Resumo
A dignidade humana se constitui naquilo que é vivido e sentido, portanto é relevante investigar as relações entre o senso de dignidade dos idosos e a institucionalização. Esta revisão teve como objetivo identificar produções internacionais sobre dignidade em instituições de longa permanência na perspectiva de idosos institucionalizados e seus familiares. O material empírico, selecionado em junho de 2024, foi composto por 18 estudos publicados entre 1998 e 2023. Os dados foram codificados e analisados quanto a similaridade temática. Duas unidades temáticas foram estabelecidas: dignidade para idosos e seus familiares na perspectiva da dimensão exterior e dignidade para idosos e seus familiares na perspectiva da dimensão interior. Conclui-se que a qualidade do cuidado, as condições do ambiente, o suporte familiar e as experiências psicoemocionais e espirituais têm papel fundamental na preservação (ou não) da dignidade.
Palavras-chave:
Instituição de longa permanência para idosos; Respeito; Idoso; Revisão
Abstract
Human dignity is constituted by what is lived and experienced; therefore, it is relevant to investigate the relationships between sense of dignity by elderly and institutionalization. This review aimed to identify international articles on dignity in long-term care institutions from the perspective of institutionalized elderly and their families. The empirical material, selected in June 2024, consisted of 18 studies published between 1998 and 2023. The data were coded and analyzed according to thematic similarity. Two thematic units were established: dignity for aged adults and their families from the perspective of the external dimension, and dignity for elderly and their families from the perspective of the internal dimension. It is concluded that the quality of care, environmental conditions, family support, and psycho-emotional and spiritual experiences play a fundamental role in the preservation (or not) of dignity.
Keywords:
Homes for the aged; Respect; Aged; Review
Resumen
La dignidad humana se constituye en aquello que se vive y se siente; por ello, resulta relevante investigar las relaciones entre el sentido de dignidad de los adultos mayores y la institucionalización. Esta revisión tuvo como objetivo identificar producciones internacionales sobre la dignidad en instituciones de larga estancia desde la perspectiva de los adultos mayores institucionalizados y sus familiares. El material empírico, seleccionado en junio de 2024, estuvo compuesto por 18 estudios publicados entre 1998 y 2023. Los datos fueron codificados y analizados según la similitud temática. Se establecieron dos unidades temáticas: la dignidad para los adultos mayores y sus familiares desde la perspectiva de la dimensión exterior, y la dignidad para los adultos mayores y sus familiares desde la perspectiva de la dimensión interior. Se concluye que la calidad del cuidado, las condiciones del entorno, el apoyo familiar y las experiencias psicoemocionales y espirituales desempeñan un papel fundamental en la preservación (o no) de la dignidad.
Palabras clave:
Hogares para ancianos; Respeto; Anciano; Revisión
Dignidade diz respeito ao valor intrínseco e à humanidade de cada ser, representa aquilo que determina o caráter de pessoa e que atribui valor à existência. É uma qualidade inata, independente de condições biológicas, que pode variar conforme as moralidades, concessões sociais ou comportamentais e que perdura durante toda a vida. A dignidade humana, que é sobretudo existencial e constituída por experiências, está atrelada à individualidade, ao caráter único de cada ser e à distinção de outros seres, marcada pela capacidade de regulação de si por meio da autonomia e da liberdade1.
A dignidade humana pode ser analisada em duas dimensões principais, a interior e a exterior. A dimensão interior compreende aspectos da identidade, do eu, da autoestima, da própria confiança, do respeito para consigo e da expressão de si. A segunda envolve a relação com o exterior, os valores, o que se partilha e se captura do mundo na interação com o outro e que subjetiva2. As experiências relativas à dignidade podem ser apreendidas com base em narrativas e estados emocionais, especialmente aqueles vinculados a situações de remorso, pesar e amor1.
