Open-access Abraçando o Imprevisto: uma Revisão Sistemática da Literatura sobre Choques de Carreira, Eventos Fortuitos, Happenstance e Serendipidade no Desenvolvimento de Carreira

RESUMO

Este artigo explora como a literatura acadêmica aborda o impacto de eventos inesperados no desenvolvimento de carreiras. Através de uma revisão sistemática de 85 artigos acadêmicos, seguindo a metodologia PRISMA, o estudo investiga o tema por meio de análises bibliométricas e temáticas dos conceitos de choques de carreira, eventos fortuitos, happenstance e serendipidade. Os resultados revelam três principais perspectivas: contextual, com foco em fatores macro-ambientais; individual, enfatizando percepções e estratégias pessoais; e processual, explorando os antecedentes, mediadores e resultados de eventos inesperados nas carreiras dos indivíduos. Esta revisão favorece a coerência na literatura ao sintetizar como tais conceitos teóricos abordam a influência de eventos disruptivos nas carreiras, promovendo uma melhor compreensão do desenvolvimento de carreiras diante de eventos imprevisíveis. As contribuições do estudo abrangem os campos de aconselhamento de carreira, políticas organizacionais e públicas, planejamento de carreira e direções para pesquisas futuras.

PALAVRAS-CHAVE:
Choques de Carreira; Happenstance; Serendipidade; Revisão Sistemática da Literatura; Teoria de Carreira

ABSTRACT

This paper explores how academic literature addresses the impact of unexpected events on career development. Through a systematic review of 85 scholarly articles using the PRIMA statement, the study investigates the topic through bibliometric and thematic analyses of career shocks, chance events, happenstance, and serendipity. The findings reveal three main perspectives: contextual, focusing on macro-environmental influences; individual, emphasizing personal perceptions and reactions; and processual, exploring the antecedents, mediators, and outcomes of these events. This review synthesizes how theoretical frameworks comprehend the role of unexpected events in careers. It provides insights for both theoretical and practical applications, encouraging a deeper understanding of career development in the face of unpredictability. The implications extend to career counseling and organizational and political policies and offer directions for future research.

KEYWORDS:
Career Shocks; Happenstance; Serendipity; Systematic Literature Review; Career Theory

1 INTRODUÇÃO

As carreiras contemporâneas se desenvolvem em contextos cada vez mais complexos. Assim como as sociedades, as carreiras são influenciadas pela economia, políticas governamentais, normas culturais e outras influências contextuais (Akkermans et al., 2018; Baruch & Sullivan, 2022). No entanto, os estudos de carreira enfatizam predominantemente competências pessoais, incluindo empregabilidade, planejamento de carreira, tomada de decisão autônoma e responsabilidade individual. Uma das principais críticas a essa perspectiva é que ela assume níveis irreais de previsibilidade e controle por parte dos indivíduos, considerando inadequadamente o impacto de fatores contextuais não previstos nas carreiras (Akkermans et al., 2018). Nesse sentido, é necessário aprofundar o conhecimento em aspectos que influenciam as trajetórias profissionais e são comumente negligenciados na pesquisa em carreiras, enfatizando como as pessoas tomam decisões no mundo real, em vez de meramente prescrever como elas devem decidir em um cenário ideal. Isso envolve considerar os efeitos de fatores como emoções, vieses inconscientes e eventos inesperados (Ferreira, 2020).

A literatura acadêmica demonstra que eventos imprevistos podem impactar significativamente as trajetórias profissionais (Akkermans et al., 2018; Bright et al., 2005; Kim, 2022). Esses eventos tem sido abordados em pesquisas recentes sobre desenvolvimento de carreira (Akkermans et al., 2018; Kim, 2022) e são referidos sob os conceitos de serendipidade (serendipity) (Betsworth & Hansen, 1996; Krumboltz, 1998), happenstance (sem tradução em língua portuguesa) (Krumboltz, 2009; Miller, 1983), eventos fortuitos (chance events) (Bright et al., 2005), e, mais recentemente, choques de carreira (career shocks) (Akkermans et al., 2018; Seibert et al., 2013). A despeito da relevância dessas teorias para o estudo do desenvolvimento das carreiras, a disseminação de diferentes conceitos e perspectivas associadas a circunstâncias imprevisíveis destacam a urgência em maior clareza sobre esse tópico (Baruch, 2015). Akkermans et al. (2018) mencionam esses diferentes conceitos ao estudar o efeito de eventos não planejados no desenvolvimento de carreira, mas não exploram ou integram essas diferentes abordagens. Estabelecer conexões entre os estudos existentes é essencial para evitar perspectivas desconexas sobre o mesmo assunto - sendo essa integração teórica um desafio persistente no campo de pesquisas em carreiras (Baruch, 2015).

Indo ao encontro desse gap nos estudos de carreira, este artigo analisa como a literatura acadêmica aborda os eventos inesperados ao longo do tempo. Para tanto, realizou-se uma revisão sistemática da literatura norteada pelas seguintes questões: (1) Quais são os principais temas e discussões na literatura científica sobre os efeitos de eventos inesperados nas carreiras? (2) Como as abordagens teóricas existentes podem ser integradas para compreender a perspectiva de eventos disruptivos nas carreiras, a fim de promover maior coerência à literatura e fomentar insights nos âmbitos teórico e prático? Ao proporcionar essa perspectiva integrada, este estudo permite embasar processos de aconselhamento de carreira e de políticas organizacionais, tornando-o um recurso valioso para a condução de trajetórias profissionais em meio à incerteza e à crescente imprevisibilidade do ambiente de trabalho moderno, marcado por eventos como a pandemia da COVID-19 e rápidas mudanças tecnológicas.

Ao consolidar as perspectivas teóricas existentes, esta revisão aborda lacunas na compreensão de como os indivíduos experienciam e se adaptam a eventos de carreira imprevisíveis. O estudo também contribui para estruturar futuras pesquisas sobre esse tópico, possibilitando uma integração teórica mais robusta entre suas diferentes abordagens. Como contribuições práticas, o estudo permite compreender como eventos disruptivos moldam as carreiras, contribuindo para o desenvolvimento de programas e intervenções que fomentem resiliência e adaptabilidade. Assim, indivíduos e organizações podem estar mais bem preparados para lidar com as complexidades do desenvolvimento de carreira no volátil mercado de trabalho atual.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: UMA ANÁLISE HISTÓRICA SOBRE A INFLUÊNCIA DE EVENTOS INESPERADOS NAS CARREIRAS

As primeiras pesquisas sobre a influência de eventos imprevisíveis nas carreiras usaram o conceito de serendipidade e happenstance.Betsworth e Hansen (1996, p. 93) definiram serendipidade como “eventos que não são planejados ou previstos, mas que possuem uma influência significativa na carreira individual”.Já Miller (1983) definiu happenstance como um evento não planejado com um impacto mensurável no comportamento. Esses conceitos reconhecem que o processo de decisão de carreira pode também ser influenciado pelo acaso, sorte, falta de planejamento ou circunstâncias acidentais (Miller, 1983). Baseado nos conceitos de Miller (1983) e de Betsworth e Hansen (1996), Mitchel et al. (1999) propuseram a Planned Happenstance Theory como um modelo conceitual para aconselhamento de carreira, que enfatiza a habilidade de transformar eventos inesperados em oportunidades de aprendizado. As ideias centrais propostas por esses conceitos reforçam sua convergência para o entendimento de “eventos ou encontros não planejados, acidentais ou de outra forma situacionais, imprevisíveis ou não intencionais que têm impacto no desenvolvimento da carreira e no comportamento” (Rojewski, 1999, p. 269).

