RESUMO
Este artigo analisa o empreendedorismo de startups em Portugal como um projeto articulado e ideológico alinhado à racionalidade neoliberal. Examina como a educação empreendedora atua na formação de subjetividades juvenis e promove um modo de vida orientado pela autogestão. Ainda, com base nos “ecossistemas de inovação” em Lisboa, Porto e Aveiro, investiga o papel de universidades e incubadoras na pedagogização e na academização do empreendedorismo. Os resultados apontam a idealização do empreendedorismo como “projeto de vida”, ocultando desigualdades e reforçando a autorresponsabilidade juvenil.
Palavras-chave
Empreendedorismo de startups; Trajetórias juvenis; Racionalidade neoliberal; Pedagogização e academização; Percursos de vida
ABSTRACT
This article analyzes startup entrepreneurship in Portugal as a structured and ideological project aligned with neoliberal rationality. It examines how entrepreneurial education shapes youth subjectivities and promotes a way of life oriented toward self-management. Based on the “innovation ecosystems” in Lisbon, Porto, and Aveiro, it investigates the role of universities and incubators in the pedagogization and academization of entrepreneurship. The results highlight the idealization of entrepreneurship as a “life project,” concealing inequalities and reinforcing youth self-responsibility.
Keywords
Startup entrepreneurship; Youth trajectories; Neoliberal rationality; Pedagogization and academization; Life paths
RESUMEN
Este artículo analiza el emprendimiento de startups en Portugal como un proyecto articulado e ideológico alineado con la racionalidad neoliberal. Examina cómo la educación emprendedora actúa en la formación de subjetividades juveniles y promueve un modo de vida orientado hacia la autogestión. Asimismo, a partir de los “ecosistemas de innovación” en Lisboa, Oporto y Aveiro, investiga el papel de universidades e incubadoras en la pedagogización y academización del emprendimiento. Los resultados evidencian la idealización del emprendimiento como “proyecto de vida”, ocultando desigualdades y reforzando la autorresponsabilidad juvenil.
Palabras clave
Emprendimiento de startups; Trayectorias juveniles; Racionalidad neoliberal; Pedagogización y academización; Trayectorias de vida
O empreendedorismo de startups: Uma breve contextualização1
A crise dos anos 19702 reestruturou o mercado de trabalho globalmente, promovendo a flexibilização das relações laborais, adoção de novas tecnologias e condições de maior concorrência numa economia cada vez mais neoliberal. Sennett (2001) aponta como essa nova cultura corroeu o “caráter” do trabalhador, enquanto Boltanski e Chiapello (2009) mostram como o capitalismo incorporou críticas sociais ao adotar valores como a criatividade, a flexibilidade e a autonomia, legitimando práticas empresariais por meio de “novos espíritos”. Ambos destacam como as exigências de inovação e adaptabilidade moldam o comportamento do trabalhador, reforçando um ethos de constante adaptação a um contexto global cada vez mais competitivo.
A figura do “empresário inovador”, discutida por Schumpeter (1997), reaparece nesse cenário como modelo de liderança criativa e meritocrática. Diferente do empresário tradicional, ele reconfigura as relações de produção com base na autonomia, colaboração e realização pessoal. Mais do que um modelo de negócios, o empreendedorismo atual constitui um “projeto articulado e ideológico” entre agentes sociais e institucionais, orientado por uma racionalidade neoliberal (Cruz-Junior, 2022; Lindôso; Leite, 2021). Essa trama articulada funciona como um projeto coletivo que orienta práticas e decisões no campo atual do empreendedorismo (Boltanski; Chiapello, 2009; Carmo et al., 2021; Cuzzocrea; Collins, 2015; Dardot; Laval, 2016; Sennett, 2001, 2019).
Passamos a observar que o empreendedorismo, especialmente o de startups, tem ocupado um papel crescente na vida dos jovens, funcionando não apenas como uma forma de “empresarializar” os seus percursos, mas também como um “projeto de vida” iniciado em fases cada vez mais precoces dos processos socializadores. Trata-se de um modo de existir que valoriza a iniciativa individual, a autonomia e a inovação como respostas legítimas às incertezas do mundo contemporâneo. Para compreender como esse ideal é transmitido, incorporado e naturalizado, recorremos aos conceitos de “pedagogização” e “academização”. Estes permitem abordar a incorporação da “educação empreendedora” nos processos de socialização dos jovens, quer em contextos escolares formais, como nas escolas e universidades, quer em contextos não formais ou informais, como os tempos de lazer.
