Resumo
O grande desafio dos cientistas sociais neste limiar do século XXI é o da busca de se construir uma ciência que abarque os conceitos que emergem das experiências socialistas em curso, notadamente, as chinesas. Duas tarefas se colocam: a primeira se relaciona à constante construção da categoria de projetamento enquanto síntese de uma dinâmica de acumulação que encerra uma forma histórica que podemos chamar de socialismo, pois está baseada no sistema de “assembleias populares” e na grande propriedade pública dos meios de produção e financiamento; a segunda diz respeito ao surgimento, no bojo do projetamento, do que chamamos de Communist Party-led Development enquanto absorção e superação do Estado Desenvolvimentista de tipo asiático. Neste artigo será trabalhada uma primeira aproximação acerca do Communist Party-led Development.
Palavras-chave
socialismo; China; transição; projetamento; Communist Party-led Development
Abstract
The great challenge facing social scientists at the dawn of the 21st century is to build a science that encompasses the concepts emerging from ongoing socialist experiments, notably the Chinese one. Two tasks arise. The first relates to the ongoing construction of the category of “projectment” as a synthesis of an accumulation dynamic that embodies a historical form we can call socialism, since it is based on the system of “people’s assemblies” and on the large-scale public ownership of the means of production and finance. And also the emergence, within the framework of what we call Communist Party-led Development, of an approach that absorbs and transcends the Asian-style developmentalist state. This article will offer an initial exploration of the Communist Party--led Development.
Keywords
socialism; China; transition; projectment; Communist Party-led development
Introdução
Um dos marcos significativos da nossa época histórica é que, passados 34 anos do fim da União Soviética, uma formação econômico-social de orientação socialista não apenas passou a concorrer na vanguarda de uma nova revolução técnico-científica, como também se encontra à frente desse processo em diversos aspectos, sobretudo nas chamadas indústrias verdes. Essa revolução no campo da técnica, por si mesma, já justificaria um acompanhamento mais aprofundado por parte das ciências sociais, dado o grau de transformação que tal fenômeno provoca nas relações entre o ser humano e a natureza. Esse contexto abre caminho para novas variações de modos de produção, sejam eles capitalistas ou socialistas. O aprimoramento técnico engendra fenômenos que podem se manifestar tanto no surgimento de armas de destruição em massa mais potentes quanto em formas avançadas de planificação econômica, com benefícios notáveis para a sociabilidade humana.
No caso do socialismo, notadamente na China, observa-se o (re)surgimento de uma economia nascida no bojo das inovações institucionais originadas pela Revolução Russa (planejamento), no consenso keynesiano e no capital financeiro. A economia do projetamento – ou a transformação da arte de elaborar projetos em ciência – desenvolvida por Ignacio Rangel, no final da década de 1950 do século passado, passou a ser uma chave explicativa diante do grande impasse teórico, epistemológico e metodológico que as ciências humanas enfrentam no Ocidente para entregar uma visão totalizante e capaz de absorver os fluxos dos acontecimentos na China. Naquela realidade, o socialismo confunde-se com o que Rangel colocava como objetivo precípuo do projetamento: a busca de uma razão na relação entre o custo e o benefício típicos de cada projeto.
A palavra razão não surge sem propósito. Primeiramente, ela se contrapõe à visão de curto prazo do empresário privado; hoje, opõe-se à irracionalidade do capitalismo em sua forma financeirizada. Essa é a chave para pensarmos o socialismo em nossa era e buscarmos uma síntese tão justa quanto radicalmente histórica. É impossível não relacionar os frequentes 'momentos Sputnik' ou “momentos Ford”1 que a China tem experimentado – desde a multiplicação de linhas de trens de alta velocidade pelo país, passando pela ampla e racional utilização de plataformas como Big Data e Inteligência Artificial na sua vitória contra a pobreza extrema, até a verdadeira “bomba” chamada “DeepSeek”, que está revolucionando as cadeias de produção de Inteligência Artificial – com o ressurgimento de um “novo projeto” no país, que cada vez mais se identifica com um desenvolvimento liderado pelo Partido Comunista da China (Cheng, 2025; He, 2021; Livingston, 2021; Naughton e Boland, 2023).
O desafio intelectual vai deixando de ser o de afirmação do projetamento enquanto uma teoria capaz de entregar a totalidade inerente ao atual estágio de desenvolvimento chinês.2 Em um primeiro momento, a aceitação da teoria por parte do debate público não foi um grande problema, pelo simples fato de haver uma aceitação tácita de um déficit teórico nas elaborações recentes sobre a China. Portanto, a pergunta que norteia este artigo é: de que maneira, a consolidação do Communist Party-led Development na China representa uma superação do modelo de Estado Desenvolvimentista de tipo asiático, desafiando os postulados dominantes das ciências sociais ocidentais que o classificam como capitalismo de Estado ou mera variante desenvolvimentista? Assim, a nossa hipótese principal é que a consolidação do Communist Party-led Development na China constitui uma ruptura epistemológica com os modelos ocidentais de análise, evidenciando um "sistema de projetamento" que transcende as categorias de capitalismo de Estado ou Estado Desenvolvimentista de tipo asiático, configurando, portanto, uma formação social distinta e avançada.
Tal superação opera em vários níveis, inclusive em termos mundiais; em termos de globalização alternativa, produtiva e inclusiva, ou, em termos mais precisos, de uma “globalização instituída pela China” (Vadell e Jabbour, 2024; Vadell, Secches e Burger, 2019). Essa globalização tem relação direta com o advento da nova economia do projetamento (Jabbour, Dantas e Vadell, 2021) e tem na Belt and Road Initiative (BRI) sua expressão mais clara e concreta. Segundo a nossa interpretação, a disputa pelo poder em nível global opõe formações econômico-sociais distintas que projetam seu poder de maneira diferenciada
Por outro lado, se o socialismo se recoloca na cena mundial, assistimos, também, ao florescer de novas formas históricas que devem nos remeter ao imperialismo, chamado por Bandeira (2013) como o “espectro da total dominação”. Esse espectro abarca formas convencionais e híbridas de intervenção, guerras localizadas e “guerra híbridas e fragmentadas” (Merino, Bilmes e Barrenengoa, 2022; G. E. Merino, 2023). Trata-se de uma grande guerra mundial de nova geração operada desde o centro do capitalismo, em declínio relativo (EUA), que abarca todos os fronts, do militar ao psicológico; da destruição material ao desmonte da capacidade de vontade própria de um país ou nação. Trata-se de um processo transversal, com a utilização de ferramentas tecnológicas poderosas como o crescente papel das chamadas Big Techs, possibilitando a ampliação do escopo da dominação imperialista mundo afora. O papel dos algoritmos na formação da opinião pública, em consonância com a estratégia do imperialismo, é central e parte fundamental no “espectro da total dominação”.
