RESUMO
Introdução: A cirurgia bariátrica robótica consolidou-se como abordagem segura e eficaz para o tratamento da obesidade grave. Em paralelo, avanços recentes em conectividade e em infraestrutura digital têm reacendido o interesse pela telecirurgia como estratégia para ampliar o acesso à cirurgia especializada, especialmente em cenários de desigualdade na distribuição de centros de excelência.
Objetivo: Discutir a cirurgia bariátrica robótica como plataforma estratégica para o desenvolvimento da telecirurgia, com ênfase em suas implicações para assistência, ensino médico e pesquisa acadêmica.
Método: Revisão dos fundamentos da cirurgia bariátrica robótica, a evolução conceitual da telecirurgia e o potencial da cirurgia bariátrica como modelo aplicável às intervenções remotas, discutindo os impactos na formação e supervisão de equipes cirúrgicas, os principais desafios técnicos além das questões éticas, legais e regulatórias envolvidas na implementação.
Resultado: Considerando-se somente artigos que tivessem maior relação ao tema, foi realizada a leitura da íntegra dos textos e incluíram-se 21 artigos.
Conclusão: A cirurgia bariátrica robótica ultrapassa o papel de técnica minimamente invasiva e se configura como elemento central na transformação digital da cirurgia. Sua integração progressiva à telecirurgia pode contribuir para a democratização do acesso, inovação no ensino e fortalecimento da pesquisa cirúrgica, desde que implementada de forma gradual e segura.
PALAVRAS-CHAVE:
Telecirurgia; Cirurgia robótica; Robótica médica; Inovação em saúde
ABSTRACT
Introduction: Robotic bariatric surgery has established itself as a safe and effective approach for the treatment of severe obesity. At the same time, recent advances in connectivity and digital infrastructure have rekindled interest in telesurgery as a strategy to expand access to specialized surgery, especially in scenarios of inequality in the distribution of centers of excellence.
Objective: To discuss robotic bariatric surgery as a strategic platform for the development of telesurgery, with emphasis on its implications for care, medical education and academic research. Method: Review of the fundamentals of robotic bariatric surgery, the conceptual evolution of telesurgery and the potential of bariatric surgery as a model applicable to remote interventions, discussing the impacts on the formation and supervision of surgical teams, the main technical challenges in addition to the ethical, legal and regulatory issues involved in the implementation.
Results: Considering only articles that were more related to the theme, the full texts were read and 21 articles were included.
Conclusion: Robotic bariatric surgery goes beyond the role of a minimally invasive technique and is a central element in the digital transformation of surgery. Its progressive integration into telesurgery can contribute to the democratization of access, innovation in teaching, and strengthening of surgical research as long as it is implemented gradually and safely.
KEYWORD:
Telesurgery; Robotic surgery; Medical robotics; Innovation in health
INTRODUÇÃO
A incorporação contínua de tecnologias avançadas na prática cirúrgica remodelou profundamente os modelos contemporâneos de cuidado ao paciente, educação médica e pesquisa translacional. Entre essas inovações, a cirurgia robótica emergiu, não apenas como um refinamento incremental da laparoscopia, mas como plataforma tecnológica capaz de integrar mecânica de precisão, sistemas digitais de controle, transmissão de dados em tempo real e imagens avançadas.1-5
Na cirurgia bariátrica e metabólica, procedimentos assistidos por robô têm demonstrado progressivamente segurança, viabilidade e reprodutibilidade, especialmente em cenários tecnicamente exigentes, como cirurgia revisional, pacientes superobesos e suturas de maior complexidade.2,6-9 No entanto, a relevância das plataformas robóticas vai além da ergonomia operacional ou destreza.
