Open-access A atuação de intérpretes de Libras-português durante a pandemia de Covid-19: interpretação remota e interlocução presumida

RESUMO

Neste artigo apresentamos os resultados de uma pesquisa que objetivou analisar a atuação de intérpretes de Libras-português durante a pandemia de COVID-19 a partir de três gêneros do discurso diferentes: conferência, aula e lives musicais. Para tanto, adotamos o dispositivo metodológico da autoconfrontação simples, elaborado no contexto da Clínica da Atividade Francesa, e colocamos intérpretes de Libras que atuaram a partir desses gêneros frente a frente com suas atuações. A partir de uma articulação teórica estabelecida entre o pensamento bakhtiniano e os estudos da tradução e interpretação da língua de sinais (ETILS), a análise empreendida, de forma vertical e horizontal, revelou que a dinâmica da pandemia impôs aos intérpretes demandas e adequações de ordem linguística, procedimental e relacional.

PALAVRAS-CHAVE:
Interpretação; Libras; Pandemia; Autoconfrontação; Gêneros do Discurso

ABSTRACT

In this article, we present the results of a research that aimed to analyze the Libras-Portuguese interpreters’ work during the COVID-19 pandemic based on three different speech genres: conference, lecture, and musical lives. To this end, we adopted the simple self-confrontation methodology, developed in the context of the French Activity Clinic, and placed Libras interpreters who worked from these genres face to face with their performances. Based on a theoretical articulation established between Bakhtinian thought and sign language translation and interpretation studies, the analysis undertaken, vertically and horizontally, revealed that the dynamics of the pandemic imposed linguistic, procedural and relational demands and adjustments on interpreters.

KEYWORDS:
Interpretation; Brazilian Sign Language; Pandemic; Self-confrontation; Speech Genres

Introdução

É preciso sair da ilha para ver a ilha.

Não nos vemos se não saímos de nós.

José Saramago

Não há dúvidas de que a pandemia de COVID-19 que assolou o planeta no final de 2019 até o final de 20221 modificou, de forma significativa, as formas de interação e organização social. Isolados em casa, como se estivéssemos ilhados e sem ter para onde ir, todos nós, de certa forma, vivenciamos a incerteza do futuro e os seus impactos na rotina e na saúde (sobretudo mental). Naquele momento, não tínhamos noção do que viria pela frente, mas sabíamos que a vida não seria mais a mesma, pois as esferas da vida cotidiana tinham sido completamente afetadas. De todas elas, porém, a que mais se modificou diante do inesperado período pandêmico foi a do trabalho.

Os intérpretes2 que atuam com o par linguístico língua brasileira de sinais (Libras)-língua portuguesa (LP), assim como trabalhadores de outras categorias, foram não só impactados, mas impelidos a ressignificar, diante do caos ora instalado, os modos de realizar suas atividades. Se antes da pandemia a interpretação estava quase que circunscrita apenas, a situações comunicativas presenciais, fossem em aulas, conferências, consultas médicas, audiências, shows ou outros contextos, na pandemia a interpretação passou a ser quase que exclusivamente realizada pela forma remota, ou seja, mediada por tecnologia quando intérpretes e público-alvo não compartilham o mesmo local físico (Moser-Mercer, 2005; Alley, 2012; Braun, 2015).

A adaptação e readequação vivenciadas pelos intérpretes de Libras-língua portuguesa permitiu a manutenção da interpretação enquanto direito da comunidade surda, tal como garante a legislação brasileira, como é o caso da Lei 10.436/02, do Decreto 5.626/05, da Lei 12.319/10 e da Lei 13.146/15 que, apesar de não referenciarem cenários de emergências como o da pandemia, determinam que o acesso de pessoas surdas seja garantido na educação, na justiça, na saúde e na cultura.

A pandemia, nessa direção, permitiu um duplo cenário para o trabalho dos intérpretes de Libras-LP: (i) o de adaptação das atividades do presencial para o remoto para a manutenção da interpretação a partir de gêneros do discurso mobilizados antes da pandemia; e (ii) o surgimento, para esses profissionais, de novos gêneros a partir desse contexto.

No que diz respeito ao primeiro, o trabalho remoto de intérpretes de Libras-português aconteceu, majoritariamente, na educação, especialmente porque com a alteração na oferta de atividades presenciais em todos os níveis de ensino a maior parte das instituições passaram a adotar o ensino remoto3. Essa transposição, entretanto, também aconteceu em conferências, visto que eventos de diferentes naturezas, temas e instituições foram transpostos para o virtual, escancarando, de certa forma, a ausência ou a presença da acessibilidade para pessoas com deficiência sensorial visual e auditiva4. E, em relação ao segundo, os intérpretes passaram a atuar em lives musicais, que foram shows online realizados por artistas sem um público presente. Embora, do ponto de vista estrutural e discursivo, as lives tenham sido adaptações de shows presenciais, para os intérpretes o gênero foi novo, porque antes da pandemia não se tinha notícia da atuação desses profissionais em gêneros como esses.

Este artigo, nesse sentido, apresenta o recorte de uma pesquisa de pós-doutorado, desenvolvido pelo primeiro autor sob supervisão do segundo, que teve como objetivo geral analisar a atuação de intérpretes de Libras-português durante a pandemia de Covid-19 a partir de três gêneros discursivos, a saber: conferências, aulas e lives musicais. Por meio do dispositivo metodológico da autoconfrontação, três intérpretes de Libras que atuaram na pandemia a partir desses gêneros foram convidados a enunciarem, de uma posição exotópica em relação à atuação na pandemia, sobre suas interpretações na direção português-Libras. Neste trabalho, por uma questão de espaço, apresentamos a interlocução presumida e seus efeitos para as estratégias enunciativo-discursivas da interpretação, bem como os efeitos da transposição dos gêneros do presencial para o remoto de forma emergencial na pandemia como categoria analítica.

1 A interpretação interlíngue e sua dimensão enunciativo-discursiva

A interpretação é uma atividade de linguagem profissional, complexa e multifacetada que “[...] é realizada ‘aqui e agora’ para o benefício de pessoas que desejam se comunicar apesar das barreiras da língua e da cultura”5 (Pöchhacker, 2004, p. 10, tradução nossa). Para sua realização, as pessoas que desejam se comunicar utilizam línguas diferentes sendo que, para a tarefa do intérprete, uma se configura como língua de partida (LP) e a outra como língua de chegada (LC).

Quando as línguas mobilizadas em uma atividade de interpretação são de modalidades diferentes, isto é, quando os canais biofisiológicos para a produção e compreensão das línguas são distintos6, algumas complexidades precisam ser consideradas, visto que intérpretes de línguas de sinais, ou intérpretes intermodais (Rodrigues, 2018), atuam entre sujeitos que não apenas falam línguas diferentes, mas possuem experiências sensoriais distintas na percepção e expressão do mundo e da realidade. De forma majoritária7, esses profissionais atuam com pessoas surdas, que possuem “[...] uma identidade linguística que passa por um paradigma sensorial fixado na visualidade” (Barbosa, 2018, p. 201) expresso, dentre outros fatores, por uma língua que é gesto-visual e com pessoas ouvintes, cuja percepção é marcada, primeiramente, pela sonoridade e manifestada por uma língua vocal-auditiva.

