RESUMO
Arevisão aborda aspectos pertinentes ao controle biológico do carrapato dos bovinos - Boophilusmicroplus - enfatizando não só o controle e suas implicações com, e principalmente, as possibilidades da utilização do controle biológico por meio de nematóides, bactérias e fungos entomopatogênicos e, porfim, as perspectivas e a necessidade da implementação de testes controle biológico a nível de campo, cuja realidade difere dos bioensaios realizados "in vitro".
PALAVRAS-CHAVE:
Carrapato; bovinos;
Boophilus microplus
; controle biológico; Brasil
ABSTRACT
The review discussed points of view conceming biological control of cattle tick -Boophilus microplus - given enphasis on control and its implications such as the possibilities of the utilization ofbiological control by means of entomophagous nematodes, bacteria and fungus. Finally the perspectives and the necessities of the implementation ofbiological control tests underfield conditions where the reality difer from "in vitro" bioassaies.
KEY WORDS:
Ticks; cattle;
Boophilus microplus
; biological control; Brazil
INTRODUÇÃO
O carrapato dos bovinos Boophilus microplus (Canestrini, 1887), originário da Ásia, foi introduzido no Brasil juntamente com os primeiros bovinos trazidos pelos colonizadores. Apresenta grande importância à pecuária nacional em virtude das perdas econômicas que causa aos produtores. Os prejuízos ocasionados por este ectoparasita são incalculáveis e estão relacionados direta ou indiretamente a transmissão de agentes patogênicos, principalmente os responsáveis pela babesiose e anaplasmose; desenvolvimento letárgico de animais parasitados implicando em baixa produção de leite e carne, com perda média de 0,24kg peso vivo/carrapato/ano (SUTHERST et al.,1993); mortalidade de animais; desvalorização comercial do couro e gasto com carrapaticidas (HORN, 1984 e PENNA, 1990).
A distribuição geográfica do B. microplus ocorre entre os paralelos 32º de latitude nortee 35º de latitude sul, correspondendo à faixa intertropical e envolvendo importantes zonas da America Central, América do Sul, África e Oceania (WHARTON, 1974). Em relação ao Brasil, praticamente todo o território nacional está incluido em zona potencialmente favorável a esta parasitose. A presença destecarrapato nãoé verificada apenas em certas áreas do nordeste e algumas regiões altas do Rio Grande do Sul em função, respectivamente, da baixa precipitação pluvial (< 500 mm/ano) e baixas médias a;mais de temperatura, (17ºC)(EVANS, 1989; HORN & ARTECHE, 1985).
O B. microplus é um carrapato de um só hospedeiro. O seu desenvolvimento se completa em duas fases: uma parasitária que ocorre sobre os bovinos, com duração média de 21 dias; outra de vida livre onde o carrapato completa o ciclo evolut vo no solo após abandonar seu hospedeiro. O tempo necessário para o desenvolvimentode todas asetapas desta fase depende de fatores climáticos, principalmenteumidade e temperatura podendo se a-longar sobremaneira quando essas tornam-se baixas.
CONTROLE DO CARRAPATO E SUAS IMPLICAÇÕES
O controle do B. microplus em nosso pais e realizado através do emprego de diferentes grupos químicos, principalmentena fase parasitária do carrapato. O uso indiscriminado e a má utilização dos carrapaticidas vêm acarretando sérios problemas de resistência além de implicações diretas na poluição do solo, deposição de resíduos dos produtos químicos no leite e carne e contaminação acidental do homem.
Deve-se considerar ainda que o controle do B. microplus constitui um paradoxo ao produtor. Se por um lado édesejável ter animais livres decarrapatos, não se pode deixar de levar em conta o papel do carrapato como transmissor dos agentes da Tristeza Parasitária Bovina e, portanto, a necessidade da presença do carrapato nas pastagens, em baixos níveis de infestação, paraa manutenção da imunidade contra esses parasitas. Um fato importante a se ponderar também, refere-se a disposição da população de carrapatos nos rebanhos. Em determinado momento, o B. microplus encontra-se distribuido da seguinte maneira: aproximadamente 95% na pastagem, na fase de vida livre (nas formas de teleóginas em postura, ovos em incubação e larvas esperando os hospedeiros) e 5% parasitando os bovinos (larvas, ninfas e adultos) (FURLONG, 1992).
No pasto, odesenvolvimentodasformas devida livre é regulado fundamentalmente por fatores dimáticos (temperatura e umidade). Porém, para que a infestação seja bem sucedida, énecessário vencer fatores adversos como tipo devegetação (BARROS et al.,1989), raça do_ bovino (NUNES et al.,1982) e presença de predadores emicroorganismosentomopatogênicos(ROCHA, 1984). Para obter sucesso na infestação é necessário que todas essas barreiras sejam vencidas, e oparasita leve a termo as fases evolutivas.
