RESUMO
Objetivo: avaliar o desenvolvimento de habilidades comunicativas interprofissionais centradas no paciente e em sua família, entre os estudantes de cursos da área da saúde, por meio da educação interprofissional baseada em simulação clínica.
Método: estudo de abordagem mista (QUAL+quan). Foram utilizados observação direta, questionários, rubricas e grupos focais. A coleta de dados ocorreu em março de 2023. A amostra foi de conveniência, excluindo estudantes do curso de Biomedicina e aqueles com nível igual ou inferior ao terceiro ano. Participaram 40 estudantes de quatro cursos da Universidade Santo Tomás, campus La Serena, Chile. Os dados quantitativos foram analisados por meio de estatística descritiva, utilizando o software IBM SPSS®. As entrevistas foram transcritas literalmente e interpretadas por meio da Análise de Conteúdo com o software ATLAS.ti.
Resultados: a simulação promoveu competências interprofissionais, destacando-se a relação entre a comunicação e esclarecimento de funções como elemento-chave para a segurança do paciente.
Conclusão: fortaleceu-se a compreensão das funções profissionais, a comunicação, o trabalho em equipe e a resolução de conflitos.
DESCRITORES:
Educação Interprofissional; Competência Profissional; Treinamento por Simulação; Comunicação; Estudantes de Ciências da Saúde
HIGHLIGHTS
A comunicação deficiente e o trabalho em equipe afetam a segurança clínica.
A simulação fortalece as habilidades interprofissionais não técnicas.
A educação interprofissional promove a comunicação em contextos de saúde complexos.
A comunicação e o trabalho em equipe aprimoram a resolução de conflitos.
RESUMEN
Objetivo: evaluar el desarrollo de habilidades comunicativas interprofesionales centradas en el paciente y su familia entre estudiantes de carreras del área de la salud, mediante la educación interprofesional basada en simulación clínica.
Método: estudio mixto (QUAL+quan). Se emplearon observación directa, encuestas, rúbricas y grupos focales. La recolección de datos se realizó en marzo de 2023. La muestra fue por conveniencia, excluyendo a estudiantes de Tecnología Médica y de niveles iguales o inferiores a tercer año. Participaron 40 estudiantes de cuatro disciplinas, pertenecientes a la Universidad Santo Tomás, sede La Serena, Chile. Los datos cuantitativos se analizaron con estadística descriptiva usando IBM SPSS®. Las entrevistas se transcribieron literalmente y se interpretaron mediante análisis de contenido con ATLAS.ti.
Resultados: la simulación promovió competencias interprofesionales, destacando la relación entre comunicación y aclaración de roles como clave para la seguridad del paciente.
Conclusión: se fortaleció la comprensión de roles, comunicación, trabajo en equipo y resolución de conflictos.
DESCRITORES:
Educación Interprofesional; Competencia Profesional; Entrenamiento Simulado; Comunicación; Estudiantes del Área de la Salud
HIGHLIGHTS
La comunicación deficiente y el trabajo en equipo afectan la seguridad clínica.
La simulación fortalece las habilidades no técnicas interprofesionales.
La educación interprofesional promueve la comunicación en salud compleja.
La comunicación y trabajo en equipo mejoran la resolución de conflictos.
ABSTRACT
Objective: to evaluate the development of interprofessional communication skills focused on patients and their families among students in health-related degree programs through interprofessional education based on clinical simulation.
Method: mixed study (QUAL+quan). Direct observation, surveys, rubrics, and focus groups were used. Data collection took place in March 2023. The sample was convenience-based, excluding students of Medical Technology and those at or below the third-year level. Forty students from four disciplines at the Universidad Santo Tomás, La Serena, Chile, participated. Quantitative data were analyzed with descriptive statistics using IBM SPSS®. Interviews were transcribed verbatim and interpreted using content analysis with ATLAS.ti.
Results: the simulation promoted interprofessional skills, highlighting the relationship between communication and role clarification as key to patient safety.
Conclusion: understanding of roles, communication, teamwork, and conflict resolution was strengthened.
DESCRIPTORS:
Interprofessional Education; Professional Competence; Simulation Training; Communication; Students, Health Occupations
HIGHLIGHTS
Poor communication and teamwork affect clinical safety.
Simulation strengthens interprofessional non-technical skills.