A esse quadro, soma-se o fato de que as contradições globalizadas do capitalismo e as recorrentes crises sistêmicas se intensificam, forjando novas configurações históricas de capitalismo e imperialismo. Tais configurações são ainda mais monopolistas, predatórias e financeirizadas; hegemônicas e fraudulentas; parasitárias e em decomposição; transitórias e moribundas.
O caráter estratégico da nova economia do projetamento abrange, conforme mencionado, a instauração de uma dinâmica globalizante que se desenvolve em paralelo ao ocaso da interconexão comercial, produtiva e financeira engendrada pela grande finança estadunidense. A desestruturação das cadeias globais de valor e as tendências acentuadas desde a crise de 2007, a pandemia e o conflito na Ucrânia têm levado ao recrudescimento de blocos/mercados regionais, à internalização de cadeias de valor via políticas industriais proativas e à consolidação de projetos nacionais. A forma de interpretar esse processo histórico pode oscilar: desde a menção à reafirmação do Estado nação como categoria central na contemporaneidade até a consideração da multipolaridade e do fortalecimento de projetos nacionais que, sob a égide da mediação dialética, pode representar uma via intermediária entre o capitalismo e o socialismo em escala global.
A dinâmica deste artigo segue trilha semelhante à de outros trabalhos em que a categoria/teoria de projetamento é desenvolvida como elemento capaz de absorver os fluxos dos acontecimentos que acometem a realidade chinesa. Neste artigo, iniciaremos um novo campo de desenvolvimento teórico da categoria/teoria do projetamento – construção teórica recente, mas com amplas possibilidades de desenvolvimento – pela via de uma abordagem que vá além da noção para quem a China seria mais uma espécie de Estado Desenvolvimentista. Em outros termos, referimo-nos a um Communist Party-led Development enquanto dinâmica guiada pela política e pelos objetivos estratégicos do Partido Comunista da China (PCCh), tendo o Estado Socialista como sua superestrutura.
Além desta introdução e conclusões iniciais, este artigo conterá três seções. Na segunda seção, resgataremos os nossos recentes aportes sobre o socialismo chinês. Em seguida, apontaremos as características fundantes do Communist Party-led Development em comparação com o seu congênere desenvolvimentista. Na quarta seção, exploraremos as expressões concretas desta nova dinâmica de acumulação.
Recapitulando: sobre o socialismo
Em pelo menos duas ocasiões3 nos colocamos ao lado de uma corrente do pensamento marxista que advoga a centralidade do desenvolvimento das forças produtivas. Neste caso, sempre colocamos em relevo uma famosa citação de Marx e Engels:
O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas. (Marx, 2010, p. 56)
Esse objetivo é muito caro aos comunistas forjados na Terceira Internacional (1919), sobretudo por razões não triviais: 1) o grande atraso das forças produtivas nacionais nos países periféricos em relação às dos países capitalistas centrais;4 e 2) as necessidades imediatas de defesa das experiências dos países descolonizados. O caso da China é emblemático, pois em 1949, o país não se resumia a mais uma nação pobre. Era a nação mais miserável do planeta (Dunford, 2023, p. 2), com índices de analfabetismo acima de 90%, expectativa de vida de 35 anos de idade e mais da metade da população masculina adicta ao ópio. Estamos aqui nos referindo a uma sociedade dilacerada de cima a baixo. Além disso, a Guerra da Coreia, o cerco estadunidense e as posteriores tensões com a URSS levaram o país a desviar grande parte de seu excedente econômico para a construção de uma indústria de defesa.
Esse appeal à centralidade do desenvolvimento das forças produtivas ganha força e se transforma em política oficial de Estado, na China, com as reformas econômicas de 1978. Tratou-se de reconhecer o atraso do país em vários campos da atividade humana, sobretudo em relação ao nível de produtividade do trabalho na indústria e na agricultura, seu subdesenvolvimento em matéria de ciência e tecnologia e debilidade militar explícita. Questões de abastecimento alimentar nas cidades eram objetivas diante da falência do sistema de comunas populares. A reunificação do país, com a reintegração de Hong-Kong, Macau e Taiwan, estava obliterada do ponto de vista objetivo, dadas as diferenças, em matéria de desenvolvimento das forças produtivas no continente, em comparação com essas regiões. Um fenômeno similar acontecia em relação ao dinâmico capitalismo apresentado em países como Japão e República da Coreia.
Logo, não se trata somente de uma adesão à abordagem do “primado das forças produtivas”, e sim de uma rendição à realidade onde o socialismo, enquanto clone do fordismo, estava ameaçado pela decadência do próprio fordismo e o claro atraso chinês em relação aos seus vizinhos asiáticos e ao centro do sistema capitalista.
Seria inconcebível que a China alcançasse níveis de catching-up (alcance tecnológico), queimando etapas no processo de desenvolvimento e atingindo a fronteira tecnológica, ao mesmo tempo que mantivesse a sociedade com níveis de estabilidade social, sem que essas forças produtivas se desenvolvessem em contrapartida às relações de produção. As próprias reformas rurais de 1979 podem ser caracterizadas como um grande processo de relaxamento das relações de produção entre os camponeses e o Estado, ao permitir que as famílias administrassem o excedente.
