RESUMO
JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A função sensorial é potencialmente alterada na presença de dor lombar crônica (DLC), o que pode alterar a percepção de passagem de correntes terapêuticas. O objetivo deste estudo foi verificar se o risco de mau prognóstico para DLC influencia a amplitude elicitada no limiar sensorial (LS) em diferentes modalidades de estimulação elétrica neuromuscular (EENM).
MÉTODOS: Trata-se de um estudo quase-experimental contrabalanceado composto por 40 voluntários alocados em quatro grupos (n=10 cada), de acordo com o risco de mau prognóstico para dor: sem risco (grupo controle – GC), baixo risco (GBR), médio risco (GMR) e alto risco (GAR). Foram testadas quatro modalidades de EENM: duas correntes de média frequência (corrente Aussie [CA] e corrente Russa [CR]) e duas correntes de baixa frequência (comumente denominada estimulação elétrica funcional [FES]), com duas durações de fases 200 μs (FES_200) e 500 μs (FES_500) na região dos músculos multífidos lombares. Todos os voluntários foram submetidos a todas as modalidades de corrente, com períodos de intervalos, e ao ser atingido o LS, foi realizado o registro da amplitude da corrente medida em mA.
RESULTADOS: As correntes que elicitaram a maior e a menor amplitude no LS foram, respectivamente, FES_200 e CA. Quanto ao risco de mau prognóstico, as maiores amplitudes foram do GAR e as menores do GBR.
CONCLUSÃO: A amplitude da corrente elicitada no LS tendeu a ser mais alta entre aqueles com maior risco de mau prognóstico para dor e, dentre as correntes, aquelas de média frequência elicitaram amplitudes mais baixas.A amplitude da corrente elicitada no LS tendeu a ser mais alta entre aqueles com maior risco de mau prognóstico para dor e, dentre as correntes, aquelas de média frequência elicitaram amplitudes mais baixas.
Descritores:
Dor lombar; Impacto psicossocial; Terapia por estimulação elétrica
DESTAQUES
Fatores psicossociais parecem influenciar o limiar sensorial na dor lombar crônica
Alto risco de mau prognóstico para dor elicita uma amplitude mais alta no limiar sensorial
A corrente aussie gera menor amplitude no limiar sensorial se comparada a outras correntes
ABSTRACT
BACKGROUND AND OBJECTIVES: Sensory function may be altered in chronic low back pain (CLBP), which may alter the perception of therapeutic currents. The aim of this study was to verify whether the risk of poor prognosis for CLBP pain influences the amplitude elicited at the sensory threshold (ST) in different modalities of neuromuscular electrical stimulation (NMES).
METHODS: This is a quasi-experimental counterbalanced study with 40 subjects divided into four groups (n=10 each), according to the risk of poor prognosis for pain: no risk (control group - CG), low (LrG), medium (MrG), and high (HrG) risks. Four modalities of NMES were tested: two medium frequency currents (Aussie current [AC] and Russian current [RC]) and two low frequency currents (commonly known as functional electrical stimulation [FES]), with two phase durations of200 μs (FES_200) and 500 μs (FES_500), in the region of the lumbar multifidus muscles. All subjects were exposed to all current modalities with interval periods, and when the ST was reached, the amplitude of the current measured in mA was recorded.
RESULTS: The currents that elicited the highest and lowest amplitude in the ST were FES_200 and AC, respectively. As for the risk of poor prognosis, the highest amplitudes were for the HrG and the lowest for the LrG.
CONCLUSION: The amplitude of the current elicited in the ST tended to be higher among those with a higher risk of poor prognosis for pain and, among the currents, those of medium frequency elicited lower amplitudes.
Keywords:
Electrical stimulation therapy; Low back pain; Psychosocial impact
HIGHLIGHTS
Psychosocial factors seem to influence the sensory threshold in chronic low back pain
High risk of poor prognosis for pain elicits a higher amplitude in the sensory threshold
The aussie current generates lower amplitude at the sensory threshold compared to other currents
INTRODUÇÃO
A dor lombar crônica (DLC) é uma síndrome prevalente que acarreta sequelas físicas e sociais1. A DLC tem etiologia multifatorial, e, além dos fatores físicos, os biopsicossociais também contribuem para o quadro clínico e afetam de forma negativa o prognóstico2, 3. Proporcionalmente ao nível de contribuição dos fatores biopsicossociais, que reflete na manifestação do quadro clínico, aqueles com DLC podem ser subgrupados quanto ao risco de desenvolver mau prognóstico, sendo esses: subgrupos de baixo, médio ou alto risco de mau prognóstico para dor4, 5.
