Resumo
Esse estudo visou conhecer e documentar a diversidade de usos e a importância cultural dos akrô, denominação dada às plantas trepadeiras, na vida cotidiana dos Mebêngôkre-Kayapó. A pesquisa foi conduzida inicialmente com dois colaboradores, utilizando a técnica turnê guiada para coleta de informações e amostras botânicas. Posteriormente, aplicou-se o checklist-entrevista com dez novos colaboradores. Foram identificadas 52 espécies pertencentes a 42 gêneros e 23 famílias. Dentre estas, a mais representativa foi Bignoniaceae (10 spp.). Houve um predomínio de trepadeiras lenhosas (51,92%). As trepadeiras volúveis, cujo caule flexível é o mecanismo de escalada, representam 65% das espécies registradas. Os akrô são encontrados em seis ambientes; metade deles são, ao mesmo tempo, espontâneos e cultivados. Entre as seis categorias de uso, a mais citada foi medicinal (74,68%). A identificação dos akrô usados para sustentar o modo de vida deste povo mostrou-se relevante para a conservação da biodiversidade de seu território.
Palavras-chave:
Amazônia; Mebêngôkre-Kayapó; Etnobotânica; Plantas trepadeiras; Mecanismo de escalada
Abstract
This study aimed to understand and document the diversity of uses and the cultural significance of akrô, the term used for climbing plants, in the daily life of the Mebêngôkre-Kayapó people. The research initially involved two collaborators, employing the guided tour technique to collect information and botanical samples. Subsequently, the checklist-interview method was applied with ten additional collaborators. A total of 52 species belonging to 42 genera and 23 families were identified, with Bignoniaceae being the most representative family (10 species). Woody climbers predominated (51.92%). Twining vines, whose flexible stems serve as their climbing mechanism, represent 65% of the species recorded. The akrô are found in six different environments, with half of them occurring both spontaneously and under cultivation. Among the six identified use categories, medicinal use was the most frequently cited (74.68%). Identifying the akrô used to sustain this people’s way of life proved essential for the conservation of their territory’s biodiversity.
Keywords:
Amazon; Mebêngôkre-Kayapó; Ethnobotany; Climbing plants; Climbing mechanism
Resumen
Este estudio tuvo como objetivo conocer y documentar la diversidad de usos y la importancia cultural de los akrô, denominación dada a las plantas trepadoras, en la vida cotidiana de los Mebêngôkre-Kayapó. La investigación se llevó a cabo inicialmente con dos colaboradores, utilizando la técnica de recorrido guiado para la recopilación de información y muestras botánicas. Posteriormente, se aplicó la entrevista con verificación-entrevista a diez nuevos colaboradores. Se identificaron 52 especies pertenecientes a 42 géneros y 23 familias, siendo Bignoniaceae la familia más representativa (10 especies). Predominaron las trepadoras leñosas (51,92%). Las plantas trepadoras, cuyos tallos flexibles les sirven como mecanismo para trepar, representan el 65% de las especies registradas. Los akrô se encuentran en seis ambientes, y la mitad de ellos ocurren tanto de manera espontánea como bajo cultivo. Entre las seis categorías de uso identificadas, la más mencionada fue la medicinal (74,68%). La identificación de los akrô utilizados para sostener el modo de vida de este pueblo resultó esencial para la conservación de la biodiversidad de su territorio.
Palabras-clave:
Amazonía; Mebêngôkre-Kayapó; Etnobotánica; Plantas trepadoras; Mecanismo de escalada
Introdução
A flora da região Neotropical, que abrange toda a diversidade de ecossistemas tropicais do continente americano, é fortemente marcada pela riqueza de plantas trepadeiras (Acevedo-Rodrígues, 2003; Campbell et al., 2018; Gentry, 1991), estimada em aproximadamente 10.381 espécies (Acevedo-Rodrígues et al., 2025). No Brasil, o número de espécies de trepadeiras chega a 4.376, com 1.207 dessas ocorrendo no estado do Pará (Flora e Funga do Brasil, 2026). A diversidade destas exigem boas condições de conservação da floresta e dos locais onde estão disponíveis (Piovesani & Ferreira, 2021); assim, a dinâmica do seu estabelecimento no Neotrópico está relacionada a diferentes fatores, como a fragmentação de ecossistemas, a extensão dos períodos de estiagem e a redução da precipitação (Campbell et al., 2018).