O conceito de pedagogização, originalmente formulado por Beillerot (1987) e mobilizado por Ferreira (2017), ajuda a compreender como saberes e disposições antes aprendidos na prática profissional passam a ser mediados por dispositivos educativos em espaços de formação não formal ou informal, por meio de pedagogias que envolvem brincar, experimentar e aprender em ambientes lúdicos ou de lazer. Já a academização, segundo McEwen e Trede (2014), diz respeito à incorporação formal desses conteúdos nos currículos escolares e universitários, convertendo-os em competências disciplinares legitimadas e certificáveis.
Esses fenômenos ganham densidade analítica quando interpretados à luz das teorias da socialização. Com base em Dubar (2005), é possível compreender a educação empreendedora como um operador simbólico que atua na construção de identidades projetivas, orientadas à autogestão. Já Lahire (2019) nos permite reconhecer que os sujeitos incorporam disposições múltiplas e, por vezes, contraditórias, ativadas conforme os seus contextos sociais. Isso ajuda a explicar por que, para alguns, a educação empreendedora oferece reconhecimento, enquanto para outros gera frustração e desencaixe diante do ideal de inovação permanente.
Ao articular essas contribuições, propomos compreender o empreendedorismo de startups como um fenômeno que ultrapassa a esfera econômica e se inscreve nos processos formativos e identitários dos jovens. A pedagogização e a academização funcionam como estratégias contemporâneas de normatização e subjetivação que promovem a figura do “jovem empreendedor” como modelo desejável, mesmo quando esse ideal está distante das condições concretas da maioria. Ao transfigurar riscos estruturais em escolhas individuais, o empreendedorismo se consolida como horizonte normativo de futuro, apresentado como caminho legítimo para a realização pessoal, a inclusão produtiva e a mobilidade social, ainda que essas promessas nem sempre se realizem.
O desenho metodológico da pesquisa: Um caminho a não deixar de ser (per)seguido
Este artigo é um recorte da pesquisa “Para além dos unicórnios: das fachadas aos bastidores das vidas nas startups”3, que investiga as fachadas e os bastidores das vidas envolvidas em startups em Portugal. Ancorada na Sociologia do Cotidiano (Pais, 2002), a análise entende o empreendedorismo como um projeto ideológico social e politicamente articulado, sendo conduzida por uma abordagem multiescalar que conecta as trajetórias empreendedoras (nível micro) às universidades e incubadoras (nível mezzo), e a políticas públicas e imaginários sociais que sustentam o campo do empreendedorismo de startups em Portugal (nível macro).
A pesquisa foca nos “ecossistemas de inovação” de Lisboa, Porto e Aveiro, com atenção ao papel de universidades e incubadoras na promoção do empreendedorismo de startups por meio da educação empreendedora. Foram selecionados 8 interlocutores com perfis diversos (Quadro 1), entre gestores universitários e responsáveis por programas de startups, com atuação direta em políticas e práticas de inovação. As entrevistas semiestruturadas foram realizadas remotamente entre junho e julho de 2022, com retomada em março de 2024. Apesar das diferentes inserções institucionais, todos ocupam posições estratégicas na construção e difusão do empreendedorismo entre jovens.
Para contextualizar a pesquisa em sua dimensão macro, utilizamos: (i) trechos de dois discursos públicos de Carlos Moedas sobre a criação da “Fábrica de Unicórnios”; (ii) a identificação de três instrumentos políticos sobre empreendedorismo em Portugal; e (iii) informações de 22 fontes de comunicação alternativas desde 2017, que mediatizam e mercantilizam histórias de empreendedores de “sucesso”. A sistematização desse material foi desafiadora, mas tentamos reunir e refletir sobre conteúdos que conferem visibilidade e legitimidade simbólica a startups e figuras empreendedoras. O Quadro 2 sintetiza esse esforço, oferecendo um panorama que sustenta a análise contextual da pesquisa.
