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Informações econômicas e ilusão: uma contribuição psicanalítica ao estudo de fenômenos econômicos

Economic information and illusion: a psychoanalytic contribution to the study of economic phenomena

Vera Rita de Mello Ferreira Sobre o autor

Resumos

Analisam-se aspectos da situação econômica brasileira de abril/2002 a maio/2003, da campanha presidencial, com intensas turbulências, ao grande otimismo nos primeiros meses do governo Lula. Manchetes de jornal e indicadores econômicos são examinados à luz da teoria do pensar, introduzindo-se também a psicologia econômica. Questiona-se a objetividade das informações econômicas veiculadas pela mídia e seu poder de influência sobre a percepção de risco imediato, em detrimento do desempenho econômico real. Tais inconsistências são discutidas com base nas concepções psicanalíticas sobre emoções presentes na percepção e interpretação dos fenômenos socioeconômicos, devido à sua importância para o comportamento econômico.

Confiança; comportamento econômico; funcionamento mental; instabilidade; psicologia econômica


The article analyses the Brazilian economic situation from April, 2002 to May, 2003, from intense turbulence around the presidential campaign to optimism with the beginning of Lula government. Newspaper headlines and economic indexes are examined in the light of the theory of thinking, also introducing Economic Psychology. Objectivity of economic information and its influence over indexes associated to immediate risk perception, disregarding actual economic performance, are debated. Such inconsistencies are discussed using psychoanalytical conceptions about emotions at work over perception and interpretation of socio-economic phenomena, due to the importance of information over economic behavior.

Confidence; economic behavior; economic psychology; instability; mental functioning


ARTIGOS

Informações econômicas e ilusão — uma contribuição psicanalítica ao estudo de fenômenos econômicos1 1 Uma versão inicial deste trabalho foi apresentada no XXVIII Iarep Congress, de psicologia econômica, em Christchurch, Nova Zelândia, em 2003.

Economic information and illusion — a psychoanalytic contribution to the study of economic phenomena

Vera Rita de Mello Ferreira

Psicanalista (Sedes Sapientiae); doutora (PUC-SP) e mestre (USP) em Psicologia Social; professora do curso Psicanálise e Psicologia Econômica (Cogeae-PUC-SP); representante no Brasil da Iarep (International Association for Research in Economic Psychology). erarita@verarita.psc.br

RESUMO

Analisam-se aspectos da situação econômica brasileira de abril/2002 a maio/2003, da campanha presidencial, com intensas turbulências, ao grande otimismo nos primeiros meses do governo Lula. Manchetes de jornal e indicadores econômicos são examinados à luz da teoria do pensar, introduzindo-se também a psicologia econômica. Questiona-se a objetividade das informações econômicas veiculadas pela mídia e seu poder de influência sobre a percepção de risco imediato, em detrimento do desempenho econômico real. Tais inconsistências são discutidas com base nas concepções psicanalíticas sobre emoções presentes na percepção e interpretação dos fenômenos socioeconômicos, devido à sua importância para o comportamento econômico.

Palavras-chave: Confiança, comportamento econômico, funcionamento mental, instabilidade, psicologia econômica.

ABSTRACT

The article analyses the Brazilian economic situation from April, 2002 to May, 2003, from intense turbulence around the presidential campaign to optimism with the beginning of Lula government. Newspaper headlines and economic indexes are examined in the light of the theory of thinking, also introducing Economic Psychology. Objectivity of economic information and its influence over indexes associated to immediate risk perception, disregarding actual economic performance, are debated. Such inconsistencies are discussed using psychoanalytical conceptions about emotions at work over perception and interpretation of socio-economic phenomena, due to the importance of information over economic behavior.

Keywords: Confidence, economic behavior, economic psychology, instability, mental functioning.

"O problema psicanalítico é o problema do desenvolvimento entre continente e contido, repetida no indivíduo, no par e, finalmente, no grupo (intra e extrapsiquicamente)."

(BION, 1970/1973, p.18)

INTRODUÇÃO

Embora a psicanálise estude preferencialmente os fenômenos psíquicos manifestados na experiência emocional observada na prática clínica, desde Freud encontramos referências a questões sociais mais amplas (FREUD, 1921, 1927, 1930/1976). Com relação à economia propriamente dita, o autor já fazia, em 1933/1976, uma instigante afirmação:

"O fato inquestionável de que indivíduos, raças e nações diferentes se conduzem de forma diferente, sob as mesmas condições econômicas, por si só é bastante para mostrar que os motivos econômicos não são os únicos fatores dominantes. É completamente incompreensível como os fatores psicológicos podem ser desprezados, ali onde o que está em questão são as reações dos seres humanos vivos; pois não só essas reações concorreram para o estabelecimento das condições econômicas, mas até mesmo apenas sob o domínio dessas condições é que os homens conseguem pôr em execução seus impulsos instintuais originais — seu instinto de autopreservação, sua agressividade, sua necessidade de serem amados, sua tendência a obter prazer e evitar desprazer." (p.216)

A janela epistemológica representada por um exame dos principais eventos políticos e econômicos entre abril de 2002 e maio de 2003, com a ajuda de idéias de Freud, Klein e Bion, pode oferecer uma oportunidade para iluminar de maneira especial fenômenos que ocorrem na fronteira entre o campo psíquico e a economia. Embora este estudo não pretenda se filiar à Economia em senso estrito, é nosso objetivo oferecer uma contribuição à discussão de temas relevantes dessa área, a partir de um vértice psicanalítico, partindo-se da hipótese de que fenômenos econômicos podem ser estudados de maneira mais completa quando examinados por um ângulo que considera o mundo mental de todos os envolvidos.

Metodologicamente,2 2 Algumas pesquisas recentes utilizam métodos aproximadamente semelhantes, no que diz respeito ao uso de notícias da mídia para realizar análises de temas relativos à economia, como em Anversa, 2004 e Rosa, Enrietto, & Goiosa, 2005, que focalizam o mercado financeiro, e Prado et al., 2005 (em andamento), que trata de temas mais amplos, nos quais a economia se encontra incluída. foram adotadas as seguintes etapas para a realização deste trabalho: coleta de manchetes do jornal O Estado de S. Paulo3 3 Retiradas da primeira página ou do caderno de economia, independentemente de tratar-se de matérias assinadas ou não. Não sendo objeto deste trabalho a análise de vieses ideológicos deste veículo (Oesp), presentes, como é sempre o caso, em manifestações da cultura humana, fica a critério do leitor considerar este aspecto, uma vez informado da procedência do material, conforme indicada aqui. sobre resultados de pesquisas eleitorais, avaliações e previsões econômicas, declarações de autoridades políticas e econômicas; cotejamento destas notícias com indicadores referentes à dimensão mais volátil da economia — taxas de câmbio (dólar), inflação e juros básicos, índice Bovespa e risco Brasil —, obtidos em institutos especializados (FGV, IBGE e FIPE); discussão de algumas condições que caracterizam nossa época, do ponto de vista social, político, econômico e tecnológico; breve apresentação do campo da Psicologia Econômica, que estuda especificamente o comportamento econômico; análise dos dados à luz de teorias psicanalíticas.

