Open-access CRYPTOSPORIDIUM SPP EM BEZERROS DO VALE DO PARAÍBA, SÃO PAULO, BRASIL

CRYPTOSPORIDIUM SPP IN CALVES FROM VALE DO PARAÍBA, SÃO PAULO STATE, BRAZIL

RESUMO

Os autores relatam a ocorrência de Cryptosporidium spp em bezerros da região do Vale do Parafba, Estado de São Paulo. O material constou de 204 amostras de fezes colhidas da ampola retal de bovinos com idades variando entre 1 a 12 meses. Os animais, da raça Holandesa e mestiços, eram provenientes de 8 propriedades produtoras de leite tipo B. A técnica utilizada para a evidenciação dos oocistos foi o método de coloração Ziehl-Neelsen modificado. Das 204 amostras de fezes colhidas, 40 (19,61%) estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium spp.

PALAVRAS-CHAVE:
Cryptosporidium, bezerros; bovinos; fezes.

ABSTRACT

Faecal samples collected directly from the rectum of 204 calves, ages varying from 1 to 12-monthold, from Vale do Parafba State, Brazil, were examined for Cryptosporidium spp oocysts by staining with modified Ziehl-Neelsen method. Cryptosporidium spp oocysts were found in 40 (19.61%) of the total faecal samples examined.

KEY WORDS:
Cryptosporidium, calves; cattle; faeces.

Criptosporidiose é uma infecção parasitária, cujo agente etiológico, protozoário do filo Apicomplexa, gênero Cryptosporidium, é geralmente associado a diarréias em ruminantes jovens. Este parasita é patogênico para mamíferos (incluindo o homerp.), aves, répteis e peixes. Apresenta distribuição geográfica mundial tendo sido descrito pela primeira vez por TYZZER (1907) nos Estados Unidos, em camundongos. Apesar de ter sido observado em várias outras espécies animais, durante muitos anos foi considerado de baixa patogenicidade até que, em 1971, PANCIERA et al. (1971) identificaram-no em fezes de uma novilha com diarréia crônica.

Apesar do fato da criptosporidiose em animais ser uma doença de jovens ela tem sido relatada também em adultos com ou sem sinais clínicos. A infecção resulta em diarréia de duração e severidade determinadas pela imunocompetência do hospedeiro. Nas diarréias o Cryptosporidium está geralmente associado a outros agentes enteropatogênicos (TZIPORI,1988).

Em bovinos o período de incubação varia de 2 a 10 dias, com presença de diarréia por 2 a 14 dias que pode ;er acompanhada de anorexia, depressão, desidratação, perda de peso, e, em alguns casos, febre (CHERMETTE & BOUFASSA-OUZROUT, 1988).

O presente trabalho teve o objetivo de observar a ocorrência de protozoários do gênero Cryptosporidium em amostras de fezes de bezerros provenientes do Vale do Paraíba, Estado de São Paulo.

O material constou de 204 amostras de fezes colhidas da ampola retal de bovinos com idades variando entre 1 a 12 meses, com ou sem diarréia clínica. Os animais, da aça Holandesa e mestiços, eram provenientes de 8 propriedades produtoras de leite tipo B. As propriedades mantinham os animais com manejo em regime semi-intensivo, em instalações coletivas com piso de concreto e limpeza diária.

As amostras coletadas foram divididas em 4 grupos, de acordo com a faixa etária dos animais:1º) 1 a 3 meses; 2º) 4 a 6 meses; 3º) 7 a 9 meses e 4º) 10 a 12 meses.

A técnica utilizada para a evidenciação dos oocistos foi o método de coloração Ziehl-Neelsen modificado (HENRIKSEN & POHLENS, 1981).A identificação dos oocistos de Cryptosporidium spp foi baseada nas características morfológicas e micrométricas.

Das 204 amostras de fezes colhidas, 40 (19,61%) foram positivas para oocistos de Cryptosporidium spp e estavam assim distribuídas:

-11 (15,71%) entre as 70 colhidas de animais do 1º grupo;

-15 (25,42%) entre as 59 colhidas de animais do 2º grupo;

-06 (16,22%) entre as 37 colhidas de animais do 3º grupo e

-08 (21,05%) entre as 38 colhidas de animais do 4º grupo.

Alguns autores pesquisaram a presença de oocistos de Cryptosporidium em fezes de bovinos, no Brasil.

ORTOLANI (1988) pesquisou 400 amostras de fezes, diarréicas e não diarréicas, de bezerros com zero a 60 dias de idade e provenientes de 43 rebanhos leiteiros do Estado de São Paulo. Entre as 200 amostras de fezes diarréicas, 38% estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium, sendo mais freqüente em animais com até 3 semanas de vida. Entre as 200 amostras de fezes não diarréicas, 11,5% estavam positivas, sendo mais frequente a partir da 2ª semana até o 60º dia de vida.

MODOLO et al.(1988) examinaram 23 bezerros, com ou sem diarréia, variando de 11 dias a 6 meses de idade, de uma propriedade da região de Botucatu, São Paulo. Encontraram 11 animais positivos, sendo 6 (26%) entre os com diarréia e 5 (25%) entre os sem diarréia

GRACIA et al. (1989) pesquisaram 32 amostras de fezes diarréicas, provenientes de bezerros de Alfenas, Minas Gerais e com idades entre uma a três semanas. Estavam positivas 19(59,40%) das amostras. Os animais foram tratados com antibióticos e fluidoterapia, mas 19 morreram apresentando diarréia profusa e desitratação intensa.