Diante da falta de consenso entre os botânicos quanto à definição atribuída às plantas que possuem a forma de vida que se destaca pelo hábito predominantemente escalador e pela dependência de algum tipo de forófito como apoio ou suporte (Pandi et al., 2022), a escolha foi adotar neste estudo o termo plantas trepadeiras, conforme Durigon et al. (2019). Contudo, é relevante ressaltar que essas plantas também são reconhecidas como lianas (Chery et al., 2022) e trepadeiras ou cipós (Sperotto et al., 2020).
As plantas trepadeiras germinam no solo, iniciando seu ciclo de vida como plântulas terrestres e têm a capacidade de crescer verticalmente, geralmente apoiando-se em suportes, outras plantas ou estruturas para atingir alturas consideráveis (Sperotto et al., 2020). Sua representatividade taxonômica abrange diversas famílias, como Bignoniaceae, Passifloraceae, Cucurbitaceae, Dilleniaceae e Sapindaceae, podendo apresentar características herbáceas ou lenhosas. Umas possuem caules delgados ou sublenhosos; outras apresentam expressivo crescimento secundário e são chamadas de lianas (Engel et al., 1998; Sousa-Baena et al., 2018).
Exercendo um papel fundamental no bem-estar das comunidades tradicionais, as trepadeiras são utilizadas em diferentes contextos, como remédios, em práticas rituais, na construção civil e produção de artefatos, que se baseiam na extração e no seu manejo sustentável (Da Silva, 2024). Para os indígenas amazônicos, as plantas trepadeiras são carregadas de valores culturais, a exemplo do guaraná (Paullinia cupana Kunth), uma espécie nativa (Congretel & Pinton, 2020) e domesticada pelo povo Sateré-Mawé (ISA, 2024).
Para o presente trabalho, o contexto cultural Mebêngôkre-Kayapó no Sudeste Paraense é colocado em evidência, onde os cipós são conceituados como akrô, os quais são fundamentais em seu sistema socioecológico, assumindo importância econômica e simbólica. Os indígenas manejam várias espécies de cipós, sendo aproveitados para diversos fins, a exemplo do timbó (Serjania paucidentata D.C.) na pesca (González-Pérez, 2016) e do kupá (Cissus gongylodes (Baker) Planch.) na alimentação tradicional (Robert et al., 2012).
Além disso, as narrativas etnohistóricas Mebêngôkre-Kayapó trazem o conceito akrô em diversos relatos, como no conto sobre “O dilúvio” (cf. Banner, 1957), que apresenta a história de um pôkaprire (caçador de tatus) que, ao cavar a terra, encontrou algo parecido com um grande cipó, o qual exsuda volumosa quantidade de seiva depois de ser cortado. Vários akrô atualmente são, de fato, utilizados como fonte de água pelos indígenas, sendo que neste relato, o tipo especial de akrô é interpretado simbolicamente como a artéria da Terra, que ao ser amputada, jorra uma grande quantidade de água, causando a inundação do mundo. Segundo os indígenas, muitos animais não resistiram a esta catástrofe, sendo extintos, mas os Mebêngôkre-Kayapó conseguiram escapar, refugiando-se nas árvores mais altas que permaneceram acima do nível da água (Banner, 1957).
Tendo em vista que a etnobotânica visa reunir conhecimentos tradicionais sobre plantas, especialmente no que se refere aos seus usos (Voeks, 2016), torna-se assim uma ferramenta importante para a conservação das trepadeiras, pois esse saber pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de técnicas de uso sustentável (Soares, 2024). Estudos acerca do uso e da conservação de akrô, ainda não foram conduzidos na Terra Indígena Kayapó (TIK), aldeia Kriny. Dessa forma, objetivo desta pesquisa foi documentar a diversidade de usos e a importância cultural das plantas trepadeiras para a vida cotidiana do povo Mebêngôkre-Kayapó, bem como fornecer informações que possam subsidiar o manejo desses recursos naturais e políticas de conservação.
