Resumo
A compreensão da percepção dos egressos de um curso de graduação é importante para avaliar a qualidade da formação acadêmica e aprimorar os processos formativos. Este estudo resultou de uma análise descritiva da percepção dos egressos do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas de uma universidade pública brasileira sobre a formação acadêmica, a preparação para a atuação docente e a inserção desses profissionais no mercado de trabalho. Foram utilizados dados institucionais referentes à população de egressos formados pelo currículo vigente, bem como informações coletadas por meio de um questionário online aplicado a uma amostra desse grupo. Os resultados revelaram um amplo engajamento dos egressos em atividades de ensino, pesquisa e extensão durante a graduação. A pesquisa também abordou as perspectivas desses indivíduos em relação à pós-graduação, os desafios para o ingresso e manutenção na carreira docente e coletou críticas e sugestões sobre o currículo do curso.
Palavras-chave:
ensino de biologia; curso de licenciatura; avaliação dos egressos; desempenho dos egressos; universidade pública.
Abstract:
Understanding the perceptions of alumni from an undergraduate program is crucial for evaluating the quality of academic education and improving training processes. This study conducted a descriptive analysis of the perceptions of Licentiate Degree in Biological Sciences alumni from a public university in Brazil. The study explores their views on academic education, preparation for teaching practice, and professional integration into the job market. The analysis used institutional data on alumni from the current curriculum, as well as information collected from a sample of this group via an online questionnaire. The findings reveal broad engagement in teaching, research, and outreach activities during undergraduate studies. The study also examined the alumni’s views on graduate studies and the challenges of entering and maintaining a career in teaching. Additionally, it collected critiques and suggestions about the curriculum.
Keywords:
biology education; bachelor's degree program; graduate assessment; graduate performance; public university.
Introdução
A pesquisa com egressos configura-se como uma ferramenta de avaliação de grande importância para instituições de ensino superior, pois proporciona um indicador valioso sobre a qualidade da formação acadêmica oferecida e o nível de compromisso da instituição com a formação de recursos humanos, representando ainda uma devolutiva importante para a sociedade e justificando os investimentos em educação superior que contribuem para o desenvolvimento social (Sinder; Pereira, 2013). Ao analisar as trajetórias acadêmicas e as percepções dos ex-estudantes, é possível obter informações cruciais sobre a adequação dos currículos às demandas do mercado de trabalho e sobre a efetividade da formação no desenvolvimento profissional e pessoal dos graduados. Desse modo, a literatura acadêmica aponta a necessidade de estudos que investiguem a percepção de egressos, particularmente no contexto dos cursos de Ciências Biológicas (Sinder; Pereira, 2013).
No panorama da formação em Ciências Biológicas no Brasil, os cursos historicamente se caracterizam por uma concepção de formação que frequentemente abrange tanto a atuação na área da Educação quanto a pesquisa e o trabalho técnico em diversas áreas da Biologia. Essa dupla finalidade pode gerar desafios para a consolidação da identidade profissional dos futuros professores, uma vez que muitos deles ingressam no curso com uma maior inclinação à prática como biólogo, voltada à pesquisa científica e ao trabalho de campo (Duré; Andrade; Abílio, 2023).
Diante desse contexto, a análise da percepção dos egressos sobre a contribuição do curso para sua prática pedagógica e para a constituição de sua identidade docente constitui o cerne de investigações relevantes para o aprimoramento dos processos formativos, justificando, portanto, a realização deste trabalho.
A formação de professores de Ciências Biológicas se depara com desafios como a articulação entre os conteúdos específicos da Biologia e os conhecimentos pedagógicos necessários à prática docente. A Licenciatura em Ciências Biológicas deve, ainda, contemplar conteúdos de Química, Física e Saúde para o ensino fundamental e médio, com formação pedagógica específica para o ensino de Ciências e Biologia (Brasil, 2001). Essa exigência adicional das diretrizes curriculares ressalta a complexidade da formação do professor de Ciências Biológicas.