O remorso permite acessar o valor daquele que foi injustiçado, prejudicado por alguém, por sua característica única. O pesar, especialmente vinculado à perda, traz à consciência o fato de que ninguém pode substituir quem foi perdido, pois este era um ser único. O amor possibilita reconhecer que, se alguém ama uma pessoa, ela o faz não pelas qualidades ou habilidades desta, mas por sua essência. Tais estados refletem a preciosidade e o valor insubstituível, ou seja, a dignidade de cada ser1.
Nesse sentido, o conceito de dignidade tem sido utilizado em diferentes áreas do conhecimento, como a da saúde. Na medicina, por exemplo, a dignidade contempla um status ou valor norteado pela defesa da autonomia e o respeito às escolhas de pessoas doentes ou incapacitadas em suas trajetórias no sistema de saúde. Na avaliação clínica, é importante considerar autonomia, autorrespeito e espiritualidade como elementos intrínsecos a serem mobilizados para preservar a dignidade, além do teor e qualidade do cuidado, elementos extrínsecos. A cultura do cuidado baseada no excesso de burocracia e relações assimétricas entre pacientes e médicos, marcadas por ações como indiferença, rejeição, objetificação, rotulação, desprezo, discriminação, repulsa e privação, são fatores que fragilizam a promoção da dignidade relacionada à saúde3.
Na enfermagem, a dignidade é considerada a essência do cuidado e está relacionada a características individuais e sociais, sendo as individuais percebidas como um sentimento interior de ser bom, de autoestima, de ser valorizado e respeitado, e as sociais associadas às relações estabelecidas com amigos, familiares e profissionais, mediadas por comunicação, cultura e crenças4. Em seus atributos individuais, a dignidade compreende ainda aspectos da personalidade e do valor especial que cada um contém. E, enquanto atributos sociais, respeito e autonomia devem balizar as ações de enfermagem no que tange à promoção da dignidade humana. Tais ações abarcam, por exemplo, o respeito à privacidade, à confidencialidade e à crença e o reconhecimento dos direitos e necessidades daquele que é cuidado5.
Ademais, dignidade no cuidado deve considerar as especificidades da fase do adoecimento, a velhice e o fim da vida4. Internacionalmente3, ferramentas e intervenções têm sido desenvolvidas para avaliar e promover dignidade. Entre as ferramentas de avaliação, destacam-se a pergunta de dignidade do paciente (patient dignity question [PDQ]), o instrumento de medição para dignidade Amsterdam (measurement instrument for dignity Amsterdam [MIDAM]), a escala de dignidade do paciente internado (inpatient dignity scale [IPDS]) e o inventário de dignidade do paciente (patient dignity inventory [PDI]). Quanto às intervenções, a terapia da dignidade (dignity therapy [DT]), a abordagem de dignidade no cuidado e a revisão de vida estão entre as mais utilizadas tanto em ambientes hospitalares quanto em instituições de longa permanência de idosos (ILPI).
ILPI são instituições públicas ou privadas que têm por característica o acolhimento e a assistência a pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, ou seja, idosos, normalmente com alguma dependência, com ou sem apoio familiar6. Na maioria dos casos, especialmente em instituições públicas, identificam-se residentes com risco social devido a violência, abandono e dependência oriunda do adoecimento, sobretudo psíquico e/ou neurológico7. Em tais instituições, deve ser assegurado o direito de viver a vida (ou o final dela) com liberdade, cidadania e dignidade6.
Em uma perspectiva global, a definição cronológica mais aceita para pessoa idosa considera a idade superior a 65 anos para quem vive em países desenvolvidos e 60 para quem vive em países em desenvolvimento8. Estudo japonês9 propôs a alteração desse limitador para 75 anos, tendo em vista a mudança do estilo de vida nessa fase, que passou a ser mais ativo e saudável, em especial nos países desenvolvidos. Tal mudança propiciou aumento dos anos de vida em virtude de melhores habilidades físicas, rejuvenescimento e redução de doenças neurovasculares e circulatórias, o que, por sua vez, exige reformas dos sistemas de seguridade social para melhor assistir a população idosa. Independentemente do delimitador, é fundamental que conceituações baseadas em parâmetros cronológicos observem os contextos sociais, econômicos e históricos de cada país9.
