Resumo
Este artigo teórico-analítico discute a relação intrínseca entre os processos de autoavaliação e as políticas de internacionalização nos Programas de PósGraduação em Educação (PPGE) no Brasil, à luz das diretrizes estabelecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para o ciclo avaliativo 2025-2028. Argumenta-se que a internacionalização, para ser efetiva e sustentável, deve ultrapassar a ênfase em métricas quantitativas de mobilidade e produção, ancorando-se em um processo contínuo de autoavaliação capaz de preservar e valorizar a vocação loco-regional de cada programa. O título, inspirado na máxima de Che Guevara, reflete a tensão entre as pressões globais por excelência e a responsabilidade social e política das universidades em relação aos contextos nos quais se inserem. Tomando como estudo de caso as diretrizes de um PPG em Educação com forte inserção regional, o texto analisa como a autoavaliação pode constituir um mecanismo estratégico para uma internacionalização que promova a "glocalização", articulando as dimensões global e local e fortalecendo pesquisas com impacto social e educacional em sua área de abrangência.
Palavras-chave:
glocalização; internacionalização; política educacional.
Abstract
This theoretical-analytical article examines the intrinsic relationship between self-assessment processes and internationalization policies in Graduate Programs in Education (PPGE) in Brazil, in light of the guidelines established by the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel (Capes) for the 2025-2028 evaluation cycle. It argues that, for internationalization to be effective and sustainable, it must go beyond the quantitative metrics of mobility and academic production, grounding itself in a continuous self-assessment process capable of preserving and valuing the local and regional vocation of each program. The title, inspired by Che Guevara’s well-known maxim, reflects the tension between global pressures for excellence and the social and political responsibility of universities toward the contexts in which they are embedded. Using as a case study the guidelines of a Graduate Program in Education with strong regional engagement, the article analyzes how selfassessment can serve as a strategic mechanism for an internationalization process that promotes “glocalization,” articulating global and local dimensions and strengthening research with social and educational impact in its area of influence.
Keywords:
glocalization; internationalization; educational policy.
Resumen
Este artículo teórico-analítico discute la relación intrínseca entre los procesos de autoevaluación y las políticas de internacionalización en los Programas de Posgrado en Educación (PPGE) en Brasil, a la luz de las directrices establecidas por la Coordinación de Perfeccionamiento del Personal de Nivel Superior (Capes) para el ciclo evaluativo 2025-2028. Se sostiene que la internacionalización, para ser efectiva y sostenible, debe superar el énfasis en métricas cuantitativas de movilidad y producción, y fundamentarse en un proceso continuo de autoevaluación capaz de preservar y valorizar la vocación local and regional de cada programa. El título, inspirado en la conocida máxima de Che Guevara, refleja la tensión entre las presiones globales por excelencia y la responsabilidad social y política de las universidades respecto de los contextos en los que se insertan. Tomando como estudio de caso las directrices de un PPG en Educación con fuerte inserción regional, el texto analiza cómo la autoevaluación puede constituirse en un mecanismo estratégico para una internacionalización que promueva la “glocalización”, articulando las dimensiones global y local y fortaleciendo investigaciones con impacto social y educativo en su ámbito de actuación.
Palabras clave:
glocalización; internacionalización; política educativa.
1 INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, verifica-se um crescimento expressivo das pesquisas sobre a internacionalização do ensino superior. Ainda que esse movimento pareça recente, suas raízes remontam às universidades medievais, que já apresentavam um caráter cosmopolita e articulavam diferentes territórios e saberes em uma dinâmica entre o local e o global. Desde então, as instituições de ensino superior vêm expressando uma tensão permanente entre demandas nacionais e tendências internacionais, análise retomada por Gazzoni (2025) a partir de autores como Stallivieri (2002), Miranda e Stallivieri (2017) e Altbach (2004).
Nesse contexto histórico e conceitual, a Pós-Graduação (PG) brasileira, especialmente na área de Educação, insere-se em um processo de atualização que reflete essas dinâmicas globais. O cenário atual é marcado pela redefinição de prioridades e estratégias, impulsionada pelas diretrizes do novo ciclo avaliativo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para o período de 2025-2028. Nesse debate, dois eixos temáticos assumem centralidade: a autoavaliação e a internacionalização. Longe de configurarem processos isolados, sua articulação mostra-se determinante para a construção de um modelo de excelência que seja, ao mesmo tempo, globalmente relevante e socialmente responsável (Trevisol, 2025).