Interprofessional education promotes communication in complex healthcare.
Communication and teamwork improve conflict resolution.
INTRODUÇÃO
O principal objetivo da segurança dos pacientes atendidos no sistema de saúde é prevenir, evitar ou reduzir os danos decorrentes da assistência médica, considerando que os erros são parte inerente da condição humana. Para enfrentar os problemas mais frequentes descritos nas evidências disponíveis, em 2002 foram estabelecidas as Metas Internacionais de Segurança do Paciente. Essas metas incluem a correta identificação do paciente, a melhoria da comunicação eficaz, a garantia da segurança na administração de medicamentos de alto risco, a oferta de cirurgias seguras, a redução do risco de infecções associadas à assistência à saúde e a diminuição do risco de danos por quedas1.
Nesse complexo ambiente da assistência à saúde, entre profissionais e os pacientes, é crucial fornecer um atendimento de alta qualidade e melhorar os resultados dos tratamentos2-3. A falta de trabalho em equipe e a comunicação insuficiente e ineficaz, tanto dentro das equipes de saúde quanto na comunicação com os pacientes, são obstáculos fundamentais para garantir uma assistência segura e de alta qualidade. De fato, mais de 50% dos danos graves e das mortes estão relacionados à falta de comunicação no trabalho em equipe, assim como na comunicação com o paciente e sua família4. As evidências mostram que o treinamento em fatores humanos, incluindo a comunicação, pode ter um impacto positivo nos desfechos dos pacientes5.
A simulação tem sido amplamente utilizada na educação de profissionais da saúde como uma metodologia experiencial para o desenvolvimento de habilidades profissionais fundamentais, embora sua implementação tenha se concentrado principalmente em um único grupo profissional6. Contudo, a simulação interprofissional surge quando “dois ou mais membros de diferentes disciplinas da saúde participam de uma aprendizagem compartilhada e experiencial que reflete sobre a obtenção de resultados ótimos para a saúde”7.
Pesquisas demonstram que, quando a simulação incorpora atividades interprofissionais, os resultados da aprendizagem são potencializados, permitindo que estudantes de diversas disciplinas adquiram habilidades não técnicas, como trabalho em equipe, liderança, comunicação eficaz e tomada de decisões. Observa-se que aqueles estudantes que receberam treinamento prévio apresentam menor estresse, maior segurança e melhor disposição ao realizar procedimentos8.
A simulação e o treinamento em comunicação entre profissionais da saúde e pacientes desempenham papel essencial na melhoria da assistência médica e nos resultados para os pacientes. Essas práticas oferecem uma abordagem inovadora e eficaz para o ensino, permitindo que os estudantes enfrentem situações clínicas simuladas onde os erros se transformam em oportunidades de aprendizagem.
A educação interprofissional promove a colaboração entre profissionais de diferentes disciplinas da saúde, favorecendo a aprendizagem conjunta para aprimorar o cuidado ao paciente. Esse enfoque estimula a comunicação eficaz, a tomada de decisões compartilhada e o trabalho em equipe, fatores que têm demonstrado reduzir erros médicos e melhorar a qualidade da assistência.
Por meio da simulação interprofissional, os estudantes desenvolvem habilidades técnicas e não técnicas, de liderança e de resolução de conflitos, essenciais para oferecer um cuidado centrado no paciente e em sua família durante o processo assistencial.
O trabalho colaborativo em equipes multidisciplinares é fundamental para lidar com a complexidade de doenças crônicas, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e a Fibrose Cística. A coordenação entre os profissionais melhora os desfechos clínicos e a qualidade de vida dos pacientes. Ao integrar essas competências interprofissionais na formação dos estudantes de saúde, prepara-se esses futuros profissionais para enfrentar os desafios do ambiente laboral e oferecer um atendimento mais eficiente, seguro e empático, otimizando tanto a experiência do paciente quanto os resultados da assistência médica.
Nesse contexto, o objetivo desta pesquisa foi avaliar as habilidades comunicativas centradas no paciente/família e entre os estudantes de saúde, por meio da implementação de uma abordagem aprimorada de educação interprofissional baseada na simulação clínica.