Em associação, a DLC também deteriora o controle muscular local, comprometendo a função dos músculos estabilizadores e gerando prejuízos na mobilidade, força e proteção das articulações da coluna vertebral. Os músculos multífidos lombares são os principais estabilizadores da região lombo-pélvica6 e, naqueles com DLC, sua ativação voluntária pode ser prejudicada e se tornar ineficiente para a função de estabilização7. Acredita-se que o mecanismo que leva ao déficit no controle motor e à perda na qualidade da estabilização seja similar àquele descrito para explicar a inibição muscular artrogênica do quadríceps8, 9. Adicionalmente, pessoas com DLC apresentam, nos multífidos lombares, sinais de infiltração de gordura e atrofia10, 11, o que também compromete a capacidade muscular de gerar tensão. Por tais razões, intervenções capazes de otimizar os aspectos da função muscular são essenciais para restaurar a capacidade estabilizadora, a exemplo da eletroterapia.
As modalidades eletroterapêuticas, que consistem na aplicação de correntes elétricas transdérmicas12, são frequentemente utilizadas por fisioterapeutas pelos seus efeitos terapêuticos benéficos direcionados aos aspectos da função muscular e por serem bem aceitas pelos pacientes13, 14, 15. A sequência de ativação de fibras nervosas pela estimulação elétrica neuromuscular (EENM) vai desde o recrutamento das fibras Aβ responsáveis pela sensação de parestesia que marca o limiar sensorial, até as fibras C responsáveis pela condução da informação nociceptiva, podendo, a depender da amplitude da corrente EENM, produzir contração muscular caso o limiar motor seja ultrapassado16.
Dentre as diferentes modalidades de EENM, que visam fortalecimento muscular, se destacam as correntes de média frequência, a exemplo das correntes aussie (CA) e russa (CR), e as correntes de baixa frequência, como a estimulação elétrica funcional (FES). Sabe-se que essas correntes promovem o recrutamento das unidades motoras induzindo o ganho de força muscular e a redução do quadro de dor17, 18, 19, além de coibirem o mecanismo de inibição muscular artrogênica9.
A EENM é uma aproximação biomecânica dos impulsos elétricos biológicos reais, sendo utilizada para manter, restaurar ou melhorar a função neuromuscular20, 21. Apesar da EENM não estar entre as terapias propostas nas diretrizes de tratamento da DLC, ela tem se mostrado útil para interromper a inibição reflexa muscular e, por conseguinte, otimizar a estabilização articular, a força, o tônus e o trofismo muscular22, 23, 24.
Por conseguinte, o potencial terapêutico da EENM na DLC ainda não pode ser desconsiderado, incluindo o efeito analgésico das correntes excitomotoras, como destacado por algumas pesquisas15, 17, 24, 25, 26, embora a dosimetria ainda seja um desafio a ser superado. Além do mais, sugere-se que as correntes de média frequência, comparadas àquelas de baixa frequência, sejam capazes de minimizar o desconforto produzido pela passagem da corrente14, bem como aumentar a atividade dos multífidos e reduzir a intensidade dolorosa em pacientes com DLC26.
Sabe-se que o córtex motor primário, e por consequência os atos motores, são influenciados pelas entradas do córtex sensorial27. Entretanto, considerando que a experiência dolorosa crônica se dá por meio do processamento cognitivo, emocional e autônomo28, 29 e que, consequentemente, a contribuição dos aspectos psicossociais pode afetar a qualidade da dor sem que haja uma clara associação entre a caracterização do evento doloroso pela ótica biomédica30, 31, faz-se necessário identificar se a percepção da corrente é distinta entre os diferentes estratos de risco de mau prognóstico na DLC. Pessoas que sofrem com dor crônica podem apresentar uma amplificação na rede de sinalização dolorosa localizada no sistema nervoso central, conhecida por sensibilização central, que produz um quadro doloroso mesmo sem uma clara origem nociceptiva e, também, hipersensibilidade à dor como forma de proteção para evitar novos possíveis estímulos lesivos32.