A pressão por internacionalização, frequentemente mediada por rankings e índices de avaliação externa, tende a priorizar a dimensão global em detrimento da inserção e do impacto local (Brarreyro; Santos; Ferreira, 2021). É nesse contexto de tensões que se inscreve a máxima adaptada do revolucionário Ernesto “Che” Guevara: Internacionalizar sem perder a essência loco-regional jamais. A frase sintetiza o desafio de adensar a presença dos Programas de Pós-Graduação no debate acadêmico internacional sem abdicar de sua vocação e de seu compromisso com o desenvolvimento do entorno, especialmente no caso dos PPGE, tradicionalmente vinculados às demandas e aos problemas da Educação Básica e às políticas públicas regionais (Wandercil et al., 2025).
Partindo dessa problemática, o presente artigo analisa a autoavaliação como eixo articulador de uma política de internacionalização orientada pelo conceito de “glocalização” (Patel; Lynch, 2013; Lima; Leite, 2019; Knight, 2020). Para tanto, examinam-se as exigências da Capes para o ciclo avaliativo 2025-2028, em especial as contidas no Documento de Área da Educação, e contrastadas com práticas institucionais de um Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) com forte inserção regional, como o da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). Esse programa enfatiza, em suas diretrizes internas, a articulação com demandas locais e a cooperação internacional, particularmente com países da América Latina.
A escolha do PPGE/USCS como estudo de caso ilustrativo justifica-se por reunir características que materializam os pressupostos da internacionalização glocal discutidos neste artigo. Inserido em uma região de elevada densidade econômica e social, marcada por importantes desafios educacionais, o Programa consolidou uma trajetória de articulação entre pesquisa, formação de profissionais da educação e compromisso com o desenvolvimento regional. Ao mesmo tempo, ampliou sua inserção internacional por meio de redes acadêmicas, cooperação científica e parcerias com instituições latino-americanas e ibero-americanas, evidenciando que a internacionalização pode fortalecer, e não substituir, a missão social da pós-graduação. Essas características tornam o caso particularmente pertinente para analisar como a autoavaliação pode orientar estratégias de internacionalização comprometidas simultaneamente com a excelência acadêmica e com a relevância territorial.
A principal contribuição teórica deste artigo consiste em propor a autoavaliação como eixo estruturante da internacionalização na pós-graduação em Educação, articulando-a ao conceito de glocalização e às diretrizes da Capes para o ciclo avaliativo 2025-2028. Ao deslocar o foco da internacionalização centrada em métricas de mobilidade e visibilidade global para uma perspectiva ancorada na vocação locoregional dos programas, o estudo avança na compreensão de como processos avaliativos internos podem orientar uma internacionalização crítica, socialmente responsável e alinhada às desigualdades estruturais do país.
2 METODOLOGIA: ABORDAGEM TEÓRICO-ANALÍTICA E ESTUDO DE CASO DOCUMENTAL
O presente artigo configura-se como uma pesquisa de natureza teóricoanalítica, de abordagem qualitativa, que busca articular e discutir conceitos centrais relacionados à avaliação e à internacionalização na Pós-Graduação em Educação. A metodologia adotada baseia-se em três pilares principais:
2.1 Revisão bibliográfica e análise teórica
Realizou-se uma revisão da literatura especializada com o objetivo de fundamentar os conceitos de Autoavaliação (Dias Sobrinho, 2005) e Internacionalização/Glocalização (Patel; Lynch, 2013; Knight, 2020), estabelecendo o arcabouço teórico que sustenta a tese da "internacionalização sem perder a essência loco-regional". A análise teórica concentrou-se na identificação da tensão dialética entre, de um lado, as exigências globais de excelência acadêmica, frequentemente pautadas por métricas internacionais, e de outro, a responsabilidade social e política da Pós-Graduação com seu entorno local.
No âmbito da própria Revista da Avaliação, observa-se que o debate sobre internacionalização tem se deslocado de uma ênfase exclusiva na mobilidade acadêmica para a valorização de estratégias institucionais ancoradas na gestão, em indicadores e na aderência ao contexto regional (Carvalho; Araújo, 2020). Em paralelo, a autoavaliação consolidou-se como eixo estruturante do processo avaliativo na pósgraduação, ora concebida como prática formativa e participativa, ora como política em implementação na Capes (Leite et al., 2020). Estudos com egressos e propostas instrumentais ampliam o repertório metodológico disponível aos programas (Trevisol; Balsanello, 2022), enquanto análises sobre a dimensão intercultural apontam para caminhos de Internationalization at Home no currículo e na vida acadêmica (Luce; Fagundes; Mediel, 2016). Nesse horizonte, a política editorial bilíngue adotada pela revista desde 2023 alinha forma e conteúdo, evidenciando a centralidade contemporânea do tema (Avaliação [...], 2025).