MÉTODO
A pesquisa foi realizada na primeira semana de março de 2023, no Centro de Simulação Clínica da Universidade Santo Tomás, La Serena, Chile. Adotou-se uma abordagem de método misto, com coleta de dados quantitativos e qualitativos realizada simultaneamente (QUAL+quan)9.
Para a coleta dos dados, foram implementadas estratégias de observação do desempenho de equipes interprofissionais, que foram segmentadas por disciplinas e diretamente observadas por uma atriz que representou um paciente simulado durante a simulação interprofissional.
Para essa tarefa, utilizou-se o instrumento Communication Assessment Tool (CAT)10. Além disso, foram realizados grupos focais com estudantes e instrutores, com o propósito de explorar e compreender mais profundamente as dimensões comunicativas estabelecidas entre eles. Também foram aplicados questionários desenvolvidos pelos pesquisadores para avaliar o Conhecimento Básico dos Estudantes em Competências Interprofissionais (CONIP), a disposição para o aprendizado interprofissional - Readiness for Interprofessional Learning Scale (RIPLS), a satisfação decorrente da experiência da simulação interprofissional e a percepção desse processo de aprendizagem no contexto da prática clínica.
Realizou-se um grupo focal com a participação de estudantes e facilitadores, incluindo alunos dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Nutrição. Além disso, participaram um instrutor de cada disciplina, a atriz e um moderador. Durante esta sessão de uma hora, foram exploradas e descritas as experiências vivenciadas no desenvolvimento dos workshops de Educação Interprofissional - Interprofessional Education (IPE). Investigou-se a conexão entre as situações experimentadas nos cenários de simulação e a vida real, abordando aspectos como comunicação, trabalho colaborativo e educação interprofissional, entre outras dimensões e competências interdisciplinares. O CAT é uma ferramenta confiável e válida utilizada para avaliar como os pacientes reais percebem a capacidade do pessoal de saúde em comunicar-se de forma centrada na pessoa. Consiste em 14 descrições avaliadas em uma escala de 5 pontos (1: deficiente a 5: excelente), o que facilita sua compreensão. Os resultados são apresentados como a porcentagem de itens avaliados como “excelentes”. No contexto chileno, o instrumento foi validado por docentes, tradutores, instrutores e pacientes padronizados, demonstrando alta consistência interna, expressa pelo coeficiente Alfa de Cronbach de 0,9511.
É importante destacar que a rigorosidade científica dos dados qualitativos foi assegurada por meio da aplicação dos critérios de credibilidade, auditabilidade e transferibilidade12. Os pesquisadores realizaram um processo de codificação utilizando a técnica de triangulação, com o objetivo de conferir validade e minimizar possíveis vieses na análise dos resultados.
Cenário e participantes
O Projeto de Simulação Clínica Interprofissional da Universidade foi realizado no campus La Serena e contou com a participação de quatro grupos distintos: estudantes de Enfermagem (ENF), Fisioterapia (FIS), Nutrição e Dietética (NUT) e Terapia Ocupacional (TOC), cada um acompanhado por um instrutor convidado experiente em simulação clínica Interprofissional (IP) de sua respectiva disciplina, que atuaram como facilitadores debriefers e/ou observadores (N=4). Esses instrutores foram capacitados pelo diretor do centro de simulação.
A amostra total (N=40) incluiu 17 estudantes de ENF, 8 de FIS, 8 de NUT e 7 de TOC, todos do quarto ano dos respectivos cursos.
Todos foram recrutados por amostragem de conveniência, mediante divulgação de um anúncio nas plataformas eletrônicas de cada curso e inscrição dos estudantes que aceitaram por ordem de chegada, após a assinatura do termo de consentimento informado e o atendimento aos critérios de inclusão: estudantes do quarto ano dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Nutrição e Dietética. Foram excluídos estudantes do primeiro ao terceiro ano e alunos do curso de Biomedicina.
Cada cenário contou com a participação de uma atriz que assumiu o papel de paciente simulado, também atuando como facilitadora debriefing e observadora.
Procedimentos do estudo
Os instrutores das diversas disciplinas, em colaboração com os pesquisadores, trabalharam conjuntamente para criar quatro cenários de simulação clínica IP. Esses cenários foram testados antes da aplicação piloto (denominado teste piloto do piloto), durante sessões de capacitação no centro de simulação, com estudantes que apresentavam características similares ao grupo participante, garantindo assim a compreensão clara e o fluxo adequado dos cenários. Posteriormente, foram realizados ajustes conforme necessário.
