Resumo
Objetivo Construir e validar um design simulado para atendimento de enfermagem no ambiente pré-hospitalar a vítimas de ferimento por arma branca.
Métodos Estudo metodológico desenvolvido em três etapas: levantamento de conteúdo a partir da literatura, elaboração do design da simulação clínica e validação do design da simulação por um comitê de experts. Os dados foram coletados por meio de um formulário de validação que avaliou a simulação clínica quanto ao objetivo, relevância, apresentação e estrutura. Para propor a validade de face e conteúdo foi adotado o índice de validade de conteúdo >80% de concordância.
Resultados O design foi composto por cinco etapas: preparação, participação e debriefing, teste de habilidades cognitivas, checklist de habilidades psicomotoras e atitudinais e fluxograma de tomada de decisões. O comitê foi composto por sete experts. Com base em suas respostas, foi obtido um resultado >85% de concordância em todos os itens de avaliação considerando uma “quase perfeita concordância”. No final, foi calculado o índice de validade de conteúdo total resultando em 99,3% de concordância. Foram julgados o design e os instrumentos como válidos, apresentando relevância, clareza, coerência, informações cientificamente corretas e uma sequência lógica que permite desenvolver competências profissionais.
Conclusão O design foi considerado valido em seu conteúdo por atingir uma “quase perfeita concordância”. Portanto, esse construto é confiável para planejar e executar a simulação clínica do atendimento de enfermagem a uma vítima de ferimento por arma branca em situação pré-hospitalar.
Descritores
Treinamento por simulação; Ferimentos perfurantes; Educação em enfermagem; Serviços médicos de emergência; Causas externas
Abstract
Objective To build and validate a simulated design for nursing care in the pre-hospital setting for victims of stab wounds.
Methods This is a methodological study developed in three stages: content survey from the literature; clinical simulation design elaboration; and simulation design validity by a committee of experts. Data were collected through a validity form that assessed clinical simulation regarding its objective, relevance, presentation and structure. To propose face and content validity, the Content Validity Index >80% agreement was adopted.
Results The design consisted of five stages, such as preparation, participation and debriefing, cognitive skills test, psychomotor and attitudinal skills checklist, and decision-making flowchart. The committee was composed of seven experts. Based on their responses, an agreement of >85% was obtained on all assessment items, considering “almost perfect agreement”. At the end, the total Content Validity Index was calculated, resulting in 99.3% agreement. The design and instruments were judged as valid, presenting relevance, clarity, coherence, scientifically correct information, and a logical sequence that allows the development of professional skills.
Conclusion The design was considered valid in its content because it achieved “almost perfect agreement”. Therefore, this construct is reliable for planning and executing clinical simulation of nursing care for a victim of stab wound in a pre-hospital situation.
Keywords
Simulation training; Wounds, stabs; Education nursing; Emergency medical services; External causes
Resumen
Objetivo Elaborar y validar un diseño simulado para la asistencia a víctimas de heridas por arma blanca por parte de enfermeros en ambiente prehospitalario.
Métodos Estudio metodológico realizado en tres etapas: recopilación de contenido a partir de la literatura, elaboración del diseño de la simulación clínica y validación del diseño de la simulación por un comité de especialistas. Los datos fueron recopilados mediante un formulario de validación que evaluó la simulación clínica con respecto al objetivo, la relevancia, la presentación y la estructura. Para proponer la validez aparente y contenido, se adoptó el índice de validez de contenido >80 % de concordancia.
Resultados El diseño estuvo compuesto por cinco etapas: preparación, participación y debriefing, prueba de habilidades cognitivas, checklist de habilidades psicomotoras y actitudinales y diagrama de flujo de toma de decisiones. El comité estuvo compuesto por siete especialistas. Con base en sus respuestas, se obtuvo un resultado de >85 % de concordancia en todos los ítems de evaluación, lo que se considera una “concordancia casi perfecta”. Al final se calculó el índice de validez de contenido total, que fue de 99,3 % de concordancia. El diseño y los instrumentos fueron considerados válidos y demostraron relevancia, claridad, coherencia, información científicamente correcta y una secuencia lógica que permite desarrollar competencias profesionales.