Embora a telecirurgia tenha sido conceitualmente introduzida há mais de duas décadas, sua ampla adoção clínica foi historicamente limitada por restrições relacionadas à latência da comunicação, confiabilidade da rede, cibersegurança e custos de sistemas.1,10 Avanços recentes em conectividade de alta velocidade, redes de baixa latência, protocolos de criptografia e confiabilidade de sistemas robóticos redefiniram a viabilidade das aplicações cirúrgicas remotas.4,11 Esses avanços posicionam a cirurgia bariátrica robótica como um campo particularmente relevante para a telecirurgia dentro de quadro moderno e realista.3,4,9,12
Dada a carga global da obesidade, a distribuição geográfica desigual de cirurgiões bariátricos especializados e a natureza padronizada de muitos procedimentos bariátricos, reafirma-se que a cirurgia bariátrica robótica representa modelo atraente para explorar a integração da telecirurgia na prática clínica, no treinamento acadêmico e na pesquisa.3,7-9,12
Este artigo teve como objetivo discutir a cirurgia bariátrica robótica como plataforma estratégica para a telecirurgia, enfatizando suas implicações para a educação médica multidisciplinar e a investigação científica.
MÉTODO
Revisão integrativa feita colhendo informações para leitura e análise a partir de pesquisa online em plataformas virtuais. Inicialmente foi realizada busca por descritores DECs relacionados ao tema, utilizando os seguintes unitermos: “telecirurgia, cirurgia robótica, robótica médica, inovação em saúde” com busca AND ou OR, considerando o título e/ou resumo; os escolhidos foram lidos na íntegra. O material para leitura e análise foi selecionado das plataformas SciELO, Google Scholar, Pubmed e Scopus. Após, considerando-se somente os que tinham maior relação ao tema, foi realizada a leitura da íntegra dos textos (Tabela).
RESULTADOS
A busca bibliográfica permitiu a identificação de estudos com diferentes enfoques, abrangendo desde o marco histórico da telecirurgia até aplicações contemporâneas da robótica em cirurgia bariátrica, treinamento cirúrgico, conectividade avançada e desafios ético-regulatórios. Após leitura dos títulos, resumos e textos completos, foram selecionados 21 artigos com maior aderência ao objetivo proposto nesta revisão (Tabela).
DISCUSSÃO
Cirurgia bariátrica robótica: além de uma técnica cirúrgica
A cirurgia bariátrica robótica evoluiu de abordagem alternativa minimamente invasiva para modalidade cirúrgica madura com atributos técnicos e educacionais distintos. Embora os princípios centrais dos procedimentos bariátricos como o bypass gástrico Roux-en-Y e a gastrectomia vertical permaneçam inalterados, os sistemas robóticos oferecem visualização aprimorada, instrumentação articulada, filtragem de tremores e ergonomia aprimorada do cirurgião.2,6,7
Do ponto de vista acadêmico, a importância da cirurgia bariátrica robótica está em seu potencial de padronização. Plataformas robóticas permitem a execução consistente de etapas operacionais críticas, facilitando a reprodutibilidade entre instituições e operadores. Essa padronização é particularmente valiosa para ambientes de pesquisa e estudos multicêntricos.2,7,8
Além disso, sistemas robóticos geram naturalmente dados digitais relacionados ao movimento dos instrumentos, tempo operacional, aplicação de forças e padrões de fluxo de trabalho. Esses fluxos de dados oferecem oportunidade única para avaliação objetiva do desempenho cirúrgico, aquisição de habilidades e curvas de aprendizado em área de relevância crescente na pesquisa em educação cirúrgica.3
Assim, a cirurgia bariátrica robótica deve ser vista não apenas como técnica minimamente invasiva, mas como tecnologia habilitadora para transformações mais amplas na prestação de cuidados cirúrgicos.3,4
Telecirurgia: conceito, evolução e cenário atual
Telecirurgia é definida como a realização de procedimentos cirúrgicos nos quais cirurgião e paciente estão geograficamente separados, conectados por sistemas robóticos e redes avançadas de telecomunicações.1,10 O marco histórico da telecirurgia é conhecido como “Operação Lindbergh” (2001), com colecistectomia realizada entre Nova York, USA e Estrasburgo. França.