A mediatização das narrativas de empreendedores de “sucesso” torna as suas imagens públicas sedutoras, inspirando jovens a investir tempo, dinheiro e capital simbólico em projetos de “educação empreendedora”. Sustentadas pela ideia de que empreender é uma via acessível para superar o desemprego, essas narrativas promovem o empreendedorismo como projeto de vida desejável, mas silenciam desigualdades e obstáculos concretos. Mídias e materiais culturais reforçam mitos como o self-made man e o “empreendedorismo de garagem”, enquanto ignoram os privilégios estruturais que atravessam esses percursos (Pimentel, 2021; Rego; Cunha, 2017; Romani, 2021; Schroeder, 2008; Teixeira, 2021).
Essa idealização reforça a meritocracia e ignora condicionantes socioeconômicos, como no caso das narrativas mediáticas que exploram a figura de Elon Musk (Liles, 2022), nas quais privilégios familiares são sistematicamente minimizados nas representações públicas de sua ascensão econômica, especialmente por meio de gráficos e conteúdos que enfatizam a aceleração abrupta de sua fortuna (Fig. 1).
Inspirados em Farrugia (2019, 2020, 2021), observamos como o empreendedorismo de startups, ancorado em estruturas e subjetividades neoliberais, aprofunda desigualdades sociais. O sucesso parece mais acessível para quem dispõe de condições favorecidas e certas disposições subjetivas. Muitos jovens, seduzidos por essas narrativas, seguem percursos educativos estandardizados, projetando em líderes de startups figuras quase messiânicas (Lima; Ferreira; Souza, 2022).
Para compreender como essas disposições são construídas e legitimadas, propomos um percurso analítico que acompanha a socialização para o empreendedorismo da infância ao ensino superior. A investigação busca não apenas mapear os seus efeitos, mas analisar os dispositivos sociais e institucionais que sustentam essa difusão. A estrutura do artigo reflete esse movimento: da pedagogização em práticas lúdicas à inserção curricular e à academização universitária. Discutimos, assim, como o empreendedorismo se consolida como gramática formativa e horizonte identitário, seletivo e orientado por lógicas neoliberais, que atravessam ciclos de vida e escalas políticas.
Brincar, experimentar e aprender: A pedagogização do empreendedorismo
A pedagogização do empreendedorismo, tal como propomos neste artigo, refere-se à difusão de uma racionalidade educativa que atravessa diversas esferas sociais, moldando modos de ser, agir e imaginar o futuro. Para Beillerot (1987), mobilizado por Ferreira (2017), pedagogizar é transformar práticas sociais em objetos de aprendizagem, submetendo-as a dispositivos de codificação e avaliação. No caso do empreendedorismo, é mais do que ensinar técnicas ou criar empresas; promove-se precocemente uma “mentalidade” orientada pela inovação, proatividade e autorresponsabilização. Esse processo atua como vetor de socialização, formando identidades projetivas alinhadas à lógica do mercado (Dubar, 2005).
O estudo de Ferreira (2017) sobre a escolarização do saber-fazer do DJ ilustra como saberes informais são reorganizados como competências formais. O mesmo ocorre com o empreendedorismo, que deixa de ser apenas conteúdo e passa a constituir um horizonte formativo. Mais do que ensinar “como empreender”, promove-se um “estilo de vida empreendedor”, entendido como um conjunto de práticas e disposições organizadas reflexivamente em torno de um projeto de self (Giddens, 2002).
Esse processo materializa-se em iniciativas educativas voltadas ao público infantil que articulam jogo, inovação e empreendedorismo como competências precoces desejáveis. Um exemplo recente é a parceria entre a Unicorn Factory Lisboa (A Minha, 2024) e a empresa portuguesa Science4You, que promove atividades dirigidas a crianças sob a lógica da “primeira startup”, simulando etapas do ciclo empresarial, da concepção de produtos à sua apresentação e valorização. Sob o enquadramento STEAM (sigla que em português significa Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), tais iniciativas introduzem valores de mercado no universo do brincar, naturalizando desde cedo a lógica do desempenho, da iniciativa individual e da autorresponsabilização. A infância, tradicionalmente concebida como fase protegida da racionalidade econômica, é assim reposicionada como território estratégico de socialização neoliberal.