Conclusión El diseño fue considerado válido en su contenido por alcanzar una “concordancia casi perfecta”. Por lo tanto, este constructo es confiable para planificar y realizar la simulación clínica de la asistencia a víctimas de heridas por arma blanca por parte de enfermeros en situaciones prehospitalarias.
Descriptores
Entrenamiento por simulación; Heridas punzantes; Educación en enfermería; Servicios médicos de emergencia; Causas externas
Introdução
No contexto das emergências, trauma é considerado um problema de saúde pública, devido a sua alta morbimortalidade e os elevados gastos no sistema de saúde, ocupando o quarto lugar no ranking de internações em unidades de terapia intensiva no Brasil.(1)
O trauma é um mecanismo que envolve a troca de energia do ambiente com o corpo, resultando em lesões que podem acometer os órgãos.(2)Apresenta em grande escala como precursor, a violência social e acidentes de trânsito, capazes de provocar lesões traumáticas que se dividem em dois grupos: contusos e penetrantes.(3,4)
Ferimento por Arma Branca (FAB) é um dos principais exemplos de trauma penetrante, que pode ser causado por objetos capazes de perfurar ou cortar (pontas ou lâminas). Tais objetos geralmente atingem o tronco, membros superiores e cabeça, comprometendo a integridade de órgãos. Isso leva a hemorragias e choque, necessitando de Atendimento Pré-Hospitalar (APH) imediato para reduzir as taxas de óbito.(1,5)
A enfermagem está inserida neste contexto do APH tendo um papel fundamental e complexo. Este cenário requer o enfrentamento do inesperado, conduta imediata, conhecimento e habilidades técnicas e específicas para executar intervenções e tratar pessoas em condições agudas e ameaçadoras.(6,7)
Neste cenário, as instituições de ensino superior em enfermagem buscam aperfeiçoar os processos de ensino-aprendizagem para facilitar a aquisição e o aperfeiçoamento de habilidades cognitivas, psicomotoras e afetivas. Suas estratégias pedagógicas devem sustentar a qualidade da educação formando profissionais qualificados para uma assistência segura e de qualidade no atendimento às vítimas de trauma no APH.(8)
Assim, as estratégias de simulação clínica são incorporadas ao ensino de enfermagem. Elas podem ser definidas como estratégias que replicam situações reais em um ambiente seguro e controlado, onde as competências profissionais são desenvolvidas para potencializar o pensamento crítico e assegurar a retenção de habilidades específicas.(9-11)
A simulação clínica é estruturada em três etapas: preparação, participação e debriefing.(12) A preparação é dividida nas fases de pré-simulação (preparo prévio e treinamento de habilidades), pré-briefing (apresentação geral) e briefing (instrução para executar o cenário).(13) A etapa de participação envolve a execução do cenário clínico e a de debriefing envolve análise e discussão e/ou reflexão após a simulação.(14-16)
Para implementar a simulação clínica, é evidenciada a importância de elaborar e validar designs capazes de nortear o desenvolvimento dessa estratégia ativa visando assegurar sua confiabilidade, eficiência e aplicabilidade, sustentando assim um processo de ensino-aprendizagem eficaz.(17)
Porém, apesar de sua relevância, faltam estudos na literatura sobre elaboração e validação de designs simulados sobre trauma na área da enfermagem e artigos científicos nacionais e internacionais sobre desenvolvimento e validação de design de simulação clínica sobre o APH para vítimas de FAB.(18)
Foi então observada uma lacuna na simulação clínica voltada para enfermagem no APH às vítimas de FAB. Isto reflete a importância de usar estratégias educacionais e oferecer uma aprendizagem significativa para que os estudantes e profissionais possam desenvolver as competências clínicas almejadas no APH.(7)
Dada a importância do tema para desenvolver competências profissionais em enfermagem e na perspectiva de assegurar um atendimento seguro e de qualidade às vítimas de FAB, o objetivo do presente estudo foi construir e validar um design simulado para o atendimento de enfermagem no ambiente pré-hospitalar à vítimas de FAB.
Métodos
Estudo metodológico realizado em uma universidade de Minas Gerais, Brasil, entre março de 2022 e fevereiro de 2024. Foi construído e validado o design de uma simulação clínica para atendimento de enfermagem a uma vítima de trauma no APH. Ele é desenvolvido em três etapas: levantamento de conteúdo na literatura, elaboração do design de simulação e validação do design da simulação clínica.
