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NEIKO-ERÓTICA: A LITERATURA ERÓTICA CONTEMPORÂNEA À LUZ DA PSICANÁLISE FREUDIANA * * Financiamento: o presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

Neiko-erotic: contemporary erotic literature in the light of Freudian psychoanalysis

RESUMO:

Este texto objetiva apresentar uma leitura da literatura erótica contemporânea a partir da teoria psicanalítica de Sigmund Freud. Percorrendo a história da escrita feminina e da literatura erótica, verifica-se o surgimento da chamada literatura erótica contemporânea. Entre as características desse gênero, destaca-se o cenário das tramas eróticas que torna central um eixo sombrio no qual gravita a sexualidade das personagens que, à luz da teoria freudiana, pode ser lida como um caráter disruptivo, característica fundamental das relações amorosas. Nesse viés, para que a erótica se valha como tal, torna-se necessária a presença de um traço discordante que nomeamos de neiko-erótico.

Palavras-chave:
escrita feminina; literatura erótica; pulsão de vida; pulsão de morte; teoria freudiana

ABSTRACT:

This text aims to present a reading of contemporary erotic literature based on Freud’s psychoanalytic theory. Going through the history of women’s writing and erotic literature, we can see the emergence of the so-called contemporary erotic literature. Among the characteristics of this genre, the setting of erotic plots stands out, which makes central a dark axis in which the sexuality of the characters gravitates which, in the light of Freudian theory, can be read as the disruptive character, a fundamental characteristic of love relationships. In this bias, for eroticism to be valid as such, the presence of a discordant trait that we call neiko-erotic is necessary.

Keywords:
feminine writing; erotic literature; life drive; death drive; Freudian theory

INTRODUÇÃO

E os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar. Estão bem diante de nós, gente comum, no conhecimento da mente, já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência. (FREUD, 1907[1906]/1996, p. 20).

As palavras acima, do texto Delírios e sonhos na ‘Gradiva’ de Jensen, possibilitam perceber que, para o fundador da psicanálise, os escritores eram precursores de um certo tipo de apreensão dos dramas e do sofrimento humano que os demais não conseguiam perceber. Pensamento sumariamente endossado por Lacan quando este afirma, ao homenagear Marguerite Duras:

A única vantagem que um psicanalista tem o direito de tirar de sua posição é a de se lembrar com Freud que, em sua matéria, o artista sempre o precede, portanto, ele não tem que bancar o psicólogo quando o artista lhe desbrava o caminho. (LACAN, 1965/2003, p. 200).

Seguindo a letra lacaniana, apoiada em Freud, pontuamos como a relação entre psicanálise e literatura se mostra frutífera no ponto em que cada escritor, à sua própria maneira, traceja sob sua tinta o modo pelo qual a cultura, as organizações sociais e sua própria constituição psíquica lhe influenciam na composição de sua obra; leitura que pode indicar as formas de subjetivação de dada época. Nesse conseguinte, Rabaté esclarece que “a literatura oferece um modo privilegiado de entrada para a ‘cultura’, termo que combina o envolvimento pessoal com os modos tradicionais de ficção (Bildung) com os valores que definem uma civilização (Kultur)” (RABATÉ, 2017RABATÉ, J.-M. Psicanálise e literatura: por que, hoje? Trivium: Estudos interdisciplinares, v. 9, n. 2, p. 162-171, 2017., p. 164). Não sem razão, muitos psicanalistas e pesquisadores em psicanálise a tomam como importante recurso no entendimento das manifestações do inconsciente. Isso porque os artistas, assim como os neuróticos, são movidos por desejos inconscientes, pulsões e libido. No entanto, os artistas são capazes de sublimar esses impulsos de forma criativa, produzindo obras de arte que são gratificantes tanto para eles quanto para o público (FINGERMANN, 2017FINGERMANN, D. Psicanálise e Literatura em Lacan. Revista Cult, São Paulo, v. 20, n. 8, p. 44-45, 2017. ).

É nessa perspectiva que Birman (1991BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1991.) declara que esta articulação entre saber psicanalítico e tradição literária se evidencia enquanto uma das condições de possibilidade para a aplicação da metodologia psicanalítica, pois fornece uma compreensão profunda da natureza humana e da linguagem. O próprio Freud manteve uma estreita relação com a literatura que, na concepção de Chaves (2015FREUD, S. Moral sexual ‘cultural’ e o nervosismo moderno (1908). São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (Sigmund Freud - Obras completas, 9, p. 169-186) ), estende-se de maio de 1897, em uma carta a Fliess intitulada Manuscrito N, a 1930, em seu discurso de agradecimento ao Prêmio Goethe. Entretanto, parece uma tarefa inglória afixar a precisão dessa influência, mas o que se destaca é fato de que Freud, desde seus primeiros ensaios, utilizou a escrita literária como uma forma de comunicar seus conceitos psicanalíticos de forma acessível e envolvente. Ele acreditava que a literatura poderia ser um veículo poderoso para a compreensão da psique humana, e ele usou suas próprias habilidades literárias para tornar suas teorias mais acessíveis a um público mais amplo. Nas palavras de Rabaté,

A “ciência da literatura” de Freud inclui interpretação e hermenêutica geral, partindo do campo literário para a sexualidade com sua coleção inesgotável de exemplos, personagens, situações e até mesmo de piadas, irá aperfeiçoar diagnósticos individuais, aprofundar a complexidade dos dramas de vida dos pacientes e, finalmente, olhar para as crônicas imemoriais de deuses, heróis e paradigmas míticos que atestam o impacto dos dramas transgeracionais. (RABATÉ, 2017RABATÉ, J.-M. Psicanálise e literatura: por que, hoje? Trivium: Estudos interdisciplinares, v. 9, n. 2, p. 162-171, 2017., p. 164).

