Le tour du monde” das obras de Jules Verne: uma análise da atuação internacional dos editores Pierre-Jules Hetzel e Baptiste-Louis Garnier1 1 Este artigo oferece parte dos resultados de pesquisa de pós-doutorado realizada na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e na Université Paris Nanterre, com Bolsa de Pós-Doutorado e com Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Jules Verne's Works “Around the World”: an Analysis of the International Performance of Editors Pierre-Jules Hetzel and Baptiste-Louis Garnier

Valéria Cristina Bezerra Sobre o autor

Resumo

O pertencimento de uma obra ou autor à literatura mundial não resulta, necessariamente, da qualidade da escrita literária. Significa, na verdade, o ponto máximo de uma trajetória envolvendo múltiplos agentes, que permitem a difusão e o reconhecimento de obras não apenas nos países considerados centrais para a consagração literária, mas em todo o globo, já que a literatura mundial só adquire essa designação quando é conhecida em diferentes campos nacionais que integram o espaço literário internacional. Este artigo busca retraçar a repercussão internacional de Jules Verne, autor exponencial na literatura mundial, por meio da análise do exercício de dois editores: Pierre-Jules Hetzel, responsável pelas edições de Verne na França, e Baptiste-Louis Garnier, mediador das traduções de Verne no Brasil. Para isso, investigarei as estratégias de Hetzel, que favoreceram o sucesso mundial dos romances de Verne, e as ações de Garnier, que viabilizaram a propagação das traduções desse autor em um espaço nacional. Verificarei, ainda, alguns elementos da recepção crítica de Verne na França e no Brasil, com o fim de identificar o status que esse escritor adquiriu nesses países a partir da iniciativa dos dois editores.

Palavras-chave:
romance; crítica; tradução; Verne; Hetzel; Garnier

Résumé

L’appartenance d’une œuvre ou d’un écrivain à la littérature mondiale ne résulte pas forcément de leurs qualités littéraires. En effet, cela est l’aboutissement d’une carrière impliquant de différents médiateurs, responsables de la diffusion et la reconnaissance des œuvres aussi bien dans les pays incontournables de la consécration littéraire que dans le reste du monde, car la littérature mondiale n’acquiert cette appellation que lorsqu’elle est connue dans de différents espaces nationaux qui forment l’espace littéraire mondial. Cet article se propose d’étudier la répercussion internationale de l’œuvre de Jules Verne, écrivain emblématique de la littérature mondiale, par le biais de l’analyse de l’action de deux médiateurs, Pierre-Jules Hetzel, éditeur de Verne en France, et Baptiste-Louis Garnier, libraire et éditeur des traductions de Verne au Brésil. Pour ce faire, nous passerons en revue les stratégies adoptées par Hetzel pour favoriser la réussite mondiale des romans de Verne et les procédés mis en place par Garnier pour diffuser les traductions de Verne dans l’espace national brésilien. Il s’agira en outre de faire ressortir certains éléments concernant la réception critique de Verne en France et au Brésil, afin d’identifier quel statut fut attribué à l’auteur dans ces pays suite aux actions menées par les deux éditeurs.

Mots-clés:
roman; critiqu; traduction; Verne; Hetzel; Garnier

Abstract

Belonging to the club of world literature is not necessarily the result of the quality of a work’s or author’s literary writing. What it really denotes is the high point of a trajectory involving multiple agents who enable a work to gain popularity and recognition not just in countries considered to be central for literary consecration, but around the world, too, since world literature can only acquire that designation when it is known in different national fields that make up the international literary space. This article aims to follow the international impact of Jules Verne, a major author in world literature, by analyzing the work of two editors: Pierre-Jules Hetzel, in charge of Verne’s publications in France, and Baptiste-Louis Garnier, the agent behind Verne’s translations in Brazil. I will thus consider Hetzel’s strategies, which made Verne’s novels international successes, and Garnier’s actions, which made it possible for Verne’s work in translation to spread in Brazil. I will also confirm aspects of Verne’s critical reception in France and Brazil in order to identify the status the author acquired in these countries as a result of the initiative of these publishers.

Keywords:
novel; criticism; translation; Verne; Hetzel; Garnier

A literatura estrangeira, como vários estudos já demonstraram, fez parte do cotidiano dos leitores brasileiros do século XIX. Jornais, revistas, fascículos e livros ofereciam um vasto repertório de romances traduzidos, os quais viabilizaram a expansão da imprensa, a formação do público e a profissionalização dos escritores. A presença dessa literatura nas letras brasileiras transparece no discurso dos autores e críticos locais, que em diferentes ocasiões depreciaram a preferência dos leitores pela literatura importada ou, ao contrário, exaltaram sua contribuição para o estabelecimento do meio literário brasileiro. A escrita das obras nacionais também denotava a referência literária estrangeira, com a qual os escritores mantiveram um diálogo em suas escolhas estéticas e temáticas e no pensamento que desenvolveram em torno de seu processo criativo. Além disso, devido à familiaridade do público e dos literatos com a literatura estrangeira, os críticos adotavam como recurso de análise de obras nacionais a sua comparação com obras estrangeiras, a fim de comprovar a qualidade e a modernidade da literatura brasileira e de assegurar sua legitimação (BEZERRA, 2018aBEZERRA, Valéria Cristina. A literatura brasileira em cenário internacional: um estudo do caso de José de Alencar. Belo Horizonte: Relicário, 2018a.). A atuação de profissionais da imprensa periódica, de editores e de livreiros revela, portanto, os efeitos da literatura estrangeira no comércio de impressos no país, constituído em relevante medida por obras traduzidas, com as quais as criações locais disputavam um espaço no mercado e na preferência do público.

Como mostra Pascale Casanova, a circulação internacional de obras traduzidas enfatiza o caráter transnacional das literaturas de diferentes países e as relações de força presentes na busca pela consagração. Essas trocas, segundo a autora, são desiguais, uma vez que as literaturas com maior prestígio se difundem em uma proporção muito superior às que detêm menor reconhecimento na república mundial das letras. A tradução literária é primordial para a hegemonia de determinadas literaturas e também para a legitimação de espaços literários menos prestigiados, que se notabilizam por meio da inserção internacional de obras representativas da nacionalidade local. Além do campo literário mundial, a tradução estrutura também, segundo Casanova, o campo literário nacional, significando um instrumento de aquisição de modernidade para as jovens literaturas, as quais, ao incorporem obras estrangeiras no repertório local, reduzem a distância temporal frente aos avanços estéticos das literaturas centrais (CASANOVA, 2002).

A composição dos espaços nacionais e internacionais não resulta da capacidade ou da genialidade de escritores de escreverem obras predestinadas a tornarem-se canônicas e universais. Tradutores, críticos e, sobretudo, editores têm uma considerável participação na definição do cenário literário ao intervir nas trajetórias de obras e escritores, determinando sua consagração ou seu esquecimento pela posteridade. Por essas razões, a compreensão do fenômeno literário transpõe o estudo textual de obras e exige a conversão do olhar para os fatores e agentes que permitem a existência literária ao tornar o manuscrito acessível aos leitores por meio de sua reprodução material,2 2 Considero aqui as tecnologias existentes para a propagação de obras no período estudado, visto que as plataformas digitais diversificaram ainda mais as formas de circulação e leitura de textos. de sua divulgação e de sua circulação no mundo. A publicação e a repercussão nacional e internacional são os principais aspectos que asseguram o reconhecimento de autores e obras, graças sobretudo à figura do editor - que executa as ações necessárias para a edição, impressão, publicidade e difusão de obras -, dos críticos, que julgam as obras e designam o seu mérito, e dos tradutores, que permitem a leitura de obras em diferentes países. Vista dessa forma, a permanência de um escritor como Jules Verne, cujos romances integram a literatura universal, deve-se à trajetória delineada também por seus editores, críticos e tradutores, numerosos em toda a extensão do globo. Esse escritor teve em vida, na verdade, apenas um editor, Pierre-Jules Hetzel, mas muitos outros apressaram-se em inserir em seus países os romances desse escritor.

Para entender as razões da inserção de Verne no cenário mundial e nos diferentes espaços nacionais, detenho-me na investigação das estratégias de seu editor original, Pierre-Jules Hetzel, que propiciaram o sucesso dos romances de Verne na França e promoveram sua difusão internacional por meio dos contratos estabelecidos com editores no exterior. A partir dessa perspectiva, a fim de compreender o interesse internacional suscitado pelas obras de Verne, investigarei o caso do Brasil, através da atuação do editor Baptiste-Louis Garnier, que, entre 1870 e 1879,3 3 Detenho-me nas traduções publicadas por Garnier durante a década de 1870, período de maior intensidade e regularidade da publicação de traduções por esse editor. Os romances de Verne posteriores a essa década não estão inclusos neste estudo, apesar de continuarem a serem traduzidos e editados por Garnier no Brasil nos anos de 1880. Sobre La Jangada, romance traduzido por José Maria Vaz Pinto Coelho e publicado por Garnier em 1882, remeto aos estudos de Andrea Borges Leão (2012) e Márcia Abreu (2015). Já Pedro Paulo Catharina e Edmar Guirra dos Santos (2014) apresentam a recepção de Verne na imprensa brasileira em período que abrange toda a carreira do romancista. María-Pilar Tresaco (2019) faz um inventário das traduções brasileiras de Jules Verne entre 1867 e 1882, descrevendo o teor das notas de publicação veiculadas na imprensa. ofereceu aos leitores brasileiros e lusófonos uma numerosa quantidade de traduções de Jules Verne, interferindo no mercado brasileiro de livros e nas letras nacionais. Considerarei também alguns aspectos da recepção crítica francesa e brasileira dos romances de Verne para entender o alcance das iniciativas dos dois editores na construção do status desse escritor e de suas obras.