Esses desafios sublinham a importância de investigar a percepção dos egressos sobre a sua formação acadêmica e a sua preparação para enfrentar as demandas e desafios da atuação profissional, tanto na docência quanto em outras áreas em que possam vir a atuar. Compreender como os egressos da Licenciatura em Ciências Biológicas avaliam a articulação entre os conhecimentos biológicos e pedagógicos, a sua preparação para o ensino interdisciplinar e a sua visão sobre a atratividade da carreira docente pode fornecer elementos valiosos para o aprimoramento dos currículos de formação e para o desenvolvimento de estratégias que contribuam para a valorização da profissão de professor de Ciências e Biologia.
A Universidade Federal Fluminense (UFF) oferece, desde o ano 2000, o curso de Ciências Biológicas em duas modalidades presenciais: Licenciatura e Bacharelado, ambos com duração de 8 a 12 períodos letivos, funcionando em turno integral, no município de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Os cursos têm o objetivo de formar profissionais com amplo conhecimento em Biologia e sólida formação humanística. A ênfase está na formação com vivência sólida em biologia experimental, privilegiando a aquisição de habilidades assentadas em três pilares pedagógicos: saber-fazer, interdisciplinaridade e flexibilidade (Universidade Federal Fluminense, 2026). Entre 2024 e 2025, o curso obteve o conceito máximo (nota 5) tanto na avaliação in loco de renovação de reconhecimento quanto no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), ambos conduzidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) (Brasil, 2026). Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Ciências Biológicas (Brasil, 2001, p. 6):
A modalidade Licenciatura deverá contemplar, além dos conteúdos próprios das Ciências Biológicas, conteúdos nas áreas de Química, Física e da Saúde, para atender ao ensino fundamental e médio. A formação pedagógica, além de suas especificidades, deverá contemplar uma visão geral da educação e dos processos formativos dos educandos. Deverá também enfatizar a instrumentação para o ensino de Ciências no nível fundamental e para o ensino da Biologia, no nível médio.
Essa formação propicia o entendimento da responsabilidade do Biólogo como educador e agente transformador da sociedade, capacitando-o a atuar em pesquisa, desenvolver atividades educacionais, acompanhar a evolução científica, relacionar ciência, tecnologia e sociedade, elaborar e executar projetos e utilizar o conhecimento com relevância social. Os conteúdos curriculares abrangem conhecimentos biológicos, exatos, da terra e humanos, com a evolução como eixo integrador, sendo a formação pedagógica essencial para a Licenciatura (Mellini, 2019).
O presente artigo tem como objetivos analisar o perfil dos egressos diplomados no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas de uma universidade pública, bem como suas percepções em relação à formação acadêmica, sua preparação para a atuação profissional na docência e a contribuição do curso para a constituição de sua identidade profissional, além de contextualizar sua participação atual no mercado de trabalho. A hipótese deste estudo exploratório é que o delineamento do perfil de egressos do curso de Licenciatura em Biologia da UFF, bem como os fatores por eles apontados em sua percepção acerca do curso, poderão despertar reflexões para a melhoria contínua dos processos formativos dos futuros profissionais.
Metodologia
O estudo exploratório, de caráter descritivo e retrospectivo, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UFF / Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), sob o número CAAE 77614424.4.0000.8160. O recorte temporal compreendeu o intervalo entre os primeiros períodos letivos de 2012 e 2024. Este recorte se justifica por concentrar egressos formados no currículo vigente, ajustado em 2023 para adequar-se às atividades de extensão. Foram consideradas a população total de egressos nesse período e sua respectiva amostra (Gil, 2022).
Primeiramente, o estudo qualiquantitativo da população de egressos considerou dados fornecidos pela Superintendência de Tecnologia da Informação (STI), quanto às suas características sociodemográficas, tempo médio de integralização e forma de ingresso no curso.
