Open-access Estudos decoloniais nos circuitos hegemônicos da produção acadêmica brasileira

Estudios decoloniales en los circuitos hegemónicos de la producción académica brasileña

Resumo

Em que medida a circulação contemporânea de teorias que questionam ontologias coloniais e reivindicam renovação crítica para o pensamento latino-americano influenciou o desenvolvimento de novas agendas de pesquisa no Brasil? Este artigo dirige-se aos circuitos hegemônicos da produção do conhecimento acadêmico brasileiro para compreender o impacto das perspectivas decoloniais durante a primeira década de recepção e apropriação dessa teoria pela produção intelectual do país. Por meio de um mapeamento de 246 artigos que abordaram os termos “decolonial” ou “decoloniais” publicados até 2018, procuramos analisar diferentes usos que a categoria adquiriu em pesquisas brasileiras. O objetivo foi descrever a configuração de redes de estudos decoloniaisj com base na revisão bibliométrica dessa literatura, com a intenção de apresentar um quadro histórico parcial dos principais temas, autores, autoras e bibliografias que foram mobilizados em periódicos registrados nas bases de dados Scopus e Web of Science entre 2009 e 2018. Os resultados desta investigação sugerem que estudos identificados com perspectivas decoloniais apresentaram-se como investigações simultaneamente analíticas e políticas, que se organizavam em torno do campo disciplinar das ciências sociais, mas com impacto visível em outras áreas do conhecimento.

Palavras-chave:
Estudos decoloniais; Sociologia da ciência; Pensamento social latino-americano; Intelectuais; Bibliometria

Abstract

How are the Brazilian new research agendas influenced by the contemporary dissemination of theories challenging colonial ontologies and advocating for critical revitalization of Latin American thought? This article investigates the dominant circuits of academic knowledge production in Brazil to comprehend the impact of decolonial perspectives during the first decade of the reception and adoption of this theory in the country’s intellectual production. By examining 246 articles that explored the terms “decolonial” or “decolonials” published up to 2018, we aimed to analyze the various applications this category had within Brazilian research. The aim is to outline the structure of networks involved in decolonial studies through a bibliometric review of this literature, to provide a partial historical overview of the principal themes, authors, and references mobilized in periodicals registered in the Scopus and Web of Science between 2009 and 2018. The findings suggest that studies associated with decolonial perspectives presented as both analytical and political, organized within the field of social sciences but with a noticeable influence on other knowledge domains.

Keywords:
Decolonial studies; Sociology of science; Latin American social thought; Intellectuals; Bibliometrics

Resumen

¿En qué medida la circulación contemporánea de teorías que cuestionan las ontologías coloniales y reivindican una renovación crítica del pensamiento latinoamericano influye en el desarrollo de nuevas agendas de investigación en Brasil? Este artículo investiga los circuitos dominantes de producción de conocimiento académico en Brasil para comprender el impacto de las perspectivas decoloniales durante la primera década de recepción y apropiación de esa teoría en la producción intelectual del país. A través del examen de 246 artículos que exploraron los términos “descolonial” o “descoloniales” publicados hasta 2018, buscamos analizar las diversas aplicaciones que esa categoría tuvo en la investigación brasileña. El objetivo es delinear la estructura de las redes involucradas en los estudios descoloniales a través de una revisión bibliométrica de esta literatura, con la intención de proporcionar un panorama histórico parcial de los principales temas, autores y referencias movilizadas en las publicaciones periódicas registradas en Scopus y Web of Science entre 2009 y 2018. Los hallazgos de esta investigación sugieren que los estudios asociados con perspectivas decoloniales se presentaron como investigaciones tanto analíticas como políticas, organizadas dentro del campo de las ciencias sociales, pero con una influencia notable en otros dominios del conocimiento.

Palabras clave:
Estudios decoloniales; Sociología de la ciencia; Pensamiento social latinoamericano; Intelectuales; Bibliometría

INTRODUÇÃO

O desconforto gerado pelas narrativas eurocêntricas da modernidade parece estar se generalizando nas universidades brasileiras. Das salas de aulas para os grupos de pesquisa, passando pelos domínios das ciências ditas “puras” ou “aplicadas”, pelas epistemologias socioculturais ou biocientíficas, pelas formações em licenciatura ou bacharelado, percebemos que uma parcela cada vez maior de estudantes demonstra interesse por textos, experiências, projetos políticos, conceitos e perspectivas teóricas criadas pelo Sul Global (Rosa, 2014). Como já observou Ballestrin (2017), não se trata necessariamente de uma rejeição das tradições de pensamento desenvolvidas no Norte Global, mas de uma reação crítica às práticas imperialistas que, historicamente, organizaram o conhecimento especializado em nosso país. Uma espécie de desacoplamento das ortodoxias disciplinares que sustenta explicações que universalizam as histórias do imperialismo ocidental, em favor da emergência de saberes, instituições e sujeitos que pensam o mundo desde outros lugares de existência.

Esse senso de urgência em construir alternativas para a atual “geopolítica do conhecimento” que estrutura nossos cotidianos de ensino e pesquisa no Brasil por meio do que Quijano (1992) denunciou como a “colonialidade do poder”, do “ser” e do “saber” remonta disputas e rupturas intelectuais que marcaram a própria trajetória do pensamento social latino-americano em suas relações assimétricas com teorias europeias e norte-americanas da modernidade. Afinal, como já argumentou Mignolo (2012), ao mesmo tempo que o domínio imperial se estabeleceu nas colônias, inúmeras vozes foram se insurgindo ao longo dos séculos contra as múltiplas formas de violência e de opressão geradas pelo controle das metrópoles. A pluralidade de maneiras de existir e de resistir na intersecção com as estruturas de saber e de poder que moldam o sistema-mundo moderno, colonial e imperial em que vivemos já seria a própria expressão do que Walter Mignolo denomina como “de-colonial”, ou seja, dos modos sempre contingentes, parciais e engajados pelos quais assumimos a “diferença colonial” como um “pensamento fronteiriço” necessário para as lutas pela descolonização cultural e epistêmica no continente.

Tal perspectiva, simultaneamente política e analítica, foi gestada ao menos desde a década de 1970 por intelectuais como Enrique Dussel, Aníbal Quijano e Immanuell Wallerstein para denunciar a atualidade das formas coloniais de dominação e apontar a urgência em pluralizarmos a ideia de modernidade com base na realidade latino-americanas e caribenhas. Com o apoio institucional do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e a formação de amplas redes de pesquisa e de militância, no final dos anos 1990, os variados projetos intelectuais identificados com a produção de conhecimento anticolonial próprio puderam se articular coletivamente sob a rubrica de “estudos decoloniais”. Assim, como argumenta Escobar (2003, p. 53), um “programa de investigação” relativamente comum pôde se constituir na entrada deste novo milênio com a expectativa de renovar as formas acadêmicas de analisar a América Latina e o Caribe e reconstruir nossas utopias societárias por meio da construção de um lócus relativamente autônomo de enunciação.

Esse “giro decolonial” no pensamento social latino-americano, em referência à expressão utilizada por Nelson Maldonado-Torre em 2005 (Castro-Gómez & Grosfoguel, 2007), apresenta-se como um campo multidisciplinar, transnacional e pluriétnico de produção do conhecimento radicalmente crítico às ontologias do colonialismo moderno, mas distinto de outras tradições da teoria crítica, como o marxismo (Gramsci, 1995), o pós-estruturalismo (Said, 2007), os estudos culturais (Bhabha, 1998), o pós-colonialismo (Chakarbarty, 2000), as modernidades múltiplas (Eisenstadt, 2000), as teorias do sul (Connell, 2007), os estudos subalternos (Spivak, 2010) ou as epistemologias do sul (Santos & Meneses, 2009). Nesse caso, a própria noção de decolonialidade - sem a letra “s” de “descolonial” - representaria uma ruptura com as concepções de descolonização nacionais desenvolvidas na segunda metade do século XX.