P-J. Hetzel, editor de Verne em ação no mundo

De acordo com os estudos biográficos sobre Jules Verne, o êxito desse escritor resultou, em relevante medida, do tino comercial de seu editor, Pierre-Jules Hetzel, que publicou obras de autores que se tornaram canônicos, como Balzac, George Sand e Victor Hugo, mas também de escritores, hoje desconhecidos, que tinham grande popularidade em sua época, como Jean Macé, Gustave Droz, Edmond About, Paul Féval. Um estudo de Edmar Guirra dos Santos demonstra o papel determinante de Hetzel no estrondoso sucesso comercial dos romances de Verne e na consolidação de sua carreira literária na França e propõe que a projeção internacional desse autor tenha ocorrido por iniciativa do editor (SANTOS, 2016SANTOS, Edmar Guirra dos. A trajetória de Jules Verne: a arte, o escritor e seu editor. 2016. 243 f. Tese (Doutorado em Letras Neolatinas). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.).

Ainda assim, há, na bibliografia sobre o escritor, quem acuse Hetzel de ter cerceado o gênio de Verne em nome de interesses financeiros (DUMAS, 1988DUMAS, Olivier. Hetzel, censeur de Verne. In: ROBIN, Christian (Org.). Un éditeur et son siècle: Pierre-Jules Hetzel (1814-1886). Saint-Sébastien: ACL Édition; Société Crocus, 1988.). Conforme relatam os biógrafos de Verne, seu manuscrito Voyage dans l’air foi negado por vários editores, até chegar às mãos de Hetzel, que, após propor ao autor uma série de alterações quanto ao estilo, à ordem dos capítulos e à construção dos personagens, decidiu dar publicidade ao romance, sob o título Cinq semaines en ballon. O contrato assinado em 1862 previa uma primeira edição com tiragem de dois mil exemplares, a um custo de publicidade previsto em 750 francos, valor superior aos 500 francos pagos a Verne pela compra dos direitos da primeira edição. A combinação entre a criatividade de Verne e as estratégias editoriais e comerciais de Hetzel surtiu um grande efeito, pois, até 1870, mais de 40.000 exemplares de Cinq semaines en ballon foram impressos na França. Seu segundo romance, Voyage au centre de la Terre, contou com 32.000 exemplares até esse mesmo ano e Aventures du Capitaine Hatteras, com 36.000. Esses dados, apresentados por Jean-Paul Gourévitch, que mostra ainda o total de tiragem de outros romances até o ano da morte do autor, levam-no a considerar essas obras verdadeiros best-sellers do século XIX (GOURÉVITCH, 2005GOURÉVITCH, Jean-Paul. Hetzel: le bon génie des livres. Paris: Le Serpent à Plumes, 2005.).

Os periódicos tiveram importante participação na construção da reputação dos escritores e do status das obras. As resenhas e os textos críticos publicados em jornais e revistas ofereciam ao público o julgamento que leitores mais especializados, como críticos e jornalistas, elaboravam a respeito das novas publicações e permitem o estudo das condições de recepção de obras. A partir de um levantamento realizado na imprensa periódica francesa, foram selecionados e analisados 41 textos críticos sobre os romances de Jules Verne, publicados entre 1863 e 1880,4 4 A data inicial refere-se ao início da publicação dos romances de Verne em volume e a data final ao ano a partir do qual houve um arrefecimento da empresa de tradução de B.-L. Garnier. por meio do recurso da ferramenta digital de anotações de textos chamada DLNotes25 5 A plataforma DLNotes2 foi desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística (NUPILL) e pelo Laboratório de Pesquisas em Sistemas Distribuídos (LAPESD), da UFSC, e adaptada para a análise de textos críticos por pesquisadores do projeto “Circulação Transatlântica dos Impressos”, sob coordenação de Márcia Abreu (UNICAMP). Ver ABREU; MITTMANN, 2017a e 2017b. . Essa ferramenta permite a anotação de textos críticos segundo os critérios de avaliação correntes nos séculos XVIII e XIX e que compõem a ontologia da plataforma, formada por classes previamente elaboradas pelos seus desenvolvedores (ABREU; MITTMANN, 2017aABREU, Márcia; MITTMANN, Adiel. Ler o passado com ferramentas do futuro: uma análise digital de textos críticos do início do século XIX. Alea: Estudos Neolatinos, v. 19, n. 3, p. 651-667, 2017b. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/alea/v19n3/1807-0299-alea-19-03-651.pdf . Acesso em: 23 fev. 2020.
https://www.scielo.br/pdf/alea/v19n3/180...
).

Figura 1.
Detalhe das funcionalidades do DLNotes2.

Na imagem acima, para cada passagem do texto, a plataforma permite atribuir um critério adotado pelo crítico dentre aqueles previstos na ontologia, separados por classes: adaptação, adequação, autoria, citação/menção, comicidade, dados bibliográficos e de materialidade, descrição, diálogo, efeito de leitura, enredo, verossimilhança, dentre outros. Na crítica sobre Michel Strogoff, ilustrada na Figura 1, Karl Steen6 6 Pseudônimo de Julia Daudet. afirma, conforme trecho destacado em verde: “essa longa narrativa animada e erudita, como todas do mesmo autor, contém elementos dramáticos de grande interesse”7 7 “[…] ce long récit animé et savant comme tous ceux du même auteur renferme des éléments dramatiques d’un grand intérêt”. Journal officiel de la République Française, 21 de dezembro de 1876. . Na passagem selecionada, a autora da crítica evoca o efeito de leitura provocado pela obra, mais precisamente seu caráter de entretenimento (subclasse atribuída ao trecho, dentro da classe chamada efeito de leitura). A passagem demonstra julgamento de valor positivo, como aponta o atributo “opinião do crítico” (os atributos, que se encontram à direita da imagem, são informações associadas às classes). Em outras palavras, entreter não foi considerado por Karl Steen como danoso para a qualidade da obra, pelo contrário, validaria seu mérito por ser capaz de ensinar divertindo.

Dentre todos os critérios empregados pelos críticos para a avaliação dos romances de Verne na França, destacam-se, sobretudo, três: efeito de leitura, citação e enredo.

A apresentação do enredo era uma parte essencial na escrita de textos críticos no século XIX, pois, à medida que os críticos avaliavam as obras, apresentavam ao leitor aspectos da intriga.

Quanto ao efeito de leitura, dentre as 94 anotações em que se alude a esse critério, predominam no julgamento dos romances de Jules Verne apreciações que designam a sua capacidade de entreter ou de instruir os leitores, com 49% e 45% respectivamente. A sua eficácia em emocionar teve apenas 2% das menções e a “identificação do leitor com a situação”, igualmente 2%. Os críticos pouco falam de sua experiência pessoal de leitura, dado que em apenas 1% dos casos eles revelam os efeitos que a leitura da obra lhes causou.

O preceito horaciano, que defendia que as obras literárias deveriam ser “úteis e agradáveis”, permanecia como um dos principais elementos de avaliação de romances ao longo do século XIX, e as obras de Verne ganharam notoriedade entre os críticos justamente por combinarem os dois fatores e serem capazes de ensinar os jovens leitores à medida que os divertiam.

Já o critério citação diz respeito às vezes em que outras obras ou escritores eram mencionados nas críticas. Em quase metade das recorrências desse critério, as obras do próprio Verne foram citadas, as quais serviam de parâmetro para o julgamento de seus mais recentes romances, por meio de comparações estabelecidas pelos críticos entre a obra criticada e os romances precedentes do mesmo autor. Isso sugere seu caráter precursor e seu êxito na criação de romances com temáticas e suspenses que lhe eram peculiares e que tinham vasta aceitação entre a crítica e, também, entre o público.

Ainda assim, o autor gerava desconfiança entre alguns de seus pares devido ao sucesso comercial de suas obras, como observa Andréa Borges Leão (2012LEÃO, Andréa Borges. Vamos ao Brasil com Jules Verne? Processos editoriais e civilização nas Voyages Extraordinaires. Revista Sociedade e Estado, v. 27, n. 3, p. 494-517, set./dez. 2012. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/se/v27n3/04.pdf . Acesso em: 2 jun. 2020.
https://www.scielo.br/pdf/se/v27n3/04.pd...
, p. 496). Esse sucesso despertou a atenção de editores por todo o mundo, que se corresponderam com o editor Jules Hetzel a fim de comprar os direitos de reprodução das ilustrações presentes nos romances e, em alguns dos casos, obter a permissão para a tradução das obras. Os livros de registro da editora de Hetzel conservam as informações sobre a venda de clichês e dos direitos de tradução para editores de diversos países.8 8 Os livros de registros das operações realizadas por Hetzel são conservados pelo Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), localizado em Saint-Germain-la-Blanche-Herbe, França.

Na época, os tratados internacionais de proteção dos direitos autorais eram bastante limitados, o que favorecia a difusão de obras e de suas traduções pelo mundo sem o consentimento do editor original ou do autor. Na França, os direitos autorais foram regulamentados nos anos seguintes à Revolução Francesa e mantiveram-se quase os mesmos ao longo de todo o século XIX (POLLAUD-DULIAN, 2014POLLAUD-DULIAN, Frédéric. Propriété intellectuelle. Le droit d’auteur. Paris: Ed. Economica, 2014.). Essa regulamentação restringia-se ao território francês e não foi capaz de coibir as contrafações que se espalhavam pelo mundo, provenientes, sobretudo, da Bélgica. Vários escritores franceses pronunciaram-se em defesa de seus direitos autorais no exterior. Em meados do século XIX, a França assinou alguns tratados bilaterais com Piemonte (1843-1850),9 9 Vale lembrar que, à época, a Itália ainda não era unificada. Portugal (1851), Hanôver (1851),10 10 Assim como a Itália, a Alemanha também não era um território unificado. Grã-Bretanha (1851), Espanha (1853), dentre outros. O mais importante deles foi a convenção literária assinada entre França e Bélgica, em 22 de agosto de 1852, que determinava o fim da contrafação realizada na Bélgica. A França se engajou igualmente na interdição da contrafação de obras estrangeiras em seu território por meio de decreto em 28 de março de 1852 (CAPPELLEMANS, 1854CAPPELLEMANS, Victor. De la propriété littéraire et artistique en Belgique et en France. Bruxelas: Delevingne et Callewaert; Paris: Jules Renouard et Comp., 1854.).