Na primeira etapa, foi realizado um levantamento de conteúdo na literatura para subsidiar a construção do design. Optamos por seguir “Os Padrões de Melhores Práticas de Simulação de SaúdeTM”. Estas referências orientam e norteiam a implantação das estratégias de clínica, as atuais guidelines do Prehospital Trauma Life Support (PHTLS) e o Protocolo de Suporte Básico e Avançado de Vida do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência que subsidiam o APH.(5,12,19)
Para validação, o estudo contou com um comitê de experts. Para sua seleção, foram considerados os critérios de seleção de experts para estudos de validação em enfermagem com duas áreas especificas: simulação clínica e urgência e emergência.(20)
Foram selecionados profissionais cujo perfil era compatível com uma pontuação ≥5 pontos: experiência clínica ≥4 anos na área específica (obrigatório) (4 pontos); experiência ≥1 ano em clínica ensino (1 ponto); participação ≥2 anos em grupo de pesquisa (1 ponto); doutorado em enfermagem (2 pontos); mestrado em enfermagem (1 ponto) e residência em enfermagem (1 ponto) em áreas específicas e experiência em pesquisa com artigos publicados (1 ponto).(20)
Como critérios de elegibilidade, foram incluídos experts com graduação em enfermagem, com pontuação ≥5 e atuação, formação ou experiência docente na área de simulação e/ou atendimento em urgências e emergências. Foram excluídos os experts que enviaram os formulários preenchidos após o prazo de 30 dias a partir do envio.
Foi usada amostragem por conveniência e a seleção dos experts foi realizada pelo currículo dos pesquisadores (Plataforma Lattes). Na busca por assunto, foram usadas as palavras-chaves “simulação” e “urgência e emergência” nas bases de doutores e demais pesquisadores, sem delimitar nacionalidade, usando os filtros “formação acadêmica” e/ou “titulação” e “atuação profissional”. Outros campos não foram delimitados para não comprometer a busca.
Para coletar dados junto aos experts, foi usado um formulário de validação no Google Forms. Este processo foi conduzido usando questões que avaliaram três domínios: objetivo, relevância, estrutura e apresentação. No formulário de validação, as questões tinham alternativas regidas pela escala Likert (5 pontos): (1) concordo totalmente, (2) concordo parcialmente, (3) não concordo nem discordo, (4) discordo parcialmente e (5) discordo totalmente. Após as questões em cada domínio avaliado, o formulário tinha um espaço livre para comentários, sugestões, correções ou alterações.(21)
O contato como os experts foi realizado via e-mail incluindo convite para participar no estudo, link para leitura e aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e acesso ao formulário; em anexo, constava o design da simulação clínica (formato Portable Document Format) para download e leitura prévia. Os experts tiveram 30 dias consecutivos a partir do recebimento, para preencher e devolver os formulários com suas considerações.
Para propor a validade do conteúdo, foi usada uma abordagem quantitativa com base no Índice de Validade de Conteúdo (IVC), somando as respostas “1” e “2” de cada item do instrumento e dividindo o total pelo número de respostas.(22)Para analisar e comprovar a concordância e validade entre os aspectos do design da simulação e dos instrumentos, foi preconizado um resultado ≥80% de concordância do IVC entre as respostas obtidas em cada item julgado.(21)
Finalmente, foi calculado o IVC total do design da simulação clínica, somando cada valor de IVC e dividindo o resultado pelo número de itens do instrumento.(22) A classificação foi baseada no resultado (em %): 0: concordância nula; 0,1-20: concordância pobre; 21-40: concordância leve; 41-60: concordância aceitável ou moderada; 61-80: concordância considerável; 81-99: concordância quase perfeita e 100: concordância perfeita.(21,22)
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro por meio da Plataforma Brasil (parecer: 6.233.029/ Certificado de Apresentação de Apreciação Ética: 69756023.2.0000.5154).
Resultados
O design da simulação clínica foi construído descrevendo a fase de planejamento seguida pelas etapas de preparação, participação, debriefing, um checklist de habilidades psicomotoras e atitudinais, um fluxograma de tomada de decisões e um teste de habilidades cognitivas.
