Resumo
Este artigo tem por objetivo apresentar e discutir os dados sobre o estudo das representações de zoomorfos nos sítios com registros rupestres do estado de São Paulo. Conhecido por pesquisas arqueológicas voltadas a sambaquis e a materiais líticos, o estado de São Paulo apresenta poucos trabalhos em temáticas sobre pinturas e gravuras rupestres. Nos últimos anos, porém, vem crescendo o número de descobertas e de estudos baseados em sítios nessa temática. Com o objetivo de identificar similaridades e diferenças gráficas entre as figuras com características zoomórficas, a presente pesquisa partiu da análise da técnica, temática e cenografia dos painéis rupestres dos 55 sítios identificados no estado. Os resultados destacam um pequeno quantitativo dessas representações, em cenários pintados e gravados, com apenas 22 figuras, destacadas em nove sítios. Estão morfologicamente identificadas como cervídeos, aves, répteis e crustáceos, caracterizando-se por realizações gráficas isoladas em painéis, dominantemente marcados por representações não figurativas. Os animais representados destacam-se pelo pouco dinamismo e pelo escasso detalhamento anatômico. As figuras possuem um caráter hermético marcado.
Palavras-chave
Registros rupestres; Zoomorfos; Estado de São Paulo
Abstract
The objective of this article was to present and discuss data on the study of zoomorphic representations in sites with rock art records in the State of São Paulo. Known for its archaeological research on shell mounds and lithic materials, the state of São Paulo has few works on rock paintings and engravings. In recent years, however, there has been an increase in the number of discoveries and research based on sites with rock art records. To identify similarities and graphic differences between zoomorphic, the present research started from the analysis of the technique, theme, and scenography of the rock panels of all 55 sites identified in the state. The results highlight a small number of these representations, in painted and engraved scenarios, with only 22 figures, highlighted in 9 places. They are morphologically identified as deer, birds, reptiles, and crustaceans, characterized by isolated graphic realizations in panels, marked by non-figurative representations. The animals depicted stand out for their lack of dynamism and scarce anatomical detail. The figures have a marked hermetic character.
Keywords
Rock art; Zoomorphic; State of São Paulo
PREÂMBULO À DISCUSSÃO
As representações de animais são temáticas recorrentes no acervo rupestre pré-histórico, seja em forma de pintura ou gravuras rupestres. É possível também verificar essas representações em outros artefatos arqueológicos, como cerâmicas, ossos de animais entalhados e zoólitos.
Nos sítios arqueológicos com grafismos rupestres, há um vasto acervo de figuras de animais, as quais aparecem de forma isolada, em bandos ou em interação com antropomorfos. No Brasil, as pesquisas relacionadas às figuras zoomórficas vêm sendo realizadas desde a década de 1970, durante as classificações preliminares do acervo rupestre. Essas categorizações formaram classes, conhecidas como Tradições, baseadas na morfologia e na cenografia dos grafismos rupestres para todas as regiões do Brasil.
As representações rupestres com características que remetem a figuras zoomórficas estão presentes em várias classes (Tradições), com um universo diversificado de tipos e atributos morfológicos. No Quadro 1, são apresentadas algumas dessas classificações, destacando-se a presença de figuras zoomórficas.
Características das Tradições rupestres do Brasil, com destaque para a presença de figuras zoomorfas.
É fundamental destacar que essa classe abstrata, denominada Tradição, foi utilizada como primeiro elemento para distinguir um imenso conjunto de sítios com grafismos rupestres distribuídos no Brasil e tendeu a sofrer variações, a depender do pesquisador e da postura teórica que envolvia a pesquisa. O ordenamento preliminar se caracterizou como uma categoria de entrada e teve inicialmente um caráter hipotético (Pessis & Guidon, 1992; Pessis, 1992). Fundamentou-se, sobretudo, na constatação de que havia diversos tipos de representações rupestres que apareciam com diferentes formas, em espaços geográficos distintos (Cisneiros, 2008; Amaral, 2014).
Desse modo, essas classes podem orientar um início de estudo, mas jamais podem ser consideradas como representação do cenário real. Ou seja, caracterizam-se apenas como distribuição de unidades iniciais da configuração do método adotado de forma preliminar. Aqui, foram apresentadas como unidades que visam compor a caracterização dos tipos de animais representados de forma dominante no cenário rupestre brasileiro.