O resultado foi um grande aumento da produtividade do trabalho na agricultura. A inauguração de novas leis trabalhistas junto a aumentos salariais sucessivos acima da produtividade do trabalho, da inflação e do crescimento do PIB também podem ser vistos como sínteses de relações de produção muito mais avançadas do que aquelas que o país comportava em 1949. Evidentemente, não se trata de um processo sem contradições. Por exemplo, com uma classe operária cada vez maior e combativa, o Estado tem sido compelido a responder às suas demandas:
Os chineses “comuns” percebem que rumo e prosperidade andam de mãos dadas na construção de um projeto de nação de longo prazo. Criticam a corrupção, reivindicam reformas, mas também ressaltam o extraordinário feito de 800 milhões de pessoas terem sido removidas da pobreza. O governo é fixado em lançar projetos monumentais e audaciosos que visam a fornecer linhas de ação estratégica com metas temporais [...]. O governo produz, assim, o tecnonacionalismo, incentivando a adesão popular a sua grande narrativa e seu projeto nacional. (Pinheiro Machado, 2017, p. 123)
É legítima a discussão sobre se as relações de produção ainda estão aquém do nível de desenvolvimento das forças produtivas existentes na China. Mas, é constatação real o fato de terem se transformado sobremaneira desde a Revolução de 1949, incluindo retrocessos como os vistos na década de 1990 e sua presente superação sob a forma de aumentos substanciais de salários, sistematização de leis trabalhistas e reformas na Company Law em que se percebe a institucionalização do papel da classe trabalhadora na gestão das empresas no país.5 Até mesmo esta discussão sobre as relações de produção deve ser universalizada e adaptada a uma cosmovisão chinesa:
O renascimento da nação chinesa é a superação do chamado século das humilhações a que foi submetida a China, e a ascensão de um tipo de organização de sociedade distinta daquela que inspirou o Ocidente. A modernização ao estilo chinês é ancorada no propósito de constituição de uma sociedade [...] de Grande Harmonia [...]. Esta modernização chinesa é acompanhada não só de seu desenvolvimento material, mas também cultural que acentua o seu caráter civilizatório ao enfatizar o poder da sociedade, e não do indivíduo atomizado, como orientador de um novo iluminismo ao estilo chinês. (Carvalho, 2024, pp. 15-16)
Operar um sistema que busque de forma integral absorver a classe trabalhadora nas tomadas de decisões empresariais, por exemplo, não deve ser um exercício de “esquerdismo infantil”, e sim um processo que tenha como pano de fundo a construção de um retrato em negativo da democracia liberal. A China, neste aspecto, remonta a formas milenares de participação popular, como a autogovernança local e o “sistema de assembleias populares”, nos quais a política, sob a coordenação do PCCh, é tomada pelas bases em um exercício ainda em desenvolvimento, mas que – por ser eleitoral e consultivo – ainda tem um largo caminho a percorrer até se emoldurar em um sistema de democracia socialista com características chinesas, em outros termos, uma democracia não liberal.6
O socialismo também se apoia em pelo menos dois processos que podem se desdobrar em conceitos, entre eles, o desenvolvimento das forças produtivas e a chamada racionalidade econômica, via planificação. Uma totalidade pode ser observada entre ambos e as mudanças qualitativas nas relações de produção. Vejamos.
O socialismo é sinônimo, também, de racionalização da atividade econômica em contraponto à busca de valorização imediata do capital. Isso não é trivial na medida em que nos confrontamos com crescentes ganhos de escala e produtividade da economia chinesa em comparação com a economia estadunidense. A escala de produção e seus ganhos geométricos não podem ser atribuídos somente a investimentos maciços em ciência, tecnologia e inovação.
Nesse ponto, entra o chamado elemento consciente do planejamento econômico, abordagem que se opõe à livre escolha – um valor defendido pelos grandes monopólios que evitam qualquer tipo de controle externo, especialmente a regulação estatal. O planejamento, em último caso, é uma atribuição da autoridade do Estado, enquanto representante da maioria da sociedade, sobre o processo de produção:
A divisão manufatureira do trabalho supõe a autoridade incondicional do capitalista sobre homens que constituem meras engrenagens de um mecanismo total que a ele pertence; a divisão social do trabalho confronta produtores autônomos de mercadorias, que não reconhecem outra autoridade senão a da concorrência, da coerção que sobre eles é exercida pela pressão de seus interesses recíprocos. assim como, no reino animal, o bellum omnium contra omnes [guerra de todos contra todos] preserva em maior ou menor grau as condições de existência de todas as espécies. (Marx, 2017, p. 534)
Mais de um século após a Revolução Russa, podemos afirmar que a prática demonstra que uma das diferenças entre capitalismo e socialismo está no fato de o último ter o princípio ativo de se basear em uma autoridade política universalista (Partido Comunista), que, por sua vez, se coloca acima de qualquer autoridade incondicional sobre os homens, o subsumindo e o superando. O resultado é a possibilidade da mais ampla capacidade de organização da produção de valores orientada à reprodução de “toda” sociedade, não de “alguns”.
Essa premissa é fundamental para compreender as razões pelas quais a China cresce de forma robusta e continuada, enquanto as sociedades capitalistas financeirizadas não conseguem nem entregar perspectivas de futuro às suas populações, nem acompanhar o ritmo chinês de desenvolvimento: os catching-up e leapfrogs tecnológicos.
Além disso, ao observar o desenvolvimento chinês e as prioridades dos planos quinquenais, é impossível não notar que a coordenação estratégica da China – exemplificada pela construção massiva de bens de uso – é incompatível com a lógica de curto prazo do capitalismo. Essa lógica, focada na valorização do capital, inviabiliza investimentos de longo prazo, gera crises cíclicas e aumenta a desigualdade.
Intuitivamente, para o sonho do enriquecimento de curto prazo, a lógica financeirizada e o capitalismo de casino (Strange, 1986) se apresentam como mais atraentes, em comparação com a construção de 45 mil quilômetros de trens de alta velocidade construídos pela China em aproximadamente duas décadas. Essa produção de bens de uso é caracterizada por vultosos subsídios. Por exemplo, observa-se que a chegada de metrôs a 44 cidades do país tem sido acompanhada por “prejuízos” já calculados em US$590 bilhões (Wang, 2024).
Outro ponto que devemos destacar é a natureza da propriedade. É notório, em nossos trabalhos, a afirmação e a reafirmação sobre o processo de construção de um núcleo produtivo e financeiro composto por 96 conglomerados empresariais estatais e um sistema de intermediação financeira basicamente público. Isso significa que tanto os efeitos de encadeamento quanto os ciclos de acumulação que movimentam a economia chinesa não são gerados pelo setor privado, e sim pelo setor público, que em primeira e última instância são controlados e regulamentados diretamente pelo PCCh.