Material e Métodos
Área de estudo
Os Mebêngôkre-Kayapó, nativos de zonas de cerrado, ocuparam permanentemente a floresta tropical úmida quando se deslocaram para o nordeste, retardando assim o contato com os colonizadores europeus (Robert, 2009). Atualmente, ocupam uma área total de 13 milhões de hectares em ambas as margens do Rio Xingu, ao sul do Estado do Pará e ao norte do estado do Mato Grosso, combinando um complexo de diferentes Terras Indígenas (AFP, 2024). A Terra Indígena Kayapó (TIK), onde está situada a área de estudo, encontra-se na região sudeste paraense, abrangendo os municípios de São Félix do Xingu, Ourilândia do Norte, Cumaru do Norte e Bannach, totalizando uma área de 32,84 km² (Figura 1). O Mebêngôkre, língua falada por este povo pertence à família linguística Jê, do tronco Macro-Jê (Salanova & Nikulin, 2020).
Esse grande território é banhado pelos afluentes do Rio Fresco (afluente do Xingu) ao leste, até os afluentes do Rio Curuá. A oeste, há alguns Mebêngôkre-Kayapó que vivem no baixo curso do Rio Iriri (Ribeiro, 2019). Quanto à cobertura vegetal, a TIK é composta por floresta ombrófila aberta, floresta ombrófila densa, área de transição cerrado-floresta ombrófila e vegetação de cerrado, sendo que o entorno é marcado pelas fronteiras agrícolas ativas no Sudeste Paraense; trata-se, pois, de uma das últimas reservas de floresta situada no Arco do Desmatamento (ISA, 2024), o que a torna uma área cobiçada para atividades de garimpo ilegal. A região é amplamente reconhecida pela intensa atividade garimpeira, a ponto de o município de Cumaru ser conhecido como a cidade do ouro e a aldeia Gorotire abrigar um extenso garimpo ilegal, como consequência, há o risco de que resíduos e poluentes sejam carregados para os rios que atravessam as aldeias (Alves, 2023).
As aldeias Mebêngôkre-Kayapó têm em média cerca de 300 indivíduos, podendo em algumas chegar até mil habitantes, o que os diferencia de outros povos indígenas da Amazônia, onde o número de pessoas por aldeia costuma variar entre 30 a 80 (ISA, 2024). Caracterizam-se por ter suas casas ao redor de uma praça central, onde acontecem as danças rituais e encontra-se a ngà (casa dos guerreiros), que é o centro político da aldeia e local de transmissão de conhecimentos dos homens velhos para os mais jovens (Turner, 1992).
A aldeia Kriny, área deste estudo, situa-se entre as coordenadas geográficas 7°24’47.8”S de latitude e 50°55’10.2”W de longitude, aproximadamente a 80 quilômetros da cidade de Bannach (Figura 1), tem cerca de 206 habitantes (SESAI, 2024). Seu nome significa “aldeia nova” na língua Mebêngôkre-Kayapó e teve sua origem a partir de cisão em 2003 de Gorotire, a aldeia-mãe. A população de Kriny assim como desta última tem facilidade de acesso por estradas a diversas cidades, principalmente Redenção, município com o qual guarda forte relação (ISA, 2024).
Os indígenas desta aldeia mantêm diversas formas de interação com os recursos naturais, refletidas em seus hábitos de uso e manejo, pois o cultivo de alimentos é uma prática comum entre eles, sendo que cada família dispõe de sua própria área de plantio (Alves, 2023). Segundo Robert et al. (2012), a agricultura desse povo é diversificada e fundamenta-se em práticas coletivas, promovendo redes de troca que garantem a circulação da agrobiodiversidade local. Entre os espaços essenciais para obtenção desses recursos estão os kikre bunun (quintais), onde se encontram espécies frutíferas como mamoeiro, cajueiro e bananeira e plantas medicinais, e as puru (roças), situadas ao redor das aldeias, destinadas ao cultivo de mandioca, macaxeira, milho, inhame, abóbora, melancia, batata, batata-doce, mandioca e feijão (Robert et al., 2012).
Coleta de dados
Esta pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Pará (processo nº 25674619.4.0000.0018) e aprovada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (processo nº 08620.009958/2019-99). Reuniões com participantes indígenas foram realizadas para apresentar o plano de trabalho e obter os Termos de Anuência Prévia (TAP) e de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE). Após a anuência, a documentação foi cadastrada no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SISGEN), conforme a Lei nº 13.123/2015. Equipamentos de gravação e fotografias foram autorizados com a assinatura de um termo de uso de voz e/ou imagem.