O estado de São Paulo figura, atualmente, como uma nova área inserida no mapa rupestre do Brasil. Por meio de um denso levantamento bibliográfico, entre pesquisas acadêmicas e de arqueologia preventiva, efetuadas desde a década de 1970 (Aytai, 1970; Alberto, 2014; S. Araújo, 2006; A. Araujo, 2001; Araripe, 1887; Caldarelli, 1980; Collet, 1982a, 1982b, 1986, 1994; Dutra, 1972; Kunzli, 1991; Pereira Junior, 1964; Uchôa & Caldarelli, 1980; Zanettini Arqueologia, 2005, 2007; Zanettini Arqueologia & IPHAN, 2010), a equipe do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas em Evolução, Cultura e Meio Ambiente do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (LEVOC/MAE-USP) partiu para um aprofundamento das pesquisas sobre essa temática, com um quantitativo inicial de 21 sítios com grafismos rupestres.
Diante do potencial arqueológico da região e da diversidade de grafismos que já haviam sido identificados no estado, sabia-se que este era um universo reduzido e que, se prospecções fossem intensificadas, tendo como base as áreas onde já havia sítios cadastrados, esse quantitativo poderia ser ampliado (Amaral et al., 2022; Perazzo et al., 2021). Desse modo, foram efetuadas pesquisas sistemáticas, que tiveram como referências dados geológicos, geomorfológicos e arqueológicos, as quais permitiram a identificação de 55 sítios com grafismos rupestres (Amaral & Araujo, 2023).
No âmbito do estado de São Paulo, mesmo havendo um número reduzido de grafismos figurativos, existe um conjunto de representações zoomórficas com características diversificadas e distribuídas por uma extensa área geográfica. Nessa perspectiva, este artigo tem por objetivo analisar as representações zoomórficas no cenário rupestre paulista, e está centrado fundamentalmente na temática e na distribuição espacial dessas manifestações na paisagem rupestre do estado de São Paulo.
ASPECTOS CONCEITUAIS E DE MÉTODO
O registro rupestre, como vestígio arqueológico, pode ser entendido como uma prática social com elementos que fazem parte de um sistema simbólico que permite o consenso sobre a cosmovisão partilhada (Bourdieu, 1977).
A partir desse argumento, pode-se acrescentar que o arsenal gráfico se caracteriza como marcador de memória que participa do processo de transmissão de conteúdos e de trocas culturais no interior de um mesmo grupo ou entre grupos diferentes. Compõem, assim, as manifestações culturais que, mesmo de forma fragmentada, aparecem conservadas sobre os suportes rochosos até a atualidade (Gili, 2010).
No âmbito das pesquisas sobre os registros rupestres, a busca por recorrências técnicas, cenográficas e morfológicas pode permitir identificar padrões e tipos gráficos característicos de determinadas regiões (Pessis et al., 2018; Perazzo et al., 2021; Amaral et al., 2022). No estado de São Paulo, as pesquisas vêm sendo intensificadas com intuito de analisar o conjunto gráfico, buscando segregar similaridades e diferenças, a fim de verificar recorrências e variabilidades gráficas do ponto de vista regional. O estudo das representações zoomórficas é uma das temáticas em questão que iniciam o longo caminho dos estudos sobre os registros rupestres no estado.
As atividades de prospecção têm sido realizadas nas áreas de abrangência do projeto “Ocupação humana do sudeste da América do Sul ao longo do Holoceno: uma abordagem interdisciplinar, multiescalar e diacrônica”, as quais têm permitido a identificação de novos sítios e o estudo dos sítios já conhecidos e presentes nas referências bibliográficas disponíveis sobre a temática no estado. Com a finalidade de sistematizar os dados, foi elaborado um protocolo a ser aplicado de maneira sistemática a todos os sítios pesquisados, o qual dispõe de descritores contextuais do ambiente onde se localiza o sítio e dos elementos gráficos presentes no cenário rupestre. Assim, foram considerados os seguintes descritores: localização, suporte rochoso e grafismos rupestres (Oliveira et al., 2019):
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Localização do sítio: refere-se à identificação e ao posicionamento geográfico do sítio; para isso, foram considerados: nome, município, coordenadas (UTM) e cota altimétrica;
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Suporte rochoso: refere-se às características do suporte onde foram realizadas as pinturas e gravuras: morfologia da rocha-suporte (matacão, afloramento vertical – abrigo, afloramento horizontal), comprimento, largura, orientação, matéria-prima, área abrigada e dimensão da área pictórica;
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Grafismos rupestres: refere-se às representações identificadas no sítio: tipo de execução do grafismo (pintado ou gravado), figuras (com reconhecimento [figurativos] /sem reconhecimento [abstratos]), tamanho, morfologia, composição do elemento gráfico e sobreposição.