A reemergência do projetamento na China
O projetamento é uma fase concreta de uma forma histórica onde a relação custo-benefício deixa de ser mediada pela geração de valor. Nesse modelo, a utilidade se torna o critério central, e a racionalidade é o denominador comum entre custo e benefício:
O planejamento e o projetamento econômicos não poderão ser feitos cientificamente exceto se tomarmos em consideração as peculiaridades da economia em que fazem parte. O planejamento em geral, puro, é um “mito” [...]. Por outro lado, só a compreensão do funcionamento geral do mecanismo econômico pode, no nível do projetamento, instruir-nos como, pela seleção da técnica e alocação de recursos, agir no sentido desejado, sobre a estrutura da oferta e sobre a da procura. (Rangel, 2005, p. 212)
Na China, o projetamento ressurge baseado em uma sociedade cuja superestrutura é controlada pelo bloco histórico nucleado no PCCh. A potencialização das possibilidades de uma sociedade baseada na construção de utilidades se dá pelo predomínio da propriedade pública na produção e na finança, pela disponibilidade de recursos técnico-científicos (Big Data, 5G, Inteligência Artificial, etc.) que, por sua vez passam a ser instrumentos fundamentais na elevação do nível das relações entre o ser humano e a natureza, dando margem ao surgimento de novas e superiores formas de planificação econômica, possibilitando a superação da dicotomia entre planejamento estatal e mercado. Ora, se na concepção original rangeliana o planejamento e o projetamento têm funções distintas, na China o projetamento emerge como uma síntese da apreensão do mercado pelo planificação. Nessa forma específica o projetamento faz possível que o mercado funcione dinamicamente ao serviço da sociedade.
Sob esta roupagem conceitual superamos o consenso em torno de noções cristalizadas desde o fim da Guerra Fria, como o do “fim da história”, que coloca a China como mera experiência de capitalismo de Estado ou até um capitalismo liberal em fase retardatária. Trata-se de uma forma equivocada de lidar com a emergência de uma forma histórica única que deveria desafiar as ciências sociais contemporâneas.
O surgimento de um fenômeno social novo, que se contrapõe ao eurocentrismo intelectual, deveria desvendar o real fluxo dos acontecimentos e construir um novo cabedal teórico, conceitual e categorial com vistas, também, a promover uma visão mais séria e científica sobre a ideia de socialismo. Eis a proposta da “abordagem do projetamento”.
A abordagem do projetamento é um subproduto do contexto histórico do socialismo soviético e do Estado de bem-estar europeu. Nessa concepção, a contradição inerente entre as métricas contábeis da firma e as métricas sociais é vista como um conflito a ser resolvido, o que implica a necessidade de uma ciência econômica inovadora, que integre e neutralize a separação tradicional entre a microeconomia (contabilidade da firma) e a macroeconomia (contabilidade social). Essa é a proposta do projetamento enquanto abordagem teórica que se reforça à medida que o neoliberalismo nos entrega como prova a disfuncionalidade de uma sociedade em que a contabilidade da firma se coloca acima dos interesses da maioria da população. Também aí reside uma particularidade histórica do socialismo na submissão da contabilidade da firma em concomitância com o projeto nacional e as demandas da sociedade. Resumindo, retomando Rangel (2005, pp. 386-387):
[...]. A chave deste movimento de renovação está na observação de que o salário discrepa da utilidade marginal do trabalho. Isto implica a necessidade de novos estudos para determinar a verdadeira utilidade marginal social do trabalho a saber, do que ganharia a economia pelo aumento do número de trabalhadores o que, uma vez feito, induzindo à revisão dos preços dos fatores, impõe a reconsideração de todo o cálculo econômico da firma. Em última instância, a matéria que aqui nos ocupa – a economia do projetamento – nasceu desta descoberta. Isto implica dizer que o melhor emprego de fatores para a firma não era necessariamente o melhor emprego desses fatores para a sociedade.
Do desenvolvimento dessa abordagem adaptada à realidade chinesa e mundial podemos inferir que o “projetamento com características chinesas” tem, na fusão das duas contabilidades citadas, o marco de um processo histórico antecedido pela construção consciente de algumas regularidades já exploradas por nós. Relembrando: 1) a superação da “incerteza keynesiana”; 2) a planificação da “destruição criativa”; 3) a soberania monetária e o “pacto tácito de adesão".
Assim, constatamos que a construção dessas regularidades está diretamente relacionada a uma forma histórica em que a incerteza keynesiana pode ser superada e a planificação da “destruição criativa” se torna possível. Isso se dá por meio da submissão das formas de produção não públicas e privadas à propriedade pública dos meios de produção estratégicos e do setor financeiro, o que permite a construção de uma soberania monetária
Pode-se observar uma linha de raciocínio semelhante no papel ativo do PCCh diante dos desafios atuais da guerra comercial/tecnológica, assim como dos desafios do passado, como a pandemia do Covid-19 e a superação da pobreza extrema, sustentados por meio de um pacto tácito de adesão entre a força política do PCCh e a população. As regularidades expressas acima, acrescidas da força política, cada vez mais institucionalizada, que opera as regulações, são o fundamento conceitual do que denominamos de Communist Party-led Development.
Um passo adiante nessa análise exige que abordemos a inauguração da chamada “Nova Era” em 2017. Esse marco representa mudanças cruciais na forma como se observa a nova fase da “contradição principal”, que é inerente à sociedade chinesa. Segundo Cai e Zhang (2022, p. 38):
As forças produtivas da China, de modo geral, foram significativamente aprimoradas do ponto de vista da oferta. Como resultado, a capacidade produtiva do país passou a liderar o mundo em diversas áreas, e o atraso da produção social foi fundamentalmente superado. No entanto, os problemas mais relevantes atualmente residem no fato de que o desenvolvimento permanece, em termos gerais, insuficiente e desequilibrado entre as diferentes regiões e segmentos da sociedade. Além disso, em certa medida, o nível de desenvolvimento da China ainda está aquém do alcançado por algumas das principais potências econômicas mundiais, e os problemas estruturais permanecem evidentes. Essas limitações transformaram-se em obstáculos significativos para atender às crescentes aspirações da população por uma vida melhor.
Evidenciar esta nova contradição principal – enfrentando a “expansão desordenada do capital” – via enquadramento de grandes capitalistas e suas propriedades, e a inauguração de novos esquemas urbanos baseados mais em serviços públicos, em detrimento da expansão imobiliária – é outro passo que fundamenta nossa hipótese de que o projetamento, na China, se realiza enquanto um Communist Party-led Development. Quais seriam as características fundamentais desta dinâmica? Que diferenças apresentam, por exemplo, em relação ao chamado Estado Desenvolvimentista de tipo asiático?
Três pontos fundamentais devem ser destacados. Primeiro, não observamos o Communist Party-led Development enquanto algo sem ligação com o Estado Desenvolvimentista, conforme obras de autores como Chalmers Johnson, Robert Wade, Peter Evans, Alice Amsden e os “clássicos” como Gerschenkron, Hirschmann, Prebish, etc.,7 e sim uma “superação dialética”. Segundo, o Communist Party-led Development não opera nos marcos da constante interação entre Estado e agentes de mercado, e sim no projetamento enquanto fusão, não somente das “duas contabilidades”, mas enquanto forma superior de planificação econômica, causa e consequência da absorção do mercado pelo plano. O terceiro ponto tem relação com o caráter de classe do Estado e a hegemonia da propriedade pública como essência do que chamamos de “Estado Socialista”, aqui sim em contraposição semântica com o “Estado Desenvolvimentista”. Esse ponto merece um desenvolvimento mais aprofundado.