Na etapa planejamento, os componentes do design foram caracterizados para esclarecer a fase de sua criação.(12) A etapa de preparação apresentou três subdivisões: pré-simulação, pré-briefing e briefing.(13) A pré-simulação contém o referencial teórico para o estudo prévio, com explicação sobre os aspectos da simulação e os benefícios aos participantes. O pré-briefing foi composto pelos objetivos, mecanismos de avaliação, detalhes do contrato de ficção e funcionamento do ambiente e dos materiais da simulação. O briefing foi estruturado com o caso clínico e a organização dos papéis dos participantes envolvidos.(13-15,23)
A participação é a etapa correspondente à execução do cenário clínico pelos participantes e os facilitadores são responsáveis pelos mecanismos de mediação e avaliação, sendo composta por itens que detalham o cenário com informações essenciais à sua execução.(12,24) O caso clínico foi construído a partir de informações relevantes encontradas na literatura para assim desenvolver as competências clínicas.(5)
A última etapa (debriefing) foi composta por método, técnica, número de debriefers e tempo estimado. Foi usada a técnica do G.A.S. debriefing que é recomendada na literatura por viabilizar o ensino e a aprendizagem na urgência e emergência.(25)
O design da simulação clínica foi submetido a 34 experts para validação a priori. Foi obtida resposta de sete experts que aceitaram participar e preencheram os formulários dentro do prazo pré-estabelecido. No processo de validação, os experts foram caracterizados quanto aos critérios indicados pelo referencial, tendo obtido dez pontos (3; 42,9%), nove pontos (2; 28,5%) e seis pontos (2; 28,5%).
Os experts avaliaram os itens em relação a: objetivo, relevância, estrutura e apresentação, atribuindo pontuação de 1 (concordo totalmente) a 5 (discordo totalmente) e considerando as respostas 1 ou 2 para calcular o IVC. Os itens avaliados e as respostas dos experts usadas para validar o design são apresentados na tabela 1.
Conforme apresentado, o IVC de quase todos os itens atingiu uma “perfeita concordância” entre os experts. Só dois itens referentes ao objetivo e ao teste de habilidades cognitivas apresentaram uma “quase perfeita concordância” entre experts. Porém, foi considerada uma margem para propor validade de conteúdo ao valor ≥80% no IVC. Assim, não foi necessário usar a técnica de Delphi com o comitê de experts pois os resultados obtidos foram satisfatórios. Depois, foi calculado o IVC total do design da simulação clínica (99%), evidenciando uma “quase perfeita concordância” entre experts. Mesmo com uma quase perfeita concordância no IVC total, os experts fizeram algumas considerações quanto aos componentes do design da simulação clínica (Quadro 1).
Após a avaliação dos experts, foi realizada reunião consensual entre os pesquisadores e as considerações foram discutidas. Assim, foi observado que elas geralmente estavam em consonância com as evidências da literatura, potencializando a estrutura do design e dando maior destaque ao caso clínico que sustenta a etapa de participação. Por sua vez, este deve se alinhar com os objetivos de aprendizagem oportunizando o desenvolvimento das competências clínicas. Assim as considerações foram acatadas para potencializar o design da simulação, e a versão final validada (Apêndice 1).
Discussão
O presente estudo é relevante, atribuindo ineditismo ao ensino, pesquisa e assistência em enfermagem fornecendo um design confiável e válido em conteúdo para a simulação clínica voltada ao atendimento de enfermagem no ambiente pré-hospitalar a um adulto vítima de ferimentos por arma branca.