2.2 Análise documental e normativa
A pesquisa documental concentrou-se na análise de dois conjuntos de fontes. O primeiro reúne documentos normativos da Capes, tais como o Documento de Área da Educação (Ciclo 2025-2028) e as notas técnicas referentes ao novo modelo de avaliação, a fim de identificar as diretrizes formais que vinculam a autoavaliação à internacionalização. O segundo conjunto contempla documentos institucionais da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, incluindo o Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED USCS 2030), o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e documentos internos do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/USCS) referentes à internacionalização e à autoavaliação (USCS, 2020, 2023). A seleção desses materiais seguiu critérios de relevância temática, atualidade (2020-2025) e abrangência, priorizando registros oficiais e validados institucionalmente.
Esta análise permitiu identificar tanto as diretrizes estabelecidas pela Capes quanto as práticas concretas do PPGE/USCS, como sua participação em redes internacionais de pesquisa (por exemplo: REIPEGE, FORGES, INCLUDE, RIGUED), evidenciando a implementação de uma abordagem da “glocalização” em curso no programa.
2.2.1 Procedimentos de análise e categorias
A análise adotou a técnica de análise de conteúdo temática (Bardin, 2011), estruturada em três etapas: i) pré-análise, envolvendo leitura flutuante e categorização inicial dos eixos identificados nos documentos; ii) exploração do material, com a codificação das informações à luz de três categorias analíticas principais: autoavaliação formativa e política, internacionalização glocal e impacto regional; e iii) tratamento e interpretação dos resultados, articulando essas categorias aos referenciais teóricos (Dias Sobrinho, 2005; Knight, 2020; Lima; Leite, 2019). Para assegurar a consistência das interpretações, recorreu-se a procedimentos de triangulação de fontes (documentos normativos, institucionais e bibliográficos) e à revisão entre pares realizada pelo grupo de pesquisa vinculado ao PPGE/USCS.
A escolha pelo estudo de caso ilustrativo fundamenta-se na compreensão de que processos institucionais complexos, como a integração entre autoavaliação e internacionalização, exigem análises situadas, capazes de captar nuances que dificilmente emergiriam em abordagens exclusivamente comparativas ou de grande escala. Conforme argumenta Yin (2018, p. 144, traduzido pelos autores), o estudo de caso é particularmente adequado quando se busca compreender um “fenômeno contemporâneo em profundidade e dentro de seu contexto real”, sobretudo quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não são claramente delimitadas. Assim, o caso analisado não pretende produzir generalizações estatísticas, mas generalizações analíticas, oferecendo uma descrição densa que permite identificar princípios, mecanismos e condições que podem ser reconhecidos, adaptados e transferidos por outros Programas de Pós-Graduação em contextos análogos.
2.2.2 Matriz de indicadores de análise (versão sintética)
Para operacionalizar os conceitos discutidos, elaborou-se uma matriz analítica que articula os eixos teóricos aos indicadores observáveis nos documentos e nas práticas do PPGE/USCS:
Essa matriz não tem a pretensão de esgotar as dimensões possíveis, mas de oferecer uma base analítica replicável, capaz de orientar outros programas na articulação entre autoavaliação e internacionalização.
3 NOVO CICLO CAPES
3.1 Estudo de caso ilustrativo
O PPGE/USCS é mobilizado como estudo de caso ilustrativo (Yin, 2018), não com a finalidade de generalizar resultados, mas de oferecer evidências empíricas ricas e contextuais que demonstrem a aplicação prática da tese central do artigo. A análise das redes de cooperação e das diretrizes institucionais constitui material analítico que sustenta a argumentação de que a autoavaliação atua como instrumento de "salvaguarda" da vocação loco-regional do programa frente às pressões inerentes aos processos de internacionalização.
A articulação desses três pilares metodológicos permitiu a construção de um argumento consistente que conecta a teoria da glocalização, as exigências normativas da Capes e as práticas institucionais, culminando na proposição da autoavaliação como o eixo estratégico para uma internacionalização qualificada e socialmente responsável.