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Para o registro imagético, foram realizados os seguintes procedimentos:
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Levantamento fotográfico, realizado de forma a registrar os sítios no contexto das áreas pesquisadas e os conjuntos gráficos. Dessa forma, registraram-se os painéis gráficos, os detalhes dos grafismos em relação ao conjunto e os grafismos em sua individualidade;
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Em virtude da dificuldade de visualização de algumas figuras, foi utilizado, em campo, o aplicativo IDStretch, para ressaltar a saturação da cor das figuras, o que facilitou a visualização de algumas imagens que já estavam em avançado processo de desgaste;
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Em laboratório, os registros rupestres foram segregados do suporte rochoso utilizando as ferramentas do software Adobe Photoshop, o que permitiu selecionar a imagem, segregando-a da área do suporte, para uma melhor visualização da morfologia;
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Foi efetuado modelo tridimensional de um sítio (Pedra do Dioguinho) para possibilitar a reconstituição gráfica de forma mais precisa da figura zoomórfica que se encontra em estado de conservação precário. Foram efetuadas tomadas de imagens com sobreposição lateral mínima de 70%, as quais foram processadas para geração do modelo tridimensional por meio do programa Agisoft Metashape, permitindo maior precisão na mensuração e correlação dos dados.
As análises foram centradas primeiramente na descrição dos zoomorfos, por meio dos aspectos formais, com base em sua execução quanto à técnica, à temática e à cenografia.
A dimensão técnica objetiva segregar os tipos de grafismos identificados e analisados por categorias relacionadas ao tipo de execução empregado para a sua elaboração, distinguindo-os, primeiramente, entre registros rupestres pintados e gravados, e, posteriormente, em categorias relacionadas aos tipos de técnicas para execução dos traços pintados e gravados, e à profundidade dos sulcos.
A temática refere-se ao reconhecimento das figuras com características zoomórficas; nesse quesito, foi necessária a verificação de duas variáveis: morfologia e projeção. A ausência de detalhes qualificativos identificados nas figuras com características zoomórficas não permite, muitas vezes, a identificação da espécie representada; no entanto, permite chegar, do ponto de vista da taxonomia, à identificação de algumas classes (Storer & Usuiger, 1977). A eleição dos elementos essenciais para o reconhecimento do animal varia, do ponto de vista taxonômico, de acordo com a classe de animais representados.
Para o reconhecimento das figuras zoomórficas, foi necessária a verificação dos aspectos morfológicos. A morfologia está relacionada aos detalhes anatômicos e à orientação desses no espaço dimensionado à representação, tais como o formato do corpo e a presença de cabeça e patas. Além dos elementos essenciais de reconhecimento, foram observados também os elementos secundários, caracterizados pela presença de orelhas, penas, bicos e cauda.
Os parâmetros utilizados para as análises morfológicas estão relacionados aos detalhes anatômicos das figuras estudadas, os quais são percebidos cognitivamente por traços naturalistas (Sanchidrián, 2009). O acentuado processo de desgaste do acervo rupestre analisado impossibilitou que algumas figuras fossem identificadas. Outras foram integradas à análise, mesmo parcialmente visíveis, por se tratarem de recorrências gráficas na mesma área de pesquisa.
Outro elemento a ser considerado, e que integra o reconhecimento da figura representada, é a projeção. A eleição dos elementos essenciais para reconhecimento do animal varia, do ponto de vista taxonômico, de acordo com a classe representada. Nos conjuntos gráficos, foram verificados os tipos de pontos de vista por meio do quais os grafismos estão representados. A escolha da projeção é mais um elemento que permite ao observador compreender a identidade do objeto.
Na dimensão cenográfica foram trabalhadas as seguintes variáveis: composição do espaço gráfico, preenchimento interno, tamanho e cor. No que se refere à composição dos grafismos no espaço gráfico foram identificadas duas categorias: os isolados e os agrupados.
