Resumo
Objetivo Avaliar o potencial de uma atividade lúdica relacionada ao tema saúde mental para melhorar o humor e a qualidade de vida de estudantes universitários no primeiro ano do curso de enfermagem.
Métodos Trata-se de um estudo piloto, tipo pré e pós-teste, de uma atividade lúdica no formato de caderno de passatempo com atividades versando sobre os modos de lidar com as emoções. A coleta de dados foi realizada entre maio e junho de 2023. Um total de 39 alunos participaram no pré-teste e 26 deles completaram a etapa do pós-teste. Foram utilizados a Escala de Humor de Brunel, a dimensão psicológica do questionário de qualidade de vida (WHOQOL-Bref, da Organização Mundial da Saúde) e questões sociodemográficas (aplicados antes e após o passatempo). As análises foram realizadas utilizando estatística descritiva e testes não paramétricos.
Resultados A capacidade de concentração (p=0,031) e frequência de sentimentos negativos (p=0,021) apresentaram melhora considerável no pós-teste e fadiga (p=0,041), tensão (p=0,005) e confusão (p=0,003), diminuíram significativamente.
Conclusão A atividade lúdica usada melhorou o humor e o domínio psicológico da qualidade de vida em graduandos no primeiro ano do curso de enfermagem. Atividades lúdicas desse teor possibilitam um intervalo de qualidade na rotina de estudos, proporcionando também certo grau de relaxamento e lazer. Isso se reflete positivamente na sensação de bem-estar, destacando o potencial de incorporar atividades lúdicas no campo técnico da promoção da saúde mental.
Descritores
Saúde mental; Intervenção psicossocial; Estudantes; Promoção da saúde; Qualidade de vida; Inqueritos e questionários
Abstract
Objective To evaluate the potential of a recreational activity related to mental health to improve the mood and quality of life of first-year nursing students.
Methods This was a pre- and post-test pilot study of a recreational activity in the form of a workbook with activities focusing on ways of dealing with emotions. Data collection occurred between May and June of 2023. A total of 39 students participated in the pre-test, and 26 of them completed the post-test stage. The Brunel Mood Scale, the psychological dimension of the quality-of-life questionnaire (WHOQOL-Bref, from the World Health Organization), and sociodemographic questions (administered before and after the activity) were used. The analyses were performed using descriptive statistics and nonparametric tests.
Results Concentration ability (p=0.031) and frequency of negative feelings (p=0.021) showed considerable improvement in the post-test, and fatigue (p=0.041), tension (p=0.005), and confusion (p=0.003) decreased significantly.
Conclusion The recreational activity improved mood and psychological domain of quality of life in first-year nursing students. Recreational activities of this nature provide a quality break in the study routine, also offering a certain degree of relaxation and leisure. This has a positive impact on the sense of well-being, highlighting the potential for incorporating recreational activities into the technical field of mental health promotion.
Keywords
Mental Health; Psychosocial intervention; Students; Health promotion; Quality of life; Surveys and questionnaires
Resumen
Objetivo Evaluar el potencial de una actividad lúdica relacionada con el tema de la salud mental para mejorar el estado de ánimo y la calidad de vida de los estudiantes universitarios en el primer año de la carrera de enfermería.
Métodos Se trata de un estudio piloto, de tipo pretest y postest, de una actividad lúdica en formato de cuaderno de pasatiempos con actividades relacionadas con las formas de manejar las emociones. La recopilación de datos se realizó entre mayo y junio de 2023. Un total de 39 estudiantes participaron en el pretest y 26 de ellos completaron la etapa del postest. Se utilizó la Escala de Humor de Brunel, la dimensión psicológica del cuestionario de calidad de vida de la Organización Mundial de la Salud (WHOQOL-Bref) y preguntas sociodemográficas (aplicadas antes y después del pasatiempo). Los análisis se realizaron utilizando estadística descriptiva y pruebas no paramétricas.
Resultados La capacidad de concentración (p=0,031) y la frecuencia de sentimientos negativos (p=0,021) mostraron una mejora considerable en el postest, y la fatiga (p=0,041), la tensión (p=0,005) y la confusión (p=0,003) disminuyeron significativamente.