A pedagogização do empreendedorismo também se manifesta em iniciativas de ensino alternativas, como as escolas de programação para crianças. Instituições como a Happy Code (202-) oferecem cursos extracurriculares em robótica, lógica computacional e design de jogos, frequentemente associados à “mentalidade empreendedora”. Embora apresentadas como “experiências lúdicas”, essas práticas, ancoradas no tripé tecnologia, criatividade e empreendedorismo, constroem imaginários de futuro centrados na figura do “jovem inovador”, capaz de transformar ideias em soluções e habilidades em capital. Mais do que ensinar tecnologias, moldam disposições alinhadas com um mundo em constante aceleração.
Essas práticas antecipam a gramática do mercado e formam sujeitos moldados para gerir a si mesmos. A figura do empreendedor de si emerge como ideal de subjetividade marcado por desempenho, reinvenção e responsabilização individual. No entanto, como mostram Dubar (2005) e Lahire (2019), tais processos ocorrem de modo desigual, articulando-se às trajetórias, recursos e socializações prévias. Longe de ser apenas política educativa ou tendência de mercado, a pedagogização do empreendedorismo revela-se como mecanismo de diferenciação simbólica ao estabelecer critérios seletivos de valor e reconhecimento.
“Não são os políticos que criam empregos, são realmente as empresas”: O empreendedorismo na agenda política e educacional
O empreendedorismo vem se consolidando como eixo estratégico das políticas educativas contemporâneas, impulsionado por organismos internacionais que o promovem como resposta normativa à globalização, digitalização e às crises de empregabilidade (Atômico; Slush, 2021; Koskinen, 2021; Shane, 2009). No contexto europeu, essa orientação se expressa no Quadro Europeu de Competências Empreendedoras (Entrecomp, 2016), elaborado pela Comissão Europeia como referência transversal para todos os níveis de ensino. Representado por uma flor com três eixos – ideias, recursos e ação –, o documento define 15 competências aplicáveis à vida social, pessoal e profissional (Fig. 2).
Mais que um referencial técnico, o EntreComp opera como ferramenta normativa de formação de sujeitos adaptáveis à lógica neoliberal. Ao naturalizar valores como performance, adaptabilidade e autogestão, redefine o ideal de cidadão como alguém criativo, resiliente e capaz de “transformar ideias em valor”. Esse ethos empreendedor molda currículos, materiais didáticos e políticas públicas, promovendo a figura do sujeito como empresário de si, mesmo diante da instabilidade (Boltanski; Chiapello, 2009; Dardot; Laval, 2016; Sennett, 2019).
Essa orientação europeia vem sendo incorporada às políticas públicas portuguesas. Nas entrevistas realizadas, a centralidade do empreendedorismo e da “mentalidade empreendedora” foi um ponto de consenso: “O empreendedorismo é uma realidade que veio para ficar”. E2 destacou a importância do EntreComp como resposta da União Europeia à atual crise do mundo do trabalho, especialmente no que diz respeito ao reskilling e upskilling para preparar, especialmente, os jovens para as exigências futuras do mercado. E2 sugeriu, ainda, a possibilidade de estandardizar a “educação empreendedora” e os apoios ao empreendedorismo como um projeto viável e eficaz.
Nos últimos dez anos, Portugal implementou diversos dispositivos voltados ao empreendedorismo e à inovação, com destaque para:
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O Programa Startup Voucher (201-), com práticas de capacitação de jovens para a criação do próprio emprego.
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A Lei das Startups (Portugal, 2023), que oferece incentivos fiscais e regulatórios.
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O Referencial de Educação para o Empreendedorismo (República Portuguesa, 2024), integrado à Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania.
Esses instrumentos consolidam uma política de empreendedorismo orientada à formação de sujeitos autônomos, adaptáveis e responsáveis por sua inserção no mercado. O Startup Voucher reforça a ideia de que empreender é uma solução viável ao desemprego juvenil. A Lei das Startups regulamenta o setor e posiciona Portugal como “ecossistema de inovação” competitivo na Europa. Já o Referencial, ao atuar como diretriz curricular desde a educação pré-escolar, promove competências como criatividade, pensamento crítico mercadológico e gestão de projetos. A sua integração à disciplina de “Cidadania e Desenvolvimento”, na educação básica, difunde uma visão empresarial da vida, centrada em desempenho e autorresponsabilização.