Os grafismos isolados são aqueles que aparecem representados com apenas um elemento, em um determinado espaço gráfico. Os grafismos agrupados caracterizam-se por dois ou mais elementos ocupando o mesmo espaço gráfico, sendo que as figuras não necessariamente estão em interação, formando cenas. Neste conjunto, verificam-se os grafismos associados, que se caracterizam pela relação de proximidade entre as figuras, e os grafismos relacionados, caracterizados pelo vínculo de interação aparente entre si (Amaral, 2014).
O preenchimento está relacionado à maneira como o interior do grafismo foi elaborado, de modo a complementar sua forma. Assim, foram segregados três grupos: figuras com preenchimento completo, com preenchimento parcial e sem preenchimento.
No que concerne ao tamanho, foram estabelecidas medidas que permitiram classificar os grafismos em três categorias: pequeno (0,5 cm a 20 cm), médio (21 cm a 50 cm) e grande (acima de 51 cm), buscando estabelecer um tamanho modal para as figuras zoomórficas.
A cor é uma variável que possui menor peso hierárquico, uma vez que a dominância observada é da cor vermelha. No entanto, há, em menor quantidade, a utilização das cores branca e amarela.
AS REPRESENTAÇÕES ZOOMÓRFICAS NO ESTADO DE SÃO PAULO
No estado de São Paulo, há, atualmente, 55 sítios arqueológicos com grafismos rupestres cadastrados. Desse universo, 21 possuem apenas pinturas, 28 possuem apenas gravuras e seis possuem ambas as técnicas gráficas.
Os registros rupestres apresentam-se diversificados, havendo uma dominância de figuras abstratas quando comparadas às figurativas. Dos sítios acima citados, em apenas nove foram identificadas representações zoomórficas, nos quais foi possível contabilizar um universo de 22 figuras (Quadro 2; Figura 1).
Para o reconhecimento das representações zoomórficas, foi necessária a verificação da morfologia e da projeção das figuras. Do universo de figuras identificadas, 12 estão inseridas na classe Mammalia1, oito na classe Ave2, uma na classe Reptilia3 dos vertebrados e uma no subfilo Crustacea4 de invertebrados (Figura 2). O avançado estado de degradação de algumas figuras dificultou a análise morfológica, como no caso dos sítios Abrigo de Itapeva e Abrigo da Bocaina, sendo possível apenas efetuar a análise por meio de desenho realizado por Aytai (1970) e Collet e Simões (2002).
Na classe dos mamíferos, o reconhecimento morfológico se dá a partir da presença de cabeça, corpo e patas. As caudas, orelhas e galhadas caracterizam-se como elementos secundários de reconhecimento. Nesta classe taxonômica está inserida a família Cervidae, a qual aparece de forma dominante no universo rupestre paulista. No que tange aos elementos secundários que compõem as representações de cervídeos, observam-se: presença/ausência de galhada e orelhas; formato do corpo diferenciado e preenchimentos internos diversos. No que concerne à presença de galhadas, verifica-se que, das oito representações elencadas, quatro possuem galhadas, duas possuem apenas as orelhas e uma não apresenta os elementos secundários de reconhecimento (Quadros 3 e 4).
Quadro analítico dos mamíferos presentes nos sítios arqueológicos com registros rupestres no estado de São Paulo. Legendas: N.A. = não se aplica; * = figura altamente impactada por intemperismos naturais.
Fotografia e desenhos dos mamíferos presentes nos sítios arqueológicos com registros rupestres no estado de São Paulo. Legendas: * = desenho elaborado por Aytai (1970); ** = imagens tratadas pelo aplicativo IDStretch.
Nos sítios com presença de gravuras rupestres, dominam as representações abstratas, no entanto, foram identificadas duas representações de mamíferos gravadas: no sítio Fazenda Alto da Boa Vista (Pedregulho) e no sítio Pedra do Dioguinho (Dourado).
No que concerne à distribuição espacial dos mamíferos, observa-se que, mesmo em menor quantidade e em poucos sítios, eles estão presentes em amplas áreas do estado de São Paulo, com distâncias de até 284 km entre os sítios. No entanto, as características morfológicas das figuras se diferenciam quando observadas de sítio a sítio, sobretudo no que se refere aos detalhes anatômicos (presença de orelhas e galhadas) e no preenchimento interno (parcial e completo). Assim, há morfologias de mamíferos que não são identificados de forma recorrente e existem outros que aparecem em menor quantidade ou mesmo são singulares em alguns sítios, o que é resultante da circulação de grupos e ideias em um dado território. Esse processo de transmissão cultural pode ser observado não apenas em termos espaciais, mas também temporais, visto que, com o passar do tempo, as redes de informações que atuavam entre os grupos permitiram que os tipos gráficos se difundissem (Figura 3).