A QUESTÃO E SEU CONTEXTO

Em 2002, quando o Brasil teve sua campanha para a eleição presidencial com Luiz Inácio Lula da Silva, José Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho como principais candidatos, os índices econômicos no início do ano apontavam para um desempenho razoável — em abril de 2002 tínhamos o dólar a R$ 2,30, a inflação abaixo de 1% ao mês, a taxa de juros em 19%, o índice Bovespa com 13 mil pontos e o risco Brasil na faixa de 700 pontos. No entanto, os meses seguintes apresentaram intensa turbulência na área econômica. Em outubro, quando as eleições ocorreram, tínhamos: dólar a R$ 3,90; inflação a 1,57% ao mês; taxa de juros a 21%; índice Bovespa a 8 mil pontos; risco Brasil com 2.500 pontos. Ou seja, o cenário havia se tornado muito sombrio.

Contudo, não foram verificadas alterações significativas no desempenho real dos chamados fundamentos da economia nesse período, aqueles considerados na perspectiva mais a longo prazo, o que nos permitiria, em tese, esperar um quadro menos pessimista. Foi também intrigante observar que, após o resultado aparentemente mais temido pelo mercado financeiro e, também aparentemente, responsável por esse mau desempenho verificado até outubro — a confirmação da vitória de Lula —, aqueles índices econômicos voltassem a apresentar sinais de recuperação crescente. Mais uma vez, não havia ocorrido mudanças significativas — e concretas — nos fundamentos econômicos. E em maio de 2003, no quinto mês do novo governo, o risco Brasil havia retornado ao patamar de um ano antes com 700 pontos, enquanto os outros índices analisados apresentavam melhora em relação a outubro/2002: dólar a R$ 3,00; inflação a 1,5% ao mês; taxa de juros a 26%; índice Bovespa com 10 mil pontos. No Quadro 1 podemos visualizar com maior clareza as oscilações mencionadas.


O que poderia ter provocado tamanhas reviravoltas? Podemos supor que haja, para além dos fatores evidentemente econômicos e políticos, outros que operariam no âmbito da subjetividade?

ARTICULAÇÕES ENTRE ATUALIDADE E MUNDO PSÍQUICO

A profunda revolução que vem ocorrendo nas últimas décadas no campo da informação (HUTTON & GIDDENS, 2000), com o crescente aumento do volume e velocidade de dados em circulação, contribui de maneira fundamental para fenômenos como a globalização, a qual depende de transações econômicas on line, além da própria disseminação de idéias, conceitos e tendências, com reflexos em todas as áreas da vida e do planeta. Ao mesmo tempo, tradições cedem lugar a novas ordens (GIDDENS, BECK & LASH, 1995/1997), em geral provisórias — freqüentemente imprevisíveis —, com enfraquecimento de numerosas instituições, como, por exemplo, o governo, na dimensão internacional, ao lado do fortalecimento de outras, como a mídia e a entidade que recebe o nome quase cabalístico de mercado. Neste cenário de fragilidade, a confiança ganha importância, ao mesmo tempo que especialistas ocupam o lugar antes designado aos sábios ou anciãos. Conhecer e estabelecer o que é verdadeiro torna-se mais difícil num mundo desprovido de normas fixas, claras e duradouras. Conseqüentemente, tomar decisões dentro destas circunstâncias também envolve maior complexidade.

No que diz respeito às informações e decisões econômicas, destacamos a alta velocidade e o enorme volume de dados sobre economia e política circulando no mundo, hoje. Como resultado, torna-se possível — e fácil — investir ou retirar importâncias de grande magnitude em segundos, o que vem aumentando a vulnerabilidade dos países aos chamados ataques especulativos, que podem ser realizados até mesmo por investidores quase individualmente, pondo em risco a estabilidade de países inteiros e prejudicando, no longo prazo, suas economias (HUTTON & GIDDENS, 2000). Vimos situações como estas no Leste Asiático, em 1997, na Rússia, em 1998, no próprio Brasil, em 1999, com a brusca desvalorização do Real, e no período que estamos analisando.

Este arisco capital de risco tornou-se parte do cenário econômico mundial. Tal velocidade atua, assim, como uma pressão externa, levando o mercado a reagir a todas essas informações e a produzir novos dados, sob a forma de avaliações ou previsões que, junto às pressões internas que teriam origem na situação de incerteza em que nos encontramos todos, desembocaria na utilização de operações mentais mais rápidas, porém, menos precisas, muito influenciadas por sentimentos primitivos de desamparo e medo, com uma desproporcional aversão a riscos. Poderíamos dizer que se trata de operações quase emergenciais, desencadeadas na urgência de responder de forma imediata aos acontecimentos e suas pistas — muitas vezes, tênues. Em face de tal cenário emocional, podemos esperar que surjam manifestações de onipotência, arrogância e suscetibilidade ao contágio, sempre presididas pela premência de recorrer a ilusões para dar conta de tantas exigências. Por outro lado, a reconstrução do que foi derrubado pelas avaliações precipitadas demanda outro ritmo, decerto muito mais lento e sem garantias de uma completa recuperação. O risco país, por exemplo, disparou em cerca de dois a cinco meses, mas levou mais de um ano para voltar a baixar, verificando-se situação equivalente em outros setores da economia, como o valor do dólar, inflação e juros, por exemplo.

MUNDO PSÍQUICO - PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ECONÔMICA

Uma abordagem interdisciplinar dos fenômenos econômicos, reunindo psicologia e economia, não é novidade. Propostas explícitas nesse sentido vêm sendo debatidas pelo menos desde o século XIX na Europa (VAN RAAIJ, 1999), a princípio por parte de economistas e pensadores sociais e, mais tarde, por alguns psicólogos (WÄRNERYD, 2005a, 2005b; FERREIRA, 2004, 2005b). A importância desse campo vem crescendo dentro da academia, instituições e, em alguns casos, nas próprias políticas econômicas de alguns países, como Austrália e Nova Zelândia.5 5 Menção ao fato durante a reunião de representantes de países da Iarep, XXX International Association for Research in Economic Psychology Annual Colloquium — Absurdity in the Economy. Praga, República Tcheca, 2005.