No entanto, isso não significa que o texto escrito deva ser psicanalisado, como nos adverte Fingermann, “pelo contrário, os psicanalistas é que deveriam saber ler melhor, que deveriam flexibilizar, afinar seu ouvido, deixando desconcertar a sua linguagem pela ‘prática da letra’” (FINGERMANN, 2017FINGERMANN, D. Psicanálise e Literatura em Lacan. Revista Cult, São Paulo, v. 20, n. 8, p. 44-45, 2017. , p. 44). Considerando os ditos acima, propomo-nos, neste escrito, apresentar uma leitura da literatura erótica contemporânea à luz da teoria psicanalítica de Sigmund Freud, partindo-se de uma investigação teórica, no intuito de buscar subsídios que nos possibilitem refletir sobre esse gênero atual para além dos estereótipos dos protagonistas. Não que não seja importante identificar esses marcadores ficcionais que nos apontam para os papéis sociais reforçados pela sociedade. Entretanto, parece-nos mais essencial buscar traços mais fundamentais que nos apontam para certas dinâmicas relacionais que emergem na sociedade hodierna nos fazendo questionar esse fenômeno bastante singular que associa literatura, mulheres, romance, fantasia e posições de submissão e dominação.

Sabemos que a literatura erótica contemporânea se tornou um fenômeno de grande popularidade, tendo alcançado um público cada vez mais amplo nos últimos anos. Obras como Cinquenta tons de cinza, de E. L. James, e Função CEO, da autora brasileira Tatiana Amaral, tornaram-se best-sellers internacionais e nacionais, respectivamente, despertando o interesse de leitores de todas as idades e gêneros. É nesse contexto que acreditamos que essa manifestação recente possa ser uma fonte valiosa para a compreensão da psique humana em nossa época, ao possibilitar explorar as fantasias e desejos sexuais de seus personagens, revelando aspectos ocultos da sexualidade humana, além de refletir mudanças sociais e culturais do nosso tempo, evidenciando novas formas de sexualidade e de relacionamento, que revelam as transformações que estão ocorrendo na sociedade. Por esse viés, a psicanálise pode ser uma ferramenta útil para a interpretação da literatura erótica contemporânea, uma vez que a teoria psicanalítica auxilia na compreensão de significados próprios das fantasias e desejos sexuais representados nesse tipo de romance.

Da escrita feminina à literatura erótica contemporânea

Segundo Neri (2005NERI, R. A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.), o caminho percorrido pelas mulheres para chegar ao mundo das letras não foi fácil, uma vez que o território literário até meados do século XVIII era de domínio exclusivo dos homens e a escrita feminina “ficava restrita ao domínio privado, à correspondência familiar ou à contabilidade da pequena empresa” (PERROT, 2008PERROT, M. Minha História das Mulheres. São Paulo: Contexto, 2008., p. 99). É justamente o advento da Revolução Francesa que permitiu à mulher um avanço no terreno cultural.

Nessa perspectiva, verifica-se que a chamada literatura feminina, no século XIX, surgiu a partir da expressão profunda de amargura oriunda dos sentimentos de exclusão e inferioridade social, aos moldes de um lamento que denunciava as injustiças da condição da mulher nessa época, de modo que não é incomum se deparar com “personagens femininos [que] sempre esbarram nos limites impostos a seu sexo, como revela a obra Orgulho e preconceito de Jane Austen” (NERI, 2005NERI, R. A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005., p. 230) e outras romancistas como as irmãs Brontë - Charlotte, Emily e Anne - e suas histórias recheadas de escolhas morais e destinos dramáticos. Mary Ann Evans, pseudônimo de George Eliot, também é considerada uma das principais autoras de literatura feminina inglesa do século XIX, abordando uma ampla gama de temas, incluindo o amor, o casamento, a família, a sociedade, a política e a religião.

Fato é que, para além de um sintoma da mulher dessa época, tal escrita aflora críticas contundentes à sociedade individualista e patriarcal, centrada nos direitos masculinos à propriedade, por meio de sátiras sociais sobre o ideal burguês de casamento, filhos, modelo de família que constituíam o que Freud (1908/2015) vai identificar como moral sexual civilizada. Portanto, não se configuraria como erro afirmar que essa literatura apontava para um mal-estar gestado no âmbito de um modelo adoecido de sociedade moderna e, exatamente por isso, não poderia ser vista somente como a denúncia de um sintoma de mulher, mas como uma exposição fiel dos (des)caminhos da civilização, conforme desbravou Freud, ao longo de sua obra, e reforça Assoun (1993ASSOUN, P.-L. Freud e a mulher. Rio Janeiro: Jorge Zahar, 1993.).

