Vírus rábico isolado de morcego frugívoro (Artibeus lituratus), capturado em 1997 no município de Rio Claro, SP

Rabies virus isolated from a frugivorous bat (Artibeus lituratus), captured in 1997, in Rio Claro, São Paulo, Brazil

Resumos

O vírus rábico foi isolado de morcego frugívoro Artibeus lituratus, capturado no município de Rio Claro, SP, em bairro residencial, em 1997. Neste município, o último caso de raiva animal ocorreu em 1986, sendo este o primeiro relato do isolamento em morcego frugívoro. As implicações em Saúde Pública foram discutidas.

Vírus da raiva; Chiroptera; Isolamento; Saúde pública


Rabies virus was isolated from a frugivorous bat, Artibeus lituratus, captured in downtown Rio Claro, SP, Brazil, in 1997. There was not any animal rabies since 1986, and this is the first isolation of rabies virus in a frugivorous bat in Rio Claro. Implications of Public Health were discussed.

Rabies virus; Chiroptera; Isolation; Public health


NOTA PRÉVIA / SHORT COMMUNICATION

Vírus rábico isolado de morcego frugívoro (Artibeus lituratus), capturado em 1997 no município de Rio Claro, SP* * Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997. 1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP 2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP 3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP

Rabies virus isolated from a frugivorous bat (Artibeus lituratus), captured in 1997, in Rio Claro, São Paulo, Brazil

Estevão de Camargo PASSOS1 * Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997. 1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP 2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP 3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP ; Maria Luíza CARRIERI1 * Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997. 1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP 2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP 3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP ; Miriam Martos Sodré SILVA2 * Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997. 1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP 2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP 3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP ; Ronaldo Gomes PEREIRA Jr.3 * Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997. 1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP 2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP 3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP ; João Alfredo Torres Silva MELO3 * Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997. 1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP 2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP 3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP ; Laerte José MAULE3 * Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997. 1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP 2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP 3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP

CORRESPONDÊNCIA PARA:

Estevão de Camargo Passos

Instituto Pauster

Av. Paulista, 393 – Cerqueira César

01311-000 – São Paulo – SP

e-mail: ecpassos@zipmail.com.br

RESUMO

O vírus rábico foi isolado de morcego frugívoro Artibeus lituratus, capturado no município de Rio Claro, SP, em bairro residencial, em 1997. Neste município, o último caso de raiva animal ocorreu em 1986, sendo este o primeiro relato do isolamento em morcego frugívoro. As implicações em Saúde Pública foram discutidas.

UNITERMOS: Vírus da raiva; Chiroptera; Isolamento; Saúde pública.

Os morcegos hematófagos participam da cadeia epidemiológica da raiva transmitindo a enfermidade aos herbívoros domésticos e, segundo Silva et al.8, são considerados como a segunda espécie responsável pela transmissão da raiva humana no Brasil.

Ao que parece, os morcegos não-hematófagos infectam-se ao disputar território com os morcegos hematófagos portadores do vírus rábico, visto que não raro compartilham o mesmo abrigo. Os morcegos não-hematófagos infectados, quando encontrados vivos, mortos ou prostrados, em ambientes urbanos9, podem transmitir acidentalmente a enfermidade, através do contato direto à espécie humana e a outros animais4.

A presente notificação tem por objetivo relatar o isolamento do vírus rábico em morcego frugívoro da espécie Artibeus lituratus, capturado no município de Rio Claro, Estado de São Paulo, em julho de 1997.

O município de Rio Claro está localizado no Estado de São Paulo, na Bacia do Rio Piracicaba, fazendo limites com os municípios de Corumbataí, Araras, Santa Gertrudes, Piracicaba e Itirapina, sua população é de 153.025 habitantes** ** Censo Populacional do IBGE/1996. Dados não publicados. e sua superfície é de 503 km2.

No município não há relatos de casos de raiva humana desde 1976, e o último caso de raiva animal foi notificado em 1986, durante surto de raiva canina.

O animal morto foi encontrado no chão, por um funcionário, no terreno do Ginásio Municipal de Esporte no dia 18/06/97, localizado em bairro residencial central, com toda a infra-estrutura de urbanização, apresentando em sua avenida principal um canteiro central de figueiras centenárias. O munícipe encaminhou-o ao Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro, que o congelou em freezer doméstico e o enviou ao Instituto Pasteur no dia 28/06/97.