Essa complexidade joga luz ao ato de interpretar não apenas enquanto atividade de mediação interlinguística, mas, sobretudo, como mediação de sujeitos que se posicionam linguística, sensorial, axiológica e discursivamente no mundo. Considerar pessoas surdas e pessoas ouvintes enquanto membros de comunidades culturais, linguística e socialmente diferentes e que demandam o trabalho de interpretação para uma interação imediata convoca pesquisadores que se dedicam a esse tema a articular conceitos advindos de diferentes campos do conhecimento como, por exemplo, os Estudos da Interpretação, a Linguística, a Linguística Aplicada e a(s) Análise(s) do Discurso. Nesse sentido, enquanto atividade complexa e multifacetada que “concretiza a pluralidade de visões de mundo” permitindo “[...] a quebra de fronteiras e o fluir de diferentes formas de existir do humano em suas culturas locais [...]” (Nascimento, 2018, p. 7), a interpretação de língua de sinais demanda um olhar igualmente complexo e multifacetado.

A partir desses aspectos, o estudo aqui apresentado buscou estabelecer um diálogo teórico-metodológico para abordar essa atividade a partir de duas dimensões, das diversas existentes nesta atividade: (i) enunciativo-discursiva, que engloba a mobilização das línguas no processo interpretativo a partir do simbiótico lugar de marcação da primeira-pessoa pelo intérprete sem que ele seja, de fato, o autor do enunciado produzido em LP; e (ii) cognitiva, considerando que o intérprete, enquanto agente profissional desta atividade de linguagem, empreende esforços mentais e neurocognitivos para conseguir, em tempo ultra restrito, reenunciar, em LC, aquilo que compreendeu em LP e, no caso da língua de sinais, com efeitos específicos dada a diferença das modalidades de língua envolvidas no processo.

Para tanto, consideramos produtivo um diálogo entre o que tem se convencionado denominar de pensamento bakhtiniano8, que dá origem ao que no Brasil é denominado de análise dialógica do discurso (ADD) (Brait, 2008), e os estudos da tradução e interpretação da língua de sinais (ETILS).

Da primeira perspectiva, mobilizamos a concepção de linguagem que se apresenta como social, histórica e ideológica e que considera, para todos os efeitos, que todo ato comunicativo é atravessado por aspectos axiológicos. Nesse sentido, a linguagem, diferente da visão elaborada no âmbito da linguística moderna, não se limita à dimensão abstrata, no nível da significação, mas, envolve, sobretudo, a dimensão temática, do sentido, e só acontece quando sujeitos reais mobilizam sistemas semióticos-ideológicos9 em situações igualmente reais e concretas.

A linguagem, aqui, se materializa em forma de enunciados, que são, diferente de outras abordagens e perspectivas teóricas, sempre concretos e únicos e envolvem desde as condições situacionais reais de uso da linguagem até a dimensão intersubjetiva dos envolvidos na situação de comunicação. Para Brait e Mello (2008, p. 67), o enunciado, bem como as particularidades de sua enunciação, define, necessariamente, o processo interativo, ou seja, o verbal e o não verbal “[...] integram a situação e, ao mesmo tempo, fazem parte de um contexto maior histórico, tanto no que diz respeito a aspectos (enunciados, discursos, sujeitos etc.) que antecedem esse enunciado específico quanto ao que ele projeta adiante [...]”.

Para que um enunciado se constitua, a organização social de sujeitos reais e concretos é premente, pois a interlocução é real, ativa e responsiva e, na ausência de uma presença concreta, visível, tangível, ela é ocupada, “[...] por assim dizer, pela imagem do representante médio daquele grupo social ao qual o falante pertence” (Volóchinov, 2017, p. 204).

A palavra, enquanto unidade material do enunciado, “[...] é orientada para o interlocutor, ou seja, é orientada para quem é esse interlocutor se ele é integrante ou não do mesmo grupo social [...]” Volóchinov (2017, p. 204) evidenciando que “a comunicação discursiva nunca poderá ser compreendida nem explicada fora dessa ligação com a situação concreta” (Volóchinov, 2017, p. 220). Por isso, a interação acontece a partir do posicionamento de sujeitos em situações sociais, pois “toda palavra serve de expressão ao ‘um’ em relação ao ‘outro’” (Volóchinov, 2017, p. 205) sendo, nesse prisma, as relações interlocutivas estabelecidas na situação social imediata de produção que configuram o enunciado concreto.

Como o enunciado concreto é fundado, sobretudo, nas relações interlocutivas e elas, por sua vez, moldam o projeto enunciativo-discursivo do enunciador, os gêneros do discurso, que correspondem à organização por similaridade desses enunciados (Bakhtin, 2016), orientam aquilo que o falante quer dizer. Esses enunciados, então, são articulados ética e esteticamente por meio de uma arquitetônica que envolve desde a posição axiológica assumida pelo protagonista do ato enunciativo-discursivo até os efeitos de sentido causados por ele nas esferas de recepção e circulação.

A posição dos interlocutores, nessa direção, é aspecto central para a produção do enunciado concreto e para sua organização em forma de gêneros, justamente porque, nessa perspectiva, a linguagem e sua organização são definidas pela intrínseca relação de alteridade marcada por três dimensões axiológicas que formam a arquitetônica da existência humana: o eu-para-mim, o eu-para-o-outro e o outro-para-mim.

Os conceitos bakhtinianos de enunciado concreto, gêneros do discurso e alteridade vêm sendo mobilizados para análise de corpora de diferentes materialidades e consistências uma vez que englobam a ideia de sujeito social e histórico, contexto imediato e dimensão semiótico-ideológica. Por essa razão, a contribuição do Círculo permite observar a interpretação por um viés enunciativo-discursivo porque interpela o pesquisador inscrito nessa perspectiva a considerar as generalidades e singularidades de suas produções a partir de gêneros do discurso localizados em esferas da atividade diferentes.

A partir dessa concepção, a interpretação será aqui observada como uma prática discursiva que mobiliza gêneros a partir de diferentes esferas da atividade permitindo a interação de sujeitos, línguas e culturas (Nascimento, 2018). O intérprete, enquanto agente realizador dessa atividade, será visto como um enunciador atravessado e constituído por uma posição também axiológica que influencia e impacta a produção do enunciado alvo da interpretação. A tarefa do intérprete, nessa perspectiva, é interpretar sentidos, transpondo, durante sua atividade, muito mais do que sistemas linguísticos, conforme defende Sobral (2008, p. 33), mas realizando “[...] transposições legítimas, o que pressupõe conhecer os sistemas de produção de sentido que são as línguas e as formas que elas têm ou permitem criar sentidos de uma língua em outra língua”.

Nesse processo de (re)construção de sentidos da LP para a LC, o intérprete, em uma intensa atividade, que é também, evidentemente, cognitiva, precisa considerar aspectos inerentes às formas de compreensão de mundo dos sujeitos envolvidos na interação mediada. No caso da tarefa realizada pelos sujeitos em foco nesse estudo, mundos sensoriais, subjetivos, culturais e linguísticos estão em interação impelindo o intérprete a lidar não apenas com o imediatismo característico da atividade interpretativa, mas, especialmente, com os modos como essas dimensões são entrelaçadas. Intérpretes de línguas de sinais atuam no entrelugar do modo surdo e do modo ouvinte de perceber e expressar o mundo e a realidade porque as comunidades surdas, enquanto minorias sociolinguísticas, localizam-se no âmbito de sociedades majoritárias e estão em constante relação com elas e, por consequência, influência e interferência (Nascimento; Daroque, 2019). Desse modo, a interação é marcada, dentre outros aspectos, pela diferença de modalidade das línguas envolvidas e seus impactos e efeitos no processo de interpretação10.

A fim de abordar essas questões, invocamos, também, conceitos advindos do emergente campo denominado Estudos da Tradução e Interpretação de Língua de Sinais (ETILS). Segundo Rodrigues e Beer (2015), esse recente campo é marcado pela interdisciplinaridade, mas se singulariza e se define a partir de dois campos disciplinares específicos: os Estudos da Tradução e os Estudos da Interpretação. Os ETILS são marcados, dentre outros aspectos, pela questão da modalidade das línguas envolvidas nos processos tradutórios e interpretativos e impulsionam pesquisadores a articularem os ETILS com o campo da Linguística das Línguas de Sinais que vem, desde a década de 1960, “enfrentado o desafio de convencer a comunidade acadêmica de que as línguas de sinais são línguas naturais. Para fazer isso, tem sido necessário mostrar que as línguas sinalizadas compartilham com as línguas orais as características que lhes são consideradas definidoras” (McCleary; Viotti, 2011, p. 289).