Retornando aos romances escritos por indivíduos do sexo feminino, destacamos como esses romances modernos ameaçavam a cultura da época, uma vez que apresentavam mulheres voluntariosas e determinadas, além de longas e detalhadas descrições sensuais. Interessante é notar que, nesse mesmo período, na Inglaterra, acontecia a internação compulsória de mulheres consideradas prostitutas. Essa ação quase se expandiu para qualquer jovem que apresentasse algum sinal de atividade sexual, incluindo a masturbação, e esse tipo de literatura se relacionava, em grande parte, a essa condição desviante. Assim, a clandestinidade e a linguagem metafórica passaram a contornar a literatura feminina devido a esses controles da censura governamental e também social (FRANCKLIN, 2015FRANCKLIN, P. F. D. O protagonismo da mulher na literatura erótica contemporânea. Monografia em Graduação em Comunicação Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2015.).

É digno de nota, porém, que, por mais desviante que fosse considerada essa literatura feminina, ela não era necessariamente erótica, uma vez que a literatura erótica feminina teve início tardio - como afirma Lopes (2013LOPES, N. M. Cinquenta tons de um fenômeno editorial: como a obra de E.L. James renovou a literatura erótica. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO, 2013.), somente no início do século XX - com um grupo de mulheres homoafetivas que se propôs a escrever livros eróticos; ainda assim, as narrativas eram dotadas apenas de carícias castas que pouco chamavam a atenção (ALEXANDRIAN, 1994ALEXANDRIAN, S. História da literatura erótica. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.). Posteriormente, duas autoras - Renée Duran e Anaïs Nin - destacaram-se nesse meio. Conhecida pelo humor de seus textos, Duran foi a primeira mulher a publicar um romance erótico mais ousado. Em 1928, publicou o livro Une heure de désir, que foi colocado no Inferno da Biblioteca Nacional - cota criada pela Biblioteca Nacional de França (BNF) para catalogar os livros que eram considerados erótico-pornográficos - pelo seu cunho obsceno (FRANCKLIN, 2015FRANCKLIN, P. F. D. O protagonismo da mulher na literatura erótica contemporânea. Monografia em Graduação em Comunicação Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2015.). Já Anaïs Nin era uma francesa que viveu boa parte da vida nos Estados Unidos e se tornou mais conhecida. Ficou famosa por suas descrições eróticas, nas quais mantinha “sempre o senso da beleza carnal, e mesmo da elegância moral, nas perversões. A vulva de uma mulher é neles sempre comparada a uma flor, seu lubrificante natural ao mel” (ALEXANDRIAN, 1994, p. 309-310).

É somente no século XXI, principalmente a partir de 2011, que a literatura erótica é expressivamente associada ao feminino. Isso se deve, em grande medida, à autopublicação online do que iria se tornar a trilogia Cinquenta tons de cinza. Essa trilogia foi inicialmente publicada como uma fanfic - histórias produzidas por fãs, baseadas em livros, filmes, seriados, quadrinhos, dentre outros - da saga Crepúsculo, da romancista americana Stephenie Meyer. Com o sucesso da história, a autora E.L. James recebeu uma proposta para publicar a fanfic como livro, pela editora The Writer’s Coffee Shop, em 2011. Na mesma esteira, em 2012, Sylvia Day publicou a série Crossfire, na qual agradece a E.L. James por ter tornado mundialmente popular esse tipo de narrativa. Ainda no mesmo ano, a autora espanhola Megan Maxwell publicou Peça-me o que quiser. No Brasil, Tatiana Amaral publicou duas trilogias Função CEO (2013) e O Professor (2015), e outras mais se tornam sucesso nesse meio.

Pesquisadoras como Francklin (2015FRANCKLIN, P. F. D. O protagonismo da mulher na literatura erótica contemporânea. Monografia em Graduação em Comunicação Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2015.) e Araújo e Lima (2021ARAÚJO, A. T. dos S.; LIMA, E. G. de. A experiência da submissão feminina em Cinquenta tons de cinza. Interfaces, v. 12, n. 4, p. 77-87, 2021.) apontam como diferencial dessa literatura erótica contemporânea uma fórmula que se repete constantemente com poucas modificações. Essa fórmula consiste na trama relacional de uma menina inocente, com pouca ou nenhuma experiência sexual, que conhece um CEO (Chief Executive Officer) ou um homem poderoso e multimilionário que apresenta a ela um mundo de sexo e prazer, fazendo-a conhecer sua sexualidade. O homem ou a mulher (ou os dois) sempre têm questões traumáticas do passado que serão superadas no desenrolar do relacionamento. Ainda que essa fórmula seja interessante para se traçar o perfil das personagens, nossa aposta teórica parte por considerar com mais ênfase o modus operandi em que se desenvolve a dinâmica relacional, como veremos a seguir.

Nessa linha de pensamento, vemos no romance erótico uma importante fonte de estudos, uma vez que essa literatura apresenta, em sua grande maioria, a autoria feminina, representando, portanto, um espaço para o questionamento crítico ao permitir repensar, dentro e fora da obra, os papéis associados à mulher, suas fantasias, o protagonismo de seus desejos e as invenções encontradas por elas para serem sujeitos de sua própria narrativa e não um objeto falado na voz de um outro do sexo masculino.