Ainda assim, pessoas idosas costumam apresentar declínio funcional associado a progressão de doenças crônicas e multimorbidade, o que resulta na maior probabilidade de institucionalização conforme a progressão etária, especialmente na ausência de companheiro e filhos, ou na presença de baixa escolaridade, sedentarismo, uso de medicamentos, necessidade de suporte para mobilidade, além de diagnóstico de Alzheimer ou outras demências, de comprometimento cognitivo e de dependência para realizar atividades básicas da vida diária10.
Sob esse prisma, a promoção da dignidade em pessoas idosas com demência, por exemplo, requer a identificação de valores pessoais e da autoidentidade precocemente, isto é, antes da perda completa das funções cognitivas. Com isso, é possível promover respeito às preferências mesmo diante do comprometimento e assegurar o mínimo de autonomia pela adaptação dos cuidados e do ambiente às habilidades preservadas11.
Em contrapartida, a institucionalização pode provocar depressão, sentimento de solidão, isolamento, falta de propósito e sensação de inutilidade, decorrências que podem ser reduzidas com estratégias de socialização que visem a partilha de momentos, histórias de vida, conhecimentos pessoais e/ou intergeracionais12. De igual modo, a estadia em ILPI pode comprometer necessidades humanas básicas psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais dos idosos e repercutir em diagnósticos de enfermagem, tais como eliminação urinária prejudicada, mobilidade física prejudicada, déficit no autocuidado para banho, síndrome do idoso frágil, desesperança, baixa autoestima situacional, risco de solidão, medo e relacionamento ineficaz13.
Justifica-se, portanto, a relevância de investigar as relações entre institucionalização e comprometimento do senso de dignidade dos idosos tanto em relação a atributos individuais ou interiores quanto a sociais ou exteriores. O objetivo deste estudo foi identificar produções internacionais sobre dignidade em instituição de longa permanência na perspectiva de idosos institucionalizados e seus familiares.
Método
Trata-se de revisão integrativa sustentada em seis etapas: identificação do tema e definição da pergunta norteadora; estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; definição das informações a serem extraídas; análise dos estudos incluídos; interpretação e discussão dos resultados; e apresentação da revisão14.
Para definir a questão norteadora, teve-se como base a estratégia PICo: no caso, população (P) corresponde a idosos institucionalizados e seus familiares; interesse (I), a dignidade; e contexto (Co), a institucionalização. Dessa forma, elaborou-se a seguinte questão de pesquisa: “Quais são as produções sobre dignidade de idosos em instituição de longa permanência?”.
O levantamento dos estudos ocorreu no mês de junho de 2024, nas bases de dados eletrônicas Medical Literature and Retrieval System Online (Medline), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Web of Science, da Clarivate Analytics, e PsycINFO, da American Psychological Association. Foram utilizados os descritores indexados Medical Subject Headings (MESH) “respect”, “dignity therapy”, “aged”, “homes for the aged”, “family e health of institutionalized elderly” com o operador booleano “and”.
Foram incluídos artigos originais nos idiomas inglês, português ou espanhol com idosos institucionalizados ou seus familiares, disponíveis para acesso na íntegra gratuitamente ou via portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculado à plataforma Comunidade Acadêmica Federada, provida pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa. Não foi estabelecida delimitação temporal, a fim de obter maior número de estudos. Foram excluídos documentos como teses, dissertações, editoriais, artigos de revisão, protocolos de pesquisa, ensaios, comentários, relatos de experiência e resumos ou artigos publicados em anais de evento.
