Resumo
A Atuária, ciência social e interdisciplinar, foca no estudo dos riscos, tendo os contratos de seguro como principais instrumentos de proteção financeira da sociedade. O objetivo deste artigo é analisar a produção científica recente em Ciências Atuariais do ramo Não-Vida, delineando o panorama no Brasil e globalmente. Temas centrais ligados a (res)seguradoras, como gerenciamento de riscos e modelos de solvência, são analisados. Tendências, como alterações climáticas, catástrofes, telemática e IFRS, também são identificadas. Realizou-se uma análise bibliométrica da literatura, com avaliação de medidas de desempenho e mapeamento do conhecimento, e mineração textual, com grafos de associações e tendências, usando 22.880 artigos dos dois principais bancos de dados científicos (Scopus e Web of Science) entre 2007-2022. Os resultados revelam mudanças nos temas atuariais, indicando novas abordagens mesmo em seu core. A pesquisa interdisciplinar destaca-se, integrando as ciências aplicadas. O epicentro da pesquisa atuarial deslocou-se da América do Norte para países asiáticos, sobretudo China. Finalmente, colaborações são cruciais para a produtividade e contribuições científicas de impacto, independentemente da área ou tema.
Palavras-chave:
seguros; ciências atuariais; análise bibliométrica; cienciometria; mineração textual
Abstract
Actuarial Science, a social and interdisciplinary science, mainly studies risks. This field envisions insurance contracts as the main instruments for the financial protection of society. This article aims to analyze the recent scientific production in the Non-Life area of Actuarial Sciences, outlining both the Brazilian and the global panorama. Central topics related to (re)insurers, such as risk management and solvency models, are analyzed. Trends, such as climate change, catastrophes, telematics, and IFRS changes, are also identified. A bibliometric analysis of the literature was carried out, with an assessment of performance measures and knowledge mapping, as well as the use of text mining. Association graphs and trend graphs are also presented. 22,880 articles from the two main scientific databases (Scopus and Web of Science), from between 2007-2022, were used. The results reveal changes in actuarial studies, indicating new approaches even in its core themes. Interdisciplinary research stands out, integrating applied sciences. The epicenter of actuarial research has shifted from North America to Asian countries, especially China. Finally, collaborations are crucial for productivity and impactful scientific contributions, regardless of the field or topic.
Keywords:
Insurance; Actuarial Science; Bibliometrics; Scientometrics; Text Mining
Introdução
As Ciências Atuariais têm o risco como seu principal objeto de estudo (Carvalho et al., 2022). Sua principal ferramenta, os contratos de seguro são instrumentos financeiros de proteção patrimonial contra eventos de baixa probabilidade de ocorrência e elevados impactos, que deixam aos afetados prejuízos que podem levar à ruína financeira (Euphasio Junior & Carvalho, 2022). Os atuários auxiliam governos, reguladores, fundos, indústrias, empresas e indivíduos a tomarem decisões, desenvolvendo soluções eficazes que protegem o futuro financeiro dessas instituições em um mundo em constante mudança (IAA, 2022).
No Brasil, a relevância desses profissionais e sua participação em instituições vêm crescendo nos últimos anos, devido ao aumento da importância financeira dos mercados em que atuam, tais como o de seguros e resseguros, capitalização e previdência complementar. Segundo a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), o faturamento do mercado brasileiro nesses setores em 2021 foi de R$ 306 bilhões, implicando uma participação de 3,5% no Produto Interno Bruto do país, com potencial para atingir de 6% a 10% nos próximos anos (SUSEP, 2022; Swiss Re Institute, 2021). Tais números revelam “uma expressiva contribuição para a construção da poupança nacional e o desenvolvimento econômico do país” (SUSEP, 2022, p. 3).
Desde suas origens, a profissão atuarial passou por diversas transformações, categorizadas em “tipos”, desde os do Tipo 1, guiados por modelos determinísticos para cálculos de pensões e benefícios de vida, até os do Tipo 4, orientados a gerir riscos empresariais, em um sentido mais amplo de “gestão”. Esses diferentes tipos não devem ser interpretados como reinvenções da profissão, mas sim como reflexos da evolução das condições sociais diante das quais o atuário realiza suas tarefas (Embrechts & Wüthrich, 2022).
