Open-access Cartografia participativa como forma de mobilização coletiva para emergência em desastres hidrológicos

Resumo

A pesquisa teve como objetivo a elaboração de um mapa técnico-comunitário no bairro Vila Sônia, em Itaquaquecetuba (SP) – área periférica e vulnerável a desastres hidrológicos –, buscando identificar caminhos seguros e acessíveis pela perspectiva da população local. Foi usada uma metodologia participativa de cartografia em oficina com moradores, poder público e pesquisadores, empregando os métodos Teia da Resiliência Comunitária, Mapa Falado e Ciranda Mapeantes Mirins. Os resultados revelaram rotas críticas, locais seguros e demandas infraestruturais, como uma ponte para conectividade com a malha viária e melhorias em drenagem, saneamento e iluminação. Conclui-se que a cartografia participativa fortalece vínculos coletivos, gera conhecimento técnico-comunitário e subsidia políticas públicas adaptadas à realidade local, fortalecendo as formas de ação coletiva produzidas na periferia.

Palavras-chave
cartografia participativa; gestão de riscos e desastres; planejamento urbano integrado; desastres hidrológicos

Abstract

This study aimed to develop a technical and community map in the Vila Sônia neighborhood (Itaquaquecetuba – São Paulo), a peripheral area vulnerable to hydrological disasters, aiming to identify safe and accessible routes from the perspective of the local population. A participatory mapping methodology was employed in a workshop involving residents, public authorities, and researchers, utilizing the Community Resilience Web, Spoken Map, and Ciranda Mapeantes Mirins methods. The results revealed critical routes, safe locations, and infrastructure needs, such as a bridge to connect to the road network and improvements in drainage, sanitation, and lighting. The conclusion is that participatory mapping strengthens collective bonds, generates technical and community knowledge, and supports public policies tailored to the local reality, reinforcing forms of collective action produced in the periphery.

Keywords
participatory mapping; disaster risk management; integrated urban planning; hydrological disasters

Introdução

O conceito ampliado de saúde compreende o bem-estar como um fenômeno complexo e multidimensional, que ultrapassa a ausência de doenças para incluir determinantes socioeconômicos, ambientais, habitacionais, culturais e psicológicos. Essa perspectiva integral valoriza a participação comunitária e a integração de saberes, reconhecendo que a autonomia e o contexto de vida das populações são elementos centrais na promoção da saúde (Brasil, 1986, p. 16). Quando transposto para o campo do planejamento urbano, o conceito ampliado de saúde reforça a necessidade de políticas intersetoriais que integrem habitação, saneamento, mobilidade, segurança e meio ambiente saudável – aspectos essenciais tanto para reduzir riscos de desastres quanto para fortalecer a resiliência climática em contextos urbanos periféricos e marcados por vulnerabilidades históricas.

Desastres como as inundações e os alagamentos, deflagrados por fenômenos hidrológicos e climáticos, impactam negativamente a saúde pública e ambiental ao expor populações a águas contaminadas, facilitando a propagação de zoonoses, como leptospirose, dengue e febre amarela. Além dos problemas físicos, eventos climáticos extremos afetam a saúde mental, aumentando casos de estresse, ansiedade e depressão (Londe et al., 2018). Ambientalmente, esses eventos alteram ciclos de vetores e ampliam riscos sanitários, especialmente em comunidades vulneráveis.

No município de Itaquaquecetuba, localizado na Região Metropolitana de São Paulo, a comunidade Vila Sônia constitui um exemplo emblemático: entre 2019 e 2025, o bairro registrou episódios anuais de alagamentos e inundações graduais, especialmente nos meses de dezembro a março. Entre 2019 e 2024, Itaquaquecetuba notificou 28 casos de leptospirose, segundo dados do Datasus (Brasil, 2024a). Embora os dados mais recentes disponíveis no Datasus1 não contemplem o ano de 2025, moradores da Vila Sônia relataram a ocorrência de um óbito por leptospirose no bairro, decorrente do desastre hidrológico de fevereiro de 2025, quando as vias e algumas habitações permaneceram alagadas por 23 dias, com a água atingindo a marca de quase um metro de altura – aproximadamente 0,90 cm.

