RESUMO
O trabalho teve como objetivo identificar os helmintos gastrintestinais parasitas de búfalos provenientes de propriedades localizadas na região do Vale do Ribeira, São Paulo, Brasil. Foram colhidas vísceras de 47 animais abatidos em matadouros situados nos municípios de Registro, Pariquera-Açu, Eldorado, Juquiá, Iguape e Sete Barras, no período de junho de 1989 a dezembro de 1992. Esses animais eram das raças Murrah, Mediterrânea, Jafarabadi e mestiços, de ambos os sexos, com idades variando de 2 a 10 anos e submetidos a diferentes manejas (extensivo e semi-extensivo). As espécies de helmintos com as respectivas freqüências e números médios foram: Skjarbinagia boevi 61,70% e 346, Haemonchus contortus 6,38% e 3, Cooperia punctata 10,64% e 31, Capillaria bovis 29,79 % e 41, Paracooperia nodulosa 6,38% e 11, Bunostomum phlebotomum 6,38% e 1, Oesophagostomum radiatum 68,08% e 43, Trichuris disco/ar 2,13 % e 0,2. Dos 47 búfalos examinados, 40 (85,11%) se encontravam parasitados com uma ou mais espécies de helmintos. A espécie de maior freqüência foi O. radiatum.
PALAVRAS-CHAVE:
Helmintos gastrintestinais; freqüência; intensidade parasitária; búfalos; Bubalus bubalis.
ABSTRACT
The work aimed to identify the parasite gastrointestinal helminths from buffaloes coming from properties located in the region of Vale do Ribeira, state of São Paulo, Brazil, through material collected from 47 animals slaughtered in abattoirs in the counties of Registro, Pariquera-Açu, Eldorado, Juquiá, Iguape and Sete Barras, from June, 1989 to December, 1992. The animals belonged to the Murrah breed, Mediterrânea, Jafarabadi and crossbred from both sexes, ages varying from 2 to 10 years-old and submitted to extensive and semiextensive management. The kinds of helminths with the respective frequencies and average worm burden were: Skjarbinagia boevi 61.70% and 346, Haemonchus contortus 6.38% and 3, Cooperia punctata 10.64% and 31, Capillaria bovis 29.79 % and 41, Paracooperia nodulosa 6.38% and 11, Bunostomum phlebotomum 6.38% and 1, Oesophagostomum radiatum 68.08% and 43, Trichuris disco/ar 2.13 % and 0.2.. From 47 examined buffaloes, 40 (85.11%) were found parasited by one or more kind of helminths. The_ most plagued kind was O. radiatum .
KEY WORDS:
Gastrointestinal helminths; frequency; average worm burden; buffaloes; Bubalus bubalis.
INTRODUÇÃO
No Brasil, as importações de búfalos originários da Itália iniciaram-se por volta de 1895, na Ilha de Marajó (NASCIMENTO & LOURENÇO Jr., 1979).
No inicio dos anos 20, chegaram a São Paulo bubalinos de origem italiana, principiando-se, assim, os primeiros núcleos de criação de búfalos no Estado (OBA et al., 1981).
Segundo dados do ANUÁRIO ESTATÍSTICO DO BRASIL (1985), o Brasil conta com 619.700 cabeças de bubalinos, envolvendo as raças Jafarabadi, Murrah, Mediterrânea, Carabao e seus mestiços. No Estado de São Paulo, o rebanho bubalino é representado por aproximadamente 38.000 cabeças, e é formado por animais pertencentes à espécie Bubalus bubalis, variedade bubalis.
O búfalo doméstico, pela suas extraordinárias características de produção de leite e carne, aliadas à sua elevada adaptabilidade às condições pouco adequadas aos bovinos, é um animal de grande representatividade para a pecuária brasileira (NASCIMENTO et al., 1975).
Apesar deste animal se mostrar bastante resistente e ser menos susceptível às doenças que normalmente acometem os bovinos, o meio em que vive, propicia a manutenção e disseminação dedoenças parasitárias que assumem papel importante nos países tropicais, onde as condições climáticas são favoráveis à propagação de parasitas (WONGSONGSARN et al., 1968).