Embrechts e Wüthrich (2022) afirmam que, atualmente, há um 5º tipo de atuário: crítico, que utiliza modelos e dados e tomador de decisões social e financeiramente responsáveis. Portanto, a produção científica atuarial deve considerar esses aspectos e, outrossim, é cada vez mais relevante que gestores de risco interajam com diferentes áreas de atuação: Finanças, Economia, Administração, Contabilidade, Probabilidade, Estatística, Ciência da Computação, entre outras. Assim como também é importante que essas ciências utilizem modelos atuariais em suas teorias e processos (Shigaev & Ivashkevich, 2018).
Diante de constantes mudanças e da convivência perene com incertezas, a produção científica atuarial deve refletir as atuais preocupações e demandas da sociedade. Questões importantes como aspectos ambientais, sociais e de governança (ESG), alterações climáticas e aquecimento global estão ganhando cada vez mais destaque, e é dever do atuário contribuir para uma economia mais sustentável, protegendo a estabilidade financeira das companhias por meio de uma gestão de riscos voltada ao futuro (Schiller & Crugnola-Humbert, 2022). Além disso, a pesquisa atuarial também deve considerar aspectos inovadores sobre problemas já exauridos, tais como o uso da telemática por meio de modelos pay as/how you drive e black box em seguros automotivos (Guillen et al., 2021; Verbelen et al., 2018; Tselentis et al., 2016).
Este artigo tem como objetivos (i) observar a produção científica em Ciências Atuariais no período 2007-2022, após a crise do subprime em 2008, buscando capturar os avanços modernos de técnicas em gerenciamento de riscos; e (ii) analisar a produção científica atuarial mundial, fornecendo insights sobre a direção para onde apontam novas tendências de pesquisa.
Diferentemente de outros estudos nessa área, que frequentemente se concentram apenas em nichos específicos de conhecimento e se limitam a descrever o que já foi realizado, este trabalho destaca-se ao abordar abrangentemente toda uma área das Ciências Sociais Aplicadas. O seu propósito vai além da mera descrição, buscando mapear integralmente o campo e, assim, contribuir para novas direções de pesquisa. A execução não se restringe apenas aos temas centrais, como gerenciamento de riscos e modelos de solvência, mas também se estende a tendências emergentes, tais como alterações climáticas, eventos extremos, uso de telemática e IFRS. Para tal, foram feitas uma análise bibliométrica (modelo quantitativo de revisão da literatura que permite aferir objetivamente um tema de pesquisa) e mineração textual (estruturação de dados textuais que permite identificar padrões significativos e relacionamentos ocultos em dados não estruturados), com informações extraídas das duas principais bases de dados de produções científicas.
Perspectiva teórica
A avaliação de produção científica em um determinado campo do conhecimento humano é relevante por diferentes motivos. O primeiro deles é a indicação de tendências de quais temas estão sendo explorados, em ampla perspectiva: desde assuntos clássicos até os emergentes. Além disso, possibilita identificar os autores mais notáveis e a quais instituições de pesquisas eles estão vinculados (Donthu et al., 2021a).
Tanto artigos de revisão sistemática da literatura como artigos bibliométricos cumprem esse papel de revelar aos pesquisadores linhas consolidadas e novos problemas de pesquisa (Rossetto et al., 2018; Snyder, 2019), mas um ponto fundamental para uma boa revisão da literatura é que ela seja avaliada com profundidade e rigor científico (Palmatier et al., 2018). Assim, os pesquisadores podem (i) identificar lacunas com mais clareza, permitindo novos desenvolvimentos conceituais e abordagens metodológicas; e (ii) estabelecer novas redes de colaboração e interação, ao reconhecer similaridades de abordagens de diferentes grupos de pesquisa mundo afora.
Contudo, é importante diferenciar a análise bibliométrica de outras ferramentas de revisão, como meta-análise e revisões sistemáticas da literatura. Simplificadamente, uma meta-análise utiliza-se dos estudos para estimar direção e tamanho de efeitos em relacionamentos, além de explicitar variações entre estudos no tamanho do efeito e os fatores que explicam tais variações (Aguinis et al., 2011). Já as revisões sistemáticas da literatura, baseadas em domínio, método e teoria, encapsulam a aquisição, organização e avaliação da literatura usando procedimentos (Palmatier et al., 2018) que em geral são realizados manualmente (e.g., análises de conteúdo e temática).