Este design foi estruturado e projetado para atingir os objetivos propostos e obter os resultados esperados, incluindo um design sistemático para desenvolver aprendizagem experiencial e significativa e ter êxito no processo de validação.(12)Assim, o processo de validação permitiu evidenciar a confiabilidade, clareza e lógica nos argumentos apresentados tornando esta estratégia de ensino-aprendizagem efetiva.(17)
Em relação ao processo de validação, o IVC atingiu uma “concordância quase perfeita” nos itens do objetivo do design. Com base no referencial adotado, podemos inferir que o construto apresenta coerência, clareza, coerência dos objetivos, propiciando raciocínio lógico com base em informações cientificas, uma sequência lógica que permite estabelecer o conteúdo teórico com a prática e o desenvolvimento das competências necessárias para atender uma vítima de trauma no ambiente pré-hospitalar.(12,26)
Ele pode ser comparado com estudo que validou um cenário de simulação clínica sobre o manejo da hemorragia pós-parto com IVC >95% na validação dos aspectos relacionados ao objetivo.(27)
Em relação a validação dos itens sobre relevância, estrutura e apresentação, o design alcançou uma “concordância perfeita” apontando que sua redação clara e lógica facilita a compreensão, permitindo construir o raciocínio rumo ao objetivo proposto. Evidências são mostradas para que os participantes consigam propor uma hipótese diagnóstica com dados suficientes para realizar o julgamento clínico e fornecer o atendimento com base no fluxograma de tomada de decisões. Enfatizamos que a fácil compreensão das etapas assegura um melhor desempenho na execução da simulação clínica.(12)
O IVC total do design atingiu uma “concordância quase perfeita”, mostrando relevância cientifica na elaboração e avaliação do conteúdo, potencializando os objetivos desta simulação clínica no APH a uma vítima de FAB para que as condutas propostas sejam eficazes e eficientes como estratégia pedagógica.(21,22)
Isto concorda com outros estudos nacionais e internacionais que validaram designs de simulações através da análise do IVC por experts em vários temas e contextos para o ensino-aprendizagem na enfermagem obtendo resultados com IVC total >80% na concordância.(26-29)
Em relação as considerações dos experts, o acréscimo da lesão penetrante na região abdominal com presença de evisceração foi incluído devido a sua frequência e gravidade em vítimas de FAB, representando cerca de 2/3 ao somá-las com as lesões torácicas.(30,31)
Após esta inclusão, foram inseridos os cuidados relacionados ao APH de enfermagem em casos de evisceração no fluxograma de tomada de decisões e no checklist de habilidades procedimentais e atitudinais. Segundo a literatura, em caso de evisceração por FAB no APH, as vísceras expostas devem ser cobertas com uma compressa (preferencialmente estéril) umedecida com solução fisiológica (0,9%) para manter a umidade das vísceras e ocluir o orifício da lesão até chegar ao hospital.(5,19,32)
Segundo as diretrizes do PHTLS, não é mais recomendado o pranchamento de vítimas de FAB com maca e/ou prancha rígida e cintos de fixação se não houver suspeita ou indícios de trauma raquimedular ou cervical.(5)
Em relação aos gatilhos para reconhecer o estado clínico e tomar decisões, foram modificadas falas e sintomas apresentados pelo paciente simulado, visando instigar o processo da avaliação usando o raciocínio clínico para realizar intervenções adequadas dadas as condições de risco de vida.(2,33)
Nas considerações, foram inseridos os procedimentos de “compressão direta e uso da cobertura primária a base de gaze” para controlar pequenas e médias hemorragias pois eles são efetivos e têm baixo custo, podendo ser executados pelos enfermeiros, sendo ainda recomendados nas evidências.(5,19)
O mnemônico SAMPLA (S: sinais e sintomas; A: alergias; M: medicamentos; P: passado ou antecedentes pessoais; L: líquidos e alimentos ingeridos por último; A: ambiente relacionado ao trauma) foi considerado e inserido no checklist de habilidades psicomotoras e atitudinais por sua recomendação consistente em obter informações relevantes para o APH e facilitar a comunicação ou troca de informações entre o serviço pré-hospitalar e intra-hospitalar.(5,34)
No teste de habilidades cognitivas, as principais correções foram relacionadas ao enunciado das questões. Segundo as recomendações de redação de testes escritos para as ciências da saúde, não é recomendável usar a palavra “exceto” se a maior parte das questões foi expressa de positivamente, pois a inclusão de um item negativo pode ser perdido na leitura, dificultando a interrogativa e confundindo o leitor.(35)
Este estudo contribuiu para a pesquisa, assistência e ensino em enfermagem apresentando o design validado de uma simulação clínica no atendimento a uma vítima de FAB no atendimento pré-hospitalar, listando as condutas iniciais baseadas nas melhores evidências a serem executadas pelos enfermeiros.
As limitações desta pesquisa estão relacionadas ao baixo número de experts que aceitaram participar na validação do design da simulação clínica (mesmo estando dentro do que a literatura recomenda) bem como a não avaliação e validação com o público-alvo.