Quase duas décadas mais tarde, os estudos decoloniais parecem ter adentrado na cena intelectual brasileira. Sua presença já é notada nas publicações de novas obras (Rocha et al., 2020) e dossiês (Brighenti, 2018), na organização de eventos e linhas de pesquisa (Macedo, 2020), na oferta de cursos e disciplinas (Fuscaldo & Nascimento, 2021), bem como nos próprios repertórios acadêmicos de jovens pesquisadores e pesquisadoras das mais diversas áreas do conhecimento (Silva & Ornat, 2020).

Neste artigo, não temos a pretensão de apresentar as múltiplas facetas desse cenário vibrante de práticas e publicações que estão emergindo das mais variadas localidades e instituições espalhadas pelo país. Nós nos concentramos em investigar a sua aparição em periódicos hegemônicos na produção intelectual brasileira que estão disponíveis nas bases de dados internacionais Scopus e Web of Science. Com base neles, oferecemos um retrato histórico e parcial, mas significativo, do que circulou como sendo uma perspectiva decolonial e impactou a formação e a organização de inúmeras redes de trabalho acadêmico durante a primeira década de recepção e apropriação dos estudos decoloniais no país.

Para tanto, realizamos o mapeamento de 246 artigos que abordaram os termos “decolonial” e “decoloniais” publicados por autores e autoras brasileiras em periódicos indexados nas bases Scopus e Web of Science. O objetivo é descrever a configuração de redes de estudos decoloniais nos circuitos hegemônicos da produção do conhecimento acadêmico brasileiro. Desse modo, nas seções seguintes, abordaremos os aspectos gerais dos estudos decoloniais para situá-los como uma opção ética e política que se coloca a favor das experiências, das lutas e dos saberes dos povos subalternizados pelo colonialismo. Em seguida, apresentaremos a proposta de um mapeamento bibliométrico dessa literatura e ofereceremos uma cartografia de diferentes usos acadêmicos que a categoria adquiriu no período. No final, argumentaremos que os resultados dessa investigação sugerem que os estudos decoloniais começaram a se adensar no país em torno de, pelo menos, quatro redes visíveis de trabalho intelectual que compartilharam perspectivas teóricas comuns.

A OPÇÃO DECOLONIAL

Expressões como “pensamento decolonial” ou “decolonialidade” podem até representar uma novidade teórica em certos círculos universitários contemporâneos, mas é importante não perdermos de vista que sua enunciação remete à longa tradição de lutas contra a dominação colonial no continente. Da rebelião de Tupac Amaru no século XVIII à atual resistência Yanomami, passando pela atuação individual ou coletiva de incontáveis artistas, ativistas e intelectuais, os estudos decoloniais reivindicam essas heranças ancestrais como legados necessariamente diversos, polifônicos e contraditórios, cuja força estaria justamente nessa capacidade plural de corresponder aos desafios societários produzidos pela modernidade (Quijano, 2003). Por isso mesmo, seja como adjetivo, seja como ou substantivo, o núcleo narrativo dessa perspectiva costuma se identificar com aquilo que Mignolo (2008) já denominou uma “opção” ética e política em favor da “desobediência epistêmica” - ou seja, uma maneira de conectar-se ao mundo fraturado pelo colonialismo e pelo imperialismo moderno para formular alternativas de reexistência e de bem-viver que considerem nossa “posição epistêmica subalterna”.

Nesse sentido, a opção decolonial poderia ser concebida como um conjunto parcialmente articulado de movimentos em movimento. Algo que está muito além de um mero rótulo acadêmico e não chega a estabelecer um projeto teórico único, coeso e fechado em si mesmo. Seu traçado talvez diga respeito ao que Walsh (2014) argumenta em suas “notas” a Paulo Freire, a saber: um pensamento que se faz ao caminhar com as populações oprimidas, ao colocar-se ao lado de suas lutas por um mundo melhor e ao perguntar a elas como o decolonial pode e deve ser construído. Participar dessas histórias radicalmente críticas às desigualdades, aos rebaixamentos e à violência produzida pelos projetos coloniais e modernos de universalidade (Quijano & Wallerstein, 1992) significa, portanto, mover-se em direção às afinidades políticas que poderemos tecer em meio às nossas diferenças (Segato, 2021). Assim, no lugar de almejar qualquer forma de universalidade euro-norte-americano centrada, os estudos decoloniais têm se revelado abertos e generosos com a “pluriversidade” de seres, saberes, fazeres, cosmologias ou territórios que compõem as experiências de coletividades historicamente subalternizadas (Pinto & Mignolo, 2015).

Nesse percurso que se proclama atento e engajado nas histórias de luta e resistência latino-americanas e caribenhas à opressão colonial, algumas categorias foram adquirindo densidade como marcos conceituais e narrativos. A principal delas provavelmente é a noção de “colonialidade do poder”, definida por Quijano (1992) como o conjunto das relações assimétricas que se estabeleceram durante o processo de colonização e ainda hoje reforçam hierarquias sociais e legitimam práticas de exploração humana e ambiental, por meio da imposição dos valores e da cultura hegemônica das antigas metrópoles. Ao denunciar a perpetuação dessas estruturas de poder que moldaram o sistema-mundo moderno, colonial e imperial por meio de formas racializadas (Bernardino-Costa et al., 2018) e sexualizadas (Lugones, 2014) de classificação e estratificação social, os estudos decoloniais foram se complexificando para abarcar outras dimensões da colonialidade nas periferias de uma economia/mundo capitalista e neoliberal, como a “colonialidade do ser” e a “colonialidade do saber” (Maldonado-Torres, 2016).

A colonialidade do ser está relacionada com as múltiplas maneiras pelas quais certas relações de poder afetaram o modo como vivenciamos nossas experiências, percebemos a nós mesmos e nos relacionamos com os “outros”. Ela se manifesta, por exemplo, na forma pela qual nos ensinam a negar corpos não brancos e não europeus (Matos & Sousa, 2022), em como são normalizadas as práticas de marginalização e aniquilamento de categorias “indesejáveis” de sujeito (Lopes, 2019), em como nos exigem passividade diante da administração de “necropolíticas” da vida neocolonial (Mbembe, 2018), em como é justificada a exploração de territórios, outros seres e recursos naturais para alimentar o processo de acumulação capitalista (Escobar, 2020) ou mesmo na absoluta indiferença pela qual nos são apresentados os projetos de destruição de memórias, cosmologias e ambientes que poderiam evitar o colapso ecológico e a barbárie social (Ferdinand, 2022). Todas essas camadas de trauma, sofrimento, sentimento de inferioridade e autoaversão marcaram profundamente a existência latino-americana e caribenha, com o que Mignolo (2020, p. 192) chama de “diferenças coloniais e imperiais”, ou seja, a construção sociocultural de diferenças irredutíveis entre “aqueles que participaram da construção do mundo moderno/colonial e aqueles que foram excluídos do debate”.