Literatura erótica: um breve panorama histórico

Na percepção de Maingueneau (2010MAINGUENEAU, D. O discurso pornográfico. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.), a literatura erótica sempre gerou grandes discussões no que concerne à distinção entre o que seria próprio do campo erótico e do pornográfico. Ainda que não se configure enquanto escopo de nossa investigação detalhar os pormenores dessas discussões, evidenciamos que, no contexto literário, a grosso modo, tanto o erótico quanto o pornográfico aparecem em obras que tematizam o sexo.

Entretanto, cabe salientar que, enquanto o erótico diz respeito àquela parte do sexo que não se revela por inteiro, manifestando-se nas entrelinhas, o pornográfico exibe escancaradamente o que deveria ser escondido, de modo que a “‘pornografia’ supõe a fronteira que separa as práticas dignas da civilização de pleno direito e as práticas que se situam aquém disso” (MAINGUENEAU, 2010MAINGUENEAU, D. O discurso pornográfico. São Paulo: Parábola Editorial, 2010., p. 22). Ainda assim, parece perigoso definir traços precisos e conclusivos sobre essa questão, motivo pelo qual Durigan, em seu livro Erotismo e literatura (1986DURIGAN, J. A. Erotismo e literatura. São Paulo: Ática, 1986.), alerta para o fato de que tais distinções correspondem a ideias subjetivas que, de acordo com a época e a cultura em que se encontram, modificam-se.

Logo, somos levados a compreender que o erotismo, na literatura, reveste-se de descrições revalorizadas “em função de uma ideia do amor ou da vida social. Tudo que é erótico é necessariamente pornográfico, com alguma coisa a mais” (ALEXANDRIAN, 1994ALEXANDRIAN, S. História da literatura erótica. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994., p. 8). Fato é que a literatura erótica não pode ser separada da pornografia; mesmo que esta, por sua vez, tenha um grau maior ou menor de obscenidade, ainda carregará aspectos do erotismo na sua produção.

Essa afirmação se torna perceptível ao recuarmos no tempo, para percebermos que a literatura erótica não é recente na história da civilização ocidental. É possível encontrá-la já entre os gregos e romanos, cuja expressão se dava abertamente, ainda que não fosse permitida no âmbito dos gêneros nobres como a tragédia e a epopeia (CARVALHO, 2008CARVALHO, R. A. de. Erotismo e intertextualidade na narrativa de Márcia Denser. Dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. 2008.). Também na Idade Média, por mais estranho que possa parecer pensar uma literatura erótica medieval, ela existia e era conhecida como fabliaux, pequenos contos estruturados em versos octossílabos, de caráter satírico ou informativo. Eles eram comuns, principalmente, nos séculos XII e XIII na França e, segundo Alexandrian (1994ALEXANDRIAN, S. História da literatura erótica. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.), foram utilizados, muitas vezes, pela igreja a fim de denunciar os “luxuriosos”.

No século XIV, principalmente na Itália, essa literatura erótica se tornou requintada, ao ser associada à descrição das relações sexuais com uma bela linguagem, metáforas amáveis e elegância das personagens. Essa escrita, ao romper com a moral medieval, terminou por acenar para a emergência do antropocentrismo renascentista que encontrou no amor cortês sua expressão (ALEXANDRIAN, 1994ALEXANDRIAN, S. História da literatura erótica. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.). Por outro lado, no século XVIII, a França monopolizou essa espécie de texto, passando a ser denominado de romance erótico francês e se propondo como um estudo dos costumes, capaz de revelar os segredos da sociedade e descrever o que se passava nas alcovas, tanto da alta roda quanto das espeluncas (CARVALHO, 2008CARVALHO, R. A. de. Erotismo e intertextualidade na narrativa de Márcia Denser. Dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. 2008.).

Na sequência, no período do Romantismo (final do século XVIII e início do XIX), a literatura erótica “inovou ao associar o erotismo à melancolia, à inquietação metafísica, à obsessão pelo nada” (CARVALHO, 2008CARVALHO, R. A. de. Erotismo e intertextualidade na narrativa de Márcia Denser. Dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. 2008., p. 22). Nesse momento, ganhou corpo um idealismo burguês que buscava a unidade absoluta entre os amantes por meio da unificação da paixão sexual, emoção, matrimônio e prole. Por esse viés, o século XIX proporcionou, ao ocidente, conhecer a erotologia oriental, através do The Kama Sutra of Vatsyayana; publicado em 1883, a obra descreve preliminares, posições sexuais e conselhos para um encontro amoroso.

No entanto, é no século XX que temos o aparecimento de um gênero especial que ainda não havia surgido - o romance do inconfessável - que encontra sua força na criação da psicanálise, que confere valor aos desejos íntimos e recalcados no inconsciente. A bem da verdade, sabemos que algo dessa dinâmica das confissões inconfessáveis já aparecera com Santo Agostinho, em seu livro As confissões, o qual se propõe como marco inaugural de uma forma de se refletir sobre o eu e sua posição de sujeito frente ao desejo, uma vez que ele pode ser pensado enquanto um teórico do desejo que acossa o ser humano, no ponto em que confessa ser o desejo a parte mais íntima, mas também estrangeira do humano. Antecipava, assim, não com as mesmas palavras e termos, parte de uma investigação freudiana.