Conclusión La actividad lúdica utilizada mejoró el estado de ánimo y el dominio psicológico de la calidad de vida en los estudiantes de primer año de la carrera de enfermería. Las actividades lúdicas de este tipo permiten un descanso de calidad en la rutina de estudios, lo que también proporciona cierto grado de relajación y ocio. Esto se refleja positivamente en la sensación de bienestar y destaca el potencial de incorporar actividades lúdicas en el campo técnico de la promoción de la salud mental.
Descriptores
Salud mental; Intervención psicosocial; Estudiantes; Promoción de la salud; Calidad de vida; Encuestas y cuestionarios
Introdução
Os estudos sobre atividades de promoção da saúde mental para estudantes do ensino médio e superior têm sido desenvolvidos em vários países do mundo, reportando o uso de diferentes estratégias, tais como aulas sobre temas relacionados à saúde mental, intervenções informatizadas, além de abordagens individuais e/ou grupais baseadas em planos de vida.(1-6)
Os efeitos de aulas sobre a saúde mental entre estudantes do ensino médio e de intervenções computadorizadas em sessão única foi positivo nos indicadores de saúde mental, tanto após as intervenções quanto no seguimento de dois meses.(1,2) Entre universitários, os estudos apontam que tanto abordagens individuais como intervenções grupais também culminaram em melhorar a saúde mental dos estudantes.(3,5)
Ademais, intervenções pautadas em sessões de yoga e meditação, bem como o uso de recursos de redes sociais, tais como o Facebook, têm se mostrado efetivos em reduzir os sintomas de estresse e ansiedade e melhorar os níveis de autoestima e autoeficácia percebidas tanto após a intervenção quanto no seguimento.(4,6)
Cabe aqui ressaltar as especificidades dos estudantes de enfermagem. Estudos têm indicado que esse grupo apresenta maiores índices de adoecimento mental quando comparado a estudantes de outros cursos da área da saúde, bem como a jovens adultos na mesma faixa etária que não frequentam o ensino superior. Entre os principais achados, destacam-se níveis mais elevados de burnout, depressão e ansiedade.(7-9)
Esses resultados podem ser explicados pela presença de múltiplos fatores estressores que permeiam a trajetória acadêmica desses estudantes, incluindo mudanças na rotina e estilo de vida, desafios relacionados à inserção nas práticas clínicas e demandas complexas impostas pela sobreposição das responsabilidades pessoais às práticas acadêmicas rigorosas do curso de enfermagem.(10,11)
Nesse contexto, estudos que avaliaram intervenções voltadas à promoção da saúde mental em estudantes de enfermagem evidenciaram que estratégias tais como gamificação e atividades online contribuem para melhorar a autoeficácia e reduzir os sintomas de depressão, ansiedade e estresse.(8,9,12)
Assim, depreende-se que há um corpo de conhecimento consolidado sobre os benefícios de diferentes abordagens para melhorar a saúde mental de estudantes. No entanto, cabe destacar que as intervenções propostas pelos estudos deste tema geralmente têm caráter mais técnico e os indicadores de saúde mental adotados nessas pesquisas focam principalmente os sintomas de transtornos mentais, estresse e ansiedade.(1-6; 8,9,12)
Desse modo, identifica-se lacuna na literatura no sentido de propor e avaliar o potencial de uma atividade de caráter lúdico na promoção da saúde mental de estudantes incorporando também medidas relacionadas ao humor e satisfação com a saúde, visando a intersecção entre saúde mental, saúde geral e bem-estar. Compreende-se que o uso de recursos lúdicos favorece o desenvolvimento de competências intelectuais, sociais e afetivas, sendo configurada não só como uma ferramenta terapêutica, mas também como um posicionamento político capaz de desestabilizar pedagogias tradicionais.(13,14) Trata-se, portanto, de uma estratégia potente para enfrentar os desafios vivenciados por estudantes de graduação em enfermagem. Assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar o potencial de uma atividade lúdica relacionada ao tema de saúde mental para melhorar o humor e a qualidade de vida de estudantes universitários no primeiro ano do curso de enfermagem.
Métodos
Trata-se de um estudo piloto do tipo pré e pós-teste desenvolvido em uma faculdade de enfermagem de uma universidade pública do interior do Estado de São Paulo, no período de maio a junho de 2023.