Desse modo, a condição de “não ser”, imposta aos povos subalternizados, desdobra-se em um “não saber” com a cumplicidade de inúmeras esferas de reprodução da cultura e do conhecimento hegemônico. A colonialidade do saber, então, converte-se em outra dimensão privilegiada pela crítica decolonial nas últimas décadas. Ao expor as histórias de apagamento e apropriação de saberes e tecnologia local (Dussel, 1993), bem como contestar o caráter supostamente abstrato, neutro e universal de certas linguagens científicas (Castro-Gomez, 2005), diversos estudos têm se esforçado em demonstrar a imposição de “razões imperiais” sobre qualquer outra racionalidade emancipatória que possa ser elaborada por fora dos circuitos hegemônicos da globalização - circuitos estes que, ao menos desde Foucault (2002), sabemos que controlam, disciplinam e vigiam as formas de produção e difusão do conhecimento considerado legítimo. Portanto, as relações geopolíticas que organizam a economia do mundo do capitalismo global passam a ser compreendidas pelas lentes decoloniais também como “geopolíticas do conhecimento” (Mignolo, 2020).

CARTOGRAFIAS POSSÍVEIS: POR UMA ANÁLISE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA

Estudos que promovam o mapeamento da recepção, do impacto e da circulação de perspectivas teóricas diversas nos mais variados campos da produção do conhecimento, de fato, não representam nenhuma novidade na atividade científica brasileira. Áreas tão particulares quando a Administração (Lacruz et al., 2017), as Ciências Sociais (Campos et al., 2017), a Educação Especial (Hayashi & Gonçalves, 2018), os Estudos Organizacionais (Carniel & Américo, 2018), a Psicologia (Fradkin, 2017), para mencionar apenas alguns exemplos recentes de publicações nacionais com esse caráter, já se acostumaram a realizar balanços provisórios dos efeitos gerados pela emergência, adensamento ou hegemonia de certas ideias em redes localizadas de trabalho intelectual. Em que pese a pluralidade de temáticas e estratégias metodológicas adotadas, essas formas de descrever e de analisar as maneiras pelas quais o trabalho acadêmico se organiza, adquire coerência, credibilidade e materialidade, equivalem às tentativas de oferecer sentido à imensa quantidade de publicações científicas geradas no país.

No Brasil, conforme informações oferecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), atualmente, cerca de 95% das pesquisas desenvolvidas são produzidas pelas universidades públicas, sobretudo nos programas de pós-graduação. Segundo o relatório elaborado pelo instituto Clarivate Analytics (Cross et al., 2018), esse volume de produções representou, apenas entre os anos de 2011 e 2016, um total de 250.680 mil artigos. Desse total, apenas a área de Ciências Sociais contribuiu com 11.555 mil artigos. Nesse sentido, encontrar maneiras de interpretar esse volume gigantesco de informações nos parece constituir, tanto para a pesquisa quanto para a formação, um dos principais desafios heurísticos de nossa época.

Neste texto, procuramos oferecer um retrato panorâmico de publicações acadêmicas que se articularam em torno dos estudos decoloniais. Desse modo, realizamos uma análise bibliométrica dessa produção com a finalidade de compreender como foram configuradas as primeiras redes de estudos decoloniais nos circuitos hegemônicos da produção do conhecimento acadêmico brasileiro.

Para investigar tal questão de pesquisa, adotamos como princípios analíticos marcos temporais, espaciais e relacionais que nos permitiram delimitar quem, quando, onde e o que foi produzido como conhecimento científico no campo nacional dos estudos decoloniais. Tais estratégias investigativas revelaram-se úteis para a compreensão da estrutura de um campo intelectual em formação no país. Por meio delas, pretendemos oferecer um retrato geral do volume e da historicidade das publicações, bem como dos vínculos intelectuais e institucionais estabelecidos pelos diversos autores e autoras envolvidos na construção de conhecimento identificado com as perspectivas decoloniais. Para tanto, examinaremos o modo pelo qual a literatura cientifica brasileira pôde mobilizar certas comunidades acadêmicas em torno do decolonial, com base na criação de redes de trabalho intelectual, da interconexão de áreas e objetos de conhecimento e da fabricação de tradições teóricas em comum.

Essa opção de pesquisa apresenta limitações, como a heterogeneidade dos estudos analisados, decorrente da estratégia de buscar maior abrangência nas bases selecionadas, e o viés de publicação, particularmente a ausência de periódicos não indexados pelas bases selecionadas, o que pode ter excluído do corpo de análise relevantes publicações sobre o tema. Por outro lado, ela evita o viés de seleção da base de dados e oferece uma estrutura de análise que se tornou familiar e recorrentemente valorizada pelo próprio universo acadêmico investigado.

Para a seleção dos documentos, verificamos, no dia 6 de maio de 2019, nas bases Scopus e Web of Science, o uso dos termos “decolonial” (e suas variações de sufixo, como decolonialidade) ou “decoloniais” no título, nas palavras-chave do autor, nas keywords plus ou no resumo dos documentos, sem delimitação temporal ou de língua. Além disso, como critério de corte, a pesquisa foi refinada, filtrando-se os resultados para o Brasil como país de afiliação do autor ou da autora. Para tanto, foram usadas as queries (TS=(decolonial* OR decoloniais) AND CU=(Brazil)) e (TITLE-ABS-KEY (decolonial* OR decoloniais) AND AFFILCOUNTRY (brazil)), respectivamente, nas consultas na Web of Science e Scopus. Para o processamento dos dados, foi adotado o pacote bibliometrix (Aria & Cuccurullo, 2017) para o software R (R Core Team, 2019).

Foram identificados 253 documentos publicados entre os anos 2009 e 2018. Como dados recuperados de bancos de dados bibliográficos podem conter registros duplicados e/ou erros de registro, realizamos um pré-processamento. Para evitar a captura de documentos sem aderência ao foco dessa investigação, os títulos foram lidos e, nos casos em que não se pôde fazer a validação da aderência do documento por esse critério, seguiu-se a leitura dos resumos dos documentos. Nessa etapa foram identificados sete registros duplicados e 29 documentos com erros de registro (por exemplo, ausência de palavras-chave), que foram corrigidos manualmente e, depois, verificados para garantir a correção da inserção manual dos dados. Como nenhum erro implicou duplicação, depois do pré-processamento, a base de dados contou com 246 registros únicos de publicações identificadas com os estudos decoloniais.

A opção por estudar tais produções, em detrimento de palestras, vídeos, material didático, programas curriculares, teses, dissertações ou outras expressões da atividade científica, está relacionada com a centralidade que esses artefatos adquiriram na avaliação dos programas de pós-graduação no Brasil. Por meio desse conjunto de textos, a expectativa é oferecer uma cartografia possível de redes dinâmicas de trabalho que promovam não apenas a tradução de perspectivas decoloniais para o contexto nacional, mas que também participem ativamente da sua reconstrução como campos emergentes de interesses e de disputas pela postulação de determinadas interpretações do social.

A intenção não é realizar uma arqueologia dos estudos decoloniais para debater os “regimes discursivos” (Foucault, 2002) que os sustentaram na vida acadêmica brasileira ao longo de sua primeira década de recepção e apropriação no Brasil. Nem mesmo definir, segundo esta investigação, o que poderia ou não ser classificado como perspectiva decolonial. Sabemos que a tentativa de desestabilizar a construção eurocentrada de conhecimento implica também a suspensão e a crítica das estruturas modernas e coloniais que organizam a atividade científica. Nossa ambição é mais modesta. Pretendemos tão somente cartografar os territórios intelectuais por meio dos quais certas comunidades acadêmicas puderam se estabelecer e identificar os principais nós que organizaram os vínculos iniciais entre instituições, pesquisadores, pesquisadoras e tradições teóricas.