Com efeito, essa articulação entre o “filósofo” Agostinho e o Santo Agostinho se encontra no modo como ele fez desse desejo que acossa o humano uma categoria central de suas investigações. Nesse sentido, ele refere certo senso de continuidade que passa a se impor sobre um fundo descontínuo, ou profundamente marcado pelas contingências que, de saída, não conseguimos perceber, um sentido que passa a ser franqueado na medida em que se destaca um fio narrativo o qual Freud decanta de sua prática clínica e apresenta como uma espécie de romance do neurótico.

Por fim, no século XXI, um dos diferenciais da literatura erótica se encontrou no protagonismo feminino e homoafetivo que não se conforma aos padrões tradicionais da sexualidade, ainda bastante hegemônicos na sociedade patriarcal. Essa assertiva, porém, não desconsiderava que, em outras épocas, houve mulheres escrevendo sobre essa temática. Ressaltamos, por exemplo, o século XX, no qual encontramos grandes escritoras que se tornaram expoentes desse gênero literário, como Anaïs Nin, Pauline Réage, Adelaide Carraro, Cassandra Rios, Hilda Hilts, entre outras.

Na percepção de Gomes (2016GOMES, M. C. S. Literatura erótica em weblogs: análise do universo feminino nos blogs de literatura erótica. Trabalho de Conclusão de Curso em Biblioteconomia, Departamento de Ciência da Informação, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2016.), a ascensão e popularização da internet, a partir de 1994, possibilitou o surgimento de blogs que passaram a divulgar contos e resenhas de romances eróticos, tornando-se assim um excelente espaço à produção literária erótica. Assim como os livros digitais ou ebooks e plataformas, como o Kindle Direct Publishing (KDP), da Amazon, Publique-se e Kobo Writing Life, que abriram as portas para a autopublicação. É nesse contexto que, a partir de 2011, com a publicação da trilogia Cinquenta tons de cinza, as mulheres assumiram mais claramente o cenário da escrita erótica, passando a ser consumidoras e produtoras, bem como público-alvo. Desde então, os livros de romance erótico e contemporâneo ocupam a lista dos mais vendidos em sites como a Amazon, motivo pelo qual essa publicação é considerada por muitos, como Francklin (2015FRANCKLIN, P. F. D. O protagonismo da mulher na literatura erótica contemporânea. Monografia em Graduação em Comunicação Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2015.), Garcia (2017GARCIA, J. C. 50 tons de cinza a partir da teoria de Sigmund Freud sobre o sadismo e o masoquismo. Monografia de Especialização em Teoria Psicanalítica, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2017.) e Assis e Medeiros (2021ASSIS, C. T. A. de; MEDEIROS, J. H. C. 50 tons de estereótipos: a representação da mulher na literatura erótica contemporânea. Revista Crises, v. 1, n. 1, p. 5-14, 2021.), um marco e um modelo da literatura erótica contemporânea, visto que modifica o cenário das tramas eróticas ao tornar central um eixo sombrio no qual gravita a sexualidade das personagens.

Ainda que essas obras gerem inúmeras polêmicas no ponto em que parecem perpetuar a velha representação patriarcal do feminino na posição de submissão e do masculino como dominador, tais narrativas são escritas e consumidas, em sua maioria, por mulheres. Por isso, para além dessa crítica, é preciso compreender o que esse fenômeno quer nos dizer. Assim, buscamos na letra freudiana uma leitura possível dessa literatura erótica contemporânea capaz de proferir mais que o óbvio da guerra entre os sexos. Para tanto, recorremos ao conceito de masoquismo em Freud, a fim de depurar uma leitura que evidencia um eixo sombrio no qual gravita a sexualidade dos protagonistas dessas narrativas eróticas atuais.

Masoquismo e a complexidade do masoquismo feminino na perspectiva freudiana

O termo masoquismo, cunhado por Richard von Krafft-Ebing em 1886, tem suas raízes na figura de Leopold von Sacher-Masoch, um escritor austríaco do século XIX. Krafft-Ebing utilizou-o para descrever uma perversão sexual caracterizada por práticas de flagelação e humilhação física e moral, nas quais o sujeito obtém satisfação por meio do sofrimento (ROUDINESCO; PLON, 1998ROUDINESCO, E.; PLON, M. Masoquismo. In: ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 500-501.). Embora inicialmente associado a um comportamento desviante, Freud, desde o texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/2016), emprega o vocábulo de maneira diferente. Em sua obra Além do Princípio do Prazer (1920/2020), reformula a compreensão do masoquismo, considerando-o uma das principais tendências sexuais humanas, ao lado do sadismo.

Nessa linha de pensamento, Freud (1920/2020) propõe uma classificação do masoquismo em dois tipos principais: primário e secundário. O masoquismo primário, também chamado de autoerotismo masoquista, representa uma tendência inata do ser humano em buscar prazer por meio da dor, vinculando-o à libido, à energia sexual. O masoquismo secundário, por outro lado, surge como uma forma de defesa contra o medo, quando o indivíduo internaliza a figura de autoridade como ameaça de castração.

Em O problema econômico do masoquismo (1924/2011), texto que em breve completa cem anos de sua publicação, Freud faz a distinção de três tipos de masoquismo: erógeno, moral e feminino. O masoquismo erógeno, mais próximo do masoquismo primário, envolve a busca de prazer através da dor, sendo manifestado em formas como a submissão sexual e o prazer oriundo da autopunição. O masoquismo moral, por sua vez, representa uma forma secundária que surge como defesa contra a angústia, expressando-se na autocrítica excessiva, na culpa e no sentimento constante de erro.