No Instituto Pasteur, o morcego foi encaminhado ao laboratório de diagnóstico da raiva5, onde foram colhidos o cérebro e as glândulas salivares para os testes de imunofluorescência direta e inoculação intracerebral de camundongos.

A pesquisa de antígeno rábico no cérebro do animal foi confirmada na reação de imunofluorescência direta. Houve isolamento do vírus rábico 11 dias após a inoculação intracerebral de camundongos, tanto a partir de suspensão de cérebro quanto de glândulas salivares. Novos exames realizados nos cérebros dos camundongos inoculados, confirmaram a presença do vírus.

O morcego, uma fêmea adulta, foi identificada11 como Artibeus lituratus, espécie frugívora da Família Phyllostomidae.

O isolamento do vírus rábico em diversas espécies de morcegos no Brasil10 fortalece a teoria da transmissão da doença entre as diferentes espécies, e destaca a importância dos quirópteros na epidemiologia desta enfermidade.

Em 1994, no município de Ribeirão Pires, localizado na Grande São Paulo, foi isolado o vírus rábico em um morcego insetívoro Myotis nigricans3. O animal foi capturado em região de mata preservada, próximo à Represa Billings. Nesse município, a raiva não era diagnosticada desde 1984.

Em 1995, no município de Jundiaí-SP, foi capturado em área central urbana um morcego insetívoro identificado como Lasyurus borealis, que apresentou resultado positivo nos exames laboratoriais para diagnóstico da raiva. Os autores fazem considerações sobre a possibilidade de ocorrer acidentes com pessoas e animais envolvendo morcegos raivosos4.

O diagnóstico laboratorial da raiva em 289 quirópteros capturados ou recebidos pelo Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo, no período de 1988 a 19921, mostrou a presença da infecção em dois morcegos insetívoros Nyctinomops macrotis, capturados em bairros residenciais da cidade de São Paulo em 1988 e 1990.

Dados do Instituto Pasteur do período de 1985 a 1995 mostraram que na rotina de diagnóstico da raiva o maior número de amostras era proveniente de cães (8.695/12.276), seguidos dos gatos (1.971/12.276), morcegos (416/12.276) e outras espécies (1.194/12.276)6. Os mesmos autores examinaram 416 morcegos provenientes da capital e do interior do Estado de São Paulo e diagnosticaram a raiva em 6, sendo que 3 eram não-hematófagos. Os morcegos raivosos eram provenientes do interior do Estado.

Em 1995, na epidemia de raiva que atingiu a cidade de Ribeirão Preto, SP7, foram examinadas 924 amostras de tecido nervoso de várias espécies animais, incluindo espécimes humanos. A raiva foi diagnosticada em cães (49/924 = 5,3%); gatos (3/924 = 0,3%); bovino (1/924 = 0,1%); morcego (1/924 = 0,1%) e humano (1/924 = 0,1%). Foi constatado também que os cães representavam o maior número de amostras examinadas (749/924), seguidos dos gatos (104/924), morcegos (38/924) e outras espécies (33/924). Dos 38 morcegos examinados, o único positivo para raiva foi um morcego frugívoro identificado como Artibeus lituratus.

O Instituto Pasteur realizou o diagnóstico laboratorial da raiva em 45 amostras de quirópteros, provenientes de municípios do Estado de São Paulo, no período de junho de 1995 a junho de 19962. As espécies não-hematófagas corresponderam a 82,2% das amostras analisadas. A raiva foi diagnosticada somente em uma amostra, no morcego identificado como frugívoro da espécie Artibeus lituratus.

O isolamento do vírus rábico em morcego não-hematófago Artibeus lituratus, encontrado em bairro residencial central de Rio Claro, SP, demonstra que o vírus da raiva está novamente circulando no município, após um período de 10 anos sem registro da enfermidade. O programa de controle da raiva urbana deve ser intensificado pelo Centro de Controle de Zoonoses municipal, e contatos com a CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), responsável pela modalidade rural da doença e com experiência na captura de morcegos, devem ser feitos para o planejamento e realização de ações conjuntas.

Especial atenção deve ser dada ao esclarecimento da população humana quanto à transmissão da raiva, formas de prevenção e os cuidados no manuseio com animais silvestres, especialmente os morcegos.