Um desastre surge quando, por múltiplas razões, uma comunidade atingida por um evento perigoso é incapaz de adequar seus ritmos e redefinir seus processos de maneira ágil e flexível em resposta às mudanças abruptas no ambiente (Wilches-Chaux, 1993). Nesse sentido, a inacessibilidade às infraestruturas vitais devido ao bloqueio das vias pela água, durante os episódios de alagamento na Vila Sônia, configura um cenário de desastre.

Considerando o impacto sistemático dos alagamentos e das inundações nesse território, esta pesquisa teve como objetivo cartografar as rotas preferenciais e acessíveis de evacuação da população exposta ao risco hidrológico no bairro Vila Sônia, em Itaquaquecetuba (SP). De uma perspectiva mais abrangente, a pesquisa tem como intuito ampliar a proteção social ao adotar uma postura mais antecipatória a partir de uma governança participativa – especialmente necessária diante dos novos desafios ambientais e climáticos. Para tanto, foi adotada uma metodologia participativa que busca conhecer e mapear riscos, vulnerabilidades e capacidades adaptativas a partir da perspectiva de quem vivencia essas situações.

Essa proposta vai ao encontro das demandas dos stakeholders (partes interessadas) para melhor gestão de riscos de desastres socionaturais, visando reduzir impactos à saúde pública e ambiental ocasionados por inundações e alagamentos. Ao privilegiar o conhecimento de quem vivencia os riscos, a proposta busca não somente subsidiar políticas públicas mais eficazes e enraizadas no território, mas também reconhecer e fortalecer as formas de ação coletiva produzidas na periferia – periferia do sistema econômico, da cidade e dos centros de produção científica. Desse modo, cabe destacar a relevância de iniciativas e pesquisas que envolvam a população local no desenvolvimento de ferramentas para reivindicar direitos, expressar processos de territorialização e afirmar identidades.

Nesse sentido, a articulação entre o planejamento urbano e a gestão de riscos e desastres (GRD) deve ser compreendida como prática política situada, que não se restringe à dimensão técnica ou institucional, mas que emerge também das formas de ação coletiva produzidas nos territórios – especialmente naqueles marcados pela segregação espacial e pela vulnerabilização social. Essas formas, ancoradas em redes de solidariedade e na autogestão comunitária, revelam como sujeitos situados na periferia dos processos decisórios constroem estratégias de enfrentamento aos desastres.

A pesquisa se insere no âmbito do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Itaquaquecetuba, desenvolvido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com a Secretaria Nacional de Periferias (SNP) do Ministério das Cidades, a Prefeitura Municipal e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ao articular ciência cidadã, gestão pública e práticas comunitárias, a investigação contribui para o debate sobre as potências políticas das periferias urbanas, evidenciando como a ação coletiva se torna elemento central na luta pelo direito à cidade, pela justiça socioambiental e na construção de respostas autônomas diante dos desastres socionaturais.

Relevância da área de estudo

A Vila Sônia é um dos bairros cartografados como área de risco a inundações e alagamentos pelos PMRR de 2018 e de 2025. O local registra ocorrências onde a lâmina d’água atinge a marca de 1,5 metro de altura. Nesses eventos, as vias permaneceram alagadas por longos períodos (que variam de dias a meses), inviabilizando ou dificultando a mobilidade dos moradores e o acesso a serviços urbanos e a itens de subsistência, especialmente em episódios climáticos extremos – pois algumas pessoas ficam ilhadas em suas casas.