Após a associação dos descritores, foram identificados 6.494 documentos. Os arquivos extraídos das bases de dados foram transferidos para o aplicativo on-line gratuito Rayyan - Intelligent Systematic Review. A leitura foi realizada utilizando o método de dupla verificação às cegas. Em caso de conflito, uma terceira revisora foi acionada para determinar a inclusão ou não do documento. O fluxograma apresentado na Figura 1, baseado no modelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)15, mostra o passo a passo desta etapa.
Para extração de dados e caracterização, utilizou-se formulário construído no aplicativo de gerenciamento de pesquisas do Google. As seguintes informações foram extraídas: título, autores, ano, país, revista, abordagem do estudo, área de atuação dos autores, participantes do estudo, técnica de produção dos dados, referencial ou marco teórico, delineamento de pesquisa, objetivo do estudo, doença do participante do estudo e dignidade e aspectos envolvidos na dignidade.
Os dados coletados sobre dignidade e aspectos envolvidos na dignidade foram armazenados no programa Atlas.ti para codificação e análise por similaridade temática16. Ao final, 16 códigos compuseram o livro de códigos selecionados em 153 excertos, os quais foram agrupados para composição das duas unidades temáticas: dignidade para idosos e seus familiares na perspectiva da dimensão exterior; e dignidade para idosos e seus familiares na perspectiva da dimensão interior, baseadas no modelo em que a dignidade humana é dividida em dois conceitos principais (dignidade na perspectiva da dimensão exterior e dignidade na perspectiva da dimensão interior) (2.
Resultados
Os 18 estudos analisados estão caracterizados no Quadro 1.
Em 14 estudos17)-(23),(25),(26),(28),(31)-(34, os participantes eram idosos institucionalizados; dois27),(30 foram realizados com familiares; e dois24),(29, com idosos institucionalizados e familiares. A principal técnica de produção de dados foi a entrevista17)-(26),(28),(30)-(34, e apenas um estudo utilizou a ferramenta terapêutica TD29. Entre os países de realização dos estudos estão Brasil25, Alemanha32, Canadá30, Eslovênia20, Estados Unidos34, Finlândia24, Holanda28, Japão21, Suíça22, Suécia19, Taiwan33, Índia18, Reino Unido17),(26),(29),(31, Dinamarca, Suécia e Noruega23),(27.
Dignidade para idosos e familiares
Perspectiva da dimensão exterior
O comportamento dos profissionais de saúde impacta a percepção de dignidade dos idosos institucionalizados19. Palavras ríspidas, longos períodos de espera por cuidados, falta de atenção e de integralidade no atendimento, despreparo e rigidez da equipe nas rotinas19),(20 constituem atitudes que negligenciam a dignidade e geram sentimentos negativos nos residentes, como impotência20 e desamparo23. Além disso, práticas de cuidado que desconsideram a privacidade e a autonomia do indivíduo podem diminuir ainda mais a sensação de dignidade31.
Os artigos mostraram que a ausência ou escassez de profissionais nas instituições agrava o sentimento de desamparo18),(28. Falta de tempo, ausência de pessoal e sobrecarga de tarefas dificultam a construção de relações entre os idosos e seus cuidadores e comprometem a atenção e a qualidade do cuidado18),(28),(32, resultando no rompimento da dignidade dos idosos institucionalizados, que frequentemente se veem obrigados a esperar por ajuda ou a receber cuidados em condições de pressa e descaso28.
O cuidado individualizado é fundamental para garantir a dignidade dos idosos27. Quando a equipe é sensível, gentil, atenciosa, disposta a ouvir e a encorajar o idoso a realizar atividades cotidianas de forma independente, a qualidade do cuidado melhora e permite que os idosos se sintam valorizados e respeitados22),(24. Profissionais que priorizam o diálogo21, que flexibilizam as rotinas para atender a necessidades específicas24 e que incentivam a independência26 demonstram compromisso com a dignidade.