Por muitos anos, a telecirurgia permaneceu em grande parte experimental, limitada por alta latência, largura de banda limitada e preocupações com segurança, confiabilidade e responsabilidade legal.4,10
Análises contemporâneas reforçam que essas limitações não são apenas tecnológicas, mas também éticas e organizacionais. Revisões recentes destacam que a superação dessas barreiras depende, não apenas do avanço das redes de comunicação, mas também da adoção de estruturas regulatórias claras, protocolos de segurança cibernética e modelos éticos adaptados às especificidades da telecirurgia.13
Nos últimos anos, entretanto, a rápida expansão da infraestrutura de fibra óptica, das redes móveis de quinta geração (5G) e dos protocolos seguros de transmissão de dados alteraram substancialmente esse cenário.4,11
Dohler et al. em 202514 destacaram que a introdução de redes 5G e 6G na telecirurgia não apenas melhora a latência e a confiabilidade, mas também oferece plataforma robusta para os avanços necessários em telecirurgia. As redes 5G, em particular, oferecem latência ultrabaixa e alta taxa de transferência de dados, essenciais para modalidades críticas como feedback cinestésico, audiovisual e tátil, fundamentais para a realização de procedimentos cirúrgicos remotos precisos.14
De acordo com Motiwala et al. em 202515, a redução da latência é um dos principais desafios que limita a viabilidade da telecirurgia em larga escala. O artigo revisa estratégias emergentes para minimizar esse atraso, como o uso de redes 5G, compensação de latência orientada por inteligência artificial (IA), e otimização da infraestrutura de rede. Tais abordagens são vistas como fundamentais para garantir maior precisão, destreza e segurança dos pacientes durante procedimentos teleoperados.
Paradigmas telecirúrgicos modernos agora abrangem espectro de interações remotas, incluindo: 1) teleproctoring, em que um cirurgião especialista fornece orientação em tempo real a partir de local remoto; 2) telementoria, envolvendo suporte educacional estruturado durante procedimentos presenciais; 3) teleoperação, na qual o cirurgião controla diretamente o sistema robótico a partir de local distante.4,12
Entre eles, a televigilância e a telementoria já demonstraram aplicabilidade prática na cirurgia bariátrica, especialmente para treinamento, credenciamento e disseminação de expertise. A teleoperação totalmente remota, embora tecnicamente viável, permanece limitada a ambientes altamente controlados e programas-piloto.1,11
Estudos experimentais recentes demonstram que esse cenário começa a se tornar factível também em países emergentes. Em 2025, foi realizada a primeira telecirurgia robótica experimental no Brasil, conectando duas cidades brasileiras separadas por aproximadamente 600 km, utilizando infraestrutura dedicada de fibra óptica com redundância em rede móvel. O procedimento foi executado com sucesso, apresentando latência ultrabaixa e estabilidade de comunicação durante todo o ato operatório, reforçando a viabilidade técnica da teleoperação robótica em ambientes altamente controlados e sob protocolos rigorosos de segurança.16
Do ponto de vista acadêmico, a telecirurgia representa convergência de cirurgia, engenharia, informática e ética.4 Sua integração na cirurgia bariátrica oferece oportunidade única para estudar não apenas resultados clínicos17, mas também eficiência educacional, resiliência do sistema e novos modelos de colaboração cirúrgica.2,3,12 Assim, a cirurgia bariátrica robótica oferece estrutura clínica ideal para avançar a pesquisa telecirúrgica e definir as melhores práticas para a implementação futura.2,4,11
A cirurgia bariátrica robótica como modelo estratégico para a telecirurgia
A cirurgia bariátrica reúne conjunto de características que a tornam particularmente adequada para servir como modelo estratégico na discussão e no desenvolvimento da telecirurgia. Trata-se de área com elevada prevalência de indicação, impacto significativo em saúde pública e distribuição geográfica desigual de profissionais altamente especializados.2,7,8 Em muitos países, centros de excelência concentram-se em grandes áreas urbanas, enquanto regiões periféricas ou remotas enfrentam limitações estruturais e humanas para oferecer tratamento cirúrgico adequado à obesidade grave.2,4
A cirurgia robótica potencializa esse cenário ao oferecer estabilidade de movimentos, visão tridimensional de alta definição e instrumentos articulados, que permitem maior precisão em ambientes controlados digitalmente.2,7 Esses atributos são fundamentais para qualquer aplicação de procedimento cirúrgico à distância, pois reduzem a dependência de habilidades manuais finas diretamente mediadas pelo contato físico com o paciente.1,4