A população do estudo consistiu em estudantes que ingressaram no curso de enfermagem. A referida faculdade conta com cerca de 130 alunos ingressantes anualmente. Os critérios de elegibilidade foram: ser maior de 18 anos e não ter comprometimento visual que inviabilize a leitura do material utilizado na atividade. O recrutamento foi feito através da plataforma de comunicação institucional que dissemina informativos via e-mail à comunidade acadêmica e o convite foi reforçado pessoalmente pela pesquisadora responsável nos intervalos das aulas. Um total de 39 alunos participaram no pré-teste do estudo e 26 deles completaram a etapa do pós-teste.
A estratégia proposta consistiu em um conjunto de atividades lúdicas sobre o tema de saúde mental, reunidas no formato de um caderno de passatempo “Passatempo sentiMental”, desenvolvido em um trabalho de doutorado.(15)O referido caderno tem seis atividades entre palavras-cruzadas, labirintos e caça-palavras relacionadas aos temas seguintes: reconhecimento de sentimentos, habilidades de convivência e expressão da subjetividade. Cada atividade é precedida por um breve texto que contextualiza o tema, sendo intercalada por tirinhas do Armandinho que ilustram os temas abordados (Figura 1). O cartunista Alexandre Beck autorizou formalmente o uso gratuito de suas criações como parte do passatempo e aprovou sua versão final. O material está em fase de registro na Biblioteca Nacional. Assim, a estratégia consistiu na realização das atividades do caderno de passatempo pelos participantes do estudo.
Os dados foram coletados utilizando questões sociodemográficas, elaboradas pelos pesquisadores com base nos indicadores mínimos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (tais como idade, sexo, cor, estado civil e renda familiar), a Escala de Humor de Brunel e questões específicas do questionário de Avaliação da Qualidade de Vida versão abreviada (WHOQOL-Bref - World Health Organization Quality of Life - BREF.
A Escala de Humor de Brunel consiste em um questionário estruturado (24 itens) subdividido em seis domínios: (1) Confusão: Respostas a ansiedade e/ou depressão manifestados por sentimentos de incerteza e instabilidade para controle de emoções; (2) Depressão: Relacionada a um estado depressivo no qual a inadequação pessoal está presente. Indicação de humor deprimido e não depressão clínica; 3) Fadiga: Estado emocional variando desde sentimentos leves a estímulos do sistema nervoso autônomo; 4) Raiva: Descreve sentimentos de hostilidade a partir de estados de humor relacionados à antipatia em relação aos outros e a si mesmo; 5) Tensão: Referente à alta tensão musculoesquelética, não observada diretamente ou por manifestações psicomotoras; (6) Vigor: Estados de energia, animação e atividade, indicando o aspecto humoral positivo.(16)
Para o cálculo do escore, as opções de respostas foram codificadas mediante uma escala Likert de cinco pontos (sendo 0=nada e 4=extremamente). Assim, por meio da soma das pontuações específicas de cada item, foi obtido o escore que pode variar de zero a 16 para cada domínio (estado de humor), de modo que, quanto maior o valor do domínio, maior é a manifestação do respectivo estado de humor.(16)
Quanto ao questionário WHOQOL-bref, ele foi idealizado pela Organização Mundial de Saúde e produzido por centros em diversos locais do mundo. É composto por 26 perguntas que são respondidas a partir de escala Likert de 1 a 5 (1=muito baixo; 5=muito alto). Elas são baseadas nas ideias de intensidade, capacidade, frequência e avaliação, dependendo da pergunta.(17)
No presente projeto, foram utilizadas apenas as duas questões gerais da percepção da qualidade de vida e satisfação com a saúde (1. Como você avaliaria sua qualidade de vida?; 2. Quão satisfeito você está com a sua saúde?), e o domínio psicológico correspondente às questões 5, 6, 7, 11, 19 e 26: (5. O quanto você aproveita a vida?; 6. Em que medida você acha que sua vida tem sentido?; 7. O quanto você consegue se concentrar?; 11. Você é capaz de aceitar sua aparência física?; 19. Quão satisfeito você está consigo mesmo?; 26. Com que frequência você tem sentimentos negativos tais como mau humor, desespero, ansiedade, depressão?), devido a percepção de que esses dois construtos adequaram-se ao objetivo principal proposto.(17)
Na etapa pré-teste, os questionários impressos foram disponibilizados pela pesquisadora principal no momento do recrutamento, antes de os participantes receberem o caderno de passatempo. Após os questionários respondidos, o participante recebia a versão física do passatempo e a orientação de realizar uma atividade por dia. Uma semana depois (pós-teste), os participantes foram novamente convidados a responder às questões inicialmente propostas via Google Forms. Os dados foram coletados pela pesquisadora principal. Para minimizar o viés de coleta, a pesquisadora realizou treinamentos teóricos e práticos para aplicar os instrumentos.