E7 e E8 relataram experiências escolares em que o Referencial foi aplicado em parceria com incubadoras e programas regionais. Embora reconhecidas como “bem-sucedidas”, essas iniciativas evidenciam o risco de instrumentalização pedagógica, em que o Referencial é apropriado por agentes do “ecossistema empreendedor” para legitimar práticas orientadas ao mercado. O empreendedorismo é então promovido como competência universal, descolada de uma abordagem crítica sobre cidadania e desigualdade. Nesses contextos, a pedagogização reforça a ênfase no desempenho individual e obscurece as condições sociais que limitam o acesso às oportunidades.
Outros relatos reforçam essa tendência. E6 descreveu um projeto no primeiro ciclo, com apoio governamental, que resultou na publicação de um livro infantojuvenil sobre design thinking e resolução de problemas sociais. E2 destacou como competências ligadas a inovação, trabalho em rede e resiliência são hoje tratadas como pré-requisitos à inserção profissional, mesmo antes do ensino superior. Tais iniciativas mostram como o Referencial tem sido acionado para promover empregabilidade e inclusão, ao custo de naturalizar a expectativa de que todos estejam prontos para “ser a sua própria empresa”, desconsiderando as desigualdades que atravessam os percursos educativos e profissionais dos jovens.
É nesse contexto de consolidação normativa e expansão simbólica do empreendedorismo que ganha força a metáfora da “fábrica de unicórnios”, amplamente mobilizada pelo poder público e pela mídia. Em 2022, o então presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, lançou o projeto com esse nome, apresentado como equipamento de ascensão social e instrumento para posicionar Portugal como polo global de inovação (Moedas, 2021; Pimentel, 2021). A proposta buscava tornar o sucesso empreendedor replicável, como num processo industrial.
Essa metáfora, no entanto, oculta atravessamentos de classe, território e escolaridade, reforçando a ideia de que o “sucesso” depende apenas de esforço individual. Ao afirmar que “não são os políticos que criam empregos, são realmente as empresas” (Unifé TV Portugal, 2022, n. p.), Moedas reconfigura o papel do Estado ao promover a lógica de que cabe ao indivíduo, e não às políticas públicas, garantir a sua própria inserção. Slogans como “é apenas um mito até que você o torne realidade” ou “eleve seu sonho a um bilhão” traduzem esse ethos em que o empreendedorismo é colocado como caminho possível para a mobilidade social (Fig. 3).
O lançamento oficial da Fábrica de Unicórnios ocorreu em janeiro de 2023, na Factory Lisbon, situada no Hub Criativo do Beato, antigo complexo fabril transformado em polo de inovação. A metáfora se completa: as fábricas industriais do passado cedem lugar à produção simbólica de startups bilionárias. Contudo, como advertiu E5, “pode ser bom para o marketing, mas é ruim para os empreendedores que ficam com a ideia errada. Achar que estamos a fazer unicórnios [...]”, denunciando o caráter ilusório dessa narrativa que padroniza experiências, despolitiza o campo e sugere que startups podem ser produzidas em série (Wolff, 2019).
Diante disso, importa refletir sobre quem são os jovens convocados a acreditar nesses projetos. Como acessam esses ambientes? Apesar do forte apelo simbólico, iniciativas como a Fábrica de Unicórnios operam com critérios seletivos bastante mais rígidos e exclusivistas do que o discurso da inclusão sugere. Pesquisas recentes indicam que o acesso ao universo das startups, unicórnios ou não, exige níveis elevados de capital cultural e social, redes de contato e competências técnicas – muitas vezes superiores aos exigidos por empresas tradicionais (Knok, 2023; Luhr, 2024; Twine, 2022). Ao apresentar o empreendedorismo como solução universal, tais políticas tendem a ocultar os mecanismos de exclusão que estruturam o acesso às chamadas “novas oportunidades”.
Da brincadeira à prática empreendedora: Academização do empreendedorismo
O ensino superior tem sido cada vez mais interpelado a formar jovens para um mercado de trabalho instável, assumindo o empreendedorismo como estratégia pedagógica central – presente em currículos, laboratórios, centros de inovação e incubadoras. Como aponta E4, essa ênfase é vista como solução para diversos problemas, mas também expressa a mercantilização do ensino (Harvey, 2010) e da financeirização das práticas acadêmicas e pedagógicas (McEwen; Trede, 2014).