Outro conceito que considera a influência de eventos não planejados no comportamento de carreira é denominado de “eventos fortuitos” (Kim, 2022; Kindsiko & Baruch, 2019). Kindsiko and Baruch (2019) entendem que happenstance e serendipidade se referem à influência de eventos que trazem algum tipo de resultado positivo, ou ocorrem de forma feliz ou benéfica. Por outro lado, o conceito mais recente de “eventos fortuitos” considera tanto impactos positivos quanto negativos nas carreiras (Baruch & Lavi-Steiner, 2015). Pryor e Bright (2003) assumem esse entendimento, acrescentando que o comportamento de carreira está mais relacionado a eventos fortuitos do que a uma sequência linear de decisões racionais. Com base nesse pressuposto, esses pesquisadores desenvolveram a “Teoria do Caos das Carreiras” (Chaos Theory of Career), avançando na discussão ao assumir a incerteza e a necessidade de adaptação às mudanças como elementos do desenvolvimento de carreira (Pryor & Bright, 2003).

O termo “choque de carreira” representa o último conceito associado à influência de eventos disruptivos na carreira. É derivado do estudo de Lee e Mitchell (1994) sobre turnover voluntário, no qual um evento específico (um choque no sistema) precede a decisão de deixar a organização. Duas décadas depois, Seibert et al. (2013) revisitaram essas ideias, definindo choques de carreira como “qualquer evento que desencadeie uma reflexão sobre a possibilidade de uma mudança em um comportamento importante relacionado à carreira, como buscar experiências educacionais, mudar de ocupação, ou mudar o status de emprego” (p. 172). Seibert et al. (2013) propuseram um modelo teórico que relaciona os choques de carreira com o contexto organizacional, desenvolvendo uma escala para mensurar e avaliar o impacto desses eventos, que incluem, por exemplo, quando algum mentor ou colega importante deixa a organização, ou quando alguém é bem-sucedido em um novo trabalho (Seibert et al., 2013).

Por fim, com base na literatura de eventos fortuitos, choques e turnover (Seibert et al., 2013; Lee & Mitchell, 1994), Akkermans et al. (2018, p.4) introduzem o conceito de "choque de carreira" como “um evento disruptivo e extraordinário que, ao menos em algum nível, é causado por fatores que fogem do controle individual, e que desencadeiam um processo deliberado de reflexão sobre a própria carreira”. Essa perspectiva enfatiza a importância do âmbito contextual na análise das carreiras, e sua relação com fatores individuais, enfatizando a necessidade de transcender abordagens centradas no indivíduo para contemplar a interação entre agência e estrutura (Akkermans et al., 2021).

3 MÉTODO

Este estudo realizou uma revisão sistemática da literatura para compreender a influência de eventos disruptivos nas carreiras e articular a literatura existente sobre os efeitos de eventos inesperados no desenvolvimento profissional. Para reduzir vieses subjetivos, utilizamos os softwares Rayyan®, Excel®, VOSviewer® e Iramuteq® para apoiar os processos de revisão e análise. A fim de garantir rigor acadêmico, adotamos a abordagem descrita na declaração PRISMA - Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (Rethlefsen & Page, 2022). O PRISMA é um guia importante para revisões sistemáticas da literatura em diversas áreas, incluindo gestão e negócios (Gusenbauer & Gauster, 2025). A revisão abrangeu quatro fases:

Fase 1. Como fontes primárias de dados, foram utilizadas as bases científicas ISI Web of Science (WoS) e Scopus. A busca empregou, em língua inglesa, quatro termos relacionados à influência de eventos inesperados nas carreiras (Akkermans et al., 2018), sem delimitação temporal: “career shock”, “chance event AND career*”, “happenstance AND career” e “serendipity AND career”. O asterisco (*) foi utilizado para incluir variações lexicais de uma mesma raiz. No total, foram realizadas oito buscas independentes nas bases WoS e Scopus, utilizando o campo “tópico” (que abrange título, resumo e palavras-chave). Para garantir a relevância dos resultados, foram considerados apenas artigos científicos e excluídos anais de conferências, editoriais e resenhas de livros. No total, foram encontrados 499 artigos, conforme detalhado na Tabela 1.

Tabela 1
Resumo dos Resultados da Fase 1

Fase 2. Os resultados obtidos na Fase 1 foram importados para o aplicativo Rayyan®, uma ferramenta acadêmica projetada para revisões sistemáticas colaborativas, permitindo a análise duplo-cega durante a triagem e a identificação de artigos duplicados. Após a remoção de 235 duplicatas, 264 artigos passaram pela triagem de resumos. Em seguida, foram definidos os seguintes critérios para exclusão de artigos: a) ausência de foco principal na influência de eventos imprevistos nas carreiras; b) artigos em idiomas distintos de inglês; e c) indisponibilidade para download.

Utilizando o Rayyan®, cada pesquisadora analisou os resumos restantes e avaliou, de forma independente e anônima, sobre a sua manutenção ou exclusão da base. Após, foram identificadas eventuais divergências de julgamento, que foram discutidas em reuniões online entre as autoras até que se alcançasse um consenso. Após esse processo, 176 artigos foram excluídos, pois não abordavam ou problematizavam de forma central a influência de eventos imprevistos nas carreiras. Além disso, um artigo escrito em chinês foi excluído devido à indisponibilidade do idioma, e outros dois foram descartados por indisponibilidade de download. Como resultado, 85 artigos permaneceram para a análise qualitativa detalhada. O fluxo desse processo é ilustrado na Figura 1.

Figura 1
Fluxo do Processo da Revisão Sistemática da Literatura

Fase 3. Nesta fase, foi realizada uma análise bibliométrica que considerou os periódicos e o número de publicações por ano. Inspirados em Macke e Genari (2019), também foram investigados a evolução das publicações e o uso de conceitos ao longo do tempo, com o apoio de planilhas do Excel®. Além disso, analisou-se a rede de autores com o suporte do software VOSviewer®.