No escopo das reflexões teóricas advindas desse campo, a revisitação constante desses conceitos vem evidenciando que, apesar de nos Estudos da Tradução e nos Estudos da Interpretação haver muita clareza e distinção conceitual e terminológica quanto às operacionalizações tradutórias e interpretativas, tanto do ponto de vista cognitivo, como profissional e formativo, quando as línguas de sinais entram em cena essa distinção acaba por ser repensada, a depender do contexto de atuação.

Isso acontece devido ao que se designa de efeitos de modalidades de língua (Quadros, 2006), que indicam as diferenças e similaridades entre línguas vocais-auditivas e gesto-visuais e que têm sido observados sobre o traduzir e interpretar no âmbito dos ETILS. Segundo Rodrigues (2018), “embora as características intrínsecas à tradução e à interpretação de línguas orais sejam partilhadas pelos processos tradutórios e interpretativos que envolvem línguas de sinais, esses processos possuem especificidades”, o que demanda dos pesquisadores interessados na temática atenção sobre as diferenças conceituais e os seus efeitos práticos na pesquisa e na formação de tradutores e de intérpretes dessas línguas.

No contexto brasileiro, as pesquisas sobre os efeitos de modalidade de língua na tradução e na interpretação intermodal produzidas até o momento têm buscado discutir, descrever e analisar as dimensões cognitiva e discursiva e seus efeitos na prática e na formação de tradutores e de intérpretes. Algumas pesquisas vêm demonstrando os efeitos de modalidade nos processos de interpretação e tradução de um ponto de vista da quadridimensionalidade da Libras em relação à língua portuguesa a partir de estudos empírico-experimentais (Rodrigues, 2013; Lourenço, 2015) e de estudos ligados ao campo do discurso (Nascimento, 2011; 2017).

Os processos de realização da tradução e da interpretação intermodal (Rodrigues, 2018) são parecidos com os da tradução e da interpretação intramodal de línguas de modalidade vocal-auditiva. Todavia, as formas de acesso ao texto-alvo, bem como a entrega do produto são marcados, dentre outras coisas, pela necessidade de visualização do discurso quando a direção do processo for língua vocal-língua gestual. Segundo Rodrigues (2018, p. 119), a tradução e a interpretação de língua de sinais são, comumente, registradas em vídeo e o acesso ao texto é pela visualização do corpo do tradutor. “No processo de interpretação intermodal que tem como texto alvo a língua de sinais ocorre o mesmo, já que os intérpretes de sinais precisam estar visíveis diante do público”.

Diante dessas especificidades, qualquer processo de produção de tradução ou de interpretação para a língua de sinais precisa considerar os elementos centrais ligados à modalidade gesto-visual dessa língua de chegada. Em relação à interpretação, Rodrigues (2018) alerta para o fato de que, não necessariamente, haverá a necessidade de uso de aparato tecnológico para que o público-alvo acesse o texto-alvo produzido pelo intérprete a depender do contexto de atuação. Entretanto, em contextos de grandes conferências ou em que a interpretação precisa ser transmitida por aparatos tecnológicos uma estrutura para captação e transmissão da imagem do intérprete precisa ser garantida.

Todavia, apesar de a transmissão da interpretação intermodal ser algo que estava crescendo em eventos com grandes públicos como conferências, shows, palestras, cultos religiosos, dentre outros, a realidade da pandemia da Covid-19 introduziu, no Brasil, a interpretação remota como uma nova modalidade de trabalho, impondo a produção e o acesso ao serviço por meio da mediação por tecnologias, o que contribuiu para a expansão da interpretação remota da Libras no Brasil.

Parente Jr (2024) realizou, em sua tese de doutoramento, um estudo radiográfico sobre a atuação de intérpretes de Libras na pandemia. Por meio de um questionário respondido por 222 intérpretes de todas as regiões do Brasil, o pesquisador concluiu que os intérpretes de Libras precisaram lidar com novas demandas de trabalho impondo uma ressignificação da competência interpretativa em função da crise sanitária. Segundo o autor, a pandemia impactou a precificação de serviços, as negociações de condições de trabalho, a elaboração de contratos e orçamentos, a gestão de múltiplos estímulos dentre outros elementos.

Diante desses aspectos e da emergência da interpretação remota como nova modalidade de atuação de intérpretes do par Libras-português no contexto da pandemia de COVID-19, a articulação entre o pensamento bakhtiniano e os ETILS permite observar a prática da interpretação de língua de sinais nesse estudo considerando que:

  • - o gênero a ser interpretado é o aspecto que mais determina o ato enunciativo do intérprete e as relações interlocutivas que, por sua vez, são as que impulsionam as tomadas de decisão dos sujeitos;

  • - as modalidades linguísticas em uma ILS [interpretação de língua de sinais] não podem ser observadas, apenas, pela sua composição material de significação e pelo viés de controle cognitivo porque o ato enunciativo e a situação concreta são determinantes para o uso de uma ou de duas línguas simultaneamente (Nascimento, 2016, p. 171).

2 Aspectos metodológicos do estudo

A pesquisa aqui descrita é de abordagem qualitativa e de caráter analítico-descritivo, conforme definição de Gil (2019), que diz que as pesquisas descritivas são, juntamente com as exploratórias, as que habitualmente realizam os pesquisadores sociais preocupados com a atuação prática.

O estudo foi submetido, avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)11 e desenvolvido no Laboratório e no Grupo de Pesquisa Língua de Sinais e Cognição (LiSCo). O Grupo LiSCo vem desenvolvendo pesquisas na interface entre Linguística da Língua de Sinais, Estudos da Tradução, Educação de Surdos e Ciências da Saúde e “seu objetivo geral é o de estudar o processamento da linguagem e as funções cognitivas em indivíduos que usam línguas de sinais, estabelecendo relações com as áreas da educação, saúde e estudos da linguagem” (Barbosa, 2018, p. 202). Os estudos recentes do grupo se debruçam sobre o uso da língua de sinais por surdos bilíngues (Barbosa, 2016) e sobre a interpretação da língua de sinais em contextos de saúde (Barbosa; Marques; Sampaio, 2019) sendo, portanto, um importante espaço de produção de pesquisas ligadas à temática da atuação do intérprete de Libras-português.

2.1 Os sujeitos de pesquisa, a autoconfrontação e construção do corpus

Para buscar compreender a atuação dos intérpretes de Libras durante a pandemia, foram selecionados três intérpretes de Libras-português, com idade entre 20 e 50 anos, sendo uma do sexo feminino e dois do sexo masculino. Eles atuaram no contexto da pandemia de Covid-19 a partir dos gêneros: (i) conferência, (ii) aula e (iii) live musical. Esses gêneros foram os escolhidos porque são os que, durante a pandemia, circularam, majoritariamente, por meio de plataformas que permitiram o registro e gravação durante suas realizações como Google Meet, Zoom e StreamYard sendo possível, nesse sentido, assistir o material que já está armazenado em plataformas como, por exemplo, o YouTube.

O critério de recrutamento dos sujeitos foi: (i) ter atuado a partir de um dos três gêneros; (ii) ter, no mínimo, quatro anos de experiência como intérprete de Libras; (iii) ter passado por algum curso de formação a nível de graduação, especialização, extensão ou curso livre em instituições representativas da comunidade surda.