3.2 Autoavaliação: um processo formativo e político
A autoavaliação, no contexto da Capes, transcende a função de mera coleta de dados, configurando-se como um processo formativo e participativo (Dias Sobrinho, 2005; Souza; Real; Miranda, 2025). O Documento de Área da Educação (Capes, 20252028) a apresenta como um componente fundamental, enfatizando que os Programas de Pós-Graduação em Educação (PPGEs) devem utilizá-la como instrumento de revisão e aprimoramento contínuo do planejamento estratégico, de fortalecimento da participação de todos os atores envolvidos - docentes, discentes, egressos e corpo técnico-administrativo, e de garantia da transparência e da prestação de contas à comunidade acadêmica e à sociedade (Brasil, 2025).
Para José Dias Sobrinho (2005), a avaliação da educação superior, e, por extensão, a autoavaliação, deve ser compreendida em sua dimensão política, podendo funcionar tanto como um instrumento de regulação e controle externo quanto de emancipação e de autonomia institucional. No contexto da internacionalização, a autoavaliação torna-se a ferramenta por meio da qual o PPG pode problematizar suas escolhas e direções estratégicas, colocando em pauta questões fundamentais: Que tipo de internacionalização buscamos? Em que medida ela reforça ou ameaça nosso compromisso com a realidade local?
A autoavaliação, portanto, é o mecanismo de reflexão que assegura que a internacionalização não se torne um fim em si mesma, mas um meio para qualificar a pesquisa, a formação e a inserção social do programa, sempre em diálogo com a realidade educacional brasileira e com as demandas regionais.
3.3 Internacionalização e a tensão glocal: a perspectiva da Capes e a prática da USCS
A Capes, no ciclo avaliativo 2025-2028, reconhece a internacionalização como um eixo estratégico para ampliar a inserção e a visibilidade dos programas. Contudo, o Documento de Área da Educação aponta que, embora haja avanços, o crescimento das ações de internacionalização ainda é "tímido na comparação com outras áreas" (Capes, 2025-2028). Tal constatação sugere a necessidade de intensificação, mas também de qualificação desse processo (Brasil, 2025).
A abordagem mais recente da internacionalização, proposta por Patel e Lynch (2013) e Knight (2020), desloca o foco da mera mobilidade (internationalization abroad) para a Internacionalização em Casa (Internationalization at Home) e, mais recentemente, para a Glocalização. Knight (2020, p. 48) define a internacionalização como "o processo de integração de uma dimensão internacional, intercultural ou global na finalidade, nas funções (primordialmente ensino/aprendizagem, pesquisa, serviço) ou na oferta da educação superior".
O conceito de glocalização surgiu na década de 1980, inicialmente como uma estratégia de mercado desenvolvida no Japão. O termo combina “globalização” e “localização” e expressa a ideia de que, em um contexto globalizado, é possível expandir práticas e produtos sem perder de vista as especificidades culturais e sociais de cada local. Assim, a glocalização busca articular o global e o local, reconhecendo que a cultura mundial se constitui pela interação entre elementos universais e particularidades regionais, conforme apontam Lima e Leite (2019).
Embora o conceito de glocalização tenha origem em Robertson (1995), Ball (2008) contribui para compreendê-lo ao evidenciar como políticas globais são reinterpretadas e recontextualizadas nos contextos locais. De um lado, expressa o potencial positivo de articulação entre contextos, permitindo que instituições localizadas em territórios periféricos participem de redes internacionais e produzam conhecimento com relevância global. De outro, revela uma dimensão negativa, ao evidenciar que o discurso da globalização pode gerar dependências simbólicas e epistemológicas, reforçando hierarquias entre centros e periferias de produção científica. Nesse sentido, pensar a internacionalização sob a ótica da glocalização implica reconhecer tanto as possibilidades de inclusão e cooperação solidária quanto os riscos de reprodução de desigualdades globais no campo acadêmico (Ball, 2008).
Outras contribuições ampliam essa compreensão da internacionalização ao distinguir suas múltiplas dimensões. Knight (2020) e Beelen e Jones (2015) ressaltam que a Internationalization at Home busca integrar a perspectiva internacional e intercultural ao currículo e às práticas institucionais, tornando a experiência global acessível a todos os estudantes. Hudzik (2014) propõe o conceito de comprehensive internationalization, compreendido como uma estratégia institucional integrada que envolve ensino, pesquisa, extensão e gestão, articulando tanto a mobilidade acadêmica (internationalization abroad) quanto as práticas internas (Internationalization at Home). Essa abordagem permite diferenciar mobilidade, cooperação e impacto, compreendendo a internacionalização como processo formativo, avaliativo e socialmente responsável.