Os dados foram transportados para um banco estruturado no software SPSS por meio do qual foram empreendidas as análises estatísticas. Primeiramente foram calculados os percentuais correspondentes às características dos participantes e elaborada uma tabela com a caracterização dos mesmos. Em seguida, foram calculados a média e o desvio padrão dos escores de cada dimensão da Escala de Humor. As respostas às questões do WHOQOL-bref foram dicotomizadas (“satisfeito” ou “não satisfeito”) em cada aspecto avaliado e a porcentagem dos participantes que deram tais respostas foi apresentada em um gráfico. As variáveis quantitativas (escores da Escala de Humor) foram submetidas ao teste de Kolmogorov-Smirnoff, através do qual foi identificada a normalidade da distribuição em todas dimensões (p>0,05), ou seja, ausência de evidência para rejeitar a hipótese nula. Dessa forma, optou-se pelo uso de testes paramétricos nas comparações. Utilizou-se, então, o teste t pareado para comparar as medidas pré e pós-teste destes escores. Para analisar as questões relacionadas à qualidade de vida no pré e pós-teste, foi usado o teste não paramétrico de McNemar por ser apropriado a variáveis categóricas dicotômicas em medidas pareadas. Foi adotado o nível de significância de 0,05 e o intervalo de confiança de 95%.
Este estudo foi elaborado conforme as diretrizes e normas de pesquisa envolvendo seres humanos atendendo à Resolução nº 466 (12/12/2012) do Conselho Nacional de Saúde (Ministério da Saúde, Brasília, DF).(18) O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição de ensino superior (CAE: 58699922.7.0000.5393; Parecer: 5.782.937). A instituição autorizou então a realização da pesquisa e os participantes foram convidados a participar do estudo em um horário que não interferiu em suas atividades acadêmicas. Aqueles que aceitaram participar do estudo foram informados sobre os aspectos éticos, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e foram instruídos a preencher os instrumentos.
Resultados
Caracterização sociodemográfica dos participantes
Em relação às características dos participantes, conforme pode ser observado na tabela 1, a maioria dos estudantes era do sexo feminino e se autodeclarou de cor branca (Tabela 1).
Resultados nos pré e pós-teste
No pré-teste, como pode ser observado na figura 2, a qualidade de vida em geral foi a dimensão em que mais estudantes estavam satisfeitos, se contrapondo à frequência de sentimentos negativos (para a qual mais de 40% deles referiram insatisfação) e à capacidade de concentração em que muitos deles referiram não ser boa nem ruim (Figura 2).
Distribuição dos participantes no pré-teste em relação à autopercepção da qualidade de vida segundo o sistema WHOQOL-bref
Identificou-se que os aspectos da qualidade de vida que mais requeriam melhoria mostraram alterações importantes no pós-teste. Um total de 18 pessoas (pré-teste: 6 pessoas; pós-teste: 12 pessoas) referiram conseguir se concentrar bem (p=0,031). Além disso, 20 pessoas (pré-teste: 14; pós-teste: 6) afirmaram ter pensamentos negativos frequentes (p=0,021).
Em relação à modulação do humor negativo, os domínios que apresentaram maiores escores no pré-teste foram a fadiga, a tensão e a confusão, sendo também os que se destacaram positivamente nas medidas pós-teste, isto é, apresentaram redução estatisticamente significativa. O humor positivo (vigor) apresentou ligeira redução em termos descritivos (Tabela 2).