O Estado Socialista é a superestrutura do Communist Party-led Development. A questão não se resume, como uma tarefa do Estado Desenvolvimentista, à superação da condição periférica. O Estado Socialista busca moldar política e ideologicamente o processo de desenvolvimento das forças produtivas. O Estado Socialista não deixa de ser um Estado Desenvolvimentista, mas também é sua superação sob a forma da crescente socialização dos meios de produção e objetivos tanto de catching-up quanto socializantes. Por um outro lado, existe a preocupação (recente) com a manutenção e o constante aperfeiçoamento de marcos institucionais que alavancam a orientação e condução política do PCCh sobre o Estado, a sociedade e o sistema empresarial. Um autor insuspeito como Blanchette (2021, p. 3) faz um bom resumo desta abordagem:
O secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), Xi Jinping, supervisionou uma transformação significativa do sistema econômico interno da China, sustentada por um conjunto de importantes reformas que ampliaram drasticamente o alcance do Estado chinês sobre a economia e sobre as empresas do país. Essas mudanças incluem a integração das organizações do PCC às empresas públicas e privadas, a mudança na orientação regulatória da Comissão de Supervisão e Administração dos Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC) – que passou de uma lógica de "administrar empresas" para a de "administrar capital" – e o papel dos fundos governamentais de orientação (government guidance funds) como instrumentos de condução da política industrial. A transformação geral da estrutura econômica e regulatória da China – bem como do controle político exercido pelo PCC –, combinada com a característica da era Xi de integração entre o público e o privado, de um lado, e entre mercado e planejamento, de outro, é de tal magnitude que representa um novo paradigma na trajetória de desenvolvimento da China.
O autor também demonstra uma diferença entre as experiências coreana e chinesa que fortalece a abordagem do surgimento do Communist Party-led Development:
Havia, contudo, diferenças importantes entre essas duas manifestações do capitalismo de Estado do Leste Asiático e o modelo em evolução da China. O sistema dos chaebols era estruturado em torno de redes familiares, as quais o Partido Comunista Chinês (PCC) havia desmantelado sistematicamente após a consolidação definitiva de seu poder sobre a China em 1949. No caso dos keiretsu, um banco vinculado ao grupo ocupava a posição central do conglomerado; em contraste, Pequim relutava em transferir o controle dos recursos financeiros para entidades parcialmente independentes. Assim, embora os grupos estatais passassem a contar com seus próprios braços financeiros, o crédito para todo o sistema de empresas estatais (SOEs) continuaria sob o controle dos grandes bancos comerciais estatais. Outra diferença importante – descrita com mais detalhes adiante – reside no papel profundamente enraizado do partido governante (neste caso, o PCC), característica ausente tanto no capitalismo de Estado sul-coreano quanto no japonês.Sob a política de "agarrar as grandes, liberar as pequenas" (Grasp the Big, Release the Small), Pequim criou conglomerados com estruturas societárias de extraordinária complexidade e opacidade, que em pouco tempo passaram a se estender por todo o mundo. (Ibid., p. 5)
A criação da State-owned Assets Supervision and Administration Commission of the State Council (Sasac), o processo de corporatização das empresas estatais e a formação do imenso braço financeiro público do Estado chinês já foram por nós abordados em algumas oportunidades, sobretudo em China: o socialismo do século XXI ((Jabbour e Gabriele, 2021). Acrescentamos a essa pesquisa o processo de criação de um Sistema Nacional de Inovação Tecnológica (Jabbour e Moreira, 2023), mas chamamos atenção para o fato de este processo ter criado as condições de reemergência de uma economia de projetamento após o final da URSS, sob uma nova e avançada roupagem, constituindo-se no socialismo da nossa época histórica. O Communist Party-led Development é um desdobramento político desse longo processo.
Retomando as questões concernentes aos esquemas de propriedade e ao papel ascendente do que se pode denominar de "elemento consciente", o Communist Party-led Development deve ser analisado como uma expressão do processo de fusão simbiótica entre as "duas contabilidades". Essa fusão se manifesta particularmente no aprimoramento do desenvolvimento social e na otimização das relações de interdependência mútua (Ren, 2024). Essa hipótese, corroborada por uma das características fundamentais da “Nova Era”, sintetizada na superação da dicotomia entre empresas públicas versus empresas privadas (não públicas) para um ponto onde se percebe ambas as formas de propriedade como “empresas chinesas”.8 Na prática, além de reforçar a centralidade da propriedade pública no horizonte empresarial chinês e, consequentemente, operar o setor privado como um beneficiário dos efeitos de encadeamento gerados pelos investimentos das empresas públicas, aumentou a influência do “elemento consciente” (PCCh) sobre as estratégias privadas de investimentos.9
O Communist Party-led Development: uma primeira aproximação
Com base nos elementos apresentados, é possível delinear um escopo inicial do Communist Party-led Development. Esse fenômeno associa dois eventos: a submissão da contabilidade corporativa aos interesses sociais e estatais, e o crescimento paralelo da influência do Partido Comunista Chinês (PCCh) sobre as decisões de investimento, tanto em esferas públicas quanto privadas. Tais transformações indicam que uma nova onda de inovações institucionais está em curso na China, diferenciando-se da fase inicial de reformas, que foi marcada pelo simples reposicionamento dos setores público e privado (de Paula e Jabbour, 2020). O desafio da aceleração do desenvolvimento das forças produtivas em um ambiente externo cada vez mais hostil tem condicionado tanto o aumento da influência do PCCh sobre todos os meandros da economia e da sociedade quanto a ampliação do setor público na economia chinesa às expensas do setor privado (Gráfico 1).