Na classe das Aves, o reconhecimento da figura se dá a partir da verificação da presença de cabeça, corpo e patas. Os bicos e as penas (asas e cauda) caracterizam-se como elementos secundários de reconhecimento, uma vez que a ausência desses atributos não desqualifica a figura no que concerne à sua inserção nesta classe. No universo de figuras apresentado, observa-se uma diversidade de tipos de aves, no entanto, não é possível identificar gênero ou espécie, em virtude da ausência de detalhes anatômicos qualificativos (Quadros 5 e 6).
Quadro analítico das aves presentes nos sítios arqueológicos com registros rupestres no estado de São Paulo. Legendas: N.A. = não se aplica; N.I. = não informado; * = medidas aproximadas; ** = sítio registrado por Collet na década de 1980, mas não foi visitado pela equipe, em virtude da dificuldade de acesso. Os dados foram coletados de documentos e artigos disponibilizados pelo autor.
Fotografia e desenho das aves presentes nos sítios arqueológicos com registros rupestres no estado de São Paulo. Legenda: * = desenho elaborado por Collet e Simões (2002).
No que concerne às aves, observa-se um quantitativo relativamente alto de figuras, quando comparado ao universo total de imagens zoomórficas. Em quatro sítios, foi possível identificar representação de oito representações de aves. O que se destaca no contexto desses sítios é que os grafismos estão posicionados em painéis onde coexistem com outros zoomorfos pintados, como cervídeos e outros mamíferos. As representações de aves aparecem, até o momento, no estado de São Paulo em apenas quatro sítios, entre os quais três localizam-se na região central do estado, no município de Analândia, e um no município de Pedregulho, na região metropolitana de Franca.
Na classe das aves, há representações com características morfológicas distintas, as quais estão posicionadas em áreas pontuais do estado de São Paulo. As figuras que remetem a emas ou seriemas estão localizadas nos sítios posicionados no município de Analândia, do mesmo modo que as duas representações de aves com corpo arredondado, e dispostas lado a lado em projeção frontal (Abrigo do Cavalcante). As representações de pássaros de longas penas e asas abertas só aparecem no município de Pedregulho (sítio Clemente). A Figura 4 mostra a distribuição espacial dos sítios com aves no cenário paulista.
Distribuição espacial dos sítios com presença de representações de aves no estado de São Paulo.
Além das classes acima apresentadas, verificaram-se, em dois sítios, uma representação de réptil e uma de crustáceo (Quadros 7 e 8). Na classe Reptilia, os marcadores primários de reconhecimento são cabeça, corpo, patas e cauda. No subfilo Crustacea, os marcadores primários de reconhecimento são corpo e patas5.
Quadro analítico do réptil e do crustáceo presentes nos sítios arqueológicos com registros rupestres no estado de São Paulo. Legendas: N.A. = não se aplica; N.I. = não informado.
Fotografias e desenhos do réptil e do crustáceo presentes nos sítios arqueológicos com registros rupestres no estado de São Paulo.
DISCUSSÃO
No que se refere à projeção das figuras de mamíferos, verificou-se que todas estavam em projeção lateral. Esta categoria está diretamente relacionada à representação da figura e ao ponto de vista do observador. Assim, para se representar um cervídeo, por exemplo, pode-se fazê-lo de diferentes pontos de vista, porém, em relação às pinturas rupestres, observa-se que a projeção lateral é a mais recorrente.
No que concerne às aves, as projeções frontal e lateral podem ser utilizadas para sua representação. Os pássaros com longas penas e asas abertas aparecem em projeção frontal e lateral; as aves relacionadas, que estão representadas lado a lado, estão em projeção frontal; já as aves pernaltas estão representadas parte em projeção frontal (na área das patas), parte em projeção lateral (tronco e cabeça). No que se refere ao crustáceo e ao réptil, estes foram projetados em vista de topo. É importante destacar a fragilidade da representação morfológica do crustáceo, a qual possui elementos morfológicos frágeis no sentido de sua identificação.