A realização deste estudo responde a uma demanda de duas lideranças da aldeia Kriny, durante reunião do projeto maior, em Gorotire, no âmbito do qual esta pesquisa está inserida. Eles expressaram a necessidade de registrar seus conhecimentos sobre plantas, transmitidos por seus pais, conhecidos pela colaboração com o etnobiólogo Darrell Posey, que dedicou grande parte de sua vida profissional ao povo Mebêngôkre-Kayapó. A memória da figura de Posey, um dos etnobiólogos mais influentes do século XX, ainda está muito presente entre os indígenas. Sua convivência prolongada com essa população permitiu revelar sistemas complexos de classificação, manejo e uso de recursos naturais, evidenciando que os Mebêngôkre-Kayapó são agentes ativos na construção e manutenção da biodiversidade amazônica (Penna-Firme et al., 2018). Posey demonstrou que práticas como a criação de “ilhas de floresta” e horticultura configuram formas sofisticadas de manejo da paisagem, contrariando modelos que desconsideravam o papel indígena na conservação (Anderson & Posey, 1985). Além de sua contribuição científica, atuou politicamente na defesa dos direitos territoriais e do patrimônio intelectual dos povos indígenas. Seu legado consolidou novas perspectivas éticas e metodológicas na etnobiologia, reconhecendo o conhecimento tradicional como fundamental para pesquisas e políticas de conservação.
As atividades de campo da presente pesquisa foram realizadas no período de julho de 2023 a dezembro de 2024, em duas etapas. Inicialmente, por meio da técnica turnê guiada (Albuquerque et al., 2010), foram obtidas informações sobre as plantas trepadeiras (nomes Mebêngôkre-Kayapó, usos, partes usadas, habitat de ocorrência, modos de preparo e de uso e disponibilidade) e classificados os mecanismos de escalada, que são as estratégias estruturais e funcionais que as plantas trepadeiras utilizam para ascender na vegetação e alcançar maior luminosidade. Concomitantemente, foram realizadas coletas de amostras botânicas e herborizadas. A etapa seguinte contou com a participação de mais 10 colaboradores, indicados pelos dois primeiros especialistas indígenas. Visando a ampliar e confirmar as informações sobre os akrô coletados durante o primeiro trabalho de campo, foi aplicado o checklist-entrevista (Albuquerque et al., 2010), a partir da apresentação de pranchas individuais contendo fotografias das plantas in situ e de vouchers destas.
As espécies de plantas coletadas foram identificadas por um parabotânico da Coordenação de Botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), bem como contou com a confirmação de duas taxonomistas e depositadas no Herbário João Murça Pires (MG) e na Coleção de Etnobotânica (MGEtno) da referida instituição. Os nomes científicos e famílias foram verificados quanto à precisão visitando o banco de dados online Lista de Espécies da Flora e Funga do Brasil (https://floradobrasil.jbrj.gov.br/consulta/). O sistema de classificação botânica adotado foi o do Angiosperm Phylogeny Group IV.
Os dados coletados foram organizados em planilhas e analisados qualitativa e quantitativamente. As espécies foram classificadas por categorias de uso, conforme Balée (1994) e Cook (1995). A disponibilidade das plantas trepadeiras foi sistematizada em três categorias: espontâneos, cultivados e concomitantemente espontâneos e cultivados, segundo Ferreira (2011). As plantas trepadeiras foram classificadas com base na sua estrutura caulinar em herbáceas e lenhosas (Sperotto et al., 2020). Quanto aos mecanismos de escalada, foram classificadas de acordo com a proposta de Hegarty (1991) como apoiante (apoia-se à planta suporte através de sucessivas ramificações); gavinhosa (possui gavinhas, com origem de diferentes partes da planta); radicante (utiliza raízes adventícias); volúvel (utiliza o caule, ramos ou pecíolos para se enrolarem em outras plantas).