Em um segundo momento, foram coletados dados de uma amostra dessa população, por meio de um questionário on-line, disponibilizado entre os meses de agosto e dezembro de 2024, utilizando a ferramenta de formulários do Google. O contato com os egressos foi realizado por meio de mensagens de e-mail, utilizando os endereços fornecidos pela Superintendência de Tecnologia da Informação (STI), com a intermediação da Coordenação do Curso. Cada participante foi devidamente informado sobre os objetivos e os riscos do estudo mediante um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Das 34 questões do questionário, 30 eram objetivas e as demais, de caráter subjetivo. As questões objetivas foram avaliadas em termos quantitativos e distribuídas em três seções: (1) dados do egresso; (2) avaliação do curso; e (3) situação profissional. Todos os dados quantitativos obtidos foram tabulados em planilhas do Microsoft Excel, e suas análises foram baseadas na conversão dos valores absolutos da frequência de escolha de cada opção de resposta em valores relativos no formato de percentual. As questões de caráter perceptivo foram graduadas em uma escala psicométrica de um a cinco, e analisadas por meio de médias ± desvios padrão. As questões abertas abordaram as dificuldades enfrentadas no exercício profissional e as sugestões e críticas ao curso. Após uma leitura criteriosa, foram definidas as principais categorias e cada resposta foi classificada em pelo menos uma delas (Minayo, 2014). A frequência absoluta de classificação em cada categoria foi então convertida em frequência percentual, tendo como base o número total de respostas obtidas para cada questão.
Resultados
Perfil da população do estudo
A população de egressos diplomados que ingressou no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas a partir do primeiro período letivo de 2012 e que concluiu até o primeiro período letivo de 2024 foi constituída por 234 indivíduos, distribuídos ao longo de 25 períodos letivos. Os primeiros egressos foram diplomados no segundo período letivo de 2015, resultando em uma média de 13 egressos por período letivo, desde então. Cabe destacar que 67 (28,6%) dos 234 egressos também concluíram a modalidade Bacharelado do curso, nesse mesmo recorte temporal. Nesse subgrupo de concluintes de ambas as modalidades do curso, 85% iniciaram a formação universitária em Ciências Biológicas pela modalidade Bacharelado. Este dado pode ser interpretado à luz de Duré, Andrade e Abílio (2023), que discutem como a inclinação inicial para a pesquisa científica e o trabalho de campo podem gerar desafios para a consolidação da identidade docente, uma vez que a escolha pela Licenciatura muitas vezes surge como uma estratégia profissional e não como vocação primária.
O tempo médio de integralização dos 167 egressos que cursaram apenas a Licenciatura, considerando o intervalo compreendido entre o período de ingresso e o de conclusão do curso, foi de 9,62 ± 2,39 períodos. Desses, 50 (29,9%) concluíram o curso no tempo previsto de oito períodos letivos; 100 (59,9%), entre 9 e 12 períodos letivos; e os demais, em mais de 12 períodos. Cabe destacar que esses prazos podem estar superestimados, pois não foram considerados os períodos individuais de trancamento do curso.
A maioria da população de egressos é constituída pelo gênero feminino (68,4%), natural da região Sudeste (96,59%), com predominância para o estado do Rio de Janeiro (91,03%). No momento da inscrição no curso, 98,72% eram residentes na região Sudeste, sendo 97,86% do estado do Rio de Janeiro. Ainda no momento da inscrição, a maioria dos egressos se autodeclarou branca ou não-determinado (37,61% para ambas as categorias), seguida da categoria parda (17,09%).
A média de idade de ingresso no curso foi de 20,9 ± 3,6 anos.
Perfil da amostra do estudo
A amostra de 37 participantes da pesquisa on-line representa 15,8% da população de 234 egressos. A análise das respostas aos questionários revelou que a amostra é constituída majoritariamente pelo gênero feminino (62%), de cor/raça branca (57%), residente na região Sudeste (97%) e, em particular, no Estado do Rio de Janeiro (92%).
A principal forma de ingresso no curso foi na categoria de ampla concorrência (70%), seguida pelos demais 30%, que afirmaram ter ingressado por meio de ações afirmativas.
A média de idade que os egressos apresentavam na data de término do último período letivo do curso foi 25,2 ± 3,1 anos.
Em média, os egressos dessa amostra estavam formados há 3,9 ± 1,9 anos, em 31/12/2024, data de encerramento da coleta de dados pela pesquisa online. Um grupo que representa 27% da amostra exerceu algum tipo de atividade laboral remunerada durante o curso, particularmente nas funções de professores particulares e em diferentes segmentos do setor de serviços, apesar de o curso ter sido oferecido em horário integral.