Esse processo ocorre também em consonância com o caminho traçado de busca pela independência tecnológica via construção de políticas industriais cada vez mais ousadas e robustas.10 Um exemplo concreto disso está na elevação da participação acionária de empresas estatais em empresas não públicas:
O número de proprietários privados com investimentos diretos do Estado quase triplicou entre 2000 e 2019, enquanto o número de proprietários privados indiretamente vinculados ao Estado – por meio de investimentos realizados por proprietários privados que já mantinham conexões estatais – aumentou cinquenta vezes. O crescimento da participação desses dois grupos de proprietários privados conectados ao Estado no capital registrado responde por praticamente todo o aumento de 20 pontos percentuais na participação dos proprietários privados observado entre 2000 e 2019. (Bai et al., 2020, p. 2)
Essa transformação do portfólio acionário no setor privado nos leva a questionar sobre a própria essência da natureza de propriedade na China e suas transformações. Dadas as restrições cada vez maiores de escopo de ação do setor privado (e da própria lei do valor), estaríamos diante de uma transformação no rumo da consolidação de um setor chamado de não público na China? A nós não existem muitas dúvidas em relação a isso, o que redunda em uma transformação qualitativa na atual quadra histórica de experiências socialistas no mundo. O Communist Party-led Development é um conceito que se manifesta no movimento real. Voltaremos a esse ponto.
Vale observar que essa mudança, antes de atingir o setor privado, iniciou-se nas empresas estatais. Na década de 1980, emerge, no setor público chinês, a figura do chief executive officer (CEO) com poderes que se sobrepunham aos do secretário da célula do PCCh no âmbito da empresa. A partir de 2010, uma inversão de papéis ocorreu. Segundo Naughton e Boland (2023, p. 9):
As mudanças na estrutura de governança das empresas estatais as colocaram muito mais diretamente sob o controle do Partido Comunista Chinês (PCC). O "sistema de responsabilidade do diretor da fábrica" (factory-manager responsibility system), que desde a década de 1980 garantia a autoridade superior do diretor-presidente (CEO) em relação ao secretário do Partido, foi gradualmente abolido. Inicialmente, o comitê do Partido passou a desempenhar um papel "estratégico" dentro da empresa, sobrepondo-se ao conselho de administração, que atualmente é, de forma rotineira, presidido pelo próprio secretário do Partido. A implementação dessas mudanças teve início no final da década de 2010, e as novas normas foram finalmente aprovadas formalmente e divulgadas publicamente no início de 2020. Como parte desse processo, os mecanismos existentes de governança corporativa foram reorganizados de maneira tão profunda que a natureza fundamental das relações de autoridade no interior das empresas foi transformada. Em certo sentido, a "propriedade estatal" foi substituída pela "propriedade do Partido", com a ressalva de que o PCC não se apropria diretamente das receitas geradas por "suas" empresas.
Dada a mudança da realidade externa e os desafios da conjuntura doméstica sob o script da mudança de aspecto na contradição principal, podemos ter uma leitura menos ideológica e mais funcional deste processo. Ou seja, essas transformações nas formas de administração da propriedade, primeiramente no setor estatal, são muito mais continuidade do que ruptura com o momento anterior (Leutert e Eaton, 2021).
A nosso ver, e de forma contraintuitiva, o processo de corporatização das empresas estatais na metade da década de 1990, culminando com a formação da Sasac, em 2003, antes de ser a consolidação de um sistema market-oriented, abriu as condições para o futuro controle político em um patamar de maior complexidade. Ora, se em um primeiro momento a consolidação de uma política grasping the large foi fundamental para a consolidação do setor público como o núcleo da economia chinesa, em um segundo momento, a elevação do controle político sobre este setor da economia, em tese “público”, iria ser colocada, pela própria história, na mesma proporção em que o PCCh foi incorporando em seus quadros e mindset tanto a transformação do mercado em instrumento de governo quanto do pleno domínio do mercado enquanto imperativo da “política”. E a deterioração do ambiente internacional acelerou o chamado momento da “política no comando”.
Voltamos a um ponto da abordagem sobre um novo ciclo de inovações institucionais, caracterizado por mudanças nos esquemas de propriedade no país, tendo, como uma das vias, a elevação do papel acionário do Estado sobre o setor privado. Aqui podemos trabalhar várias dimensões do Communist Party-led Development, incluindo o fim da dicotomia entre empresas públicas e privadas, além da elevação do papel do PCCh em detrimento dos CEOs de empresas de diferentes tipos.11 Porém, existe uma dimensão financeira neste processo que pode passar despercebida da análise e que conforma o cimento ao desenvolvimento de uma nova formação econômico-social na China, cada vez mais distante tanto de um capitalismo liberal quanto do Estado Desenvolvimentista de tipo asiático:
Em contraste com a propriedade estatal majoritária ou com o Estado como formulador e orientador da política industrial, o "Estado investidor" busca alcançar os objetivos econômicos e políticos do Estado por meio de investimentos amplamente distribuídos em um conjunto diversificado de empresas, ainda que não necessariamente na condição de acionista controlador. O Estado investidor distingue-se conceitualmente tanto do capitalismo de Estado, que geralmente implica a propriedade estatal dos "setores estratégicos" (ou das commanding heights) da economia, quanto do Estado desenvolvimentista, que envolve a intervenção governamental para otimizar os fundamentos macroeconômicos e coordenar a política industrial, mas que se apoia principalmente em empresas privadas, e não no capital estatal. Mais especificamente, o modelo de "Estado investidor" fortalece as empresas privadas como agentes econômicos, ao mesmo tempo em que atribui ao Estado o papel de principal portador do risco financeiro – uma combinação que não está presente nem no Estado desenvolvimentista nem no capitalismo de Estado. (Chen e Ruthmire, 2020, p. 2)
A nossa hipótese corrobora a visão de Chen e Ruthmire e ainda reforça a tendência. Essa forma de “Estado Investidor” como uma ferramenta que opera muito além das empresas estatais, atingindo diretamente o capital privado é um fenômeno novo dentro do que podemos chamar de “Economia Política do socialismo” e se manifesta como um reflexo de novas determinações do projetamento na China, com suas consequências políticas, geopolíticas e mesmo sistêmicas.
Trata-se de um instrumento complementar à intervenção direta sobre as bigtechs pelo Estado Socialista, como a ocorrida em 2021, com a finalidade de conter a “expansão desordenada do capital” e até a ordem de furar a bolha do setor imobiliário como forma de liberar recursos e energia aos setores da fronteira tecnológica. O projetamento enquanto forma histórica se desenvolve com a ampliação das possibilidades de concentração de recursos em gigantes projetos dentro e fora do país: o “Estado Investidor” é altamente funcional à fusão das “duas contabilidades” apontadas.