Resultados e Discussão
Perfil dos participantes
Entre os 12 participantes da pesquisa, o número de homens e mulheres foi equivalente, cuja faixa etária está compreendida entre 31 e 66 anos. Na Tabela 1 (disponibilizada no material suplementar - repositório digital), observa-se os percentuais com as informações relacionadas aos dados sociodemográficos dos participantes da pesquisa. Quanto às atividades que desempenham na comunidade, dois são caciques, homens, responsáveis por liderar e mediar questões políticas e culturais; um pajé, com grande conhecimento etnobotânico; três homens se dedicam à agricultura de subsistência e seis mulheres se identificaram como responsáveis pelo cuidado do lar e da família. De acordo com Robert et al. (2012), embora a agricultura não tenha sido mencionada por todos os colaboradores, trata-se de uma atividade familiar em que os homens estão envolvidos na escolha e preparação do terreno para o roçado e as mulheres se dedicam ao plantio, com possível auxílio daqueles, porém a roça pode continuar sendo cultivada por ambos. Esse perfil reflete uma população com forte conexão com saberes tradicionais e com práticas sustentáveis, evidenciando o papel cultural e econômico das plantas na vida cotidiana dos participantes. Estes dados apontam para uma estrutura comunitária diversificada em termos de funções sociais e níveis de escolaridade.
Análise florística
Foram identificadas um total de 52 espécies pertencentes a 42 gêneros e 23 famílias botânicas (Tabela 2 - disponibilizada no material suplementar - repositório digital). Dentre estas, as mais representativas foram Bignoniaceae (10 spp.), Apocynaceae (5 spp.), Passifloraceae (4 spp.), Convolvulaceae, Cucurbitaceae, Fabaceae e Sapindaceae (3 spp. cada). Os demais estudos conduzidos em outras aldeias Mebêngôkre-Kayapó envolveram diferentes formas de vida, porém evidenciaram a importância cultural dos akrô para este povo (Balée, 2023; González-Pérez, 2016; Posey, 1992). Nos referidos trabalhos diversas plantas trepadeiras de Bignoniaceae, Apocynaceae e Fabaceae, apresentaram diferentes formas de uso medicinais, alimentícios e tecnológicos, os quais foram ampliados por meio dos achados do presente estudo. A frequência de disponibilidade das plantas trepadeiras destaca em primeiro lugar os akrô espontâneos e cultivados (50%), seguido de espontâneos (44%), e em menor frequência aparecem aqueles somente cultivados (6%) (Figura 2- disponibilizada no material suplementar - repositório digital).
Em relação aos ambientes onde são encontrados, os akrô espontâneos, a exemplo de akrô tené kupukané (Mendoncia pilosa Mart.), akrô kremai ô potí (Philodendron acutatum Schott) e akrô kudjoré (Mandevilla hirsuta (A.Rich.) K.Schum.), ocorrem nos ambientes naturais bà (floresta ombrófila densa), kapot (cerrado) e ngô kôt (beira de igarapé), respectivamente. Aqueles cuja existência na aldeia depende da intervenção humana, através do plantio de mudas ou a partir de sementes, caso de pidjo krãtí (Passiflora nitida Kunth), ngô pointdjà (Luffa cylindrica (L.) M. Roem.) e akrô kukrytí (Tetracera willdenowiana Steud.), são encontrados no kikre bunum (quintal), puru (roça) e ibê (floresta secundária), respectivamente (Figura 3). Estes ambientes estão entre aqueles documentados por Robert et al. (2012) e González-Pérez (2016) nas aldeias Moikarakô e Las Casas, onde são habitualmente explorados ou manejados.
Os akrô lenhosos (51,92%) foram ligeiramente mais expressivos que os herbáceos (48,08%) e o mecanismo volúvel está presente em 65% das espécies de trepadeiras, enquanto que o mecanismo menos encontrado foi o radicante (2%), presente em Araceae (Figura 4). São raros os trabalhos na literatura brasileira dedicados aos aspectos culturais associados a comunidades ecológicas de plantas trepadeiras. Na sua maioria trazem uma abordagem ecológica e estrutural. Oliveira et al. (2018), por exemplo, em seu estudo fitossociológico no Parque Estadual da Serra Furada, uma floresta atlântica no Sul de Santa Catarina, documentaram um maior número de trepadeiras lenhosas (62,85%), dentre as 70 espécies coletadas, uma proporção semelhante ao resultado encontrado neste estudo. A importância cultural e ecológica das trepadeiras, também vem sendo documentada em outros países. Nos estudos de Kashung et al. (2020), no distrito de Papum Pare de Arunachal Pradesh, Nordeste da Índia, foi observado que as plantas trepadeiras herbáceas representam 54,09%, das 61 espécies documentadas, sendo que o mecanismo de escalada mais frequente foi o volúvel (39,34%).