Os cenários interprofissionais focaram em pacientes que necessitavam de educação para alta hospitalar por Fibrose Cística e Acidente Vascular Cerebral (AVC), além de duas visitas domiciliares a familiares de pacientes com essas mesmas patologias.
No início do semestre acadêmico, solicitou-se aos estudantes participantes que respondessem à CONIP e à RIPLS uma semana antes do dia da simulação.
Durante a manhã, após acolhida e orientação sobre as instalações, foram realizados dois cenários. No período da tarde do mesmo dia, os estudantes participaram dos dois cenários restantes, nos quais foram coletados dados intra-oficina por meio da pauta CAT, projetada para avaliar as competências comunicativas dos estudantes. Cada cenário teve duração de 80 minutos, durante os quais os estudantes atuaram em conjunto e os observadores especializados avaliaram seu comportamento em equipe.
Ao final de cada cenário, foi realizada uma sessão de reflexão (debriefing) para facilitar a compreensão do aprendizado obtido na simulação IP. Após isso, aplicou-se uma pesquisa de satisfação e foram realizadas entrevistas em grupos focais com estudantes, observadores e a atriz para compartilhar suas experiências com a simulação IP.
Análise dos dados
Na análise dos dados quantitativos, utilizou-se estatística descritiva para calcular frequências, médias, percentuais, desvio-padrão e análise de correlação, por meio do software IBM SPSS®.
As entrevistas foram transcritas literalmente e posteriormente importadas para o software ATLAS.ti para realização da Análise de Conteúdo. Para armazenamento, gestão, acesso e análise dos dados, foi utilizado um ambiente seguro no Google Drive®.
Esta pesquisa envolve pessoas, portanto inclui um termo de consentimento informado que assegura a participação livre, voluntária e esclarecida dos participantes. Esse processo consiste em explicar ao participante, por escrito e verbalmente, a importância da sua participação, bem como a proteção dos seus dados, benefícios, riscos e custos que ele terá que aceitar caso decida participar. Todos esses critérios foram aprovados pelo Comitê de Ética Científica da Universidade Santo Tomás.
Aspectos éticos
Inicialmente, obteve-se autorização ética e aprovação administrativa do Comitê de Ética Institucional da Universidade, com o número de protocolo 99 - 2024. Em seguida, foi realizada uma sessão informativa prévia, na qual foram explicados os objetivos e os procedimentos da pesquisa aos grupos de participantes, educadores e atriz. Enfatizou-se a natureza voluntária da participação, o direito de desistência a qualquer momento e a garantia de que os resultados dos workshops não teriam qualquer relação com o desempenho acadêmico individual, com o intuito de garantir um ambiente seguro para o aprendizado. Ao final dessa reunião, foi obtido o consentimento informado por escrito de todos os participantes.
RESULTADOS
Conhecimentos e disposição para o aprendizado IP
A pesquisa de avaliação CONIP incluiu 39 itens que descrevem as seis competências básicas interprofissionais propostas pela Canadian Interprofessional Health Collaborative (CIHC), medidas da seguinte forma: 1: Conheço e aplico, 2: Conheço, mas não aplico, e 3: Não conheço nem aplico.
Os resultados evidenciaram que a maioria dos estudantes (N=40) conhecia, mas não aplicava as competências interprofissionais. Ao detalhar por competências, observa-se que conhecem, mas não aplicam as competências de esclarecimento de funções (M=1,72; DP=0,517), liderança colaborativa (M=1,68; DP=0,567) e resolução de conflitos (M=1,82; DP=0,605); já aplicam as competências de atenção centrada no paciente (M=1,43; DP=0,613), trabalho em equipe (M=1,53; DP=0,561) e comunicação (M=1,44; DP=0,535).
Conforme demonstrado na tabela 1, identificou-se uma correlação forte entre resolução de conflitos com trabalho em equipe e liderança colaborativa. Da mesma forma, observou-se uma correlação moderada entre comunicação e trabalho em equipe, assim como entre liderança colaborativa e trabalho em equipe.