Além disso, quando as necessidades básicas são atendidas com empatia e respeito, a percepção de dignidade aumenta. Cuidados com alimentação, higiene, ajuda para realizar independentemente as atividades diárias25, gerenciamento de sintomas31 e ajuda para manter a saúde física e psicológica22, quando realizados de forma respeitosa, sensível e individual, proporcionam bem-estar e satisfação com o cuidado e, com isso, favorecem nos residentes a percepção de estarem vivendo uma vida digna, apesar das limitações físicas27),(30.
O uso da TD pode tornar a vida de idosos institucionalizados mais significativa e melhorar a qualidade de vida, aumentar o senso de propósito e a vontade de viver e diminuir o sofrimento. Ademais, pode ajudar famílias, pois se mostrou prática eficaz para promover boa experiência de fim de vida29.
O respeito também se manifesta quando as decisões sobre a vida dos residentes são compartilhadas não só com eles, mas também com suas famílias. A participação ativa dos idosos e seus entes nas decisões sobre os cuidados e no recebimento de informações claras e contínuas é essencial para preservar a dignidade e garantir que as necessidades dos idosos sejam atendidas30.
Além disso, interações sociais e apoio familiar têm papel crucial na preservação da dignidade dos idosos institucionalizados33. Reencontros familiares, relação com outros residentes e encontros sociais foram relatados como requisitos básicos para a construção e manutenção da dignidade32. Também, a comunicação eficaz, que muitas vezes envolve superação de barreiras linguísticas e culturais, foi retratada como fundamental para evitar o isolamento social33.
ILPI podem ser bons lugares para viver25, e, ainda que confinados, alguns residentes sentem que a vida preserva seu significado, o que fortalece a dignidade28. Em contrapartida, para outros, a instituição nada mais é que um lugar para esperar a morte25, carregada de sentimentos de abandono, não pertencimento, inutilidade perante a sociedade e desvalorização, onde devem seguir regras e vontades impostas por terceiros28.
Discursos acerca da institucionalização versam desde “lar é onde você o faz”, em uma tentativa de ressignificar o ambiente, até outros associados ao sentimento de abandono, como “acabei de ser jogada” (21. Nesse contexto, alguns idosos conseguem se adaptar à nova rotina e aceitar a institucionalização e a dependência, os quais mantêm senso de dignidade maior do que aqueles que se recusam a aceitar a nova realidade28.
Um dos principais benefícios da institucionalização é o acesso garantido a serviços de saúde. O acesso contínuo e a disponibilidade de assistência são fatores essenciais para a melhoria da qualidade de vida de muitos idosos. Para aqueles que têm condições de saúde frágeis, a ILPI pode representar ambiente seguro e adequado para o tratamento de doenças, o que se traduz em melhora significativa em suas condições físicas25),(33.
Outro fator importante para a dignidade é o ambiente e a qualidade (ou não) das instalações. Condições precárias influem no bem-estar dos moradores e comprometem o senso de dignidade18. Alguns idosos relatam que a convivência em quartos compartilhados oferece sensação de segurança e companhia28. No entanto, outros manifestam que a privacidade é fator essencial para a manutenção da dignidade31.
O lazer também ocupa espaço importante na rotina dos idosos institucionalizados. Funciona não só como forma de distração, mas como meio de preservar a dignidade, seja com atividades como exercícios físicos e caminhadas19 ou até mesmo com encontros sociais ou eventos religiosos18, na medida em que proporcionam momentos de prazer e interação22.
Perspectiva da dimensão interior
A dependência, seja para realizar atividades diárias ou para cuidar da própria saúde, é vivenciada pelos residentes como uma ameaça constante, já que se veem incapazes de cuidar de si19),(23),(32. Problemas físicos como cansaço, dor e perda de funções são os principais responsáveis por essa sensação de perda de dignidade, pois a perda das habilidades para cuidar de si mostra-se progressiva19.
A dependência acarreta sentimentos de ser um fardo para quem cuida20),(23, solidão19),(28, angústia e incapacidade26, falta de propósito19, constrangimento31, raiva e tristeza20. Além disso, os idosos institucionalizados consideram que ser dependente é uma ameaça à autonomia23 e à própria identidade17, já que a saúde declina enquanto a doença progride, o corpo e a força já não são mais os mesmos e a necessidade de ajuda aumenta17.