Uma parte do meio literário e editorial esteve, portanto, mobilizada nesse meado de século para deter as contrafações e garantir os direitos de propriedade literária. Contudo, a contrafação continuava sendo executada. Em carta ao editor Hachette, Mayne-Reid queixou-se da aparição, pelo editor Barba, de romances cujos direitos de tradução tinham sido vendidos a Hachette e Hetzel, que à época trabalhavam em sociedade. Na carta, Mayne Reid afirma: “Caro Senhor, estou um tanto espantado em descobrir que o senhor Barba publicou “Boy hunters” e “Young voyageurs” como sendo de sua propriedade. Eu nunca os vendi a ele, e meu editor Bogue, de Londres, não poderia tê-lo feito sem me avisar, pois ele nunca fez isso durante sua vida”.11 11 “Dear sir, I’m somewhat astonished to found that M. Barba has printed the “Boy Hunters” and “Young voyageurs”, as his property. I never sold them to him, and my publisher M. Bogue in London could not has done so without apprising me of it, which during his life he never did”. Carta de Mayne Reid a Louis Hachette. S/d. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HAC 32.16. The boy hunters teve sua primeira edição em 1853 e The young voyagers em 1854. Hetzel publicou a tradução Les Jeunes Voyageurs em 1877.

Mesmo com a falta de controle sobre as contrafações, não foram poucos os editores de países não signatários de acordos que firmaram contratos com Hetzel para a compra de clichês das ilustrações dos livros de Verne e dos direitos de tradução. Isso significa que não era apenas o texto criado por Verne que garantia o sucesso de suas obras. A materialidade concebida por Hetzel contribuiu para esse êxito, pois os leitores do mundo queriam ter em mãos edições semelhantes àquelas ilustradas e impressas em Paris. As contrafações dos textos não impõem qualquer dificuldade. Bastaria a obtenção de um exemplar, em livro ou em periódicos, para a realização de sua tradução, que poderia ser publicada por qualquer editor que dispusesse de uma imprensa ou contratasse serviços de impressão. Mas a contrafação de imagens é uma tarefa muito difícil, já que elas carregam em si a marca do desenhista que lançou no papel e do gravador que talhou em madeira ou pedra o resultado do trabalho artístico. Nesse sentido, por meio das ilustrações, Hetzel garantiu algum controle e muitos lucros em relação às obras saídas de sua editora, sobretudo as de seu principal escritor, Jules Verne. Edmar Guirra dos Santos mostra como esse autor, seu editor e os ilustradores trabalharam de maneira bastante próxima na criação das gravuras, que tinham a função de tornar as histórias de Verne ainda mais atrativas e expressivas, não se reduzindo, assim, a mero recurso didático (SANTOS, 2016SANTOS, Edmar Guirra dos. A trajetória de Jules Verne: a arte, o escritor e seu editor. 2016. 243 f. Tese (Doutorado em Letras Neolatinas). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016., p. 170-171).

Além disso, as imagens assumem também uma posição estratégica nas ações comerciais de Hetzel. O próprio Verne mencionou a relevância das ilustrações de suas obras no negócio do editor: “Eu sei bem que suas despesas são consideráveis numa edição ilustrada, mas devem ser essas edições que lhe rendem mais. E são essas que me rendem menos” (VERNE apud DUMAS; RIVA; DEHS, 2001DUMAS, Olivieri; RIVA, Piero Gondolo della; DEHS, Volker (Orgs.) Correspondance inédite de Jules Verne et Pierre-Jules Hetzel (1863-1886). Tomo II. Genebra: Slatkine, 2001., p. 47).12 12 “Je sais bien que vos frais sont considérables sur une édition illustrée mais aussi ce doivent être ces éditions qui vous rapportent le plus. Et ce sont celles qui me rapportent le moins”. Carta de Jules Verne a Pierre-Jules Hetzel de 14 de maio de 1875. Assim, Vingt mille lieues sous les mers teve suas ilustrações vendidas, entre 1869 e 1897, para editores da Espanha, Rússia, Inglaterra, Itália, Alemanha, Portugal, Holanda, Turquia, Suécia, Grécia e Áustria. Nesses livros de registro, que repertoriam a contabilidade da empresa, são descritas as operações realizadas entre Hetzel e demais editores. Em alguns dos casos das operações envolvendo a venda de clichês, são mencionados também os direitos de tradução, ora pagos, ora cedidos gratuitamente pelo editor, que concentra seus lucros, sobretudo, na venda das ilustrações.

Em grande parte, Hetzel realiza transações com editores de diferentes países para a reprodução das imagens, sem fazer qualquer menção às traduções que essas imagens acompanhariam. O editor, uma vez tendo garantido os rendimentos por intermédio da venda dos clichês, parecia não se incomodar com a tradução sem autorização da obra que contempla as ilustrações, apesar de prever, em contratos estabelecidos com Verne, a atribuição ao autor de 50% dos benefícios obtidos com a venda dos direitos de tradução.13 13 Os contratos celebrados entre Pierre-Jules Hetzel e Jules Verne foram consultados na Bibliothèque nationale de France: NAF 17007, Archives Hetzel, Dossiers d’auteurs LXXVI - Jules Verne (contrats, reçus, pièces comptables). Os contratos encontram-se também transcritos na tese de Edmar Guirra dos Santos (2016).

Muitas vezes, conforme referido acima, os acordos para a venda de clichês apontam para a cessão gratuita dos direitos de tradução, como atesta um contrato com o editor A. Harttelben, de Viena. No documento, Hetzel apresenta as condições de envio e pagamento dos clichês em madeira, os quais “devem ser usados para ilustrar as traduções em língua alemã, e não poderão ter nenhuma outra destinação”,14 14 “[…] doivent être employés à accompagner des traductions en langue allemande, et ne pourront être affectés à aucune autre destination”. traduções estas cuja “autorização é inclusa sem outra retribuição”.15 15 “L’autorisation de la traduction en langue allemande est comprise sans autre rétribution.” Contrato celebrado entre Jules Hetzel e A. Hartteben. 07 de março de 1874. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 3.17. Um dos contratos referente a L’île mystérieuse, firmado com Lassalle e Mélan, editores franceses que investiam no ramo editorial em língua espanhola, determina que Hetzel deveria se comprometer a não vender os clichês desse romance para qualquer editor que pretendesse publicar outra versão em língua espanhola na França ou na Espanha até 1877.16 16 Contrato celebrado entre Pierre-Jules Hetzel e Xavier de Lassalle e Mélan. Paris, 7 de junho de 1875. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 4.10. Essa exclusividade no uso das ilustrações das versões originais francesas distinguia a versão traduzida ilustrada das demais em circulação ao mesmo tempo, que não ofereciam aos leitores o mesmo tipo de atrativo. Os fatores editoriais concernentes às traduções pareciam ser uma preocupação não apenas dos editores estrangeiros, mas também do próprio Hetzel, que, em contrato com os editores Michel Smirnoff e Michel Lobacz-Toutchenko, estabeleceu que a tradução russa de L’île mystérieuse seria feita por Madame Markowitch: “Fica acordado que a tradução do texto será confiada à senhora Markowitch e não a outro”.17 17 “[…] il est entendu que la traduction du texte sera confiée à Madame Markowitch et non à aucun autre.” Contrato celebrado entre Pierre Jules Hetzel, Michel Smirnoff e Michel Lobacz-Touchenko. S/d. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 8.42. A tradutora foi ainda mencionada como responsável pela tradução para o russo de diversos outros títulos da casa Hetzel, cujas ilustrações foram vendidas ao editor Zvonareff. Esse zelo de Hetzel demonstra a sua interferência na repercussão internacional das obras de seus escritores.

Os livros de registro trazem anotações que resumem o teor dos contratos, conforme as imagens a seguir:

Figura 2.
Detalhe da página de livro de registro. Contratos referentes ao romance Les Indes Noires. Fundo Hetzel, HAC 98, IMEC.

Figura 3.
Detalhe da página de livro de registro. Contratos referentes ao romance Autour de la Lune. Fundo Hetzel, HAC 98, IMEC.

Na Figura 2, os direitos de tradução de Les Indes Noires foram vendidos, em 1877, aos editores Sampson Low, de Londres; Lombardi, de Milão; Gaspar, de Madri, e Hartleben, de Viena. Em geral, os valores pagos pelos direitos de tradução são inferiores àqueles pagos pelos clichês: a venda de clichês para Sampson Low totalizou 2.175 francos, enquanto os direitos de tradução ficaram por 1.575 francos. Para Lombardi, os direitos de tradução saíram por um valor bastante inferior, 300 francos, e os clichês custaram 874 francos. O editor espanhol José Gaspar pagou 500 francos pela tradução, e Hartleben, 400 francos, enquanto cada um pagou pelos clichês 1.173 e 1.100 francos, respectivamente. A tradução teve, portanto, grande oscilação de seu valor, parecendo ter sido uma parte menor dos negócios internacionais de Hetzel, que se ateve com mais rigor na venda das ilustrações, com valores bem mais precisos, oscilando entre 0,15 centavos e 0,25 centavos por cada centímetro quadrado de clichê, conforme se vê nas imagens.