Fase 4. Para as análises qualitativas, utilizamos o software Iramuteq® para realizar uma análise de clusters. Esse software é reconhecido por realizar análises estatísticas aprofundadas de dados textuais, ajudando a evitar vieses interpretativos e orientando os pesquisadores em seus procedimentos (Macke & Genari, 2019). Como os resumos são uma maneira efetiva de delinear um campo de estudo devido à sua informação sintetizada e padronizada, inicialmente foi consolidado um corpus com base nos resumos dos 85 artigos selecionados. O Iramuteq® então extraiu e quantificou as estruturas mais importantes, chamadas Unidades de Contexto Elementares (UCEs), para análise semântica contextual (Illia et al., 2014), utilizando lexicografia e análise multivariada (como classificação hierárquica descendente e análise de similaridade). O corpus foi dividido em blocos, e testes de qui-quadrado foram empregados para confirmar a classificação das unidades de contexto (Vallbé et al., 2005). Como resultado, o Iramuteq® produziu os clusters que serviram como um guia de navegação para a análise de conteúdo realizada pelos pesquisadores. Na etapa subsequente, com base nos resultados desses clusters, foi realizada uma leitura detalhada de todos os artigos para atender aos objetivos desta revisão sistemática.

4 RESULTADOS

Para uma visão descritiva dos 85 artigos selecionados, foram considerados: os periódicos em que foram publicados; o ano de publicação; o uso de conceitos teóricos; e a rede de autores ao longo do tempo. A publicação mais antiga, de 1971, foi veiculada no Journal of Vocational Behavior. Desde então, 15 periódicos concentram 65 % de todas as publicações. Destacam-se: Career Development International e Journal of Vocational Behavior como os mais prolíficos, cada um com dez artigos. Em seguida, aparecem: The Career Development Quarterly (7 publicações), Journal of Career Development (4 publicações), Frontiers in Psychology e International Journal for Educational and Vocational Guidance (3 publicações cada), além de outros nove periódicos, que somam 18 artigos. Os 30 artigos restantes estão distribuídos em 30 periódicos diferentes.

Desde 2012, o tema tem sido abordado anualmente em publicações acadêmicas, com um aumento significativo a partir de 2019 (Figura 2). Nos últimos cinco anos, foram publicados 53 artigos, representando 62 % do total de publicações. A análise da evolução temporal da utilização dos conceitos revela três fases distintas (Figura 2). A primeira fase, de incubação, ocorreu entre os anos de 1971 e 1998, com apenas cinco publicações (5,9 %), sendo a maioria delas baseada no conceito de serendipidade (serendipity). Em seguida, a fase de crescimento, de 1999 a 2017, registrou 24 publicações (28,2 %). Nesse período, a perspectiva dos eventos fortuitos (chance events) tornou-se predominante, seguida de perto pelo conceito de happenstance, enquanto a abordagem baseada na serendipidade perdeu relevância. Por fim, a fase de aceleração ocorreu entre 2018 e 2023, com 56 publicações (65,9 %). Nessa última fase, destaca-se a forte influência da pandemia de COVID-19 nas pesquisas recentes. Além disso, o conceito de choques de carreira (career shocks) emergiu e se consolidou como a principal lente teórica, aparecendo em 37 publicações (43 %).

Figura 2
Distribuição conceitual ao longo do tempo

Por fim, com o suporte do VOSviewer, foi analisada a rede de coautoria ao longo do tempo (Figura 3). Dois agrupamentos distintos foram revelados: de um lado, mais recentemente, destacam-se os trabalhos de Jos Akkermans, Stefan Mol, Scott Seibert e Maria Kraimer. Por outro, Sang Min Lee, Boyoung Kim, Eunjeong Rhee e seus colaboradores lideram uma linha de pesquisa distinta, o que reforça a necessidade de um olhar mais integrado sobre o tema.

Figura 3
Rede de coautoria ao longo do tempo

4.1 Análise de Clusters - Abordagens Temáticas

A análise qualitativa dos 85 artigos resultou em quatro classes principais, que representam 75,87 % das UCEs do corpus. Com base no cálculo dos valores de qui-quadrado (ꭓ²), o software Iramuteq® gerou um dendrograma (ou árvore de distância), que ilustra visualmente a significância semântica das classes. Esse dendrograma (Figura 4) auxilia os pesquisadores a compreender as diferenças entre os agrupamentos e a distribuição das tipologias de conteúdo (Illia et al., 2014), revelando três principais ramificações, representadas pelas letras A, B e C.

Figura 4
Dendrograma

A análise do conteúdo dos clusters evidenciou a possibilidade de examinar o tema por meio dessas ramificações, seja a partir de uma perspectiva contextual, individual ou explorando a interação entre ambas. Por exemplo, pesquisadores podem estudar tipos específicos de eventos inesperados, como a pandemia de COVID-19, adotando a abordagem contextual (A), que foca no ambiente e nas circunstâncias externas que influenciam as carreiras. Alternativamente, podem optar por uma abordagem individual (B), concentrando-se na percepção pessoal dos impactos e em como os indivíduos vivenciam esses choques ao longo de suas trajetórias profissionais. Sob outro viés, os choques de carreira podem ser compreendidos por meio de uma abordagem processual (C), analisando como diferentes variáveis podem modificar as experiências individuais ou contribuir para uma melhor gestão de seus desdobramentos.

O cluster 1 (23,4 % das UCEs) representa a abordagem contextual, analisando os efeitos de eventos inesperados a partir de uma perspectiva generalista do fenômeno. Esse cluster é espacialmente distinto dos demais, que adotam uma perspectiva mais particularizada. Os clusters 2 (27,2 % das UCEs) e 3 (24,1 % das UCEs) estão intimamente relacionados, originando-se da mesma ramificação (B), e adotando a abordagem individual. No entanto, suas ênfases diferem: o cluster 2 concentra-se nas percepções subjetivas dos indivíduos sobre os impactos dos eventos imprevistos. Já o cluster 3 explora as competências pessoais associadas à experiência de um evento inesperado e seu impacto no desenvolvimento da carreira. Por fim, o cluster 4 (25,3 % das UCEs) representa a abordagem processual, investigando antecedentes, consequências e possibilidades de intervenção relacionadas a esses fenômenos.

Na Figura 5, é possível observar a distribuição temática das classes. O eixo vertical (fator 1) representa a amplitude da perspectiva adotada. Valores mais altos do fator 1 indicam que as UCEs tendem a apresentar uma perspectiva particular, analisando a influência de eventos disruptivos nas carreiras em interação com variáveis individuais, como competências pessoais, atribuição de significado, satisfação profissional ou otimismo. Valores mais baixos de fator 1 sugerem uma perspectiva ampla, focada nas características dos eventos e em seu impacto sobre grupos mais generalizados.