Outro ponto a ser debatido e aprofundado é o impacto desse processo inteiramente novo para o contínuo desenvolvimento das forças produtivas no país. Do ponto de vista teórico, é evidente que mudanças no regime de propriedade são fundamentais para a inauguração de novos ciclos de desenvolvimento das forças produtivas. É esta a história da gradual substituição de um modo de produção por outro. Na China, este processo – que vai desde o surgimento de um Sistema Nacional de Inovação Tecnológica, de caráter disruptivo, surgimento de novas e superiores formas de planificação econômica, reemergência da regulação integral do PCCh sobre decisões de investimento públicos e privados e a viabilização da fusão das “duas contabilidades” – é uma poderosa explicação para a continuidade do crescimento e frequentes processos de leapfrogg em vários setores.
Mas existe o elemento financeiro, o braço financeiro desse processo. Desde 2015, um processo de constituição de uma grande finança, fora dos bancos públicos, foi criado com o objetivo de agilizar a intervenção pública e política sobre as empresas necessitadas de investimentos públicos em empresas privadas que operam nos marcos do plano Made in China 2025 e nas milhares de startups que emergiram desde o início da guerra comercial tecnológica iniciado por Trump em 2017. Esta reorganização da grande finança esteve à cargo da Sasac, com a constituição das chamadas companhias estatais de investimentos e operações (SCIOs):
Introduzidas como projetos-piloto em meados da década de 2010, as SCIOs foram concebidas para assumir um papel ativo no âmbito do Estado investidor — isto é, não apenas atuar como detentoras passivas de participações governamentais, mas também reestruturar ativamente empresas estatais, de maneira semelhante ao que faria um banco de investimento. Por exemplo, a Guoxin (traduzida para o inglês como China Reform Holdings) é uma "empresa de operação de capital estatal" subordinada à agência nacional de supervisão da propriedade estatal, a Sasac. Inicialmente criada para auxiliar as empresas estatais centrais (SOEs) em seus processos de reestruturação, por meio da alienação de ativos "não essenciais" e pouco lucrativos, a Guoxin transformou-se em um ator permanente e de grande relevância. Entre seus objetivos está o apoio às SOEs que buscam expandir suas operações no exterior: nos últimos dez anos, a empresa investiu 187,2 bilhões de yuans (US$26,9 bilhões) em projetos fora da China. (Naughton e Boland, 2023, p. 12)
Outras fontes de financiamento público e formação de fundos de investimentos a partir de estatais e governos locais proliferaram no mesmo período, como por exemplo os fundos governamentais (GGFs). Em meados da presente década sua carteira de investimentos, incluindo a compra de ativos em empresas privadas, alcançou US$1,62 trilhões (ibid., p. 15).
Ou seja, o Communist Part-led Development surge como uma necessidade política que, aos poucos, se transmuta em uma simbiose financeira de grandes proporções com a clara intenção de se utilizar dos mais amplos instrumentos financeiros para o avanço do setor público sobre o não público. Isso acontece ao mesmo tempo em que o capital se concentra, ação muito necessária da China para superar o cerco da guerra tecnológica.
Este é um novo estágio de desenvolvimento das forças produtivas, impulsionado por grandes inovações institucionais que criam uma forma histórica única. É um processo que supera o modelo do Estado Desenvolvimentista asiático e se configura como um socialismo baseado em uma forte economia de projetamento. Essa economia tem a capacidade de reagir rapidamente aos desafios de uma realidade internacional instável e às complexas contradições internas.
Conclusões
Esta investigação busca responder ao desafio de analisar o que foi abordado como o surgimento de uma nova lógica socioeconômica. Essa nova lógica se baseia na propriedade pública da produção e das finanças, em vez da valorização do capital, e está moldada por uma planificação superior. Para isso, desenvolvemos a teoria do projetamento, iniciada por Ignácio Rangel nos anos 1950. Nossa abordagem se baseia nas poucas abstrações dos clássicos sobre o socialismo, especialmente na sua dupla centralidade: um novo tipo de poder político e o desenvolvimento acelerado das forças produtivas, que são impulsionados pela propriedade pública dos meios de produção.
É fundamental advogar por uma nova lógica econômica, baseada na propriedade pública da produção e das finanças, que não priorize a valorização do capital. Essa nova lógica deve ser estruturada por meio de formas avançadas de planejamento.
Repetindo: esse desafio intelectual tem sido enfrentado por nós por meio do desenvolvimento da teoria do projetamento, iniciada por Ignacio Rangel no final dos anos de 1950. Ao fazê-lo, levamos em conta as poucas abstrações que os clássicos fizeram sobre o socialismo e a dupla centralidade dessa forma histórica: um novo tipo de poder político e o desenvolvimento acelerado das forças produtivas sob o primado da propriedade pública dos meios de produção.
A teoria do projetamento está em constante desenvolvimento e é cada vez mais debatida em círculos acadêmicos. Uma das contribuições mais recentes é a elaboração rangeliana da fusão entre as "duas contabilidades",12 propondo que uma nova onda de desenvolvimento das forças produtivas no socialismo exige inovações institucionais que submetam a contabilidade da empresa à contabilidade social.
Em termos teóricos, essa abordagem busca superar a divisão entre macroeconomia e microeconomia. Na prática, representa a luta de classes entre o Estado – sob o controle de forças políticas que almejam o socialismo – e a burguesia que emerge de reformas econômicas, como no caso da China. Estrategicamente, isso aponta uma dinâmica de desenvolvimento superior à do Estado Desenvolvimentista de tipo asiático. Este artigo faz uma primeira análise dessa abordagem.
O modelo de Communist Party-led Development é uma expressão da Nova Economia de Projetamento. Ele surgiu em uma época histórica específica: a Nova Era, iniciada em 2017, na qual o governo chinês identificou a principal contradição nas grandes disparidades de renda e desenvolvimento regional.
Além disso, o ambiente internacional, cada vez mais hostil, exigiu (e ainda exige) novas políticas para fortalecer a reforma, reorganização e centralização do capital público. O lema "a política no comando" se concretizou com a criação de inovações institucionais que permitiram a fusão das "duas contabilidades", reafirmando o poder do PCCh sobre os processos internos das empresas.
Essa nova dinâmica, que absorve e supera o modelo de Estado Desenvolvimentista asiático, eliminou a distinção entre público e privado no país, dando ao PCCh um papel de liderança direta na produção e nas decisões de investimento – mesmo nas empresas privadas. Assim, o papel do CEO foi substituído pelo da célula do PCCh dentro da empresa.