Média dos escores obtidos pelos participantes na Escala de Humor de BRUNEL no pré e pós-teste
Discussão
Especificidade populacional da amostra
A predominância feminina na amostra permite problematizar a feminização histórica da enfermagem, uma profissão socialmente construída como uma extensão do papel de cuidado atribuído às mulheres.(19) Esse processo de feminização reforça a ideia de uma profissão vocacional contribuindo para desvalorizar economicamente e impor sobrecargas físicas e emocionais, impactando negativamente a saúde mental dessas trabalhadoras.(19) No ensino superior a realidade não é diferente, as exigências acadêmicas e pessoais dos alunos de enfermagem resultam em consequências negativas para sua saúde mental.(7-9) Um estudo que investigou sintomas de depressão e ansiedade e sua associação com as características sociodemográficas dos graduandos em enfermagem em Juiz de Fora (MG) identificou diferenças nos escores médios entre sexos, nos quais as mulheres apresentaram valores mais elevados.(20) Esses achados concordam com outros estudos, que apontam piores indicadores de saúde mental entre mulheres, frequentemente relacionados à intersecção de fatores de vulnerabilidade (tais como questões de gênero, culturais, biológicas e sociais).(21) Nesse sentido, recomenda-se que pesquisas futuras analisem aprofundadamente a relação entre a feminização da enfermagem e os desfechos em saúde mental para subsidiar estratégias pedagógicas considerando as diferenças de gênero na formação e no cuidado em saúde.
Percepção sobre o domínio psicológico da qualidade de vida
No presente estudo, a qualidade de vida em geral foi classificada como boa ou muito boa por 80% dos participantes. Este resultado corrobora estudos prévios realizados com estudantes brasileiros do curso de medicina.(22-23) Em contrapartida, mais de 40% dos participantes referiram frequentes sentimentos negativos, resultado também observado em estudo prévio, no qual este item do domínio psicológico obteve uma das médias mais altas entre os demais domínios da qualidade de vida.(22)
A alta frequência de sentimentos negativos pode refletir os vários tipos de exigências físicas e psicológicas dos cursos da área da saúde, que podem contribuir sobremaneira para maiores níveis de estresse. Vale destacar que a alta pontuação na dimensão “frequência de sentimentos negativos” foi observada sobretudo nos itens “padrão de sono inadequado” e “tempo reduzido para o lazer”. Estes fatores são considerados como risco para os níveis elevados de estresse e o desenvolvimento de transtornos mentais comuns identificados em estudantes de medicina no Brasil.(24)
Em um outro estudo sobre a qualidade de vida, também desenvolvido com estudantes de medicina no Brasil, os autores apontaram que o domínio psicológico como um todo foi o segundo pior avaliado, ficando atrás apenas do domínio meio ambiente. Isto sugere um maior risco em relação ao desenvolvimento de transtornos mentais comuns em estudantes desta área.(25) Neste sentido, como a frequência de sentimentos negativos faz parte do domínio psicológico, a presente pesquisa concorda com tal resultado.
A capacidade de concentração foi o aspecto da qualidade de vida também negativamente avaliado pelos estudantes. Um estudo de Taiwan, que usou a estratégia de gamificação no processo de ensino-aprendizagem de estudantes de graduação em enfermagem, identificou uma significativa melhora no desempenho, autoeficácia e motivação dos alunos para a aprendizagem.(12) Como a capacidade de concentração é um importante aspecto relacionado com as questões cognitivas, entende-se que sua melhoria pode se refletir positivamente no desempenho destes estudantes.
Uma pesquisa analisou a relação de algumas atividades (tais como leitura, contato com videogames, computador e prática de esportes) com o nível de atenção em crianças brasileiras de 6-11 anos.(26) Ela apontou uma significativa associação entre o hábito de ler diariamente e a maior capacidade de atenção, destacando a importância da prática da leitura para melhorar a capacidade de concentração.(27) Como o uso de tecnologias está cada vez mais exacerbado, principalmente entre os jovens (o público-alvo da atual pesquisa), e elas oferecem inúmeros estímulos, isso pode estar relacionado à menor capacidade de atenção.(27)
O número de estudantes que referiu sentimentos negativos frequentes (item da qualidade de vida destacado nos resultados do pré-teste) diminuiu significativamente e a quantidade de participantes que referiu concentrar-se bem dobrou no pós-teste. Este resultado também sugere que atividades promotoras de distração e consequente relaxamento (em relação às exigências constantes durante o período de graduação) podem proporcionar melhores níveis de concentração. Assim os estudantes direcionam seu foco não só para as obrigações acadêmicas, mas também para o lazer e momentos de entretenimento. Isso proporciona flexibilidade e uma espécie de “descanso” no exercício cognitivo, podendo culminar em efeitos positivos neste aspecto. Um outro estudo realizado em São Paulo que avaliou intervenções de saúde mental em alunos diagnosticados com Transtorno de Hiperatividade e Déficit de Atenção também usou atividades lúdicas e jogos de estratégia. Eles mostraram ser efetivos em estimular a concentração, memória e atenção desses alunos, confirmando assim a importância das intervenções que consideram o entretenimento dos estudantes.(28)
Percepção sobre a modulação do humor
Em relação aos resultados nos indicadores de humor negativo, os maiores escores identificados no pré-teste foram os domínios tensão, fadiga e confusão, corroborando com os resultados de um estudo com a população de trabalhadores brasileiros.(29) Em ambos estudos, fadiga e tensão foram os dois fatores mais enfatizados, embora tenham sido desenvolvidos com populações distintas (trabalhadores e estudantes). Isso pode apontar como os padrões de vida adotados pela sociedade no mundo atual (com cargas horárias densas de trabalho ou estudo) podem estar se refletindo em humor negativo.