O dispositivo metodológico adotado foi o da autoconfrontação simples que, originalmente, foi proposto pelo linguista francês Daniel Faïta (2005), no contexto da Clínica da Atividade, com o objetivo de olhar a linguagem em situação de trabalho possibilitando, ao analista/pesquisador, observar como os protagonistas da atividade mobilizam em palavras aquilo que se encontra no campo da ação. A metodologia permite e aposta na “[...] possibilidade de desenhos metodológicos variados e criativos [...] que façam dialogar materiais diversificados [...]” haja vista que “[...] não é a sofisticação tecnológica do dispositivo que garante um efeito transformador da atividade, mas sim essa capacidade de escuta dialógica do pesquisador, nos diferentes planos enunciativos-discursivos que a própria atividade permite” (Moura-Vieira, 2012, p. 136). A escolha desse dispositivo metodológico se justifica, então, pelo fato de que ele permite o movimento dialógico em torno do que os protagonistas enxergam do que eles fazem.

A metodologia se estrutura em três fases: 1) constituição do grupo de análise, que consiste na escolha do coletivo a ser analisado e na quantidade de protagonistas que farão parte das atividades a serem filmadas; 2) realização das autoconfrontações simples, quando, após a filmagem das atividades realizadas, os participantes mobilizam discursivamente as experiências observadas no ato registrado. Na autoconfrontação simples o protagonista produz um discurso em referência à atividade observada juntamente com o analista/pesquisador; e 3) extensão do trabalho de análise, que corresponde ao trabalho do pesquisador com os enunciados produzidos nas autoconfrontações (Vieira; Faïta, 2003).

Na primeira etapa, os intérpretes foram recrutados e convidados a participar do estudo. O primeiro contato foi, inicialmente, por redes sociais ou e-mail por onde foi explicado o projeto. Ao aceitarem, foi enviado o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE). Depois da assinatura do termo, agendamos um dia para a realização da segunda etapa. Solicitamos, depois do aceite dos participantes e da assinatura do TCLE, que eles mesmos enviassem pelo menos três vídeos com atuação a partir dos gêneros indicados. Selecionamos, a partir da lista enviada pelos participantes, um vídeo a partir do critério tempo de duração, considerando o menor tempo como parâmetro.

No caso do gênero aula houve algumas especificidades. Entramos em contato com diferentes profissionais que se interessaram em participar da pesquisa, mas que, infelizmente, por questões institucionais, não puderam, haja vista que, em alguns lugares, as aulas gravadas durante a pandemia foram apagadas por uma questão de armazenamento de dados, ou a instituição não autorizou o uso do material devido à possíveis problemas com dados dos estudantes, com base na Lei Geral de Proteção de Dados, 13.709/18. Porém, após diversos contatos, conseguimos autorização de uma instituição educacional de nível superior privada na cidade de São Paulo para realizar a autoconfrontação a partir de uma aula realizada em um curso de especialização em Tradução e Interpretação de Libras/Português que, durante a pandemia, assim como diversos cursos, passou a acontecer remotamente. Todos os participantes da aula assinaram um TCLE com o um termo de autorização de imagem em voz.

Na segunda etapa, foram realizadas as autoconfrontações de modo remoto na plataforma RNP Web Conference (https://conferenciaweb.rnp.br/) que permite a apresentação da imagem das pessoas e o uso de recursos visuais como vídeos, slides e outros abaixo da imagem. A plataforma se apresentou muito profícua para a realização da pesquisa porque, durante a autoconfrontação, foi possível visualizar o intérprete e o material fonte. A plataforma oferece recursos de gravação de imagem e som dentro dela mesma, mas, por uma questão de segurança, optamos também por gravar a tela do computador durante a autoconfrontação por meio do software Screenrec.

Em todas as autoconfrontações, solicitamos aos participantes que contassem suas histórias com a língua de sinais, quando começaram a trabalhar como intérpretes e qual o contexto de atuação nesse momento. Após essa primeira parte iniciamos, efetivamente, o processo de autoconfrontação. Em todas elas, entretanto, ao chegar no contexto de atuação atual, foi possível fazer uma ligação direta entre a experiência com a pandemia sendo, nesse sentido, um importante ponto de ligação com o que seria realizado na sequência. A primeira autoconfrontação, conferências, durou 1h00, a segunda, videoaula, 1h10 e a terceira, live musical, 1h12.

Figura 1
Registros das autoconfrontações

Os nomes reais, bem como as imagens dos participantes, são usados na análise e discussão dos enunciados por dois motivos: (i) a língua objeto de comentário do intérprete será a Libras e a língua de comentário será o português. Nesse sentido, foi necessário, durante a transcrição, utilizar recortes de sinalização e imagem na discussão, haja vista que os enunciados serão de natureza bimodal, ou seja, duas modalidades linguísticas diferentes (gesto-visual e oral-auditiva). Como a Libras é uma língua gesto-visual e toda a produção discursiva acontece pelo uso do corpo, a imagem do falante é imprescindível para a pesquisa; e (ii) como sua imagem será utilizada, não faz sentido o uso de nomes fictícios.

O corpus gerado pela pesquisa é de natureza linguístico-discursiva, ou seja, são enunciados produzidos pelos intérpretes sobre e a partir da situação interpretativa observada durante a autoconfrontação. Em outros estudos que utilizaram o mesmo dispositivo com intérpretes de língua de sinais (Nascimento, 2016; Nascimento & Nascimento, 2021; Nascimento & Brait, 2021; Araújo, 2023; Fraga, 2023) houve a aparição de uma dupla materialidade linguístico-enunciativa:

(i) enunciações monomodais, quando os intérpretes utilizam apenas uma das línguas sem sobrepor a outra. Nesse caso, há grande produção discursiva em LP [língua portuguesa], a língua materna dos sujeitos da pesquisa, para comentar a atividade interpretativa; (ii) enunciações intermodais, quando são produzidas, durante os comentários das atividades, as duas línguas simultaneamente (Nascimento, 2016, p. 222).

No uso desse dispositivo há a ocorrência também de formas específicas de citação, como a citação intermodal transliterada, marcada pelo uso do discurso direto em Libras e sua transliteração vocal para o português, e a citação intermodal demonstrativa, marcada pela demonstração do termo em Libras e a referenciação em português por meio de dêiticos demonstrativos (Nascimento, 2016; Nascimento; Brait, 2021). Considerando as diferenças de modalidade das línguas mobilizadas durante as enunciações intermodais, um sistema de transcrição multimodal (Nascimento, 2023) foi elaborado a fim de permitir a aparição das materialidades linguísticas da língua de sinais e do português. Nesse sistema, a estratégia mescla a proposta de Preti (2003) com inserção de imagens para que seja possível visualizar a sobreposição das línguas usadas pelos enunciadores. Conforme descrito em Nascimento (2023, p. 19),

A estratégia, então, foi usar “[”, tal como no modelo de Preti (2003), para evidenciar a sobreposição de língua. Para mostrar o uso do dêitico que os enunciadores faziam durante a citação bilíngue intermodal, usamos a cor vermelho e, abaixo da imagem, a glosa do léxico equivalente dado pelo sujeito da atividade ou a descrição do aspecto gramatical da Libras.

Para a análise dos enunciados adotamos a proposta de Campos (2018; 2021) de verticalização e horizontalização em pesquisas realizadas nas Ciências Humanas. Essa abordagem, também ancorada na perspectiva bakhtiniana,

[...] permite ao pesquisador buscar o grau possível de generalização em uma pesquisa articulando profundidade e abrangência, equação de resolução em geral complexa em pesquisas voltadas à escuta da alteridade, cujo corpus se compõe de entrevistas, grupos focais, depoimentos, entre outras possibilidades (Campos, 2021, p. 419).