Já o masoquismo feminino, por sua vez, sendo um dos tipos de masoquismo secundário, está intrinsecamente relacionado ao medo da castração e se manifesta tanto em homens quanto em mulheres (FREUD, 1924/2011). Birman (1999BIRMAN, J. Cartografias do feminino. São Paulo: Editora 34, 1999.) associa o masoquismo feminino ao desamparo originário, destacando que ele pode assumir diversas formas, como a submissão ao parceiro sexual, a busca de parceiros abusivos e o prazer obtido através da dor física ou emocional como forma de expiar culpa ou vergonha. Esse masoquismo evidencia uma constante oscilação entre dor e prazer, amor e ódio, que se torna visível na literatura neiko-erótica contemporânea.

É nesse contexto que a literatura neiko-erótica contemporânea oferece um espaço para explorar e expressar as nuances dessa dinâmica, refletindo as proporções variáveis entre elementos masoquistas e sádicos na dinâmica dos relacionamentos. Isso está em consonância com as ideias de Freud (1920/2020) sobre o masoquismo e o sadismo como tendências universais na sexualidade humana. A relação entre o masoquismo feminino e a literatura neiko-erótica proporciona uma reflexão profunda sobre a ambivalência inerente ao amor e à sexualidade humanos, oferecendo valiosos insights para a compreensão da psicologia sexual e da criatividade literária na contemporaneidade.

Portanto, a complexidade do masoquismo feminino, tal como concebida por Freud, encontra eco na literatura neiko-erótica, que aborda de maneira sensível e provocativa as intricadas relações entre prazer, dor e submissão na contemporaneidade. Essa interseção entre psicanálise e literatura oferece uma visão aprofundada da sexualidade humana e da expressão artística, destacando, portanto, a contínua relevância das teorias freudianas no estudo da sexualidade e da criatividade literária.

Neiko-erótica: a literatura erótica contemporânea à luz da psicanálise freudiana

A partir dessa breve retomada do masoquismo, em especial do masoquismo feminino, podemos fazer uma leitura do eixo sombrio presente nas narrativas eróticas atuais que aponta para a expressão gráfica do caráter disruptivo próprio das relações, ou, melhor dizendo, da ambivalência teorizada pelo criador da psicanálise como sendo a característica fundamental do amor. Com efeito, o que estamos chamando de caráter disruptivo nada mais é que nossa escuta do jogo conflituoso das pulsões, que Freud (1920/2020) denominou de pulsão de vida e pulsão de morte. Acenamos, pois, para o fato de que esses traços disruptivos, apesar de terem se tornado comuns no contemporâneo, já podem ser encontrados em narrativas publicadas anteriormente com autoras como Pauline Réage e seu livro A história de O, de 1954.

Nesse conseguinte, chama a atenção o embaraço existente no sistema classificatório desse gênero literário. Um estudo proposto por Souza (2009), no intuito de analisar as classificações de obras da literatura erótica em sebos e na Fundação Biblioteca Nacional, explicita a dificuldade não só de se classificar obras desse gênero, mas também de se chegar a um consenso classificatório delas. Por exemplo, no tocante ao livro A história de O, mencionado acima, o Sindicato dos Editores de Livros o classifica como “Literatura Francesa”, em seus descritores, a ficha catalográfica faz menção à “ficção erótica francesa”, fato que não ocorre no catálogo online da Fundação Biblioteca Nacional, onde consta apenas o número de classificação da literatura francesa. Ademais, em diversos sebos, essa obra foi destinada a prateleiras que abrigam textos sobre sexualidade e, até mesmo, religião.

É fato que Sontag afirma que as experiências da obra francesa “não são pornográficas, só as imagens e as representações (estruturas da imaginação) o são” (SONTAG, 2015SONTAG, S. A imaginação pornográfica. In: SONTAG, S. A vontade radical: estilos. São Paulo: Companhia das Letras , 2015., p. 59), motivo pelo qual essa autora a classifica como uma metapornografia. Não se trata, aqui, de discutir qual seria a classificação correta dessas obras; esse assunto deixamos aos encargos da biblioteconomia. Trata-se, pois, de evidenciar, por meio de uma leitura-escuta (IRIBARRY, 2003IRIBARRY, I. N. O que é pesquisa psicanalítica? Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 6, n. 1, p. 115-138, 2003.), uma “falta de lugar”.

Ora, essa “falta de lugar” não parece sem razão e, também, não se aplica somente à história francesa acima descrita, mas a uma série de livros que, apesar de estarem no núcleo do que se configuraria como erótico ou pornográfico, restam à margem devido ao seu caráter disruptivo, no qual entra em cena, tanto algo da “dis-córdia” quanto da “con-córdia”. Essa constatação de uma falta de localização plena nos permite propor o termo neiko-erótica para estabelecer qual a posição que assumiremos em nossa investigação, na qual consideramos essencial colocar em relevo essa condição disruptiva que marca a possibilidade de uma destruição que se apresenta como criadora, no ponto em que sugere um saber-fazer com a pulsão de morte tão fundamental na obra freudiana.

