| 1. Quem é o beneficiário (S)? |
Os merecedores que contribuem efetivamente nos esforços coletivos de criação e conservação dos bens comuns como resultado da busca por seus méritos |
Os concorrentes que ganham vantagens individuais como resultado de sua busca por oportunidades concorrenciais |
A seleção dos beneficiários pelo compartilhamento tende a considerar os afetados não envolvidos por “vê-los” como merecedores de direitos. Isso inibi o que Olson (2012) chamou de comportamento free rider (oportunista). Por outro lado, a seleção dos beneficiários pela troca mercantil tende a desconsiderar os afetados não envolvidos por “vê-los” como limitadores do acesso às oportunidades concorrenciais. Isso, favorece o comportamento free rider e fragiliza a ação responsável. |
| 2. Qual é o propósito (S)? |
Gerar equivalia através da distribuição dos benefícios e custos de forma proporcional ao valor das contribuições efetivas de cada um |
Gerar ganho financeiro na permuta das mercadorias pela avaliação de oportunidades concorrenciais e observação de vantagens individuais |
A seleção do objetivo no compartilhamento tende a considerar os afetados não envolvidos porque implica em “ver” consequências “injustas” pelos próprios compartilhadores. Esse objetivo é um princípio da “distribuição justa” (D’ALISA, 2013; OSTROM, 1990). Por outro lado, a seleção do objetivo na troca mercantil tende a desconsiderar os afetados não envolvidos porque os “vêem” como redutor dos ganhos financeiros e implica na tendência à desconsideração das externalidades (ALIER, 2007). |
| 3. Qual é a medida de melhoria ou medida de sucesso (S)? |
O aumento da justa-parte gerada pelos méritos das contribuições efetivas |
O aumento da margem de ganho financeiro resultante da avaliação das oportunidades concorrênciais e observação das vantagens individuais |
A seleção da medida de melhoria no compartilhamento tende a considerar os afetados não envolvidos porque o grupo pode autolimitar a justa-parte para atender aos interesses dos afetados. Isso implica no que Ploeg (2008) chamou de “margem de liberdade” em relação a métrica monetária. Por outro lado, a medida de melhoria selecionada na troca mercantil implica em “dependência dos mercados” (PLOEG, 2008) e tende a desconsiderar os afetados não envolvidos porque pode reduzir a margem de ganho financeiro. |
| 4. Quem é o tomador de decisão (S)? |
É o grupo social constituído por aqueles que possuem mérito pela criação e conservação dos bens comuns |
É o indivíduo que busca oportunida-des concorren-ciais |
A seleção do tomador de decisão no compartilhamento tende a considerar os afetados não envolvidos porque submete os interesses individuais aos objetivos do grupo social, uma situação que Polanyi (2013) chamou de enraizamento (embeddedness). Por outro lado, a seleção do tomador de decisão na troca mercantil tende a gerar desenraizamento (disembeddedness) (PLANYI, 2013) e desconsiderar as consequências para os afetados não envolvidos. |
| 5. Quais recursos e outras condições de sucesso são controlados pelo tomador de decisão (S)? |
São os bens comuns (sociais, ecológicos e artificiais) criados e conservados como resultado dos méritos da coletividade |
São as mercadorias (sociais, ecológicas e artificiais) acessados através de oportunidades competitivas |
A seleção dos recursos no compartilhamento minimiza as consequências para afetados não envolvidos porque são incluídos apenas os recursos resultantes dos méritos da coletividade. Por outro lado, a seleção dos recursos na troca mercantil implica na dificuldade de considerar afetados que não estão envolvidos nas relações de troca porque reduz as oportunidades concorrenciais. |
| 6. Quais condições de sucesso são parte do ambiente de decisão (E)? |
São os ambientes de(a) reconhecimento externo, (b) conciliação de interesses conflitantes com outros grupos, (c) o conhecimento científico e (d) o acesso a políticas públicas. |
O ambiente de (a) acesso aberto aos bens da natureza, (b) o apoio externo às relações de concorrência contínua e (c) à iniciativa individual |
Os compartilhadores dão relevância para o ambiente de cooperação externa que tende a considerar os afetados não envolvidos nas relações de cooperação inter-organizacional. Ostrom (1990) “vê” essa cooperação como um princípio de multiescala. Por outro lado, na troca mercantil é valorizado o ambiente que Feeny et al. (2001) denominam de “acesso aberto”. Esse ambiente tende a gerar “dilemas sociais” (OSTROM, 1990) que desfavorece a consideração de afetados não envolvidos. |
| 7. Quem é considerado um profissional ou outro especialista (S)? |
O compartilhador com sua experiência pessoal e conhecimento intergeracional como resultado da busca por seus méritos. |
Todos os indivíduos com experiência prática e teórica sobre a diferenciação concorrencial |