A Figura 3 oferece uma visão das operações mais usuais registradas nesses livros de contabilidade, nos quais, de acordo com levantamento estatístico, 84% das transações relacionadas aos romances de Verne corresponderam à venda de clichês. Nessa imagem, vemos que os editores da Rússia, Espanha, Itália, Inglaterra, Áustria, Portugal, Croácia e Holanda compraram, entre 1871 e 1876, os clichês do romance Autour de la Lune para ilustrarem as edições do romance impressas nesses países, sem qualquer menção de venda ou cessão dos direitos de tradução.

O gráfico a seguir (Figura 4) apresenta a quantidade de contratos firmados entre Hetzel e editores no mundo para a venda dos clichês das ilustrações dos romances de Verne ou para a venda ou cessão gratuita dos direitos de tradução seus romances:

Figura 4.
Gráfico de distribuição da quantidade de operações firmadas entre Hetzel e editores no mundo.18 18 A versão interativa desse gráfico encontra-se disponível no site https://infogram.com/venda-de-hetzel-no-mundo-1h7g6kvg0q004oy?live.

Os livros de registro mostram anotações referentes a 36 editores de 14 países, atuantes em 16 cidades, que adquiriram junto a Hetzel os clichês das ilustrações de edições originais dos romances de Verne, operações que eram acompanhadas, algumas vezes, da venda ou cessão dos direitos de tradução. Os editores que fizeram maior número de aquisições entre 186719 19 As informações anotadas nos livros de registros referem-se às operações realizadas a partir de 1867. e 1880 foram David Corazzi, de Lisboa; Adolf Hartleben, de Viena; Sampson Low; de Londres; José Gaspar, de Madri; J. G. Robbers, de Roterdão; Domenico Salvi, de Milão, e Van Santen, de Leida. Os valores negociados iam de 61 francos a 6.500 francos, sendo esta última a soma paga por Sampson Low, de Londres, por dois jogos de clichês referentes ao romance L’île mystérieuse. As anotações mencionam que, desse valor, 5.000 francos proviriam da Inglaterra e 1.500 francos dos Estados Unidos, o que indica a atuação desses editores ingleses na América do Norte, onde as edições de Verne eram possivelmente comercializadas por eles. Na mesma ocasião, Sampson Low pagou ainda mais 1.500 francos pelos direitos de tradução dos três volumes do romance. Somente nesse período de análise20 20 O período de análise contempla aqui os anos entre 1867, data em que tem início as anotações das operações nos livros de registro, e 1880, data final do recorte de estudo. e restringindo-se às obras de Verne, Hetzel recebeu em torno de 308.933 francos.21 21 Em 1867, Hetzel e Jean Pafrine, de São Petersburgo, acordaram que um terço dos lucros da edição russa de Le Capitaine Hatteras seria destinado a Hetzel. Não foram mencionados os valores finais resultantes desse acordo. Para se ter uma ideia desse valor, segundo Mollier, Verne recebia, devido à sua exclusividade com Hetzel, uma mensalidade de, em média, 833 francos até 1875, quando houve um reajuste e o autor passou a receber 1.000 francos por mês. Além disso, Verne recebia os direitos sobre a venda dos livros, que renderam ao autor, no ano de 1869, por exemplo, 25.666 francos e 143.288 francos a Hetzel (MOLLIER, 2010MOLLIER, Jean-Yves. O dinheiro e as letras: história do capitalismo editorial. Tradução de Katia Aily Franco de Camargo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010. p. 694., p. 346-347).

Um heroe de quinze anos, tradução de Pedro Guilherme dos Santos Dinis, publicado por Corazzi em 1878, exemplifica a circulação internacional dessas imagens. As ilustrações presentes na segunda edição são exatamente as mesmas da versão original da coleção Hetzel (ver Figuras 5 e 6):

Figura 5:
Ilustração de Um heroe de quinze annos. Segunda edição. Lisboa: David Corazzi, 1888.

Figura 6:
Ilustração de Un capitaine de quinze ans. Paris: Jules Hetzel et Cie, 1878.

As 94 ilustrações que compõem o romance foram feitas por Henri Meyer. Outros ilustradores colaboraram com maior recorrência, como Leon Benett, Edouard Riou, George Roux, dentre outros. Os contratos entre Hetzel e os ilustradores mostram que, uma vez realizado o pagamento pelo trabalho, as peças passavam a ser de propriedade de Hetzel,22 22 Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 2.63 (Dossier dessins). que usufruía com exclusividade de sua venda aos diferentes editores do exterior.

Os dados dos livros de registro mostram muito mais que uma simples questão de contabilidade ou de cifras. Revelam a ação de Hetzel na circulação mundial dos romances de Verne por meio da tradução e da materialidade das obras, intervindo assim no status desse escritor em diferentes países no mundo e nas condições de seu ingresso na literatura mundial. Da mesma forma, em cada um dos países onde seus romances foram traduzidos e editados, a repercussão gerada por seus agentes e leitores interferiu no meio literário local e também contribuiu para a posição de Verne na literatura universal, demonstrando o intercâmbio estabelecido entre o universal e o local na conformação do cenário literário mundial. Verifico, em seguida, essa relação a partir do caso do Brasil.

Uma das edições de Verne em circulação no país à época foi proveniente de um acordo firmado entre o editor Lombaerts, em exercício no Rio de Janeiro, e Hetzel. Nos anos de 1876 e 1877, Lombaerts comprou os clichês das ilustrações de Michel Strogoff, obra que apareceu traduzida em seu jornal-romance intitulado Leitura do Domingo. Conforme estudo de Izenete Nobre Garcia, a versão brasileira intitulada Miguel Strogoff, circulou nesse periódico de forma seriada, em capítulos, entre 1876 e 1878, e contou com a presença de gravuras. Esse talvez tenha sido o atrativo que fez com que os leitores continuassem acompanhando Miguel Strogoff pelas páginas do Leitura do Domingo, pois, ainda em 1876, como mostra Garcia, o primeiro volume da obra foi publicado por Garnier, sem ilustrações. Poucos meses depois, saía o segundo volume, antes mesmo de a publicação em capítulos pelo jornal de Lombaerts ter sido encerrada (GARCIA, 2016GARCIA, Izenete Nobre. Jornais-romance: uma história não contada da circulação de romances no Brasil. 2016. 232 f. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária). Instituto de Estudo da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016.).

As obras de Jules Verne circularam no Brasil em diferentes versões, brasileiras e portuguesas, oferecidas por editores atraídos pelo sucesso do escritor na França e em todo o mundo. Baptiste-Louis Garnier fortalecia, nessa época, a tradução de romances no Brasil, o que culminou na circulação de um relevante número de romances de Verne no país.

B.-L. Garnier e as edições de Verne no Brasil

Garnier instalou-se no Brasil a serviço de seus irmãos livreiros franceses e, aos poucos, deu autonomia ao seu negócio, tornando-se um dos principais editores do país (GRANJA, 2013GRANJA, Lúcia. Entre homens e livros: contribuições para a história da livraria Garnier no Brasil. Revista do Livro, v. 3, p. 41-49, 2013.). Consolidou-se no ramo de venda de livros estrangeiros, principalmente franceses, pela sua importação em língua original ou em versões traduzidas em Portugal, também investiu na publicação e publicidade das obras de escritores locais. Eventualmente mandava traduzir e publicava às suas expensas obras estrangeiras, o que parece ter garantido um bom retorno, visto que nos anos de 1870 deu maior fôlego a esse tipo de atividade, com a contratação de 17 tradutores, que traduziram 75 romances, de acordo com dados resultantes de levantamento feito nos jornais. Esse empreendimento teve um relevante impacto no mercado de livros e nas letras do Brasil, conforme se pode verificar pela imprensa periódica de todo o país, pois, a cada semana, os redatores dos jornais da corte e das províncias noticiavam ou resenhavam as mais recentes traduções, incentivando Garnier a dar maior desenvolvimento à tarefa, que, ao ver deles, contribuía para o enriquecimento do patrimônio literário nacional.

Os romances traduzidos e publicados por Garnier, na década de 1870, foram escritos por 32 diferentes escritores, em sua quase totalidade franceses, e originalmente editados por 14 editores em exercício na França. Dentre estes, os que tiveram um maior volume de obras de seu catálogo traduzidas por Garnier foram, em ordem decrescente, Jules Hetzel, Édouard Dentu, Michel Lévy e Ferdinand Sartorius. Louis Hachette, editor exponencial na França durante o século XIX, teve apenas um romance de sua editora traduzido no Brasil, dentre os 75 títulos publicados por Garnier (BEZERRA, 2018bBEZERRA, Valéria Cristina. Tradução e literatura nacional: um estudo do empreendimento editorial de B. L. Garnier (1870-1880). In: SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de; MEDEIROS, Constantino Luz de (Orgs.). A história da literatura como problema: reflexões sobre a crise permanente nos estudos diacrônicos de literatura. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2018b. p. 85-99. Disponível em: Disponível em: https://abralic.org.br/downloads/e-books/e-book03.pdf . Acesso em: 15 jan. 2020.
https://abralic.org.br/downloads/e-books...
).

A proeminência da presença dos romances das coleções de Jules Hetzel deve-se ao fato de esse ser o editor das obras de Jules Verne, dentre as quais 21 foram traduzidas e publicadas no Brasil pela casa Garnier. Por essa mesma época, circularam ainda no país outras traduções dos romances de Verne, realizadas por iniciativa de diferentes editores, como as versões traduzidas e ilustradas vindas de Lisboa, publicadas por David Corazzi. A passagem de Jules Verne por Lisboa suscitou a reprodução nos jornais brasileiros da seguinte nota sobre o empreendimento de Corazzi, saída originalmente em um periódico português:

[...] Julio Verne visitou o escritório das Horas Românticas, de que é proprietário o nosso amigo Sr. David Corazzi, que conseguiu por esforços não vulgares fazer publicar em edições luxuosas e em linguagem portuguesa todas as obras daquele escritor, já tão popularizadas entre nós como em toda a Europa. (Jornal do Comércio, 29 de junho de 1878, n. 180JORNAL DO COMMERCIO. Rio de Janeiro: Typographia do Jornal do Commercio, 29 jun. 1878, n. 180.).23 23 A nota foi reproduzida ainda no Diário de Pernambuco, em 25 de junho de 1878, n.143, e em O Monitor, da Bahia, de 4 de julho de 1878, n. 25.