A psicologia econômica, como é chamada, ou economia comportamental, quando parte da iniciativa de economistas, encontra-se estabelecida hoje na Europa e América do Norte. Em 1978 e 2002 estudiosos do campo receberam o Prêmio Nobel de Economia por suas pesquisas.6 6 Herbert Simon (1978) e Daniel Kahneman (2002). Alguns países de língua espanhola na América Latina também têm abrigado pesquisas nessa área (CRUZ, 2001), que começa a ser constituída no Brasil.7 7 Em 1991 foi realizado, na Universidade Federal Fluminense, um seminário interdisciplinar pioneiro no nosso país sobre inflação e seu impacto na vida cotidiana, que contou com a participação de economistas, psicanalistas, sociólogos e outros pesquisadores, posteriormente publicado (VIEIRA et al., 1993). Desde então, tem havido algumas outras iniciativas e o início da produção de dissertações e teses dentro dessa área (cf. FERREIRA, 2006). O objeto de estudo da disciplina é o comportamento econômico dos indivíduos — de que forma a economia os influencia e como os indivíduos, com todos os seus componentes psicológicos e sociais, influenciam a economia. Seu grande questionamento e discordância em relação à economia tradicional referem-se à teoria da racionalidade proposta por esta, a qual postula um funcionamento sempre racional dos agentes econômicos — desde que possuam todas as informações necessárias — em suas decisões econômicas, o que levaria a um equilíbrio quase constante do mercado (LEA, TARPY & WEBLEY, 1987).

Uma vez que a psicologia econômica recorre, de hábito, a métodos experimentais e pesquisas quantitativas para obter seus dados mediante situações de laboratório ou amplos levantamentos junto à população, acreditamos que poderemos agregar uma nova perspectiva a este tipo de estudo se dirigirmos nossa investigação para o vértice emocional, conforme propõe a psicanálise (FERREIRA, 2005a).

Assim, o mercado não seria visto da forma que vem sendo disseminada pela mídia e em publicações dentro do campo da economia — quase como uma entidade em si mesma, com identidade, autonomia e vida própria. Ele é constituído por pessoas e esta condição jamais poderá ser esquecida ou negligenciada. Conseqüentemente, não nos surpreenderemos ao encontrar nos movimentos do mercado operações mentais similares às que encontramos nos indivíduos, acrescido aqui o fato de se tratar de um conjunto de pessoas, agindo de modo coletivo. Esta é uma das nossas hipóteses.

Uma outra, que complementa a anterior, diz respeito ao fato de que, além de identificar os elementos da vida psíquica nos agentes econômicos, que são todos que participam da economia, fatores emocionais estariam também presentes no funcionamento mental dos analistas e autoridades políticas e econômicas que se pronunciam sobre o assunto — naturalmente, ao lado das condições externas da atualidade, já mencionadas. Estes fatores costumam ser deixados de lado pelas análises empreendidas pela economia tradicional.

A respeito do funcionamento mental, a psicanálise aponta para a simultaneidade da presença de aspectos primitivos e de outros, mais desenvolvidos, na mente humana, com predominância dos primeiros (FREUD, 1911, 1921/1976; KLEIN, 1963; BION, 1957/1967, 1970/1973). Desamparo, precariedade e limitações caracterizariam nosso funcionamento psíquico, ao passo que o contato com a realidade e a condição para pensar ocorreriam mais raramente. Viver num período igualmente cheio de incerteza como o atual ofereceria ainda menos segurança também do ponto de vista externo, aumentando, assim, nossa vulnerabilidade à tentação da ilusão.

Tomamos o conceito de ilusão na acepção que lhe dá Freud:

"Podemos, portanto, chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação." (1927/1976, p.44)

A ilusão pode criar outra realidade no lugar do que existe — e que costuma apresentar restrições internas e externas geradoras de frustração e sofrimento —, uma vez que a realidade se caracteriza por não ser constituída pela realização plena de nossos desejos. Uma saída comumente adotada para esse desprazer costuma ser negar aquilo que provoca dor psíquica, caso o verdadeiro causador daquela dor não possa ser removido.

Quanto à noção de realidade, consideramos seus diferentes níveis conforme postulado por Eva, Vilardo & Kubo (1995): o externo, que é compartilhado pela coletividade, captado pelos sentidos e composto de elementos mais objetivos; o interno, constituído fundamentalmente pelos conteúdos inconscientes; o psíquico, resultado da interação entre os anteriores. Os dois últimos níveis remetem à subjetividade, com marcantes diferenças individuais e, conforme Bion (1965), não há apreensão da realidade inteiramente isenta de transformações, embora o desenvolvimento psíquico possa permitir maior precisão nesse processo.

Rezze (1994) também enfatiza a relação de ódio à realidade psíquica que podemos estabelecer em função da frustração que esta nos provoca. Ao mesmo tempo, é a dimensão emocional, interna, que poderá pôr em movimento — ou paralisar — situações na realidade externa. A articulação entre estes níveis se dá de forma dialética, por meio de introjeção e projeção, que promoverão a construção de representações pessoais tanto do mundo interno como do externo (HEIMANN, 1982). Somos muito influenciados pelas experiências emocionais primitivas, sempre presentes na apreciação que fazemos da realidade (KLEIN, 1963/1985).

Quando nos referimos a funcionamento primitivo, temos em mente as considerações de Freud (1911/1976), Klein (1934/1981, 1946/1982) e Bion (1961/1967, 1962/1984) a respeito das disposições básicas que regem as operações mentais e o conseqüente aparecimento do pensar quando uma evolução é possível. Para Freud (1911/1976), princípio do prazer e princípio da realidade regeriam nossa vida mental, com o mesmo objetivo — reduzir a tensão interna ao afastar o desprazer e buscar gratificação —, embora radicalmente diferentes na maneira de perseguir esta meta. O funcionamento de acordo com o princípio do prazer propicia o uso da repressão, ou recalque, para manter o que é desagradável longe da consciência, já que nem sempre se pode manter distância dos estímulos que incomodam, em especial quando se trata daqueles originários de dentro de si — os impulsos. Para livrar-se dessa tensão de modo imediato e rudimentar, recorre-se a repressão, ilusões, alucinações e descarga motora impulsiva.