Nesse caso, a noção de redes de trabalho especializado se revelou mais apropriada do que a de grupos, entre outras coisas porque ela confere maior flexibilidade e materialidade para a análise proposta. Afinal, ao localizar as teias de relações traçadas por aquelas publicações, fomos capazes de refletir sobre os seus impactos potenciais na vida universitária e sobre aquilo que inscreveram nos anos recentes como saberes decoloniais. Dessa maneira, começamos a revirar as páginas dos textos que reunimos neste artigo em busca de respostas para a pergunta de pesquisa que orienta o estudo.

O DECOLONIAL EM NÚMEROS: REDES, ATORES E REFERENCIAIS

Tão logo iniciamos a análise das 246 publicações acadêmicas que localizamos nas bases de dados Scopus e Web of Science, foi surpreendente constatar a aparição relativamente tardia e controversa do primeiro artigo relacionado com os estudos decoloniais no Brasil. Datado de janeiro de 2009 e veiculado no periódico Theory, Culture & Society, o texto, redigido por José Maurício Domingues, foi a primeira publicação de um autor brasileiro que identificamos. Por meio dela, Domingues (2009, p. 112) propôs uma leitura crítica dos “desenvolvimentos sociais, culturais e políticos recentes na América Latina, com especial referência ao projeto de ‘modernidade/colonialidade’, além de oferecer uma interpretação sociológica alternativa do subcontinente contemporâneo”. Como se sabe, tal campo de produção do conhecimento surgiu na América Latina durante década de 1990 (Ballestrin, 2013), e as primeiras traduções de obras sobre o tema para a língua portuguesa foram lançadas ainda na virada do século XXI (Casanova, 2002; Feres, 2005; Lander, 2005; Sousa, 1999). Nesse caso, as reflexões do autor parecem ter representado uma espécie de marco simbólico da lenta e polêmica recepção da “opção decolonial” no universo acadêmico brasileiro.

Professor no Instituto de Estudos Econômicos, Políticos e Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e autor de diversas obras sobre modernização e desenvolvimento no pensamento social brasileiro, Domingues realizou, em seu artigo, uma apresentação bastante “ácida” das ideias de Walter Mignolo. Considerado por ele “como a principal expressão desse projeto ‘pós/descolonial’”, as perspectivas teóricas de Mignolo foram introduzidas no debate acadêmico brasileiro por meio das lentes de Domingues (2009, pp. 112-113) na qualidade de um “esforço interpretativo que reflete mudanças sociais reais, mas oferece perspectivas teóricas e políticas equivocadas”. Desse modo, Domingues (2009, p. 129) concluiu sua argumentação sugerindo que “a sociologia latino-americana deve enfrentar teorizações gerais, além da mera descrição, estudos de caso e uma postura ‘crítica’ vagamente definida”. Mesmo que o impacto dessa análise precise ser relativizado, sobretudo se considerarmos os limites de sua repercussão em áreas distantes da sociologia, talvez ela simbolize algo importante sobre o modo pelo qual a intelectualidade brasileira percebia as contribuições potenciais da crítica decolonial sobre si mesma até aquele período.

Nos anos seguintes, entre 2010 e 2012, nove publicações sobre o tema apareceram em nossa base de dados, pluralizando e dificultando o lugar desses estudos na cena nacional. Algumas delas procuraram situar o decolonial como um tipo de “pensamento de fronteira”, mais ou menos capaz de desestabilizar ontologias coloniais tão estabelecidas quanto a “sociologia europeia” (Rodríguez et al., 2010) ou o “imperialismo cultural” (Ribeiro, 2011). Outras já sinalizavam o desenho preliminar de certas redes de produção do conhecimento, a exemplo daquela que seria criada em torno da parceria entre o pesquisador mexicano Eduardo Ibarra-Colado e os pesquisadores Alexandre Faria e Ana Lúcia Guedes, da Escola Brasileira de Administração e Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGV EBAPE) (Faria et al., 2010). Em que pese o caráter exploratório que pode ser atribuído a esses trabalhos, é interessante notar como a circulação dos estudos decoloniais entre nós começou a se organizar em torno do debate a respeito da legitimidade e do rendimento heurístico dessas “novas” teorizações latino-americanas e caribenhas na interpretação do Brasil.

A partir de 2013, contudo, esse quadro se altera substancialmente, e a “novidade” teórica trazida pelo decolonial parece ter adquirido credibilidade suficiente para se estabelecer como um campo emergente de produção do conhecimento. Provavelmente, tal mudança no valor desses estudos está relacionada com aspectos mais sutis e cotidianos da vida intelectual, - como a incorporação de certas perspectivas “multi/interculturais” em políticas educacionais e programas de estudo (Batista et al., 2013), a valorização de instituições de pesquisa e de pesquisadores e pesquisadoras latino-americanas e caribenhas (Ribeiro, 2014), as “viagens e traduções” de determinados conceitos baseados na consolidação de um “mercado” transnacional de citações (Costa & Alvarez, 2013) ou mesmo a reavaliação de categorias clássicas da teoria social segundo o engajamento em novos projetos, movimentos ou coletivos que emergem da “sociedade civil” (Losekann & Ballestrin, 2013), algo que demandaria interpretações renovadas a respeito de tudo o que ocorreu no Brasil depois das jornadas de junho de 2013.

De qualquer modo, foi a partir daquele momento que as movimentações que envolveram a incorporação de uma perspectiva crítica a respeito da colonialidade pôde adquirir materialidade e densidade.

Como é possível observar na Figura 1, o volume de publicações identificadas com a produção do conhecimento decolonial nas bases de dados Scopus e Web of Science cresceu exponencialmente no período.

Figura 1
Produção científica de estudos decoloniais no Brasil (2009-2018)

Como indicam os dados coletados nesta pesquisa, talvez ainda seja cedo para avaliarmos a extensão e a força do crescimento dos estudos decoloniais na vida acadêmica brasileira. Porém, entre os anos de 2009 e 2018, já é possível visualizar o desenho de campos multidisciplinares de produção de conhecimentos especializados sobre o tema que, em um curto intervalo de tempo, impactariam tradições disciplinares tão diversas quando as Ciências Exatas, as Humanidades, a Saúde e as Sociais Aplicadas. Nesse período, foram publicados 231 artigos e 15 livros (ou capítulos) apenas nas bases de dados analisadas, cuja produção intelectual reuniu 365 pesquisadores e pesquisadoras e envolveu 154 periódicos e 97 instituições de ensino superior ou programas de pós-graduação dentro e fora do país. Trata-se, sem dúvida, de um conjunto amplo de produções intelectuais que sinalizam a existência de diferentes focos de interesse e de rotinização dessas ideias e teorias que hoje parecem começar a se adensar em torno de uma poderosa crítica latino-americana e caribenha das epistemologias e tradições de pesquisa coloniais.

No Quadro 1, procuramos apresentar uma fotografia panorâmica da produtividade e do impacto de alguns autores e autoras que contribuíram para o crescimento dessa perspectiva no país e procuramos situá-los em relação às respectivas instituições a que estiveram vinculados. Para tanto, selecionamos os autores e as autoras mais produtivos durante o período, tomando como proxy de produtividade o “Índice h”, com o total de citações superior a 1 no rol de publicações do dataset.