A escala RIPLS, que em espanhol se denomina “Escala de disposición al aprendizaje interprofesional”, avalia a predisposição dos estudantes para se envolverem de forma interativa com outros estudantes durante o processo de aprendizagem. Ela contempla 24 itens divididos em três domínios da educação interprofissional: 1) colaboração e trabalho em equipe, 2) senso de identidade profissional e 3) centralidade no paciente. Cada domínio é medido em uma escala de 1 a 5, onde: 1 = Discordo totalmente, 2 = Discordo, 3 = Neutro, 4 = Concordo e 5 = Concordo totalmente.
Os resultados evidenciaram que os estudantes (N: 40), em sua maioria, concordaram em se envolver de forma interativa com outros estudantes durante seu processo de aprendizagem. Ao desagregar os dados por domínios da educação interprofissional, observou-se que os participantes estavam totalmente de acordo quanto à colaboração e ao trabalho em equipe (M: 5, DP: 0,528). No domínio do senso de identidade profissional - que envolve o autoconhecimento e o reconhecimento social de seu papel dentro da equipe profissional -, os estudantes apresentaram uma percepção neutra (M: 3, DP: 0,840). Já em relação à execução de um cuidado centrado no paciente em conjunto com outras disciplinas, os estudantes também demonstraram total concordância (M: 5, DP: 0,446).
Desempenho das equipes durante a simulação IP
O CAT representa uma ferramenta confiável e válida utilizada para avaliar como os pacientes reais percebem a capacidade dos profissionais de saúde em se comunicar de forma centrada neles. Consiste em 14 descrições avaliadas em uma escala de 5 pontos (1 = deficiente; 5 = excelente), o que facilita sua compreensão. Os resultados são apresentados como o percentual de itens avaliados como “excelentes”.
Os resultados evidenciaram que os estudantes obtiveram, em média, para cada um dos workshops, um percentual de avaliações “excelentes” de 76,3% (DP ± 40,2; intervalo de 45-100%). Ao desagregar os resultados da escala CAT por curso, identificaram-se os percentuais de “excelentes” apresentados na tabela 2.
Os itens com maior percentual de respostas “excelente” foram os de número 2, 4 e 5. Os menores percentuais foram observados nos itens 7, 11 e 12.
Satisfação com a jornada de formação em simulação interprofissional com enfoque na comunicação centrada na pessoa
A pesquisa de satisfação avalia o nível de satisfação dos estudantes em relação à experiência vivenciada nos workshops de simulação clínica IP. O questionário, elaborado pelos autores, inclui a avaliação da atividade, organização, contribuição, possibilidade de repetição e do material entregue, conforme a percepção dos participantes, com o objetivo de identificar áreas que necessitam de melhorias ou que podem ser aprimoradas para aumentar a satisfação e a fidelidade dos estudantes.
As dimensões mencionadas foram medidas da seguinte forma:
-
Avaliação e organização da atividade: 1 muito ruim, 2 ruim, 3 regular, 4 boa e 5 muito boa.
-
Contribuição para o desenvolvimento profissional, repetição da experiência e qualidade do material entregue: 1 discordo totalmente, 2 discordo, 3 nem concordo nem discordo, 4 concordo e 5 concordo totalmente.
Os resultados evidenciaram que a maioria dos estudantes (N=40) considerou a experiência muito boa (77,6%), a organização da atividade muito boa (60,5%), concordaram totalmente que a simulação clínica IP contribui para seu desenvolvimento profissional (91,7%), concordaram totalmente com a repetição da atividade (76,8%) e perceberam a qualidade do material entregue e sua entrega no prazo como muito boa (77,6%).
Experiências de estudantes e facilitadores com a simulação interprofissional
Durante o grupo focal, foram exploradas as vivências nos workshops de simulação interprofissional, relacionando as experiências simuladas com a prática real. Foram abordados aspectos como comunicação, trabalho em equipe, resolução de conflitos e educação interprofissional, avaliando seu impacto no treinamento clínico. A seguir, apresentam-se os resultados da reflexão.
Comunicação
Os instrutores, e especialmente a atriz, reconheceram a existência de uma comunicação eficaz entre os estudantes participantes durante a simulação clínica, observando que a comunicação é uma competência fundamental dentro das habilidades interprofissionais. Dentro dessa categoria, os estudantes destacaram a comunicação efetiva com a usuária, ressaltando diversas dimensões, como empatia, escuta ativa, clareza e respeito.