O eixo horizontal (fator 2) indica se a UCE adota uma abordagem exploratória ou intervencionista em relação ao fenômeno. Valores mais altos de fator 2 indicam uma maior proposição de estratégias práticas para gerenciar ou compreender os choques de carreira e conceitos relacionados, com estudos geralmente adotando uma abordagem quantitativa. Valores mais baixos de fator 2 sugerem um maior direcionamento à adoção de abordagens mais qualitativas, com foco na descrição dos eventos inesperadas e na experiência subjetiva dos indivíduos diante desses eventos.

Alguns artigos incorporam UCEs de diferentes abordagens, frequentemente analisando o fenômeno a partir de uma perspectiva contextual ou individual e, em seguida, explorando a interação entre elas. Isso evidencia a complexidade do estudo do tema, pois o fenômeno envolve, de maneira inerente, a interconexão entre as perspectivas contextual, individual e processual, tornando praticamente inevitável tratá-las como entidades totalmente separadas. No entanto, cada UCEs identificada nesta revisão reflete exclusivamente uma dessas abordagens, formando as categorias distintas apresentadas nesta análise.

Figura 5
Distribuição Espacial

5 DISCUSSÃO

A análise temática da literatura está organizada em três abordagens principais: contextual, individual e processual (Figura 6). Cada categoria explora como a literatura acadêmica tem abordado o estudo sobre eventos inesperados, fundamentando, assim, a agenda para pesquisas futuras proposta neste estudo.

Figura 6
Estrutura da Análise Temática

5.1 Abordagem Temática A: Perspectiva Contextual

A perspectiva contextual envolve a análise das circunstâncias que antecedem e moldam os eventos inesperados, bem como dos fatores que desencadeiam sua ocorrência. Esse agrupamento temático abrange artigos recentes, predominantemente publicados a partir de 2015, que exploram a diversidade de contextos nos quais os choques de carreira podem ocorrer.

5.1.1 Contextos Estruturais.

Este subtópico abrange eventos relacionados aos aspectos estruturais e macrocontextuais do mercado de trabalho caracterizados pela baixa previsibilidade e, consequentemente, impõem desafios significativos no nível individual (Chen, 2005). Essa perspectiva investiga como fatores econômicos, sociais e culturais se interligam para moldar o desenvolvimento das carreiras, analisando barreiras, ameaças e oportunidades. Pode ser vista como uma “lente de análise”, que contribui para uma compreensão mais aprofundada da forma como as carreiras se desenvolvem em diferentes contextos. Do ponto de vista prático, essa abordagem permite compreender o desenvolvimento de carreiras em economias emergentes, marcadas por instabilidades econômicas, políticas e culturais (Gunz et al., 2011). Esse enfoque representa um avanço na aplicabilidade das pesquisas sobre carreira, uma vez que a teoria predominante na área parte de pressupostos que consideram a agência individual como um fator central. No entanto, essa suposição não se aplica a todos os contextos, especialmente em condições de escassez, nas quais as oportunidades de mobilidade são significativamente limitadas (Forrier et al., 2019; Mani et al., 2020).

Por exemplo, Prematillake e Lim (2018) analisaram a influência de eventos fortuitos na trajetória profissional de estudantes internacionais em Cingapura, um contexto fortemente impactado por políticas governamentais. Essas políticas, relacionadas ao emprego de estrangeiros e aos processos burocráticos para obtenção de vistos de trabalho, podem tanto facilitar quanto dificultar as oportunidades de emprego em tempo integral. De forma semelhante, Nair e Chatterjee (2021), em um estudo sobre as carreiras de MBAs indianos, identificaram as “barreiras ocupacionais” como fatores que dificultam a entrada em determinadas profissões. Na Índia, carreiras como Medicina, Engenharia e Administração Pública são consideradas altamente prestigiosas, o que resulta em barreiras significativas de entrada, como exigências rigorosas de qualificação e processos seletivos altamente competitivos. Já Kindsiko e Baruch (2019) reforçaram que fatores governamentais e de nível nacional exercem influência sistemática tanto sobre as organizações (por meio de políticas internas ou disponibilidade de empregos) quanto sobre os indivíduos (por exemplo, a dificuldade de acesso às universidades). Esses elementos representam os impactos de eventos inesperados que afetam oportunidades e trajetórias profissionais.

A perspectiva estrutural também permite analisar o impacto dos contextos de gênero nos choques de carreira, mostrando que mulheres e homens percebem eventos imprevistos de maneira diferente (Kim, 2022; Nair & Chatterjee, 2021). A pesquisa de Knowles e Mainiero (2021) focou nos choques de carreira vivenciados por mulheres em posições de liderança que optaram por deixar o mercado de trabalho, revelando duas tipologias: opting-out shocks e career re-entry shocks. Os opting-out shocks, frequentemente associados à maternidade, são considerados choques negativos devido aos desafios de equilibrar esses eventos com a vida profissional. Esse olhar reflete a divisão de gênero do mercado de trabalho, visto que frequentemente as mulheres precisam interromper suas carreiras para assumir responsabilidades familiares. Já os career re-entry shocks expõem desigualdades estruturais de gênero, incluindo discriminação, disparidade salarial, assédio e julgamento social por terem optado por deixar temporariamente o mercado de trabalho (Knowles & Mainiero, 2021). Em termos práticos, essa perspectiva identifica desigualdades de gênero que se manifestam socialmente e são reproduzidas dentro das organizações, fornecendo uma base para o desenvolvimento de políticas e práticas organizacionais voltadas à promoção da equidade de gênero nesses contextos. Além disso, a conscientização sobre vieses inconscientes relacionados às desigualdades de gênero pode ser uma estratégia valiosa para reduzir possíveis disparidades causadas por eventos inesperados na carreira, contribuindo para a promoção eficaz da diversidade e inclusão.

Por fim, eventos de grande magnitude, como desastres naturais (Wordsworth & Nilakant, 2021) e a pandemia de Covid-19, também são considerados choques de carreira devido à sua natureza altamente disruptiva e excepcional (Akkermans et al., 2020; Hite & McDonald, 2020). Seus impactos incluem demissões, suspensões de contratos de trabalho (Akkermans et al., 2020), a necessidade de interrupções na carreira e a transformação ou eliminação de setores e operações organizacionais (Hite & McDonald, 2020). A perspectiva contextual proposta pelo conceito de choques de carreira oferece uma visão integrada das organizações e da sociedade, permitindo uma tomada de decisão mais assertiva para lidar com os impactos desses eventos, tanto no nível organizacional quanto no desenvolvimento de políticas públicas.