Neste sentido, um estudo com 216 estudantes brasileiros observou que a prática de exercício físico estava diretamente relacionada com a percepção do estado de humor. Os alunos fisicamente inativos apresentaram menor nível de vigor e maiores níveis de humor negativo, como tensão e fadiga.(30) Portanto, a estratégia de estímulo à prática de atividade física é um ponto importante a ser considerado na promoção do bem-estar, uma vez que o aumento nos domínios de humor negativo, principalmente fadiga, estão relacionados com alterações na memória, concentração e atenção.(30)
O número de estudantes que referiram altos níveis de tensão, fadiga e confusão na escala de humor também diminuiu significativamente no pós-teste, sugerindo o potencial da atividade lúdica também para estes itens. Estudos desenvolvidos com universitários brasileiros apontaram associação entre os níveis de tensão e o desenvolvimento de transtornos de ansiedade e prejuízos acadêmicos nesta população.(31,32) Tais resultados sugerem que proporcionar relaxamento, diminuindo a tensão, também pode ajudar a prevenir quadros de ansiedade.
Destaca-se que a expectativa em relação aos resultados não era que o vigor aumentasse e todos os domínios de humor negativo diminuíssem, mas que os domínios do humor negativo não ultrapassassem os valores do vigor (humor positivo), pois o padrão saudável (em relação ao humor) é que haja uma certa moderação, ou seja, que o humor não tenha modulações polarizadas. Neste sentido, os valores de tensão e fadiga no pré-teste estavam mais elevados que o vigor, porém este desequilíbrio apresentou melhora no pós-teste, pois a média do escore de tensão ficou abaixo daquele observado no domínio de humor positivo.
A redução observada nos escores de tensão e confusão foi mais expressiva que no escore fadiga. Este apresentou uma pequena redução no pós-teste embora com resultado estatisticamente significante. Tal resultado sugere que só uma estratégia não é suficiente para causar melhorias efetivas e uniformes em todas múltiplas dimensões do construto saúde mental. Nesse sentido, para se alcançar determinadas metas e objetivos, é de suma importância promover atividades diversas contendo métodos, finalidades e contextos diferentes.
Considerando os resultados obtidos, identificou-se que a estratégia utilizada foi promissora, uma vez que os sentimentos negativos, tensão, confusão e fadiga dos usuários do passatempo diminuíram e a capacidade de concentração melhorou significativamente. Tais resultados sugerem que atividades lúdicas desse teor possibilitam um intervalo de qualidade na rotina de estudos, proporcionando certo grau de relaxamento e lazer, com reflexos positivos na sensação de bem-estar, corroborando com o potencial identificado em outras intervenções não-lúdicas que têm sido realizadas com universitários brasileiros(33) e chineses.(34,35) Nesse sentido, os resultados do presente estudo sugerem refletir sobre a possibilidade de incorporar atividades lúdicas na área técnica da promoção da saúde mental. Sua relevância deve ser considerada não só como recurso terapêutico, mas também como uma estratégia para enfrentar a rigidez no processo de ensino-aprendizagem vivenciada pelos graduandos em enfermagem, conforme apontado anteriormente.
Como limitações do estudo, destaca-se o tamanho amostral e o uso de testes não paramétricos. Além disso, não foi possível descartar o viés de outros eventos ao longo do tempo devido ao caráter longitudinal do estudo.