Em adição, nos casos de dor espinal crônica, cada vez é mais reconhecido o papel das alterações centrais, tais como modificações anormais das estruturas cerebrais, e da hiperexcitabilidade do sistema nervoso central na manutenção do quadro álgico33. Considerando que nocicepção, relacionada à percepção dos estímulos nocivos, e dor, que envolve aspectos afetivos e motivacionais, são conceitos distintos34, é possível que no caso da DLC a nocicepção também esteja alterada. Por isso, acredita-se que aqueles com alto risco de mau prognóstico para dor sejam mais sensíveis à passagem da corrente e, por consequência, apresentarão menor amplitude da corrente no limiar sensorial.
O objetivo deste estudo foi verificar se o risco de mau prognóstico para dor na DLC influencia a amplitude de corrente elicitada no limiar sensorial (LS) em diferentes modalidades de EENM. A hipótese do estudo é que a amplitude da corrente no LS, independente da modalidade de EENM, diminui inversamente ao risco de mau prognóstico para dor e que as correntes de média frequência elicitam as menores amplitudes.
MÉTODOS
Este estudo foi classificado como um estudo quase-experimental contrabalanceado. Todos os voluntários assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias, uma de posse do voluntário e a outra do pesquisador. Este estudo foi aprovado pelo comitê institucional de ética em pesquisa envolvendo seres humanos (protocolo nº 5151050).
A amostra foi composta por voluntários de ambos os sexos, com idade entre 18 e 59 anos, com e sem DLC, recrutados de forma não probabilística e consecutiva. Os voluntários foram distribuídos em grupos, sendo um grupo composto por voluntários sem apresentar afecções musculoesqueléticas em nenhum segmento corporal nos últimos 12 meses (grupo controle – GC), e outros três grupos com voluntários com DLC estratificados segundo o risco de mau prognóstico para dor, classificados pelo questionário STarT Back Screening Tool (SBST)4, 5 como de baixo risco (GBR), médio risco (GMR) e alto risco (GAR). O SBST é uma ferramenta de avaliação capaz, por si só, de predizer incapacidade, a curto e médio prazos, na população brasileira com DLC35 e está listada entre as ferramentas mais comumente usadas para avaliação da dor nociplástica36.
Todos os voluntários foram expostos a quatro modalidades de EENM, sendo duas correntes de média frequência (corrente aussie [CA], com duração de fase de 500 μs, e a corrente russa [CR], com duração de fase de 200 μs), e duas correntes de baixa frequência (tipo comumente denominado estimulação elétrica funcional [FES]), com duas durações de fases, 200 μs (FES_200) e 500 μs (FES_500). Os dados de um estudo prévio7, a partir do qual se calculou o tamanho de efeito, foram utilizados como base para o cálculo amostral. Para a determinação do tamanho da amostra foi utilizado o sofiware GPower 3.1, com os seguintes dados de entrada: tamanho de efeito de 0,70; alfa de 0,05; poder de 0,95; quatro grupos; quatro como número de medidas. O cálculo da amostra retornou um número mínimo de 40 voluntários ao total, sendo 10 em cada grupo.
Para inclusão no GC, os voluntários deveriam relatar comportamento físico hipocinético por não atingirem o nível mínimo de atividade física semanal recomendado pelas diretrizes de atividade física, que é de 150 min por semana37, e negar episódios de dor lombar no último ano. Para inclusão nos grupos de DLC, foram adotados os seguintes critérios: a) voluntários fisicamente hipocinéticos, com relato de dor lombar persistente e ou recorrente há mais de três meses; b) dor lombar com características físicas compatíveis com etiologia mecânica, nas categorias de dor lombar inespecífica ou de dor lombar potencialmente associada à radiculopatia ou estenose espinal, de acordo com as diretrizes de avaliação e tratamento propostas pelo American College of Physicians e pela American Pain Societf38.
Os critérios de não inclusão e exclusão foram: a) histórico de cirurgia na coluna; b) gravidez; c) histórico de dores agudas ou crônicas relatadas em qualquer outro segmento corporal que não a coluna lombar; d) amplitude de dor no momento do teste e/ou no repouso medida pela Escala Analógica Visual (EAV) maior que seis, evitando que o protocolo de pesquisa fosse responsável pela agudização do quadro de dor.
