Open-access A SOBREVIVÊNCIA DE UM PROJETO EDITORIAL COLETIVO: A ALMANACK E UM ACORDO INÉDITO DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA

THE SURVIVAL OF A COLLECTIVE EDITORIAL PROJECT: ALMANACK AND AN UNPRECEDENTED AGREEMENT FOR ACADEMIC COOPERATION

Resumo

Apresentamos os esforços de um trabalho coletivo e colaborativo entre instituições de pesquisa e ensino superior na manutenção e desenvolvimento de um periódico acadêmico, a Revista Almanack. Especificamente, tratamos da elaboração e execução de um acordo de cooperação interinstitucional inédito no campo de editoração, através da assinatura de um termo entre quatro instituições parceiras: UNIFESP, UFOP, UFES e PUC-RIO. As diretrizes deste acordo estão em consonância com as propostas de avaliação da CAPES para o fortalecimento da nucleação e iniciativas colaborativas. Por fim, tratamos também dos desafios e perspectivas futuras para a editoração, financiamento e publicação de periódicos acadêmicos no Brasil.

Palavras-chaves:
periódicos acadêmicos; cooperação; interinstitucionalidade; Almanack

Abstract

We present the collective and collaborative efforts of research and higher education institutions in maintaining and developing the academic journal, Revista Almanack. Specifically, we examine the creation and implementation of an unprecedented interinstitutional cooperation agreement in the field of academic publishing, formalized through a memorandum of understanding signed by four partner institutions: UNIFESP, UFOP, UFES, and PUC-RIO. The guidelines of this agreement are consistent with CAPES’s evaluation policies, which aim to strengthen institutional networks and foster collaborative initiatives. Finally, we discuss the challenges and future prospects for the editing, funding, and publication of academic journals in Brazil.

Keywords:
academic journals; cooperation; interinstitutionality; Almanack

A Revista Almanack nasce na primeira década do século XXI em meio a duas grandes iniciativas acadêmicas paralelas - cada qual envolvendo pesquisadores de diferentes universidades nacionais e internacionais. Ambas envolveram a perspectiva analítica da construção e do desenvolvimento do Estado e da nação no Brasil. A primeira delas foi conduzida por pesquisadoras/es reunidas/os em torno do Projeto Temático Formação do Estado e da nação: Brasil, c.1780-c.1850 sob a direção de István Jancsó (USP, in memoriam), que contou com apoio concedido pela FAPESP, entre os anos de 2005 e 2009. A segunda iniciativa nasceu no âmbito do Centro de Estudos do Oitocentos (CEO) que resultou em três sucessivos projetos financiados pelo PRONEX / CNPq - FAPERJ: Nação e cidadania no Império: novos horizontes (2003-2006), Dimensões da cidadania no século XIX (2006-2009) e, posteriormente, Dimensões e fronteiras do Estado brasileiro no século XIX (2009-2012); os dois primeiros sob a coordenação de José Murilo de Carvalho (UFRJ) e o terceiro de Lúcia Bastos Pereira das Neves (UERJ).

A convergência entre estes grupos de pesquisa e investigadores fortaleceu o projeto acadêmico que resultou na Revista Almanack sediada na Universidade Federal de São Paulo desde 2011. Este momento possibilitou o amadurecimento de parcerias institucionais presentes desde o primeiro número como um dos traços mais marcantes de nossa revista: a interinstitucionalidade. Sua realização passou a ser feita por pesquisadores/as de diversas instituições nacionais, em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco e Rio Grande do Sul - UNIFESP, USP, UFF, UNIRIO, UERJ, UFJF, UFOP, UFES, UFRJ, UFSJ, UFRRJ, PUC-RIO, UFRPE e UFRGS, além de contar com a participação de colegas de instituições estrangeiras sediados, sobretudo, na Argentina, Estados Unidos, Espanha e França. Tratou-se, e trata-se, de experiência promissora, que contribuiu para alargar ainda mais a interlocução, divulgação de trabalhos e compreensão crítica acerca do período enfocado. Essa ampliação fez com que, cada vez mais, a Revista voltasse aos temas vinculados à espacialidade americana, sobretudo de tradição ibérica, consolidando-se como especializada nas mais variadas dimensões de sua formação. Além disso, em 2013, a CEO também deu origem à criação da Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos, instituição à qual nossa Revista se vincula como parceira11.