Trata-se de uma área às margens do rio Tietê (Figura 1) que apresenta uma complexa dinâmica de vulnerabilidade social e ambiental, com uma considerável concentração de crianças, idosos e famílias monoparentais com mulheres responsáveis pelo domicílio, além de uma proporção elevada de pessoas negras e não alfabetizadas, segundo dados do Censo Nacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022). Esses fatores indicam um contexto de fragilidade econômica e social em que os moradores enfrentam desafios para acessar serviços básicos.

Figura 1
– Fotografia aérea de drone do bairro Vila Sônia, em Itaquaquecetuba/SP

É uma localidade que registra um longo histórico de recorrentes episódios de inundação gradual e alagamento. Observa-se, também, consideráveis deficiências em infraestrutura urbana de drenagem e saneamento, com focos de esgoto a céu aberto – o que contribui para agravar os impactos dos alagamentos e das inundações aos quais os moradores estão expostos. Assim, a água que transborda do rio, combinada com a deficiência de saneamento básico adequado e com a ausência de sistema de microdrenagem para disciplinamento da água pluvial, torna-se um cenário propenso à veiculação de zoonoses, como a leptospirose.

Ademais, a comunidade local se organiza politicamente por meio de uma associação de moradores – a Associação de Amigos do Bairro Vila Sônia (AABVS) –, cuja liderança comunitária possui reconhecida atuação no bairro. A presença da AABVS, de um Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil (Nupdec) e de uma liderança com poder de articulação contribuíram para que a cartografia participativa empregada nesta pesquisa tivesse considerável adesão dos moradores.

Cartografia participativa na prevenção de desastres

Desde a última década do século XX, as pesquisas em GRD passaram por mudança de paradigma, saindo de uma abordagem tecnicista, centrada em soluções tecnológicas e saberes especializados, para uma perspectiva interdisciplinar que considera a vulnerabilidade social, a resiliência e a governança participativa (Lavell e Maskrey, 2014). Embora essa mudança epistemológica ocorra, em muitos casos, apenas no campo discursivo, sem se refletir na materialidade das ações, esse novo paradigma influencia o Marco de Sendai,2 enfatizando metodologias de participação social que envolvem todos os grupos de interesse (stakeholders), especialmente os mais vulneráveis (Gantus-Oliveira, 2023b). No mesmo sentido, a orientação do Ministério das Cidades para o desenvolvimento de soluções de GRD é de que a participação social seja “norteadora da resiliência comunitária” (Brasil, 2024b, p. 7).

Contudo, apesar de diversos estudos e diretrizes ressaltarem a importância de integrar a GRD às políticas públicas participativas para melhorar a qualidade de vida urbana e reduzir perdas, a prática predominante no Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sinpdec) e em seus respectivos modos de gestão ainda privilegiam o monitoramento técnico-científico e o controle dos perigos naturais por meio de obras de engenharia (Gantus-Oliveira, 2023a; Nogueira, 2002). Essa abordagem tradicionalista e tecnicista, em detrimento de uma governança participativa, intersetorial e integrada, desconsidera a impossibilidade de controlar e evitar a ocorrência de fenômenos geológicos e hidrológicos. Apesar dos avanços técnicos que possibilitam maior monitoramento e previsibilidade da materialização do risco, o controle da ameaça natural é inviável.

Os desastres socionaturais, ainda que deflagrados por eventos climáticos, resultam da combinação de processos sociais de produção do espaço e de processos naturais de transformação da paisagem, que não podem ser previstos de maneira fidedigna e totalmente antecipatória. Os impactos dos desastres são resultados de processos de vulnerabilização, que devem mais aos seus nexos sócio-históricos do que a seus eventos deflagradores (Oliveira et al., 2021). Ademais, há uma confiança excessiva nos sistemas de alerta sem uma integração adequada com a realidade da população exposta, prejudicando a eficácia das ações emergenciais e a confiança pública (Valencio, 2014). Em vista disso, o alinhamento entre os órgãos governamentais, o Sinpdec e a comunidade é fundamental para evitar respostas ineficientes.