A presença crescente das universidades em redes de inovação revela essa articulação. E5 aponta que a sua instituição “participa ativamente na promoção do empreendedorismo, em parceria com todas as instituições que promovem o empreendedorismo na região de Aveiro”. E4, por sua vez, reconhece os benefícios dessas conexões, como acesso facilitado a eventos e formações, mas alerta que muitas vezes são buscadas apenas como selo de legitimidade e credibilidade de mercado, esvaziando o propósito formativo e ético do apoio institucional.
Os entrevistados também destacam o impacto dessa valorização nas expectativas dos estudantes. Embora as universidades mantenham sua função formativa, a centralidade do empreendedorismo tende a mascarar falhas estruturais do mercado de trabalho, deslocando para o indivíduo a responsabilidade pela sua inserção e permanência (Ferreira, 2017; Harvey, 2010; McEwen; Trede, 2014). Como observa Gaulejac (2007), a noção de “empregabilidade” converte a ausência de empregos em déficit de competências, reforçando a autoadaptação permanente como exigência de sobrevivência no mercado laboral.
No contexto neoliberal, o empreendedorismo é promovido não só como carreira, mas como modo de vida e norma subjetiva (Rajak; Dolan, 2022). E2 reforça essa visão ao afirmar que “criar o próprio negócio pode de facto ser uma alternativa, considerando o desemprego jovem que vemos hoje em dia”. Assim, as universidades passam a incorporar a empregabilidade como missão institucional, assumindo que formar empreendedores é garantir autonomia diante das crises. Essa lógica, porém, reforça a autogestão como imperativo subjetivo, produzindo sujeitos que devem se reinventar continuamente, mesmo sem garantias de inserção digna. Como resume E4: “no empreendedorismo não dependemos de um chefe... você pode fazer o que quiser”. Trata-se de uma subjetividade marcada pela autonomia e flexibilidade (Lima; Oliveira, 2021), mas que ignora barreiras sistêmicas e desigualdades de oportunidades (Dardot; Laval, 2016).
Os estudos de McEwen e Trede (2014) sobre a academização de profissões emergentes ajudam a compreender como o empreendedorismo vem sendo progressivamente incorporado às dinâmicas universitárias. Segundo as autoras, instituições de ensino superior têm reformulado disciplinas e criado cursos voltados a novas profissões tecnológicas, como inteligência artificial, blockchain e marketing digital. Nesse processo, a universidade deixa de ser apenas espaço de crítica e passa a operar como usina de competências voltadas à inovação, à resolução de problemas e à adaptação contínua ao mercado, promovendo o empreendedor como “sujeito ideal” diante das crises e incertezas.
Em Portugal, algumas universidades têm assumido papel ativo no “ecossistema empreendedor”. E1 e E2 defendem o apoio institucional a alunos e pesquisadores com ideias inovadoras, alinhando educação empreendedora a marcos como o EntreComp. E2 relata, ainda, a reestruturação curricular de sua universidade, que passou a oferecer disciplinas de empreendedorismo da licenciatura ao doutorado. Por fim, E3 destaca o uso crescente de metodologias ativas e da lógica do “aprender fazendo”, aproximando o universo das startups do cotidiano pedagógico.
Esse modelo se consolida com o Projetc-Based Learning (PBL), que, segundo E2, já substitui os exames em várias disciplinas. Apesar dos desafios de implementação (Pires, 2018), a abordagem tem sido amplamente adotada para fortalecer a cultura empreendedora na academia. E3 reforça esse movimento ao destacar um aumento significativo de pesquisas sobre empreendedorismo, “chegando a 60 teses em alguns períodos”, muitas delas baseadas justamente na lógica da aprendizagem por projetos.
Diante desse cenário, torna-se fundamental adotar uma postura crítica. Não se trata de negar o valor da formação empreendedora, mas de recusar sua conversão em solução única e uniformizada. O desafio é preservar a universidade como espaço de complexidade, onde o empreendedorismo conviva com a justiça social, o pensamento crítico e a imaginação de futuros equitativos. É preciso deslocar o foco do desempenho para a dignidade, do sucesso individual para os compromissos coletivos, da autorresponsabilização para a responsabilidade partilhada.