Por outro lado, o funcionamento sob o princípio da realidade requer capacidades complexas, que começam com a percepção mais apurada e associada à consciência, ao lado da atenção voltada aos acontecimentos externos e internos, com registro, na memória, de todos esses elementos, de modo a permitir o chamado teste de realidade. Esta avaliação imparcial8 8 Nas palavras de Freud: "A consciência aprendeu então a abranger qualidades sensórias, em acréscimo às qualidades de prazer e desprazer que até então lhe haviam exclusivamente interessado. (...) O lugar da repressão, que excluía da catexia como produtoras de desprazer algumas das idéias emergentes, foi assumido por uma passagem de julgamento imparcial, que tinha de decidir se determinada idéia era verdadeira ou falsa — isto é, se se achava ou não em concordância com a realidade —, decisão que era determinada efetuando-se uma comparação com traços de memória da realidade." (1911/1976, p.280, em itálico no original). substituiria o julgamento tendencioso característico do princípio do prazer, que postula como real apenas aquilo que gratifica de modo imediato, desprezando o que não atende a este requisito (FREUD, 1911/1976). Contudo, é o estado de privação e falta que permitirá simbolização (KLEIN, 1930/1981) e aparecimento de pensamentos (BION, 1961/1967, 1962/1984). Quando há frustração — e, muito especialmente, quando há possibilidade de suportar tal frustração — é que pode surgir algum pensamento, retomando o objetivo original de transformar a situação insatisfatória. O percurso desta ação, porém, terá sido ponderado e escolhido, a partir das circunstâncias reais, com maiores chances de satisfação efetiva e crescimento psíquico.

Klein (1930/1981,1952/1982), retoma estas idéias em sua teoria das posições que podem estar presentes na vida psíquica — posição esquizo-paranóide (1946/1982) e posição depressiva (1934/1981) —, postulando a existência de mecanismos mais primitivos no primeiro caso e destacando a possibilidade de simbolizar, entrar em contato com a realidade e pensar, no segundo caso. A posição esquizo-paranóide seria marcada por uma angústia de tipo persecutório e pelo uso massivo de mecanismos de defesa rudimentares e "truculentos", já que seu modo tosco de operar implica desrespeito à delicadeza e às sutilezas da vida mental — o que está colocado aqui é a urgência da sobrevivência imediata, não necessariamente o desenvolvimento. As relações com os objetos internos e externos são parciais e submetidas a fantasmas que distorcem sua realidade, com exagero, idealização, onipotência, cisão e identificação projetiva (KLEIN, 1946/1982; JOSEPH, 1991).

Para haver desenvolvimento, este tipo de funcionamento tem que ceder lugar àquele associado à posição depressiva, que envolve uma angústia depressiva em função da percepção que se possa ter das perdas sofridas e, mais importante, infligidas. A pessoa se dá conta também de seu aspecto destrutivo, uma vez que pode ter uma consciência mais integrada de sua realidade — e por possuir agora mais condições para tolerar esta consciência, mediante um ego mais fortalecido. Tem, então, a oportunidade de se responsabilizar pelos estragos promovidos pela violência e agressividade que todos temos, e poderá tentar "consertá-los", o que propicia o aparecimento do sentimento de confiança em si e no mundo por meio de movimentos de construção. As relações objetais podem ser mais completas e reais, com as defesas, mais brandas do que na posição anterior, expressando a revolta contra a percepção de que as coisas não são como se desejaria (1934/1981, 1952/1982).

Para Bion (1961/1967), o pensar depende em grande parte da capacidade de tolerar frustrações. Se, ao invés de poder conter os sentimentos desconfortáveis provocados por elas, forem empregados recursos como a repressão, a ilusão e a identificação projetiva, os pensamentos não poderão ser alcançados (1952/1970, 1961/1967).

GRUPOS E INFORMAÇÕES ECONÔMICAS

No que diz respeito a situações coletivas, encontramos teorias psicanalíticas que afirmam que, quando se encontram em grupos grandes, os indivíduos tendem a exacerbar seu funcionamento mais primitivo, sustentado pela dificuldade de suportar seu desamparo, sentindo, assim, necessidade ainda mais dramática de acreditar em ilusões que prometam aliviar o desconforto que se imporia caso o contato com a realidade se mantivesse (FREUD, 1921/1976; BION, 1952/1970, 1970/1973).

No caso que examinamos, pensamos que todos os envolvidos — analistas, autoridades e população — teriam sofrido intensas pressões externas e internas, conforme descritas antes, vindo a apresentar, por isso, falhas importantes em sua apreciação do quadro econômico. Esta hipótese vale tanto para os ataques, quanto para o enaltecimento, ambos aparentemente precipitados e pouco rigorosos no que concerne ao suporte das evidências.

O uso de vários termos com conotação emocional para descrever o cenário econômico nas manchetes coletadas, tais como "tensão no mercado testa o Banco Central novamente" (12/6/2002); "nervosismo no mercado" (23/7/2002); "[receio de que o dólar pudesse romper a] barreira psicológica" e "alterações de humor no mercado financeiro" (23/9/2002); "confiança reduz o risco país" (2/42003); "euforia no mercado" (6/4/2003); "crise de confiança em relação a um Lula imaginário" (28/4/2003) já nos chama a atenção para a presença de emoções no âmbito da economia, diferentemente do que é alegado por economistas tradicionais, que defendem a razão e a objetividade em sua área.

Para acompanhar as oscilações que caracterizaram esse período começamos em 4 de abril de 2002, quando a agência Morgan Stanley reduz a avaliação positiva do país, tendência que não tarda a ser seguida por outras instituições ao longo das semanas e meses seguintes, levando os papéis brasileiros, já em junho, ao seu nível mais baixo desde o período posterior aos atentados de setembro de 2001, continuando a cair depois disso. Muitas vezes, diversas previsões e rumores catastróficos eram veiculados e, logo após, acabavam confirmados sob a forma de novas reduções, como exemplos de profecia auto-realizadora.

No terreno das previsões — não confirmadas — tivemos, por exemplo, em 5 de agosto de 2002, o jornal norte-americano The New York Times afirmando que poderia haver uma evasão de divisas em massa do país, independentemente de quem vencesse as eleições; a aposta dos bancos de que o dólar chegaria a R$ 3,20 em 2003 (23/9/2002); o editorial do jornal inglês Financial Times, de 15 de outubro de 2002, prevendo um aprofundamento ainda maior da crise caso Lula vencesse as eleições, já que não se acreditava, de modo geral, que ele teria capacidade para administrar a economia — e aqui se vai mais longe, enumerando tudo que aconteceria, de seu ponto de vista: moratória no pagamento da dívida externa; aumento dos gastos públicos; alta acentuada na taxa de juros; grande desvalorização cambial; perda da confiança internacional; situação de insolvência geral desde aquele momento.9 9 Estas notícias foram também reproduzidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, como as demais apresentadas ao longo do artigo. As previsões não se confirmaram dentro do período estipulado; porém, tiveram efeitos devastadores sobre o cenário econômico imediato no que diz respeito à dimensão mais volátil de nossa economia, como costuma ser o caso de previsões pessimistas sobre situações envolvendo fragilidade — e a fragilidade está sempre presente nas questões humanas. Do ponto de vista da psicologia econômica, qualquer tentativa de previsão econômica a longo prazo fica inviabilizada pelo princípio da reflexividade, que postula que a própria observação dos fenômenos já os modifica. Dessa forma, no momento em que um economista prevê que os juros cairão e, portanto, faz suas aplicações levando em conta esta variável, enquanto outros observam e seguem seus movimentos, exatamente por esta razão os juros podem deixar de cair, uma vez que o cenário já não será o mesmo daquele observado originalmente, e sobre o qual a previsão inicial terá sido feita (LEA, 2000).