No que se refere ao espaço gráfico, verifica-se a presença majoritária de grafismos agrupados, no entanto, as figuras aparecem associadas, e não relacionadas. No caso do universo das figuras zoomórficas, há apenas um caso de figuras relacionadas observado no sítio Abrigo do Cavalcante, onde há uma dupla de aves, representada lado a lado; no entanto, o hermetismo da composição não nos permite chegar ao significado do tema. As demais figuras se inserem na categoria de isoladas.
No que se refere ao preenchimento interno, há duas categorias a serem analisadas: as pinturas e as gravuras. No âmbito das gravuras, observou-se que em apenas um sítio foi possível verificar o preenchimento interno. Na figura de um réptil, presente no Abrigo de Itapeva, foi identificada a presença de pigmento preto no interior do sulco. No sítio Pedra do Dioguinho, há uma concentração de figuras sobrepostas, o que possivelmente caracteriza sobreposições e justaposições. No entanto, o local está altamente impactado por ações naturais e antrópicas, a exemplo de desplacamento, fraturas e pichações, dificultando, assim, a verificação de possíveis tipos de preenchimentos no interior da figura zoomórfica representada. As demais figuras analisadas não possuem preenchimentos.
No âmbito das pinturas, pode-se observar prevalência nas figuras com preenchimento completo, seguidas das com preenchimento interno parcial e, em menor quantidade, das sem preenchimento. Entre os mamíferos, das dez figuras representadas, sete estão parcialmente preenchidas, três estão completamente preenchidas e uma está sem preenchimento. Na classe das Aves, seis figuras possuem preenchimento interno completo e três não possuem preenchimento (Figura 5). O possível crustáceo possui apenas contorno na figura, sem preenchimento.
Quantitativo de figuras pelo tipo de preenchimento. Legendas: * = não foram contabilizados dois cervídeos gravados, em virtude do estado de conservação comprometido; NI = não informado; NA = não se aplica.
No que se refere à cor, predomina a utilização do vermelho na elaboração das figuras, podendo-se verificar em menor quantidade figuras elaboradas na cor branca. As figuras bicromáticas, elaboradas com contornos vermelhos e preenchimento interno amarelo, bem como com contorno branco e preenchimento interno vermelho, aparecem em apenas um sítio do universo gráfico estudado (Sítio Clemente – Pedregulho), não se caracterizando como elemento dominante entre os sítios identificados no estado.
No que concerne ao tamanho, observou-se que 11 figuras têm tamanho entre 5 cm e 20 cm, seis estão entre 21 cm e 50 cm, uma figura possui tamanho acima de 51 cm e para quatro delas não foi possível efetuar a medição, em virtude de seu estado precário de conservação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos relacionados aos sítios com pinturas e gravuras rupestres localizados no que hoje é o estado de São Paulo apontam para um corpus graficus dominantemente caracterizado por grafismos não figurativos. As pesquisas voltadas para cadastramento e caracterização de sítios rupestres permitiram a identificação de 55 sítios com representações rupestres, sendo que, entre esses, apenas nove têm representações naturalistas. Este é um universo pequeno de figuras com características zoomórficas representadas sem cenas que expressam caça, bando ou enfrentamentos.
A presente pesquisa teve como objetivo realizar uma análise do cenário gráfico desses sítios, cujo foco foram os zoomorfos. Foram segregadas 22 figuras, das quais 18 são pintadas e gravadas. Foi observado que, mesmo em sítios com painéis densamente pintados e gravados, o número de representações zoomórficas aparece reduzido. Os nove sítios têm uma média de duas figuras, com exceção dos sítios Clemente – que se destaca por suas representações de aves (4), de quadrúpede (1) e de cervídeos (2), totalizando sete figuras –, Gruta do Índio – com os cervídeos (3) e a ave (1), totalizando quatro figuras – e Abrigo de Itapeva – com os cervídeos (2) e o réptil (1), totalizando três figuras.
A pesquisa permitiu observar que estes zoomorfos apresentam, do ponto de vista taxonômico, uma família mais caracterizada, os cervídeos (9); as demais temáticas têm traços menos distintivos que as inserem na classe das Aves (8), Reptilia (1) e subfilo Crustacea (1). Algumas representações (2) estão em estágios avançados de desgaste, relacionados à sua conservação, e só foi possível verificar que se trata de quadrúpedes.