Importante destacar que essa colaboração nacional e internacional representa o cerne dos interesses da Almanack na produção e compartilhamento de métodos, teorias e experiências históricas entre regiões e países para a pesquisa das temáticas vinculadas à revista e para a produção de alto impacto científico. Nosso processo de internacionalização não se dá apenas através da participação de investigadores/as e de instituições internacionais, mas também no efeito multiplicador que essa interação produz na circulação e divulgação em diferentes espaços, ampliando nosso público leitor e colaborador nas publicações e nos pareceres.

O histórico acima, portanto, demonstra a característica colaborativa da Almanack desde o seu nascimento. Sempre fez parte da prática do seu Conselho editorial a busca por meios de manutenção e financiamento da revista. Neste sentido, para além das horas de dedicação às atividades rotineiras da editoração e acompanhamento do fluxo de publicações, existe a necessidade de captar recursos e serviços entre as instituições. Foi neste cenário que nasceu a ideia de criar um acordo de cooperação que desse transparência a tais atividades e que auxiliasse burocraticamente essa manutenção compartilhada. Através da Unifesp, sede da Almanack, iniciamos o processo de acordo com a Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP; a Universidade Federal do Espírito Santo - UFES; e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-RIO. Foi elaborada uma minuta, compartilhada e debatida entre as universidades participantes, e um termo final foi celebrado entre elas em fevereiro deste ano de 2025.

Entre a ideia inicial, as conversações - sobretudo entre os Programas de Pós-Graduação em História envolvidos e seus coordenadores - e a assinatura do “Acordo de Cooperação n. 33/2024, que entre si celebram a UNIFESP, a UFOP, UFES, PUC-RIO, para acordo interinstitucional para manutenção, administração e desenvolvimento do periódico Revista Almanack” se passou um ano. Entre aspectos burocráticos, práticos e pragmáticos, levamos alguns meses para criar e consolidar um modelo que garantiu segurança jurídica e atribuiu limites e obrigações para todas as partes. Por se tratar de um acordo inédito, não possuíamos modelos a seguir e este se tornou um aprendizado e, quiçá, um projeto para outros periódicos. É precisamente nesse caráter inédito que se delineiam os principais desafios relativos à editoração e à manutenção de periódicos no Brasil, ponto a partir do qual se torna possível problematizar o futuro das publicações acadêmicas nas instituições de pesquisa.

Realizar alguns apontamentos sobre o momento de criação da Almanack, do ponto de vista do ecossistema de publicação científica, lança luz sobre a importância do acordo tanto para a Revista como para o conjunto de revistas nacionais. Como mencionado, o periódico foi criado em 2011, período em que tivemos uma expansão do sistema universitário nacional, considerando 2008-2012 em especial (Reuni, ampliação do Fies, criação de PPGs) e, com ela, uma ampliação também da criação de periódicos. Esse elemento pode ser observado na Figura 1, em que são mostrados os anos de criação dos 224 títulos em atividade da área de História e áreas aderentes.

Figura 1
Periódicos de História por ano de criação12

Chama a atenção ainda que é neste momento que se inicia a divulgação do SEER/OJS no contexto brasileiro, promovida pelo Ibict, e que parte deste intervalo temporal também está relacionada com o período da antiga avaliação trienal da CAPES dos PPGs (agora quadrienal). Nessa avaliação, referente ao período de 2010-2012, vemos um indicativo indutor na ficha de avaliação dos programas acadêmicos, que em seu item ‘5.3 - Visibilidade ou transparência dada pelo programa à sua atuação’ avaliava também “(...) a existência de periódico publicado pelo programa”13.

Mesmo que tal contexto tenha sido de grande proliferação de periódicos, é interessante observarmos que, ainda no ano de 2015, em uma entrevista concedida pelo coordenador de área de História na CAPES à época, Carlos Fico, essa situação já era problematizada. Temos em sua fala,

No tocante à multiplicação de periódicos, é uma realidade decorrente em grande medida da ideia de que todo programa de pós-graduação tem de ter sua publicação. Assim, acabam surgindo revistas de história com nenhuma expressão acadêmica: eventualmente até publicam artigos de boa qualidade, mas não circulam e são pouco acessadas quando são eletrônicas. Logo, algumas dessas revistas estão enfrentando problemas de captação de artigos, de completar números, de periodicidade, de financiamento etc. Talvez fosse desejável uma atuação interinstitucional que resultasse na fusão de periódicos, para que possam adquirir mais visibilidade14.