As declarações do então secretário do Tesouro dos EUA, Paul O'Neill, merecem um parágrafo à parte. Em 21 de junho de 2002, a respeito da possibilidade de nova ajuda do FMI ao Brasil, ele afirma não achar muito inteligente jogar o dinheiro dos contribuintes de seu país na incerteza política brasileira. Além de ser considerado um incidente diplomático, suas palavras provocaram turbulência imediata no mercado brasileiro e tiveram que ser corrigidas por ele pouco depois, resultando também no anúncio subseqüente de que o FMI emprestaria US$ 10 bilhões ao Brasil. Já em 28 de julho de 2002, O'Neill diz que Brasil, Argentina e Uruguai deveriam garantir que ajudas daquele tipo não fossem parar em contas bancárias na Suíça, causando novas convulsões em todos os setores do país. No dia seguinte, ainda desmentiu que o FMI fosse oferecer nova ajuda ao Brasil, contribuindo para mais quedas no mercado.

Entre julho e agosto, a turbulência prevalece, com ligações diretas entre boatos e declarações de candidatos de um lado e, de outro lado, manifestações de pânico, por parte do mercado, conforme a manchete de 23 de julho de 2002: "a bolsa cai 6,53% [o índice mais baixo desde agosto de 1999] e o dólar bate o recorde de alta para o Real" [já estava 25% mais caro no ano], atribuindo o fato à instabilidade de mercados estrangeiros e a boatos sobre uma subida de Ciro Gomes nas pesquisas, com declínio de Serra. Uma declaração de Ciro Gomes sobre sua intenção de "parar com a farra" das contas estrangeiras de não-residentes também agrava o quadro, com previsão de fuga de cerca de US$ 1,5 bilhão naquele mês, por meio dessas mesmas contas.

Em 23 de setembro de 2002, a discussão — "as constantes alterações no humor do mercado financeiro nos últimos meses indicam haver um forte fator emocional na avaliação dos números reais da Economia. Para acompanhar o desempenho econômico, o mercado estabelece metas, muitas das quais imaginárias, outras reais, para os indicadores da Economia. A expectativa em torno de um evento cria assim uma impressão mais forte no mercado do que o evento em si. Como resultado, uma crise de confiança se abateu inesperadamente sobre o governo brasileiro desde o início do ano, e se alimenta das barreiras imaginárias que funcionam como um gatilho para a crise atingir proporções cada vez maiores" — nos faz imaginar um psicanalista ditando a notícia! No mesmo dia, o então ministro da Economia Pedro Malan procura desmentir aquele raciocínio: "Nunca acreditei nessa questão psicológica".

Então, uma nova reviravolta tem início. Antes mesmo da realização do segundo turno das eleições, e com Lula já considerado o favorito inconteste, as análises econômicas começam a ganhar um tom oposto ao que havia dominado a mídia até então. Em 18 de outubro de 2002, Antonio Palocci, então coordenador do programa de governo do PT, anuncia que seu partido pretende fazer todos os esforços fiscais necessários a fim de manter as contas públicas em equilíbrio, caso Lula vença as eleições. Ao mesmo tempo, o diretor do FMI, Anoop Singh, afirma que os mercados estão reagindo de forma exagerada ao Brasil e diz confiar no Banco Central do país, já que seus fundamentos econômicos são sólidos, com o fortalecimento também das instituições financeiras nos últimos anos. Nesse mesmo dia, é noticiada a alta dos papéis brasileiros no mercado externo.

Depois da posse de Lula, a bonança se instala — pelo menos na mente dos analistas e autoridades, já que na economia real o quadro não apresenta progresso significativo. Em 17 de janeiro de 2003, Morgan e Stanley elevam a avaliação do país, sendo aos poucos, de novo, seguida por outras agências; a manchete de 1º de março de 2003 anuncia que os analistas econômicos fazem um mea culpa por terem reduzido a recomendação sobre os papéis brasileiros, demonstrando agora confiança na política econômica do país; em seguida, os bancos também elevam sua avaliação nesse sentido. Em 2 de fevereiro, as manchetes anunciam "o melhor resultado da balança comercial desde 1993", com o "otimismo contaminando o dólar" e como a "confiança derruba o risco para 989 pontos", comentando que a "barreira psicológica dos 1.000 pontos" teria sido, assim, quebrada, o que Palocci atribui à credibilidade de Lula — em outras palavras, a um sentido psicológico, mais do que financeiro.

Em 6 de abril, a manchete é "euforia no mercado não chega a entusiasmar a economia real", citando o fraco crescimento do PIB, taxas de desemprego ainda altas e nenhum sinal de recuperação salarial — mas analistas comentam que esta distância deveria ser ultrapassada em breve, previsão que tampouco chegou a se materializar.

Manchetes de três outras datas de abril, porém, reforçam o tom de confiança: "otimismo com o Brasil derruba o risco país", acompanhada dos elogios de diretores do FMI e do Banco Mundial à política econômica do governo do PT (14/4/2003); menção à turbulência do ano anterior, considerada "um teste" para o país, que demonstrara firmeza e, portanto, "está claro que o governo não vai declarar a moratória", enquanto Palocci, em meio a uma atmosfera de otimismo, apela aos investidores e analistas: "confiem no Brasil" (16/4/2003); e "o otimismo 'cauteloso' em relação ao Brasil, que já prevalecia entre analistas estrangeiros desde as primeiras semanas do ano, começam agora a dar lugar a apostas mais ambiciosas sobre as perspectivas do país. Bancos e fundos de investimento estrangeiros, quase em consenso, prevêem que o risco país continuará a cair nas próximas semanas" e "na base deste sentimento favorável, nós temos confiança crescente que o governo de Lula será capaz de realizar sua agenda de reformas" (18/4/2003). No final de abril, as notícias indicam a maior queda do dólar nos últimos oito meses (24/4/2003), observando que aquela moeda não cessara de subir desde o empréstimo do FMI, no valor de US$ 30 bilhões, em agosto de 2002 — o que pareceria contrariar a "lógica" clássica da oferta e da procura. Em 28 de abril, "o risco de Lula cai e se aproxima do de FHC", com o comentário de que o país não teria passado impunemente pela crise de confiança em relação a um "Lula imaginário". Logo depois (30/4/2003), o diretor do FMI, Horst Köhler, elogia o Brasil pelas "medidas corajosas" que havia tomado em 2002, incluindo o grande empréstimo mencionado, bem como ambas as administrações, FHC e Lula, afirmando que o país "merece a confiança" da instituição. No mesmo dia, uma agência de avaliação de risco de investimento, Standard and Poor's, eleva a nota do Brasil.