Nesse contexto, a cirurgia bariátrica robótica pode ser compreendida como campo de prova clínico e acadêmico para a telecirurgia.2-4
A realização recente de um procedimento robótico teleoperado em modelo experimental no Brasil reforça esse conceito de campo de prova clínico e acadêmico. Embora não realizado no contexto bariátrico, o estudo validou aspectos fundamentais para a telecirurgia, como estabilidade de rede, latência segura, redundância de comunicação e controle remoto preciso do sistema robótico, elementos indispensáveis para futuras aplicações clínicas mais complexas.16
Impactos no ensino médico e na pesquisa acadêmica
A incorporação da cirurgia bariátrica robótica no contexto da telecirurgia tem implicações diretas e profundas no ensino médico e na pesquisa científica.3,4,12 Do ponto de vista educacional, a possibilidade de supervisão e mentoria à distância redefine os modelos tradicionais de formação cirúrgica, permitindo que especialistas experientes acompanhem, orientem e avaliem procedimentos realizados em centros distintos, sem a necessidade de deslocamento físico.4,12
Essa abordagem tem especial relevância para programas de residência médica, pós-graduação e treinamento avançado, pois amplia o acesso a expertise especializada e reduz desigualdades regionais na formação cirúrgica.2,4,12 Além disso, a cirurgia robótica possibilita o registro sistemático e padronizado de dados operatórios, criando ambiente favorável à avaliação objetiva de desempenho, aquisição de habilidades e curva de aprendizado.3
O desenvolvimento recente de sistemas de treinamento em cirurgia robótica com foco em ampla acessibilidade reforça esse potencial educacional e científico. Em 2025, foi descrita a criação de uma plataforma de treinamento robótico de baixo custo, projetada para uso local e remoto, incorporando teleoperação, ambiente de gêmeo digital (digital twin) e monitoramento em tempo real. O sistema demonstrou alta precisão no controle dos instrumentos, manutenção rigorosa do centro remoto de movimento e latência muito baixa, configurando-se como ferramenta robusta para treinamento cirúrgico, pesquisa experimental e validação de modelos educacionais em ambientes acadêmicos.18
No campo da pesquisa, a robótica associada à telecirurgia abre novas frentes de investigação translacional.3,4 Dados gerados pelos sistemas robóticos, como tempo de execução, trajetória dos instrumentos e padrões de movimento, podem ser utilizados para estudos multicêntricos, validação de modelos educacionais e desenvolvimento de ferramentas baseadas em inteligência artificial aplicadas à cirurgia.3
Por fim, a discussão sobre cirurgia bariátrica robótica e telecirurgia também estimula reflexões éticas, regulatórias e pedagógicas, fundamentais para a formação de médicos pesquisadores conscientes das responsabilidades associadas ao uso de tecnologias avançadas na prática clínica.1,4,10
Nesse contexto, iniciativas recentes de sociedades científicas internacionais têm reforçado a centralidade do ensino estruturado e da certificação profissional na evolução da telecirurgia. O consenso da Society of Robotic Surgery destaca a necessidade de programas de treinamento multidimensionais, critérios claros de proficiência e processos de credenciamento específicos para a prática telecirúrgica, priorizando desfechos clínicos, segurança do paciente e responsabilidade ética.19
Limitações atuais e desafios ético-regulatórios
Apesar do avanço significativo da cirurgia robótica e do renovado interesse pela telecirurgia, diversas limitações ainda restringem sua ampla adoção clínica, especialmente no contexto da cirurgia bariátrica.2,7,8 O custo elevado dos sistemas robóticos, aliado à necessidade de hospitais de referência com infraestrutura tecnológica adequada, permanece como uma das principais barreiras, particularmente em sistemas de saúde com recursos limitados.2,4
Frenkel et al. em 202320 discutiram a evolução da telecirurgia e os obstáculos éticos e regulatórios que surgem à medida que a tecnologia avança. Eles observaram que, além das limitações tecnológicas, a adoção de telesurgery depende de quadro normativo robusto, incluindo regulamentações claras sobre consentimento informado, responsabilidade profissional e a criação de infraestrutura legal que apoie a prática segura em diferentes contextos globais. A falta de diretrizes claras pode dificultar o crescimento e a adoção universal da telecirurgia.