OGASSAWARA et al. (1989) trabalharam com 29 amostras de fezes de bezerros de duas propriedades, uma de Pardinho e outra de Pirajuí, Estado de São Paulo. Das amostras pesquisadas, 8 estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium, identificados como sendo da espécie muris.

SOUZA (1991) examinou 122 amostras de fezes de bezerros provenientes de 9 fazendas da bacia leiteira Sul fluminense no Estado do Rio de Janeiro. Dos 59 animais com menos de 30 dias de idade, 36 (61,02%) estavam positivos para oocistos de Cryptosporidium, sendo 24 sem diarréia e 12 com diarréia. Dos 63 animais com mais de 30 dias de idade, 52 (82,54%) estavam positivos, sendo 31 com diarréia e 21 sem diarréia.

GARCIA & LIMA (1993) analisaram 305 amostras de fezes de bezerros lactentes, com até 60 dias de idade, de 23 propriedades leiteiras localizad s em 18 municípios de Minas Gerais. Foram consideradas diarréicas 194 amostras, das quais 61 (31,40%) estavam positivas para Cryptosporidium. Entre as 111 não diarréicas, 24 (21,62%) continham oocistos.

Na presente pesquisa foram encontrados animais positivos em todos os grupos, sendo mais frequente entre os animais com idades entre 4 a 6 meses. Não foi observada diferença significativa entre os animais com ou sem diarréia e positivos p a oocistos de Cryptosporidium.

Com base nos resultados obtidos concluiu-se que oocistos de Cryptosporidium spp foram encontrados com alta frequência em fezes,. diarréicas e não diarréicas, de bezerros provenientes do Vale do Paraíba, Estado de São Paulo.

Devida à falta de uma efetiva terapia química ou prática imunoterapêutica para prevenir a infecção por Cryptosporidium, sugere-se a adoção de medidas sanitárias e de manejo adequadas para controlar esta zoonose na região estudada.

AGRADECIMENTO

Agradecemos ao Prof; Dr. Enrico Lippi Ortolani, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, pela orientação dada na utilização da técnica de coloração de Ziehl-Neelsen.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • CHERMETTE, R. & BOUFASSA-OUZROUT, S. Cryptosporidiosis: A cosmopolitan disease in animais and man. 2.ed. rev. Paris: Office Int. Epizooties, 1988. 122p. (Technical Series,5).
  • GARCIA, A.M. & LIMA, J.D. Freqüência de Cryptosporidium em bezerros lactentes de rebanhos leiteiros de Minas Gerais. Arq. Eras. Med. Vet. Zootec., v.45, n.2, p.193-198, 1993.
  • GRACIA, A.M.; LIMA, J.D.; FACURY FILHO, E.J.; LOSS, A.C.S. Ocorrência de criptosporidiose em bezerros lactentes de Minas Gerais. In: SEMINÁRIO BRASILEIRO DE PARASITOLOGIA VETERINÁRIA, 6., 1989, Bagé, RS. Anais. p.122.
  • HENRIKSEN, S.A. & POHLENS, J. Staining of Cryptosporidia by modified Ziehl-Neelsen technique. Acta Vet. Scand., v.22, p.594-596, 1981.
  • MODOLO, J.R.; GONÇANVES, C.R.; KUCHEMBUCK, M.R.G.; GOTTSCHALK, A.F. Ocorrência de criptosporidiose em bezerros na região de Botucatu, SP. Rev. Eras. Med. Vet., v.10, n.1, p.9-10, 1988.
  • OGASSAWARA, S.; CASTRO, J.M. de; KASAI, N.; PENA, H.F. de J.; HOGE, A.Y.A.; VILLELA, B.C.B. Cryptosporidium tipo C. muris em bovinos do Estado de São Paulo (Nota Prévia). In: SEMINÁRIO BRASILEIRO DE PARASITOLOGIA VETERINÁRIA, 6., 1989, Bagé, RS. Anais. p.123.
  • ORTOLANI, E.L. Padronização da técnica de Ziehl-Neelsen para pesquisa de oocistos de Cryptosporidium. Estudo de alguns aspectos epidemiológicos de criptosporidiose em bezerros de rebanhos leiteiros no Estado de São Paulo. São Paulo. 1988, 85p. [Tese (Doutorado) - Instituto de Ciências Biomédicas/USP].
  • PANCIERA, R.J.; THOMASSEN, R.W.; GARNER, F.M. Cryptosporidial infection in a calf. Vet. Pathol., v.8, p.479-484, 1971.
  • SOUZA, J.C.P. Importância do Cryptosporidium TYZZER, 1907 (Apicomplexa: Cryptosporidiidae) nas diarréias de bezerros na bacia leiteira do sul fluminense. Rio de Janeiro. 1991.63p. [Dissertação (Mestrado) - Instituto de Veterinária/Univ. Fed. Rural Rio de Janeiro].
  • TYZZER, E.E. A sporozoan found in the peptic glands of the common mouse. Proc. Soe. Exp. Eiol. Med., v.5, p.12-13, 1907.
  • TZIPORI, S. Cryptosporidiosis in perspective. Adv. Parasitol., v.27, p.63-129, 1988.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1998

Histórico

  • Recebido
    05 Jan 1998
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