5.1.2 Contexto Organizacional

Abrange eventos inesperados dentro da esfera organizacional, abordando aspectos como políticas e práticas organizacionais (Nery-Kjerfve & Wang, 2019; Van Helden et al., 2023), mudanças organizacionais (Pak et al., 2021) e relacionamentos interpessoais no ambiente de trabalho (Pak et al., 2021; Prematillake & Lim, 2018; Van Helden et al., 2023). Essa abordagem é valiosa para as organizações, pois destaca a importância de lidar com os efeitos dos choques de carreira, permitindo uma gestão mais eficaz das transições, a redução da insatisfação dos funcionários e o fortalecimento de uma força de trabalho mais resiliente e adaptável.

No que diz respeito às políticas e práticas, os estudos analisaram os choques de carreira relacionados a promoções, incluindo percepções de injustiça ou violações de promessas implícitas (Kraimer et al., 2019; Van Helden et al., 2023). Nery-Kjerfve e Wang (2019) investigaram o choque de carreira provocado pela transição de funcionários expatriados, que resultou em desafios como adaptação a uma nova cultura, falta de apoio institucional e expectativas frustradas de promoção no retorno ao país de origem (Nery-Kjerfve & Wang, 2019).

As mudanças organizacionais abrangem eventos relacionados a novos cargos ou projetos, falências e demissões (Pak et al., 2021), levando os indivíduos a questionar se devem permanecer na organização ou buscar novas oportunidades (Nair & Chatterjee, 2021). Van Helden et al. (2023) classificam essas mudanças como “choques de carreira puros”, devido à sua baixa controlabilidade. Como exemplo, citam as transições de liderança, que estão além do controle individual e podem representar tanto oportunidades, como o acesso a novos recursos ou promoções inesperadas para o novo líder, quanto desencadear choques negativos, como dificuldades de adaptação à cultura organizacional (Van Helden et al., 2023).

Além disso, eventos vinculados a relacionamentos interpessoais dentro das organizações também são abordados como choques de carreira (Nair & Chatterjee, 2021; Pak et al., 2021; Rummel et al., 2021; Van Helden et al., 2023) ou eventos fortuitos (Betsworth & Hansen, 1996; Blanco & Golik, 2015; Kim et al., 2019; Kindsiko & Baruch, 2019). Os achados de Betsworth e Hansen (1996) e Bright et al. (2005) reforçaram a influência das conexões profissionais na criação de oportunidades inesperadas de carreira, expondo os indivíduos a novas atividades de interesse e incentivando a exploração de novas possibilidades, metas ou trajetórias profissionais (Blanco & Golik, 2015; Kim et al., 2019; Prematillake & Lim, 2018; Pak et al., 2021). Por outro lado, conflitos com supervisores, colegas de trabalho (Kraimer et al., 2019; Nair & Chatterjee, 2021; Pak et al., 2021; Van Helden et al., 2023) ou clientes (Pak et al., 2021) também são destacados como choques significativos.

5.1.3 Contexto Pessoal

Essa categoria está relacionada à influência das circunstâncias da vida pessoal nas decisões de carreira. Pode ser um recurso valioso para orientação profissional, já que considera a complexidade dos fatores pessoais que podem impactar a trajetória profissional. Esses fatores geralmente envolvem casamento e questões familiares (Betsworth & Hansen, 1996; Bright et al., 2005; Blanco & Golik, 2015; Knowles & Mainiero, 2021; Nair & Chatterjee, 2021; Prematillake & Lim, 2018), experiências de vida privada (Pak et al., 2021; Rummel et al., 2021), saúde (Chen & Slater, 2023; Pak et al., 2021), doenças e perda de entes queridos (Pak et al., 2021; Rummel et al., 2021).

Eventos familiares não planejados geralmente possuem algum grau de previsibilidade, embora seus desdobramentos estejam além do controle total dos indivíduos (Blanco & Golik, 2015; Chen, 2005). Por exemplo, mesmo quando planejada, a maternidade apresenta desafios (especialmente para as mulheres) que podem ser apenas parcialmente antecipados, impactando decisões sobre a trajetória profissional (Pak et al., 2021; Van Helden et al., 2023). O mesmo ocorre com o casamento, um evento deliberado que pode direcionar os indivíduos para novos rumos na carreira (Blanco & Golik, 2015; Pak et al., 2021). Nair e Chatterjee (2021) sugerem que o casamento pode resultar em choques de carreira relacionados à decisão de permanecer ou de mudar de local de residência (especialmente para cidades diferentes) para iniciar uma nova vida como casal. Outro tema relevante envolve o cuidado de familiares idosos, considerando mudanças de cidade ou interrupções na carreira para atender a essas demandas (Nair & Chatterjee, 2021; Pak et al., 2021).

Rummel et al. (2021) identificaram que viagens, leitura de livros inspiradores e a participação em palestras ou cursos podem ser choques de carreira que conduzem a novas perspectivas profissionais. Além disso, Pak et al. (2021) consideraram que novos relacionamentos amorosos podem ser choques de carreira positivos, com potencial para impulsionar a motivação profissional por meio do apoio do parceiro. Além disso, encontros com amigos, conhecidos e professores frequentemente levam a oportunidades de emprego inesperadas, que na literatura são classificadas como eventos fortuitos (Blanco & Golik, 2015; Kindsiko & Baruch, 2019; Prematillake & Lim, 2018). Por outro lado, tragédias familiares ou a perda de entes queridos também surgem como catalisadores importantes de mudanças pessoais e profissionais (Rummel et al., 2021). Adicionalmente, doenças como câncer, apneia do sono e transtornos de saúde mental são reconhecidas como choques de carreira, uma vez que podem impactar negativamente o desempenho e a continuidade no trabalho (Chen & Slater, 2023; Pak et al., 2021).

5.2 Abordagem Temática B: Perspectiva Individual

A segunda abordagem temática adota uma perspectiva individual sobre o fenômeno, concentrando-se nas percepções pessoais e experiências dos efeitos de eventos disruptivos nas carreiras.

5.2.1 Experiências Individuais de Eventos Inesperados

Os primeiros estudos que adotaram essa perspectiva utilizaram o conceito de serendipidade, analisando como eventos não planejados impactam as experiências individuais e o desenvolvimento da carreira. Essas pesquisas investigaram a ocorrência de eventos inesperados por meio da categorização das percepções dos participantes (Betsworth & Hansen, 1996) ou desafiando as teorias tradicionais de planejamento de carreira, que pressupõem que os indivíduos possuem controle total e previsibilidade sobre suas trajetórias profissionais, a partir da análise das carreiras de mulheres na área de psicologia vocacional (Krumboltz, 1998).