Pelo exposto acima, verifica-se anecessidade de se encontrar novas alternativas de controle quepossibilitem a aplicação de ações conjuntas, visando minimizar os problemas causados por este ectoparasita. Neste particular, o controle biológico, aplicado naspastagens ou sobre os animais, pode apresentar-se como método promissor e auxiliar no combate do carrapato.
POSSIBILIDADES DA UTILIZAÇÃO DO CONTROLE BIOLÓGICO NOB. MICROPLUS
Predadores naturais
Vários predadores naturais, vertebrados e invertebrados, foram apontados predando fêmeas parcial ou totalmente ingurgitadas eovos oB. microplus. Entre os invertebrados, em publicações nacionais, estão citadas as formigas "lava-pés", formiga "sapé", formiga "tesoura" ou formiga "preta"; as aranhas armadeiras e tarântulas e tesourinhas. (WOELZ, et al.,1983a; WOELZ, et al.,1983b; ROCHA, 1984; GOULART et al., 1986).
Com relação aos vertebrados, a literatura brasileira menciona o anu, anu branco, gavião, "gavião-pomba", falcão, "galinha de angola", ratos, camundongos, sapos, chimango e garças vaqueiras (FALEIROS et al.,1983;ROCHA, 1984;VILELA et al.,1985;BRANCO et al., 1983; BRANCO et al.,1987; ROCHA & VASCONCELOS, 1989).
A nível de campo, o que se pode constatar na Estação Experimental de Campinas do Instit to Biológico é qué novilhas, vacas secas e bezerros mantidos m diversos pastos da fazenda apresentavam nível de infestação bem menor do que as vacas em lactação graças, em grande parte, a ação de pássaros pertencentes ao Parque Ecológico situado em área contígua à f zenda (observação pessoal).
Nematóides entomopatogênicos
A utilização de nematóides entomopatogênicos, como agentes de controle biológico, está bem estabelecida em insetos. Os nematóides vivem em simbiose com bactérias, os quais, após a penetração nos insetos, liberam esses simbiontes que causam septicemia no hospedeiro.
SAMISH & GLAIZER, 1992, estudando a infectividade de cepas deSternernema carpocapsae e Heterorhabditis bacteriophora em fêmeas de Boophilus annulatus demonstraram que: 1. atemperatura ideal para o controle do carrapato por esses nematóides está entre 22 e 26ºC; 2. a taxa de mortalidade diminui entre 18 e 30ºC; 3. a suscetibilidade não é influenciada pelo peso da fêmea e 4. os nematóides não tem efeito sobre os ovos dos sobreviventes.
GLAIZER & SAMISH, 1993, testando a suscetibilidadedefêmeas ingurgitadas deB. annulatus como hospedeiras deSternernema carpocapsae, em simbiose com bacteria Xénorhabdus nematophilus, obtiveram 90% de mortalidade das fêmeas após 24h.
MAULEON etal., 1993, utilizando 17 espécies de nematóides dos gênerosStememema(8)eHeterorhabditis (9), infectando B. annulatus, B.microplus eAmblyomma variegatum concluíram que os dois últimos carrapatos foram resistentes a todas as cepas testadas.
Controle microbiano
No Brasil as publicações sobreocontrole microbiano doB. microplus englobam testes utilizando diferentes isolados de bactérias e fungos.
Bactérias entomopatogênicas
No tocante aocontrole bacteriano, podemos citar os tra'?alhos de BRUM e colaboradores que vêm se dedicando nessa linha de estudos desde 1986 quando verificaram a presença de secreção genital purulenta em fêmeas de B. microplus e isolaram bastonetes Gram negativos (BRUM & TEIXEIRA, 1986).
Posteriormente, isolaram do mesmo tipo de material as enterobactérias Escherichia cole, Enterobacter agglomerans e Cedecea lapagei (BRUM & FACCINI, 1988).
Por meio deinfecções experimentais, identificaram C. lapagei como causadora de infecção genital e/ou inorte de teleóginas em até48h pós infecção. Observaram também quea maior incidência de infecção ocorria no mês de junho eaporcentagem mínima em fevereiro e abril (BRUM et al. 1991a).
Estudando a infecção em fêmeas infectadas pelo mesmo agente, relataram redução de postura em 47,4% em relação a fêmeas sadias e, através de cortes histológicos os autores verificaram que nas fêmeas tratadas comCedecea lapagei o epitélio vaginal apresentava-se destruído, fato que impedia a passagem do ovo (BRUM et al., 1991b).
A atividade acaricida deC. lapagei sobre teleóginas deB. microplusexpostas ao meio ambiente foi novamente demonstrada em 1992 quando os autores ratificaram o favorecimento da infecção durante o inverno (BRUM & TEIXEIRA, 1992ae 1992b)
Fungos entomopatogênicos
Em relação aos fungos entomopatogênicos, a literatura nacional cita trabalhos realizados em condições controladas utilizando-se diferentes isolados de Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae em suspensão.