É importante destacar que os estudantes valorizaram não apenas a comunicação com o paciente, mas também, a interação comunicativa entre as diferentes disciplinas, conforme mencionado pela estudante de Nutrição e Dietética 2.
É necessário que, como estudantes de enfermagem, tenhamos habilidades de comunicação e segurança na postura. Saber comunicar corretamente o que quero transmitir aos pacientes. (Estudante de Enfermagem 1)
É importante ter uma boa organização do conteúdo que será comunicado, e que este seja claro e compreensível. Para analisar isso, deve-se fazer um feedback com o usuário e avaliar o que foi aprendido. (Estudante de Fisioterapia 3)
É necessário conhecer a situação social e psicológica do paciente antes de iniciar a abordagem, utilizando uma linguagem verbal e não verbal de fácil compreensão para o usuário. (Estudante de Enfermagem 4)
Foi enriquecedor conhecer o que outras disciplinas realizam, o papel diferente e fundamental de outras carreiras da saúde, e assim poder nos comunicar para saber quem vai intervir em cada aspecto e evitar a sobreposição dos papéis. Foi uma experiência maravilhosa, tomara que todos os alunos pudessem experimentar a simulação; uma atividade com atores é muito melhor do que somente com manequins ou entre os próprios estudantes. (Estudante de Nutrição e Dietética 2)
Funções e responsabilidades
Durante o desenvolvimento do grupo focal, os instrutores e a atriz identificaram uma categoria que denominaram competências cognitivas, na qual destacam-se as funções e responsabilidades.
Os estudantes mencionaram que se sentem familiarizados com a sua própria função, mas demonstraram desconhecimento sobre as responsabilidades específicas de outras disciplinas. Alguns observaram que, por vezes, a educação fornecida ao paciente coincidiu com as orientações de outro profissional, mas conseguiram manter a coerência no processo.
Os estudantes ressaltaram a importância de estabelecer conversas prévias à interação com o paciente, a fim de definir claramente as funções e as atribuições de cada membro da equipe.
Para oferecer a educação de forma efetiva e prática, considerando nossos futuros trabalhos, é importante respeitar e conhecer os papéis dos outros. (Estudante de Enfermagem 6)
A possibilidade de gerar coordenação e apoio entre as outras disciplinas, poder resolver situações oportunamente por meio do trabalho em equipe e aprender sobre o papel das outras profissões no atendimento ao paciente. (Estudante de Terapia Ocupacional 1)
Além disso, como mencionei na parte das fortalezas, focar na nossa área às vezes é complicado, já que todos temos algum conhecimento básico das outras profissões e, querendo ajudar o paciente, acabamos falando demais. Por isso, é de suma importância focar no que é da nossa responsabilidade. (Estudante de Fisioterapia 1)
Poder conversar, antes do cenário, com os demais colegas sobre os papéis de cada profissão para que seja mais fácil identificá-los e se organizar. (Estudante de Fisioterapia 2)
Colaboração
Esta categoria foi denominada pelos facilitadores e pela atriz como Competências Relacionais, destacando elementos como colaboração, gestão e resolução de conflitos, funcionamento em equipes e o enfoque colaborativo centrado no paciente e sua família.
Em relação à colaboração, os estudantes recomendaram fortalecer a interação entre as diferentes disciplinas em ambientes de simulação clínica, com o objetivo de promover uma aprendizagem colaborativa que se traduza no desenvolvimento dessa competência.
O workshop interprofissional me permitiu complementar o atendimento ao paciente com diferentes cursos que compartilham o mesmo objetivo, o paciente. (Estudante de Nutrição e Dietética 3)
Foi possível observar a perspectiva e o olhar dos diferentes estudantes, apoiando-nos mutuamente para que a pessoa melhore rapidamente. Sinto que devem ser criados mais workshops que reforcem a colaboração. (Estudante de Enfermagem 2)
Manejo/resolução de conflitos
Os estudantes compartilharam que surgiu um conflito quando eles começaram a oferecer educação ao paciente de forma simultânea; entretanto, esse conflito não resultou em uma discussão imediata. Pelo contrário, a situação deu origem a uma colaboração enriquecedora, na qual as contribuições de cada estudante se complementaram e se apoiaram mutuamente.