Duas manchetes chamam a atenção em 3 de maio de 2003 — "Brasil é o mercado favorito dos analistas" e "do inferno ao céu", sobre a inversão das críticas anteriores, agora transformadas em elogios, à medida que o risco cai para 776 pontos. No dia seguinte, o diretor do Banco Mundial, Vinod Thomas, afirma que a instituição está encantada com "a combinação de responsabilidade macroeconômica e urgência social pregada pelo novo presidente do Brasil". Em 7 de maio, o Financial Times, o mesmo jornal que havia feito vaticínios catastróficos poucos meses antes (cf. 15/10/2002), louva, agora, a mesma administração, que considerara tão ameaçadora, acrescentando que nem o otimista mais ingênuo teria podido esperar um retorno tão rápido e bem-sucedido do Brasil aos mercados internacionais.

E nós poderíamos perguntar ao jornal — será que um realista que tivesse efetivamente analisado as condições do país poderia ter feito isto? Talvez, pela primeira vez, comecem a fazê-lo quando prosseguem, aconselhando que a política brasileira não deveria se deixar cegar pela euforia do momento, uma vez que havia necessidade de empreender reformas no longo prazo nos sistemas previdenciário e fiscal. Em 9 de maio, os papéis da dívida brasileira atingem alta histórica, ao lado de nova queda do risco país e do dólar. Pouco depois, contudo, em 13 de maio, a manchete aponta para outro lado: "a indústria tem o seu maior declínio em vendas nos últimos oito anos", com o salário líquido caindo mais de 7% no mês. Em outras palavras, a economia não parecia ir tão bem quanto retratada nas avaliações de especialistas, maciçamente divulgadas na mídia.

Encerramos nossa seleção de notícias com a manchete que parece emblemática — "o risco país desapareceu como um corte na água" (18/5.2003), comentário do presidente do Citibank, declarando-se otimista com a administração Lula e confiante de que seria possível reduzir o custo do dinheiro captado pelo país dali para a frente. De fato, talvez tenha sido como um "corte na água", alguma coisa que aparentemente não deixa nem vestígios, já que na economia real, no plano da produção, renda e emprego, pouco se modificou durante todo aquele tempo. No âmbito da economia volátil, porém, tão mais suscetível às rápidas impressões provocadas, muitas vezes, por fantasmas internos, mas com efeitos desastrosos que se desdobram pela realidade externa e o cotidiano econômico da população, houve, sim, mais que vestígios. Pagamos, efetivamente, um preço bastante alto pelo tal "corte na água".

DISCUSSÃO

Os dados nos permitem levantar algumas hipóteses sobre as instabilidades encontradas na economia no período estudado. Psicologia econômica, economia comportamental, socioeconomia e, mais recentemente, a subárea de finanças comportamentais, estudam as oscilações da economia e do mercado em momentos de transição e turbulência. Encontramos desde análises históricas10 10 Um exemplo é a famosa febre das tulipas, quando intensas e generalizadas especulações com bulbos da flor prejudicaram seriamente a economia holandesa no século XVII. (SHILLER, 2000; KINDLEBERGER, 2000), até os consagrados levantamentos pioneiros, realizados na década de 1940, por George Katona (1975), um dos autores mais importantes na área, sobre o índice de sentimento do consumidor. As direções de análise adotadas pelos pesquisadores destas disciplinas não costumam incluir, contudo, uma visão do funcionamento mental como aquela que só poderia ser obtida por meio da prolongada e íntima experiência clínica de uma análise.

Assim, propomos algumas linhas de observação e raciocínio, embasadas pela psicanálise, com o intuito de ampliar o conhecimento sobre fenômenos da intersecção psíquico-econômica. Considerando tanto a comunidade econômica e política como um grande grupo, quanto o público exposto às informações produzidas por ela, como um outro grande grupo, identificamos, em ambos, operações mentais que poderiam ajudar a investigar o comportamento da economia em situações como esta que ora analisamos.

Começamos com a visão de Freud (1921/1976), fundamentada em grande parte nas idéias de Le Bon, sobre a psique e os grandes grupos. Ele nos chama a atenção para o fato de que, quando em grandes grupos, os indivíduos tendem a exacerbar seus comportamentos mais primitivos, tais como: tendência à onipotência; impulsividade; paixões e interesses intensos, porém efêmeros, com pouca perseverança para persegui-los; alto índice de contaminação de sentimentos e atos dentro do grupo; grande sugestionabilidade. Grupos tampouco costumam levar o tempo em consideração, ao passo que manifestam volubilidade, irritabilidade, credulidade e muita abertura à influência, em especial se exercida por estímulos repetidos ou excessivos, mesmo que não sejam lógicos, já que sua capacidade de crítica também fica comprometida nessas circunstâncias. O pensamento parece ocorrer mais por imagens e associações, não demandando qualquer verificação, uma vez que estamos no regime predominantemente inconsciente, no qual impera a força do desejo. Já os sentimentos são em geral simples, exagerados e extremados, escapando à dúvida e ao questionamento. Em suas palavras:

"... os grupos nunca ansiaram pela verdade. Exigem ilusões e não podem passar sem elas. Constantemente dão ao que é irreal precedência sobre o real; são quase tão intensamente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro. Possuem tendência evidente a não distinguir entre as duas coisas." (1921/1976, p.104).

Onipotência dos analistas econômicos, em suas previsões, e das autoridades, em suas declarações; impulsividade tanto nas avaliações rápidas — e conforme se verificou posteriormente, infundadas — quanto nas reações do mercado; as eleições tomadas como apaixonadas brigas de torcidas — um pano de fundo pouco adequado a análises rigorosas do cenário econômico, ao lado de limitada disposição para averiguar a verdadeira condição da economia; propagação veloz dos pontos de vista anunciados — fossem eles bons ou ruins — entre os pares (agências de risco, bancos, mídia em geral); crença descuidada, poderíamos dizer, em indícios isolados, como os números fugazes e provisórios das pesquisas eleitorais, ao lado do desprezo por outros, que poderiam ser vistos, de fato, como mais sólidos — como a Carta aos Brasileiros11 11 Documento sobre o programa de governo de Lula, divulgado em junho de 2002, que foi pouco considerado à época. ou outros dados relativos ao desempenho econômico do país; os "estímulos excessivos e repetidos", sob a forma das próprias manchetes, em ecos recíprocos, até que o conteúdo veiculado se convertesse em realidade; imagens de pânico e catástrofe, no primeiro tempo, e alegria e otimismo, no segundo, em termos absolutos e prevalecendo sobre observações mais apuradas da realidade; os extremos — "do inferno ao céu" — sintetizando o funcionamento primitivo dos grupos.