As edições ilustradas de Corazzi eram anunciadas na revista Os Dois Mundos: ilustração para Portugal e Brasil, que tinha circulação nesses dois países. Como a chegada dessas edições no Brasil foi um pouco tardia, os leitores brasileiros tornaram-se familiarizados com as aventuras criadas por Verne, sobretudo, por meio das edições oferecidas por Garnier, listadas na Tabela 1:

Tabela 1:
Romances de Verne traduzidos no Brasil e publicados por B.-L. Garnier na década de 1870

Desses títulos, nove levaram de 5 a 11 anos para serem traduzidos por Garnier. É necessário levar em consideração que a primeira tradução desse autor, editada por Garnier, apareceu em 1873 e muitas das obras de sucesso de Verne foram originalmente publicadas ainda na década de 1860. O que chama a atenção, como já observaram Catharina e Santos (2014CATHARINA, Pedro Paulo Garcia Ferreira; SANTOS, Edmar Guirra dos. Jules Verne na imprensa brasileira do século XIX. Pensares em Revista, n. 4, p. 5-25, jan./jul. 2014. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.12957/pr.2014.14112 . Acesso em: 31 maio 2020.
https://doi.org/10.12957/pr.2014.14112...
, p. 11-12), é a quase simultaneidade com que algumas dessas obras foram lidas pelo público francês e brasileiro, pois 10 títulos chegaram ao mercado no Brasil no mesmo ano ou no ano posterior à publicação de sua primeira edição na França, sendo que a diferença de tempo para todos eles resume-se a poucos meses, o que indica a sintonia dos mercados livreiros dos dois países (ABREU, 2019ABREU, Márcia. Uma questão de escala, não de natureza: a circulação da cultura no século XIX. Réel. Revue étudiante des expressions lusophones, v. 3, p. 265-281, 2019. Disponível em: Disponível em: https://lareel.org/numeros/reel-n3-2019/ . Acesso em: 10 fev. 2020.
https://lareel.org/numeros/reel-n3-2019/...
).

O curto intervalo com que Garnier oferecia essas obras aos leitores pode se justificar devido ao fato de muitas delas terem sido inicialmente publicadas por Hetzel no seu Magasin d’éducation et de récréation antes de saírem em livro. A publicação dos romances em periódico, que por vezes antecedia sua publicação em livro, permitia aos tradutores o acesso às obras a serem vertidas e acelerava a finalização da versão em língua portuguesa. Não localizamos na imprensa brasileira anúncios que atestassem a disponibilidade do Magasin d’éducation et de récréation para os leitores brasileiros. Todavia, diante do sucesso dos romances disponibilizados nesses periódicos, é possível supor que Garnier tivesse, de alguma forma, acesso à revista, compartilhando-a com seus tradutores.

Os arquivos de Pierre-Jules Hetzel não mencionam contratos ou correspondências com Baptiste-Louis Garnier,28 28 Consta uma única menção ao nome Garnier nos livros de registros, referente aos Garnier Frères de Paris, que herdaram o negócio de B.-L. Garnier e compraram dos sucessores de Hetzel, em 1914, os direitos de tradução no Brasil de Voyage au centre de la Terre. levando a crer que as obras de Verne foram publicadas sem a autorização do editor. Outro dado corrobora com essa hipótese. Durante esse período, Garnier mandava imprimir algumas obras de sua editora em Paris, mas somente aquelas de escritores brasileiros, como Bernardo Guimarães, Machado de Assis, Joaquim Manoel de Macedo, dentre outros. As traduções de língua francesa, no entanto, foram impressas no Rio de Janeiro, na Tipografia Franco-Americana29 29 Obras de autores brasileiros editadas por Garnier também foram impressas nessa tipografia fundada por Garnier em sociedade com Charles Berry. , permitindo a interpretação de que Garnier evitaria, com isso, chamar a atenção dos editores franceses e dos autores em relação aos romances possivelmente contrafeitos.

Uma vez montada uma estrutura de tradução e de impressão desses romances, era necessária também a execução de estratégias de divulgação e de promoção das obras publicadas. Tomando o caso dos romances de Jules Verne, verificamos sua disseminação por diversas províncias do império.

Os dados aqui apresentados provêm de consultas feitas na Hemeroteca Digital Brasileira e se restringem aos jornais e revistas disponíveis nessa plataforma e às ocorrências localizadas por meio do recurso de busca textual. Mesmo assim, não são nada negligenciáveis, pois seu volume constitui uma amostra bastante significativa da publicidade, recepção e circulação desses romances. Ao todo, constam quase 1300 ocorrências referentes aos romances de Verne, localizadas em 66 jornais brasileiros e classificadas para este estudo de acordo com o tipo de texto identificado: anúncio, nota de publicação, nota de agradecimento, artigo crítico ou mesmo publicação como romance-folhetim. Garnier pôs em prática uma ostensiva publicidade, anunciando os romances de Verne nesses 66 diferentes jornais, de 28 cidades, além do jornal O Novo Mundo, de Nova Iorque, que costumava receber os exemplares desse editor e anunciá-los em suas páginas. Essa publicidade estimulada pelo editor representa 43,7% de todos os anúncios identificados nos romances de Verne. A Tipografia da Gazeta de Notícia era a segunda maior anunciante, mas numericamente bem distante, com apenas 11,9%. A maior parte desses anúncios da Gazeta dizem respeito à venda do romance As índias negras, publicado nesse jornal e, em seguida, impresso em forma de livro pela própria tipografia. Ao todo, era possível encontrar os livros de Verne à venda em 38 estabelecimentos do país, em sua maior parte em edições provenientes da casa Garnier.

Contudo, esse editor teve que lidar com a concorrência das versões vindas de Portugal, mais especificamente da Empresa Horas Românticas, fundada por David Corazzi em parceria com Ramiro de Seixas e Vicente da Silva. Essa editora ganhou notoriedade com a publicação dos principais autores nacionais portugueses e de traduções de autores franceses, principalmente Jules Verne. De acordo com João Almeida Flor, a empresa aperfeiçoou-se, acompanhando as inovações tecnológicas do período, e desenvolveu uma rede de distribuição que alcançou o Rio de Janeiro, Boston, Hamburgo, Madrid, Paris, Londres e até mesmo Shangai (FLOR, 2013FLOR, João Almeida. Publishing translated literature in late 19th century Portugal: the case of David Corazzi’s catalogue (1906). In: SERUYA, Teresa; D’HULST, Lieven; ROSA, Alexandra Assis; MONIZ, Maria Lin. Translation in Anthologies and Collections (19th and 20th Centuries). Amsterdam; Filadélfia: John Benjamins Publishing Company, 2013., p. 128-129). Na verdade, foi detectada a venda não apenas na corte, mas também em diferentes províncias do país de obras ilustradas de Verne, o que sugere sua proveniência da casa de Corazzi, já que as edições de Garnier não dispunham de ilustrações.30 30 Os anúncios de livro costumavam oferecer muitos detalhes sobre sua materialidade, como quantidade de volumes, tipo de encadernação, dimensão (in-4°, in-8°, in-12) e principalmente a existência ou não de gravuras. Em nenhum dos mais de 400 anúncios de Garnier localizados houve a menção da presença de ilustrações nas obras. Walfredo & Souza, livreiros de Recife, fizeram questão de destacar a origem das obras de Verne, vindas da Empresa Horas Românticas e vendidas em seu estabelecimento, a Livraria Industrial, ao enunciar: “Importantes livros publicados pela empresa Horas Românticas [...]” (Jornal do Recife, 29 de agosto de 1876JORNAL DO RECIFE. Recife: Typographia do Jornal de Recife, 29 ago. 1876, n. 195., n. 195).

A globalização da cultura a essa época permitiu, como se sabe, um grande trânsito de impressos, seja da Europa para o Brasil, ou do Brasil para aquele continente. Em nota publicada no jornal A Nação sobre as traduções de Verne, lê-se: “À infatigável solicitude do Sr. B. L. Garnier, o editor brasileiro que há prestado maiores serviços à literatura nacional, devemos já a tradução das seguintes obras de M. Verne, que atualmente, em crescido número de exemplares, correm o Brasil todo, e refluem até para o velho Portugal” (A Nação, 17 de março de 1876, n. 59A NAÇÃO: Jornal politico, commercial e litterario. Rio de Janeiro: Typographia Americana, 17 mar. 1876, n. 59.). De fato, as traduções de Garnier também chegaram ao mercado português, competindo com aquelas de Corazzi, como se verifica na Figura 7 em anúncio do livreiro-editor Ernesto Chardron, atuante em Portugal.

Figura 7.
Detalhe da revista Artes e Letras, n. 1, 1875, p. 88ARTES E LETRAS. Lisboa: Imprensa Nacional, n. 1, 1875, p.88..