Idosos apresentam certa resistência em solicitar ajuda, pois isso os faz lembrar constantemente do peso da dependência e da perda de autonomia33. Estudo mostrou que ensinar e estimular os idosos a cuidar de sua higiene pessoal de forma independente gerou esforços contínuos para participar ativamente dos próprios cuidados19. Essa busca em manter a autonomia e o senso de dignidade nos idosos permite-lhes sentir que ainda detêm controle sobre aspectos importantes de suas vidas23.
O ato de depender de outras pessoas para cuidados tão íntimos como higiene pessoal e higiene oral pode ser visto como uma invasão da privacidade. Para muitos desses idosos, a manutenção da higiene dental, seja com dentes naturais ou próteses dentárias, está diretamente ligada à manutenção da identidade pessoal e da aparência, parte fundamental do que consideram sua dignidade17.
Em nível emocional, a dependência não se restringe ao impacto físico, mas também afeta a saúde mental e a autoestima dos idosos. A sensação de não ser mais capaz de desempenhar papéis importantes, de não conseguir lutar contra os desafios da doença e de estar preso a uma rotina que não mais reflete quem eram gera profunda angústia26. Solidão, falta de perspectiva de melhora na saúde28 e medo da morte31 contribuem para sentimentos de depressão e desesperança. Esse declínio na saúde e na funcionalidade corporal é frequentemente acompanhado por um sentimento de que a vida perdeu o valor e pela perda da continuidade de si26.
A manutenção das características pessoais apesar da doença, a comunicação e a preservação de habilidades cognitivas são consideradas essenciais para manter a dignidade19),(28. Para muitos, a perda da capacidade de se comunicar ou o desenvolvimento de doenças cognitivas como esquecimento, sentimento de desempoderamento, violação, infantilização e subvalorização são vistos como fatores que afetam a dignidade27. Apesar disso, alguns idosos ainda conseguem manter um nível de autoestima ao se defenderem ou mostrarem-se indiferentes às opiniões externas28.
A busca por dignidade se transforma em busca por reconhecimento devido à velhice a partir de uma tentativa de manter a dignidade apesar dela, seja por meio da adaptação às regras organizacionais ou à gestão das implicações econômicas e pessoais, ao autocuidado e à tomada de decisões32.
Ter uma morte digna também é algo considerado importante por idosos. Ser ativo até o último momento, ter respeito pelas vontades, não sentir dor, estar próximo a pessoas importantes para si, dizer adeus em particular e morrer na hora certa significa manutenção da dignidade até o último minuto de vida32.
Além disso, a fé religiosa oferece uma fonte de conforto e esperança diante das dificuldades da doença e da perda de autonomia28),(34. Crenças religiosas podem atenuar o medo da morte e proporcionar um sentido de paz e aceitação. Sentir-se apoiado por sua fé ajuda os idosos a preservarem a dignidade e a se resignarem para seguir em frente28.
Ainda, a relação dos idosos com respeito e liberdade é essencial para a preservação da dignidade, especialmente no contexto da institucionalização. Mesmo enfrentando transtornos neurocognitivos e diminuição na capacidade de realizar tarefas diárias, idosos ainda expressam necessidade de respeito a privacidade, autonomia e história de vida. O respeito por suas vidas privadas foi destacado como fator crucial, já que os conecta a sua identidade e personalidade22.
A violação da dignidade e do respeito ocorre quando os idosos não são vistos pelos outros como indivíduos únicos, mas como parte de um grupo, o que desconsidera suas necessidades e desejos27. Quando suas promessas não são cumpridas ou quando não têm a oportunidade de tomar as próprias decisões, a sensação de desrespeito se intensifica27),(28.