Sem dúvida que a fala do coordenador teve e tem seu sentido, ainda mais quando temos em vista a dificuldade na sustentabilidade dos periódicos. Mas deve-se salientar que foi exatamente o sistema de avaliação, incentivado sob sua coordenação, que produziu um aumento significativo na criação de periódicos em nome do crescimento quantitativo da produção acadêmica. Vale dizer que o elemento que atravessa a trajetória da Revista há dez anos foi na contramão de um produtivismo exacerbado, formalmente consolidado agora com um acordo interinstitucional. Acordo este estabelecido não pela fusão, mas por um compromisso mútuo de manutenção e desenvolvimento da revista como bem público e espaço significativo de nossa comunidade de pesquisadores da história especializados no mundo ibero-americano entre os séculos XVIII e XIX. E essa estruturação se mostra mais importante ainda por sua singularidade. Passamos a cooperar não apenas em nível informal - ou mesmo em nível formal entre os grupos de pesquisa - e, sobretudo, instauramos um processo de colaboração entre nossos PPGs e nossas instituições de ensino. Assim, o acordo é um marco inédito, até onde temos conhecimento, na gestão de periódico científico em História e talvez até entre revistas de outras áreas.

Exatamente por compreendermos as mudanças pelas quais passam os periódicos científicos tanto nas formas de avaliação quanto de divulgação e transparência de seus processos editoriais, apresentamos aqui nossos primeiros passos no âmbito do acordo interinstitucional de gestão e editoração da Almanack. A assertividade neste caminho se confirma pelas mudanças nas políticas editoriais apontadas acima, pelos princípios colaborativos que também fazem parte dos pressupostos das Ciências Abertas e também pelo incentivo das agências de fomento como a Capes. Neste sentido, a cooperação institucional e acadêmica são valores agregados ao processo editorial. Não custa lembrar o papel fundamental que exercem os programas de Pós-graduação em História de nossas instituições para a promoção do acordo, assim como é parte de nossas preocupações que nossos esforços resultem no avanço e aperfeiçoamento das atividades de pesquisa e produção acadêmica. As novas Diretrizes Comuns da Avaliação de Permanência dos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu da Capes visam, entre outras iniciativas, as propostas de solidariedade e nucleação através da criação de ambientes colaborativos. As redes de colaboração acadêmica compreendem a colaboração entre diferentes instituições de ensino, tanto dentro do país quanto internacionalmente. Neste caso, lembramos os vínculos editoriais da revista com pesquisadores de instituições estrangeiras. Tal colaboração pode compreender o compartilhamento de recursos e projetos coletivos e o importante é que possuam objetivos comuns, recursos e apoio organizacionais. Um dos exemplos que podemos apontar em termos de colaboração de recursos tem sido a destinação de verbas PROAP para as despesas de revisão de textos. Além de verbas PROAP e/ou de pesquisa das instituições - UNIFESP, UFOP e PUC-RIO -, temos contado também com serviços de editoração dentro da Universidade, como no caso da UFES.