Existe um conflito paradigmal entre práticas silviculturais modernas e saberes tradicionais. Essa divergência não é apenas prática, mas epistemológica: enquanto o manejo florestal técnico frequentemente enquadra as plantas trepadeiras como um problema, dado seu potencial de reduzir o crescimento de árvores comerciais e aumentar danos durante a exploração madeireira, o conhecimento indígena as posiciona como recursos múltiplos, domesticados e culturalmente integrados na subsistência e na medicina tradicional (Reis et al., 2020; Kerr et al., 1978).
Ecologicamente, as plantas trepadeiras têm características de história de vida e resposta à perturbação que explicam tanto seu aumento em algumas condições quanto o efeito negativo sobre crescimento arbóreo. Estudos de larga escala na Amazônia mostram que o grau de infestação por cipós está correlacionado com distúrbios, disponibilidade de luz e traços de espécies hospedeiras, sendo associado a redução de crescimento de árvores em locais fortemente infestados (Reis et al., 2020; Letcher & Chazdon, 2012). Esses resultados sustentam a origem e a aparente justificação de práticas silviculturais que preconizam remoção de plantas trepadeiras para proteger a produtividade madeireira. Porém, esse quadro ecológico também revela que a mera supressão sem consideração da dinâmica de regeneração e do papel funcional dessas plantas pode gerar trade-offs para biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
Do ponto de vista etnobotânico, os Mebêngôkre-Kayapó e outros povos indígenas protagonizam um importante papel na conservação de plantas trepadeiras, uma vez que estas assumem funções estratégicas em seus sistemas socioecológicos, incluindo espécies domesticadas ou semidomesticadas, empregadas como alimento, em rituais e em práticas de cuidados com a saúde (Kerr et al., 1978; Robert et al., 2012; Coelho-Ferreira & Garcés, 2020). Esses usos não apenas demonstram valor utilitário direto, mas também indicam processos de seleção e de conservação que mantêm espécies de trepadeiras no repertório cultural e ecológico das aldeias. Ignorar tais conhecimentos é perder oportunidades de manejo integrado que simultaneamente proteja árvores de interesse comercial e conserve recursos de uso doméstico e medicinal obtidos de plantas trepadeiras.
Categorias de uso
As espécies trepadeiras coletadas em Kriny estão distribuídas em seis categorias de uso (Tabela 3 - disponibilizada no material suplementar - repositório digital), que representam as diferentes formas de utilização das espécies pelos indígenas. A categoria de uso medicinal foi a que envolveu o maior número de espécies (98%) e comida/atração para animais foi a menos citada (12%), como mostra a Figura 5. A maioria das espécies (60%) foram citadas em múltiplas categorias de uso. No estudo de Anderson e Posey (1985) sobre o manejo de uma área de cerrado na aldeia Gorotire, em que foram documentadas 120 espécies úteis, a categoria medicinal foi também a mais expressiva (72%), ao passo que a categoria atrativo para animais foi a segunda mais citada (40%), o que difere dos achados no presente estudo, que estaria associado à distintas coberturas vegetais de ambos os estudos ou até mesmo às abordagens metodológicas. De acordo com os referidos autores, uma porcentagem de espécies, similar à registrada em Kriny, apareciam em mais de uma categoria de uso (62%). Entre os Mebêngôkre-Kayapó da aldeia Las Casas, localizada também em área de cerrado, González-Pérez (2016) encontrou apenas 8,42% das 95 espécies úteis com usos em diferentes categorias. A importância das trepadeiras na medicina tradicional Mebêngôkre-Kayapó, conhecidas por pajés e raizeiros, foi também registrada por Coelho-Ferreira e Garcés (2020) nas aldeias Las Casas e Moikarakô.
As trepadeiras medicinais são indicadas para diversos fins, como por exemplo, para curar feridas akrô tené kupukané (Mendoncia pilosa Mart.), aliviar dores akrô kaprãn kanê (Momordica charantia L.), combater infecções intestinais akrôdje djàpriré (Cuspidaria lateriflora (Mart.) DC.), doenças oculares djà rerek krô (Doliocarpus dentatus (Aubl.) Standl.) e contraceptivas akrô tekaíkep (Omphalea diandra L.). No estudo de Million et al. (2020) sobre plantas medicinais e ritualísticas dos Kaiowá no Mato Grosso do Sul, registrou plantas trepadeiras usadas como remédios por este povo, a exemplo do Cipó-mil-homens (Aristolochia triangularis Cham. & Schltdl), utilizado para diarreia e vômito.