Os estudos realizados por BRYAN et al. (1976), na Austrália e CHAUHAN et al. (1973), na Índia comprovaram que os helmintos parasitas influenciam negativamente no crescimento e rendimento dos bubalinos. No Brasil, as primeiras pesquisas sobre helmintos parasitas de búfalos se iniciaram em 1964 com TRAVASSOS & FREITAS (1964), em Maicuru (Pa).
Os autores verificaram a ocorrência de Moniezia sp.e Bunostomum phlebotomum em 3 búfalos necropsiados. SILVA (1969), também no Pará, observou as seguintes espécies de helmintos parasitas de búfalos: Neoascaris vitulorum, Strongyloides papillosus, Ostertagia trifurcata, Cooperia sp., Haemonchus sp., Oesophagostomum radiatum e Dictyocaulus viviparus.
No Estado do Paraná, BUSETTI et al. (1983), verificaram a incidênc a dos helmintos parasitas de búfalos por meio de material colhido de 70 animais abatidos em frigoríficos e, concluíram que os helmintos responsáveis pela infecção em búfalos são das mesmas espécies que ocorrem em bovinos·.
Em São Paulo, COSTA et al. (1980) estudaram o curso natural das nematodíases gastrintestinais de bubalinos com menos de 2 anos de idade, nascidos em Sertãozinho e notaram que havia necessidade da realização de mais estudos sobre o assunto, principalmente no Estado de São Paulo.
Ainda em São Paulo, mas na região de Andradina, STARKE et al. (1983) observaram em bubalinos, também com menos de 2 anos de idade, as presenças das seguintes espécies: Skjarbinagia boevi, Paracooperia nodulosa, Haemonchus contortus, H. similis, Trichostrongylus axei, T. colubriformis, Cooperia punctata, Oesophagostomum radiatum, Strongyloides papillosus e Toxocara vitulorum.
OBAet al. (1981) registraram a ocorrência de Paracooperia nodulosa em búfalos originários de municípios do Vale do Ribeira. Na mesma região, FUID & PORTO (1993) estudaram a ocorrência de helmintos gastrintestinais em búfalos, cujas faixas etárias variaram de 1 a 36 meses, por meio de exames coprológicos e verificaram que o maior índice de positividade foi observado em animais jovens de 1 a 12 meses de idade. O Vale do Ribeira, localizado na região Sul do Estado de São Paulo, apresenta condições dimáticas e topográficas favoráveis à criação de bubalinos, e nele são encontradas numerosas propriedades que têm como atividade principal a criação de búfalos. Estas criações são destinadas a produção de carne ou leite e às vezes de ambos. O rebanho de bubalinos desta região conta com aproximadamente 11.000 cabeças, sendo portanto expressivo dentro da pecuária de São Paulo (BARUSELLI et al., 1993 ).
O presente trabalho teve como objetivo verificar a freqüência e intensidade parasitárias por helmintos gastrintestinais em búfalos com idade para o abate (animais com 2 anos de idade ou mais), provenientes· de municípios do Vale do Ribeira.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi desenvolvido no Vale do Ribeira, que está situado na região Sul do Estado de São Paulo, durante o período de junho de 1989 a dezembro de 1992.
Foram utilizados neste estudo 47 búfalos (28 fêmeas e 19 machos), abatidos em matadouros particulares e provenientes de propriedades situadas nos municípios de Registro, Pariquera-Açu, Eldorado, Juquiá, Iguape e Sete Barras. Os animais abatidos apresentavam idades variando de 2 a 10 anos, pertenciam às raças Murrah, Mediterrânea, Jafarabadi e seus mestiços e eram submetidos a diferentes manejos (extensivo e semi - extensivo).
As necropsias foram realizadas utilizando-se a metodologia preconizada por COSTA et al. (1970). Durante a realização das necropsias, os conteúdos do abomaso, intestino delgado e grosso foram coletados separadamente e amostras de 10%, de cada um, foram guardadas em frascos devidamente identificados. O conteúdo de cada frasco, com auxílio de microscópio estereoscópico, foi examinado para a presença de helmintos, que foram separados e contados. Posterior-. mente, foram preparadas lâminas com os machos, para a identificação das espécies presentes.