É nesse sentido que Sontag afirma que “tal literatura é ao mesmo tempo uma invocação do erótico em seu sentido mais sombrio e, em certos casos, um exorcismo” (SONTAG, 2015SONTAG, S. A imaginação pornográfica. In: SONTAG, S. A vontade radical: estilos. São Paulo: Companhia das Letras , 2015., p. 69). Essa assertiva remete às palavras de Bataille, que inicia sua conhecida obra O erotismo com a seguinte frase: “Do erotismo, é possível dizer que é a aprovação da vida até na morte” (BATAILLE, 2021BATAILLE, G. O erotismo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021., p. 35). Logo, o erotismo batailleano parece ser uma forma de viver o extremo do possível no homem que, em Freud (1920/2020) expressa-se na pulsão de morte.

Retornando ao termo proposto - neiko-erótica - esclarecemos que Neikos (discórdia, ódio, litígio, contenda) corresponde a um termo utilizado por Empédocles de Agrigento, filósofo grego, para nomear uma das duas grandes forças responsáveis pelo devir cósmico, a outra, a saber, seria Philia (amor). Para o filósofo, “o cosmos é constituído de quatro substâncias - fogo, ar, terra e água - que permanecem sempre distintas, mas que se combinam em proporções variadas formando todas as coisas... sendo a mudança um mero rearranjo entre os elementos segundo a ação de duas forças motoras - o Amor e a Discórdia - concebidas como forças de união e de desunião entre os elementos” (GARCIA-ROZA, 1986, p. 83).

Garcia-Roza também chama a atenção para a semelhança entre “as doutrinas de Freud e Empédocles, relativa ao papel desempenhado pelas duas grandes forças responsáveis pelo devir cósmico: o Amor (Philia) e a Discórdia (Neikos) em Empédocles, e Eros e Tânatos em Freud” (GARCIA-ROZA, 1986GARCIA-ROZA, L. A. Acaso a repetição em psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986., p. 83), no ponto em que, para a proposta freudiana, essas forças se referem ao devir relativo ao conflito pulsional que elas promovem. Nessa comparação, a Philia estaria para a pulsão de vida, assim como Neikos para a pulsão de morte, Tânatos.

É nesse contexto que propomos, em nossa investigação, o termo “neiko-erótico” ou neikótico para designar um traço fundamental da literatura erótica contemporânea que precisa ser melhor identificado, visto que ganhou força de expressão em meados de 2011, com a publicação da trilogia conhecida como Cinquenta tons de cinza e, desde então, tem se tornado, cada vez mais, comum nas livrarias, bibliotecas, rodas de conversas, entre outros.

Com efeito, ressaltamos que parte de nossa pesquisa se propõe a poder nomear esse tipo de leitura que, tendo por base Freud e seu segundo dualismo pulsional, evidencia não ser possível confundir tais obras, exatamente, com a literatura erótica considerada clássica, visto que esse tipo de história faz menção clara a uma tensão irredutível entre Tânatos e Eros, entre Neikos e Philia; ou seja, existe ali, no desenrolar da trama, algo de uma certa disjunção, de uma discórdia, de uma inimizade que se faz necessária para que Eros aconteça. Poderíamos falar, inclusive, que as oscilações românticas decorrem das proporções entre um e outro.

Ademais, na psicanálise, a teorização dessa tensão não é incomum e já foi apresentada por Freud, no texto Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa (1912/2013), de modo a ressaltar que, de certa forma, a depreciação do outro é condição para que algo do erótico seja despertado. Nesses termos, o que propomos é que se possa pensar na “neiko-erótica” como um traço afluente da literatura erótica, mas que se distingue por apresentar um estilo próprio decorrente da expressão de uma fantasia masoquista feminina, no eixo de encenar a condição infantil do desamparo e da fragilidade e a sexualidade feminina como porta-voz das inúmeras saídas para se contornar essa condição.

Conforme já sinalizamos, a literatura neikótica ou neiko-erótica implica em uma sequência claramente disruptiva para com a literalidade sumamente erótica, uma vez que ambiciona descrever os elementos de uma tendência universal à depreciação na esfera de Eros. Trata-se de tematizar uma ambivalência irredutível em jogo na conjuntura erótica, destacando a estrutura pulsional tensiva, entre vida e morte, entre amor e ódio, entre a apreciação e depreciação, entre ser sujeito e objeto na cena fantasística. Cumpre reconhecer que, quando o erotismo se converte em gênero literário, o que chamamos de literatura neikótica se vê assimilada em seu interior sem que se especifique o singular de suas contradições internas na ocasião de sua assimilação.

Por consequência, talvez o mais indicado seria denominar esta especificidade de literatura neiko-erótica já que faz prevalecer o regime tensivo, por um lado, e, por outro, conserva seu caráter disruptivo. Pelo mérito de interromper a sequência genérica do erotismo literário, a literatura neiko-erótica interpõe um ponto de báscula que nos permite endossar as teses freudianas sobre o amor. É importante constatar que essas teses não são pontos de partida da teoria, ao contrário, são referentes ao crescente do labor clínico e seu correlato da investigação teórica de décadas. No entanto, não são teses simples; elas implicam o fundamental de nossa concepção civilizacional, visto que, de certa forma, desconstroem o ideal do amor romântico por lhe revelar o que lhe restava como fatalmente inconsciente, a saber, o jogo pulsional entre vida e morte. Dualidade que, em seu limite, anunciava a força do inédito freudiano em face a outros tantos teóricos do amor.