Estudos bibliométricos são adequados para o mapeamento científico onde a ênfase em contribuições empíricas produz fluxos de pesquisa volumosos, fragmentados e controversos (Aria & Cuccurullo, 2017). Nesses casos, a bibliometria se mostra útil como ferramenta de pesquisa, bem como para gerenciar e avaliar atividades de pesquisa (González-Alcaide, 2021). Segundo González-Alcaide (2021), estudos bibliométricos apresentam um padrão “incontrolável” de desenvolvimento dinâmico, com o número de artigos publicados com esse método dodecaplicando nos últimos 15 anos, e gradualmente se estendendo a todas as disciplinas (Aria & Cuccurullo, 2017). A publicação de estudos bibliométricos em periódicos fora dos campos de Ciência da Informação e Biblioteconomia reflete o interesse mais amplo pela bibliometria como metodologia de pesquisa (González-Alcaide, 2021).
Complementando a análise bibliométrica, com o aprimoramento da inteligência artificial foram introduzidos novos processos que transformam textos em dados estruturados para analisá-los quantitativamente. Um deles é a mineração textual, que utiliza métodos de Estatística e Machine Learning para extrair informações em grandes volumes de textos escritos em linguagem natural, buscando identificar padrões e tendências, bem como novas relações entre dados textuais que possam estar ocultas (Schlogl & Dutra, 2020). A mineração textual não apenas analisa dados textuais eficientemente, mas também de forma transparente e reprodutível (Humphreys & Wang, 2018).
Uma ciência em constante crescimento e de suma importância para a resolução de desafios atuais (só na área de seguros citam-se: títulos de longevidade, seguros contra catástrofes naturais, agrícolas e paramétricos, títulos pandêmicos, riscos cibernéticos) é a Ciência Atuarial (Embrechts & Wüthrich, 2022). Dada a amplitude de aplicabilidade da atuária e seu recente crescimento, entendemos que há oportunidade de pesquisa bibliométrica junto à mineração textual para observar as tendências e gaps de pesquisa, suas principais teorias, autores e redes de contribuição.
Ciências Atuariais: uma ciência social aplicada interdisciplinar
As origens das Ciências Atuariais remetem à Probabilidade e à Estatística da escola escandinava, cujos trabalhos seminais de Lundberg (1903) e Cramér (1930) deram origem à prolífica Teoria da Ruína e à Matemática Atuarial Não-Vida, fortemente baseada em Processos Estocásticos e convoluções de distribuições probabilísticas. Em contraposição à escola escandinava (de interpretação objetiva/frequentista de reprodutibilidade de eventos), a escola italiana é defensora da interpretação subjetiva da probabilidade, aproximando-se dos métodos da Inferência Bayesiana de mensuração (Feduzi et al., 2012).
Ambas as escolas de pensamento se preocupam mais com os métodos do que com os problemas aplicados enfrentados pelos agentes econômicos. Nas últimas décadas, pesquisadores têm encontrado muitas intersecções entre as Ciências Atuariais (a ciência da gestão de riscos) e as áreas de Economia, Contabilidade e Administração. Dentre elas, citam-se (i) os seguros e economia comportamental: agentes econômicos podem não se comportar segundo a teoria da utilidade quando estão em risco e, assim, a economia comportamental pode ajudar a compreender aspectos ligados à demanda por seguros (Harrison & Ng, 2019); (ii) a contabilidade atuarial, que utiliza métodos atuariais para mensurar ativos e passivos em demonstrações contábeis (B. D. R. Carvalho & Carvalho, 2019; Cazzari & Moreira, 2022), e; (iii) a “Função Atuarial” no desenvolvimento de novos produtos. Em Administração de Empresas, o papel da Função Atuarial é validar o trabalho realizado por unidades operacionais, atuando como uma “segunda linha de defesa” em que o responsável permeia toda a organização. Tal modelo administrativo representa uma transformação significativa em termos de conteúdo, interação e cultura nas empresas (Voggenauer, 2022).
Apenas nos últimos anos, periódicos relevantes produziram chamadas especiais sobre a indústria de seguros, abordando especificamente tanto temas clássicos como saúde (Courbage & Nyman, 2017), longevidade e sistemas previdenciários (Blake & MacMinn, 2021; Bugler et al., 2021; Ghilarducci & Webb, 2017) quanto assuntos contemporâneos, tais como riscos cibernéticos (Eling, 2018), microsseguros (Dror, 2016), riscos climáticos (Golnaraghi & Mahul 2017) e seguros comportamentais (Laeven et al., 2021). Houve também chamadas mais abrangentes, que publicaram diversos tópicos modernos (Feng et al., 2022).