Trabalhos com B. bassiana foram realizados por ALVES et al., (1993) que testaram e compararam o isolado 982 desse fungo e a cepa 959 deM. anisopliae sobre ovos de B. microplus. Observaram que apesar deBeauveria bassiana ser patogênica a eficácia deM. anisopliae havia sido superior.
BITTENCOURT et al.,(1995)testando"in vitro" suspensões dos isolados 747 e 986 sobre ovos e larvas obtiveram redução no percentual deeclosão eaumento na mortalidade de larvas.
PERALVA et al., (1996) utilizando os mesmos isolados citados por Bittencourt sobre fêmeas ingurgitadas verificaram alterações nas etapas da fase não parasitária (períodos de pré-postura, postura, eclosão, percentual de eclosão, índice de eficiência reprodutiva e nutricional).
Noque diz respeito aofungoMetarhiziumanisopliae podemos encontrar na literatura brasileira os trabalhos de BITTENCOURT et al.. (1992, 1994a, 1994b), realizaram no Rio de Janeiro, que ao avaliar a ação de dois isolados de M. Anisopliae observaram as seguintes alterações nasfases devida não parasitária: aumento nos períodos de pré-postura, postura, eclosão das larvas, diminuição doperíododepostura, índice deprodução de ovos e percentual de eclosão de larvas. Verificaram, também, que a principal forma de penetração do M. Anisopliae no carrapato se dá por meio do tegumento, haja vistaque, através deestudos histológicos nãohouve evidenciação do fungo nas cavidades naturais.
A mortalidade defêmeas ingurgitadas, adimunuição daposturadassobreviventeseefeitossobreasobrevivênciade larvas, quando submetidas àdiferentes concentrações do fungo, também foram verificadas em São Paulo por MONTEIRO et al. (1994), CORREIA et al. (1994b), MENDES et al. (I 995) e BARCI et al. (1997)
Os bioensaios realizados no Instituto Biológico, submetendo fêmeas deB. microplus adiferentes concentrações do isolado E9, mostraram no 12ºdia após ainfecção 60% e 97,6% de mortalidade nos grupos que receberam, respectivamente 2,74x107 e 2,74x10 8 conídios/ mL. Foi observada, também, redução significativa na posturas das fêmeas tratadas, independentemente da dose empregada (MENDES et al. 1995).
No que diz respeito aos tratamentos sobre larvas do carrapato, utilizando-se concentrações que variaram de 105 a 108 do mesmo isolado, constatou-se 100% de mortalidade no 5º dia após o tratamento nos grupos que receberam suspenções a partir de 107 conídios/mL (dados ainda não publicados).
Estudando-se o efeito do isolado CB47 sobre larvas de B. microplus, verificou-se que o resultado mais significativo também foi obtido no 5º dia após o tratamento quando foi observado 100% de mortalidade no grupo que recebeu 107 conídios/mL. A análise de próbites apontou como CL50 e CL99, concentrações compreendidas entre 106 e 107 (BARCI et al., 1997).
Pelo que se pode observar até o momento, os isolados E9 e CB47 podem matar larvas em até 5 dias.
A maioria dos trabalhos mencionados relatam bioensaios realizados com diferentes fases da vida não parasitária docarrapato. Estudos realizados sobreasfases parasitárias do B. microplus foram desenvolvidos por CORREIA et al. (1994) que testaram o efeito de M. anisopliae sobre o, carrapato do bovino em animais estabulados. Após apulverização com suspensões entre 106 e 1 09, retiravam-se, periodicamente, as paitenóginas, procediam-se as contagens, e após serem pesadas eram incubadas em estufa climatizada. Verificaram que as partenóginas, comparadas com as da testemunha, tiveram um período depré-postura 4 vezes mais longo, uma reduçãode41,7%nonúmerodefêmeasqueovipositaram e o peso médio dos ovos diminuiu em 52%.
CASTRO et al (1996) investigaram a susceptibilidade do carrapato ao isolado 959 do fungo M. anisopliaeem teste de esiábulo. Os resultados obtidos mostraram um percentual de eficácia entre 45,5% e 64,8% nos dias·+3 até +10.
PERSPECTIVAS DA UTILIZAÇÃO DO CONTROLE BIOLÓGICO À CAMPO
A maioria dos trabalhos publicados na literatura nacional descreve resultados obtidos "in vitro", realizados em condições ideais, e cuja realidade é bem diferente daquela do campo.
Porém, os resultados obtidos nos bioensaios, principalmente àqueles referentes as fases não parasitária. s (Figs. 1, 2 e 3), são significativos e, certamente, o controle microbiano deve ser considerado como alternativa no controle integrado do carrapato de bovinos, quer no hospedeiro quer nas pastagens.
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