SUMMARY

Rabies virus was isolated from a frugivorous bat, Artibeus lituratus, captured in downtown Rio Claro, SP, Brazil, in 1997. There was not any animal rabies since 1986, and this is the first isolation of rabies virus in a frugivorous bat in Rio Claro. Implications of Public Health were discussed.

UNITERMS: Rabies virus; Chiroptera; Isolation; Public health.

Recebido para publicação: 23/07/1997

Aprovado para publicação: 22/07/1998

  • 1
    - ALMEIDA, M.F.; AGUIAR, E.A.C.; MARTORELLI, L.F.A.; SILVA, M.M.S. Diagnóstico laboratorial de raiva em quirópteros realizado em área metropolitana na região sudeste do Brasil. Revista de Saúde Pública, v.28, n.5, p.341-4, 1994.
  • 2
    - CARRIERI, M.L.; PASSOS, E.C.; FAVORETTO, S.R.; SILVA, M.M.S. Diagnóstico laboratorial da raiva em quirópteros. In: CONGRESSO PANAMERICANO DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS, 15., Campo Grande, 1996. Resumos Campo Grande, 1996. p.208.
  • 3
    - MARTORELLI, L.F.A.; AGUIAR, E.A.C.; ALMEIDA, M.F.; SILVA, M.M.S.; NOVAES, E.C.R. Isolamento do vírus rábico de morcego insetívoro Myotis nigricans Revista de Saúde Pública, v.29, n.2, p.140-1, 1995.
  • 4
    - MARTORELLI, L.F.A.; AGUIAR, E.A.C.; ALMEIDA, M.F.; SILVA, M.M.S.; NUNES, V.F.P. Isolamento do vírus rábico de morcego insetívoro, Lasyurus borealis Revista de Saúde Pública, v.30, n.1, p.101-2, 1996.
  • 5
    - MESLIN, F.X.; KAPLAN, M.M.; KOPROWSKI, H. Laboratory techniques in rabies 4.ed. Geneva : WHO, 1996. 476p.
  • 6
    - PASSOS, E.C.; CARRIERI, M.L.; FAVORETTO, S.R. Rabies diagnosis of Instituto Pasteur – SP, Brazil, during 1985-1995. In: ANNUAL INTERNATIONAL MEETING ADVANCES TOWARDS RABIES CONTROL IN THE AMERICAS, 7., Atlanta, USA, 1996. Proceedings Atlanta, USA, 1996. p.52.
  • 7
    - PASSOS, E.C.; FAVORETTO, S.R.; CARRIERI, M.L. Outbreak of rabies in Ribeirão Preto – SP, Brazil. In: ANNUAL INTERNATIONAL MEETING ADVANCES TOWARDS RABIES CONTROL IN THE AMERICAS, 7., Atlanta, USA, 1996. Proceedings Atlanta, USA, 1996. p.53.
  • 8
    - SILVA, M.M.S.; HARMANI, N.M.S.; GONÇALVES, E.F.B.; UIEDA, W. Bats from the metropolitan region of São Paulo, southeastern Brazil. Chiroptera Neotropical, v.2, n.1, p.39-41, 1996.
  • 9
    - UIEDA, W.; HARMANI, N.M.S.; SILVA, M.M.S. Raiva em morcegos insetívoros (Molossidae) do Sudeste do Brasil. Revista de Saúde Pública, v.29, n.5, p.393-7, 1995.
  • 10
    - UIEDA, W.; HAYASHI, M.M.; GOMES, L.H.; SILVA, M.M.S. Espécies de quirópteros diagnosticadas com raiva no Brasil. Boletim do Instituto Pasteur, São Paulo, v.1, n.2, p.17-35, 1996.
  • 11
    - VIZOTTO, L.D.; TADDEI, V.A. Chave para determinação de quirópteros brasileiros. Revista da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do Rio Preto, Boletim. Ciências, v.1, p.1-72, 1973.

  • *
    Trabalho apresentado no
    8th Annual Rabies in the Americas Conference, realizado em Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997.
    1 Instituto Pasteur de São Paulo – SP
    2 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de São Paulo – SP
    3 Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Rio Claro – SP
  • **
    Censo Populacional do IBGE/1996. Dados não publicados.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Set 2000
  • Data do Fascículo
    1999

Histórico

  • Aceito
    22 Jul 1998
  • Recebido
    23 Jul 1997
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