Conforme descreve Freud (1921/1976), palavras se mostraram mais poderosas do que a razão e os argumentos lógicos, não havendo grande preocupação com a verdade. Ao invés disso, pareceu existir grande necessidade de abraçar ilusões, sem um impulso nítido em direção à apreciação imparcial dos fatos.

Também para Bion (1952/1970), o estudo de grupos permitiria identificar características também presentes nos indivíduos, em especial no plano inconsciente, sendo que esta perspectiva coletiva nos ofereceria até mesmo uma visão mais clara destes fenômenos. Cada membro é responsável pelo comportamento do grupo, ainda que não se torne consciente de como funciona. A necessidade essencial é sobreviver e, de modo geral, recorrerão a defesas primárias para conseguir seu intento, tornando-se, portanto, especialmente propícios a acreditar no que pareça satisfazer seus desejos.

Conseqüentemente, as massas, os grandes grupos, operariam mediante mecanismos primitivos, como aqueles associados à posição esquizo-paranóide proposta por Klein (1946/1982), na qual a relação com a realidade sofre constantes interferências originadas pela ação interna de poderosas fantasias com conteúdo persecutório. Em reação a estes medos e ameaças, reais apenas no mundo interno, sentimentos de ódio, pânico e intolerância se unem a uma esperança messiânica plena de idealização, resultando em sentimentos de onipotência, arrogância e destrutividade. Surge, assim, a necessidade de dividir, cindir partes "boas" de aspectos "maus", tanto nas situações externas como nas internas, de modo a tentar controlar cada tendência individualmente, para que não haja uma contaminação indiscriminada pelo que é visto como destrutivo e ameaçador. A percepção da realidade se dá, neste caso, numa base de tudo ou nada. Este funcionamento psíquico influencia, de forma decisiva, a maneira de ver e descrever aquilo que está sendo percebido externamente. Em outras palavras, não haveria uma captação isenta dos fatos, e sim, mediante os mecanismos já citados de projeção e introjeção, uma experiência cindida de situações externas, refletindo a realidade psíquica comprometida pelos sentimentos persecutórios, que impedem também o surgimento da confiança.

A observação da montanha-russa da economia brasileira em 2002 e 2003 sugere que mecanismos associados a este tipo de funcionamento tenham estado presentes tanto nos analistas e autoridades econômicas e políticas, como no mercado e na população em geral, que seguiu o que o primeiro grupo oferecia como leitura inconteste da realidade do momento. As mesmas operações podem ter estado presentes em ambos os extremos analisados (pessimismo e otimismo), já que esta é uma característica do princípio do prazer e da posição esquizo-paranóide — atuar de forma exagerada, impulsiva e cindida, reprimindo ou ignorando o que não se encaixa no desejo do momento, apenas para reduzir o desprazer, sem levar em conta a realidade — e tendo que arcar com todos os prejuízos implicados nessa conduta.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Depois de atravessar todas estas turbulências, resta a questão — pudemos aprender alguma coisa com estas experiências? O "pedágio" foi considerável: praticamente um ano perdido, o que, em especial para uma economia emergente como a nossa, é muito dispendioso — e profundamente lamentável. Tendo passado pela experiência, contudo, devemos perguntar ainda: suas dimensões subjetivas, emocionais, podem ser investigadas, de modo a promover um aprendizado verdadeiro?

A inclusão do debate sobre fenômenos econômico-psicológicos numa agenda governamental sobre políticas econômicas e de informação pública, bem como no âmbito da própria população, na sociedade civil, seria factível? Conhecimentos sobre o funcionamento da economia e sobre operações psíquicas poderiam esclarecer indivíduos e grupos sobre seu comportamento econômico, de modo a lhes permitir apropriar-se de suas decisões econômicas de modo mais transparente?

Sabemos que iniciativas deste tipo remetem a uma imensa complexidade, como discute Adorno (1995) em seu capítulo sobre teoria e práxis. Elas não deveriam ser ingênuas, nem voltadas para a prática de forma imediata, requerendo reflexão e constante acompanhamento por parte das análises teóricas, numa permanente meta-investigação, como denomina Bleger (1960/1984). Contudo, acreditamos haver a necessidade, premente, de buscar instrumentos que favoreçam o desenvolvimento em nosso país. Como psicanalistas, poderíamos oferecer nosso conhecimento sobre o funcionamento psíquico para, ao lado de psicólogos econômicos, economistas comportamentais e pesquisadores de outras áreas, como comunicação, informação, semiótica, sociologia, ciência política, antropologia, história, análise de discurso, biologia etc., expandir o campo de estudo do comportamento econômico.

A importância do papel das informações econômicas no desempenho da economia, com sua dimensão psíquica, conforme sugerido neste trabalho, aponta caminhos de observação, investigação e análise12 12 A situação, em 2005 e 2006, envolvendo crises políticas, informações econômicas e o desempenho da economia, igualmente desafia nossa compreensão. Desta vez, os índices econômicos mostraram-se aparentemente desvinculados das notícias sobre a crise política veiculadas dia a dia. Caberia estudar-se as razões para que não tenha havido quase nenhum contágio entre eles agora, quando se poderia esperar, inclusive, repercussões ainda maiores do que em 2002, já que neste momento as situações têm sido apresentadas como fatos muito mais concretos do que todas as conjecturas de então. — e futuramente, talvez, de intervenção no plano das discussões sobre o contexto econômico — que poderiam ser explorados com o objetivo de buscar alternativas para a construção de bases mais sólidas para o crescimento em nosso país.

Recebido em 13/2/2006. Aprovado em 22/10/2006.