O caminho empreendido por Campos (2021, p. 419) sinaliza que o entrecruzamento desses eixos permite construir, durante a análise do corpus, uma espécie de segurança para as conclusões do pesquisador, haja vista que “[...] a verticalidade [é] o tema dos sujeitos entrevistados e a horizontalidade, o do sujeito pesquisador”. Nesse sentido, “o método realiza a proposta dialógica ao abrir-se para o coro que participa desse delicado diálogo entre sujeitos que ocupam lugares discursivos próprios, mas em permanente contato”.

Portanto, empreenderemos uma análise de cada entrevista mergulhando profundamente na posição sócio-histórica de cada um dos autoconfrontados a partir dos gêneros do discurso que interpretaram e que se viram para, depois, buscar temas comuns entre as entrevistas visando buscar alguma generalização possível sobre a interpretação da língua de sinais no contexto da pandemia. Neste artigo, por uma questão de espaço, apresentamos um recorte da análise horizontal, quando o pesquisador, de sua posição privilegiada e axiológica consegue observar todos os enunciados individuais e buscar generalidades, ambição que, de certa forma, toda pesquisa busca (Campos, 2021). A categoria selecionada para este trabalho foi a da interlocução presumida como balizadora da interpretação remota.

3 A interlocução presumida como balizadora das escolhas linguístico-enunciativas e do processo de interpretação remota

Durante as autoconfrontações, foi possível observar uma preocupação recorrente com o público real ou presumido. Todavia, dos três gêneros observados, a aula e a conferência contavam com interlocuções diretas e conhecidas por parte dos intérpretes. No primeiro, pela dinâmica singular da sala de aula remota com as câmeras abertas e com as alunas surdas, a interpretação era direcionada e recebia feedbacks ao vivo sobre a compreensão do conteúdo, algo similar em relação às aulas presenciais. E no segundo, como a interpretação era bidirecional devido à presença de um mediador surdo na conferência, o intérprete tinha ali, diante de si, uma interlocução direta e responsiva que falou, em Libras, a fim de apresentar o convidado e, depois, estava atento assistindo ao conteúdo interpretado. Na interpretação da live musical, não havia nenhuma interlocução direta com surdos, visto que a equipe era composta de três intérpretes ouvintes e não aconteceu em um ambiente totalmente remoto, diferente dos outros gêneros. Nesse caso, os intérpretes estavam no local de realização da live junto aos cantores, sem surdos e sem a resposta imediata por parte dos surdos.

EXCERTOS DAS AUTOCONFRONTAÇÕES

Cleverson Numa interpretação ao vivo eu conseguiria ver o feedback do público para daí ajustar se necessário a minha interpretação. Então essa para mim é uma grande dificuldade de interpretar remotamente, eu preciso desse feedback para ajustar minha interpretação para saber se eu tô indo bem ou se eu preciso de repente mudar ali o registro linguístico ou mudar minhas estratégias. Esse acho que é o ponto principal né não tem o feedback do público e aí o espaço reduzido de visualização também eu demorei um pouco para acostumar e aí também terceiro a preocupação com o funcionamento da tecnologia. Ricieri Algo também que eu notei aqui teve um momento dali que o professor fez algo engraçado e uma das alunas surdas, que é a Cris, ela fez uma brincadeira também e eu interagi ali com ela é:::... de uma forma, posso dizer, mais informal assim, sabe... Regiane: É você e a pessoa que está assistindo aquela live é você ter aquela interação, então em alguns momentos você vai ver que eu interagia com a tela e eu voltava para câmera. Então ele falava assim “ah eu quero te encontrar eu e você” então é eu e você ((gesticula para a câmera)), né, se o cantor/ele se posicionava para o público a gente também tem que se posicionar para o público.

Na perspectiva bakhtiniana, nenhum enunciado é falado para o vazio, ou seja, toda fala é endereçada, destinada a alguém. Volóchinov (2017, p. 204), por exemplo, afirma que “[...] o enunciado se forma entre dois indivíduos socialmente organizados e, na ausência de um interlocutor real, ele é ocupado, por assim dizer, pela imagem do representante médio daquele grupo social ao qual o falante pertence”. Grillo (2023, p. 16-17), ao discutir a tradução por essa perspectiva, afirma que

a extralocalização e o excedente de visão são as condições para as relações dialógicas operadas pelos tradutores durante sua atividade metalinguística. Em primeiro lugar, o tradutor coloca em diálogo duas culturas e duas línguas a fim de, por meio da comparação, possibilitar o texto traduzido. Ao elaborar seu texto, o tradutor considera o campo aperceptivo de percepção do discurso pelo destinatário (Bakhtin, 2016 [1953-1954], p. 63): o que o tradutor supõe ser sabido ou não pelo destinatário, suas convicções, seus valores, seus gostos etc. Contudo, não é apenas o destinatário (segundo) presumido que interfere, a tradução se constitui por meio de relações dialógicas com um terceiro invisível, um supradestinatário (Bakhtin, 2016 [1959-1960], p. 104-105): no caso da tradução de uma obra científica, as ideias dominantes passadas e presentes e seus autores em uma esfera científica (por exemplo, a linguística, a teoria literária etc.) e seu lugar no campo científico em geral e na cultura passada, presente e futura antecipada.

Apesar de abordar a tradução, e não a interpretação, do ponto de vista operacional, a citação de Grillo (2023) nos ajuda a pensar sobre a relação de destinação no processo interpretativo. O intérprete lida, em sua atuação, geralmente, com destinatários imediatos. Em contextos considerados e denominados de comunitários (aqueles que envolvem a mediação comunicacional de falantes de línguas minoritárias em situações de uso de serviço público, por exemplo), os públicos estão diante dele. Com a pandemia, esses contextos foram ressignificados devido ao distanciamento social.

Cada gênero observado nas autoconfrontações apresentam dinâmicas interacionais singulares por serem, evidentemente, diferentes. Entretanto, percebe-se que, dos três, o gênero aula pareceu conservar, a partir das observações realizadas pelo intérprete, as dinâmicas produzidas no plano presencial. A alternância dos falantes e a interação dos alunos com o professor e os intérpretes é algo constante na interpretação educacional presencial.

Entretanto, no gênero conferência, conforme vemos no trecho destacado acima da fala de Cleverson, a ausência de um público mais amplo que pudesse sinalizar para ele positividade ou negatividade em relação à sua interpretação o deixou numa espécie de “limbo”, de vazio do outro, visto que o feedback desse interlocutor real contribui para a adequação de sua interpretação.

Esse feedback já foi apontado em estudos sobre a interpretação nesse gênero como o de Pointurier-Pournin (2014), que observou a interpretação simultânea da língua de sinais francesa, em sua tese doutoral, com base no modelo dos esforços cognitivos desenvolvido por Gile (1995). Nesse modelo, baseado em uma perspectiva cognitiva, a Interpretação Simultânea (IS) é a soma da audição (A), memória (M), produção (P) e coordenação desses esforços (Gile, 2009; 2015), mas Pointurier-Pournin (2014) acrescentou mais dois esforços que estão ligados diretamente à interpretação de línguas de sinais: a Autogestão no Espaço (AGE), que incluem o posicionamento físico do intérprete e o uso do espaço para otimização da recepção do discurso da LF, bem como a visibilidade das pessoas surdas na plateia; e a Interação Imediata com as Pessoas Surdas (IIS), que diz respeito às interações paralelas feitas entre os surdos no ambiente ou com o próprio intérprete exigindo recursos outros de atenção (Pointturier-Pournin & Gile; 2012; Pointturier-Pournin, 2014; Gile, 2016).