Percurso acadêmico e avaliação do curso pelos egressos da amostra
O conceito médio do curso, atribuído pelos respondentes da pesquisa, foi 4,49, numa escala de 1 a 5. A quase totalidade (97%) atribuiu notas entre 4 (46%) e 5 (51%).
O envolvimento dos egressos em atividades de ensino, pesquisa e extensão durante o curso superou os 80% em cada uma das três categorias. Desses, 70,3% dos respondentes indicaram envolvimento nos três segmentos de formação acadêmica ao longo de todo o curso. Todos receberam pelo menos um tipo de bolsa para participar dessas atividades, sendo a modalidade Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) a mais citada (54,1%). Quase metade (48,6%) recebeu apenas um tipo de bolsa, enquanto 40,5% receberam duas modalidades distintas, dentre as quatro apresentadas na pergunta: Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), PIBID, extensão e outras.
O nível médio de percepção de maturidade para o exercício profissional ao concluir o curso foi de 3,43, numa escala de 1 a 5; quase a metade dos egressos (49%) escolheu entre 4 (35%) e 5 (14%).
A análise qualitativa da questão aberta sobre críticas e sugestões ao curso foi iniciada com a definição de categorias para classificação das respostas, para em seguida conduzirmos uma análise quantitativa da frequência de cada categoria de resposta. Para o cálculo da frequência percentual de cada categoria, utilizou-se o total de respostas como referência, pois essa questão foi respondida por apenas 19 dos 37 participantes. Os dados obtidos são apresentados no quadro 1.
A alta frequência de críticas relacionadas à prática e experiência em sala de aula (68,4%) e ao currículo do curso (57,9%) converge para a discussão promovida por Rocha (2013) sobre o paradigma da racionalidade técnica, que tende a privilegiar conteúdos biológicos em detrimento dos saberes pedagógicos. A percepção dos egressos aqui apresentada reforça que a dicotomia entre teoria e prática, já apontada por Mellini (2019) e Branco, Bontempo e Saraiva (2016), ainda permanece um ponto crítico na formação acadêmica desses profissionais.
As demais críticas e sugestões apresentadas englobam desde a revisão e atualização do conteúdo programático, com a inclusão de novas disciplinas e a integração de temas atuais, até a ampliação das oportunidades de experiência prática em diferentes contextos educacionais e a melhoria da orientação para a inserção no mercado de trabalho. Em menor frequência, mas ainda relevantes, surgem comentários sobre as metodologias de ensino utilizadas por alguns de seus ex-professores, a necessidade de valorização de projetos de ensino e extensão e a estrutura geral do curso, indicando diversos aspectos que podem ser aprimorados para fortalecer a formação dos futuros licenciados em Ciências Biológicas.
Complementação da formação acadêmica dos egressos da amostra
Os dados relacionados à complementação da formação acadêmica dos egressos revelaram que apenas um participante da pesquisa (2,7%) não se envolveu com qualquer tipo de complementação à sua formação acadêmica de graduação, nem apresentou interesse por esse tema (dado não mostrado). As modalidades mais frequentes de complementação já concluídas foram mestrado (37,8%) e especialização (32,4%). Entre as modalidades de complementação ainda em andamento, as mais frequentes foram outra graduação, mestrado e doutorado, com 24,3% para cada uma das três modalidades. Entre as principais aspirações acadêmicas estão o ingresso no pós-doutorado (40,5%) e no doutorado (37,8%) (figura 1). A inclinação para o ingresso em cursos de pós-graduação dialoga com a análise de Silva e Diniz-Pereira (2023) sobre como o prestígio da carreira acadêmica muitas vezes se sobrepõe à valorização da atuação na educação básica, influenciando as escolhas de continuidade de estudos dos licenciados em Ciências Biológicas.
Perfil socioeconômico dos egressos da amostra
Independentemente da área de atuação profissional, 91,9% dos participantes possuíam renda no momento da pesquisa, dos quais 89,2% declararam receber uma renda bruta mensal de até quatro salários mínimos (figura 2A). A bolsa acadêmica foi indicada como a principal fonte de renda no momento da pesquisa por 40,5% dos respondentes. A atividade profissional de docência apareceu na segunda posição, com 32,4% (figura 2B).