Em outras palavras, assim que o novo conflito pulsional se fez porta-voz do masoquismo erógeno, o sadismo deixou de ser originário e, consequentemente, o desamparo originário, que enreda a fantasia do masoquismo feminino, deixa de ser elemento estranho à esfera do amor. Nessa perspectiva, o sadismo perde sua inteligibilidade fora da tensão que compõe com seu par, reiterando a dimensão reflexiva do vetor pulsional que entrecruza a relação entre ser sujeito sendo objeto, entre ser apreciado ao ser depreciado, ou se identificar com o olhar sádico ao se dispor na perspectiva de uma posição masoquista. Nesse ponto, o masoquismo feminino se apresenta como um conceito fundamental, uma vez que admite considerar o que seria decisivamente infantil da sexualidade, a saber, o polimorfismo em jogo nas fantasias dos pequenos perversos.

A nosso ver, esse tipo de literatura rompe com a literalidade erótica comum, produzindo singularidades ao assumir uma outra perspectiva de expressão do feminino. Se concordarmos com Freud que o artista sempre está à frente, esse tipo de escrita parece tematizar não somente os impasses do masoquismo, já apontados na obra freudiana, mas também avanços no ponto em que evidencia um dos destinos possíveis da sexualidade feminina que parece apontar para algo da subjetividade contemporânea e que, não raro, escapa à ciência de nossa época.

Por esse viés, partindo do pressuposto de que o material clínico da psicanálise é a produção do sujeito, entendemos que a literatura erótica feminina contemporânea, seja enquanto escrita de si, seja enquanto escrita de um outro, permite à escritora traduzir em palavras algo da ordem de um tracejar próprio de afetos, sensações e fantasias. Nesse conseguinte, a partir da perda do pudor e ao aceitar o desafio do desconhecido, o feminino “emerge na literatura como travessia de si mesmo, paixão, morte e ressurreição” (NERI, 2005NERI, R. A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005., p. 231). Assim, o feminino se inscreve como obra e criação, como se torna possível perceber na leitura de Cinquenta tons de cinza e seus afluentes.

Considerações finais

Ao findar deste percurso que trilhamos associando psicanálise e literatura, pontuamos alguns avanços importantes para a temática investigada. O primeiro deles corresponde à identificação de um traço neiko-erótico da literatura erótica, visto que lemos nas literaturas eróticas contemporâneas o conflito pulsional, teorizado por Freud, como elemento fundamental de ligação ou de relação, no ponto em que essas tramas amorosas evidenciam o caráter disruptivo necessário para que a relação amorosa floresça.

Dessa forma, poderíamos sugerir que, para além da erótica (ligação), há um neikos (discórdia). Melhor dizendo: para que a erótica se valha como tal é necessário antes a presença de um elemento disruptivo, discordante, que poderia ser pensado como uma pequena morte que associamos ao neikos. Não sem razão, Bataille afirma que “o erotismo dos corpos tem de qualquer maneira algo de pesado, de sinistro. Ele guarda a descontinuidade individual” (BATAILLE, 2021BATAILLE, G. O erotismo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021., p. 15). Nossa proposição, portanto, sustenta a importância de não se desconsiderar essa descontinuidade, uma vez que ela seria mais fundamental que a própria erótica.

O segundo avanço se configura enquanto uma suposição de que, para pensarmos o masoquismo feminino, próprio desse tipo de literatura, seria importante considerar uma retração de Eros que faz avançar Tânatos, como propõe Quinet (2006QUINET, A. Psicose e laço social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.). Dito de outro modo, muito provável, assim como Lacan se debruçou por sobre a teoria do narcisismo para reorganizar ou colocar em novos termos a teoria freudiana para uma teoria da psicose, talvez fosse necessário um certo recuo metodológico para que pudéssemos entender o modo de relação que essa literatura neiko-erótica propõe, na qual o masoquismo se apresenta como uma forma de explicação da relação de fantasia da mulher com seu objeto de relação. Aqui, conjecturamos que talvez esse recuo fosse melhor compreendido ao se levar em consideração a dinâmica de investimento referente ao autoerotismo mais que ao narcisismo, visto que o masoquismo para Freud, após 1924, parece propor, desde suas bases, um movimento de retorno ao tempo “auto” que as teorizações do amor narcísico parecem não ser suficientes para acomodar.

Nessa linha de raciocínio, finalizamos este artigo com uma reflexão sobre os limites de nossa investigação. Embora tenhamos abordado a relação entre a literatura neiko-erótica e o masoquismo feminino em Freud, ainda há muito a ser explorado sobre o autoerotismo na psicanálise freudiana e sua possível relação com a literatura neiko-erótica. Este estudo pode ser um ponto de partida para pesquisas futuras que busquem compreender melhor a sexualidade feminina na literatura erótica. Além disso, esta escrita pode se tornar relevante no contexto acadêmico e clínico, pois oferece novas perspectivas para o estudo da psicanálise e da literatura.

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    Financiamento: o presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Nov 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    25 Jan 2022
  • Aceito
    16 Out 2023
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