Quadro 1
Autores relacionados com os estudos decoloniais no Brasil (2009-2018)

Entre os principais nomes que cooperaram para rotinizar no Brasil perspectivas e bibliografias vinculadas à “opção decolonial”, conforme procuramos demonstrar por meio do Quadro 1, está o de Alexandre Faria, especialista nas áreas de estratégia e marketing e critical management studies. Autor de dez artigos no período analisado, ele é um dos agentes centrais em uma rede de trabalho na administração que conectou 13 pesquisadores e pesquisadoras e oito instituições de ensino superior em torno da FGV EBAPE. Professor e diretor da escola desde 2004, Faria também se tornaria, nos anos seguintes, coordenador do International Masters in Practicing Management na FGV e professor visitante em diversas outras instituições de pós-graduação em administração nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra. Sua produção intelectual relacionada com os estudos decoloniais iniciou-se em 2010 e impactou diretamente ao menos outras 206 pesquisas até julho de 2019, de acordo com o Google Scholar. Em linhas gerais, a produção de Faria sobre o tema dialoga com as perspectivas de seu colega, Eduardo Ibarra-Colado (2006, p. 479), para quem o decolonial oferece aos estudos organizacionais um novo projeto ao inaugurar a possibilidade de “abandonar o espaço seguro onde residem ‘práticas de falsificação do conhecimento do centro’ e arriscar ‘pensar como outro’ para apreciar aquelas realidades submersas que foram ocultadas por tanto tempo pelas narrativas da modernidade”.

Além dessa comunidade acadêmica que se formou na administração brasileira em interlocução direta com os estudos decoloniais, outros trabalhos também parecem ter estruturado tal campo nacional, tendo em vista seu impacto relativo na produção de novas pesquisas. Estamos nos referindo, em particular, aos artigos de Ballestrin (2013), na Revista Brasileira de Ciência Política, e de Rosa (2014), no periódico Current Sociology, que acumularam, respectivamente, 406 e 67 citações no Google Scholar até junho de 2019. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e editora da RESuLACP, Ballestrin (2013, p. 89) apresenta em seu texto “a constituição, a trajetória e o pensamento do Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C)”, que define como “a radicalização do argumento pós-colonial no continente, por meio da noção de ‘giro decolonial’”. De modo semelhante, o artigo de Rosa (2014, p. 2), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia na Universidade de Brasília (UnB), discute “as maneiras como o Sul foi trazido para o centro dos debates teóricos dentro das ciências sociais”.

Assim, esses ensaios bibliográficos e outros do mesmo tipo parecem ter cumprido o papel de atualizar, sistematizar e reintroduzir algumas das teorias sociais que reivindicam renovação crítica para o pensamento latino-americano e caribenho, oferecendo caminhos analíticos para o desenvolvimento de agendas de pesquisa interessadas em desestabilizar ontologias colonialistas e reivindicar outros lócus de enunciação do social.

Ainda que se possa constatar, por meio do banco de dados analisado, a relevância de determinadas instituições, autores, autoras e textos na organização do campo discursivo dos estudos decoloniais no Brasil, nos parece relevante ressaltar o modo pelo qual essa perspectiva pôde disseminar-se por múltiplas áreas do conhecimento. O que nos levou a um exame mais detalhado dos principais periódicos que veicularam tais trabalhos. Isso porque partimos da hipótese de que eles estariam disseminando aquilo que seria reconhecido como uma perspectiva decolonial “crível” para o período segundo os critérios hegemônicos de validação do conhecimento científico no país.

Com a aplicação da lei de Bradford, chegamos a 17 periódicos e os situamos em áreas do conhecimento com base na maneira pela qual se apresentam. A lei de Bradford estabelece que a ordenação dos periódicos de forma decrescente, por produtividade (por exemplo, publicação de artigos de determinado assunto), possibilita estabelecer conglomerados divididos de forma que o número de periódicos em cada conglomerado seja proporcional a 1: n: n2.

Assim, a lei de Bradford pressupõe que, depois da publicação de alguns artigos sobre um novo tema em um campo científico, esses mesmos periódicos vão polarizar artigos semelhantes e, paralelamente, outros periódicos iniciarão a publicação dos primeiros artigos sobre esse mesmo tema. Caso haja a consolidação do debate, então surgirá um núcleo gravitacional de periódicos que mais publicaram sobre o tema. Desse modo, responsáveis por um terço dos documentos indexados pelas bases de dados Scopus e Web of Science no período, tais periódicos funcionam como fontes por meio das quais outros autores ou autoras entram em contato com certas publicações, dialogam criticamente com elas e tendem a enviar as suas próprias.

Nesta investigação, conseguimos estabelecer um núcleo de fontes que se revelou produtivo para a compreensão da recepção e da circulação dos estudos decoloniais em áreas particulares do conhecimento.

Na Figura 2, optamos por agrupar os periódicos analisados em sete áreas do conhecimento habitualmente utilizadas pelas Capes para classificar e avaliar o conhecimento científico produzido no país, com base nos conjuntos de objetos e de práticas de pesquisa semelhantes. Por meio do número de artigos relacionados com os estudos decoloniais disponível em cada periódico, foi possível observar não apenas a relevância das Ciências Sociais como campo discursivo privilegiado na interlocução com os estudos decoloniais, como também sua concentração em áreas que não figuraram nas análises iniciais que realizamos, como as de Educação, Letras e Linguística.

Figura 2
Periódicos com o maior volume de publicações sobre estudos decoloniais no Brasil (2009-2018)

A intensão não é avaliar quais áreas ou atores estariam impulsionando a produção de estudos decoloniais no Brasil com mais rigor ou produtividade, mas demonstrar como houve um processo de rotinização de objetos, ideias e perspectivas, ao mesmo tempo em que cada campo fabricou seus próprios diálogos para configurar agendas de pesquisa particulares com e a partir das teorias decoloniais.

Na próxima sessão iremos mergulhar nessas publicações com o objetivo de revelar os repertórios teóricos e as agendas específicas de pesquisa construídas através dos campos discursivos que identificamos em nossa base de dados. A expectativa, portanto, é a de apresentar a conformação recente dos estudos decoloniais enquanto um projeto plural, multidisciplinar e em disputa no país.

VIRANDO A PÁGINA: EMERGÊNCIA DE UMA CATEGORIA POLÍTICO-ANALÍTICA

Como temos percebido desde as universidades brasileiras, as atuais políticas de financiamento e de avaliação da atividade científica que se pautam globalmente por indicadores bibliométricos têm se convertido em dispositivos de classificação e controle que tendem a reproduzir desigualdades há muito estabelecidas nos meios acadêmicos. Tais desigualdades se expressam pelos ranqueamentos universitários, mas também pelo perfil dos periódicos, que, ainda hoje, constituem um dos principais indicadores de qualidade na produção intelectual. Denunciar o caráter arbitrário, capacitista, capitalista, colonial, racista e sexista desses índices é certamente uma tarefa decolonial (Grosfoguel, 2016).

Paradoxalmente, também é exatamente por conta dessa “pressão” exercida pelos padrões de eficiência científica impostos a pesquisadores e pesquisadoras que querem ver seus trabalhos publicados em revistas de qualidade reconhecida em sua área de atuação que vale a pena observar com atenção a produção por eles veiculada. Nesses periódicos, nos parece estar sendo disputado um jogo estratégico de adequação às normas, aos estilos e às tradições estabelecidas, por meio de sistemas euro-estadunidenses de produção científica e, simultaneamente, de subversão dessas convenções, com base na introdução de outros objetos, outros problemas e novas perspectivas intelectuais.