Conclusão
O design desta simulação clínica foi construído em três etapas: preparação, participação e debriefing. Ele foi embasado nas evidências da literatura cientifica segundo as recomendações nacionais do Protocolo de Suporte Básico e Avançado do serviço de atendimento médico as urgências e das diretrizes internacionais do Prehospital Trauma Life Support sobre o atendimento pré-hospitalar de enfermagem e as condutas diante de ferimentos por arma branca. O estudo alcançou um índice de validade de conteúdo total caracterizado como “concordância quase perfeita” na validação de face e conteúdo considerando os objetivos, relevância, estrutura e apresentação. O design desta simulação clínica poderá ser usado por docentes, facilitadores e pesquisadores como uma estratégia de ensino-aprendizagem para desenvolver habilidades cognitivas, psicomotoras e atitudinais de estudantes e profissionais na busca de competências clínicas relativas ao atendimento de enfermagem a vítimas de ferimento por arma branca no atendimento pré-hospitalar.
Agradecimentos
Em agradecimento à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) pelo fomento a bolsa de mestrado e apoio a pesquisa – Código de Financiamento 001.
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Apêndice 1
Apêndice 2Apêndice 2.
Checklist de habilidades psicomotoras e atitudinais
Nome do facilitador: _______________________________________________________________.
Nome dos participantes: ____________________________; _______________________________.
Apêndice 3
Teste de habilidades cognitivas acerca do atendimento a vítima de trauma e ferimentos por arma branca
( ) Pré-teste ( ) Pós-teste
Nome: _________________________________________________________________________.
Questão 1 - Constitui-se de uma fase que avalia se a cena é segura para a equipe e o paciente, bem como considera cuidadosamente a natureza exata da situação e do ocorrido. Assinale a alternativa abaixo que corresponde ao que foi descrito.
-
Sequência de avaliação XABCDE.
-
Avaliação da vítima.
-
Avaliação da cena.
-
Avaliação da segurança dos envolvidos.
-
Avaliação de riscos adicionais na vítima.
Questão 2 - A avaliação primária de uma vítima de trauma deve ser realizada de forma dinâmica e integrada de acordo com o protocolo de atendimento inicial do politraumatizado, de acordo com o Prehospital Trauma Life Support (PHTLS). O primeiro e último passo o protocolo de atendimento ao trauma consiste em:
-
Abertura de vias aéreas e avaliação da disfunção neurológica.
-
Controle de hemorragias exsanguinantes e avaliação da disfunção neurológica.
-
Abertura de vias aéreas e exposição da vítima com controle do ambiente.
-
Controle de hemorragias exsanguinante e abertura de vias aéreas.
-
Controle de hemorragias exsanguinantes e exposição da vítima com controle do ambiente.
Questão 3 - Lesão resultante da entrada de ar no espaço entre a pleura visceral e a parietal causado por uma ferida torácica penetrante e aspirativa que culmina no colabamento pulmonar. Qual quadro abaixo se caracteriza com o que está descrito acima?
-
Hemotórax fechado.
-
Pneumotórax aberto.
-
Derrame pleural.
-
Tórax hipertensivo.
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Tórax instável.
Questão 4 - Uma das principais causas de morte no trauma é a hemorragia exsanguinante que é geralmente associada a amputação de membros ou rompimento de grandes vasos. Para tal é necessário intervenção de forma eficaz e imediata. Neste caso, escolha a alternativa abaixo que deve ser utilizada no ambiente pré-hospitalar para o controle de hemorragias exsanguinantes em membros superiores ou inferiores:
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Compressão local com enfaixamento compressivo.
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Pressão direta no local da lesão.
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Cauterização de vasos.
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Torniquete.
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Administração de ácido tranexâmico.
Questão 5 - De acordo com o protocolo de atendimento do PHTLS, o mnemônico XABCDE é um padrão para guiar o atendimento a uma vítima de trauma. Assinale a alternativa que melhor descreve o que é avaliado na letra A:
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Abertura de vias aéreas.
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Ventilação, oxigenação e estabilização da coluna cervical.
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Aberturas de vias aéreas e estabilização da coluna cervical.
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Ventilação e oxigenação.
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Abertura de vias aéreas, ventilação e oxigenação.