Nesse contexto, torna-se imprescindível repensar modelos tradicionais de GRD baseados exclusivamente em perspectivas técnico-científicas. No sentido contrário, é preciso promover uma governança participativa e integrada (Sulaiman, Moura e Nogueira, 2021). A negligência no planejamento de estratégias de redução da vulnerabilidade e de fortalecimento da resiliência territorial e comunitária precisa, portanto, ser superada. Assim, a continuidade das políticas, a formação de redes de cooperação entre diferentes níveis de governo, e a valorização de instrumentos como a cartografia participativa e a educação ambiental são estratégias essenciais para a efetivação de uma GRD dialógica e transformadora (Gantus-Oliveira, 2023a).

A partir dessa perspectiva, toma-se a resiliência a desastres não como uma agenda neoliberal inscrita na categoria de “cidades resilientes”, que visa, por meio do capital imobiliário, promover gentrificação urbana, mas como uma prática social, política e coletiva de adaptação às transformações ambientais globais (Gantus-Oliveira, 2023b). Em face das mudanças climáticas e do aumento da frequência e intensidade dos desastres, faz-se urgente que gestores públicos e sociedade civil priorizem ações estruturantes e preventivas, capazes de articular a conservação dos ecossistemas com a promoção da equidade e da dignidade humana nos territórios mais vulneráveis.

Em vista disso, o conhecimento do território e das necessidades da comunidade é essencial para enfrentar riscos de desastres e emergências ambientais e em saúde. Não obstante, esse conhecimento costuma estar disperso entre sistemas, instituições, atores sociais e a própria comunidade local. Dessa maneira, o fortalecimento de movimentos comunitários é fundamental para que novos saberes surjam, possibilitando novos modos de produção e ocupação do espaço urbano. Para isso, é necessário conhecer e mapear riscos e vulnerabilidades a partir da perspectiva de quem vivencia essas situações.

Não é uma tarefa fácil diminuir a distância entre gestão e cidadãos. Nesse sentido, cabe destacar alguns desafios de integração de processos participativos à GRD: quando a participação não é entendida como um processo de intercâmbio de saberes, ou quando falta conhecimento sobre o propósito da participação. A participação diz respeito a um processo que integra opiniões, interesses e propostas das pessoas afetadas em programas técnicos e políticos. Nos processos participativos, é fundamental considerar os saberes e as visões de todos os atores para construir coletivamente planos de gestão. Os defensores da participação popular e democrática destacam dois tipos de benefícios: (1) pragmáticos, que ajudam a alcançar os objetivos do projeto de GRD; e (2) políticos (ou democráticos), que promovem o empoderamento dos envolvidos (Aledo e Mañas, 2018).

Entre as principais vantagens dos processos participativos, Aledo e Mañas (2018) destacam: (1) agregar informações mais representativas e precisas sobre as necessidades, prioridades e capacidades da população local; (2) adaptar os programas às condições locais, de forma que os recursos possam ser empregados de modo mais eficiente; (3) levantar informação técnica local de maneira menos custosa; (4) proporcionar ao cidadão oportunidades para influenciar e ter um impacto sobre os processos decisórios; (5) empoderar os cidadãos; (6) reforçar identidades coletivas; (7) gerar confiança do público no processo.

De acordo com Harley (2009), a cartografia oficial sempre representou uma forma de conhecimento ligada ao poder. O cartógrafo, consciente ou não, não apenas retrata o território de maneira abstrata, mas também reflete os interesses políticos de um determinado sistema. Por meio da seleção de conteúdos, símbolos e estilos, os mapas funcionam como instrumentos para imaginar, organizar e estruturar o mundo. Essa perspectiva ajuda a entender como eles podem ser manipulados por aqueles que detêm o poder na sociedade. Normalmente, as bases cartográficas e os mapas são elaborados por técnicos especializados, a serviço de instituições públicas e privadas que atuam em conjunto com a gestão.