Ao analisar os artigos publicados nos 17 periódicos com o maior volume de publicações relacionadas com os estudos decoloniais no Brasil que identificamos nas bases de dados Scopus e Web of Science, começamos a visualizar a conformação de um repertório teórico comum, o que sugere a estabilização de diálogos intelectuais que podem estar favorecendo a configuração de um campo discursivo próprio e relativamente autônomo. Nesse sentido, talvez seja factível assumir que nomes de intelectuais latino-americanos, como Walter Mignolo, Aníbal Quijano, Catherine Walsh, Ramón Grosfoguel, Enrique Dussel, Arturo Escobar e Santiago Castro-Gomes, entre tantos outros, mais do que homogeneizarem as perspectivas teóricas que organizam a produção decolonial do conhecimento na academia brasileira, estão se tornando pontos de passagem obrigatórios para quem deseja se aventurar por esse campo do saber e ocupá-lo estrategicamente como um espaço de luta e significação. Ou seja, suas obras estabelecem categorias, ajudam a formular problemas e propõem hipóteses, por intermédio das quais outros estudos são desenvolvidos.

No Quadro 2, listamos os autores e as autoras mais referenciadas pelas publicações sobre estudos decoloniais no país naquele período, indicando o número total de citações.

Quadro 2
Autores(as) mais referenciados(as) pelas publicações sobre estudos decoloniais no Brasil (2009-2018)

Em meio a esse amplo repertório de autores, autoras e ideias, que articula perspectivas decoloniais com outras tradições também críticas ao universo colonial moderno - como as teorias feministas, os pós-marxismos, os pós-estruturalismos, os pós-modernismos e os pós-colonialismos (Restrepo & Rojas, 2010) -, identificamos a recorrência de determinadas obras e categorias teóricas na produção acadêmica brasileira. Entre as referências mais utilizadas em nossa base de dados, observamos a sistemática menção a três textos em particular: “Local histories/global designs: Coloniality, subaltern knowledges, and border thinking” (Mignolo, 2000), “Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina” (Quijano, 2003) e “The darker side of western modernity: Global futures, decolonial options” (Mignolo, 2011). Tal centralidade desses escritos coincidiu com o impacto significativo que gerou na produção acadêmica internacional - segundo o Google Scholar, eles foram mobilizados, respectivamente, por 4.967, 4.713 e 1.834 outros textos até junho de 2019.

Em que pesem as diferenças em suas abordagens, pode-se dizer que a “opção decolonial” inscrita nas obras de Walter Mignolo e Aníbal Quijano enfatiza a consciência da “diferença colonial”, efeito da colonização da América Latina e do Caribe pela Espanha e Portugal entre os séculos XVI e XIX, e da necessidade social, política e intelectual de destruir ou desligar-se da “colonialidade do poder” euro-norte-americana para construir projetos autônomos de emancipação da vida no continente.

Nesse sentido, a crítica decolonial proposta pelos autores denuncia a continuidade histórica das relações de opressão que se expressam violentamente por meio de noções colonialistas de classe, gênero e raça. Assim, questionam os cânones históricos e epistemológicos que estruturaram o sistema-mundo moderno colonial para abrir espaço a outras geopolíticas (ou corpo-políticas) do saber. Trata-se, nos termos de Mignolo (2012, p. 29), de “epistemes fronteiriças” que emergem da “exterioridade estruturada pela modernidade/colonialidade quando essa última se constituiu como interioridade”. Por meio desse lócus de enunciação fraturado pelas “feridas coloniais” - que se inscrevem nos corpos, nas experiências, nas memórias, nas trajetórias e nas subjetividades dos povos no continente -, a aposta decolonial parece se concentrar na “desobediência epistêmica”, ou, melhor, nas possibilidades políticas, intelectuais e pedagógicas de se desaprender para reaprender a própria história de luta e de resistência que a colonialidade nos legou.

Diante do audacioso projeto de denúncia, contestação e recriação do pensamento social latino-americano e caribenho proposto pelos estudos decoloniais, optamos por direcionar nossa investigação para a procura pelas agendas de pesquisa que surgiram com força no Brasil ao longo da última década. Para isso, selecionamos as palavras-chave que comunicam os conteúdos gerais dos documentos, os localizam em determinados campos ou redes especializadas de produção do conhecimento científico e auxiliam a sua indexação em bases de dados e sistemas de busca. Evidentemente, tais termos não abarcam a complexidade dos temas, objetos e perspectivas que configuram as pesquisas que dialogam com o decolonial - como o intenso debate sobre a colonialidade, que conferiu centralidade histórica, política e sociológica à questão racial brasileira e antecedeu muitas das inflexões decolonais no país. Contudo, associados aos títulos e resumos, tais termos nos parecem expressar e sintetizar a “face pública” dos textos veiculados, de modo que possamos perguntar: quais são as expressões que mais têm contribuído para agregar e identificar o campo dos estudos decoloniais no Brasil?

Na Figura 3, apresentamos as principais redes de co-ocorrência formadas pelas palavras-chave que indexaram os 83 artigos publicados nos 17 periódicos que selecionamos através da Lei de Bradford (Figura 2, anterior), alcançando, assim, cerca de um terço dessas publicações entre os anos de 2009 e 2018.

Figura 3
Rede de coocorrências de palavras-chave (2009-2018)

Em cada uma das redes que compõem a Figura 3, os vértices representam as palavras-chave que foram utilizadas ao menos por dois artigos diferentes, o tamanho das palavras refere-se ao número de ocorrências que elas obtiveram, as arestas indicam as relações de coocorrência e a sua espessura é proporcional à intensidade de coocorrências. Por meio dessa análise, foi possível perceber que os estudos decoloniais se configuraram no Brasil por meio do que talvez possamos chamar quatro redes discursivas.

Considerando que os estudos decoloniais estão se estabelecendo como um campo particular de pesquisa e de produção político-intelectual no Brasil, nos pareceu relevante para esta análise observar a sua configuração interna. A intenção, pelos próprios limites metodológicos deste artigo, não é realizar uma investigação sistemática e exaustiva de cada uma dessas redes, mas descrever os aspectos gerais de sua conformação durante a primeira década de recepção e a apropriação dos estudos decoloniais nos circuitos hegemônicos da produção do conhecimento acadêmico brasileiro. Assim, procuramos tratar os quatro eixos de articulação temática identificados na Figura 3 como redes discursivas de trabalho intelectual, agrupados conforme as seguintes temáticas: colonialidade e decolonialidade; gênero e interculturalidades; saúde e vulnerabilidades e estudos críticos na administração. Elas se apresentaram de maneira relativamente autônoma em relação aos diferentes diálogos disciplinares que foram estabelecidos no período, ao mesmo tempo que estiveram integradas aos repertórios intelectuais que constituíram a agenda mais geral dos estudos decoloniais durante a última década. Desse modo, no Quadro 3, procuramos sistematizar os principais descritores e as abordagens transversais que foram enunciadas pelos textos indexados nas bases investigadas.

Quadro 3
Redes de estudos decoloniais no Brasil (2009-2018)

A primeira rede de trabalho intelectual identificada, que reuniu o maior número de palavras-chave associadas, organizava-se em torno das categorias “colonialidade” e “decolonialidade”. Essas categorias articularam uma ampla variedade de abordagens, objetos e temáticas que foram privilegiadas pela maior parte das investigações e realizadas ao longo da última década, como: currículo; descolonização; educação; eurocentrismo; ensino superior; hip hop; ensino de história; interseccionalidade indígena; pessoas; educação linguística; ferramentas de gestão; patriarcado; periferia; poesia; participação social; teoria social; sexualidade e Estado.

Essa rede agregou estudos que dialogaram fortemente com teorias sociais, políticas e pedagógicas latino-americanas e caribenhas, enfocando tanto a necessidade de contestação e desconstrução de essencialismos e assimetrias que estruturam os projetos modernos quanto a capacidade de reaprendizagem e de reexistência dos sujeitos colonizados.