Procedimentos metodológicos
Inicialmente, foi realizada uma entrevista para registrar o histórico físico, funcional e sociodemográfico dos voluntários, bem como suas medidas antropométricas. As seguintes medidas de caracterização da amostra foram registradas: idade (anos), massa corporal (kg), estatura (m), nível de atividade física, comprimento dos membros inferiores (m), sexo e índice de massa corporal (IMC). A avaliação de triagem para DLC seguiu um roteiro elaborado com questões sistematizadas.
O SBST foi administrado para todos os voluntários com DLC . Esse instrumento consiste em um conjunto de nove perguntas, com as quatro primeiras direcionadas às questões relacionadas à dor referida, disfunções e comorbidades, enquanto as cinco últimas abordam aspectos psicossociais5. Inicialmente, cada voluntário respondeu às nove perguntas, nas quais as oito primeiras ofereceram opções de resposta “concordo” (pontuando um ponto) ou “discordo” (pontuando zero pontos). Na nona pergunta havia cinco opções de resposta: “nada,” “pouco,” “moderada” (valendo zero pontos), “muito,” “extremamente” (valendo um ponto).
Caso o escore total obtido estivesse na faixa de zero a três, o participante era categorizado como tendo um baixo risco de desenvolver um mau prognóstico relacionado à dor. Para escores finais superiores a três, o escore era recalculado, mas agora usando apenas a soma das respostas das questões de cinco a nove, que dizem respeito aos aspectos psicossociais. Nesse caso, participantes com escores recalculados até três foram estratificados como apresentando um risco moderado de desenvolver mau prognóstico para dor, enquanto aqueles com escores acima de três foram estratificados como tendo um alto risco de desenvolver mau prognóstico.
Para a aplicação das diferentes modalidades de EENM, foi utilizado o eletroestimulador Neurodyn Multicorrentes (Ibramed®, Amparo/SP, Brasil). Foi realizada a assepsia da região lombar para colocação dos eletrodos localizados bilateralmente na região dos músculos multífidos , sendo dois eletrodos cefálicos ao nível da segunda vértebra lombar, e dois eletrodos caudais ao nível da primeira vértebra sacral. Os eletrodos eram flexíveis, de borracha/silicone, com gel hidrossolúvel entre o eletrodo e a pele7, medindo 3 × 5 cm para que pudessem ser ajustados de forma adequada na área correspondente ao músculo estudado e, ainda assim, fossem garantidas dimensões próximas daquelas já testadas quanto à influência no conforto e na densidade da corrente39.
Foram executadas duas rodadas de EENM, com intervalo de 10 min entre essas duas rodadas, para que as quatro configurações de correntes fossem entregues a todos os voluntários, sendo estas as configurações: CA, CR, FES_200 e FES_500. Durante o intervalo entre as rodadas, o voluntário permaneceu na posição de avaliação, deitado em decúbito ventral. Na primeira rodada, foram avaliadas duas configurações de correntes, uma em cada canal e com intervalo para washout de 2 min entre a entrega das correntes. Na segunda rodada foram avaliadas as outras duas configurações restantes com protocolo idêntico à primeira. Em cada rodada, os canais foram acionados de maneira individual e sequencial, porém tanto a ordem quanto a modalidade de corrente foram determinadas aleatoriamente por sorteio, para minimizar vieses.
Antes de receber a EENM, todos os voluntários foram familiarizados com as correntes e instruídos a expressar verbalmente a primeira sensação percebida pela sua estimulação, e essa resposta foi considerada o nível do LS. A ordem de entrega das correntes foi randomizada para os canais de 1 a 4. A primeira corrente selecionada para o participante foi a mesma utilizada para a familiarização pré-teste e definição LS-familiarização. O protocolo experimental e a posição dos eletrodos podem ser visualizados na figura 1, e as configurações das modalidades de correntes na tabela 1.
Representação esquemática da sequência de acionamento dos canais (1.A) e da disposição dos pares de eletrodos (1.B) para identificação do limiar sensorial
O protocolo foi idêntico para todas as configurações de corrente. A cada aumento de amplitude, o pesquisador perguntava ao voluntário sobre a sua percepção da corrente e, ao ser informado sobre o LS, a amplitude em miliamperes (mA) era registrada.