Afonso (2020) afirma que, segundo a Associação Atuarial Internacional (IAA), as Ciências Atuariais são segmentadas em seis áreas: Riscos Financeiros, Não-Vida, Saúde, Vida, Consultoria e Previdência Social/Complementar. Ele fez uma revisão dos artigos publicados na Revista de Contabilidade & Finanças nos últimos anos, concluindo que predominam trabalhos em Vida e Previdência, mas com tendência de descentralização dessas áreas. Entretanto, faz-se um alerta: a pesquisa de alto nível no Brasil depende fortemente da existência de uma comunidade ampliada de pesquisadores, que só ocorrerá quando mais centros oferecerem cursos de graduação e mestrado/doutorado em Atuária. Curiosamente, esse diagnóstico está alinhado com os achados de Silva et al. (2013), os quais identificaram que até a produção científica em Finanças (área muito mais consolidada que as Ciências Atuariais) no Brasil é muito concentrada em poucos autores.
Muito recentemente, realizaram-se algumas revisões bibliométricas relacionadas a áreas de aplicações de seguros, mas apenas em algumas áreas específicas: seguros para mudanças climáticas (Nobanee et al., 2021, 2022), projeções estocásticas de mortalidade (Redzwan & Ramli, 2022), saúde (Nayak et al., 2022), abandono de apólices de seguros de vida (Shamsuddin et al., 2022), governança e desempenho de seguradoras (Anderloni et al., 2020) e até seguro depósito para avaliar estabilidade bancária (Sardana & Singhania, 2022). Outrossim, não foram identificadas revisões mais abrangentes como a que fizemos neste trabalho (i.e., Matemática Atuarial Não-Vida e outros tópicos relevantes em gerenciamento de riscos e modelos de solvência, diretamente relacionados com seguradoras e resseguradoras).
Bibliometria e mineração textual em revisões da literatura
A bibliometria é definida como o estudo quantitativo da produção, disseminação, socialização e evidenciação da informação registrada (Macias-Chapula, 1998). Ainda que seu início formal seja datado dos anos 1960 (Pritchard, 1969), recentemente houve avanços, com esse tipo de trabalho tendo espaço nos principais periódicos de negócios e gestão (Donthu et al., 2020).
Dentre as áreas que têm se utilizado dessa técnica, figuram as Finanças (Guaita Martínez et al., 2022; Jeris et al., 2022; Leal et al., 2013; Linnenluecke et al., 2017; Silva et al., 2013; Niknejad et al., 2021), Contabilidade (Linnenluecke et al., 2020; Rocha & Ferreira, 2021), Marketing (Donthu et al., 2021b; Mazzon & Hernandez, 2013), Recursos Humanos (Andersen, 2021; Mascarenhas & Barbosa, 2013) e pesquisas interdisciplinares como estratégia e aspectos ESG (Bhatnagar & Sharma, 2022; Borgholthaus et al., 2023; Gallucci et al., 2022; Kumar et al., 2021; L. Zhang et al., 2022).
Lis-Gutiérrez et al. (2022) analisaram, usando bibliometria, as diferenças na produção científica entre países, de 2001 a 2021. Os autores concluíram que a produção científica na Ásia, América do Norte e Europa Ocidental é, em média, maior do que na Europa Oriental, Oriente Médio e África. Essas três últimas regiões não apresentaram diferenças significantes entre si.
Na literatura brasileira, diversos esforços têm sido feitos. Ribeiro (2018) avaliou a produção científica brasileira nas áreas de Administração, Contabilidade e Turismo em periódicos nacionais. Segundo ele, houve crescimento de estudos bibliométricos a partir de 2007, achado similar a Pereira et al. (2019).
Ademais, pode-se citar ainda estudos bibliométricos em Economia (Silveira et al., 2016), Indústria e Tecnologia (Gonçales Filho et al., 2016; Pacchini et al., 2020), Inovação (Pinsky et al., 2015; Speroni et al., 2015) e Aprendizagem (Figueiredo et al., 2014). Outra área que apresenta um crescente número de estudos bibliométricos no Brasil é a Saúde, com foco em aspectos da Medicina ou de Gestão (Arroyo et al., 2016; Barbosa et al., 2020; Vieira et al., 2020), mas ainda sem estudos bibliométricos voltados a seguro saúde.