Conclusão
A atividade lúdica usada melhorou o humor e o domínio psicológico da qualidade de vida em graduandos no primeiro ano do curso de enfermagem. Atividades lúdicas focadas em desenvolver habilidades para lidar com as emoções possibilitam um intervalo de qualidade na rotina de estudos proporcionando relaxamento e lazer. Destaca-se a importância de estratégias que transcendem a dimensão técnica, abarcando o aspecto lúdico e a demanda por atividades com métodos, finalidades e contextos diversificados para promover a saúde mental a partir de uma perspectiva integral.
Agradecimentos
O presente estudo foi realizado com apoio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Referências
- 1 Yamaguchi S, Ojio Y, Foo JC, Michigami E, Usami S, Fuyama T, et al. A quasi-cluster randomized controlled trial of a classroom-based mental health literacy educational intervention to promote knowledge and help-seeking/helping behavior in adolescents. J Adolesc. 2020;82(1):58-66.
- 2 Wasil AR, Park SJ, Gillespie S, Shingleton R, Shinde S, Natu S, Weisz JR, Hollon SD, DeRubeis RJ. Harnessing single-session interventions to improve adolescent mental health and well-being in India: Development, adaptation, and pilot testing of online single-session interventions in Indian secondary schools. Asian J Psychiatr. 2020 Apr;50:101980.
- 3 Barnett P, Arundell LL, Saunders R, Matthews H, Pilling S. The efficacy of psychological interventions for the prevention and treatment of mental health disorders in university students: A systematic review and meta-analysis. J Affect Disord. 2021;280 Pt A:381-406.
- 4 Ribeiro RM, Bragiola JVB, Eid LP, Ribeiro RCHM, Siqueira CAC, Pompeo DA. Impacto de uma intervenção pelo Facebook no fortalecimento da autoestima de estudantes de enfermagem. Rev Lat Am Enfermagem. 2020;28:e3237
- 5 Alves CF, Teixeira MA. Construção e Avaliação de uma Intervenção de Planejamento de Carreira para Estudantes Universitários. Psico USF. 2020;25(4): 697-709.
- 6 Lemay V, Hoolahan J, Buchanan A. Impact of a Yin Yoga and meditation intervention on pharmacy faculty and student well-being. J Am Pharm Assoc. (2003). 2021;61(6):703-8.
- 7 Gómez-Urquiza JL, Velando-Soriano A, Membrive-Jiménez MJ, Ramírez-Baena L, Aguayo-Estremera R, Ortega-Campos E, et al. Prevalence and levels of burnout in nursing students: A systematic review with meta-analysis. Nurse Educ Pract. 2023;72:103753.
- 8 Ciezar Andersen S, Campbell T, White D, King-Shier K. An intervention to improve mental and physical health of undergraduate nursing students. Can J Nurs Res. 2024;56(3):317-28.
- 9 Holden S, O'Connell KA. Using meditation to reduce stress, anxiety, and depression in nursing students. J Nurs Educ. 2023;62(8):443-9.
- 10 Black Thomas LM. Stress and depression in undergraduate students during the COVID-19 pandemic: nursing students compared to undergraduate students in non-nursing majors. J Prof Nurs. 2022;38:89-96.
- 11 Boostel R, Bortolato-Major C, Silva NO, Vilarinho JO, Fontoura AC, Felix JV. Contribuições da simulação clínica versus prática convencional em laboratório de enfermagem na primeira experiência clínica. Esc Anna Nery. 2021;25(3):e20200301.
- 12 Chang CY, Setiani I, Darmawansah D, Yang JC. Effects of game-based learning integrated with the self-regulated learning strategy on nursing students' entrustable professional activities: A quasi-experimental study. Nurse Educ Today. 2024;139:106213.
- 13 Tarcha CS, Carmo CP, Paz JF. A ludopedagogia na Educação Especial: o brincar como possibilidade de ensinar e de incluir alunos com deficiências. Rev Fac Famen. 2024;5(1):16-27.
- 14 Nespoli G, Paro CA, Lima LO, Silva CR. Por uma pedagogia do cuidado: reflexões e apontamentos com base na Educação Popular em Saúde. Interface (Botucatu). 2020;24:e200149.
- 15 Oliveira JL. O efeito de uma atividade de promoção da saúde mental nos indicadores psicossociais de mulheres vulneráveis de uma cidade do interior do Estado de São Paulo (tese) Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo; 2023.
- 16 Rohfls IC. Validação do teste BRUMS para avaliação de humor em atletas e não atletas brasileiros. (tese). Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC; 2006.