Perfil socioeconômico dos egressos da amostra: (A) renda bruta mensal; (B) Principal fonte de renda no momento da pesquisa*
Perfil profissional e mercado de trabalho
A maioria dos participantes (56,8%) declarou trabalhar regularmente por período de 21 a 40 horas por semana, enquanto 13,5% não estavam envolvidos em atividades laborais ou acadêmicas remuneradas, independentemente da área de atuação profissional (figura 3A). Quanto à forma de ingresso na principal atividade acadêmica ou profissional no momento da pesquisa, 51,4% dos participantes apontaram o processo de seleção e entrevista, e 16,2%, o concurso público (figura 3B).
Perfil profissional e mercado de trabalho: (A) Carga horária de trabalho semanal no momento da pesquisa; (B) Forma de ingresso na principal atividade acadêmica/profissional no momento da pesquisa*
Em relação ao perfil profissional dos egressos da amostra no momento da pesquisa, 13 respondentes estavam vinculados a empresas privadas, 6 a empresas públicas, 11 eram bolsistas, 4 eram autônomos e 2 eram empresários. A capacitação profissional em cursos de pós-graduação foi indicada por pelo menos 12 participantes (quadro 2).
Ao serem indagados sobre a atuação profissional na área de Ciências Biológicas, foram introduzidas algumas questões. A primeira delas foi em relação à atividade docente (figura 4A); a maioria (70,2%) afirmou estar atuando ou já ter atuado como tal. Em relação à atuação como biólogo, apenas 27% indicaram estar atuando, ou já ter atuado como tal (figura 4B). Cabe destacar aqui que parte (28,6%) dos egressos da Licenciatura concluiu também a modalidade Bacharelado do curso, no recorte temporal analisado.
Quanto ao interesse em ingressar na carreira, a maioria (54%) escolheu a opção Não se Aplica, pois já devia considerar-se integrante da carreira (figura 5A); se considerarmos apenas aqueles que expressaram algum grau de interesse, 65,9% indicaram níveis 4 e 5, numa escala de 1 a 5 (figura 5A*). A consulta sobre nível de interesse em continuar na área de Ciências Biológicas revelou que 76% indicaram níveis 4 e 5 (figura 5B). A análise desse conjunto de dados revela que a maioria dos egressos que ainda não ingressou na carreira possui alta motivação para isso, enquanto aqueles que já ingressaram estão entusiasmados em continuar atuando na área.
O ingresso na atividade docente ocorreu antes de completar um ano de formatura para a maioria (54,1%), enquanto 27% não haviam passado por essa experiência até o momento da pesquisa (figura 6A). A análise dos dados revela que 54,1% dos egressos não tiveram a oportunidade de atuar profissionalmente como Biólogos. Em contraste, 18,9% dos participantes ainda não haviam concluído o curso de Bacharelado no momento da pesquisa, indicando que provavelmente eram graduandos. Por outro lado, 24,3% dos egressos declararam ter exercido ou estarem exercendo, alguma atividade como Biólogo em determinado momento (figura 6B).
Intervalo de tempo para ingressar na primeira atividade, a partir da formatura, como: (A) professor(a) ou (B) bióloga(o)
As dificuldades encontradas pelos egressos da amostra para o exercício profissional foram categorizadas em dez classes distintas e quantificadas (quadro 3).
A análise das respostas de 26 egressos revelou que as principais dificuldades para ingressar na carreira docente residem na escassez de oportunidades e na exigência de experiência prévia, frequentemente agravada pela influência de indicações pessoais em processos seletivos. Questões como a baixa remuneração, a desvalorização da carreira e a precariedade das condições de trabalho e infraestrutura também se destacaram como obstáculos. Outras dificuldades mencionadas, embora com menor frequência, incluem os desafios da prática em sala de aula, o impacto da pandemia em seus processos formativos, os aspectos relacionados à articulação da formação acadêmica com a realidade escolar e os processos seletivos por concursos públicos. As dificuldades apontadas como escassez de oportunidades (46,2%) e baixa remuneração (15,4%) corroboram o cenário de baixa atratividade da carreira docente discutido por Pinto (2014) e Bof, Caseiro e Mundim (2023). No contexto específico do Rio de Janeiro, esse fenômeno ganha contornos de sobreoferta de profissionais habilitados, o que, segundo os indicadores do INEP, pode estar intensificando a concorrência e dificultando o ingresso de recém-formados sem experiência prévia.