As obras dos prestigiados autores nacionais assim como as traduções, editadas por Garnier, aparecem elencadas sob a mesma designação de “publicações brasileiras”. Essa maneira de se referir a esses livros não indica apenas o local de publicação, mas também o de pertencimento, já que houve um grande esforço em “anexar” (para utilizar a expressão de Casanova) as obras estrangeiras traduzidas ao patrimônio literário brasileiro. O discurso crítico sobre os romances de Verne, veiculado na imprensa, é exemplar desse tipo de atitude, pois muitos redatores destacaram a importância das traduções e da iniciativa de Garnier para o engrandecimento das “letras pátrias” (BEZERRA, 2018bBEZERRA, Valéria Cristina. Tradução e literatura nacional: um estudo do empreendimento editorial de B. L. Garnier (1870-1880). In: SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de; MEDEIROS, Constantino Luz de (Orgs.). A história da literatura como problema: reflexões sobre a crise permanente nos estudos diacrônicos de literatura. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2018b. p. 85-99. Disponível em: Disponível em: https://abralic.org.br/downloads/e-books/e-book03.pdf . Acesso em: 15 jan. 2020.
https://abralic.org.br/downloads/e-books...
). O Diário de São Paulo, ao agradecer a Garnier o envio de alguns exemplares saídos pela sua editora, destacou: “O infatigável editor sr. B. L. Garnier continua no louvável empenho de nacionalizar as melhores obras da literatura e ciência que aparecem na França” (17 de fevereiro de 1875, n. 2781DIARIO DE S. PAULO. São Paulo: s.e., 17 fev. 1875, n. 2781.). A leitura da nota permite entender que tenha sido escrita pelo próprio redator da folha, mas, muitas vezes, declarações semelhantes aparecerem em forma de transcrição, entre aspas, como esta publicada no jornal O Despertador, de Santa Catarina, que diz: “Incontestavelmente é mais um bom serviço que às letras pátrias acaba de prestar o Sr. Garnier” (17 de outubro de 1875, n. 1425O DESPERTADOR. Desterro-SC: Typographia de J. J. Lopes , 17 out. 1875, n. 1425.). Ao que parece, o próprio Garnier encampou a construção dessa imagem de infatigável editor em defesa das letras nacionais, pois, ao remeter os seus mais recentes livros às redações dos jornais e revistas do país e do exterior, muitas vezes os fazia acompanhar por um texto avulso, com comentários de suas recentes publicações e sobre sua atuação como editor, que poderia ser publicado pelo periódico:

Remessa de livros. - Da livraria do Sr. B. L. Garnier nos foram obsequiosamente remetidos os seguintes volumes: O Novo Regimento de Custas; O Caracter, por Samuel Smiles; e a Ilha Misteriosa - o abandonado, por Julio Verne. A este acompanhou um avulso impresso com o título Bibliografia, que abaixo transcrevemos (O Despertador, 7 de agosto de 1875, n. 1301O DESPERTADOR. Desterro-SC: Typographia de J. J. Lopes, 7 ago. 1875, n. 1301.).

Essa remessa de livros era outra estratégia de publicidade executada por Garnier, que buscava promover suas obras favorecendo sua leitura e comentário pelos redatores. No entanto, o editor parecia querer facilitar ainda mais o trabalho dos colaboradores dos jornais e revistas, ao fornecer-lhes um texto crítico pronto para integrar a rubrica “Bibliografia”, recorrente na imprensa periódica da época e que tinha por finalidade oferecer aos leitores a resenha dos livros recém-publicados. Desse modo, Garnier interferia no tipo de recepção de suas obras e na sua própria imagem, ao buscar ser visto enquanto um editor empenhado na consolidação das letras brasileiras, seja pela publicação de escritos de autores nacionais ou de traduções. Esse mesmo artigo, enviado por Garnier à redação do jornal O Despertador, apareceu ainda no A Reforma, do Rio de Janeiro, em 14 de julho de 1875; no Liberal do Pará, em 17 de agosto de 1875, e no Diário de Maranhão, no dia 18 de agosto de 187531 31 É possível que haja outras ocorrências não localizáveis pela ferramenta de busca textual da Hemeroteca Digital Brasileira. . Em todos esses jornais, lia-se:

Uma prova de que não está estragado como parece o paladar literário do nosso público, é que todos os livros, cuja versão edita o infatigável Sr. B. L. Garnier, são os de Julio Verne os mais procurados. A empresa encetada pelo Sr. Garnier de verter para a língua pátria os melhores livros franceses, tem prestado ao público grandes e incontestáveis serviços, pois põe ao alcance de todos obras úteis, desenvolve o gosto pelo estudo e o amor da leitura. A prova disto é que as versões das obras de Julio Verne têm penetrado por quase todo o Brasil, e com isso muito e muito se tem lucrado (O Despertador, 7 de agosto de 1875, n. 1301).

Alguns desses artigos, replicados pelos jornais do país, eram, inicialmente, publicados nos jornais da corte, o que nos leva a duas hipóteses: ou Garnier contava com as chamadas “penas de aluguel”, homens e mulheres de letras a serviço dos interesses de dirigentes editoriais e de veículos jornalísticos, ou esse editor apropriava-se das resenhas estampadas nos jornais do Rio de Janeiro e as distribuía pelo país. A primeira hipótese ganha força quando verificamos que alguns desses artigos apareceram assinados, por exemplo, por N. Amália. Provavelmente trata-se de Narcisa Amália, que teve seu livro de poesias Nebulosas (1872) publicado por Garnier. Essa obra contou com texto crítico elogioso de autoria de Machado de Assis,32 32 Ver Semana Ilustrada, 29 de dezembro de 1872. escritor que à época também estava em busca de sua consolidação nas letras brasileiras. Como Lúcia Granja revela,

[...] a partir do início dos anos 1860, escritores e intelectuais brasileiros começaram a se reunir em torno de Baptiste-Louis Garnier, fazendo com que se configurasse, entre editor e escritores, uma relação de interdependência, na qual se cruzavam, naquele momento brasileiro, os interesses muitas vezes divergentes dos campos editorial e literário. No caso das relações entre o livreiro-editor francês radicado no Brasil e o então jovem Machado de Assis, veremos [...] como ambos se alinharam (e aliaram) em seus objetivos e ações: o livreiro-editor precisava, necessariamente, de um bom escritor, e o escritor em formação, precisava, necessariamente, de formas de veiculação para sua literatura (GRANJA, 2016GRANJA, Lúcia. Um editor no espaço público: Baptiste-Louis Garnier e a consolidação da coleção em Literatura Brasileira. Revista Estudos Linguísticos, v. 45, n. 3, p. 1205-1216, 2016. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/estudos-linguisticos/article/view/594/1126. Acesso em: 4 fev. 2020.
https://revistas.gel.org.br/estudos-ling...
, p. 1209).

Assim como Machado, que atuou em nome dos interesses de Garnier, resenhando e promovendo as obras publicadas por esse editor, Narcisa Amália, igualmente escritora da casa, escreveu artigos em favor das traduções de Verne e do trabalho de Garnier. A autora ressalta, no jornal A Reforma, o “fecundíssimo e brilhante” movimento literário desenvolvido por meio das traduções, “movimento devido à ilustrada iniciativa de distinto livreiro, o Sr. B. L. Garnier”. Em relação ao romance Aventuras de três russos e de três ingleses, a autora salienta: “O tédio que pode inspirar um cálculo matemático aos profanos da ciência, é modificado pelas viagens, caçadas, e inúmeros episódios que concorrem poderosamente para adoçar a aridez da matéria escolhida e conservar sempre excitada a curiosidade do leitor [...]” (A Reforma, 13 de fevereiro de 1875, n. 31.A REFORMA: Orgão Democratico. Rio de Janeiro: Typographia da Reforma, 13 fev. 1875, n. 31.). Como se pode ver ainda, da mesma maneira que a crítica francesa aos romances de Verne, nos textos críticos brasileiros, conforme ilustra essa passagem do artigo de Amália, também se destaca a associação entre instrução e recreação no julgamento dos romances desse autor, que tiveram seu valor reconhecido por contribuir para a “expansão das luzes” no país, ao formar um público e ilustrá-lo33 33 “[…] julgamos dever recomendar [Americanas, de Machado de Assis; Mariposas, de Edmundo Frank; A Ilha misteriosa - o segredo da ilha, de Jules Verne] a quantos se interessam de coração nesta nossa pátria digna de melhor sorte, pelo desenvolvimento das luzes e boa leitura.” A Pátria, 20 de janeiro de 1876, n. 9. , tornando o espaço literário nacional mais dinâmico e receptivo, inclusive para os autores nacionais (BEZERRA, 2018bBEZERRA, Valéria Cristina. Tradução e literatura nacional: um estudo do empreendimento editorial de B. L. Garnier (1870-1880). In: SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de; MEDEIROS, Constantino Luz de (Orgs.). A história da literatura como problema: reflexões sobre a crise permanente nos estudos diacrônicos de literatura. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2018b. p. 85-99. Disponível em: Disponível em: https://abralic.org.br/downloads/e-books/e-book03.pdf . Acesso em: 15 jan. 2020.
https://abralic.org.br/downloads/e-books...
).

Considerações finais

A partir dos dados apresentados, é possível afirmar que o exercício dos editores Hetzel e Garnier em proveito de suas empresas editoriais interferiu na configuração de espaços literários e na projeção de Verne. Um redator anônimo do Jornal da Tarde aludiu, por exemplo, a alguns aspectos implicados na tarefa do editor Garnier:

Trabalhando no interesse de sua indústria o Sr. Garnier auxilia e anima o desenvolvimento dos conhecimentos úteis e beneficia a instrução do país. Ao mesmo tempo estimula os que trabalham nas letras. Se retira avultados lucros, abençoados sejam eles, pela participação que tem o povo (Jornal da Tarde, 19 de dezembro de 1877, n. 239JORNAL DA TARDE: Folha politica e noticiosa. Rio de Janeiro: Typographia Americana , 19 dez. 1877, n. 239).

