada gota (Fraga et al., 2010a, b).

2.4. Identificação da micobiota

O isolamento foi baseado no estudo morfológico (macroscópico e microscópico) em meio Agar Dicloran Rosa de Bengal Cloranfenicol (DRBC) (Markovina et al., 2005). Para as identificações das espécies, foram utilizados meios específicos para cada grupo de fungo, bem como consultadas bibliografias específicas, como: Klich & Pitt (1988), Pitt (2000), Samson et al. (2000), Klich (2002), Samson & Frisvad (2004) e Samson & Varga (2007).

2.5. Caracterização do solo e da serrapilheira

A fertilidade do solo e o teor dos nutrientes trocáveis (potencialmente lixiviáveis) da serrapilheira foram avaliados por meio dos seguintes parâmetros: pH em água (método do potenciômetro), teor de Al (trocável) e teor de K, Ca e Mg (trocáveis), para profundidades de 0-10 cm para solo e a camada superficial de serrapilheira. Os métodos utilizados para a determinação do solo e da serrapilheira foram os preconizados pela Embrapa (Embrapa, 1997). Os teores de nutrientes trocáveis da serrapilheira foram determinados de maneira similar aos métodos utilizados para solo. O delineamento experimental adotado foi inteiramente casualizado e as médias referentes a cada tratamento foram comparadas pelo Teste de Tukey, com nível mínimo de significância de 1 %, com o uso do software SISVAR (Universidade Federal de Lavras - UFLA).

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

O solo foi classificado como Cambissolo Háplico (Embrapa, 2006), apresentando um baixo grau de desenvolvimento pedogenético. As características topográficas, com destaque para o relevo movimentado, favorecem um elevado grau de remoção de material, por meio do processo erosivo, retardando a evolução do solo.

Os dados ambientais referentes à umidade relativa e à temperatura durante o ano de coleta apresentaram o valor máximo em novembro para UR, com 82%, e fevereiro para T, com 23 ºC, sendo o valor mínimo em julho, com 72% para UR e 15 ºC para T. Quanto à precipitação, o maior valor observado foi no mês de novembro, com 307,9 mm, e o menor valor, no mês julho, com 1,3 mm. As variações na precipitação, na umidade relativa e na temperatura podem ter promovido um efeito diferenciado entre as áreas, com relação ao desenvolvimento da microbiota (Figura 2).

Na Tabela 1, são apresentados os valores de pH, Ca, K e P, para as áreas mais impactadas e menos impactadas, no solo e na serrapilheira, respectivamente. De maneira geral, observa-se que, na área com maior grau de antropização, ocorreram os maiores valores de pH, Ca e K. Uma possível explicação para os valores mais elevados desses elementos pode ser o fato de estas áreas localizarem-se próximas a trilhas utilizadas por animais, os quais podem, pela adição de seus dejetos, ter contribuído para o aumento dos níveis desses nutrientes e do pH, uma vez que nessa área não se observa nenhuma atividade agrícola.

 

 

Para a serrapilheira, de maneira geral, foi verificado um padrão com tendência similar à observada para o solo. Na área com maior grau de antropização, foram quantificados os maiores valores de pH e Ca. Os maiores valores de serrapilheira aportada, observados nessa área, também contribuem para os maiores valores de K, elemento facilmente lixiviável no material em decomposição.

Para o pH na área mais impactada, os maiores valores (no solo e na serrapilheira) ocorreram na primeira coleta, com decréscimo nas amostragens seguintes; esse padrão não foi observado na área menos impactada, em que, na serrapilheira, não foi verificada diferença entre as épocas de amostragem e, no solo, o maior e o menor valores de pH ocorreram na última e na segunda coleta, respectivamente (Tabela 2).

Para o Ca, na área mais impactada, os maiores valores foram verificados na segunda coleta, tanto no solo quanto na serrapilheira, com decréscimo nas coletas seguintes. Esse padrão também foi observado na área menos impactada, no solo e na serrapilheira.

De maneira geral, para o K e o P, foram observados maiores valores desses nutrientes na primeira coleta, com decréscimo nas seguintes, sendo os menores valores quantificados na última amostragem. Esse padrão ocorreu tanto no solo quanto na serrapilheira, em ambas as áreas estudadas (mais impactada e menos impactada) (Tabela 2).

Os maiores valores de UFC no solo e na serrapilheira, 90 × 103 e 54 × 103, respectivamente, foram observados para a área mais impactada. Também nesta área foram verificados os maiores valores de Ca no solo e na serrapilheira, o que sugere que esse nutriente pode estar contribuindo para o maior número de UFCs. Para a área menos impactada, os valores de UFC estiveram entre 39 × 103 para serrapilheira e 45 × 103 para o solo, não sendo observada nenhuma associação clara entre um maior número de UFCs e os teores de nutrientes no solo e/ou na serrapilheira (Tabela 2).