Algumas experiências relatadas mencionaram que, quando a atriz começou a chorar devido à intensidade da situação simulada, os estudantes ficaram desconcertados quanto à reação inicial. No entanto, encontraram segurança no fato de que outras disciplinas se uniram para oferecer apoio emocional à paciente, o que se mostrou um aspecto positivo e integrador na situação.
Quando minha colega de enfermagem iniciou a educação, percebi que ela explicava atividades que são próprias da minha disciplina, mas não disse nada; quando chegou a minha vez de ministrar a educação, reforcei e complementei o que ela havia dito, mas a partir da visão da terapia ocupacional. (Estudante de Terapia Ocupacional 3)
Senti que houve um conflito entre as disciplinas quando ela [atriz] chorou; senti que ninguém sabia o que fazer, mas a Catalina [estudante de enfermagem] conseguiu abraçá-la e lhe dizer que tudo ficaria bem, e aí senti um alívio. (Estudante de Fisioterapia 8)
Funcionamento da equipe
Os estudantes apontaram que, para alcançar um time de saúde eficaz, é essencial reconhecer as funções individuais e determinar quem liderará a atividade. Essa abordagem favorece discussões e dinâmicas eficazes, especialmente em equipes interdisciplinares. Destacaram que a colaboração entre estudantes contribui significativamente para elevar a qualidade e a segurança do cuidado aos pacientes.
[...] interagir e aprender com as outras profissões que compõem a atenção integral ao usuário... Saber o que o outro profissional faz... assim conseguimos uma melhor comunicação entre profissionais em futuras práticas. (Estudante de Enfermagem 7)
Isso nos fornece as ferramentas necessárias para adquirir uma atitude e sentido profissional... Trabalho em equipe, habilidades para atuar na área da saúde e escuta ativa. (Estudante de Fisioterapia 4)
Conseguir desenvolver melhor minhas habilidades interpessoais... O trabalho interpessoal que nos permitirá nos orientar melhor em nosso papel como equipe multidisciplinar de saúde. (Estudante de Terapia Ocupacional 2)
[...] o tema de focarmos na nossa área às vezes é complicado, pois todos temos algum conhecimento básico das outras profissões e, querendo ajudar o paciente, acabamos falando demais. Por isso, é de suma importância focarmos no que é da nossa responsabilidade. (Estudante de Nutrição e Dietética 2)
Enfoque colaborativo centrado na pessoa/família
Os estudantes enfatizaram que consideram essencial, no atendimento médico, sempre informar o paciente e sua família, além de buscar sua opinião. Ressaltaram a importância de respeitar crenças, valores e necessidades de cuidado na elaboração dos planos de saúde, bem como atuar como defensores dos pacientes, colaborando com eles como parceiros nos processos de tomada de decisão.
O papel que cada estagiário desempenha em sua área; é importante sempre ter claro qual é a nossa responsabilidade em nossa especialidade, saber que o paciente deve ser tratado por cada área e dar ênfase à nossa, sem interferir na dos colegas, para oferecer um tratamento ótimo. (Estudante de Enfermagem 2)
Destaco que, em conjunto com outros profissionais da área da saúde, podemos complementar-nos e enxergar o paciente de diferentes maneiras, sempre abordando de forma ética e responsável. (Estudante de Nutrição e Dietética 4)
O trabalho multidisciplinar, em equipe e com respeito, para uma abordagem biopsicossocial dos pacientes [...] poder entender a função dos demais profissionais e a maneira de nos relacionarmos para o bem-estar do paciente. (Estudante de Terapia Ocupacional 4)
DISCUSSÃO
A simulação interprofissional consistiu em avaliar as habilidades comunicativas centradas no paciente/família e entre os estudantes da área da saúde, por meio da implementação de um enfoque aprimorado de educação interprofissional baseado em simulação clínica. Em sua grande maioria, os estudantes das áreas de Fisioterapia, Nutrição, Terapia Ocupacional e Enfermagem vivenciaram um processo enriquecedor ao se envolverem nas atividades próprias de outras disciplinas. Esse exercício lhes proporcionou a valiosa oportunidade de descobrir e compreender as funções únicas e fundamentais que diversas profissões desempenham no amplo campo da saúde. A interação entre essas distintas especialidades permitiu estabelecer linhas de comunicação claras e eficazes, contribuindo assim, para uma delimitação precisa de responsabilidades e, de forma crucial, evitando quaisquer possibilidades de confusão quanto aos papéis e funções.