Esses editores, ao colocarem a máquina literária para funcionar por meio da publicação, mobilizaram numerosos agentes, que atuavam em nome de seus próprios interesses (econômicos ou simbólicos) e constituíam uma rede de dimensão internacional, capaz de alterar o cenário literário universal, de influir no delineamento das diferentes literaturas nacionais e de definir o gosto dos leitores. Como se vê, são muitos os indivíduos envolvidos nesse movimento, referidos pelo redator da nota citada acima como “o povo”, numa tentativa de dar conta dessa abrangência. Essas pessoas colocaram diferentes partes do globo em sintonia, não apenas por meio da leitura dos romances de Verne praticamente ao mesmo tempo, mas também, como vimos, pela apreciação crítica, que mobilizou critérios similares de julgamento na França e no Brasil, cujas literaturas ocupavam posições distintas no espaço literário internacional, mas justificavam pelas mesmas razões a importância das obras de Verne ao indicar sua capacidade de instruir divertindo.

É por isso que os números e as cifras são importantes para a compreensão da literatura, pois eles permitiram ver aqui a participação dos editores no êxito de crítica e de público dos romances de Verne e na consagração mundial desse escritor. Como vimos, Hetzel negociou com maior acuidade os clichês do que as traduções, com o fim de manter sua ingerência na circulação internacional dos romances de Verne, contribuindo para o delineamento do status dessas obras e desse escritor no mundo. Quanto a Garnier, seu objetivo de comercializar no Brasil as traduções de romances em evidência na França e no globo culminou na incorporação dessas obras no repertório em língua nacional, favorecendo a expansão do público e do patrimônio literário local e o fortalecimento das letras do país.

Referências

  • ABREU, Márcia. Beyond national borders 19th century fiction from and about Brazil. Brasil/Brazil. Revista de Literatura Brasileira, v. 28, n. 51, p. 1-22, 2015. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/brasilbrazil/article/view/59589. Acesso em: 1 jun. 2020.
  • ABREU, Márcia. Uma questão de escala, não de natureza: a circulação da cultura no século XIX. Réel. Revue étudiante des expressions lusophones, v. 3, p. 265-281, 2019. Disponível em: Disponível em: https://lareel.org/numeros/reel-n3-2019/ Acesso em: 10 fev. 2020.
    » https://lareel.org/numeros/reel-n3-2019/
  • ABREU, Márcia; MITTMANN, Adiel. Lendo milhares de páginas em um dia: uma análise digital de textos críticos produzidos entre os séculos XVIII e XIX. Revista Leitura. Teoria & Prática, v. 35, p. 31-48, 2017a. Disponível em: Disponível em: https://ltp.emnuvens.com.br/ltp/article/view/629/398 Acesso em: 23 fev. 2020.
    » https://ltp.emnuvens.com.br/ltp/article/view/629/398
  • ABREU, Márcia; MITTMANN, Adiel. Ler o passado com ferramentas do futuro: uma análise digital de textos críticos do início do século XIX. Alea: Estudos Neolatinos, v. 19, n. 3, p. 651-667, 2017b. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/alea/v19n3/1807-0299-alea-19-03-651.pdf Acesso em: 23 fev. 2020.
    » https://www.scielo.br/pdf/alea/v19n3/1807-0299-alea-19-03-651.pdf
  • BEZERRA, Valéria Cristina. A literatura brasileira em cenário internacional: um estudo do caso de José de Alencar. Belo Horizonte: Relicário, 2018a.
  • BEZERRA, Valéria Cristina. Tradução e literatura nacional: um estudo do empreendimento editorial de B. L. Garnier (1870-1880). In: SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de; MEDEIROS, Constantino Luz de (Orgs.). A história da literatura como problema: reflexões sobre a crise permanente nos estudos diacrônicos de literatura. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2018b. p. 85-99. Disponível em: Disponível em: https://abralic.org.br/downloads/e-books/e-book03.pdf Acesso em: 15 jan. 2020.
    » https://abralic.org.br/downloads/e-books/e-book03.pdf
  • BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
  • CAPPELLEMANS, Victor. De la propriété littéraire et artistique en Belgique et en France Bruxelas: Delevingne et Callewaert; Paris: Jules Renouard et Comp., 1854.
  • CATHARINA, Pedro Paulo Garcia Ferreira; SANTOS, Edmar Guirra dos. Jules Verne na imprensa brasileira do século XIX. Pensares em Revista, n. 4, p. 5-25, jan./jul. 2014. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.12957/pr.2014.14112 Acesso em: 31 maio 2020.
    » https://doi.org/10.12957/pr.2014.14112
  • DUMAS, Olivieri; RIVA, Piero Gondolo della; DEHS, Volker (Orgs.) Correspondance inédite de Jules Verne et Pierre-Jules Hetzel (1863-1886) Tomo II. Genebra: Slatkine, 2001.
  • DUMAS, Olivier. Hetzel, censeur de Verne. In: ROBIN, Christian (Org.). Un éditeur et son siècle: Pierre-Jules Hetzel (1814-1886). Saint-Sébastien: ACL Édition; Société Crocus, 1988.
  • FLOR, João Almeida. Publishing translated literature in late 19th century Portugal: the case of David Corazzi’s catalogue (1906). In: SERUYA, Teresa; D’HULST, Lieven; ROSA, Alexandra Assis; MONIZ, Maria Lin. Translation in Anthologies and Collections (19th and 20th Centuries) Amsterdam; Filadélfia: John Benjamins Publishing Company, 2013.
  • GARCIA, Izenete Nobre. Jornais-romance: uma história não contada da circulação de romances no Brasil. 2016. 232 f. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária). Instituto de Estudo da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016.
  • GOURÉVITCH, Jean-Paul. Hetzel: le bon génie des livres. Paris: Le Serpent à Plumes, 2005.
  • GRANJA, Lúcia. Entre homens e livros: contribuições para a história da livraria Garnier no Brasil. Revista do Livro, v. 3, p. 41-49, 2013.
  • GRANJA, Lúcia. Um editor no espaço público: Baptiste-Louis Garnier e a consolidação da coleção em Literatura Brasileira. Revista Estudos Linguísticos, v. 45, n. 3, p. 1205-1216, 2016. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/estudos-linguisticos/article/view/594/1126 Acesso em: 4 fev. 2020.
    » https://revistas.gel.org.br/estudos-linguisticos/article/view/594/1126
  • LEÃO, Andréa Borges. Vamos ao Brasil com Jules Verne? Processos editoriais e civilização nas Voyages Extraordinaires Revista Sociedade e Estado, v. 27, n. 3, p. 494-517, set./dez. 2012. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/se/v27n3/04.pdf Acesso em: 2 jun. 2020.
    » https://www.scielo.br/pdf/se/v27n3/04.pdf
  • MOLLIER, Jean-Yves. O dinheiro e as letras: história do capitalismo editorial. Tradução de Katia Aily Franco de Camargo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010. p. 694.
  • POLLAUD-DULIAN, Frédéric. Propriété intellectuelle Le droit d’auteur. Paris: Ed. Economica, 2014.
  • SANTOS, Edmar Guirra dos. A trajetória de Jules Verne: a arte, o escritor e seu editor. 2016. 243 f. Tese (Doutorado em Letras Neolatinas). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.
  • TRESACO, María-Pilar. As primeiras edições brasileiras de Voyages extraordinaires de Jules Verne. In: JOBIM, José Luís; MELLO, Maria Elizabeth Chaves de; MARTIN, Eden Viana; KERMELE, Nejma (Orgs.) Diálogos França-Brasil: circulações, representações, imaginários. Rio de Janeiro: Makunaima, 2019. p. 308-334.

Periódicos citados

  • A NAÇÃO: Jornal politico, commercial e litterario. Rio de Janeiro: Typographia Americana, 17 mar. 1876, n. 59.
  • A PATRIA: Folha da Provincia do Rio de Janeiro. Nictheroy: Typographia da Patria, 20 jan. 1876, n. 9.
  • A REFORMA: Orgão Democratico. Rio de Janeiro: Typographia da Reforma, 13 fev. 1875, n. 31.
  • ARTES E LETRAS. Lisboa: Imprensa Nacional, n. 1, 1875, p.88.
  • DIARIO DE S. PAULO. São Paulo: s.e., 17 fev. 1875, n. 2781.
  • JORNAL DA TARDE: Folha politica e noticiosa. Rio de Janeiro: Typographia Americana , 19 dez. 1877, n. 239
  • JORNAL DO COMMERCIO. Rio de Janeiro: Typographia do Jornal do Commercio, 29 jun. 1878, n. 180.
  • JORNAL DO RECIFE. Recife: Typographia do Jornal de Recife, 29 ago. 1876, n. 195.
  • O DESPERTADOR. Desterro-SC: Typographia de J. J. Lopes, 7 ago. 1875, n. 1301.
  • O DESPERTADOR. Desterro-SC: Typographia de J. J. Lopes , 17 out. 1875, n. 1425.