Os profissionais relevantes para os envolvidos no compartilhamento são selecionados pelo próprio grupo, gerando o que Ploeg (2008) define como autonomia no controle das competências. Isso facilita a consideração de afetados não envolvidos porque a experiência e competência são controlados pelo grupo. Já na troca mercantil há a tendência de desconsideração dos afetados não envolvidos porque os profissionais são aqueles com competência para lidar melhor com relações competitivas, o que dificulta a consideração dos afetados que não estão envolvidos. |
| 8. Que tipo de expertise é consultada (S)? |
Os conhecimentos e experiências dos próprios compartilhadores sobre (a) como aumentar as contribuições dos envolvidos e (b) como conservar os bens comuns. |
É incluído como relevante o conhecimento sobre o aumento nas margens de ganho monetário |
O compartilhamento tende a incluir os afetados não envolvidos porque considera o conhecimento próprio necessário para a valorização e conservação dos bens comuns. Isso ocorre porque gera o que Ploeg (2008) chamou de “margem de liberdade” em relação ao conhecimento externo. Por outro lado, o conhecimento relevante para os envolvidos na troca mercantil fragiliza a inclusão dos afetados não envolvidos porque implica na perda das “margens de liberdade” (PLOEG, 2008) sobre o conhecimento. |
| 9. O que ou quem é considerado o garantidor do sucesso (S)? |
Os garantidores são (a) a transparência nas avaliações e (b) o reconhecimento preciso do valor da contribuição dos envolvidos pela coletividade. |
É a capacidade de barganha do indivíduo através de informações e recursos ocultos ao controle da coletividade. |
Os garantidores do compartilhamento implicam em avaliação aberta sobre os benefícios, assim como sobre as consequências das operações técnico-produtivas. Isso implica no que Ulrich (2018) chamou de “abertura subjetiva” que facilita o exame das consequências para os afetados. Diferente disso, os garantidores da troca mercantil implicam no que Ulrich (2018) chamou de situação de “fechamento subjetivo” que reduz a possibilidade de avaliação aberta das consequências e a consideração dos afetados. |
| 10. Quem é testemunha dos interesses dos afetados, mas não envolvidos (A)? |
Os próprios compartilhado-res tendem a testemunhar a situação dos afetados no fluir de suas operações técnico-produtivas e espaços de decisão |
Ocorre tendência de seleção de pessoas, instituições e organizações como testemunhas fora das relações de troca mercantil |
Os próprios compartilhadores tendem a testemunhar as consequências de suas operações técnico-produtivas para afetados que não estão envolvidos. Isso implica na tendência que Ulrich (2009) chamou de autolimitação reflexiva. Por outro lado, na troca mercantil, o ato de testemunhar é atribuído para terceiros que são vistos como neutros e imparciais como, por exemplo, a polícia. Isso favorece o que Beck (2018) chamou de “irresponsabilidade organizada”. |
| 11. O que garante a emancipação dos afetados das premissas e promessas daqueles envolvidos (A)? |
Os compartilhadores tendem a autolimitar suas operações técnico-produtivas nas situações em que observam “injustiçados” por suas operações de uso e manejo. |
Ocorre tendência em aceitar apenas a legitimidade dos indivíduos proprietários que não sofrem as consequên-cias das decisões do processo de criação das mercadorias |
No compartilhamento a emancipação tende a ocorrer pela autolimitação técnico-produtiva, uma competência emancipatória que Ulrich (1993) entende como “autolimitação reflexiva”. Por outro lado, não foram observadas formas de emancipação resultantes da ação dos próprios envolvidos com a troca mercantil. Isso implica na “heteronomia” (ESCOBAR, 2019) caracterizada pela dependência de normas externas (como o código penal, por exemplo) e pela crescente perda da competência emancipatória do grupo social. |
| 12. Que visão de mundo é determinante (A)? |
É o “uso justo” dos bens da natureza. Os espaços de conciliação de visões de mundo são os próprios espaços de diálogo formais e informais da associação local. |
É o uso ilimitado de recursos úteis. O espaço para conciliar visões de mundo são os impessoais, padronizados, universais e externos como o sistema judiciário, por exemplo. |
Na visão de mundo dos compartilhadores o contexto da ação responsável importa porque o “uso justo” facilita a inclusão dos afetados não envolvidos pela autolimitação técnico-produtiva. Por outro lado, a visão de mundo dos envolvidos na troca mercantil tende a excluir as possibilidades de exame das consequências não pretendidas e transferir esse exame para espaços que estão fora das relações de troca. Essa visão de mundo fragiliza a competência emancipatória que Ulrich (1993) chamou de “autolimitação reflexiva”. |