Em Nascimento e Nascimento (2021) observa-se, também, que a dinâmica de composição espaço-visual da interpretação de conferências presenciais que costumeiramente acontece em eventos oferece a possibilidade interativa dos surdos com os intérpretes durante a interpretação permitindo, nesse sentido, uma adequação, alteração, reformulação da interpretação em função daquilo que se observa de resposta facial, comportamental e discursiva do público.

No gênero live musical, a equipe de intérpretes busca estratégias para garantir, pressupondo um público consumidor da interpretação, a transmissão do sentido e do “espírito” estabelecido pelo clima da live. O uso do léxico “energia” por parte da autoconfrontada evidencia uma preocupação com quem estava assistindo. Nesse caso, a presença de intérpretes de Libras em lives musicais recupera a antiga polêmica da relação estabelecida entre os surdos e a música.

Durante muito tempo a interpretação de músicas foi observada como uma prática colonizadora e de imposição dos modos ouvintes de estar no mundo aos surdos que, por questões biológicas, não acessam, do ponto de vista sensorial, a música enquanto produção cultural das sociedades em que vivem. Entretanto, alguns estudos vêm tocando nessa questão antiga e desmistificando compreensões sobre a relação desses sujeitos com a música. É o que faz o estudo de Oliveira (2021), que entrevistou surdos de uma associação de surdos de uma cidade na região nordeste do país e identificou que os surdos experimentam as músicas tanto por meio da interpretação para a Libras quanto pela sensorialidade vibratória e, em alguns casos, quando há resquícios, auditiva também. A pesquisa de Fraga (2023) também discute essa questão a partir de um estudo de caso com um intérprete surdo que atuou em uma equipe de interpretação em uma live musical. Por meio, também, do dispositivo da autoconfrontação, o intérprete surdo faz apontamentos sobre as diferenças culturais entre o modo surdo e ouvinte de produzir arte e seus impactos na interpretação para a Libras. Nesse sentido, a preocupação narrada pela intérprete no gênero live musical vai ao encontro de um interlocutor presumido, mas que consome aquele produto da cultura por meio de seu trabalho de interpretação.

A questão da interlocução presumida foi um fator que impactou as decisões dos intérpretes durante o processo de interpretação. Não saber quem era o público imediato foi fator decisivo para o uso de algumas estratégias interpretativas, incluindo o uso de expansões discursivas no nível sintático-espacial e o uso de mais um léxico para se referir a um mesmo conceito.

Conforme discutido anteriormente, a língua de sinais é uma língua de modalidade gesto-visual em que a produção linguística acontece no espaço. Segundo Quadros (2022) seriam quatro, do ponto de vista gramatical, os espaços na Libras: (i) espaço amplo, em que o sinalizador utiliza de amplitude na produção da sinalização por não possuir restrição espacial; (ii) espaço intermediário, em que o sinalizador produz a língua de sinais dentro do enquadramento cintura e altura da cabeça; (iii) espaço restrito, cuja produção linguística está limitada e o corpo está parcialmente visível restrito mais aos ombros; e (iv) espaço altamente restrito, em que o corpo quase não aparece e o sinalizador utiliza a língua de sinais mais próxima ao rosto e aos ombros. Cada um desses espaços possui produção gramatical, mas que são característicos a eles. Os espaços ainda podem ser referenciais. Segundo Lidell (1995), que discute a questão do espaço nas línguas de sinais com base na teoria dos espaços mentais de Fauconnier (1994), os espaços de produção discursiva na língua de sinais são cognitivamente integrados com o discurso.

Com base nessa perspectiva, Moreira (2006) e Araújo (2016) descrevem os três espaços possíveis de produção discursiva em Libras: (i) o espaço real, que seria uma “representação mental” do ambiente físico imediato em que ocorre o ato de fala em língua de sinais. Ele é “real” porque a produção discursiva em língua de sinais ancora-se, enunciativamente, em referenciais presentes por meio de apontação que funciona como dêiticos demonstrativos; (ii) espaço sub-rogado, que corresponde a um espaço em que coisas e pessoas são representadas em primeira pessoa como se estivessem presentes. Nesse espaço, o sinalizante incorpora as formas físicas, comportamentais, emocionais dos seres que busca representar. O sinalizador, nesse sentido, transita entre a posição de enunciador e de narrador de eventos e situações passadas, presentes ou futuras; e (iii) espaço token, em que as entidades ou as coisas das quais se quer falar são representadas sob a forma de um ponto fixo no espaço físico. As entidades são invisíveis, são apenas pontos associados à alguma representação mental real. Nesse espaço, a produção é mais limitada porque ancora-se sempre, referencialmente, no mesmo ponto do espaço.

Nas autoconfrontações, observa-se uma preocupação com a produção discursiva em língua de sinais em função de cada gênero que impõe aos intérpretes aspectos estilísticos e gramaticais que lhes são próprios. Bakhtin (2016, p. 47) nos lembra que todo enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva. É a posição ativa do falante nesse ou naquele campo de objeto e do sentido. Por isso, cada enunciado se caracteriza, antes de tudo, por certo conteúdo semântico-objetal. A escolha dos meios linguísticos e dos gêneros de discurso é determinada, primeiramente, pelas tarefas (pela ideia) do sujeito do discurso (ou autor) centradas no objeto e no sentido. É o primeiro elemento do enunciado que determina suas peculiaridades estilístico-composicionais.

Nesse sentido, a produção discursiva em língua de sinais e o uso do espaço de sinalização são marcados pelo gênero do discurso, mas nos casos em análise são determinados pelos próprios suportes em que o discurso em Libras será veiculado, conforme evidencia os excertos a seguir.

EXCERTOS DAS AUTOCONFRONTAÇÕES

Cleverson: E aí vou retomar um pouquinho da parte teórica ali. Eu durante a minha trajetória acadêmica eu tive contato com algumas formas de se traduzir, de se interpretar em algumas correntes teóricas e a que eu mais me aproximei, que eu mais tive afinidade foi da tradução funcionalista tá. E aí eu percebi que talvez é::: essa corrente teórica tem me influenciado na minha interpretação. Por quê? O Ricardo fala assim né “que a escola precisa conhecer” né “o CODA” que são ali aquele filho ouvinte de pais surdos. Eu acrescento um ou dois sinais ali porque eu acredito que na hora eu tenho compreendido por que esse conhecer não é aquele conhecer superficial. Então conhecer diferente, então fiz o sinal convencional de conhecer em Libras que é esse aqui, mas depois fiz esse aqui. Muitas vezes a gente coloca [ [ para isso tudo de caso também de você observar mais atentamente aquele sujeito. Então eu coloquei assim na minha cabeça que a escola precisa conhecer mais profundamente esse aluno que é o CODA né. E também o sinal de perceber [ eu fiz o de olhar aí essa escolha eu já não me lembro o que que passava na minha cabeça para eu escolher esse termo em vez do sinal de perceber mas do [ conhecer de acrescentar foi uma escolha consciente [ Ricieri Mais uma observação aqui, ele/o professor usou um termo dessa modalidade de interpretação que eu não conhecia e aí eu percebi que eu olhei para o lado para pegar o apoio da Talita/eu não também/eu não, eu não conseguia soletrar porque eu não sabia a palavra e o professor, ele percebeu que eu tava com dificuldade e aí ele interrompeu a aula para poder soletrar e me ajudar, né, pra explicar esse conceito então foi algo que eu percebi aqui também... Regiane É::: outra coisa que a gente se preocupava também lá na interpretação é você fazer algumas adaptações culturais, por exemplo, ele falou assim numa parte da música: “eu vou te ligar e vou falar que eu sou seu fã” Então, como que eu surdo liga para o outro, né? Ele não vai ligar nesse/de forma como a gente utiliza hoje/um pouco [ [ menos né por isso hoje tudo é oralizado, quando você/ “ai meu Deus, quem tá ligando”, enfim... É::: não vai fazer esse tipo de ligação onde você vai usar a sua voz [ né, essa parte oral não, ele vai utilizar uma chamada de vídeo... então são pequenos [ detalhes que você/

A discussão de sentidos possíveis nas escolhas linguísticas em língua-alvo em função daquilo que é produzido na língua-fonte não aconteceu por causa da mudança do presencial para o remoto. Essas questões são inerentes ao processo de interpretação em si, mas o conteúdo temático imposto por cada gênero mobilizou os intérpretes a pensarem estratégias adequadas naquela situação.