Os números de UFCs encontrados apresentam-se com valores aproximados aos verificados na literatura. Os valores observados são próximos àqueles verificados por autores em estudos de áreas da Floresta Atlântica, estando esses entre 25 e 38 × 104 UFC.g-1 de fungos em amostras de solo (Tauk et al., 2005). Vieira & Nahas (2005) encontraram índices de UFC.g-1 de 50 × 104 para fungos em amostras de solo. Em estudos realizados por Bettucci & Roquebert (1995), em floresta tropical da Malásia, foram observados índices de 2,5 × 104 UFC.g-1 para solo e 7 × 104 UFC.g-1 para serrapilheira. Esses valores apresentam-se similares a outros tipos de ambiente, como solo em duna de restinga, com variação de 4,6 × 103 a 9 × 104 UFC.g-1 (Fraga et al., 2010b) e ambiente de florestamento, com valores variando de 12,8/58,2 a 20,3/83,3 × 103 UFC.g-1 para eucalipto e pinus, respectivamente (Fraga et al., 2010a). Para área de eucalipto, não foi observada redução da micobiota no ambiente impactado. Alguns estudos apontam que as folhas de eucalipto são muito ricas em taninos, fenóis, óleos e outras substâncias que oferecem maior resistência à ação dos fungos no processo de degradação.

O número total de fungos isolados foi de 87, pertencentes a quatro gêneros e 22 espécies diferentes, sendo 16 Penicillium spp., quatro Aspergillus spp., um Paecilomyices sp. e um Trichoderma sp. Entre as 22 espécies isoladas, sete espécies (A. flavus, A. niger, P. aurantiogriseum, P. janczewskii, P. oxalicum, P. rugulosum e Trichoderma) não foram encontradas em solo, três espécies (P. citreonigrum, P. crustosum e P. felutanum) não foram encontradas em serrapilheira e as outras 12 espécies foram encontradas em ambos os habitats (Tabela 3).

Espécies de Trichocomaceae têm sido citadas e frequentemente registradas em investigações ecológicas de solos na América do Norte e na Europa. Entretanto, relativamente pouco se conhece acerca da diversidade e da distribução desses fungos em ambientes naturais, com exceção dos solos da América do Norte e da Europa (Markovina et al., 2005). No Brasil, são encontrados poucos estudos direcionados para espécies de Trichocomaceae em ambientes de florestas tropicais. Os relatos são citações de algumas espécies em diferentes estudos, como: 'A Ocorrência de Aspergillus e Penicillium em solo na região norte (Pará e Maranhão)', por Batista et al. (1967a, b), 'Solo de Duna no Rio de Janeiro (Fraga et al., 2010b)' e 'Ambiente de Florestamento de Pinus e Corymbia' (Fraga et al., 2010a).

Espécies de Penicillium e Aspergillus crescem rapidamente e produzem grandes quantidades de conídios, que são facilmente dispersos. Por isso, esses fungos ocorrem em uma ampla variedade de ambientes. De acordo com Christensen et al. (2000), Penicillia pode representar 0 a 67% (média de 35%) das espécies prevalentes em qualquer comunidade de fungo no solo sob vegetação nativa, onde a diversidade atinge habitualmente 50 a 75% - ou mais espécies - por grama de solo. Neste estudo, foram isoladas 16 espécies de Penicillium de um total de 22 espécies isoladas. Os números observados corroboram com os dados de estudos prévios reportados.

 

4. CONCLUSÕES

O maior número de UFCs foi observado na área menos impactada tanto no solo quanto na serrapilheira, o que sugere que este pode ser um indicador do distúrbio ao qual a área foi submetida. Os maiores teores de Ca quantificados na área menos impacatada indicam que este nutriente pode estar contribuindo para o aumento das UFCs. Quanto ao número de isolados, foram quantificados 87 e, dentre estes, 22 espécies se repetiram entre coletas, sendo o genêro Penicillum, em ambas as áreas, o mais representativo, com 16 espécies.

 

REFERÊNCIAS

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Autor(es) para correspondência:
Marcelo Elias Fraga
Núcleo de Pesquisa Micológica e Micotoxicológica, Departamento de Microbiologia e Imunologia Veterinária, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ
Rod. BR 465, Km 7
CEP 23890-000, Seropédica, RJ, Brasil
e-mail: fraga@ufrrj.br

Recebido: 07/07/2011
Aceito: 14/06/2012
Publicado: 31/12/2012

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