Mas é importante notar que nossa política também lida com desafios. Devido ao caráter interinstitucional de nossa Revista, ela possui uma estrutura particular por nós desenhada para seu melhor funcionamento interno. A editoria-chefe e a vice-editoria podem ser ocupadas por pesquisadoras e pesquisadores de qualquer instituição brasileira ou internacional ligada a nossa rede. Mas devido ao fato da Almanack ter sido fundada como sede na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que mantém seu sistema OJS por meio de seu Portal de Periódicos, há necessidade de um/a editor/a-pesquisador/a vinculado/a a ela para responder pelas demandas institucionais. Da mesma forma, a editoria é composta por outras pessoas que respondem por uma função editorial vinculada à seção de dossiês, resenhas e de comunicação. Em função desse desenho, há uma tendência a que muitos Programas de Pós-Graduação (dos quais dependemos diretamente para sua realização) não vejam a Almanack como um produto genuinamente do seu âmbito, sem valorizar a rede de pesquisadores envolvidos nessa nucleação comum, que não apenas os da UNIFESP. Para além disso, vivemos uma situação esdrúxula quando, no Edital para Publicação de Periódicos do CNPq de 2024, nosso projeto foi visivelmente mal avaliado devido ao fato, alegado pelo órgão, da solicitação não ter sido feita em nome da editora chefe, mas sim no nome da editora chefe executiva vinculada à Unifesp. Então ocupava essa função Valentina Ayrolo, pesquisadora argentina vinculada à Universidad Nacional de Mar del Plata (Buenos Aires), que não possui vínculo nacional para solicitar recursos ao CNPq, e vice-editor chefe Fabrício Prado (William and Mary, Virginia, Estados Unidos) que possuía a mesma situação. A burocracia foi impassível diante de nosso recurso com a explicação circunstanciada acerca do funcionamento de nosso projeto editorial.

A trajetória da Almanack evidencia que a colaboração interinstitucional é não apenas uma estratégia de sobrevivência editorial, mas um modelo possível de sustentabilidade acadêmica e científica. A formalização do acordo entre UNIFESP, UFOP, UFES e PUC-RIO confirma a maturidade de um projeto coletivo que, desde sua origem, apostou na colaboração como valor fundante. O acordo celebrado em 2025 é, nesse sentido, um marco não apenas jurídico, mas simbólico: inscreve a revista em um movimento mais amplo de qualificação sob novas diretrizes de periódicos científicos. E nossa intenção é que ele possa se expandir a outras universidades brasileiras a partir da/os pesquisadora/os envolvida/os na Revista.

Embora os problemas de financiamento persistam, a Almanack reafirma sua vocação pública, seu compromisso com a ciência aberta e com o fortalecimento das redes de pesquisa que, ao longo de duas décadas, constituíram um campo historiográfico inovador sobre a formação dos Estados nacionais.

O futuro da Almanack depende, portanto, da continuidade desse esforço coletivo: de sua capacidade de se manter como espaço de diálogo entre grupos e instituições de pesquisa, de formar novas gerações de pesquisadores e assegurar que a história - como prática crítica colaborativa - continue a encontrar, em suas páginas, um território comum de reflexão e construção científica.

Referências

  • DIRETRIZES COMUNS DA AVALIAÇÃO DE PERMANÊNCIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU: Ciclo avaliativo 2025-2028 - Avaliação quadrienal 2029. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Brasília: Capes, 2025. Disponível em: Disponível em: http://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/documentos/avaliacao/19052025_20250502_ DocumentoReferencial_FICHA.pdf. Acesso em 14 out. 2025
    » http://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/documentos/avaliacao/19052025_20250502_
  • FICO, Carlos. A pós-graduação em história: tendências e perspectivas da área. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 22, n. 3, p. 1019-1031, set. 2015. Disponível em:Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702015000301019&lng=pt &tlng=pt Acesso em 11 out. 2025.
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  • FICO, Carlos; WASSERMAN, Claudia; MAGALHÃES, Marcelo de Souza. Relatório de avaliação 2010-2012: Trienal 2013. CAPES - Diretoria de Avaliação. 12 de nov. de 2013. Disponível em: Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/Histria.pdf Acesso em 11 out. 2025.
    » https://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/Histria.pdf
  • SOUSA, Marcos Eduardo. Periódicos da área de História: estado atual, evolução e apontamentos. Zenodo. 13 de jul. de 2025. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.16655303. Acesso em:11 out. 2025.
    » https://doi.org/10.5281/zenodo.16655303
  • 11
    SEO - https://www.seo.org.br.
  • 12
    Sousa, 2025, p. 7. A imagem faz parte de apresentação realizada durante o 33° Simpósio Nacional de História, realizado em julho de 2025, na reunião presencial do Fórum de Editores da ANPUH (Associação Nacional de História), por Marcos Eduardo de Sousa.
  • 13
    Fico; Wasserman; Magalhães, 2013, p. 14.
  • 14
    Fico, 2015, p. 1025, grifo nosso.
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    Os dados e demais informações obtidas para o presente estudo estão no próprio texto.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    17 Out 2025
  • Aceito
    18 Out 2025
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