Análise estatística
Para análise estatística foi usado o software SPSS 20. O nível de significância adotado foi de 5% (α=0,05). Para as comparações, o teste estatístico utilizado foi o modelo de equações de estimação generalizadas (GEE), que se baseia na máxima verossimilhança e utiliza o teste Qui-quadrado de Wald (Wald X2) para identificar o efeito da variável no modelo linear generalizado. A variável desfecho foi a amplitude da corrente na unidade de mA, na qual o LS foi relatado. Os fatores para análise foram o estrato de risco (GC, GBR, GMR e GAR) e as correntes (CA, CR, FES_200 e FES_500). Também foram consideradas para a análise as interações entre os fatores (estrato*corrente). O teste Bonferroni foi utilizado post-hoc. O tamanho do efeito (TE) foi adicionado à análise inferencial. O TE escolhido foi o g de Hedges, por ser o mais indicado para amostras pequenas40. A interpretação dos TE foi dada pelos seguintes critérios40, 41: nulo (<0,10); muito pequeno (0,10 a 0,19); moderado (0,20 a 0,79); grande (0,80 a 1,19); muito grande (1,20 a 1,99); enorme (>2,0).
RESULTADOS
A amostra foi composta por 40 voluntários com média de idade de 38,8±13,4 anos, IMC de 77,1±19,9 kg e estatura de 1,67±0,12 m. Todos os participantes relataram não realizar atividades físicas de forma sistemática.
Foram observados os efeitos do estrato de risco (X2 [3] = 22,33 e p<0,001), da corrente (X2 [3] = 57,59 e p<0,001) e da interação estrato*corrente (X2 [9] = 43,37 e p<0,001). Segundo os parâmetros estimados pelo modelo, disponível no material suplementar, quanto ao efeito do estrato, observou-se diferença significativa entre as médias apenas entre o GC e o GAR, sendo que no GAR a amplitude da corrente no LS foi 5,90 mA mais alta que no GC. Quanto ao efeito das correntes, houve diferença significativa entre as médias das amplitudes no LS para CR, FES_200 e FES_500, em relação à CA, sendo que as amplitudes de CR, FES_200 e FES_500 foram 6,20 mA, 8,80 mA e 4,80 mA maiores, respectivamente.
As comparações por pares foram feitas observando o efeito da interação estrato*corrente. A FES_200 foi a modalidade de corrente que induziu as maiores amplitudes no LS, e a CA foi aquela que induziu as menores amplitudes. O GBR apresentou os menores valores de amplitude no LS em todas as correntes, enquanto o GAR apresentou os maiores valores. Para a maioria das comparações o TE variou de grande a enorme. As estatísticas inferenciais e descritivas, bem como os valores de TE para as comparações por pares podem ser visualizados nas figuras 2 e 3.
Apresentação dos valores médios da amplitude da corrente no limiar sensorial para cada modalidade de corrente em cada estrato de risco de mau prognóstico, bem como das comparações por pares, seus respectivos tamanhos de efeito e sua força
Apresentação dos valores médios da amplitude da corrente no limiar sensorial para cada estrato de risco de mau prognóstico nas diferentes modalidades de corrente, bem como das comparações por pares, seus respectivos tamanhos de efeito e sua força
DISCUSSÃO
As hipóteses deste estudo eram que: (1) a amplitude da corrente no LS, independente da modalidade de EENM, diminuiria inversamente ao risco de mau prognóstico para dor e que (2) as correntes de média frequência elicitariam as menores amplitudes. As hipóteses do presente estudo foram parcialmente atendidas, pois as correntes de média frequência tenderam a elicitar menores amplitudes de corrente no LS; porém, os voluntários dos grupos de médio e alto risco apresentaram amplitudes mais altas que aqueles dos grupos controle e, principalmente, dos grupos de baixo risco. Os tamanhos de efeito altos corroboram a relevância clínica dos achados.
Quando se trata de indivíduos com disfunção dolorosa, deve-se levar em conta a redução do limiar nociceptivo tanto casos agudos quanto crônicos42,43. Isso pode influenciar na percepção de uma corrente que visa estimular a contração muscular44.
Embora quanto maior a contribuição dos fatores psicossociais, maior o risco de mau prognóstico para dor4, nem todos os que vivenciam dor crônica desenvolvem, necessariamente, alterações no processamento central da dor, ainda que a relação entre a sensibilização central e os aspectos psicossociais possa ser prevista por traços de ansiedade e de características de hipersensibilidade sensorial32, 45. Nesse sentido, um estudo observou que, na presença de sensibilização central, várias crenças disfuncionais estavam presentes46.