Alguns estudos dentro dessa perspectiva individual abordaram temas como sucesso na carreira acadêmica (Kraimer et al., 2019), sustentabilidade na carreira (Pak et al., 2021), busca pelo primeiro emprego (Prematillake & Lim, 2018), tomada de decisão profissional (Wordsworth & Nilakant, 2021) e o papel do apoio familiar (Mehreen & Ali, 2022). Até mesmo o estudo seminal sobre choques de carreira de Seibert et al. (2013) analisou como esses choques podem influenciar a decisão individual de ingressar na pós-graduação, demonstrando claramente a adoção dessa perspectiva.

Outros estudos consideraram como os indivíduos vivenciaram a crise da COVID-19. Hite e McDonald (2020) analisaram como fatores pessoais e práticas de Desenvolvimento de Recursos Humanos (Human Resources Development) poderiam ajudar os indivíduos a se recuperar dos impactos da pandemia. Mouratidou e Grabarski (2022) iniciaram seu estudo explorando as percepções individuais sobre o lockdown e suas implicações para a sustentabilidade da carreira. Muschalla et al. (2022) investigaram as situações acadêmicas e familiares de jovens cientistas na Alemanha após a pandemia, enquanto Cao e Hamori (2022) identificaram e analisaram diferentes orientações de carreira de funcionários chineses em meio às restrições impostas pela COVID-19. Embora esses estudos abordem a crise da COVID-19 como um choque de carreira específico, todos UCEs relacionados se concentram em como indivíduos ou grupos específicos a vivenciaram, adotando uma perspectiva individual sobre esse evento significativo. Os resultados dessas pesquisas podem ser adaptados para contextos que exigem estratégias individuais para lidar com cenários adversos, como recessões econômicas ou restrições sanitárias.

5.2.2 Projeções Profissionais

Nos últimos anos, tem crescido o interesse pelo impacto de eventos inesperados nas projeções profissionais sob a perspectiva individual. Esse tema é particularmente relevante para a orientação de carreira, assim como para políticas organizacionais e educacionais, pois pode influenciar significativamente a forma como os indivíduos percebem seu futuro profissional. Por exemplo, Legrand et al. (2022) estudaram como gestores organizacionais tiveram suas carreiras impactadas por choques de carreira, enquanto Barbulescu et al. (2022) analisaram como as carreiras podem ser afetadas por eventos fortuitos no ambiente de trabalho, a partir das perspectivas de profissionais atuantes em empresas de serviços com sistemas de promoção up-or-out (aceite ou demissão). Já Kurukulaadithya et al. (2023) investigaram como pilotos de avião lidaram com o choque de perder sua licença de trabalho devido às rigorosas regulamentações de certificação médica.

Como eventos não planejados podem afetar os indivíduos de maneira diferente conforme seus grupos sociais (Akkermans et al., 2021), a investigação sobre o impacto do gênero na gestão de choques de carreira foi central em estudos como os de Cho et al. (2022) e Kim et al. (2019), que analisaram, respectivamente, como trabalhadoras e mulheres com doutorado na Coreia experienciaram esses choques. Knowles e Mainiero (2021) examinaram as trajetórias de mulheres líderes que optaram por deixar carreiras corporativas, enquanto Gloor et al. (2023) focaram nas aspirações de liderança feminina e nas experiências das mulheres com eventos críticos. Mais uma vez, a conscientização sobre vieses inconscientes relacionados ao gênero pode contribuir para mitigar os impactos percebidos por profissionais mulheres. O impacto dos choques de carreira nas perspectivas profissionais individuais (Kim, 2022) também foi analisado sob a influência de fatores culturais, especialmente em estudos sobre CEOs latino-americanos (Blanco & Golik, 2015), funcionários e voluntários da Cruz Vermelha da Sérvia (Petrović et al., 2021) e estudantes de aviação e turismo em Hong Kong (Choy & Yeung, 2022; Yiu et al., 2022).

5.2.3 Aprimoramento das Teorias Existentes

Alguns estudos utilizaram a abordagem individual para introduzir novos conceitos e teorias. Rojewski (1999) aplicou a teoria social cognitiva de Bandura para examinar a influência do happenstance nas trajetórias individuais, enquanto Mitchell et al. (1999) e Kim et al. (2013; 2016) desenvolveram conceitos e medidas que deram origem à Teoria do Happenstance Planejado (Planned Happenstance Theory). Essa teoria destaca como os indivíduos podem se adaptar ou desenvolver competências específicas para tirar proveito de eventos inesperados, facilitando transições de carreira (Rice, 2014), bem-estar psicológico e ajuste acadêmico (Valickas et al., 2019) ou o processo de retorno ao trabalho (Chen & Slater, 2023). Outro conceito introduzido em relação a eventos não planejados foi a Teoria do Caos na Carreira (Chaos Theory of Career), proposta por Bright e Pryor (2005). Além disso, Grimland et al. (2012) e Guindon e Hanna (2002) buscaram ampliar o campo ao propor novos conceitos baseados nas percepções individuais sobre choques de carreira, como súbita ocorrência (suddenness) e sincronicidade (synchonicity). Embora essas teorias ajudem os indivíduos a desenvolver habilidades para lidar melhor com eventos inesperados, é essencial evitar que o estudo desse fenômeno se torne uma coleção fragmentada de termos, especialmente considerando que essa fragmentação é uma tendência recorrente na área de carreiras (Baruch, Szucs & Gunz, 2015).

5.2.4 Estágios de Carreira

As pesquisas também têm explorado como diferentes estágios do desenvolvimento profissional podem influenciar a experiência dos indivíduos com choques de carreira. Hirschi e Valero (2017) analisaram diferentes perfis de adolescentes no primeiro ano de formação profissional, enquanto Ulas-Kilic et al. (2020) investigaram as percepções de estudantes universitários sobre eventos não planejados na Turquia. Hirschi (2010) aprofundou-se na fase de transição da escola para o trabalho.Já Rummel et al. (2021) estudaram as experiências de empreendedores recém-formados. Outros estudos focaram em profissionais de meia carreira (mid-career), como Peake e McDowall (2012) e Nalis et al. (2021), enquanto algumas pesquisas analisaram as trajetórias de doutores e pós-graduados (Bazos et al., 2021; Kindsiko & Baruch, 2019; Nair & Chatterjee, 2021). Esses achados sugerem que a forma como eventos imprevisíveis são vivenciados pode variar ao longo dos diferentes estágios da carreira, tornando-se um tema relevante para a análise de trajetórias profissionais e para a proposição de intervenções de carreira adaptadas a diferentes faixas etárias.