Em 2024, Saikali et al.21 destacaram que, além dos desafios tecnológicos relacionados à latência e à conectividade, a telecirurgia enfrenta obstáculos administrativos e regulatórios significativos. A implementação global dela exige colaboração entre governos, instituições acadêmicas e sociedades médicas para superar questões como treinamento, certificação de cirurgiões e a criação de regulamentações internacionais claras. A resolução desses desafios é crucial para garantir que os benefícios da telecirurgia, como acesso global à cirurgia especializada, possam ser amplamente acessados sem comprometer a segurança do paciente.
Do ponto de vista técnico, a telecirurgia exige conectividade altamente estável, com latência mínima e redundância de sistemas, para garantir segurança operatória.1,4,11 Interrupções de sinal, falhas de transmissão de imagem ou atrasos na resposta dos comandos representam riscos inaceitáveis em procedimentos cirúrgicos complexos.1,10 Embora redes de alta velocidade tenham reduzido essas limitações, sua disponibilidade ainda é heterogênea.4,11
Revisões recentes têm aprofundado de forma sistemática esses desafios técnicos e éticos associados à telecirurgia. Aspectos como latência aceitável, qualidade de serviço da rede, segurança cibernética, proteção de dados sensíveis e confiabilidade dos sistemas robóticos são apontados como requisitos críticos para a prática telecirúrgica segura. Além disso, questões éticas relacionadas ao consentimento informado ampliado, à responsabilidade profissional compartilhada e à governança institucional são destacadas como elementos centrais para a implementação clínica responsável da telecirurgia.13
Os desafios éticos e regulatórios são igualmente relevantes. Questões relacionadas à responsabilidade profissional, consentimento informado, licenciamento médico interregional ou internacional e proteção de dados do paciente permanecem em debate.4,10
Estudos recentes da Society of Robotic Surgery (SRS) abordam esses pontos críticos e propõem um conjunto de diretrizes e recomendações para superar os desafios éticos e regulatórios na telecirurgia. O artigo de Patel et al. em 202413 destaca, em particular, a necessidade de governança compartilhada entre cirurgiões, instituições e autoridades reguladoras para garantir a implementação segura da telecirurgia em diferentes contextos globais. A definição clara de responsabilidades, o estabelecimento de padrões de treinamento e certificação, e a proteção dos dados do paciente são apontados como pilares para a evolução sustentável dessa prática.
Em cenários de telecirurgia torna-se fundamental definir claramente a responsabilidade entre o cirurgião remoto, a equipe local e a instituição de saúde envolvida.1,12
Essas preocupações foram recentemente sistematizadas em um consenso internacional promovido pela Society of Robotic Surgery (SRS), que reuniu especialistas globais em cirurgia, engenharia, telecomunicações, ética e políticas públicas. O encontro resultou em um consenso do tipo Delphi, estabelecendo recomendações sobre requisitos tecnológicos, segurança cibernética, treinamento, credenciamento profissional, aspectos legais e estruturas éticas necessárias para a implementação segura e escalável da telecirurgia. O documento enfatiza a necessidade de diretrizes padronizadas e de governança multidisciplinar para viabilizar a adoção responsável da telecirurgia em diferentes sistemas de saúde.19
No âmbito acadêmico, essas limitações reforçam a necessidade de abordagens graduais, priorizando inicialmente modelos híbridos, como teleproctoring e telementoria que oferecem ganhos educacionais e assistenciais sem expor pacientes a riscos desnecessários.4,12 A consolidação de marcos regulatórios claros será determinante para a evolução segura da telecirurgia bariátrica.4,10
Perspectivas