Nesse sentido, é oportuno distinguir as principais abordagens que estruturam o debate contemporâneo sobre internacionalização, ampliando sua compreensão para além da mobilidade acadêmica.
Nesse contexto, o Programa de Pós-Graduação em Educação da USCS (PPGE/USCS), conforme seus documentos internos (USCS, 2020, 2023), exemplifica essa busca pela glocalização. O programa, com uma “vocação eminentemente regional”, tem se destacado pela inserção nacional e presença internacional, especialmente com países latino-americanos como Chile, Colômbia e México.
A própria USCS, em seu Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED USCS 2030), reconhece essa tensão entre o global e o local. A “Força Motriz 9: Internacionalização da Educação Superior” aponta para a tendência de “redução de fronteiras a favor da internacionalização acadêmica”, com maior demanda por conhecimento em outras línguas e parcerias internacionais. Contudo, o documento alerta para o risco de um “modelo dominado pela lógica do mercado” que pode criar uma universidade “mais interessada pelo mercado e pouco ou nada pelos problemas sociais regionais e nacionais”. Como resposta estratégica, o documento propõe “Renovar as abordagens à mobilidade e à internacionalização que respondam às novas exigências da educação global, dentro das exigências do modelo de universidade local e regional" (USCS, 2020, p. 79).
Essa diretriz institucional reforça a necessidade de um processo contínuo de autoavaliação que assegure o alinhamento entre a internacionalização do PPGE e a missão da universidade de atuar em rede global sem perder de vista o compromisso com a comunidade local, preservando os valores que refletem sua origem e identidade (USCS, 2020).
O Quadro 2 ilustra a articulação entre as diretrizes de internacionalização do PPGE/USCS e o conceito de glocalização, contrastando-as com uma perspectiva tradicional de internacionalização.
O Quadro 2 evidencia a transição paradigmática entre a internacionalização tradicional e a abordagem glocal adotada pelo PPGE/USCS. Ao incorporar dimensões como governança, cooperação, formação, avaliação e impacto, o quadro explicita a necessidade de reorientar as práticas institucionais, de modo que a internacionalização deixe de constituir um fim em si mesma e passe a configurar um processo articulado à missão social e educativa dos programas de pós-graduação. Essa perspectiva amplia a compreensão de que o sucesso da internacionalização não se restringe a indicadores de visibilidade global, mas depende da capacidade de integrar práticas colaborativas e avaliativas que promovam relevância local e responsabilidade social.
O fluxograma conceitual apresentado no Quadro 3 sintetiza, de maneira sequencial, o percurso analítico desenvolvido, evidenciando o encadeamento entre teoria, diretrizes da Capes, autoavaliação e internacionalização glocal até a materialização de produtos e impactos concretos. O movimento entre essas etapas reforça que a autoavaliação opera como o elo capaz de alinhar princípios teóricos e políticas avaliativas às práticas institucionais, convertendo a internacionalização em uma ação estratégica, reflexiva e orientada por finalidade pública.
Após esse percurso teórico-metodológico, a análise volta-se à aplicação prática desses princípios no contexto do Programa de Pós-Graduação em Educação da USCS, compreendido como um estudo de caso ilustrativo. Nessa etapa, a investigação busca demonstrar como as diretrizes institucionais, ancoradas na autoavaliação, materializam uma internacionalização que se consolida como prática glocal, simultaneamente inserida nas redes internacionais e comprometida com o desenvolvimento regional.
A articulação do PPGE/USCS em redes internacionais de pesquisa materializa essa abordagem glocal, demonstrando uma estratégia de internacionalização diversificada e coerente com a missão institucional. A abrangência dessas parcerias extrapola a América Latina, estendendo-se a Portugal e ao Reino Unido, e convergem para temas que dialogam diretamente com a autoavaliação e o impacto social.