No caso do gênero conferência, o intérprete, no trecho apresentado acima, reflete sobre a sua posição ativa na compreensão do enunciado em língua portuguesa e as correspondências de sentido na Libras. A discussão estabelecida sobre o verbo “perceber” e suas possibilidades de construção na língua de sinais indicam uma preocupação com o público compreender o conteúdo temático produzido naquele gênero específico. Da mesma forma que a intérprete do gênero live musical refletiu, a partir de uma posição cultural de trânsito entre as duas comunidades, sobre as experiências do público-alvo para inseri-lo na experiência de identificação com a canção interpretada. Os aspectos linguístico-discursivos, nesses casos, indicam que o gênero impõe uma forma de produção linguística no qual “a relação valorativa do falante com o objeto do seu discurso (seja qual for esse objeto) também determina a escolha dos recursos lexicais, gramaticais e composicionais do enunciado” (Bakhtin, 2016, p. 47).

No caso do gênero aula, um outro contorno e acabamento se apresenta, especialmente na cena trazida para essa discussão. A produção linguística estava errada e esse erro foi percebido pelo professor que, de sua posição axiológica e discursiva, oferece ao intérprete um acabamento específico, justamente pela possibilidade de acessá-lo, de vê-lo no mesmo horizonte que os alunos. Aqui, a dinâmica remota impôs a possibilidade de interação linguístico-discursiva e de contornos de sentido que o presencial não permitiria. O professor viu o intérprete, mas ele não só viu, ele enxergou sua dificuldade e contribuiu para a sua tarefa. Conforme Bakhtin (2010, p. 33, grifos do autor):

Na categoria do eu, minha imagem externa não pode ser vivenciada como um valor que me engloba e me acaba, ela só pode ser assim vivenciada na categoria do outro, e eu preciso me colocar a mim mesmo sob essa categoria para me ver como elemento de um mundo exterior plástico-pictural e único.

Considerações finais

Este estudo objetivou analisar a interpretação de Libras-português realizada a partir de três gêneros discursivos durante a pandemia de Covid-19, a saber: conferência, aula e lives musicais. Como objetivos específicos, o estudo buscou responder às seguintes questões: (i) de que modo a transposição do presencial para o remoto alterou os usos das línguas no processo de interpretação do par linguístico Libras-português? (ii) quais são as estratégias enunciativo-discursivas empregadas pelos intérpretes na atuação de gêneros adaptados do presencial para o remoto, como conferências e aulas? (iii) como os intérpretes de Libras-português lidaram com questões enunciativo-discursivas de gêneros novos, como as lives musicais?

No que diz respeito à primeira pergunta, percebeu-se que a dinâmica de interação nos gêneros analisados impôs aos intérpretes novas preocupações no que diz respeito ao uso da Libras e da língua portuguesa. A primeira, e mais latente, esteve atrelada aos conteúdos temáticos dos gêneros mobilizados. Na perspectiva bakhtiniana, adotada nesse estudo, essa característica oferece ao gênero o acabamento, o contorno do sentido e é definido pela unidade abordada enquanto se fala. Não se restringe ao assunto, mas o envolve e o molda de acordo com as interações estabelecidas na situação comunicativa a partir da esfera de atividade em que são mobilizadas.

Nesse sentido, pelo fato de os gêneros abordarem aspectos temáticos bem peculiares houve a imposição de usos específicos das línguas, sobretudo a Libras. No caso do gênero conferência, que na autoconfrontação foi observada a partir da bidirecionalidade, percebeu-se que o intérprete fez escolhas linguístico-discursivas a partir da posição social e ideológica dos falantes e preocupou-se com a compreensão do público presumido. Aspectos intensificados pelo contorno temático ligado à própria comunidade surda. No gênero aula, o fato de se tratar de um curso de formação de intérpretes com surdos presentes, as escolhas léxico-semânticas do intérprete percebidas durante a autoconfrontação indicaram que a alteridade constitutiva da aula, mas intensificada pela diferença social, subjetiva e linguística dos participantes, impôs formas específicas de usar as línguas naquele contexto. E no gênero live musical, essas escolhas foram balizadas pela tentativa da intérprete em considerar o público surdo presumido como consumidor daquele produtor cultural que, historicamente, sempre foi visto como distante e não caracterizador da comunidade surda.

Sobre a segunda pergunta, percebeu-se uma exploração ligada aos espaços referenciais, no caso da Libras, alternância de pessoas e uso de expressões dialetais comunitárias dos falantes, no caso do português (especificamente no gênero conferência). Pelo fato de interpretação da Libras, nos três gêneros, terem sido projetadas e exibidas por meio de uma tela, percebeu-se que o espaço intermediário foi o mais utilizado, embora no gênero live musical houvesse uma aproximação maior do espaço amplo. Uma estratégia muito utilizada na interpretação para estabelecer os sentidos discursivos em ambas as línguas e apontado durante a autoconfrontação foi o uso da correspondência discursiva, e não da equivalência, enquanto paradigma tradutório, o que indica que o próprio gênero trata de deslocar o intérprete a refletir para além da dimensão abstrata das línguas.

E, por fim, no tocante à live musical, percebe-se que os intérpretes precisaram criar estratégias de agenciamento coletivo para lidar com as coerções por ele impostas. A dinâmica de imprevisibilidade das apresentações, ainda que houvesse playlists e organização sequencial das músicas e, com isso, a possibilidade de uma intensa preparação com as letras, indica que o trabalho realizado é de interpretação e não de tradução. A intensa preparação da equipe não impede a mudança da dinâmica das interações ao vivo da live e nem da possibilidade de reorganização, por parte do cantor ou da banda, daquela sequência musical com a inserção de novas canções, inclusive de línguas não faladas pela equipe de intérprete.

A pandemia foi um período muito difícil para todo planeta. As imposições de restrições nas interações sociais adoeceram muita gente e nos forçaram a repensar nossas relações, afetos e dinâmicas interacionais. O mundo do trabalho foi extremamente afetado com a pandemia e, atualmente, no cenário pós-pandêmico colhemos frutos dessas reorganizações sociais vividas naquele período.

Os intérpretes e tradutores de Libras, nesse sentido, não foram poupados dessas mudanças. Entretanto, ousadamente podemos afirmar que essa, talvez, tenha sido a categoria que mais se beneficiou com as novas dinâmicas de trabalho estabelecidas na pandemia. A imposição da virtualidade como forma de interação e de produção de conhecimento e cultura escancarou a necessidade de se pensar ambientes acessíveis a todos os públicos. A ausência de intérpretes de Libras e gêneros como os abordados nesse estudo não apenas denunciava o descaso dos organizadores com o público surdo, mas revelava que a construção social para o acesso pleno de minorias linguísticas e sociais é, ainda, algo não alcançado plenamente, mesmo depois de diversos instrumentos jurídicos legais que garantem os direitos para a comunidade surda.

Diante disso, espera-se que este estudo possa contribuir para a reflexão das formas como a pandemia reconfigurou a dinâmica de trabalho e as possibilidades de acesso dos surdos aos mais variados campos sociais. O efeito possível dessa contribuição, talvez, possa ser colhido nos cursos de formação de intérprete que, depois do período pandêmico, foram obrigados a considerar o trabalho remoto de interpretação como possibilidade e campo de atuação, algo não considerado antes desse caótico período.