Também foram examinados pâncreas e fígados, dos animais abatidos, a fim de se verificar a presença de helmintos nesses órgãos.
RESULTADOS
As espécies de helmintos gastrintestinais identificadas foram: Haemonchus contortus, Skjarbinagia boevi, Cooperia punctata, Capillaria sp., Paracooperiâ nodulosa, Bunostomum phlebotomum, Oesophagostomum radi.atum e Trichuris discolor.
A Tabela 1 apresenta os resultados de prevalência, número médio de helrnintos parasitos e amplitude total das infecções. Na Tabela 2 estão representadas-as amplitudes totais das infecções porhelmintos gastrintestinais encontrados nos búfalos, de acordo com a faixa etária.
A distribuição percentual dos casos de infecções registrados de acordo com o número de gêneros de helmintos presentes, em um mesmo hospedeiro, é apresentada na Figura 1.
DISCUSSÃO
No Vale do Ribeira são encontrados numerosos sítios e fazendas, onde são criados búfalos que fornecem carne, leite e derivados, não só para a população local, como também, para o restante do Estado de São Paulo.
As espécies de helmintos encontradas, parasitando os bubalinos examinados coincidem, em parte, com os dados apresentados por COSTA et al. (1980) e STARKE et al. (1983), em São Paulo, SILVA (1969) no Pará e BUSETI1 et al. (1983) no Paraná, pois estes autores trabalharam com animais cujas idades variaram de 2,5 a'23 meses, enquanto que a faixa etária dos búfalos envolvidos na atual pesquisa oscilou entre 2 e 10 anos.
A utilização de animais com 2 anos de idade ou mais explica a ausência de animais parasitados pelos nematódeos das espécies Toxocara vitulorum e Strongyloides papillosus.
Dentre as espécies encontradas, o O. radiatum mostrou-se o mais prevalente, aparecendo em 68,08% dos animais pesquisados. Segundo SILVA (1969), o gênero Oesophagostomum demonstra ser itp.portante principalmente para búfalos adultos, determinando, por várias vezes, infecções bastante intensas, que podem levar, em alguns casos, os animais à morte. YAMAMURA et al. (1989) constataram uma mortandade elevada de bovinos adultos, entre os anos de 1982 e 1988, em diferentes propriedades localizadas na região de Londrina. Os sintomas (perda de apetite, desidratação, emaciação e diarréia profusa com fezes escuras), os acha/:los de necropsia (palidez dos músculos esqueléticos e líquido gelatinoso de coloração amarelada nos tecidos subcutâneos, cavidade torácica e abdominal) e o encontro de grande quantidade de formas imaturas (L4 e L5 ) de O. radiatum, levaram os autores a concluir que este nematódeo era o responsável pelos surtos ocorridos. Os dados obtidos por estes autores indicam a necessidade da realização de estudos relativos às infecções ocasionadas por O. radiatum em búfalos adultos, tendo-se em vista que estes helmintos podem determinar prejuízos à saúde dos animais, comprometendo a produção. dos mesmos.
Helmintos parasitas gastrintestinais de 47 búfalos abatidos em matadouros, com as respectivas prevalências, intensidades médias e amplitudes totais das infecções, provenientes de municípios do Vale do Ribeira, SP, durante o período de junho de 1989 a dezembro de 1992.
Amplitudes totais das infecções por helmintos gastrintestinais de acordo com a faixa etária em búfalos abatidos em matadouros, provenientes de municípios do Vale do Ribeira, SP, durante o período de junho de 1989 a dezembro de 1992.
Em relação à prevalência, a S. boevi apareceu em 61,70% dos animais pesquisados e no que diz respeito à intensidade parasitária, foi a que apareceu em maior número (Tabela 1). Estes resultados indicam que a infecção por S. boevi continua se mantendo em níveis elevados mesmo em animais adultos. Em pesquisa realizada na Austrália em búfalos abatidos em matadouros, BRYAN et al. (1976) observaram que as cargas parasitárias de S. boevi são altas em animais com faixa etária entre 9 e 18 meses.