Tais reflexões podem ajudar a entender a resposta da amostra do presente estudo à percepção da corrente. Uma vez que os voluntários do grupo de baixo risco sofriam um menor impacto de fatores psicossociais em relação aos grupos de médio e alto risco, especula-se que o fenótipo da dor no GBR preservou características de dor nociceptiva (dor decorrente de ocorrência real ou ameaça de dano ao tecido não neural32), enquanto no GMR e no GAR as características de dor nociplástica (dor decorrente da nocicepção alterada)32 prevaleceram. O fenótipo de dor nociplástica é recente, sendo seu conceito introduzido em 2016. Por isso, mesmo com os avanços nas pesquisas sobre o tema, a fisiopatologia dessa condição ainda apresenta muitas lacunas a serem exploradas. Há três mecanismos fisiopatológicos sobre dor nociplástica propostos na atualidade36: i) mecanismos supraespinais com presença de hiperresponsividade ao estímulo doloroso, hiperatividade e conectividade entre regiões cerebrais responsáveis pela percepção da dor, redução da atividade e conectividade de áreas cerebrais envolvidas na inibição da dor, concentrações de substância P e glutamina no fluido cerebrospinal com inibição dos neurotransmissores GABA; ii) mecanismos espinais que abrangem a regionalização de agrupamentos e a convergência de sinais provenientes de diversas áreas de desconforto, a reorganização da medula espinhal, a amplificação da transmissão reflexa espinhal, a redução da inibição espinhal, a integração e acumulação temporal, além da ativação do sistema imunológico, incluindo diversas células gliais; iii) mecanismos periféricos que englobam a proliferação de canais de sódio e o acoplamento simpático-aferente. A falta, na atualidade, de ferramentas para quantificar e qualificar todas as adaptações morfofuncionais decorrentes da experiência dolorosa sugere que a resposta à dor é algo muito singular, podendo isso ter influenciado na interpretação dos achados desta pesquisa.
Um estudo prévio47 observou que a amplitude da EENM é significativamente dependente da modulação desempenhada pela atividade cerebral. Por conseguinte, especula-se que um risco maior de mau prognóstico possa induzir modificações na circuitaria do sistema nervoso central, a exemplo da sensibilização central, as quais, por sua vez, afetam o recrutamento das vias sensoriais elicitadas pela EENM. A CA tem sido descrita como uma corrente confortável e capaz de produzir adaptações positivas na função muscular de pacientes com DLC25. Por isso, o fato de a CA ter sido a corrente com menor amplitude de corrente no LS parece estar em concordância com a literatura.
Destaca-se, como limitação deste estudo, a ausência de análises da função muscular mais específicas, como a eletroneuromiografia, que poderia contribuir para o entendimento da ativação muscular nas respostas elicitadas pela EENM. A principal mensagem clínica deste estudo é que o risco de mau prognóstico para dor lombar crônica pode afetar a forma como os pacientes respondem à EENM.
CONCLUSÃO
A amplitude da corrente elicitada no LS parece ser mais alta entre aqueles com maior risco de mau prognóstico para dor lombar crônica e, dentre as correntes, aquelas de média frequência elicitaram amplitudes mais baixas.
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Fontes de fomento: O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), sendo o terceiro autor aquele que usufrui da bolsa.
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Editor associado responsável: Isabela Azevedo Freire Santos https://orcid.org/0000-0001-8836-8640





GC = grupo controle; GBR = grupo baixo risco; GMR = grupo médio risco; GAR = grupo alto risco; CA = corrente Aussie; CR = corrente Russa; FES = estimulação elétrica funcional com duas durações de fases 200 μs (FES_200) e 500 μs (FES_500); (TE) = tamanho de efeito; diferença média entre as médias (≠ média).Os asteriscos indicam diferença estatística significativa (p<0,05).
GC = grupo controle; GBR = grupo baixo risco; GMR = grupo médio risco; GAR = grupo alto risco; CA = corrente aussie; CR = corrente russa; FES = estimulação elétrica funcional com duas durações de fases 200 μs (FES_200) e 500 μs (FES_500); TE = tamanho de efeito; diferença média entre as médias (≠ média).Os asteriscos indicam diferença estatística significativa (p<0,05).