Em relação à categoria ritualística, que envolve práticas de cura, proteção e festas tradicionais, como a festa de noivos, marcando a união entre duas famílias, diferentes plantas são utilizadas. As fibras de akrôté kajkêp (Rourea cuspidata Benth. ex Baker) são amarradas no braço ou nas casas para afastar espíritos maus. A casca de akrô toité (Adenocalymma flaviflorum (Miq.) L.G. Lohmann) é macerada junto com urucum e aplicada no corpo como parte da preparação para a festa de noivos. Já as folhas, o caule e a raiz de akrô pyré (Prestonia denticulata (Vell.) Woodson) são utilizados no preparo de banhos rituais, destinados a trazer a alma de volta ao corpo. O papel das plantas em rituais indígenas tem sido documentado para muitos povos, a exemplo do guaraná (Paullinia cupana Kunth) para os Sateré-Mawé, com o qual produzem uma bebida feita das sementes e consumida em ritual para fortalecer a boa comunicação, orientar processos de aprendizado e auxiliar na tomada de decisões dentro da comunidade (Congretel, 2017); do cipó caapi (Banisteriopsis caapi (Spruce ex Griseb.) Morton) como o principal alucinógeno para o povo Shuar da Amazônia equatoriana em seus rituais (Bennett, 1992).
Os frutos de algumas espécies de trepadeiras são consumidos como fonte de nutrição, como é o caso de katên caak’okrê (Cucurbita maxima Duchesne ex Lam.) e mat kwy-yti krô (Phaseolus lunatus L.), que são cozidos e incorporados à alimentação diária. Além disso, o suco de Pidjo krãtí (Passiflora nitida Kunth) é preparado e consumido regularmente. Robert et al. (2012), registraram esses cultivos em outras aldeias, reforçando a importância destes na agricultura do povo Mebêngôkre-Kayapó. Estes mesmos autores mencionaram a presença do cipó-kupá (Cissus gongylodes (Burch. ex Baker) Planch.), não referenciado no presente estudo, o que pode se pode explicar por ser considerado raro atualmente. Parece se tratar de uma planta tradicional dos grupos Jê setentrionais, consumido assado ou cozido pelos idosos Mebêngôkre-Kayapó (Kerr, 1987).
As plantas trepadeiras são empregadas na categoria materiais, devido à sua flexibilidade e resistência. São utilizadas na confecção de objetos para casa, adornos, mas também como cordas para amarrar esteios e fixar componentes das moradias, como no caso do akrô kremai ô potí (Philodendron acutatum Schott). Além disso, servem na produção de cestos para carregar frutas e outros produtos das roças, exemplificado pelo akrô jabiê tí (Distimake macrocalyx (Ruiz & Pav.) A.R. Simões & Staples) e na fabricação de utensílios para limpeza doméstica, como ocorre com o ngô pointdjà (Luffa cylindrica (L.) M. Roem.). A importância das plantas trepadeiras na confecção de artefatos indígenas têm sido registrada entre diversos povos, a exemplo do cipó São João (Amphilophium paniculatum (L.) Kunth) para o povo Kaingang que sustenta parte de sua economia, confeccionando e vendendo cestos com esta matéria-prima (Guadagnin & Gravato, 2013); o povo Shuar utiliza caules de Mansoa verrucifera (Schlec-ter) A. Gentry para confeccionar cestos (Bennett, 1992).
As plantas tóxicas registradas são batidas e lançadas na água, para paralisar ou matar peixes, facilitando sua captura em rios e lagos. As duas espécies desta categoria pertencem à família Sapindaceae e ao mesmo gênero: tokodjotiré (Serjania acutidentada Radlk.) e akrôré (Serjania paucidentada DC.). O uso desta última foi registrado nas aldeias Las Casas e Moikarakô (González-Pérez, 2016). O povo Ikpeng do Estado do Mato Grosso, também utilizam para pescar um cipó da mesma família (Serjania laruotteana Cambess.), conhecido popularmente como cipó timbó-açu (Txicão & Leão 2019). Espécies deste gênero fazem parte do grupo de plantas conhecidas como timbó, empregadas como ictiotóxicas desde a época pré-colombiana, e cuja ação tóxica é atribuída à rotenona, substância com potencial inseticida bastante significativo (Tozzi, 1989).