Aspectos conclusivos de uma agenda de pesquisa andante acerca do empreendedorismo de startups
Chegar ao final deste artigo não é encerrar o tema, mas propor pistas para uma agenda de pesquisa que transita entre o crescimento institucional e pedagógico do empreendedorismo e seus efeitos formativos, políticos e subjetivos. Três eixos se destacam nesta reflexão.
O primeiro é a consolidação do empreendedorismo como discurso hegemônico de solução. Mais do que uma resposta ao desemprego, ele se apresenta como gramática legítima de futuro, imperativo de ação e estratégia individualizante diante da instabilidade. Essa naturalização desloca o foco das desigualdades para o desempenho pessoal, reforçando lógicas meritocráticas e obscurecendo os mecanismos seletivos que estruturam o acesso a recursos e oportunidades.
O segundo diz respeito à idealização do empreendedorismo como “projeto de vida”. A figura do “empreendedor de sucesso” tem ocupado lugar central nos imaginários juvenis, alimentada por políticas públicas, discursos educativos e narrativas mediáticas. O empreendedorismo torna-se não apenas uma carreira possível, mas um ideal de realização que mobiliza desejos e identidades. Esse horizonte, contudo, frequentemente se descola das condições concretas de vida, gerando tensões entre expectativas e experiências, entre o sonho e a precariedade.
Por fim, o terceiro eixo, talvez o mais profundo, refere-se à pedagogização e academização do empreendedorismo. Incorporado desde a infância até o ensino superior, o empreendedorismo ultrapassa o domínio técnico e passa a operar como modo de vida e norma subjetiva. A educação empreendedora molda sujeitos autogeridos, adaptáveis e responsivos ao mercado. Instituições educativas tornam-se espaços de legitimação de um novo ethos formativo, em que o “aprender a saber fazer” desloca a formação humana para a lógica da competência e do desempenho individual.
Esta pesquisa busca justamente tensionar esse processo. Não se trata de recusar a potência de empreender, mas de questionar a sua conversão em modelo normativo e universal. Em tempos de crise e incerteza, pensar sociologicamente o empreendedorismo é também um gesto político: desnaturalizar o que se impõe como óbvio, visibilizar quem é excluído e imaginar, com radicalidade, outras formas possíveis de futuro.
Agradecimentos
Os autores agradecem aos interlocutores da pesquisa pela disponibilidade e generosidade na realização das entrevistas, bem como ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa pelo apoio ao trabalho. Agradecem também aos organizadores do dossiê e ao Centro de Estudos Educação e Sociedade (Cedes) pela condução do processo editorial e pela oportunidade de integrar a presente publicação.
Notas
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1
O artigo foi produzido pelos autores que mantêm uma relação de orientação desde 2020 no ICS/ULisboa. Optamos por manter na primeira pessoa do singular as experiências individuais do doutorando e na primeira pessoa do plural, as ideias desenvolvidas em conjunto.
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2
Crise marcada pelo colapso do modelo fordista-keynesiano de produção, o que impulsionou a ascensão do neoliberalismo (Harvey, 2010).
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3
Trata-se de uma tese doutoral em Sociologia (em curso) no ICS/ULisboa.
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Declaração de uso de ferramentas de inteligência artificial
Ferramentas de inteligência artificial generativa foram utilizadas de forma pontual para apoio técnico na revisão formal do manuscrito, incluindo ajustes de formatação, melhoria da qualidade gráfica de quadros e figuras e auxílio na tradução do título, resumo e palavras-chave.
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Financiamento
Fundação para a Ciência e a TecnologiaProcesso: 2024.02026.BD.
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Dossiê organizado por:
Maria Carla Corrochano https://orcid.org/0000-0001-8030-6461
Disponibilidade de dados de pesquisa
Todos os dados forma gerados/apresentados no artigo.
Referências
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Editoras associadas:
Débora Dainez https://orcid.org/0000-0002-8223-098X e Ana Luiza Bustamante Smolka https://orcid.org/0000-0002-2064-3391




Fonte: Elaborada pelos autores com base nos dados mediáticos sistematizados pela
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Fonte: Print do website Unicorn Factory Lisboa capturado pelos autores (2023).