Nos artigos considerados, os estudos decoloniais foram enquadrados ora como uma perspectiva heurística com tradição autônoma (Ballestrin, 2013), ora como uma variação dos estudos pós-coloniais (Costa, 2014) ou das teorias do sul (Rosa, 2014). A articulação entre tais escritos, nesse sentido, ocorre por intermédio das diferentes tentativas de se desenvolverem pedagogias decoloniais que, como observaram Catherine Walsh, Luiz Fernandes de Oliveira e Vera Maria Candau (Walsh et al., 2018, p. 5), levassem a sério a experiência de “sujeitos subalternizados pela colonialidade, como povos indígenas e afrodescendentes, quilombolas, diversidades de sexo/gênero e outros marcadores das diferenças contrapostas às lógicas educativas hegemônicas”, propondo a interlocução “com experiência crítica e política enraizada nas lutas e práxis dos colonizados pela modernidade”.

Outra rede densa, mas relativamente afastada da anterior em relação às associações acadêmicas estabelecidas entre os artigos analisados, concentra-se em torno das categorias “gênero” e “interculturalidade”. Tais estudos agregavam, de forma praticamente simétrica, as expressões feminismo multicultural, interseccionalidades, relacionalidades, discursividade, práticas políticas e estéticas. Por intermédio dessa rede, pode-se observar a configuração de feminismos decoloniais em diálogo com teorias antirracistas e estudos subalternos que abordaram, por meio de perspectivas relacionais, variadas condições, práticas, linguagens, traduções, negociações e intersecções implicadas nas experiências de sujeitos ou de coletivos que vivenciam violências e desigualdades de raça, gênero e sexualidade. A exemplo do que afirma Costa (2016, p. 48), “As teorias feministas latino-americanas, especialmente aquelas articuladas por sujeitos subalternos/racializados, operam dentro de um referente epistemológico distinto dos modelos analíticos de crítica historicamente baseados em dicotomias”. De acordo com a autora (Costa, 2016, p. 48), “Elas estão, de maneira muito criativa, permitindo possibilidades alternativas que vão além daquelas oferecidas pelas teorias feministas pós-coloniais”.

Outras duas redes, com baixa densidade, também podem ser localizadas nas bases de dados analisadas. A primeira delas se organizou em torno dos termos “negligência em saúde”, “moradores de rua”, “saúde coletiva” e “vulnerabilidades”. Nessa rede, os estudos decoloniais foram acionados como um “aporte” teórico, entre outros, que permite a análise de saberes, políticas e práticas de saúde pública em meio a situações de extrema precariedade social que se estabeleceram no Sul Global.

Para Oliveira (2018, p. 39), tal abordagem favorece um tipo de compreensão da “vulnerabilização de vidas humanas, que se expressam em diversas matizes de desigualdades, localizando-a como historicamente ancorada na matriz da colonialidade moderna”, o que impõe para as políticas públicas e os modelos de governança sanitária, conforme a autora, a análise dos processos que forjam “diferenciações e invisibilidades de territórios, de sujeitos e de formas de estar no mundo”. Desse modo, as relações entre saúde, racismo, vulnerabilidade e colonialismo, propostas por esse conjunto de escritos, parecem ter correlacionado os estudos decoloniais com uma agenda de pesquisas própria ao campo da saúde coletiva no país.

A segunda rede de baixa densidade e relativamente desarticulada das demais reúne as palavras: “administração crítica”, “colonialismo”, “estratégias de gestão” e “América do Sul”. Nela, a abordagem decolonial emergiu como uma crítica radical daquilo que Abdalla e Faria (2017, p. 916) já chamaram de “cumplicidade” dos estudos em administração com o “expansionismo do capitalismo financista global” sobre os mais diversos setores da população. Segundo os autores, a opção decolonial sugere, para esses estudos, a “coconstrução de uma agenda transcosmopolita […] no [e a partir do] Brasil, que promova conhecimentos e práticas […] como alternativas à radicalização da pobreza e da desigualdade geoepistêmica” (Abdalla & Faria, 2017, p. 916).

Nesse caso, o engajamento com a elaboração de respostas organizacionais aos problemas gerados por modelos neocolonialistas e imperialistas de desenvolvimento e de gestão parece ter sinalizado certa preocupação com as assimetrias acentuadas pela expansão da racionalidade econômica e de práticas neoliberais. Tal postura intelectual implicou a análise crítica da própria posição ambivalente ocupada pelo Brasil no continente, um país que, historicamente, sofre com as feridas abertas pela opressão colonial, mas continua desprezando e desarticulando projetos alternativos de autonomia e emancipação social nas relações com outros países do Sul Global.

Embora compartilhassem princípios epistemológicos semelhantes, sobretudo no que se refere à crítica das ontologias coloniais, que sobrescrevem os saberes periferizados pelo discurso moderno hegemônico, nos parece relevante observar que estas quatro redes de trabalho intelectual - colonialidade e decolonialidade; gênero e interculturalidades; saúde e vulnerabilidades; estudos críticos na administração -, que se configuraram no Brasil entre os anos de 2009 e 2018, enfatizaram aspectos diferentes do real, com base nos distintos modos de recepção e apropriação dos estudos decoloniais.

Sabemos que toda teoria implica uma agenda política multifacetada para o conhecimento. No entanto, talvez devêssemos nos indagar se a agenda da crítica decolonial não poderia ser potencializada em seus efeitos e eficácias quando suas diferentes redes discursivas aprenderem, umas com as outras, a honrar suas diferenças heurísticas para compor conhecimentos ao mesmo tempo articulados e divergentes que façam frente ao avanço das lógicas neoimperialistas, neoliberais e neoconservadoras sobre o continente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo deste texto, procuramos oferecer uma cartografia possível do impacto acadêmico que os estudos decoloniais adquiriram nos circuitos hegemônicos da produção acadêmica brasileira durante a última década (2009-2018). Desse modo, realizamos um mapeamento bibliométrico dessa literatura com a expectativa de demonstrar como determinadas redes de trabalho intelectual foram construídas para enunciar horizontes políticos e analíticos de crítica e transformação social que assumiram a diferença colonial como uma dimensão constitutiva dos saberes científicos produzidos com base na realidade brasileira.

Por meio deste estudo, enfocamos particularmente a formação de quatro redes discursivas no período que foi possível desenhar os contornos iniciais desse emergente campo de estudos no país. Tais redes organizaram-se de forma relativamente autônoma do ponto de vista dos vínculos institucionais e dos debates sobre colonialidade e decolonialidade, gênero e interculturalidades, saúde e vulnerabilidades e administração crítica. Assim, identificamos relações vibrantes de produção acadêmica que se encontravam nas fronteiras de esferas de pensamento, ação e criação já estabelecidas pelas tradições epistemológicas impostas pela atual geopolítica da atividade científica e, por isso mesmo, começavam a desafiar a rigidez das disciplinas e dos métodos hegemônicos ao exigir da análise crítica uma consciência diferencial acerca das potencialidades de concebermos projetos situados de emancipação em vias de decolonização no país.

Trata-se, evidentemente, de um esforço de mapeamento provisório, parcial e limitado à própria arquitetura das bases de dados Scopus e Web of Science - repositórios de informações que privilegiam pesquisas redigidas em língua inglesa e publicadas em periódicos sediados, principalmente, no eixo universitário euro-norte-americano. No entanto, talvez seja exatamente essa contradição entre os lugares “apropriados” ou “inapropriados” para se estudar a circulação do conhecimento, tão característica das disputas epistêmicas orientadas pela colonialidade do saber, que nos permitiu visualizar algumas das maneiras pelas quais certas comunidades acadêmicas no Brasil se aproximaram dos estudos decoloniais para tensionar os regimes discursivos que, historicamente, organizam nossas atividades de ensino e pesquisa oriundas no Norte Global.