Em Kriny os Mebêngôkre-Kayapó utilizam o fruto de akrô moitekàntí (Passiflora glandulosa Cav.), para atrair jabuti; já em Gorotire foi documentada a trepadeira Cuspidaria inaequalis (DC. ex Splitg.) L.G.Lohmann para atrair animais (Anderson & Posey, 1985). Outros estudos registraram diferentes usos de trepadeiras por povos de diversas partes do mundo (África, Ásia e América), (Al Hatmi & Lupton, 2021; Mekonnen et al., 2022, Oza et al., 2022; Pascual-Mendoza et al., 2022; Pereira et al., 2024; Sivakumar & Sivakumar, 2022). Nesse contexto, na Índia o ngô pointdjà (Luffa cylindrica (L.) M. Roem.) é usado como fonte de alimento (Kashung et al., 2020), enquanto que para os Mebêngôkre-Kayapó a mesma é utilizada como material de limpeza. A figura 6 ilustra akrô de diferentes categorias de uso.
Conclusões
Diferente de outras estratégias de manejo propostas por não indígenas, que preveem a supressão ou eliminação das plantas trepadeiras, existem alternativas e outras perspectivas do uso da biodiversidade da Amazônia, onde as trepadeiras são consideradas importantes para diferentes finalidades pelos Mebêngôkre-Kayapó, evidenciando que os recursos florestais continuam a desempenhar um papel essencial em sua subsistência e no sistema de saúde tradicional. O conhecimento ecológico desse povo e suas práticas sustentáveis são fundamentais para sua sobrevivência e preservação cultural, além de contribuírem para a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável. Diante da rica diversidade de trepadeiras na Amazônia, é essencial que estudos futuros em etnobotânica e etnoecologia considerem tanto o manejo humano quanto os fatores ambientais, permitindo uma compreensão mais profunda dos processos que regem o uso dessas plantas. Essa abordagem pode fortalecer a pesquisa científica e subsidiar políticas de conservação da sociobiodiversidade alinhadas às realidades locais, promovendo o uso sustentável das trepadeiras e garantindo a manutenção das florestas em pé para o bem-estar das populações indígenas. No entanto, muitas áreas florestais ao redor da aldeia Kriny estão se degradando rapidamente devido a exploração não sustentável dos recursos naturais, como a mineração ilegal, o que representa uma ameaça a biodiversidade local. Assim, torna-se urgente conscientizar a população local sobre a importância da conservação dessas plantas, assegurando sua existência a longo prazo e preservando tanto o meio ambiente quanto os saberes tradicionais associados a ele.
Agradecimentos
Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 pela concessão de bolsa de Pós-Graduação. À Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA) pelo financiamento do projeto “Bambus (Poaceae: Bambusoideae) na Amazônia Brasileira: estado do conhecimento, taxonomia e conservação” (ICAAF 016/2018). Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas - Botânica Tropical pelo apoio durante as viagens de campo. Ao projeto “Uso e conservação de plantas comestíveis e medicinais entre os Mebêngôkre-Kayapó: oportunidades e ameaças”, no qual esta pesquisa foi conduzida. À Dra. Mayara Pastore pela identificação de espécies e colaboração em campo. Agradecimentos especiais ao povo indígena Mebêngôkre-Kayapó da aldeia Kriny por compartilhar seu conhecimento sobre os usos de plantas trepadeiras, possibilitando assim a realização deste trabalho.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma FIGSHARE: https://doi.org/10.6084/m9.figshare.28360280.
Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma FIGSHARE: https://doi.org/10.6084/m9.figshare.28360280.






Nota. Autoria própria (2026).
Nota. Autoria própria (2026).
Nota. Autoria própria (2026).
Nota. Autoria própria (2026).
Nota. (A) Doliocarpus dentatus (Aubl.) Standl.; (B) Uncaria guianensis (Aubl.) J.F.Gmel.); (C) Cucurbita maxima Duchesne ex Lam.; (D) Luffa cylindrica (L.) M. Roem.); (E) Passiflora nitida Kunth; (F) Serjania paucidentata DC.; (G) Rourea cuspidata Benth. ex Baker; (H) Philodendron acutatum Schott.; (I) Momordica charantia L. Autoria própria (2026).