O papel do Estado na China mudou. Ele não é mais apenas o proprietário dos meios de produção estratégicos ou um ativador de mecanismos como a "socialização do investimento" e o "princípio da demanda efetiva". Com seu braço financeiro público cada vez mais presente, o Estado avançou sobre o setor privado, transformando-o em algo "não público" – uma forma de propriedade distinta da propriedade privada histórica, que surgiu com as leis de cercamento na Inglaterra.
Esse controle político crescente sobre a produção não a tornou menos ágil. Pelo contrário, o que hoje é chamado de "momento Ford" na China, como uma nova fase no desenvolvimento das forças produtivas, está diretamente relacionado às inovações institucionais que permitiram o surgimento do Communist Party-led Development.
Neste artigo, argumenta-se que, com as novas transformações na economia chinesa, o socialismo está passando por mudanças qualitativas em seu conteúdo, e não por meras mudanças quantitativas. Isso nos impõe grandes desafios intelectuais, tanto para nós quanto para aqueles que estudam e trabalham com o marxismo como ciência do poder político.
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Notas
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Assim como o “Momento Sputnik” simboliza um ponto crítico na competição estratégica bipolar durante a Guerra Fria, o que chamamos de “Momento Ford” expressa outra coisa: simboliza uma mudança estrutural no capitalismo global, centrada nos Estados Unidos (G. Merino, 2025), em outros termos, um salto na evolução das forças produtivas.
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Sobre os mais recentes desenvolvimentos da teoria do projetamento, ler: Jabbour e Capovilla (2024), Boer (2023), Jabbour, Boa Nova e Vadell (2024), Jabbour e Moreira (2023).
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Ver Jabbour, Boa Nova e Vadell (2024) e Jabbour e Capovilla (2024).
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Importante retomar a reflexão que segue: [...] (a) história do socialismo no século XX ser a história das sociedades que iniciaram praticamente do zero seus projetos de emancipação – uma vez que se tratavam de países destruídos ou semidestruídos por guerras –, então inexistiam ou eram incipientes tanto uma classe operária qualificada e capaz de dirigir o Estado, a produção e a distribuição de bens quanto o desenvolvimento suficiente das forças produtivas para um processo de superação do capitalismo. Isso, por si só, já possui elementos suficientemente complexos para elevar o grau do processo de conceituação dessas experiências (Jabbour e Capovilla, 2024, pp. 10-11).
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Por exemplo, em 29 de dezembro de 2023, a 7ª Sessão do Comitê Permanente do Décimo 14º Nacional do Povo da China adotou a Lei das Empresas (Company Law Revisada) que está em vigor desde 1º de julho de 2024. No artigo 17 da Company Law revisada, especifica-se, pela primeira vez, no nível da legislação nacional, que a forma básica do sistema de governança corporativo democrático é a assembleia de representantes dos funcionários: Os funcionários da empresa organizam sindicatos de acordo com a Lei dos Sindicatos da República Popular da China, realizam atividades sindicais e salvaguardam os direitos e interesses legítimos dos funcionários. A empresa deve fornecer condições necessárias para as atividades do sindicato da empresa. O sindicato da empresa representa os funcionários e assina um contrato coletivo com a empresa de acordo com a lei sobre questões como remuneração do trabalho, horas de trabalho, descanso e férias, segurança e saúde no trabalho e benefícios de seguro. [...]. De acordo com as disposições da Constituição e das leis relevantes, a empresa estabeleceu e aprimorou um sistema de gestão democrática com o congresso dos trabalhadores como forma básica, e implementou a gestão democrática por meio do congresso dos trabalhadores ou outras formas. Quando uma empresa considera e decide sobre reestruturação, dissolução, pedido de falência, questões importantes nas operações ou formulação de regras e regulamentos importantes, ela deve ouvir as opiniões do sindicato da empresa e ouvir as opiniões e sugestões dos funcionários por meio da conferência de representantes dos trabalhadores ou outras formas.
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Em 2021, o governo chinês lançou seu primeiro ensaio mais conciso sobre como funciona esse sistema baseado em assembleias populares. Sob o conceito-chave de “Processo integral de democracia popular”. O documento “China: a democracia que funciona” pode ser encontrado em: http://english.scio.gov.cn/whitepapers/2021-12/04/content_77908921.htm
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Moraes (2023) faz uma importante atualização, baseada em extensa revisão bibliográfica, sobre o atual estado da arte do Estado Desenvolvimentista.
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Em entrevista concedida pelo então presidente da Sasac Hao Peng, essa reflexão ficou evidenciada: Independentemente de serem empresas estatais ou privadas, todas são empresas chinesas. [Nós] promoveremos firmemente a integração das cadeias produtivas a montante e a jusante entre empresas de diferentes estruturas de propriedade, a integração entre empresas de grande, médio e pequeno porte, bem como o desenvolvimento coordenado e inovador dos diversos agentes de mercado, de modo a construir conjuntamente um conjunto de empresas de classe mundial. (Hao, 2020)
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Sobre este processo é sugestiva a seguinte passagem: O fundamento socialista do sistema econômico da China é a supremacia incondicional do Partido Comunista Chinês. Em conformidade com a tradição marxista-leninista, o Partido dirige o direito. Regulamentos, leis e decisões administrativas são aplicados de acordo com a política vigente do Partido. Assim como existe um cargo correspondente do Partido para cada posição-chave no governo, uma hierarquia partidária também se sobrepõe à estrutura de governança corporativa nos bancos, nas empresas estatais (SOEs), nas empresas não estatais de capital aberto, nas empresas de propriedade mista, nas joint ventures e nas empresas privadas de porte suficientemente grande. As células do Partido presentes em todo o setor empresarial constituem sistemas paralelos de responsabilização interna em relação àqueles estabelecidos pelas próprias empresas, mantendo o secretário do Partido e o comitê partidário de cada empresa permanentemente informados e aptos a fornecer orientação oportuna ao diretor-presidente (CEO) e ao conselho de administração. As normas de governança corporativa importadas, que exigem diretores independentes e mecanismos semelhantes, essencialmente ignoram o envolvimento do Partido na governança das empresas. (Fan, Morck e Yeung, 2011, p. 11)
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Sobre essa crescente concentração em políticas industriais orientadas à fronteira tecnológica, ver Gabriele (2020) e Diegues e Roselino (2023).
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Milhaupt e Zheng (2015) vão mais longe e argumentam que o PCCh tem mais poderes sobre as empresas privadas do que sobre as estatais.
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Trata-se da fusão entre a contabilidade da firma e a contabilidade social.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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Editores:
Lucia BógusLuiz César de Queiroz Ribeiro
Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.


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