Já a mineração textual é o processo que envolve “coleta de dados textuais, seguida de sua estruturação, análise, adição e/ou retirada de elementos linguísticos, transformação e representação do texto como números” (Schlogl & Dutra, 2020, p. 3). O objetivo principal desse processo é analisar dados textuais para identificar padrões e tendências entre eles (Aggarwal & Zhai, 2012). Ademais, é possível usar mineração textual para obter novas informações sobre o texto, indo além do conteúdo escrito (Francis & Flynn, 2010).
Alguns trabalhos usaram mineração textual como ferramenta de revisão de literatura, como Antons et al. (2020), que a usaram na revisão sobre pesquisa em inovação, identificando o estado atual à época, padrões de evolução e prioridades no desenvolvimento, e Gurcan e Cagiltay (2023), que usaram-na para apontar novas trends de pesquisa em educação à distância. Outros trabalhos usaram mineração textual como metodologia de pesquisa aplicada a área de Ciências Atuariais, como Zinn e Müller (2022), que usaram-na para obter insights sobre a comunicação de riscos na esfera pública a partir de debates políticos, redes sociais e documentos governamentais. Entretanto, até agora não conseguimos identificar estudos na área de Ciências Atuariais que combinasse bibliometria e mineração textual como ferramentas de revisão de literatura, configurando mais um diferencial deste trabalho.
Metodologia
Primeiramente, realizou-se uma análise bibliométrica. Como há diferentes diretrizes sobre tal execução, seguiram-se aqui as orientações de Donthu et al. (2021a) e Blockmans et al. (2014). Segundo ambos os autores, a bibliometria é dividida em duas componentes principais: (i) análise de desempenho, e; (ii) mapeamento do conhecimento. Enquanto a primeira descreve a performance de autores, centros de pesquisa e países mais ativos na produção científica em certa área, a segunda evidencia as relações existentes entre entes constituintes da pesquisa.
A Tabela 1 mostra algumas métricas e técnicas utilizadas na bibliometria, vinculadas a essas duas componentes.
Para esse estudo foram consultados dois bancos de dados: Scopus e Web of Science. Eles são os maiores bancos de dados de documentos de pesquisa do mundo e oferecem uma ampla cobertura de áreas acadêmicas como Ciências Sociais, Ciências da Vida, Ciências Físicas e Ciências da Saúde (Singh et al., 2021).
O passo a passo sobre o processo de obtenção dos artigos está representado na Tabela 2.
Durante o processo de união das bases, foram feitos tratamentos de formatação para garantir um agrupamento correto das informações (e.g., padronizar caracteres como “&” ou “and” no nome de uma mesma revista entre as bases).
Uma vez obtida a base de dados bibliográficos, que reúne informações como título do documento, nomes dos autores, filiações, fonte e ano de publicação, dentre outras, pôde-se criar e analisar mapas, tabelas e gráficos bibliométricos por meio da interface Biblioshiny do pacote Bibliometrix em R (Aria & Cuccurullo, 2017). Tal interface é uma ferramenta amplamente utilizada que realiza múltiplas análises, sendo únicas em relação a outras ferramentas (Moral-Muñoz et al., 2020).
Para analisar padrões e identificar tendências de pesquisa que possam ser apontadas, extraíram-se os resumos de todos os artigos da base de dados obtida e realizou-se uma mineração textual. Nesse processo, o primeiro passo foi fragmentar cada resumo em tokens (palavras ou conjunto de palavras), removendo tokens inúteis à análise (palavras comuns como artigos, preposições, excluídas conforme atributos lexicais da língua inglesa).
Depois, para os resumos de cada grupo de dados definido na bibliometria, analisaram-se similaridades entre frequências de palavras dentre os grupos, seguida da análise de tendências, construindo grafos que relacionam os termos presentes nos resumos, mapeando a intensidade da pesquisa sobre o tema, e apontando prováveis direções da pesquisa na área, medindo os “termos chave” mais bem correlacionados com o tema do grupo.
Apresentação e discussões sobre resultados
A partir dos critérios estabelecidos na seção anterior, a Tabela 3 traz algumas estatísticas referentes aos grupos de dados, incluindo documentos sem grupo (dentro de “Total”):
A soma das quantidades de artigos nos sete primeiros grupos é maior que o total, pois há documentos que pertencem a mais de um grupo, como é o caso de um trabalho em que se analisaram modelos de solvência a partir de novas perspectivas de gerenciamento de riscos, o que o fez ser parte tanto de “Gerenciamento de Riscos” quanto de “Solvência”.
A Tabela 4 apresenta as revistas de publicação mais relevantes, com mais artigos publicados no período, bem como a quantidade de vezes em que cada uma delas foi citada dentre o total de documentos.