5.3 Abordagem temática C: Perspectiva Processual

Conforme observado por Blanco e Golik (2015, p. 1882), “as carreiras são moldadas tanto pela agência humana quanto pelo acaso, e há uma interação constante entre eles”. A terceira abordagem temática concentra-se exatamente nessa interação, sendo que a maioria de suas UCEs utiliza métodos quantitativos para investigar os antecedentes, mediadores e impactos dos eventos inesperados nas carreiras dos indivíduos.

5.3.1 Interação e Impactos de Eventos Inesperados no Desenvolvimento de Carreira

A maioria dos estudos dessa abordagem examinou as implicações dos eventos inesperados através de variáveis como sucesso na carreira acadêmica (Kraimer et al., 2019), empregabilidade (Blokker et al., 2019), motivação para buscar oportunidades (Feng et al., 2019), comprometimento com a carreira (Ahmad & Imam, 2022), otimismo em relação à carreira (Ahmad & Nasir, 2023; Hofer et al., 2021), intenção de rotatividade (Nauman et al., 2021), apoio familiar (Mehreen & Ali, 2022), estruturas de suporte e adaptabilidade (Kurukulaadithya et al., 2023). Outros trabalhos exploraram como um evento específico (crise da COVID-19) afetou diferentes variáveis de carreira, incluindo apoio do empregador, empregabilidade, satisfação na carreira, bem-estar mental e empoderamento profissional (Mouratidou & Grabarski, 2022), orientações de carreira (Cao & Hamori, 2022) e intenções de carreira (Choy & Yeung, 2022). Além disso, estudos qualitativos utilizando a abordagem processual buscaram compreender como eventos não planejados podem impactar a sustentabilidade da carreira (Pak et al., 2021) ou transições profissionais (Wordsworth & Nilakant, 2021) com base nas narrativas dos participantes. De modo geral, os estudos demonstraram que indivíduos com maior acesso a recursos lidam melhor com os impactos de eventos não planejados, enquanto aqueles que enfrentam contextos de escassez encontram mais dificuldades diante de situações imprevistas. Em termos de implicações práticas, esses achados podem contribuir para o desenvolvimento de programas de mentoria e iniciativas de treinamento para adaptabilidade de carreira, preparando melhor os indivíduos para lidar com eventos inesperados tanto no contexto organizacional quanto educacional.

5.3.2 Intervenções e Estratégias

Alguns estudos propuseram estratégias para uma melhor gestão dos efeitos dos choques na carreira, como a participação em conversas de coaching e estímulo à reflexão sobre opções profissionais consideradas alternativas viáveis (Mehreen & Ali, 2022; Korotov, 2021). Ademais, o incentivo à positividade pode permitir que os indivíduos percebam eventos imprevistos de forma mais favorável, minimizando a possibilidade de restrições a sua adaptabilidade (Mansur & Felix, 2021). A proposta de intervenções e estratégias de carreira pode ajudar os indivíduos a lidar melhor com eventos inesperados e a se preparar para futuros impactos ou desafios profissionais. Por exemplo, o desenvolvimento de nudges (pequenas intervenções estratégicas que ajudam os indivíduos a tomar melhores decisões profissionais) e estímulos externos por um orientador de carreira ou por meio de escalas pode aprimorar a tomada de decisão profissional (Bandeira & Scheffer, 2023), tornando-se um recurso valioso para enfrentar eventos não planejados.

5.3.4 Habilidades de Happenstance

Outro tema dentro da abordagem processual é a análise da interação entre eventos fortuitos e habilidades de happenstance (Kim et al., 2016). Essas habilidades têm sido associadas positivamente à adaptação à vida (Kim et al., 2018) e predizem significativamente bom desempenho acadêmico e bem-estar psicológico (Valickas et al., 2019). Dessa forma, representam uma estratégia eficaz que os indivíduos podem utilizar para lidar com eventos inesperados. Além disso, constituem um recurso valioso para iniciativas educacionais e organizacionais, contribuindo para a promoção de uma melhor qualidade de vida.

5.3.5 Influências na Liderança

A análise das influências de eventos não planejados nas trajetórias de líderes também é um exemplo da perspectiva processual. Estudos sobre esse tema avaliaram variáveis como atitudes em relação à carreira e sucesso profissional (Grimland et al., 2012), parâmetros da Teoria da Carreira Caleidoscópica (Knowles & Mainiero, 2021), saliência da identidade e status de liderança (Gloor et al., 2023) e valência dos impactos dos choques de carreira (Legrand et al., 2022). O ato fornecer aos líderes ferramentas baseadas nessas variáveis pode ser altamente eficaz para ajudá-los a lidar com eventos não planejados. Isso pode ser viabilizado por meio de programas de treinamento que promovam o desenvolvimento da inteligência emocional, gestão de carreira e planejamento contingencial.

5.4 Direcionamentos para Pesquisas Futuras

Os resultados da revisão sistemática sobre eventos inesperados permitem a proposição de diversos direcionamentos para pesquisas futuras em desenvolvimento de carreiras. Em primeiro lugar, é possível explorar a influência de fatores macro-contextuais, como crises econômicas, mudanças sociopolíticas e mudanças tecnológicas na formação de choques de carreiras. Esses fatores estão se tornando cada vez mais relevantes, como é possível observar a partir do impacto da pandemia de COVID-19 e os avanços da inteligência artificial. Estudos comparativos entre diferentes países e setores econômicos podem fornecer diferentes perspectivas sobre como os choques de carreira se manifestam e afetam trabalhadores, especialmente no contexto de economias emergentes, que tendem a ser mais vulneráveis a eventos disruptivos. Além disso, a crescente digitalização do trabalho e o uso de tecnologias, como a inteligência artificial, têm se tornado uma área de estudos proeminente e relevante. Nesse sentido, examinar como políticas públicas e organizacionais podem mitigar ou intensificar os efeitos desses choques macro-contextuais podem trazer contribuições importantes para esse campo de pesquisa.

Considerando experiências individuais, pesquisas futuras podem se beneficiar da exploração dos impactos dos choques de carreira em diversos grupos demográficos, com especial atenção à idade, gênero, e contexto cultural. O papel de redes de relacionamento e mentorias durante eventos disruptivos também podem ser uma alternativa de investigação, uma vez que esses sistemas de suporte podem amortecer os efeitos negativos de eventos inesperados. Ademais, a influência de aspectos cognitivos e emocionais (por exemplo, ansiedade, medo, crenças e vieses inconscientes) nas decisões e ações individuais durante eventos inesperados podem ser explorados em profundidade, tendo em vista que a revisão sistemática não identificou análises significativas a respeito. Isso ressalta uma lacuna na literatura em carreiras, e a necessidade de maior integração cm áreas que examinam fatores psicológicos nos processos de escolha profissional, como a psicologia econômica (Bandeira & Scheffer, 2023).