  • 1
    Este artigo oferece parte dos resultados de pesquisa de pós-doutorado realizada na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e na Université Paris Nanterre, com Bolsa de Pós-Doutorado e com Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
  • 2
    Considero aqui as tecnologias existentes para a propagação de obras no período estudado, visto que as plataformas digitais diversificaram ainda mais as formas de circulação e leitura de textos.
  • 3
    Detenho-me nas traduções publicadas por Garnier durante a década de 1870, período de maior intensidade e regularidade da publicação de traduções por esse editor. Os romances de Verne posteriores a essa década não estão inclusos neste estudo, apesar de continuarem a serem traduzidos e editados por Garnier no Brasil nos anos de 1880. Sobre La Jangada, romance traduzido por José Maria Vaz Pinto Coelho e publicado por Garnier em 1882, remeto aos estudos de Andrea Borges Leão (2012LEÃO, Andréa Borges. Vamos ao Brasil com Jules Verne? Processos editoriais e civilização nas Voyages Extraordinaires. Revista Sociedade e Estado, v. 27, n. 3, p. 494-517, set./dez. 2012. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/se/v27n3/04.pdf . Acesso em: 2 jun. 2020.
    https://www.scielo.br/pdf/se/v27n3/04.pd...
    ) e Márcia Abreu (2015ABREU, Márcia. Beyond national borders 19th century fiction from and about Brazil. Brasil/Brazil. Revista de Literatura Brasileira, v. 28, n. 51, p. 1-22, 2015. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/brasilbrazil/article/view/59589. Acesso em: 1 jun. 2020. ). Já Pedro Paulo Catharina e Edmar Guirra dos Santos (2014CATHARINA, Pedro Paulo Garcia Ferreira; SANTOS, Edmar Guirra dos. Jules Verne na imprensa brasileira do século XIX. Pensares em Revista, n. 4, p. 5-25, jan./jul. 2014. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.12957/pr.2014.14112 . Acesso em: 31 maio 2020.
    https://doi.org/10.12957/pr.2014.14112...
    ) apresentam a recepção de Verne na imprensa brasileira em período que abrange toda a carreira do romancista. María-Pilar Tresaco (2019TRESACO, María-Pilar. As primeiras edições brasileiras de Voyages extraordinaires de Jules Verne. In: JOBIM, José Luís; MELLO, Maria Elizabeth Chaves de; MARTIN, Eden Viana; KERMELE, Nejma (Orgs.) Diálogos França-Brasil: circulações, representações, imaginários. Rio de Janeiro: Makunaima, 2019. p. 308-334.) faz um inventário das traduções brasileiras de Jules Verne entre 1867 e 1882, descrevendo o teor das notas de publicação veiculadas na imprensa.
  • 4
    A data inicial refere-se ao início da publicação dos romances de Verne em volume e a data final ao ano a partir do qual houve um arrefecimento da empresa de tradução de B.-L. Garnier.
  • 5
    A plataforma DLNotes2 foi desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística (NUPILL) e pelo Laboratório de Pesquisas em Sistemas Distribuídos (LAPESD), da UFSC, e adaptada para a análise de textos críticos por pesquisadores do projeto “Circulação Transatlântica dos Impressos”, sob coordenação de Márcia Abreu (UNICAMP). Ver ABREU; MITTMANN, 2017ABREU, Márcia; MITTMANN, Adiel. Lendo milhares de páginas em um dia: uma análise digital de textos críticos produzidos entre os séculos XVIII e XIX. Revista Leitura. Teoria & Prática, v. 35, p. 31-48, 2017a. Disponível em: Disponível em: https://ltp.emnuvens.com.br/ltp/article/view/629/398 . Acesso em: 23 fev. 2020.
    https://ltp.emnuvens.com.br/ltp/article/...
    a e 2017ABREU, Márcia; MITTMANN, Adiel. Ler o passado com ferramentas do futuro: uma análise digital de textos críticos do início do século XIX. Alea: Estudos Neolatinos, v. 19, n. 3, p. 651-667, 2017b. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/alea/v19n3/1807-0299-alea-19-03-651.pdf . Acesso em: 23 fev. 2020.
    https://www.scielo.br/pdf/alea/v19n3/180...
    b.
  • 6
    Pseudônimo de Julia Daudet.
  • 7
    “[…] ce long récit animé et savant comme tous ceux du même auteur renferme des éléments dramatiques d’un grand intérêt”. Journal officiel de la République Française, 21 de dezembro de 1876.
  • 8
    Os livros de registros das operações realizadas por Hetzel são conservados pelo Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), localizado em Saint-Germain-la-Blanche-Herbe, França.
  • 9
    Vale lembrar que, à época, a Itália ainda não era unificada.
  • 10
    Assim como a Itália, a Alemanha também não era um território unificado.
  • 11
    Dear sir, I’m somewhat astonished to found that M. Barba has printed the “Boy Hunters” and “Young voyageurs”, as his property. I never sold them to him, and my publisher M. Bogue in London could not has done so without apprising me of it, which during his life he never did”. Carta de Mayne Reid a Louis Hachette. S/d. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HAC 32.16. The boy hunters teve sua primeira edição em 1853 e The young voyagers em 1854. Hetzel publicou a tradução Les Jeunes Voyageurs em 1877.
  • 12
    Je sais bien que vos frais sont considérables sur une édition illustrée mais aussi ce doivent être ces éditions qui vous rapportent le plus. Et ce sont celles qui me rapportent le moins”. Carta de Jules Verne a Pierre-Jules Hetzel de 14 de maio de 1875.
  • 13
    Os contratos celebrados entre Pierre-Jules Hetzel e Jules Verne foram consultados na Bibliothèque nationale de France: NAF 17007, Archives Hetzel, Dossiers d’auteurs LXXVI - Jules Verne (contrats, reçus, pièces comptables). Os contratos encontram-se também transcritos na tese de Edmar Guirra dos Santos (2016SANTOS, Edmar Guirra dos. A trajetória de Jules Verne: a arte, o escritor e seu editor. 2016. 243 f. Tese (Doutorado em Letras Neolatinas). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.).
  • 14
    “[…] doivent être employés à accompagner des traductions en langue allemande, et ne pourront être affectés à aucune autre destination”.
  • 15
    L’autorisation de la traduction en langue allemande est comprise sans autre rétribution.” Contrato celebrado entre Jules Hetzel e A. Hartteben. 07 de março de 1874. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 3.17.
  • 16
    Contrato celebrado entre Pierre-Jules Hetzel e Xavier de Lassalle e Mélan. Paris, 7 de junho de 1875. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 4.10.
  • 17
    “[…] il est entendu que la traduction du texte sera confiée à Madame Markowitch et non à aucun autre.” Contrato celebrado entre Pierre Jules Hetzel, Michel Smirnoff e Michel Lobacz-Touchenko. S/d. Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 8.42.
  • 18
    A versão interativa desse gráfico encontra-se disponível no site https://infogram.com/venda-de-hetzel-no-mundo-1h7g6kvg0q004oy?live.
  • 19
    As informações anotadas nos livros de registros referem-se às operações realizadas a partir de 1867.
  • 20
    O período de análise contempla aqui os anos entre 1867, data em que tem início as anotações das operações nos livros de registro, e 1880, data final do recorte de estudo.
  • 21
    Em 1867, Hetzel e Jean Pafrine, de São Petersburgo, acordaram que um terço dos lucros da edição russa de Le Capitaine Hatteras seria destinado a Hetzel. Não foram mencionados os valores finais resultantes desse acordo.
  • 22
    Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), HTZ 2.63 (Dossier dessins).
  • 23
    A nota foi reproduzida ainda no Diário de Pernambuco, em 25 de junho de 1878, n.143, e em O Monitor, da Bahia, de 4 de julho de 1878, n. 25.
  • 24
    As datas de publicação na França apresentadas na tabela referem-se à primeira aparição dos romances, seja ela em periódico ou em livro, considerando a possibilidade de que os tradutores brasileiros tenham recorrido à versão impressa nos jornais e revistas para realizarem a tradução.
  • 25
    Considerei Le Docteur Ox e as demais novelas que acompanham a coletânea, como Maître Zacharius, Un hivernage dans les glaces, Un drame dans les airs, como sendo um só título, visto que integram um único volume tanto na versão original quanto na traduzida.
  • 26
    Martin Paz apareceu no Musée des familles entre julho e agosto de 1852.
  • 27
    Un drame au Mexique foi igualmente publicado, originalmente, no Musée des familles em 1851. A versão contou com alterações, inclusive no título, para ser publicada no Magasin d'éducation et de recréation em 1876. Possivelmente, é essa última versão que foi traduzida e publicada no Brasil.
  • 28
    Consta uma única menção ao nome Garnier nos livros de registros, referente aos Garnier Frères de Paris, que herdaram o negócio de B.-L. Garnier e compraram dos sucessores de Hetzel, em 1914, os direitos de tradução no Brasil de Voyage au centre de la Terre.
  • 29
    Obras de autores brasileiros editadas por Garnier também foram impressas nessa tipografia fundada por Garnier em sociedade com Charles Berry.
  • 30
    Os anúncios de livro costumavam oferecer muitos detalhes sobre sua materialidade, como quantidade de volumes, tipo de encadernação, dimensão (in-4°, in-8°, in-12) e principalmente a existência ou não de gravuras. Em nenhum dos mais de 400 anúncios de Garnier localizados houve a menção da presença de ilustrações nas obras.
  • 31
    É possível que haja outras ocorrências não localizáveis pela ferramenta de busca textual da Hemeroteca Digital Brasileira.
  • 32
    Ver Semana Ilustrada, 29 de dezembro de 1872.
  • 33
    “[…] julgamos dever recomendar [Americanas, de Machado de Assis; Mariposas, de Edmundo Frank; A Ilha misteriosa - o segredo da ilha, de Jules Verne] a quantos se interessam de coração nesta nossa pátria digna de melhor sorte, pelo desenvolvimento das luzes e boa leitura.” A Pátria, 20 de janeiro de 1876, n. 9.A PATRIA: Folha da Provincia do Rio de Janeiro. Nictheroy: Typographia da Patria, 20 jan. 1876, n. 9.

  • Parecer Final dos Editores

    Ana Maria Lisboa de Mello, Elena Cristina Palmero González, Rafael Gutierrez Giraldo e Rodrigo Labriola, aprovamos a versão final deste texto para sua publicação.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Maio 2022
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2022

Histórico

  • Recebido
    04 Jun 2021
  • Aceito
    16 Nov 2021
Programa de Pos-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras -UFRJ Av. Horácio Macedo, 2151, Cidade Universitária, CEP 21941-97 - Rio de Janeiro RJ Brasil , - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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