A cooperação Sul-Sul é fortalecida pela Red Latinoamericana de Investigadores en la Memoria, Cultura y Comunicación (com Universidad de Colima e Universidad Autónoma de Baja California, México), que se dedica a problemáticas educacionais e sociais análogas, como a migração e a memória coletiva transnacional (Cardoso; Perazzo, 2025). Outro marco consiste na parceria com o Tecnológico de Antioquia Institución Universitaria (TdeA - Colômbia), voltada ao intercâmbio acadêmico e ao avanço de tratativas para um convênio de dupla titulação de Mestrado em Educação (USCS, 2022).
No eixo da Gestão e Políticas de Educação Superior, o programa integra redes estratégicas como a Rede Internacional de Pesquisas em Gestão Educacional (Reipege), que congrega universidades brasileiras e portuguesas (como Lisboa, Porto e Coimbra) (Reipege, 2025), e a Associação Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa (Forges), cujo objeto principal é a constituição de uma Rede de Estudo e Investigação na área da gestão e das políticas de ensino superior no âmbito dos países de língua portuguesa (Forges, 2020).
Essas redes, juntamente com a Red de Investigadores Iberoamericanos sobre Gobernanza Universitaria e Instituições Educativas (Rigued) e a Red Iberoamericana de Investigación en Gobierno y Gobernanza de la Educação Superior (RED2GES) (Rigued, 2025; Observatorio de la Universidad Colombiana, 2024), possibilitam ao PPGE/USCS aprofundar análises sobre a governança e as políticas educacionais em uma perspectiva comparada, subsidiando diretamente o processo de autoavaliação. A colaboração com o Instituto Interuniversitario de Educación Educativa (IESED-Chile), por sua vez, reforça o compromisso com a investigação científica e a formação avançada em educação, orientadas ao impacto sobre políticas públicas (IESED- Chile, 2025).
O foco na qualidade e na avaliação é igualmente reforçado pela participação na Red de Evaluación Formativa y Compartida en Educación (REFyCE), que atua na investigação e inovação em práticas de avaliação formativa e compartilhada em todos os níveis educacionais (Refyce, 2005). Por fim, a parceria com a Universidade de Worcester (Reino Unido) por meio do The International Collaboratory for Leadership in Universally Designed Education (Include), evidencia o investimento em temas de fronteira, como o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) (Include, 2025), essencial para a inclusão e para a formação humana integral, um valor central da USCS.
A diversidade dessas redes, que abrange desde memória e cultura até governança, política educacional e inclusão, permite ao PPGE/USCS responder às exigências de visibilidade da Capes ao mesmo tempo em que reforça a vocação locoregional do programa, ao mobilizar expertise global para o debate e a solução de problemas que ressoam diretamente com a realidade do Grande ABC Paulista e do Brasil.
De maneira geral, a internacionalização glocal se consolida como um horizonte concreto e promissor para uma pós-graduação comprometida com a equidade, a sustentabilidade e a relevância social da produção científica.
O PPGE/USCS constitui um caso particularmente relevante para esta discussão por reunir características que sintetizam os pressupostos da internacionalização glocal: inserção consolidada em um território marcado por desafios sociais e educacionais, tradição de interlocução com redes latino-americanas e ibero-americanas, atuação em processos de formação de professores e gestores da educação básica e adoção da autoavaliação como mecanismo permanente de planejamento institucional. Essas características fazem do Programa um exemplo ilustrativo de como estratégias internacionais podem fortalecer, e não substituir, compromissos acadêmicos e sociais construídos localmente.
3.4 A autoavaliação como salvaguarda da essência loco-regional
O principal risco da internacionalização induzida por métricas é a descaracterização do PPG, que pode passar a priorizar temas de pesquisa alinhados a interesses globais, mas de pouca relevância para sua comunidade local. A autoavaliação, nesse cenário, apresenta-se como salvaguarda fundamental contra essa descaracterização.
É por meio de um processo autoavaliativo rigoroso que o Programa de PósGraduação em Educação pode mensurar seu impacto regional, qualificando sua atuação com base em indicadores qualitativos que evidenciem sua contribuição efetiva para a melhoria da Educação Básica e das políticas públicas em sua área de abrangência. A autoavaliação também deve permitir qualificar as parcerias internacionais, verificando se elas agregam valor ao desenvolvimento da pesquisa local e se estão alinhadas à missão do programa, evitando que se reduzam a um mero cumprimento de exigências formais.