Essas representações estão dispostas nos painéis gráficos com pouca interação com as demais figuras e também se apresentam com movimentos contidos e pouco dinamismo. Não representam cenas ou composições que remetem cognitivamente a caça ou bando. Foi observada apenas uma composição de animais representados em interação (Abrigo do Cavalcante).
As figuras estão pintadas majoritariamente na cor vermelha (14), com presença de bicromias apenas em sete figuras, entre as quais seis estão localizadas no painel do sítio Clemente e uma no sítio Gruta do Índio. Em relação ao preenchimento interno, observa-se que há prevalência nas figuras com preenchimento completo (10), seguidas das figuras com preenchimento interno parcial (8) e, em menor quantidade (1), sem preenchimento.
Quanto às gravuras, observam-se sulcos rasos e em formatos de U e V. Essas gravuras são de difícil identificação devido ao acentuado estado de degradação do suporte arenítico. Em relação ao tamanho, tanto os zoomorfos pintados quanto os gravados possuem um tamanho modal entre 10 e 20 cm.
Quando comparadas ainda a outros cenários de grafismos rupestres no Brasil, essa região não apresenta grandes concentrações de sítios em áreas específicas e, sobretudo, de elementos naturalistas. No entanto, o universo de sítios com registros rupestres no estado de São Paulo tende a aumentar com a continuidade das pesquisas, as quais estão sendo direcionadas para as localidades onde há sítios registrados, além de novas áreas que se configuram como hiatos de pesquisas no campo dos registros rupestres.
Apesar de se ter observado algumas representações zoomorfas circunscritas à região de São Paulo características que remetem à tradição Planalto, a presente pesquisa destaca que esse cenário classificatório foi inicial nos estudos dos registros rupestres, como uma categoria de entrada. Porém, atualmente, as pesquisas podem dar um passo mais largo sobre cenários rupestres regionais, adotando abordagens que integram ambiência, tipos de sítios, temas e técnicas.
O estado de conservação dos sítios é um fator que vem preocupando os pesquisadores, visto que, em alguns casos, só é possível visualizar as pinturas in loco com uso de aplicativos que ressaltam a cor. Por este motivo, além de prospecções sistemáticas, estão sendo efetuados levantamentos imagéticos em alta resolução dos sítios, por meio de fotogrametria e escaneamento a laser, o que permite conservar, mesmo que de forma digital, o acervo rupestre do estado para as gerações futuras.
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1
Classe de animais vertebrados, endotérmicos, vivíparos, caracterizados pela presença de glândulas mamárias e corpo geralmente coberto por pelos (Storer & Usuiger, 1977).
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2
Designação comum aos animais vertebrados, ovíparos, da classe de aves, de corpo coberto por penas, membros anteriores modificados em asas e bico córneo sem dentes (Storer & Usuiger, 1977).
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3
Classe de animais vertebrados tetrápodes e ectotérmicos (Storer & Usuiger, 1977).
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4
Designação comum às cracas, lagostins, camarões, caranguejos e seus afins. Divisões do corpo: geralmente possuem cefalotórax e abdômen, dois pares de antenas, mandíbulas, maxilas e dois pares de maxilípedes, bem como um par de patas por segmento (ou menos) (Storer & Usuiger, 1977).
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5
Cefalotórax, abdômen, antenas, quelas e patas (Storer & Usuiger, 1977).
AGRADECIMENTOS
Este trabalho está vinculado aos projetos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) (processo nº 2019/18.664-9), intitulado “Ocupação humana do sudeste da América do Sul ao longo do Holoceno: uma abordagem interdisciplinar, multiescalar e diacrônica”, coordenado por Astolfo G. M. Araujo e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (405303/2023-8), intitulado “Documentação, caracterização e análise dos sítios pré-históricos com arte rupestre do estado de São Paulo”, coordenado por Marilia Perazzo. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
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Perazzo, M., Cisneiros, D., Lima, M. R., Firmino, K. R., & Araujo, A. G. M. (2024). As representações zoomórficas no estado de São Paulo, Brasil: uma análise temática e cenográfica. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 19(3), e20230099. doi: 10.1590/2178-2547-BGOELDI-2023-0099.
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Editado por
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Responsabilidade editorial
Fernando Ozório de Almeida






Fonte: LEVOC/MAE-USP (2024).

Fonte: LEVOC/MAE-USP (2024).
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