Quanto ao parasitismo causado por H. contortus e P. nodulosa observou-se que estas espécies ocorreram com baixas prevalências e intensidades parasitárias. Estes dados não coincidem com os resultados apresentados por STARKE et al. (1983) e COSTA et al. (1980), pois estas duas pesquisas foram realizadas em búfalos com idades variando entre 2,5 a 23 meses, e seus resultados apontaram prevalências e c gas. parasitárias altas tanto para o H. contortus como para a P. nodulosa. Os dados obtidos no presente trabalho sugerem que estas espécies não são muito importantes em animais adultos.
A C. punctata esteve presente em 10,64% dos casos, sendo que o número médio de helmintos por animal parasitado foi relativamente alto quando comparado aos resultados obtidos por COSTA et al. (1980) e STARKE et al. (1983).
A prevalência verificada para a C. bovis foi de 29,79%. BUSETTI et al. (1983) observaram apresença de C. bovis em búfalos abatidos em matadouros no Estado do Paraná.
O B.phlebotomum e o T. discolor apresentaram prevalências e cargas parasitárias baixas, o que coincidiu com os resultados obtidos por outros autores (STARKE et al., 1983, COSTA et al., 1980, SILVA, 1969 e BRYAN et al., 1976).
A Tabela' 1 mostra que entre os búfalos abatidos não foram encontrados animais parasitados por cestódeos ou trematódeos, o que vai de encontro com os dados apresentados em pesquisas realizadas em bubalinos no Estado de São Paulo e em outros Estados do Brasil, onde foram constados os parasitismos por Moniezia spp, Fasciola hepatica e Euritrema spp (STARKE et al., 1983, BUSETTI et al., 1983),
Quanto às amplitudes totais das infecções relacionadas com as faixas etárias, verificou-se que a S. boevi ocorreu em maior número em animais de 2 a 5 anos, diminuindo drasticamente em animais com 6 anos ou mais. Observou-se, também, que o O. · radiatum e C. bovis apareceram de modo con tante em todas as faixas etárias estudadas e que as infecções por P. nodulosa foram maiores em animais de 8 a 10 anos do que nas outras faixas etárias. As infecções por T. discolor e B. phlebotomum estiveram restritas aos animais de 2 a 3 anos.
A S. boevi juntamente com o O. radiatum parecem ser os nematódeos mais importantes para búfalos adultos, pois apresentaram cargas parasitárias relativamente altas em animais com mais de 4 anos de idade.
Outro aspecto importante a ser destacado é a composição das cargas parasitárias (Fig. 1). As infecções compostas por 2 e 3 gêneros (40,4% e 23,4%) foram assinaladas em maior número de casos do que aquelas com 1 e4 gêneros (14,9% e6,4%), sendo que em 14,9% dos casos, os animais se mostraram negativos.
Distribuição percentual da freqüência dos casos de acordo com o número de gêneros de helmintos gastrintestinais presentes em um mesmo hospedeiro.
CONCLUSÕES
- Em 47 búfalos procedentes da região do Vale do Ribeira, São Paulo, enviados para abate, verificou-se que 85,1% dos animais se encontravam parasitados por uma ou mais espécies de helmintos gastrintestinais.
- As espécies de helmintos gastrintestinais identificadas foram: Haemonchus contortus, Skjarbinagia boevi, Cooperia punctata, Capillaria bovis, Paracooperia nodulosa, Bunostomum phlebotomum, Oesophagostomum radiatum e Trichuris discolor.
- Os parasitismos causados pela S. boevi e O. radiatum se mantiveram em níveis altos mesmo em animais adultos.
- Não foram observados animais parasitados por cestódeos e trematódeos.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem aos funcionários de apoio do Laboratório de Sanidade Animal e Vegetal de Registro - Instituto Biológico Abigail Antiqueira Martins, Antonio Lino Mendonça, Carlos José Costa, Alberto José dos Santos, Neurilene Aparecida David de Souza pela colaboração prestada durante a fase de execução deste trabalho. Agradecem, também, ao proprietário da Casa de Carnes Pintagueira, Paulo Ferreira Diniz; ao pecuarista, Dr. José Carlos Fernandes; ao Chefe da Estação Experimental do Instituto de Zootecnia de Registro, Dr. José Fernando Simplício de Oliveira, pela co· laboração prestada na realização deste trabalho.
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