Nesse sentido, a matriz de (auto)avaliação proposta por Amorim e Finardi (2020) para a internacionalização, estruturada nos eixos de Ensino, Pesquisa e Extensão, pode ser adaptada para incluir um eixo adicional voltado ao Impacto Loco-Regional, assegurando que a autoavaliação incorpore a perspectiva da glocalização. Além disso, o processo autoavaliativo deve fortalecer a inserção social, analisando a coerência entre a produção científica internacional e as demandas sociais e educacionais do entorno, de modo a garantir que os egressos estejam preparados para atuar de maneira crítica, ética e transformadora em seus contextos profissionais e comunitários.
A frase de Che Guevara: “hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”, em seu contexto original, aludia à necessidade de ser firme na luta revolucionária sem perder a humanidade. Adaptada para o campo da pós-graduação como “Internacionalizar sem Perder a Essência Loco-Regional Jamais”, a expressão sintetiza a urgência de buscar excelência global (o “endurecerse”) sem abrir mão da sensibilidade e do compromisso com o local (a “ternura jamás”). A autoavaliação é precisamente o mecanismo que possibilita essa firmeza com ternura, garantindo que o PPG em Educação cumpra, de modo crítico e responsável, sua missão social e política.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A autoavaliação e a internacionalização são pilares interdependentes para a excelência na Pós-Graduação em Educação no ciclo Capes 2025-2028. A internacionalização deve ser compreendida como um processo de glocalização, no qual a inserção global qualifica e potencializa a intervenção local. A autoavaliação, por sua vez, constitui o instrumento político, formativo e estratégico que assegura a coerência entre a missão do PPG, sua vocação regional e as demandas por qualidade acadêmica em âmbito internacional.
A experiência de programas com forte inserção regional, como o PPGE/USCS, demonstra que é possível construir uma internacionalização robusta e estrategicamente orientada, especialmente por meio de redes de cooperação Sul-Sul, que dialogam com problemas educacionais e sociais comuns. Ao utilizar a autoavaliação para mensurar o impacto regional e a pertinência das parcerias internacionais, os PPGs em Educação podem, de fato, internacionalizar sem perder a essência loco-regional, consolidando-se como centros de excelência que transformam a realidade em seu entorno imediato, ao mesmo tempo em que contribuem de maneira qualificada para o debate global.
Adicionalmente, torna-se fundamental avançar na consolidação de instrumentos e indicadores que permitam acompanhar, de forma sistemática, os efeitos da internacionalização glocal sobre a formação, a produção científica e o impacto social dos programas de pós-graduação. Esses mecanismos fortalecem a governança acadêmica e asseguram que a internacionalização se mantenha como prática estratégica, pertinente e socialmente comprometida.
Por se tratar de um estudo de caso ilustrativo, os resultados não têm a pretensão de produzir generalizações estatísticas. No entanto, fundamentam-se no princípio da transferibilidade, na medida em que apresentam uma descrição densa (thick description) das práticas institucionais, possibilitando que outros programas identifiquem similaridades contextuais e avaliem a pertinência de adaptar os achados às suas realidades.
Embora a glocalização ofereça um horizonte promissor ao permitir que programas de pós-graduação articulem inserção internacional e compromisso regional, esse conceito carrega também ambivalências importantes, como aponta Ball (2008). De um lado, favorece a circulação de saberes e a cooperação solidária entre instituições situadas em diferentes contextos geopolíticos; de outro, pode reforçar assimetrias históricas ao reproduzir lógicas de dependência acadêmica, epistemológica e linguística.
Ademais, quando incorporada a partir de políticas avaliativas excessivamente baseadas em métricas, a internacionalização tende a ser reduzida a indicadores de produtividade, mobilidade e impacto bibliométrico, comprometendo sua função formativa e social. Assim, é fundamental reconhecer que a glocalização não é um processo neutro, já que ela exige vigilância crítica, participação coletiva e uma autoavaliação contínua capaz de identificar não apenas seus potenciais, mas também seus limites e riscos.
Ao enfatizar essa dimensão ambivalente, o presente estudo contribui para a construção de modelos de internacionalização que não se limitem a atender pressões globais por excelência, mas que efetivamente ampliem a qualidade acadêmica, a justiça social e a relevância pública da Pós-Graduação em Educação no Brasil.
DECLARAÇÃO DE USO DE IA
A ferramenta de inteligência artificial ChatGPT (OpenAI) foi utilizada como apoio+ à revisão da redação, organização do texto e aprimoramento da linguagem acadêmica. Os autores são integralmente responsáveis pelo conteúdo, pelas análises e pelas conclusões apresentadas no manuscrito.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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