Os resultados apontam que IME e JRI são revistas extremamente importantes para esta área, tanto em publicações quanto em impacto (citações). Ademais, há revistas que possuem bastantes publicações, mas são pouco citadas (e.g., a PLOS1, que é uma revista que publica pesquisas sobre qualquer disciplina relacionada a ciências) e periódicos que são muito citados, mas que possuem poucas publicações em Não-Vida (e.g., a JBF, que não é específica da área, mas possui publicações com intersecções com as Ciências Atuariais).
Das revistas citadas na Tabela 4, somente duas delas não estavam indexadas a alguma das bases durante todo o período de análise: a SR, indexada em 2011, e Risks, indexada em 2015. Esse é um ponto relevante para justificar que, majoritariamente, o aumento de publicações não está vinculado a um aumento de cobertura dos bancos de dados, mas da relevância da área em si.
Outro ponto importante é o crescimento da relevância de algumas revistas ao longo dos últimos anos, indicadas na Figura 1 pela quantidade anual de artigos publicados na área: em geral, são revistas que tratam de temáticas específicas, cujos problemas podem ser resolvidos usando técnicas atuariais. Isso ilustra o fato de que as Ciências Atuariais possuem, em sua essência, um caráter interdisciplinar e integrador dentro das ciências aplicadas. Um exemplo é a IJERPH, que possui diversas publicações mostrando como técnicas de gerenciamento de riscos, aplicadas a temáticas sobre alterações climáticas e eventos extremos, permitem obter soluções para problemas relacionados ao Meio Ambiente e à Saúde Pública.
Sobre a distribuição geográfica da produção científica em Não-Vida, os países com as maiores produções no período foram Estados Unidos (15.562 publicações), China (14.493), Reino Unido (3.651), Alemanha (3.537) e Canadá (2.274). Nesse ranking, o Brasil aparece na 25ª posição (de 142), com 388 publicações. Note que a soma dessas quantidades é maior que o total de publicações no período, mostrando que boa parte dos trabalhos produzidos foram frutos de parcerias e colaborações internacionais. Essa mesma conclusão é suportada pela Figura 2, que mostra a proporção entre trabalhos produzidos por autores de um único país e os produzidos por autores de mais de um país, apresentando os 15 países com mais publicações e o Brasil.
Ainda neste sentido, da Tabela 3 também se observa que aproximadamente 85% dos artigos produzidos no período foram escritos por mais de um autor, evidenciando a importância de se estabelecer parcerias de coautoria em pesquisas, tanto nacionais quanto internacionais (na média, foram quase 4 autores por documento).
Uma vez estabelecido um panorama geral sobre a produção científica em Não-Vida, a seguir serão destacados alguns aspectos específicos sobre o core atuarial (i.e., Gerenciamento de Riscos e Solvência) e trends atuariais (i.e., temáticas emergentes, como Alterações Climáticas, Eventos Extremos, Telemática, Seguro Cibernético e IFRS que, embora não seja um tema exatamente novo, se tornou tendência com a emissão e implantação do IFRS 17).
Pesquisas sobre o core atuarial
Como uma tarefa intrínseca ao atuário é a de gerenciar riscos, questionou-se se isso era refletido na respectiva produção científica. Para isso, primeiramente analisou-se a quantidade de pesquisas relacionadas a Gerenciamento de Riscos e Solvência no período, e o resultado (Figura 3) evidencia a perenidade de pesquisa em Solvência e a crescente produção vinculada a Gerenciamento de Riscos. Com maiores adversidades econômicas (Fonseca & Carvalho, 2025) e consequente aumento de regulação (Born & Klimaszewski-Blettner, 2013; Campiglio et al., 2018), é esperado o desenvolvimento/aprimoramento de técnicas e modelos de gerenciamento, protegendo o patrimônio financeiro de empresas e indivíduos.
Em seguida, verificaram-se quais revistas e autores tiveram papel de destaque, seja pela expressiva quantidade de trabalhos publicados e/ou pelo impacto de suas publicações (Tabela 5).
É notório que a IME é revista relevante tanto em publicações quanto em influência, para ambos os temas. Sobre os autores, observa-se que há inúmeras redes de colaboração internacionais em Gerenciamento de Riscos, mas em Solvência essas redes são mais fortes com parcerias entre Estados Unidos, China, Canadá e alguns países da Europa (Figura 4).