Finalmente, ter liberdade é importante para manter a dignidade23. ILPI, especialmente privadas, impõem severas restrições que levam a sentimentos de aprisionamento e falta de liberdade18. Além disso, os idosos sentem-se privados da capacidade de decidir por si mesmos20, ainda que tenham liberdade para pensar o que querem23. Embora mantenham a liberdade de pensar, essa autonomia é anulada por limitações físicas e falta de escolha em ações cotidianas. Portas trancadas, por exemplo, simbolizam a perda da liberdade e da autonomia, enquanto dividir quarto com alguém desconhecido também representa uma violação de sua liberdade pessoal e espaço íntimo23.
Discussão
A promoção da dignidade na perspectiva da dimensão exterior abrange tanto as práticas desenvolvidas por profissionais de saúde quanto os fatores socioestruturais que permeiam a vivência dos idosos institucionalizados em ILPI, os quais influenciam diretamente a percepção de respeito, valor e reconhecimento do idoso como sujeito singular.
A assistência da equipe multiprofissional é central para essa promoção, pois favorece atenção em saúde mais efetiva e integral, desde que assista e priorize o indivíduo em todas as dimensões, sejam elas físicas, sociais, emocionais ou psíquicas35. Além disso, o modo de agir e cuidar, se pautado no domínio do processo de envelhecimento, avaliação das condições de saúde, gestão dos agravos crônicos e, sobretudo, em atitudes relacionais como comunicação empática e respeito, exerce impacto significativo na percepção de qualidade de vida, bem-estar, autonomia e dignidade36. Por outro lado, a ausência ou escassez de profissionais compromete a qualidade do cuidado, intensifica sentimentos de angústia e desamparo entre idosos institucionalizados e sobrecarrega os trabalhadores, causando danos à saúde, principalmente mental, dos trabalhadores das instituições37.
O respeito à individualidade constitui elemento essencial para a preservação da dignidade. Ações voltadas a demandas nutricionais, de higiene e conforto, quando realizadas de forma adequada e respeitosa, transcendem a dimensão técnica e reafirmam o reconhecimento do idoso como ser humano, contribuindo para a preservação de sua identidade e autoestima38. Nesse sentido, intervenções terapêuticas como a terapia da dignidade destacam-se por favorecer reflexão sobre a trajetória de vida, o enfrentamento do sofrimento psicossocial e a atribuição de sentido à existência39.
A institucionalização pode suscitar sentimentos ambíguos, que oscilam entre aprovação e contentamento com o ambiente e desconforto, impotência e perda de autonomia. Mudanças nas rotinas e nas relações sociais e a necessidade de seguir normas institucionais podem impactar negativamente a percepção de liberdade e dignidade40. Nesse contexto, a relação dos profissionais de saúde com os familiares, principalmente no que diz respeito ao diálogo, assume papel fundamental pois fortalece vínculos, favorece a tomada de decisões compartilhadas e reduz angústias e incertezas relacionadas ao cuidado e à institucionalização41. Além disso, atividades de lazer constituem estratégia relevante dentro das ILPI, já que promovem bem-estar e satisfação e auxiliam no afastamento da solidão42.
Na perspectiva interior, a dignidade está fortemente associada à manutenção da autonomia e independência. Limitações físicas e funcionais intensificam sentimentos de incapacidade e perda de propósito, de modo que afetam a autoestima e o valor atribuído a si43. Sob a ótica emocional, a dependência produz efeitos negativos tanto na saúde mental, principalmente atrelados a depressão, quanto na autoestima de idosos, agravados por isolamento social e rotina institucional44. Além disso, a dignidade está relacionada a subjetividade e individualismo, e, por isso, estereotipar idosos como grupo homogêneo afasta sua individualidade e contribui para o desprezo do direito da dignidade45, noção corroborada pelos resultados obtidos nesta revisão, segundo os quais manter as características próprias e preservar a autoestima é modo de cultivar a dignidade.