  • 1
    A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) referente à COVID-19 dia 05 de maio de 2023. Fonte: https://www.paho.org/pt/noticias/5-5-2023-oms-declara-fim-da-emergencia-saude-publica-importancia-internacional-referente
  • 2
    Apesar de na legislação brasileira (Decreto 5.626/05, Lei 12.319/10, Lei 13.146/15, Lei 14.704/23) e em inúmeras pesquisas ser adotado o binômio “tradutor e intérprete” para se referir ao profissional da tradução e da interpretação que atua com o par Libras-português, neste trabalho nos referiremos apenas ao intérprete, por (i) abordarmos a questão da interpretação e não da tradução; e (ii) por que entendemos que as demandas linguísticas, discursivas, cognitivas e laborais se diferem do trabalho do tradutor.
  • 3
    O ensino remoto emergencial, como foi designado por diferentes instituições durante a pandemia, passou a ser usado como uma alternativa diante das restrições de interações presenciais. O uso de ensino remoto em detrimento de Educação a Distância (EaD) foi adotado porque, conforme mostram Saviani e Galvão (2021, p. 38), a EaD já tem existência estabelecida antes desse período, coexistindo com a educação presencial como uma modalidade distinta, oferecida regularmente. Entretanto, os autores afirmaram, na época ainda pandêmica, que “diferentemente, o ‘ensino’ remoto é posto como um substituto excepcionalmente adotado neste período de pandemia, em que a educação presencial se encontra interditada”.
  • 4
    Durante a pandemia, além do aumento da atuação de intérpretes de Libras, percebeu-se um aumento significativo do uso da Audiodescrição (AD), modalidade de tradução que se origina no audiovisual e que traduz imagens e situações em palavras a fim de dar acesso às pessoas cegas, com deficiência visual ou com baixa visão.
  • 5
    Na fonte: “[...] is performed ‘here and now’ for the benefiet of people who want to engage in communication across barriers of language and culture.”
  • 6
    Conforme os estudos linguísticos sobre as línguas de sinais começaram a ganhar espaço na comunidade científica desde a década de 1960, se começou a afirmar que, do ponto de vista fonético, são duas as modalidades de línguas humanas: vocal-auditiva e gesto-visual (Rodrigues, 2018a).
  • 7
    Pessoas ouvintes também utilizam a língua de sinais para conversarem entre elas, mas, dificilmente, utilizam a língua de sinais para estabelecerem interações sociais comunicativas com não falantes da língua de tal modo que precisem de interpretação. Por isso, destacamos que, “majoritariamente”, as interações em língua de sinais que precisam de interpretação acontecem entre surdos e ouvintes.
  • 8
    Denomina-se pensamento bakhtiniano ou perspectiva dialógica a maneira como Mikhail M. Bakhtin (em diálogo com outros intelectuais russos no início do século XX, especialmente com o linguista Valentin Volóchinov e o jornalista literário Pavel M. Medviédev), concebe a linguagem no âmbito da cultura, da literatura, da estética, das artes e da comunicação contribuindo, de maneira direta, com as Ciências Humanas em geral (BRAIT, 2002).
  • 9
    Em Volóchinov (2017), semiótico-ideológico aparece como uma categoria conceitual que engloba uma dupla dimensão: o representacional, simbólico, sígnico e a ideologia, a valoração. Para o autor, que é o linguista do Círculo, não existe signo sem ideologia e nem ideologia sem signo. Daí, então, a composição semiótico-ideológico. Considerando que, nesta perspectiva, a língua não é apenas um sistema abstrato, mas um organismo vivo mobilizado por sujeitos sociais, históricos e, também, axiológicos, faz sentido referir-nos à língua dessa forma.
  • 10
    Certamente que outras dimensões, como as relações étnico-raciais e de gênero, atravessam essas interações e possuem efeitos concretos nos modos como os sujeitos projetam a si e o outro em seus discursos. Entretanto, por uma questão de espaço, não abordaremos esses elementos nesse artigo.
  • 11
    Número do Parecer: 5.470.018. CAAE: 58926322.4.0000.0138.
  • Pareceres
    Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.

Declaração de disponibilidade de conteúdo

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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  • Editores responsáveis
    Adriana Pucci Penteado de Faria e Silva
    Beth Brait
    Bruna Lopes
    Maria Helena Cruz Pistori
    Paulo Rogério Stella
    Regina Godinho de Alcântara

Parecer I

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Parecer I

1. O título do estudo “A atuação de intérpretes de Libras-português durante a pandemia de COVID-19: interpretação remota e interlocução presumida” está totalmente adequado com o desenvolvimento do artigo. A autoria realiza uma excelente construção textual entre os aspectos presentes no título e no texto.

2. Por meio do objetivo do estudo, os (as) autores(as) realizam uma explicação clara do trabalho e uma ótima articulação com o texto.

3. Em sua fundamentação teórico-metodológica, os (as) autores (as) realizam um produtivo diálogo com o texto do artigo. Por meio da análise dialógica do discurso (ADD), a autoria mobiliza concepção de linguagem (social, histórica e ideológica), materializada em forma de enunciados (interpretações Libras-português) e define seus aspectos axiológicos. Os conceitos e outros aspectos dos estudos da tradução e interpretação da língua de sinais (ETILS) contribuem para a análise do objeto de pesquisa, com isso, os (as) autores (as) abordam questões de modalidade das línguas envolvidas e seus impactos e efeitos no processo de interpretação na direção português-Libras.

4. Desta forma, a autoria demonstra conhecimento atualizado por meio da teoria e da bibliografia utilizada, com imensa relevância para a pesquisa.

5. Com relação a originalidade, o artigo apresenta novas reflexões e contribuições importantíssimas relacionadas à dinâmica do trabalho dos tradutores e intérpretes de Libras-português e como esses gêneros discursivos se reconfiguram no período pandêmico. A reconfiguração dessas atividades interpretativas possibilitou e possibilita o acesso dos surdos nessas atividades sociais. Diante do exposto, o estudo realiza uma excelente contribuição para a ADD e para o ETILS.

Seria interessante inserir no resumo: língua brasileira de sinais (Libras).

Rever as citações de acordo com ABNT (NBR 10520). A indicação de autoria pessoa física, dentro dos parênteses, deve ser feita em letras maiúsculas e minúsculas.

Padronizar os seguintes termos:

- Libras-português ou Libras-LP (só aparece na página 2) ;

-Estudos da Tradução e Interpretação de Língua de Sinais (ETILS) ou estudos da tradução e interpretação de língua de sinais (ETILS).

Obs: A definição da sigla está na página 5 e se repete na página 7.

A referência “NAPIER, J. An historical overview of signed language interpreting research: Featuring highlights of personal research. Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 2, n. 26, pp. 63-98, 2010. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2010v2n26p63 Acesso em 01 de maio de 2023” não está presente no texto. APROVADO

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    27 Jun 2024

Parecer II

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Parecer II

O artigo apresenta reflexão e contribuição em relação à atuação de intérpretes de Libras-português em diferentes discursos. De forma clara e com linguagem para o trabalho científico, os objetivos traçados são alcançados conforme pesquisas relacionadas à análise dialógica do discurso e aos estudos da tradução e interpretação da língua de sinais. O texto também apresenta bibliografia relevante e atual, mas há correções obrigatórias, conforme anexo. APROVADO

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    24 Jul 2024

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Abr 2024
  • Aceito
    21 Fev 2025
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LAEL/PUC-SP (Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Rua Monte Alegre, 984 , 05014-901 , Tel.: (55 11) 3258-4383 - São Paulo - SP - Brazil
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