Questão 6 – No atendimento pré-hospitalar, dentro do protocolo de atendimento as vítimas de trauma, o enfermeiro deve avaliar a ventilação, respiração e oxigenação do paciente de forma ordenada e precisa para identificar possíveis sinais de deterioração do padrão respiratório, qual das alternativas abaixo se baseia essa conduta:
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Contar a frequência cardíaca e classificá-la em assistolia, bradicardia, normosfigmia ou taquicardia.
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Se detectado trauma torácico do tipo hemotórax ou derrame pleural proceder com toracocentese de alívio com abocath 14 em linha axilar anterior no 6º arco intercostal.
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Avaliar qualidade e quantidade de respiração, sinais de hipóxia, cianose e observar presença de sinais de esforço respiratório.
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Verificar se o paciente está bem oxigenado através do tempo de perfusão capilar.
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Se a vítima estiver consciente com reflexos preservados, porém com dificuldade de respirar, inserir cânula orofaríngea e dispositivo suplementar de oxigênio.
Questão 7 – Uma equipe de resgate é acionada para atender a uma vítima de ferimentos por arma branca em domicílio, ocasionada por violência doméstica com tentativa de homicídio e a vítima se encontra em estado grave, segundo informações colhidas. A equipe chega no local e não visualiza a equipe da polícia civil no local, neste caso eles devem:
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Proceder com o atendimento, visto a gravidade da vítima e esperar a polícia no local.
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Acionar e esperar a polícia civil chegar no local e liberar para que a equipe de resgate faça o atendimento, mesmo sabendo da possível gravidade da vítima.
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Acionar e esperar a polícia civil e quando ela chegar irem juntos até o local da ocorrência.
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Proceder com o atendimento independente se a polícia estiver a caminho.
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Proceder com o atendimento e acionar a polícia, caso haja necessidade.
Questão 8 – Assinale a alternativa correta com a conduta preconizada nos casos de ferimentos penetrantes, no qual o objeto causador da lesão permaneceu inserido na vítima, a equipe de atendimento pré-hospitalar deve:
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Manter o objeto penetrante na vítima e realizar a imobilização do mesmo para evitar outras lesões no decorrer do transporte.
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Remover o objeto penetrante quando o mesmo for identificado e realizar compressão no local da lesão com compressa de algodão estéril.
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Remover o objeto imediatamente e proceder com uso de técnicas manuais que interrompam quaisquer sangramentos.
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Manter o objeto penetrante na vítima e deixar a ferida exposta para avaliar perda sanguínea.
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Remover o objeto penetrante e proceder sutura para interromper o sangramento.
Questão 9 – O enfermeiro precisa saber identificar lesões que ameaçam a vida, de forma a priorizar o atendimento e a agilizar os cuidados que serão desenvolvidos. Em relação ao atendimento ao pneumotórax aberto, assinale a alternativa correta.
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A drenagem torácica é a primeira intervenção realizada pelo enfermeiro no atendimento ao pneumotórax aberto.
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O curativo em três pontas sobre a lesão no tórax é uma intervenção exclusivamente do médico e somente ele pode realizá-la já que se trata de um procedimento invasivo.
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O pneumotórax aberto causa desconforto respiratório decrescente e índices de saturação sempre acima de 98% por não alterar o padrão ventilatório.
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O curativo em três pontas sobre a lesão aberta no tórax é uma intervenção de emergência indicada no atendimento primário ao politraumatizado.
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É indicado o uso da máscara laríngea nesse caso para otimizar o padrão respiratório, independente da apresentação clínica do paciente.
Questão 10 – Assinale a alternativa dos procedimentos que fazem parte dos cuidados pré-hospitalares feitos pela equipe de enfermagem a uma vítima de trauma que apresenta qualquer tipo de hemorragia;
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Realizar o controle por meio de medidas de estacamento/interrupção do fluxo sanguíneo e puncionar preferencialmente dois acessos venosos periféricos e calibrosos.
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Em ferimentos profundos fazer a limpeza com solução adequada e proceder sutura de músculos e pele para interromper o sangramento.
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Realizar reposição volêmica através de fluídos endovenosos independente de prescrição médica, visto a hipotensão devido a perda sanguínea.
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Coleta de sangue para tipagem sanguínea.
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Administrar medicamentos anti-hemorrágicos sem respaldo médico.
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Editora Associada
Juliana de Lima Lopes (https://orcid.org/0000-0001-6915-6781) Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil


