Resumo
A utilização de artefatos feitos a partir de fibras de matérias-primas vegetais, por técnicas de trançado ou tecelagem, apresenta ampla distribuição geográfica e temporal no Brasil, apesar dos problemas de preservação dos materiais orgânicos perecíveis. Entre as suas múltiplas utilizações como equipamento doméstico ou de trabalho, destaca-se o uso desses objetos nas práticas funerárias, quer como acompanhamento, quer como recipientes para contenção e isolamento dos corpos dos mortos. Uma revisão da literatura mostra a presença, a extensão e os usos de variados materiais de fibras vegetais em diversos sítios arqueológicos do Brasil, mas geralmente de forma escassa, fragmentada e danificada. O trabalho centra-se nos usos funerários de artefatos confeccionados em fibras vegetais, apresentando um estudo de caso destacado por uma preservação infrequente para contextos arqueológicos brasileiros. Trata-se de uma estrutura de fibras vegetais entretorcidas do tipo esteira/rede, com uma antiguidade de 5 mil anos, encontrada na cova 13, um sepultamento primário infantil do sítio Toca do Alto da Serra do Capim, Piauí. O apetrecho para dormir de uso diário, achado inteiro, foi reutilizado como fardo funerário, cumprindo, segundo relatos etnográficos, uma dupla função: como recipiente funerário e para separar o corpo da terra na prática do sepultamento.
Palavras-chave
Contextos mortuários arqueológicos; Fardo funerário; Apetrecho para dormir; Técnica de trançado entretorcido
Abstract
The use of artifacts made from fibers of plant materials, using basketry or textile techniques, is widely distributed geographically and temporally in Brazil, despite the problems of preserving perishable organic materials. Among their multiple usages as domestic or work equipment, the use of these objects in funerary practices stands out, whether as accompaniment or as containers to receive and isolate the bodies of the dead. A literature review shows the presence, extent and uses of various plant fiber materials in several archaeological sites in Brazil, but generally in a scarce, fragmented and damaged form. The objective of the work focuses on the funerary uses of artifacts made from plant fibers, presenting a case study highlighted by an infrequent preservation for Brazilian archaeological contexts. This is a structure of twined plant fibers of a mat/ hammock type, with an antiquity of 5 thousand years, found in Burial 13, an infantile primary burial at the Toca do Alto da Serra do Capim site, Piauí, Brazil. The sleeping gear used daily, found intact, was reused as a funeral burden, fulfilling according to ethnographic reports, a dual function as a funeral container and to separate the body from the earth in burial practices.
Keywords
Archaeological mortuary contexts; Funeral bundle; Sleeping gear; Twisted braiding technique
INTRODUÇÃO
As fibras vegetais têm sido usadas pelos grupos humanos desde o início do Holoceno (11.700 anos AP, Tabela Cronoestratigráfica Internacional, V. 2024-12, Cohen et al., 2013), acompanhando as atividades de coleta, o processo de domesticação das plantas e o início da agricultura. A herança ancestral de lidar com as fibras viabiliza, no Brasil, ainda atualmente, uma ampla produção artesanal, realizada muito provavelmente com técnicas semelhantes e com as mesmas espécies vegetais presentes desde os períodos pré-contato. Barreto et al. (2005), ao estudarem espécies nativas, catalogaram sete famílias de plantas produtoras de fibras vegetais encontradas na região Nordeste do Brasil, entre elas, Araceae, Arecaceae, Bromeliaceae, Cyperaceae, Dilleniaceae, Malvaceae e Marantaceae, que também são comumente encontradas nos diferentes biomas brasileiros.
Duas técnicas são associadas às fibras vegetais, o trançado e a tecelagem, sendo diferenciadas na preparação da matéria-prima, pela produção manual ou pelo uso de equipamentos, bem como na elaboração de diversas categorias de artefatos (B. Ribeiro, 1980, 1985, 1986a, 1886b; O’Neale, 1986a, 1986b). O trançado de fibras vegetais se aplica à produção de cestaria e engloba objetos rígidos e semirrígidos feitos artesanalmente (cestos, esteiras, abanos, entre outros), a partir de uma série de elementos não fiados e técnicas à mão, sem o uso de tear ou outro tipo de maquinário (B. Ribeiro, 1986a; O’Neale, 1986a), enquanto a tecelagem envolve técnicas de fiação que transformam as matérias-primas em fios, assim como a produção de tecidos feitos a partir do trabalho em malha ou em trama, com ou sem teares, para elaborar diversos artefatos têxteis, como redes de dormir, adornos corporais, sacolas, cordões, fitas, entre outros (B. Ribeiro, 1986b; O’Neale, 1986b).
O domínio das diferentes técnicas – a torção ou fiação a partir da extração de fibras vegetais para preparação de tramas, urdiduras e cordoarias – permitiu produzir uma grande variedade de objetos de uso doméstico ou pessoal, incluindo indumentária, instrumentos de trabalho, para o transporte, de uso ritual ou lazer e para o comércio (B. Ribeiro, 1985, 1986a, 1986b; Velthem, 1986).
O objetivo do presente artigo é focar, entre essa variedade de artefatos feitos com fibras vegetais, os usos mortuários desses materiais em sítios arqueológicos. No que diz respeito ao conhecimento ancestral de extração, elaboração e uso das fibras vegetais, os contextos arqueológicos são os que servem de referência para indicar a antiguidade de tais conhecimentos. Apesar da dificuldade na preservação desses vestígios orgânicos perecíveis devido aos solos e climas brasileiros, ainda existem referências etnográficas e arqueológicas (apresentadas, a seguir, nos antecedentes, no estudo de caso, e também na discussão) que mostram a extensão em tempo e espaço de práticas funerárias envolvendo utensílios elaborados com fibras vegetais trançadas ou tecidas no Brasil.
No que concerne aos contextos funerários com diversos tipos de fibras de origem vegetal, apresentamos aqui o estudo de caso da cova 13 do sítio arqueológico Toca do Alto da Serra do Capim (Guidon et al., 2019; Solari et al., 2022). Trata-se de um caso excepcional de um sepultamento primário de uma criança, envolvida e contida em um objeto de conforto pessoal do tipo esteira/rede. O artefato de fibras vegetais, elaborado pela técnica de trançado entretorcido, foi encontrado inteiro e acompanhado de outros elementos de matéria-prima vegetal. O apetrecho para dormir foi reutilizado no âmbito funerário. Destaca-se a antiguidade estimada a partir de uma datação direta em 5.196-5.048 cal. AP. Até o momento, pela boa conservação, esta esteira/rede seria a mais completa e mais bem preservada recuperada em contextos arqueológicos pré-contato no Brasil. Um sítio próximo, a Toca do Enoque (Guidon & Luz, 2009; Luz, 2014), também apresenta elementos feitos de fibras vegetais, embora pior preservados, mas com usos e datas semelhantes, que reforçam uma prática generalizada na região durante o mesmo período.
ANTECEDENTES DE SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS COM FIBRAS VEGETAIS ASSOCIADAS A SEPULTAMENTOS HUMANOS
Para contextualizar o nosso estudo de caso, inicialmente vamos apresentar algumas evidências arqueológicas do uso de diversos objetos feitos de fibras vegetais em estreita associação com contextos funerários do Holoceno, em vários sítios arqueológicos do Brasil. Entre eles, Santana do Riacho, Lapa da Hora, Lapa do Caboclo, Abrigo do Malhador, Lapa do Boquete e Gruta do Gentio II, em Minas Gerais (Lara & Moresi, 1991; Prous, 1992/1993; Sene, 2007; L. Silva & Okumura, 2018); Furna do Estrago, PE91-Mxa e Alcobaça, em Pernambuco (Lima, 1986; Martin, 1994; Oliveira, 2001); Pedra da Tesoura, Barra e Serrote dos Ossos, na Paraíba (Costa & Moraes, 2019; Azevedo Netto et al., 2023; Cavalcante et al., 2023); Furna do Umbuzeiro, no Rio Grande do Norte (Borges, 2010); Toca da Baixa dos Caboclos (Guidon et al.,1998), Toca do Gongo I (Maranca, 1976), Toca do Enoque (Guidon & Luz, 2009; Luz, 2014) e Lagoa Cercada (Freitas et al., 2023), no Piauí; e Monte Castelo, em Rondônia (J. Silva, 2023).
No sítio Santana do Riacho, em Minas Gerais, foram encontrados três fragmentos têxteis indicando, segundo Lara e Moresi (1991), que os grupos humanos que viviam na região, entre c. 10.000 e 8.000 anos AP, já tinham conhecimentos de fiação, tecelagem e uso de teares simples. Segundo essas autoras, o fragmento 1, de maior tamanho (16 x 13 cm), possivelmente pertenceria a uma rede e foi encontrado no sepultamento 16, que continha o esqueleto de uma adolescente de 12 anos em posição fletida. Nesse fragmento, as técnicas de fiação e tecelagem combinaram fios com torção em ‘S’ e tecido entretorcido espaçado em sentido ‘Z’ com uso de tear na horizontal e espaçamento de 0,5 cm entre as tramas. O fragmento 2, um possível brinquedo, foi achado no sepultamento 9 e consistia numa dobradura de folha de palmeira (2 x 1,5 cm). O fragmento 3 estava associado ao sepultamento 2 e consistia num cordão com dois cabos de 1,5 cm, tendo o cordão torção em ‘Z’ e os cabos torção em ‘S’. De acordo com Prous (1992/1993), foram ainda encontrados fragmentos de cordas em outros sepultamentos deste sítio. No sepultamento 10, havia uma adolescente de 16 anos posicionada em decúbito lateral fletido. No sepultamento 11, foi encontrada uma criança de seis anos em posição fletida. Nestes dois casos, foi sugerido pelo autor que os corpos estavam amarrados com cordas e possivelmente envolvidos em redes de dormir.
Ainda no estado de Minas Gerais, no Vale do Peruaçu, foi recuperada uma coleção de artefatos trançados e têxteis de fibras vegetais bem preservados nos sítios arqueológicos Lapa da Hora, Lapa do Caboclo, Abrigo do Malhador e Lapa do Boquete, associada a grupos horticultores recentes, de c. 2.200 anos AP (L. Silva & Okumura, 2018). Um total de 172 unidades, entre peças inteiras e fragmentos, foi classificado pelos autores em cinco tipos: 11 trançados, 11 têxteis, 110 cordoarias, 39 vegetais e um nó. Dentre esses, em 142 unidades foram identificadas as técnicas de elaboração, sendo que 42 objetos têxteis trançados estavam associados a sepultamentos. Dos 11 sepultamentos escavados no Vale do Peruaçu, oito apresentaram elementos vegetais associados. A principal função seria forrar as covas e envolver os corpos com a finalidade de proteger ou preservar os corpos enterrados, como uma esteira trançada, fragmentos de rede e diversos têxteis. Além disso, artefatos vegetais de diversos tipos também foram utilizados como acompanhamentos funerários.
A Gruta do Gentio II, localizada em Unaí, Minas Gerais, foi ocupada de 3.490 ± 120 até 410 ± 60 anos AP, pelas populações horticultoras e ceramistas, onde foram evidenciadas 23 estruturas funerárias relacionadas a enterramentos de 47 indivíduos. As estruturas funerárias, coletivas e individuais, variavam em covas de forma elíptica e arredondada, forradas com folhas, madeiras, cascas de jatobá, sementes, palhas, fibras vegetais e gravetos, estando algumas recobertas com folhas de palmáceas inteiras, provavelmente de buriti (Mauritia vinifera) (Sene, 2007).
A maioria das estruturas funerárias apresentava acompanhamentos funerários onde foram observados: fragmentos de esteiras de palha trançada e trançada entretorcida simples formando um ‘S’ bem fechado, feitas com folhas de palmáceas, provavelmente de buriti (Mauritia vinifera), apresentando acabamento/reforço lateral e acabamento lateral envolvendo restos ósseos humanos com cordéis; fragmentos de cordéis de diferentes espessuras, duplamente entretorcidos, feitos em fibras vegetais variadas e em algodão (provavelmente Gossypium barbadense); fragmentos de couro animal com perfurações e cordéis de fibra vegetal; fragmentos de tecido feito com cordéis finos entretorcidos de algodão, possivelmente uma rede, na qual alternam-se faixas de single interconnected looping, ora mais estreitas, ora mais largas, unidas a faixas de spiral interlinking; bolsa de folha de palmácea trançada, provavelmente de buriti (Mauritia vinifera); trançado de espécie de cipó não identificada, formando uma peça ovalada; uma faixa que prende o feixe de cabelos cujo ponto assemelha-se ao ponto oblique 2/2 twill interlacing ou 2/2 twill braiding; fragmentos de faixa tecida com cordéis finos entretorcidos de algodão, trançados em V; grande peça de esteira, feita com folhas de palmáceas trançadas em diagonal, provavelmente de buriti, com acabamento/reforço lateral mais refinado; adorno de semente de gramíneas, ainda com cordel enrolado no antebraço do indivíduo; sementes com um cordel de algodão fino entretorcido, passando por dentro das mesmas, cuja sustentação é feita por um nó. Além desses objetos confeccionados em fibras vegetais e algodão, também foram evidenciadas hastes delgadas de madeira resistentes e alisadas, com extremidades afinadas e com leve reentrância, sugerindo tratar-se de instrumental para tecelagem (Sene, 2007).
No que diz respeito às evidências arqueológicas do uso de fibras vegetais no Nordeste do Brasil, Martin (1994) considera uma antiguidade de pelo menos 6.000 anos AP para o início do trançado e da cestaria no estado de Pernambuco, com base nas datações do sítio PE91-Mxa. O uso desses materiais em enterramentos generaliza-se nos sítios holocênicos com ocupações mais recentes, como a Furna do Estrago e Alcobaça.
No sítio PE91-Mxa, caracterizado como um abrigo arenítico com ocupações entre c. 6.600 e 2.700 anos AP, teriam sido encontrados enterramentos primários depositados em covas forradas com fibras trançadas. Alguns crânios estariam cobertos com uma espécie de cesta ou coifa de fibras trançadas (Martin, 1994). Já a Furna do Estrago é um abrigo que foi utilizado como cemitério entre c. 1.800 e 1.600 anos AP, contendo 80 indivíduos. Os sepultamentos eram primários, apresentando corpos em posição fletida e embrulhados em esteiras de fibra vegetal. Ademais, foram observadas fossas funerárias forradas com fibras vegetais, bem como recém-nascidos sepultados em cestas de fibras de palmeira e embrulhados em esteiras de ouricuri. Cordas produzidas com caroá também foram encontradas no sítio (Lima, 1986). Ainda nesse contexto, foi mencionada a presença de um adulto masculino acompanhado de um delicado cinto de fibras vegetais, usado como adorno.
No sítio Alcobaça, utilizado como cemitério entre c. 2.400 e 1.800 anos AP, foram encontrados enterramentos secundários, com 23 indivíduos em covas forradas com fibras vegetais, apresentando sinais de cremação que fazem parte do contexto funerário. Também foram evidenciados restos de cestaria associados a uma fogueira e a uma estrutura circular com restos vegetais (Oliveira, 2001).
Em particular, nos sítios Furna do Estrago e Alcobaça, Costa e Lima (2016) verificaram as técnicas de elaboração de diversos artefatos de cestaria. Na Furna do Estrago, foram analisadas 13 peças trançadas, incluindo uma esteira, um fragmento de ‘tacape’ envolto em cordas, fragmentos de cestos e de nós, além de fragmentos diversos (miscelâneas). Os objetos foram classificados pelas técnicas torcido em ‘S’ aberto simples, torcido em ‘Z’ aberto simples e cruzado simples (xadrezado). Enquanto para o sítio Alcobaça, consideraram um total de sete peças trançadas, incluindo esteiras e fragmentos de cestaria. Esses elementos foram classificados de acordo com as técnicas: torcido em ‘S’ aberto simples, torcido em ‘Z’ aberto simples e torcido em ‘S’ aberto e fechado simples. As matérias-primas das fibras vegetais sugeridas seriam as palmeiras, como o buriti ou o babaçu, e diferentes espécies de gramíneas.
No estado da Paraíba, o sítio Pedra da Tesoura é um abrigo que apresenta 15 pequenos fragmentos de cestarias e cordoarias feitos a partir de fibras vegetais. Eles estavam associados a sepultamentos secundários, mas sem datações publicadas que permitam situar a cronologia de uso desses materiais no sítio (Costa & Moraes, 2019). Os autores, ao analisarem as técnicas empregadas na produção desses vestígios, identificaram o tipo trançado torcido (13 fragmentos), variando em aberto, aberto simples e em ‘S’ aberto; trançado cruzado (um fragmento), com visualização ambígua; e trançado híbrido (torcido/cruzado, um fragmento).
Para o sítio Barra, localizado em um abrigo sob rocha, na Paraíba, foi obtida uma datação de c. 1.200 anos AP relacionada a sepultamentos secundários que estavam acompanhados de cordões, trançados de fibra, restos vegetais e cestaria (Azevedo Netto et al., 2023).
Ainda na Paraíba, no sítio Serrote dos Ossos, caracterizado como um abrigo sob rocha granítica, foram evidenciados sepultamentos com enxoval funerário composto por fragmento de cerâmica decorada, pingente de amazonita, contas de colar e um pequeno fragmento trançado de caroá. Alguns ossos foram datados fornecendo uma cronologia de c. 1.100 anos AP (Cavalcante et al., 2023).
Para o estado do Rio Grande do Norte, de acordo com Borges (2010), no abrigo Furna do Umbuzeiro foram recuperados fragmentos ósseos humanos associados a restos faunísticos e estruturas de combustão com sinais de queima. Também foram evidenciadas fibras vegetais trançadas e torcidas, como fragmentos de cordas, cordéis e cestarias sem sinais de queima, porém estavam em contato com lentes de cinza e carvão provenientes das fogueiras. Nessa associação espacial dos vegetais elaborados no nível das fogueiras, a cronologia relativa seria de c. 2.700 anos AP.
Ainda no contexto nordestino, mas na região sudeste e sudoeste do estado do Piauí, podem ser mencionados os sítios Toca da Baixa dos Caboclos, Toca do Gongo I, Toca do Enoque e Lagoa Cercada, que também apresentaram registros de fibras vegetais associadas aos sepultamentos.
A Toca da Baixa dos Caboclos caracteriza-se como um extenso abrigo arenítico, com cronologia de ocupação entre c. 400 e 200 anos AP, no qual foram evidenciados nove sepultamentos, sendo oito esqueletos em urnas cerâmicas e um esqueleto em cova. No contexto dos sepultamentos 6 (cova) e 7 (urna), foram encontrados fragmentos de finas cordas elaboradas com fibras vegetais torcidas e trançadas (Guidon et al., 1998).
A Toca do Gongo I é um sítio do tipo abrigo sob rocha arenítica, com cronologia de ocupação entre c. 400 e 300 anos AP, onde foram exumados seis sepultamentos, sendo quatro depositados em fossas e dois em urnas funerárias. Conforme descrito por Maranca (1976), os fragmentos de tecido (de rede ou esteira) encontrados junto aos sepultamentos são provenientes de uma fibra vegetal que seria provavelmente o caroá, ainda hoje muito utilizado na região.
A Toca do Enoque é um amplo abrigo sob rocha arenítica que apresenta cronologia de ocupação entre c. 8.000 e 3.000 anos AP, onde foram evidenciados grafismos rupestres e duas sepulturas individuais (nº 1 e 3) e uma múltipla (nº 2) (Guidon & Luz, 2009; Luz, 2014). A sepultura 2, múltipla, foi caracterizada pela grande quantidade de adornos elaborados com ossos, dentes de animais e materiais orgânicos muito bem preservados, onde, de acordo com Luz (2014, p. 95), “os Esqueletos 8, 6 e 10, um adulto feminino e dois infantes[,] foram depositados sobre uma camada de fibras vegetais trançadas, provavelmente uma rede, que estavam sobre uma camada de vegetal (capim)”. As datações diretas desses materiais vegetais foram realizadas em estudos posteriores e apresentadas para comparação com o estudo de caso deste trabalho.
O sítio Lagoa Cercada é caraterizado como um abrigo arenítico, onde, a partir de uma escavação assistemática, foi evidenciado um esqueleto incompleto de um indivíduo adulto feminino, parcialmente mumificado de forma natural e associado a fragmentos de uma possível rede de dormir. Os acompanhamentos funerários perecíveis teriam sido contas de colar, fibras vegetais trançadas de diversas espessuras de tipo torcido, um fragmento de têxtil e um punho de rede de dormir. O sítio ainda não apresenta datações que permitam situar a cronologia de uso desses materiais, mas Freitas et al. (2023) sugerem que se trata de um indivíduo indígena pré-contato.
Finalmente, no estado de Rondônia, J. Silva (2023) apresenta a análise de microvestígios arqueobotânicos provenientes de três sepultamentos do sambaqui Monte Castelo (6.000 a 650 cal. AP), situado na região do Pantanal do Guaporé. O objetivo foi investigar o uso de plantas por meio de fitólitos e grãos de amido, provenientes de sedimentos e de cálculo dentário. Assim, conseguiu identificar a presença de folhas de arroz selvagem (Oryza sp.) e fitólitos de plantas herbáceas da ordem Zingiberales, relacionada a plantas com flores de uso ornamental e propriedades medicinais, assim como plantas da família Marantaceae cujas fibras são utilizadas por povos amazônicos para a produção de objetos como cestarias, esteiras, entre outros artefatos. Segundo a autora, a presença destas espécies vegetais no interior dos sepultamentos da fase Bacabal (4.300 a 700 cal. AP) aponta para o uso de plantas na preparação dos enterramentos, sendo que a grande quantidade de fitólitos de gramíneas não identificadas e de plantas herbáceas (Zingiberales e Cyperaceae) sugere o uso dos dentes na produção de objetos feitos com fibra vegetal ou a mastigação de plantas medicinais.
O ESTUDO DE CASO: A COVA 13 NA TOCA DO ALTO DA SERRA DO CAPIM
O sítio arqueológico Toca do Alto da Serra do Capim está localizado nas coordenadas geográficas 43° 32’ 45,30” de longitude oeste e 9° 9’ 16,14” de latitude sul, no Parque Nacional Serra das Confusões, no Piauí (Figura 1A). O sítio ocupa a área de uma feição geomorfológica conhecida como ‘tafone’, que é resultante de um processo de erosão regressiva a partir do desenvolvimento de um alvéolo localizado na porção frontal de uma das escarpas que constitui a parte alta da encosta, em um amplo vale interno escavado na bacia sedimentar do Parnaíba. As rochas dessa formação são paleozoicas e consistem principalmente em arenitos rosados, creme e esbranquiçados de diferentes granulometrias. A presença de arenitos de granulação fina e média favoreceu a ação dos processos erosivos que possibilitaram a formação do tafone (Guidon et al., 2019).
A) Localização do sítio arqueológico Toca do Alto da Serra do Capim; B) parte interna do tafone com pinturas rupestres; C) entrada do sítio a aproximadamente quatro metros acima do talude. Mapa: Dalmir Negreiros, FUMDHAM (2019).
Topograficamente, o local situa-se numa encosta elevada a uma altitude de 520 metros, estando a entrada do sítio a aproximadamente quatro metros acima de um estreito talude, depositado no sopé da parede rochosa. A porção interna do sítio tem dimensões de 12 metros de comprimento, com largura que varia entre três e cinco metros. A desagregação contínua do arenito fino produziu os sedimentos que cobriram os vestígios arqueológicos ao longo do tempo. As paredes internas e o teto (em grande parte desintegrados) estão cobertos por grafismos rupestres geométricos, com raros zoomorfos, da tradição Nordeste (Figuras 1B, 1C) (Guidon et al., 2019).
O sítio foi totalmente escavado entre os anos 2008 e 2009 por uma equipe de pesquisadores e técnicos da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), com a participação de estudantes universitários do curso de Arqueologia. A escavação revelou abundantes materiais arqueológicos, principalmente orgânicos, incluindo quantidades significativas de madeira, sementes, folhas, capim, restos de fogueiras, carvões, cinzas e fibras vegetais trançadas. Foi ainda encontrada uma pequena quantidade de material lítico, totalizando 28 peças em quartzo, quartzito, sílex, arenito silicificado, hematita e gnaisse, incluindo lascas retocadas com e sem córtex, núcleos e instrumentos como percutor, raspador, moedor e lâmina de machado (Guidon et al., 2019).
Para além da arte rupestre, dos ocres, da variedade de materiais orgânicos e das peças líticas, destacam-se importantes achados arqueológicos constituídos pelos vestígios de remanescentes humanos de duas práticas funerárias distintas, em estratos sobrepostos relacionados (Figura 2). O depósito superior, encontrado a aproximadamente 18 cm de profundidade em relação à superfície, que continha restos de ossos humanos incinerados e carbonizados, foi observado como uma espessa camada heterogênea que cobria quase toda a área abrigada. Estava composta principalmente por sedimentos finos gerados pela erosão das paredes e do teto do abrigo, misturados com uma quantidade considerável de cinzas e restos humanos queimados. Alguns dos ossos estavam completos, mas a maioria deles estava fragmentada, sendo que todos os ossos queimados se encontravam espalhados aleatoriamente, exceto na porção mais interna do sítio (Guidon et al., 2019; Solari et al., 2022).
Perfil do sítio com a localização dos elementos associados às práticas funerárias: na parte superior, ossos queimados espalhados; abaixo, covas esvaziadas; e, ao fundo do tafone, a cova 13.
Além de ossos humanos, este estrato superior também continha quantidades consideráveis de carvão, cinzas e uma diversidade de material vegetal exógeno, queimado e não queimado (capim, galhos de madeira, sementes, folhas), incluindo alguns pequenos fragmentos de fibras vegetais trançadas carbonizadas. Boa parte desse material vegetal teria sido introduzida intencionalmente no sítio (lembrando que a entrada do tafone fica a quatro metros de altura acima da superfície externa da parede rochosa) e possivelmente foi usado para queimar os ossos secos. Isso teria sido feito devido à falta do componente gorduroso nos ossos secos, o que significa que havia necessidade de outros tipos de combustível para alimentar o fogo nas práticas de cremação secundária. Todos esses restos orgânicos estavam espacialmente associados às áreas de combustão, que incluíam fogueiras estruturadas e não estruturadas (Solari et al., 2022).
Abaixo desse nível, no estrato inferior subsequente, foram achadas 13 estruturas vegetais, côncavas semiesféricas, de capim, de tamanhos e formatos similares, provavelmente elaboradas a partir da abertura de covas nos sedimentos arenosos do piso do tafone. Apenas uma delas continha o esqueleto completo de uma criança, envolta com um fardo funerário em um artefato trançado de fibras vegetais do tipo apetrecho para dormir, denominada de ‘cova 13’ (Guidon et al., 2019; Solari et al., 2022).
As outras estruturas de capim estavam distribuídas por diferentes áreas do sítio, mas, diferentemente da cova 13, não exibiam a presença de ossos, apenas na cova 8 foram encontrados dois dentes humanos dispersos (Guidon et al., 2019). Embora essas outras covas tenham sido descobertas vazias, a evidência tafonômica e a análise arqueotanatológica sugerem que elas, tal como a cova 13, eram estruturas funerárias que originalmente continham restos humanos envoltos em esteiras e/ou redes, que foram submetidos a perturbações antrópicas pós-deposicionais intencionais. A falta de ossos humanos e a presença de carvão, cinzas e fragmentos de fibras vegetais entretorcidas queimadas permitem considerar que, provavelmente, todas as covas de capim esvaziadas estiveram relacionadas com a continuidade do ritual funerário de cremação secundária de ossos secos, observada no nível superior, anteriormente mencionado (Solari et al., 2022).
Em particular, a cova 13 é um sepultamento primário individual que foi evidenciado no fundo do sítio. Tratava-se de um achado sem perturbações pós-deposicionais, contendo o esqueleto semiarticulado de um indivíduo infantil de 6 anos ± 24 meses, estimado pela erupção dentária (Cunha, 2014). A estrutura funerária da cova 13 foi encasulada em campo e escavada no laboratório da FUMDHAM.
A partir das escavações, foi possível reconstruir o processo funerário da formação do sepultamento. Inicialmente, teria sido elaborada uma estrutura constituída por fibras vegetais de capim, não trabalhadas, mas organizadas intencionalmente em um formato côncavo semiesférico, semelhante a um ninho de aves. Essa estrutura de capim foi usada de maneira a manter isolado o corpo do indivíduo sepultado do sedimento do piso do tafone. A criança foi colocada no ‘ninho’ de capim, com o corpo em posição fletida em decúbito lateral direito, acompanhada por um enxoval funerário, dentro de um objeto de tralha doméstica usado para dormir, ou seja, uma esteira/rede de fibra vegetal trançada, dobrada e fechada com cordoaria, formando um ‘fardo funerário’. Acima, teria sido colocado um outro objeto, trançado de fibras vegetais diferentes, caracterizado por uma textura mais fina, semelhante a um lençol ou cobertor. Finalmente, teria sido recoberto novamente por capim não elaborado, mas envolvendo, protegendo e fechando toda a estrutura funerária que conformou a cova 13, com dimensões de aproximadamente 40 cm de diâmetro e 35 cm de altura (Figura 3).
A cova 13: A) vista inicial in situ no sítio após a retirada do capim na parte superior; B) vista inicial da escavação em laboratório com o fardo funerário completo; C) vista da escavação avançada com os remanescentes ósseos da criança e os acompanhamentos funerários; D) final da escavação no laboratório, com o capim ao fundo da estrutura funerária, depois de terem sido retirados o esqueleto, os adornos e a esteira/rede.
Entre os adornos que conformavam o enxoval funerário e que acompanhavam o esqueleto da criança, destacam-se uma faixa trançada em fibras vegetais, achada na região da cabeça, blocos de ocre, um conjunto de pingentes, formado por seis dentes incisivos de capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) e dois dentes caninos perfurados de onça-pintada (Panthera onca)1, outros pingentes tubulares de diáfises de ossos longos de aves, cortados e perfurados, e, ainda, contas de colar feitas com sementes vegetais (Figura 4).
A criança e os acompanhamentos funerários da cova 13: A) o esqueleto; B) fragmento da faixa próximo aos ossos do crânio in situ; C) ocre in situ; D) o conjunto de dentes animais in situ; E) contas de sementes; F) ossos longos de aves; G) dentes de capivara e onça-pintada.
TEMPORALIDADE NOS USOS FUNERÁRIOS DAS FIBRAS VEGETAIS NA SERRA DAS CONFUSÕES
Depois de finalizadas as escavações do sítio Toca do Alto da Serra do Capim, a tentativa de fazer datações diretas para os ossos do esqueleto da criança da cova 13 foi impossibilitada pela ausência de colágeno. Os resultados negativos levaram a procurar alternativas indiretas para datar o único sepultamento primário do sítio. Assim, as datações indiretas para o sepultamento se converteram em idades diretas dos objetos trançados de fibras vegetais e do capim não elaborado que foi usado no revestimento da estrutura funerária.
Paralelamente, o mesmo problema aconteceu com os esqueletos humanos do sítio vizinho, Toca do Enoque, também sem conteúdo de colágeno, mas com abundantes remanescentes orgânicos preservados nos sepultamentos. Por isso, na mesma época, foram coletadas, para datação, amostras das fibras vegetais trançadas e do capim, usados nos sepultamentos (cova 13 e sepultamento 2) desses dois sítios próximos, localizados na Serra das Confusões.
Apresentamos os resultados de quatro datações de radiocarbono por espectrometria de massas com aceleradores (AMS) das amostras coletadas dos apetrechos para dormir (esteira/rede) e do capim que forrava os sepultamentos nos sítios Toca do Alto da Serra do Capim e Toca do Enoque. Os resultados calibrados da cova 13, do sítio Toca do Alto da Serra do Capim, foram de 5.196-5.048 cal. AP para as fibras vegetais trançadas e de 5.300-4.970 cal. AP para o capim da estrutura tipo ninho. Já para o sepultamento 2, do sítio Toca do Enoque, os resultados calibrados foram de 5.464-5.372 cal. AP para as fibras vegetais torcidas da possível esteira/rede e de 5.480-5.317 cal. AP para o capim que forrava a estrutura funerária (Tabela 1; Figura 5).
Resultados das datações de fibras vegetais trabalhadas e de capim in natura em sítios próximos ao Parque Nacional Serra das Confusões.
Amostras datadas por AMS dos sítios Toca do Alto da Serra do Capim e Toca do Enoque: A) fragmentos da esteira/rede da cova 13; B) feixe de capim da cova 13; C) fragmentos da esteira/rede do sepultamento 2; D) capim do sepultamento 2.
Além da proximidade espacial entre os sítios (1,7 km de distância) no Parque Nacional Serra das Confusões, destaca-se a correlação temporal das datações com resultados quase contemporâneos, mostrando que, na mesma região e no mesmo período, os grupos humanos faziam usos similares dos materiais vegetais, com ou sem elaboração, em suas diversas práticas funerárias.
MATERIAIS E MÉTODOS PARA A DESCRIÇÃO GERAL DOS ARTEFATOS DE FIBRAS VEGETAIS DA COVA 13
Os diversos elementos de fibras vegetais que compõem o fardo funerário da cova 13, embora não tenham sido inspecionados de forma mais detalhada por especialistas, foram analisados macroscopicamente em duas etapas, durante a escavação do fardo e no estado de acondicionamento atual no laboratório da FUMDHAM, desenvolvidas pelas pesquisadoras responsáveis por este trabalho. Este estudo descritivo foi feito seguindo as considerações técnicas dos especialistas em cestarias e têxteis (B. Ribeiro, 1980, 1985, 1986a, 1986b; O’Neale, 1986a, 1986b) para a identificação dos vários elementos de fibras vegetais (urdiduras, tramas, fibras torcidas ou sem torção), incluindo algumas medidas feitas por meio de paquímetro de precisão, a sugestão das possíveis matérias-primas e das diversas técnicas de elaboração, bem como a proposta de categorização dos tipos de objetos recuperados no fardo funerário (lençol/cobertor, esteira/rede, acabamentos, cordoaria e adorno).
Assim, a observação das fibras vegetais do fardo funerário permitiu verificar que teria sido usada uma técnica de elaboração manual, sem o uso de teares ou molduras, conhecida como trançado torcido ou entretorcido, do tipo vertical e aberto, na produção dos apetrechos para dormir tipo esteira/rede e no fino artefato do tipo lençol/cobertor. Segundo B. Ribeiro (1985, p. 54), o “entretorcido” é uma técnica mista que combina trançado e tecelagem, caracterizada pelo emprego de cordões ou talas flexíveis passíveis de torção. Também é chamado de torcido semirrígido ou torcido flexível, sendo equivalente ao termo em inglês ‘twined’, que significa enroscar.
Seguindo as considerações técnicas de B. Ribeiro (1980, 1985, 1986b) e O’Neale (1986a, 1986b), nos artefatos da cova 13, a técnica manual de trançado torcido é do tipo vertical, onde a urdidura é constituída de um único elemento passivo na vertical, enquanto a trama é constituída de dois elementos, que entretecem a urdidura por cima e por baixo, de forma ativa na horizontal. Também foram usados elementos vegetais diferentes na conformação de urdiduras e tramas, como talas flexíveis sem torção e outras fibras torcidas. Além da técnica na vertical, o tipo de entretorcido foi o espaçado aberto, apresentando distâncias diferentes entre as tramas em relação às urdiduras.
Em relação as matérias-primas, segundo O’Neale (1986a), as folhas de palmeiras, as fibras de folhas ou as gramíneas – ou, ainda, as hastes finas e flexíveis de plantas – são usadas para produzir urdiduras, tramas e cordas, com ou sem torção. Assim, para a confecção dos objetos entretorcidos e das cordoarias da cova 13, podem ter sido utilizadas fibras de caroá (Neoglaziovia variegata), da família Bromeliaceae, ou de ouricuri (Syagrus coronata), da família Arecaceae, ambas típicas da caatinga, e do buriti, também pertencente à família Arecaceae, com ampla distribuição no Brasil. Igualmente, cabe dizer que não foram realizadas, até o momento, as análises específicas para a determinação das espécies vegetais no sítio.
Seguindo a ordem da escavação da estrutura funerária da cova 13 em laboratório, o primeiro elemento observado foi parte de um apetrecho para dormir, similar a um lençol ou cobertor muito fino e frágil. Elementos de tipo esteiras, com textura muito fina e flexível, demandam o uso de fibras de gramíneas, conforme O’Neale (1986a). No caso desse objeto, as urdiduras apresentam fibras duplas torcidas de 2 mm de espessura, enquanto as tramas, outras fibras duplas também torcidas de 2 mm de espessura, com espaçamento de 17 mm entre as tramas. O estado atual desse material delicado é muito fragmentado, com apenas algumas porções do artefato preservadas.
Abaixo desse fino lençol ou cobertor, foi escavado o principal artefato do fardo funerário da cova 13, o qual é um elemento de uso doméstico do tipo esteira/rede que envolvia e continha o corpo da criança, acompanhado de adornos. É importante esclarecer que a indecisão sobre chamar o apetrecho para dormir de esteira ou de rede deve-se a vários motivos técnicos e utilitários. Por um lado, temos as referências dos autores especialistas consultados (B. Ribeiro, 1986a, 1986b; O’Neale, 1986a, 1986b), que indicam que as esteiras são confeccionadas com as técnicas de cestaria ou trançados, enquanto as redes o são com a técnica têxtil. No nosso caso, trata-se de um misto de ambas as técnicas, o entretorcido, como já apontamos anteriormente. Por outro lado, esse objeto híbrido entre esteira e rede também aparece nas referências etnográficas, pois, de acordo com O’Neale (1986a), há registros de grupos indígenas que faziam redes de dormir a partir de esteiras ou que usavam as esteiras suspensas por seus quatro cantos. Por fim, até o momento, não foram encontradas outras estruturas arqueológicas com tamanho, preservação e antiguidade semelhantes que permitam refinar as nossas observações por meio de comparações, uma vez que os casos etnográficos se referem a populações indígenas mais contemporâneas, e os casos arqueológicos são geralmente elementos pequenos, incompletos e fragmentados. Por esses motivos, optamos por manter o termo ‘esteira/rede’ em conjunto, já que, em qualquer caso, se trata de artefatos de uso doméstico feitos para dormir que são reutilizados nas práticas funerárias com a mesma função.
No caso da cova 13, a urdidura da esteira/rede é composta por talas flexíveis sem torção, com espessura de 2 e 3 mm, e a trama é feita com fibras torcidas duplas de 2 mm de espessura, com um espaçamento de 5 mm entre as tramas. O estado atual de preservação é muito bom, sendo observadas apenas algumas áreas onde a trama e a urdidura se desgastaram. Foram verificadas, ainda, porções com pigmentação avermelhada, resultantes da utilização de pó de ocre entre os adornos, e quebras decorrentes do processo de escavação da estrutura em laboratório. Atualmente, ainda que fragmentada, trata-se de uma peça praticamente completa.
Entre os outros elementos que acompanham a esteira/rede, destaca-se a classe cordoaria. Conforme B. Ribeiro (1986b), geralmente a torção das fibras vegetais é feita manualmente pela rotação sobre a coxa da artesã ou do artesão, que, no sentido horário (da esquerda à direita), é chamada de torção em ‘Z’ e, no sentido anti-horário (da direita à esquerda), de torção em ‘S’. Assim, todos os elementos torcidos encontrados na cova 13 apresentam torção em ‘Z’.
Na cova 13, foram observados três tipos de cordas feitas à mão com feixes de fibras torcidas diferenciadas pelas espessuras, sendo as mais grossas com 8 mm, as médias com 4 mm e as mais finas com 2 mm. Por um lado, as cordas finas e médias foram usadas para fazer os acabamentos; por outro, as cordas grossas e médias serviram para o fechamento do fardo funerário, amarrando tanto os acabamentos quanto a estrutura do tipo esteira/rede, dobrada ao meio.
Entre os acabamentos, foram contabilizados dez pequenos elementos utilitários e decorativos (entre 6 e 8 cm de comprimento e 2 a 4 cm de espessura). Cada um dos acabamentos teria sido formado por feixes de fibras torcidas, agrupados ou dobrados e amarrados transversalmente por cordas médias ou finas, enquanto outros finalizam em finas cordas enroladas em forma de espiral. Acreditamos que, pelas diferenças na confecção, alguns dos acabamentos puderam ter uma função utilitária para pendurar o apetrecho de dormir, enquanto os outros seriam implementos decorativos e/ou de reforço.
O último elemento a ser descrito faz parte do enxoval funerário encontrado perto do crânio da criança. Trata-se de um fragmento do que teria sido uma provável faixa elaborada a partir de fibras vegetais entretorcidas e trançadas. Utilizando B. Ribeiro (1986b) como referência, foi possível conferir que a faixa corresponderia a uma variante do trançado cruzado em diagonal, com o entrecruzamento entre trama (2 mm de espessura) e urdidura (2 a 3 mm de espessura) feito em ângulo agudo.
As Figuras 6 e 7 apresentam todos os elementos descritos de forma geral nesta seção, tanto relativos ao processo de escavação em laboratório quanto os referentes ao estado atual, após a fragmentação decorrente da retirada e da movimentação dos elementos que compunham o fardo funerário.
Vista geral e detalhes dos elementos de fibras vegetais da cova 13 durante o processo de escavação no laboratório: A) vista geral da esteira/rede, o fino lençol e os acabamentos na estrutura do fardo funerário fechada; B) detalhe da esteira/rede dobrada; C-F) detalhes dos diversos acabamentos utilitários e decorativos.
Os elementos do fardo funerário da cova 13 desarmados após a escavação: A) vista geral com fragmentos da esteira/rede, o fino lençol e os múltiplos acabamentos; B) fragmento da estrutura de tipo esteira/rede entretorcida.
DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após termos apresentado, nos antecedentes, diversos sítios arqueológicos com fibras vegetais associadas a sepultamentos e o estudo de caso da cova 13, sintetizamos as principais informações de modo comparativo na Tabela 2.
Comparação entre o estudo de caso e outros sítios arqueológicos com fibras vegetais associadas a sepultamentos humanos no Brasil.
As evidências arqueológicas mostram que o uso de fibras vegetais nos sepultamentos se estende a amplas regiões do Brasil, a partir dos achados materiais ou pela sugestão da sua presença. Para as regiões Nordeste e Sudeste, esses objetos são geralmente identificados no contexto arqueológico através de vestígios fragmentados, escassos ou com uma conservação precária, sendo raro encontrar peças completas e bem preservadas, como as localizadas no sítio Toca do Alto da Serra do Capim. Diante desse cenário, a aplicação de estudos sobre fitólitos e grãos de amido, entre outros microvestígios vegetais encontrados em contextos arqueológicos, pode, a partir da microarqueobotânica (Scheel-Ybert, 2016), fornecer dados relacionados à presença destes elementos que não se preservaram diretamente (J. Silva, 2023). No caso específico de têxteis e cestarias em contextos funerários, quando esses objetos não são encontrados diretamente, o emprego de estudos de microarqueobotânica pode auxiliar na evidência do uso desses artefatos.
A multiplicidade de objetos nos sítios arqueológicos apresenta-se muito diversificada, envolvendo a produção de cestaria, têxteis e cordoarias, a partir de matérias-primas vegetais diferentes, incluindo fibras de gramíneas, palmeiras ou entrecascas, embora, muitas vezes, sejam oriundas de espécies não identificadas.
A variedade de técnicas empregadas pelos grupos do passado foi útil para fazer objetos domésticos de uso cotidiano, que, depois da morte, também faziam parte das práticas mortuárias, tanto como adornos ou acompanhamentos funerários quanto como parte das estruturas funerárias ou mortalhas para receber ou envolver os corpos dos mortos, principalmente nos casos das redes ou esteiras, além de outros elementos vegetais não elaborados que forravam as covas.
Por sua vez, a dimensão temporal da utilização de fibras vegetais associadas às práticas funerárias poderia estender-se por todo o Holoceno, tendo em conta as datações dos vários sítios mencionados, com idades desde c. 10.000 anos até momentos históricos posteriores ao contato com os europeus. A esse respeito, deve-se notar que a maioria dessas datações indicaria uma cronologia relativa do uso de fibras vegetais, uma vez que geralmente não foram feitas diretamente a partir dos elementos vegetais analisados. As datações indiretas consideradas mais antigas associadas às fibras vegetais confeccionadas correspondem aos sítios Santana de Riacho (Minas Gerais) e PE91-Mxa (Pernambuco), com datas máximas de c. 10.000 e 6.600 anos, respectivamente.
Em contraste, as datações diretas realizadas em amostras de fibras vegetais trançadas das redes/esteiras dos sítios do Parque Nacional Serra das Confusões, Toca do Alto da Serra do Capim e Toca do Enoque permitem afirmar com total certeza que, entre c. 5.500 e 5.000 anos antes do presente, os grupos humanos que habitavam o Nordeste do Brasil já tinham amplo conhecimento sobre as técnicas para fazer objetos elaborados utilizando fibras vegetais. Tal conhecimento ancestral teria sido adquirido através de sucessivas gerações que antecederam esses grupos humanos por centenas ou milhares de anos. Assim, os casos aqui apresentados são as mais antigas datações diretas com resultados calibrados realizadas a partir de fibras vegetais trabalhadas.
Por sua vez, a dificuldade de preservar materiais orgânicos em contextos arqueológicos, que são altamente perecíveis e de rápida decomposição, tem suscitado a necessidade de ir além desses contextos para a consulta de relatos etnográficos que ajudem a interpretar o uso de cestaria, tecidos e outros objetos feitos em fibras vegetais, como redes ou esteiras, em relação aos contextos das práticas domésticas e funerárias dos grupos indígenas ancestrais no Brasil.
Assim, nas referências etnológicas, as redes e esteiras fazem parte do equipamento doméstico cotidiano, como objetos de conforto pessoal (Velthem, 1986). Segundo Velthem (1986), dois itens seriam usados para dormir: as esteiras diretamente usadas no solo e as redes suspensas. A produção varia de acordo com os grupos indígenas, sendo, às vezes, feita exclusivamente pelos homens, pelas mulheres ou por ambos os sexos. Geralmente, a rede seria de uso individual, exceto por crianças pequenas, que dormem com os parentes. As redes também podem ser objeto de aprimoramento quanto à decoração, ao acabamento e à estrutura.
Além do uso doméstico, a autora também considera que as redes apresentam uma simbologia que explica sua produção feminina nos wayâna-aparaí a partir de técnicas incorporadas desde tempos míticos pela conhecida “ancestral das aranhas” (Velthem, 1986, p. 99). Outra simbologia do uso da rede estaria relacionada à morte, sendo:
. . . importante para um wayâna-aparaí morrer em sua rede. Seu princípio espiritual, o akwali deve seguir um caminho que passa pelo punho e cordas das redes, prossegue pelos esteios e teto da casa e continua, agora, fora do contato dos homens
(Velthem, 1986, p. 99).
A função das esteiras seria muito similar à das redes. Segundo O’Neale (1986a), são parte do mobiliário de habitação, sendo usadas para cobrir o chão, como colchão, ou como lençol ou cobertor. Também podem ser usadas para fazer berços para os recém-nascidos, sendo penduradas pelos seus cantos ou transformadas em redes, e igualmente como mortalhas em rituais funerários.
Destacamos que a leitura das narrativas etnográficas, descrevendo práticas funerárias realizadas por diversos grupos indígenas dos dois grandes troncos linguísticos, que povoaram grande parte do território brasileiro, os Macro-Jê e os Tupi – tais como os arawak, kamaiurá, tapirapé, tupinambá, ka’apor, asurini, apinayé, krahó, entre outros –, confirma a realização dos sepultamentos primários dos corpos dos mortos envolvidos em redes ou esteiras feitas em fibras vegetais, para serem dispostos em covas escavadas na terra (Carneiro da Cunha, 1978; Métraux, 1947; L. Ribeiro, 2002; Vilaça, 1992; Viveiros de Castro, 1986).
Dentro dessa prática funerária, a etnografia permite entender os dois usos fundamentais das redes e/ou esteiras feitas de fibras vegetais. Por um lado, destaca-se a sua utilização como recipientes funerários, principalmente em grupos pré-cerâmicos (mas não exclusivamente); por outro lado, a sua função como isolante ou protetor, ou seja, para evitar o contato direto dos corpos com a terra. Outros elementos perecíveis, como capim, palhas ou cascas de árvores, também são mencionados nos relatos etnográficos, bem como a utilização da cestaria como acompanhamento funerário dos mortos (Beltrão et al., 2015; Py-Daniel, 2016). Alguns dos exemplos citados nos antecedentes e resumidos na Tabela 2 fazem referência a esses usos.
Neste cenário, o sítio Toca do Alto da Serra do Capim mostra claramente como esses relatos etnográficos podem ser aplicados para ajudar a interpretar as práticas funerárias de tempos mais antigos. Além disso, o estudo de caso aqui apresentado é um claro exemplo da dupla utilidade dos apetrechos para dormir, sejam esteiras ou redes, também adotados para enterrar os mortos. Por um lado, a estrutura de fibras vegetais entretorcidas cumpria sua função de conter o corpo da criança enterrada na cova 13. Ao mesmo tempo, por outro lado, tanto o equipamento para dormir do tipo esteira/rede quanto a estrutura vegetal de capim não elaborado, mas colocado em forma de ninho, cumpriam a outra função de manter o cadáver afastado do solo, protegido e sem contato com a terra durante o enterramento.
Também no sítio Toca do Enoque, ficam exemplificadas as mesmas funções nos elementos vegetais elaborados do tipo esteira/rede, bem como no capim que forrava a estrutura funerária do sepultamento 2. Além disso, pelos resultados das datações, ambos os locais demonstraram uma notável similitude temporal na realização dessas práticas mortuárias com uso de fibras vegetais.
Há milênios, os grupos indígenas ancestrais brasileiros mantêm, entre suas práticas funerárias, o sepultamento de seus mortos envoltos em redes e/ou esteiras, elaboradas a partir de fibras vegetais com técnicas de cestaria ou tecelagem. Os casos da cova 13, na Toca do Alto da Serra do Capim, e do sepultamento 2, na Toca do Enoque, evidenciam que, desde 5.000-5.500 anos antes do presente, essas práticas já estavam consolidadas nos costumes mortuários dos grupos humanos que habitavam desde os inícios do Holoceno a região Nordeste do Brasil.
AGRADECIMENTOS
In memoriam Niède Guidon. Agradecemos à Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) e ao Instituto Nacional de Arqueologia, Paleontologia e Ambiente do Semiárido (INAPAS), pelo apoio institucional e financeiro para a realização do presente estudo. Agradecemos aos revisores anônimos pelas sugestões para melhoria do manuscrito para publicação.
DADOS DA PESQUISA
Os dados não foram depositados em repositório.
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