- 17 Fleck MP. O instrumento de avaliação de qualidade de vida da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL-100): características e perspectivas. Cien Saude Colet. 2000;5(1):33-8.
- 18 Brasil. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Brasília (DF): Ministério do Estado da Saúde; 2012.
- 19 Montañés Muro MP, Ayala Calvo JC, Manzano García G. Burnout in nursing: A vision of gender and "invisible" unrecorded care. J Adv Nurs. 2023;79(6):2148-54.
- 20 Coelho LD, Tony AC, Laguardia GC, Santos KB, Friedrich DB, Cavalcante RB, et al. Are symptoms of depression and anxiety in nursing students associated with their sociodemographic characteristics? Rev Bras Enferm. 2021;74(3 suppl 3):e20200503.
- 21 Liu Y, Frazier PA, Porta CM, Lust K. Mental health of US undergraduate and graduate students before and during the COVID-19 pandemic: differences across sociodemographic groups. Psychiatry Res. 2022;309:114428.
- 22 Silva RC, Pereira AA, Moura EP. Qualidade de vida e transtornos mentais menores dos estudantes de medicina do centro universitário de Caratinga (UNEC) - Minas Gerais. Rev Bras Educ Med. 2020;44(2):e064.
- 23 Pires AM, Gusmão WD, Carvalho LW, Amaral MM. Qualidade de vida de acadêmicos de medicina há mudanças durante a graduação? Rev Bras Educ Med. 2020;44(4):e124.
- 24 Barros GF, Coimbra Neto JB, Campanholo EM, Ritter GP, Silva AM, Almeida RJ. Fatores associados à ansiedade, depressão e estresse em estudantes de Medicina na pandemia de Covid-19. Rev Bras Educ Med. 2022;46(4):e135.
- 25 Santos HA, Segundo JM, Barreto ML, Santos VR, Azevedo GD, Sousa AC. Fatores associados à qualidade de vida dos estudantes de medicina do interior do Nordeste brasileiro. Rev Bras Educ Med. 2021;45(3):e167.
- 26 Ramos DK. Exercício da atenção e resolução de problemas em atividades cotidianas da infância. Psico USF. 2019;24(4):751-62.
- 27 Ramos DK, Vieira RM. Repercussões das tecnologias digitais sobre o desempenho de atenção: em busca de evidências científicas. Rev Bras Educ. 2020;25:e250048.
- 28 Costa CR, Moreira JC, Seabra Júnior MO. Estratégias de ensino e recursos pedagógicos para o ensino de alunos com TDAH em aulas de educação física. Rev Bras Educ Espec. 2015;21(1):111-26.
- 29 Almeida LY, Oliveira JL, Almeida LC, Zanetti AC, Pillon SC, Souza J. The role of mood states in alcohol consumption, a study with workers. Texto Contexto Enferm. 2020;29:e20190094.
- 30 Gaia JW, Ferreira RW, Pires DA. Efeitos da atividade física sobre os estados de humor de jovens estudantes. J Phys Educ (Maringá). 2021;32:e3233.
- 31 Souza JP, Demenech LM, Dumith SC, Silva LN. Sintomas de ansiedade generalizada entre estudantes de graduação: prevalência, fatores associados e possíveis consequências. J Bras Psiquiatr. 2022;71(3):193-203.
- 32 Freitas PH, Meireles AL, Ribeiro IK, Abreu MN, Paula W, Cardoso CS. Sintomas de depressão, ansiedade e estresse em estudantes da saúde e impacto na qualidade de vida. Rev Lat Am Enfermagem. 2023;31:e3884.
- 33 Kantorski LP, Guedes AC, Brum AN, Treichel CA, Santos VB, Gonçalves BA, et al. Transtornos psiquiátricos menores em estudantes universitários durante a pandemia da Covid-19. Rev Gaucha Enerm. 2023; 44:e20220064.
- 34 Chen L, Zhang G, Zhao N. Post-traumatic psychological intervention in college athletes. Rev Bras Med Esporte.2023;29:e2022_0468
- 35 Yue Y, Xiao H. Effects of moderate-intensity physical training on students' mental health recovery Rev Bras Med Esporte. 2023;29:e2022_0291
-
Disponibilidade dos dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis no artigo.
Editado por
-
Editor Associado:
Thiago da Silva Domingos (https://orcid.org/0000-0002-1421-7468) Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
Os dados da pesquisa estão disponíveis no artigo.