O futuro para a cirurgia bariátrica robótica no contexto da telecirurgia é promissor.2,4,11 A tendência de expansão do mercado de plataformas robóticas, com maior concorrência e diversificação tecnológica, pode contribuir para a redução de custos e ampliação do acesso.2,7,8 Paralelamente, o avanço contínuo das redes de comunicação, com menor latência e maior confiabilidade, aproxima a telecirurgia de cenário clínico mais factível.4,11 No campo do ensino, espera-se que modelos de treinamento híbridos, combinando simulação, robótica e mentoria remota, tornem-se progressivamente mais integrados aos programas de residência e pós-graduação.3,4,12 A telecirurgia pode desempenhar papel central na democratização do acesso à formação especializada, especialmente em países com grandes desigualdades regionais.4,12 Iniciativas recentes apontam para a viabilidade prática desse modelo. O desenvolvimento de plataformas de treinamento robótico integrando teleoperação, simulação avançada e gêmeos digitais tem permitido ampliar o acesso à formação em cirurgia robótica, reduzir custos institucionais e criar ambientes controlados para pesquisa e validação tecnológica. Esses sistemas representam um passo concreto na consolidação de ecossistemas educacionais híbridos em cirurgia robótica e telecirurgia.18
Do ponto de vista da pesquisa, a integração entre cirurgia robótica, análise de dados e inteligência artificial abre novas possibilidades para estudos de desempenho cirúrgico, padronização técnica e avaliação de desfechos.3,4 A cirurgia bariátrica, por sua alta prevalência e impacto metabólico, tende a ocupar posição de destaque nesse processo de inovação translacional.2,7,8
Assim, mais do que uma ferramenta tecnológica isolada, a cirurgia bariátrica robótica deve ser compreendida como parte de ecossistema digital em evolução, capaz de transformar a forma como a cirurgia é praticada, ensinada e investigada.3,4,11
CONCLUSÃO
Embora desafios técnicos, econômicos e regulatórios ainda limitem a adoção ampla da telecirurgia, o cenário atual indica transição progressiva para modelos mais integrados de assistência, ensino e pesquisa. Nesse contexto, a cirurgia bariátrica robótica emerge como campo privilegiado para testar, validar e consolidar essas transformações. Ela ultrapassa o papel de técnica minimamente invasiva e se configura como elemento central na transformação digital da cirurgia. Sua integração progressiva à telecirurgia pode contribuir para a democratização do acesso, inovação no ensino e fortalecimento da pesquisa cirúrgica, desde que implementada de forma gradual e segura.
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Mensagem Central
A introdução progressiva de tecnologias de alta complexidade na prática cirúrgica tem promovido transformações significativas nos paradigmas atuais de assistência ao paciente, formação médica e pesquisa translacional. Nesse contexto, a cirurgia robótica destaca-se não como simples evolução da laparoscopia convencional, mas como arquitetura tecnológica integrada, que reúne precisão mecânica, controle digital avançado, comunicação de dados em tempo real e sistemas de imagem de alta definição.
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Perspectiva
Mais do que representar abordagem minimamente invasiva, a cirurgia bariátrica assistida por robôs insere-se como um componente estratégico da digitalização dos procedimentos cirúrgicos. A incorporação futura desses sistemas a plataformas de telecirurgia tem potencial para ampliar o acesso aos cuidados especializados, impulsionar novos modelos educacionais e consolidar linhas de pesquisa em cirurgia, desde que sua adoção ocorra de maneira progressiva, criteriosa e baseada em segurança.
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Como citar este artigo
Loureiro MP, Ramalho GL, de Almeida Junior A, Palermo M, Cavazzola LT, Nassif PAN. Telecirurgia robótica: fundamentos tecnológicos, aplicações clínicas e perspectiva. BioSCIENCE. 2026;84:e00010. https://doi.org/10.55684/2026.84.pt.e00010
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Financiamento:
Nenhum
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Disponibilidade de dados:
Dados disponíveis junto ao autor correspondente, mediante solicitação fundamentada
Editado por
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Editor Associado:
Selma Maria Bezerra Jerônimo http://orcid.org/0000-0002-4784-9904
Dados disponíveis junto ao autor correspondente, mediante solicitação fundamentada