Nessa perspectiva, a autonomia emerge como expressão de relações sociais e programáticas que revelam diferentes formas de vulnerabilidade (interpessoal, social e programática) no cotidiano do cuidado. Os desafios comuns enfrentados pelos idosos, como isolamento social e inadequações nas rotinas dos serviços, funcionam como marcadores dessa vulnerabilidade e exigem estratégias de atenção que respeitam as necessidades singulares de cada indivíduo, ao mesmo tempo que promovem uma prática de cuidado ética e responsiva às circunstâncias de vida dos idosos46.
Viver com dignidade implica também morrer com dignidade. Morte digna é entendida como aquela que prioriza alívio do sofrimento, controle da dor, respeito ao curso natural da vida e suporte emocional, espiritual e familiar e, assim, promove conforto e serenidade no fim da vida47. Nesse processo, crenças religiosas oferecem conforto e atenuam o medo da morte, uma vez que auxiliam na preservação da dignidade48.
Por fim, a dignidade é percebida quando o respeito é mantido e história de vida, liberdade e privacidade são preservadas. A dignidade no cuidado aos idosos é vista quando há experiência de respeito, confiança, segurança e caridade, sendo que o cuidado digno é baseado no respeito e na gentileza. Dignidade e respeito são violados quando os idosos são vistos como pertencentes a um grupo e não participam de decisões sobre sua própria saúde, quando há sentimento de abandono, não pertencimento, esquecimento e solidão49.
Considerações finais
Ao identificar e analisar produções internacionais acerca da dignidade em instituições de longa permanência na perspectiva de idosos institucionalizados e seus familiares, esta revisão evidenciou importante lacuna na literatura, sobretudo no contexto brasileiro. Destacam-se como limitação deste trabalho os idiomas privilegiados; o fato de apenas um estudo ter sido realizado no contexto nacional; e a pouca quantidade de pesquisas que investigam a opinião dos idosos acerca da dignidade no contexto da institucionalização. Ainda assim, esta revisão promove avanço pela sistematização e integração de evidências, que contribui para a compreensão da dignidade enquanto fenômeno multidimensional, atravessado por fatores individuais, relacionais e institucionais.
Os achados indicam que a qualidade do cuidado, as condições do ambiente e suporte familiar são centrais na preservação ou violação da dignidade dos idosos institucionalizados. A atuação de equipes de saúde atentas, empáticas e respeitosas, aliada à satisfação das necessidades básicas, favorece o bem-estar, a autoestima e o reconhecimento do idoso como sujeito digno. Ademais, a interação social, especialmente com familiares e outros residentes, fortalece o senso de pertencimento e continuidade dos vínculos afetivos e, portanto, também se configura como fator protetivo da dignidade.
Em contrapartida, falta de atenção, desconsideração das necessidades individuais, sobrecarga de tarefas dos profissionais e condições precárias nas ILPI podem intensificar sentimentos de desamparo, impotência e exclusão e comprometer a dignidade física e emocional dos residentes. O ambiente institucional, portanto, emerge não apenas como espaço de cuidado, mas como elemento estruturante da experiência de dignidade.
Além disso, esta revisão evidencia que experiências psicoemocionais e espirituais podem impactar a preservação da autonomia e a capacidade de atribuir sentido e valor à vida. Crenças religiosas são fonte de consolo, aliviam o medo da morte e proporcionam sensação de paz, aceitação e força. A fé permite aos idosos encontrar um sentido de continuidade e pertencimento, essencial para manter a dignidade interna até o fim da vida.
Finalmente, os resultados ampliam a compreensão da dignidade para além de um atributo individual, na medida em que ressaltam seu caráter relacional e contextual. Esses achados oferecem subsídios relevantes para a qualificação das práticas assistenciais, a formação de profissionais de saúde e a formulação de políticas públicas voltadas à promoção de um cuidado ético, humanizado e centrado na singularidade dos idosos institucionalizados.
Disponibilidade de dados:
Todos os dados utilizados ou gerados na pesquisa estão integralmente descritos e apresentados no corpo do artigo.
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