Ainda que essas temáticas pertençam ao core atuarial, nota-se que o interesse das pesquisas dentro desses temas variou ao longo do tempo, conforme mostra a Figura 5: observa-se a evolução científica do tema e o apontamento de novas direções, com distintas abordagens.
Pelas Figuras 6 e 7, os trabalhos sobre Gerenciamento de Riscos destacam os seguros como mecanismo central para a transferência de riscos na gestão de incertezas. Ademais, os artigos sobre Solvência também exploram a interrelação entre gestão de riscos e contratação de seguros. Quanto mais escura e densa a linha, maior é a interrelação entre os assuntos explicitados nos grafos. Ainda, apresentam-se os termos mais correlacionados com Gerenciamento e Solvência.
Os termos mais correlacionados com “Solvency” indicam a importância da relação entre solvência e requerimento de capitais, modelos internos de solvência e pontuar limitações do normativo regulatório europeu vigente. Já os mais correlacionados com “Management” apontam para novas estratégias que sejam aplicáveis e efetivas na mitigação de riscos, especialmente relacionados a desastres naturais (como enchentes). Os dados das Figuras 6 e 7 apontam para o futuro das pesquisas nesses temas, resumidos em possíveis problemas de pesquisa (Tabela 6):
Trends atuariais
Trends são assuntos que ganham popularidade em algum período e indicam novidades e tendências. No caso de pesquisas acadêmicas, tais assuntos são extremamente relevantes porque norteiam temas que possuem escassez de trabalhos e, consequentemente, muitas questões ainda não respondidas.
Em Não-Vida, são exemplos de trends atualmente assuntos como Alterações Climáticas, Eventos Extremos, Telemática, Seguro Cibernético e IFRS (em decorrência da implementação do IFRS 17). A partir da evolução das quantidades de publicações (Figura 8), é possível observar que, em 15 anos, o total de trabalhos produzidos nessas áreas quase decuplicou. Além disso, todas as temáticas tiveram aumento na quantidade anual de publicações, e assuntos como Seguro Cibernético e Telemática cresceram rapidamente nos últimos 5 anos.
A Tabela 7 apresenta as revistas e autores de destaque na pesquisa dessas temáticas.
É interessante notar que as revistas de destaque diferem tanto entre temas específicos como dos temas relacionados ao core atuarial. Além disso, em relação às Alterações Climáticas, os resultados obtidos estão alinhados com achados anteriores (Nobanee et al., 2022), reforçando que há a necessidade de o seguro ser considerado como uma ferramenta redutora do impacto social de riscos associados ao meio-ambiente.
A Figura 9 destaca a distribuição geográfica da produção científica e redes de colaboração internacional entre pesquisadores, para cada uma dessas trends.
Deste painel, observa-se que Alterações Climáticas é uma preocupação mundial e há inúmeras redes entre países. Para Eventos Extremos, as parcerias se concentram entre EUA e Europa, ou EUA e China (o mesmo ocorrendo para Seguro Cibernético, porém com uma predominância de parceria sino-americana). O mesmo não ocorre para Telemática: além de poucos países pesquisarem sobre esse tema, a rede mais forte dá-se entre Reino Unido e Espanha. No caso do IFRS, a rede de colaboração restringe-se a alguns países da Europa: isso ocorre por ainda haver alguma resistência por parte de diversos países (e.g., Brasil, EUA) em adotar oficialmente normas contábeis internacionais.
As Figuras 10-14 mostram os grafos referentes às abordagens de pesquisa nessas áreas: sobre IFRS, os estudos versam sobre a adoção de padrões contábeis internacionais e impactos da adoção do IFRS 17. Já os trabalhos sobre seguro cibernético analisam como mitigar risco cibernético, desenhando novas apólices e avaliando o mercado para esses produtos. Os artigos sobre telemática versam sobre seguros baseados no uso (tanto frequência como forma de usar o veículo), analisando aspectos de seguros comportamentais e os desafios em desenhar produtos devido à escassez de dados.
Os trabalhos sobre alterações climáticas sugerem novos mecanismos de transferência e redução de riscos associados a esses eventos, observando seguros paramétricos e construindo proteções financeiras contra desastres naturais. Dentre as palavras mais correlacionadas a eventos extremos e alterações climáticas, destacam-se relações com a agricultura, aumento da frequência de eventos extremos e a Teoria dos Valores Extremos (EVT) como técnica para modelagem.