Discussão
Um estudo realizado por Bof, Caseiro e Mundim (2023), no âmbito do INEP, cruzou dados do Censo da Educação Superior de 2010 a 2021 - referente ao quantitativo de concluintes de Licenciatura - e do Censo da Educação Básica de 2013 a 2022 - referente aos professores em exercício nas escolas. O levantamento revelou que o país vivencia um apagão de professores habilitados em várias áreas curriculares da educação básica, situação que tende a se agravar na ausência de políticas para aumentar a atratividade da profissão. Um estudo anterior (Pinto, 2014), baseado em dados do INEP coletados ao longo dos 20 anos anteriores, indicou que, com exceção da área de Física, não havia àquela época um problema generalizado de falta de professores aptos a lecionar em suas áreas de formação, mas sim uma séria questão relacionada à baixa atratividade da carreira docente. Atento a essa questão, o Governo Federal criou o Programa Mais Professores para o Brasil (Brasil, 2025), com a finalidade de promover a valorização e a qualificação do magistério da educação básica e incentivar a docência no Brasil.
No estado do Rio de Janeiro, onde se concentra a população analisada em nosso estudo, a situação dos egressos do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas é consideravelmente diferente da situação de outros componentes curriculares e de outros estados da União. No estado, a proporção de docentes sem formação adequada para atuar no ensino de Ciências e Biologia é a quarta menor do ranking de componentes curriculares, chegando a 15,9% (Bof; Caseiro; Mundim, 2023). O mesmo estudo revela, ainda, que entre 2010 e 2021, o número de concluintes dos cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas superava em 113% a demanda total de professores com formação adequada à disciplina em 2022. Já a oferta de concluintes entre 2019 e 2021 superava em 182% a demanda imediata, ou seja, a quantidade necessária para suprir as vagas de docência ocupadas por professores sem formação adequada naquele ano.
Esse cenário de sobreoferta de professores habilitados para atuar nas áreas de Ciências e Biologia em escolas do Estado do Rio de Janeiro pode estar relacionado à dificuldade que nosso estudo observou no relato de parte dos egressos da amostra para conquistar uma posição no mercado de trabalho. No entanto, cabe destacar que 45,9% dos egressos entrevistados afirmaram estar atuando como docentes no momento da pesquisa. Esse percentual é significativamente maior que os 28,1% observados em nível nacional em 2022 entre os concluintes do curso de Licenciatura em Biologia e Ciências entre 2010 e 2021 (Bof; Caseiro; Mundim, 2023).
As críticas e sugestões apresentadas por parte dos egressos da pesquisa, referentes ao curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UFF, encontram amplo respaldo na literatura especializada, revelando uma convergência de necessidades formativas. Diversos estudos corroboram a insuficiente inserção prática e a excessiva ênfase teórica na formação de professores de Ciências Biológicas, apontando para uma clara dicotomia entre teoria e prática pedagógica. A necessidade de mais atividades diretamente ligadas à vivência e à atuação docente é uma demanda recorrente, visto que a formação é frequentemente caracterizada por um grande volume de conhecimento teórico, com limitada transposição para a sala de aula (Branco; Bontempo; Saraiva, 2016; Duré; Andrade; Abílio, 2023; Mellini, 2019). Além disso, as disciplinas pedagógicas também são percebidas como excessivamente teóricas e distantes do universo da educação básica. Esse cenário reflete uma estrutura curricular que privilegia a dimensão conteudista das Ciências e da Biologia, gerando uma fragmentação que coloca os saberes pedagógicos e a prática profissional em plano secundário (Rocha, 2013).