Outra possibilidade de investigação recai na intersecção entre choques de carreira e estratégias de enfrentamento, principalmente enfatizando como indivíduos e organizações podem aumentar a resiliência em mercados de trabalho cada vez mais voláteis. A análise do papel de aconselhamento de carreira e programas de desenvolvimento voltados às habilidades que permitam enfrentar eventos inesperados pode promover reflexões importantes nessa direção. Ainda, estudos longitudinais podem promover perspectivas valiosas sobre como choques influenciam carreiras no longo-prazo e o crescimento profissional.

Por fim, identificou-se a necessidade da integração de abordagens teóricas sobre eventos inesperados nas carreiras. A fragmentação de conceitos como serendipidade, happenstance, eventos fortuitos e choques de carreira indicam a necessidade de um entendimento mais coeso sobre esses fenômenos. Estudos futuros devem focar em sintetizar esses conceitos para desenvolver um modelo unificado que capture os diferentes modos pelos quais os indivíduos experienciam e respondem às disrupções na carreira e eventos não planejados. Essa integração pode levar a uma maior compreensão sobre essa abordagem no desenvolvimento de carreira, e abrir novas possibilidades para intervenções práticas por adotar uma perspectiva mais realista e menos dependente de altos níveis de planejamento e controle individual.

O Quadro 1 sintetiza questões que podem ser exploradas por estudos futuros como uma oportunidade para aprimorar a discussão de eventos inesperados no campo de pesquisas em carreiras.

Quadro 1
Agenda de Pesquisa

5.5. Direcionamentos de Pesquisas Futuras para Economias Emergentes

Economias emergentes frequentemente enfrentam desafios únicos que tornam seus mercados de trabalho mais suscetíveis a eventos inesperados. Isso consequentemente afeta as carreiras e os recursos necessários para os indivíduos lidarem de forma efetiva com esse cenário. No entanto, pesquisas sobre eventos não planejados no desenvolvimento de carreira têm considerado predominantemente países desenvolvidos, onde os contextos socioeconômicos, estruturas institucionais e necessidades da força de trabalho diferem significativamente daqueles em economias emergentes. Conceitualmente, os resultados dessa revisão permitem avançar no entendimento sobre como choques ou outros eventos imprevistos se manifestam diante de desigualdades estruturais que caracterizam países asiáticos e latino-americanos (Visentini et al., 2023). No Brasil, por exemplo, estudos sobre os impactos de eventos disruptivos nas carreiras permanecem incipientes, cuja discussão está centrada principalmente em congressos acadêmicos da Administração. A busca em bases nacionais (Scielo, PePsic) identificou apenas um estudo que aborda especificamente a influência de choques de carreiras nas trajetórias profissionais de mulheres (Visentini et al., 2023). Na literatura internacional, Mansur e Félix (2021) conduziram uma pesquisa com profissionais brasileiros sobre o papel mediador da adaptabilidade de carreira nos efeitos dos choques de carreira sobre a prosperidade (thriving). Nesse sentido, a proposta de analisar a natureza dos choques em sua interação com indivíduos, organizações e sociedade proporciona uma ferramenta analítica apropriada para informar a complexidade dessas relações, o que pode fortalecer e estimular novos estudos contextualizados em economias emergentes.

É urgente delinear direções para pesquisas futuras para aprofundar a compreensão e desenvolver estratégias adaptadas a esses contextos específicos. Por exemplo, instabilidade política e crises econômicas podem amplificar o impacto de choques de carreira em economias emergentes. Ao mesmo tempo, as desigualdades sociais sistêmicas nesses países podem prejudicar a capacidade individual de lidar com os efeitos de eventos não planejados nas carreiras. Isso reforça a necessidade de avaliar a efetividade de políticas governamentais em mitigar esses impactos. Além disso, condições informais ou precárias de trabalho - realidade comum aos trabalhadores de economias emergentes - tornam mais complexa a análise dos efeitos de eventos disruptivos nesses contextos. De acordo com Mani et al. (2020), profissionais que enfrentam contextos de escassez podem ter dificuldade em considerar adequadamente as consequências de suas escolhas, o que leva a um ciclo vicioso que perpetua condições restritivas. Ao focar nesses cenários de vulnerabilidade, pesquisadores podem contribuir para um entendimento mais inclusivo e globalmente aplicado sobre eventos inesperados, além de fornecer insights para formuladores de políticas públicas, organizações e indivíduos na promoção de carreiras sustentáveis em meio à imprevisibilidade.

O Quadro 2 sumariza essas questões, e apresenta uma agenda de pesquisa aplicada ao contexto das economias emergentes.

Quadro 2
Agenda de Pesquisa para Economias Emergentes

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As pesquisas sobre os efeitos de eventos inesperados tornaram-se fundamentais para a compreensão do desenvolvimento de carreiras na contemporaneidade, especialmente diante da crescente complexidade e imprevisibilidade do contexto de trabalho. A pandemia do COVID-19 intensificou a investigação sobre as influências contextuais nas carreiras por meio de eventos inesperados (Nalis et al., 2021; Akkermans et al., 2020), especialmente sob a perspectiva dos choques de carreira. Além disso, o crescimento da gig economy e novos modos de organização laboral, a ascensão da inteligência artificial, os avanços tecnológicos (Hite & McDonald, 2020) e a intensificação da competição global por talentos tornam a pesquisa sobre esse tema ainda mais relevante e necessária (Akkermans et al., 2021).

Este artigo analisou como a literatura acadêmica tem abordado, ao longo do tempo, a discussão sobre os efeitos de eventos inesperados nas carreiras, oferecendo uma categorização das lentes teóricas e perspectivas adotadas, além de uma agenda para pesquisas futuras. Embora o método tenha conferido maior objetividade à revisão sistemática, ele também impõe limitações analíticas, por estar baseado em Unidades de Contexto Elementares (UCEs). De qualquer modo, esta revisão possibilitou sintetizar as teorias existentes e os achados empíricos sobre os efeitos de eventos inesperados nas carreiras, reforçando a exploração, integração e clareza desse tema fundamental para a pesquisa em carreiras.

Em suma, o estudo enriqueceu a literatura sobre carreiras ao integrar conceitos-chave relacionados aos choques de carreira, eventos fortuitos, serendipidade e happenstance. Sua principal contribuição reside na apresentação de três perspectivas fundamentais (contextual, individual e processual) que podem apoiar estudos futuros, unificar a pesquisa sobre carreiras e aprimorar a compreensão desse fenômeno.

Agradecimentos

Reconhecemos o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), Bolsas 154409/2025-1 e 140581/2021-9.

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  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
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Editado por

  • EDITOR CHEFE
    Márcia D’Angelo
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    Bruno Félix

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Out 2024
  • Revisado
    27 Dez 2024
  • Aceito
    29 Jan 2025
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