  • 1
    Uma versão inicial deste trabalho foi apresentada no XXVIII Iarep Congress, de psicologia econômica, em Christchurch, Nova Zelândia, em 2003.
  • 2
    Algumas pesquisas recentes utilizam métodos aproximadamente semelhantes, no que diz respeito ao uso de notícias da mídia para realizar análises de temas relativos à economia, como em Anversa, 2004 e Rosa, Enrietto, & Goiosa, 2005, que focalizam o mercado financeiro, e Prado
    et al., 2005 (em andamento), que trata de temas mais amplos, nos quais a economia se encontra incluída.
  • 3
    Retiradas da primeira página ou do caderno de economia, independentemente de tratar-se de matérias assinadas ou não. Não sendo objeto deste trabalho a análise de vieses ideológicos deste veículo (Oesp), presentes, como é sempre o caso, em manifestações da cultura humana, fica a critério do leitor considerar este aspecto, uma vez informado da procedência do material, conforme indicada aqui.
  • 4
    Dados fornecidos por FGV, IBGE, Fipe e o jornal
    O Estado de S. Paulo.
  • 5
    Menção ao fato durante a reunião de representantes de países da Iarep, XXX International Association for Research in Economic Psychology Annual Colloquium — Absurdity in the Economy. Praga, República Tcheca, 2005.
  • 6
    Herbert Simon (1978) e Daniel Kahneman (2002).
  • 7
    Em 1991 foi realizado, na Universidade Federal Fluminense, um seminário interdisciplinar pioneiro no nosso país sobre inflação e seu impacto na vida cotidiana, que contou com a participação de economistas, psicanalistas, sociólogos e outros pesquisadores, posteriormente publicado (VIEIRA
    et al., 1993). Desde então, tem havido algumas outras iniciativas e o início da produção de dissertações e teses dentro dessa área (cf. FERREIRA, 2006).
  • 8
    Nas palavras de Freud: "A consciência aprendeu então a abranger qualidades sensórias, em acréscimo às qualidades de prazer e desprazer que até então lhe haviam exclusivamente interessado. (...) O lugar da repressão, que excluía da catexia como produtoras de desprazer algumas das idéias emergentes, foi assumido por uma
    passagem de julgamento imparcial, que tinha de decidir se determinada idéia era verdadeira ou falsa — isto é, se se achava ou não em concordância com a realidade —, decisão que era determinada efetuando-se uma comparação com traços de memória da realidade." (1911/1976, p.280, em itálico no original).
  • 9
    Estas notícias foram também reproduzidas pelo jornal
    O Estado de S. Paulo, como as demais apresentadas ao longo do artigo.
  • 10
    Um exemplo é a famosa
    febre das tulipas, quando intensas e generalizadas especulações com bulbos da flor prejudicaram seriamente a economia holandesa no século XVII.
  • 11
    Documento sobre o programa de governo de Lula, divulgado em junho de 2002, que foi pouco considerado à época.
  • 12
    A situação, em 2005 e 2006, envolvendo crises políticas, informações econômicas e o desempenho da economia, igualmente desafia nossa compreensão. Desta vez, os índices econômicos mostraram-se aparentemente desvinculados das notícias sobre a crise política veiculadas dia a dia. Caberia estudar-se as razões para que não tenha havido quase nenhum contágio entre eles agora, quando se poderia esperar, inclusive, repercussões ainda maiores do que em 2002, já que neste momento as situações têm sido apresentadas como fatos muito mais concretos do que todas as conjecturas de então.
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    1 Uma versão inicial deste trabalho foi apresentada no XXVIII Iarep Congress, de psicologia econômica, em Christchurch, Nova Zelândia, em 2003. 2 Algumas pesquisas recentes utilizam métodos aproximadamente semelhantes, no que diz respeito ao uso de notícias da mídia para realizar análises de temas relativos à economia, como em Anversa, 2004 e Rosa, Enrietto, & Goiosa, 2005, que focalizam o mercado financeiro, e Prado et al., 2005 (em andamento), que trata de temas mais amplos, nos quais a economia se encontra incluída. 3 Retiradas da primeira página ou do caderno de economia, independentemente de tratar-se de matérias assinadas ou não. Não sendo objeto deste trabalho a análise de vieses ideológicos deste veículo (Oesp), presentes, como é sempre o caso, em manifestações da cultura humana, fica a critério do leitor considerar este aspecto, uma vez informado da procedência do material, conforme indicada aqui. 4 Dados fornecidos por FGV, IBGE, Fipe e o jornal O Estado de S. Paulo. 5 Menção ao fato durante a reunião de representantes de países da Iarep, XXX International Association for Research in Economic Psychology Annual Colloquium — Absurdity in the Economy. Praga, República Tcheca, 2005. 6 Herbert Simon (1978) e Daniel Kahneman (2002). 7 Em 1991 foi realizado, na Universidade Federal Fluminense, um seminário interdisciplinar pioneiro no nosso país sobre inflação e seu impacto na vida cotidiana, que contou com a participação de economistas, psicanalistas, sociólogos e outros pesquisadores, posteriormente publicado (VIEIRA et al., 1993). Desde então, tem havido algumas outras iniciativas e o início da produção de dissertações e teses dentro dessa área (cf. FERREIRA, 2006). 8 Nas palavras de Freud: "A consciência aprendeu então a abranger qualidades sensórias, em acréscimo às qualidades de prazer e desprazer que até então lhe haviam exclusivamente interessado. (...) O lugar da repressão, que excluía da catexia como produtoras de desprazer algumas das idéias emergentes, foi assumido por uma passagem de julgamento imparcial, que tinha de decidir se determinada idéia era verdadeira ou falsa — isto é, se se achava ou não em concordância com a realidade —, decisão que era determinada efetuando-se uma comparação com traços de memória da realidade." (1911/1976, p.280, em itálico no original). 9 Estas notícias foram também reproduzidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, como as demais apresentadas ao longo do artigo. 10 Um exemplo é a famosa febre das tulipas, quando intensas e generalizadas especulações com bulbos da flor prejudicaram seriamente a economia holandesa no século XVII. 11 Documento sobre o programa de governo de Lula, divulgado em junho de 2002, que foi pouco considerado à época. 12 A situação, em 2005 e 2006, envolvendo crises políticas, informações econômicas e o desempenho da economia, igualmente desafia nossa compreensão. Desta vez, os índices econômicos mostraram-se aparentemente desvinculados das notícias sobre a crise política veiculadas dia a dia. Caberia estudar-se as razões para que não tenha havido quase nenhum contágio entre eles agora, quando se poderia esperar, inclusive, repercussões ainda maiores do que em 2002, já que neste momento as situações têm sido apresentadas como fatos muito mais concretos do que todas as conjecturas de então.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      03 Ago 2007
    • Data do Fascículo
      Jun 2007

    Histórico

    • Aceito
      22 Out 2006
    • Recebido
      13 Fev 2006
    Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Instituto de Psicologia UFRJ, Campus Praia Vermelha, Av. Pasteur, 250 - Pavilhão Nilton Campos - Urca, 22290-240 Rio de Janeiro RJ - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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