A escassez de prática pedagógica ao longo do curso - intensificada pela concentração das atividades práticas nos estágios finais, após anos de formação majoritariamente teórica - também foi considerada um fator limitante para a inserção dos egressos no mercado de trabalho docente. Em contrapartida, iniciativas das universidades, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) e a Residência Pedagógica são reconhecidas por mitigar essa lacuna ao proporcionar vivência prática na escola, alinhando-se às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), que buscam enfrentar a desconexão teoria-prática e que valorizam a parceria entre universidades e escolas da Educação Básica (Branco; Bontempo; Saraiva, 2016; Ferreira, 2018; Moura, 2022).
A falta de conexão entre os conteúdos discutidos na universidade e as demandas das escolasemerge como uma crítica em nosso estudo, a partir dos relatos de parte dos egressos, e é apontada como uma fragilidade curricular. A articulação entre saberes disciplinares, pedagógicos, curriculares e experienciais no interior de todas as disciplinas é vista como fundamental para dar sentido pedagógico à formação (Cangussú, 2024; Kuntz, 2024).
A sugestão de melhor orientação profissional e as dificuldades do mercado de trabalho ressoam com as discussões sobre a identificação profissional e o preparo para a realidade escolar. Parte dos egressos sente que domina o conteúdo, mas carece de habilidades didático-pedagógicas para ensiná-lo eficazmente. Nesse contexto, a pós-graduação desempenha um papel crucial, pois muitos buscam esses cursos para aprofundar conhecimentos teóricos, que acreditam ter sido insuficientes na formação inicial (Freitas, 2007). A pós-graduação é vista como uma etapa fundamental para aprimorar o conhecimento e o desenvolvimento profissional contínuo, preenchendo lacunas práticas e teóricas da graduação. Além disso, a busca por uma titulação superior é impulsionada pelas exigências do mercado de trabalho, que demanda maior especialização, e pela busca por melhores oportunidades de emprego, como na docência universitária ou em instituições federais, que oferecem melhores salários e condições de trabalho (Silva; Diniz-Pereira, 2023). O distanciamento entre universidade e escola e a falta de reflexão sobre a realidade da educação básica contribuem para esse despreparo e um choque de realidade ao iniciar a carreira (Mellini, 2019).
A revisão de ementas de disciplinas e a reestruturação do currículo também foram demandas apresentadas por parte dos egressos. Parte das ementas de algumas disciplinas é vista como incompleta por não contemplarem os conteúdos do currículo da educação básica, por não abordarem como ensiná-los, ou por serem excessivamente teóricas e distantes da prática pedagógica. Segundo Teixeira e Oliveira (2004), a revisão periódica das ementas é fundamental para alinhar o que é ensinado na universidade com as necessidades da atuação docente. Finalmente, a sugestão de inclusão de novas disciplinas que abordem temas contemporâneos e relevantes para a prática pedagógica encontra suporte na literatura, especialmente no que tange à educação em saúde e ambiente, reconhecida como tema transversal na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), com uma demanda por maior discussão, contextualização e interdisciplinaridade (Duré, 2018). A necessidade de abordar temas transversais e relevantes é vista como uma lacuna curricular. Nesse sentido, a capacitação para o uso de tecnologia e a educação inclusiva são elementos cruciais e indissociáveis para uma formação completa nos dias de hoje. Ambas são vistas como necessidades formativas essenciais, moldando a maneira como aprendemos e interagimos com o mundo (Lima, 2019). Além disso, a abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente (CTSA) serve como base para a inclusão de discussões sobre temas controversos, permitindo que os estudantes desenvolvam uma compreensão crítica das interações entre esses campos, preparando-os para analisar e debater questões complexas que impactam a sociedade e o meio ambiente (Kuntz, 2024).
Em resumo, as críticas e sugestões dos egressos, bem como as dificuldades relatadas para o ingresso na carreira docente, amplamente corroboradas pela literatura, apontam para a necessidade de reformulações curriculares e pedagógicas em um curso de Licenciatura em Ciências Biológicas de uma universidade pública, visando uma formação mais integrada, prática e alinhada com as demandas da educação básica e os desafios da profissão docente.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados brutos provenientes das pesquisas realizadas envolvem informações sensíveis e identificáveis dos participantes humanos, estando protegidos pelo sigilo ético aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob o número de registro CAAE 77614424.4.0000.8160.
Referências
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