Afinal, são redes de trabalho que parecem indicar a formação de comunidades acadêmicas transdisciplinares que perturbaram seus domínios disciplinares e fizeram com que suas tradições intelectuais dialogassem com o que Maldonado-Torres (2016, p. 94) já denominou um “projeto” e uma “atitude”, isto é, um tipo de tomada de consciência que detém o potencial de levar “o sujeito cognoscente que emerge da zona do não ser a alimentar-se do ativismo social, da criação artística e do conhecimento (em algum caso também da espiritualidade), em vias de revelar, desmantelar e superar a linha ontológica moderno-colonial”.

Fundamentados na descrição dessa configuração recente de redes de estudos decoloniais nos circuitos hegemônicos da produção do conhecimento acadêmico brasileiro, gostaríamos de concluir com algumas provocações que podem compor uma agenda de pesquisa para futuras análises sobre o tema. Em primeiro lugar, percebemos que muitas dessas investigações estão se beneficiando do diálogo com o pensamento social, político, pedagógico e feminista brasileiro, pois ele permite mobilizar perspectivas diversas sobre a experiência da colonialidade no país para questionar modos atuais de opressão e de produção do conhecimento, bem como a implementação de lógicas neoliberais e de agendas políticas neoconservadoras. Desse modo, essas produções intelectuais parecem tentar se converter em uma forma de resistência crítica, sobretudo quando indagam: quais formas de reaprendizagem e de reexistência se revelam necessárias, para quais coletividades e em quais contextos? Então, poderíamos também nos perguntar: quão diferentes seriam essas práticas decoloniais de outras formas de luta social que estão sendo elaboradas ao redor do mundo? Trata-se de uma questão importante se quisermos formular um projeto comum de descolonização que consiga compartilhar experiências e construir alianças no Sul Global (Rosa, 2014).

Em segundo lugar, entendemos que a opção decolonial inscrita nesses trabalhos esteve menos relacionada com a nomeação de certas perspectivas intelectuais do que com a recuperação e valorização das memórias, das trajetórias, dos fazeres e dos afetos de coletividades cuja história é atravessada por um modelo de colonização que diferencia suas experiências e modos de existência, classifica seus corpos e sexualidades e regula suas práticas e comportamentos sociais de uma forma vergonhosamente violenta e assimétrica (Oliveira, 2018). Nesse caso, pesquisadores e pesquisadoras que assumem a decolonialidade como uma inspiração política para a desobediência epistêmica no Brasil parecem se incomodar, cada vez mais, com o próprio modo pelo qual as pesquisas acadêmicas foram e são formuladas, desenvolvidas, avaliadas e divulgadas. Afinal, em que medida todas essas práticas de conhecimento efetivamente contribuem para potencializar as “vozes” de sujeitos, saberes e organizações que pensam e enunciam o mundo em outra condição de existência? Que tipo de compromisso ético, político e pedagógico estamos adotando com as lutas sociais durante o curso de nossas investigações?

Em terceiro lugar, nos parece importante destacar como as investigações das práticas e dos processos de violência e opressão se desenrolam ao longo do tempo. Mignolo (2012) já observou a relevância de se considerar o caráter histórico das múltiplas formas de violência e opressão geradas pelas estruturas de saber e de poder que moldam o sistema-mundo moderno, colonial e imperial, em que vivemos, bem como a pluralidade de maneiras de existir e de resistir em relação a tais estruturas - seria justamente nessa relação longitudinal que o “pensamento fronteiriço” poderia surgir para contribuir com a “descolonização cultural e epistêmica”. Mas como vamos conferir outras densidades históricas ao que nos propomos estudar se as narrativas hegemônicas da modernidade já ocupam a nossa atenção? Quais repertórios intelectuais poderiam nos levar à margem do cânone de nossas áreas para que possamos considerar aquilo que a modernidade tanto se esforça em ocultar?

No campo da administração crítica, Faria et al. (2010) enfatizam essa preocupação com a historicidade dos processos decoloniais, sugerindo que ela possibilitaria, inclusive, revelar a construção histórica das narrativas que ocultam modos de existência não modernos. Assim, criariam uma abertura para pensarmos “com o outro”. Na mesma direção, Abdalla e Faria (2017, p. 916) destacam que a expansão do “capitalismo financista global” agrava a pobreza e a desigualdade “geoepistêmica” no longo prazo.

Esses trabalhos clamam por respostas que sejam também organizacionais a tais problemas, demonstrando que é importante entender os motivos pelos quais projetos alternativos de autonomia e emancipação social são desprezados e desarticulados. Nesse caso, convidam a pensar: quais seriam os processos propriamente organizacionais envolvidos na intersecção entre a pluralidade de maneiras de existir e de resistir e as estruturas de saber e de poder? Que tipo de política, institucionalidade ou experiência organizacional poderia aparecer em meio a um processo de descolonização?

Ao percorrer esse conjunto de questões em suas pesquisas, acadêmicos e acadêmicas brasileiras das mais variadas áreas estarão movimentando-se pelo legado político e intelectual produzido pelas distintas redes de estudos decoloniais que procuramos destacar neste texto e reconectando seus esforços em construir formas mais justas e inclusivas de se fazer ciência desde a experiência colonial e, assim, tomar partido na transformação do social.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos pareceristas pelas valiosas contribuições na revisão do manuscrito.

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DISPONIBILIDADE DE DADOS

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no Harvard Dataverse e pode ser acessado em https://doi.org/10.7910/DVN/NHKKE2

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Ítalo da Silva (Universidade Federal de Pernambuco, Recife / PE - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4489-1389

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Paula Gontijo Martins (Universidade Federal de Alfenas, Varginha / MG - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6111-0065

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Um dos revisores não autorizou a divulgação de sua identidade.

RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES

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O relatório de revisão por pares está disponível neste link: https://periodicos.fgv.br/cadernosebape/article/view/92376/86572

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Para favorecer a compreensão da Figura 3, disponibilizamos uma versão online (arquivo HTML) que possibilita a visualização das redes de coocorrência formadas com base na interação com cada uma das 34 palavras-chave identificadas. A figura pode ser acessada pelo link https://doi.org/10.7910/DVN/NHKKE2

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E-mail: fcarniel@uem.br

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E-mail: mmathias@uem.br

EDITOR-CHEFE

Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859

EDITOR ADJUNTO

Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127

EDITORES CONVIDADOS

Michelle Mielly (EM Lyon Business School, Lyon - França). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3321-5334

EDITORES CONVIDADOS

Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859

EDITORES CONVIDADOS

Penelope Muzanenhamo (University College Dublin, Dublin - Irlanda). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8575-9347

EDITORES CONVIDADOS

Sandiso Bazana (Rhodes University, Grahamstown - África do Sul; Grenoble Ecole de Management, Grenoble - França). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5177-2567

EDITORES CONVIDADOS

Ana Maria Peredo (University of Ottawa / Telfer School of Management, Ottawa - ON, Canadá). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5534-4834

EDITORES CONVIDADOS

Gazi Islam (Grenoble Ecole de Management, Grenoble - França; Institut de Recherche en Gestion et Économie, Annecy - França). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7617-3376

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    22 Set 2022
  • Aceito
    30 Jan 2024
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