Cabe destacar que a inclusão de atores nessa experiência mostrou-se consideravelmente mais enriquecedora em comparação com a simulação tradicional, utilizando simuladores ou a colaboração entre os colegas de classe. Os estudantes, numa fase inicial, demonstraram conhecimento mais arraigado em termos cognitivos acerca das competências de atenção centrada no paciente/família, trabalho em equipe e comunicação, resultados congruentes com estudos prévios13-15.
No entanto, a complexidade dos workshops aumentou, principalmente em situações onde a atriz expressou emoções como o choro; a capacidade de intervenção conjunta foi desafiada. Esse desafio surgiu devido à pouca formação em intervenção em crises e à limitada aplicação das competências interprofissionais de resolução de conflitos em contextos extra-hospitalares, ressaltando a correlação existente entre essas habilidades.
Embora seja importante destacar que esta pesquisa não adotou um desenho controlado que permitisse estabelecer uma relação causa-efeito com alto grau de confiabilidade, cabe mencionar que a associação observada entre comunicação, trabalho em equipe e habilidade para resolver conflitos sugere que o aumento da exposição a simulações de educação interprofissional poderia efetivamente estimular o desenvolvimento de habilidades complexas, como a resolução de conflitos. Para isso, recomenda-se praticar a escuta ativa, utilizar linguagem clara e simples, ser empático, incentivar perguntas, prestar atenção à comunicação não verbal e evitar distrações16-19.
De modo geral, essa avaliação preliminar forneceu um modelo educacional sólido para futuras simulações, que pode ser fortalecido ao abordar especificamente os desafios encontrados durante o estudo, como o desenvolvimento de workshops que tratem efetivamente da formação em intervenção em crises e resolução de conflitos interprofissionais. Ademais, deve-se considerar a inclusão de situações emocionais mais complexas, como o choro, para desafiar as habilidades comunicativas e de trabalho em equipe dos estudantes.
Também é fundamental oferecer oportunidades para a prática de habilidades comunicativas centradas no paciente/família, promovendo a empatia e a compreensão das necessidades individuais. Para que o ensino seja efetivo, é necessário que o estudante treine com pacientes simulados sob supervisão e observação direta, receba feedback específico e personalizado de seus docentes disciplinares (co-debriefers) e de um debriefer como facilitador do workshop, além da inserção curricular precoce dessas experiências de aprendizagem compartilhada. Essas recomendações são congruentes com estudos anteriores20-22.
Na prática clínica real, esse enfoque interprofissional tem impacto significativo na qualidade da atenção. Os profissionais de saúde, ao trabalharem colaborativamente, podem abordar de forma mais eficaz as necessidades complexas dos pacientes, assegurando uma atenção mais integral, centrada no paciente, e contribuindo para a qualidade do cuidado à sociedade. A interação entre as diferentes disciplinas no ambiente clínico permite uma melhor tomada de decisão e um enfoque coordenado que otimiza os resultados do tratamento.
Esta pesquisa teve uma amostra reduzida e não adotou um desenho controlado que permitisse estabelecer uma relação causa-efeito com alto grau de confiabilidade.
CONCLUSÃO
A pesquisa demonstrou ser uma estratégia eficaz para promover o desenvolvimento de competências interprofissionais nos estudantes da faculdade de saúde. Essa experiência permitiu-lhes compreender melhor os papéis e funções de outras disciplinas, fortalecer habilidades de trabalho em equipe e comunicação, além de enfrentar desafios e conflitos próprios da atenção interprofissional.
Embora o pequeno tamanho da amostra impeça conclusões definitivas, recomenda-se que, para melhorar a comunicação entre profissionais de saúde, seja necessário trabalhar habilidades comunicativas com a participação de pacientes simulados, utilizar a simulação clínica e garantir sua integração precoce no currículo. Essas estratégias contribuirão para uma melhor colaboração e coordenação entre os profissionais de saúde, beneficiando assim o cuidado e a atenção aos pacientes. Este estudo abre perspectivas para futuras linhas de pesquisa, que podem focar no desenvolvimento de habilidades interprofissionais multiculturais, transversais, intervenções em crises na saúde, entre outras.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
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