A Tabela 8 traz alguns insights para o futuro das pesquisas nesses temas, resumidos em possíveis problemas de pesquisa:
Usando mineração textual, pode-se identificar similaridade entre textos, medida pela correlação entre frequências das palavras. A Tabela 9 mostra os valores dessas correlações, para cada par de temáticas analisadas:
De modo geral, há alto grau de similaridade entre todas essas temáticas, reforçando a natureza integradora das Ciências Atuariais e valorizando a pesquisa em grupos de cooperação, tanto nacional como internacionalmente. Em particular, há grande similaridade entre Gerenciamento de Riscos e Alterações Climáticas, possibilitando estreitamento de laços entre grupos de pesquisa dessas áreas, tanto pela temática subjacente como pela metodologia empregada nos trabalhos.
Ainda, os dados evidenciam que alterações climáticas é objeto de estudo em gerenciamento de riscos, trazendo essa temática para o core atuarial. Outras grandes similaridades ocorrem entre Eventos Extremos e Solvência (além de Gerenciamento de Riscos e Alterações Climáticas), mostrando que esses eventos impactam na gestão de riscos e solvência das seguradoras, impulsionando pesquisas futuras.
E a produção brasileira?
Acompanhando a tendência global, a produção brasileira em Não-Vida também cresceu nos últimos anos. Pela Figura 15, observa-se que esse crescimento teve dois saltos (2016 e 2019). Como os assuntos tratados nesses trabalhos são muito distintos entre si (de saúde à agricultura), não foi possível determinar uma razão para isso.
Outro ponto interessante é a pulverização das publicações em relação às revistas: foram mais de 110 revistas que tiveram trabalhos de autores brasileiros publicados nessa área. Os periódicos que mais publicaram foram: Revista de Administração Contemporânea (7 publicações), Revista de Economia e Sociologia Rural (7), Revista Brasileira de Gestão de Negócios (7) e Revista Contabilidade & Finanças (5).
A Tabela 10 mostra quantos trabalhos com autores brasileiros foram publicados nas revistas apresentadas na Tabela 4, bem como suas filiações e o respectivo ano de publicação.
Os resultados da Tabela 10 reforçam o fato de que publicações em revistas com alto impacto decorrem, majoritariamente, de parcerias entre grupos de pesquisa consolidados, tanto nacional como internacionalmente, estando alinhado com achados recentes (S. Zhang et al., 2022). Curiosamente, em todas as instituições nacionais, os autores estão ligados a institutos de Matemática e Estatística (incluindo a FGV-RJ), e não a escolas de negócios.
Considerações finais
Neste trabalho, pioneiro na área de conhecimento selecionada, foi feito um estudo bibliométrico que permitiu avaliar a evolução histórica de publicações científicas em temas fundamentais, além de identificar autores e periódicos relevantes em Ciências Atuariais. Destaca-se que as duas bases de dados mais importantes foram utilizadas para a análise bibliométrica. Além disso, foi possível identificar as grandes tendências da pesquisa, lançando luz para os grandes desafios que não apenas os pesquisadores, mas principalmente sociedades, enfrentam.
Os resultados sugerem que houve uma mudança importante nos temas tratados pelas Ciências Atuariais, mesmo em seu core (i.e., Gerenciamento de riscos e Solvência). A pesquisa interdisciplinar tem ganhado relevância, sugerindo que é crescente a consideração do seguro como um instrumento importante, redutor do impacto financeiro dos riscos que empresas e indivíduos enfrentam. Dentre esses riscos, aqueles associados às mudanças climáticas, eventos extremos e cibernéticos têm ganhado atenção de cientistas de diferentes áreas, inclusive atuários.
Adicionalmente, restou evidente que o estabelecimento de redes de colaboração é um fator determinante da produtividade e contribuição científica de alto impacto, não importa a área ou tema. Os resultados alinham-se com resultados anteriores (S. Zhang et al., 2022), e uma tendência é clara: o centro do mundo atuarial tem se deslocado da América do Norte e Europa para o estabelecimento de parcerias com países asiáticos, sobretudo China, corroborando evidências já encontradas (Didenko & Sidelnyk, 2021).
Estudos futuros podem estender as análises para outros ramos das Ciências Atuariais, tais como seguro saúde e previdência, cujas estruturas de financiamento são desafios que vários países precisam enfrentar com suas populações.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados que suportaram os achados desta pesquisa estão disponíveis em Harvard Dataverse, no endereço http://doi.org/ 10.7910/DVN/RLSUTD.
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Fonte: elaboração própria.
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