Permitir que as próprias comunidades – especialmente aquelas marginalizadas pelo sistema – produzam suas cartografias representa uma ação contra-hegemônica. No mundo todo, diversas iniciativas têm envolvido populações locais na criação de mapas, utilizando o mapa participativo como ferramenta para reivindicar direitos, expressar processos de territorialização e afirmar identidades. Dependendo do contexto, a cartografia pode servir para organizar comunidades, fortalecer identidades coletivas, influenciar politicamente ou tornar visíveis ao público realidades vividas por grupos sociais específicos.

Dessa forma, a cartografia participativa reúne pessoas e ajuda a construir narrativas sobre a vida comunitária nos territórios, revelando as conexões dentro do tecido associativo em constante transformação. Por fim, o mapa participativo só existe com o envolvimento ativo e comprometido da população envolvida, o que destaca sua natureza dinâmica: não é um produto acabado, mas um processo contínuo de construção coletiva.

Percurso metodológico

A criação conjunta de novos conhecimentos, através da troca de informações e experiências, torna-se fundamental no enfrentamento de desafios ambientais e climáticos compartilhados. A aprendizagem social dinâmica ocorre na interação entre os membros de uma comunidade, fundamentada no diálogo, no intercâmbio de saberes e na colaboração mútua. Segundo Jacobi e Grandisoli (2018), existem diversos instrumentos, métodos e técnicas que promovem a participação ativa na busca por soluções consensuadas.

As ferramentas participativas têm como objetivo incentivar a geração de ideias e fomentar atitudes solidárias e proativas, fortalecendo vínculos de coesão social e promovendo a resiliência territorial e comunitária. Partindo desses pressupostos, esta pesquisa realizou uma oficina de cartografia participativa para a definição de rotas de evacuação em emergências por desastres hidrológicos. A oficina foi realizada no âmbito do PMRR de Itaquaquecetuba, com o objetivo de delinear estratégias para soluções não estruturais. Para tanto, foram empregados três métodos: a dinâmica da Teia Comunitária (Oliveira et al., 2021), o método do Mapa Falado (Jacobi e Grandisoli, 2018) e a dinâmica da Ciranda Mapeantes Mirins. O percurso metodológico é sintetizado no fluxograma da Figura 2.

Figura 2
– Percurso metodológico da pesquisa

A dinâmica da teia – aqui nomeada de Teia da Resiliência Comunitária – abriu a oficina de cartografia participativa. Para a construção da teia, os participantes, em roda e de pé, pedem a fala enquanto seguram o barbante; após o compartilhamento de suas reflexões, passam o rolo de barbante para outro membro da roda, e assim sucessivamente. Antes de passar o barbante, cada integrante compartilha as experiências e os sentimentos vivenciados com o desastre deflagrado pelas chuvas em 2025. O integrante anterior permanece segurando um pedaço do barbante, para que, ao final da dinâmica, a teia esteja formada. Na sequência, como encerramento da dinâmica, foi realizada uma síntese pela equipe de pesquisadores sobre a importância da coesão social, dos vínculos sociais estabelecidos e da união da população para melhor capacidade de resposta aos desastres. A teia representa esta união: a rede de vínculos e afetos existentes no território.

O outro método utilizado na oficina foi o Mapa Falado, que pode ser considerado uma representação gráfica da realidade a partir da leitura e oralidade dos participantes. O Mapa Falado pretende estimular a participação social, combinando conhecimento popular e informações técnicas. Para a aplicação do Mapa Falado, foi necessária uma base cartográfica em escala de detalhe (1:2.500), extraída de uma imagem de satélite e impressa em tamanho A3 (29,7 cm x 42 cm). Utilizou-se, também, material de escritório, como canetas coloridas, etiquetas adesivas e papel vegetal para forrar o mapa.

A fim de facilitar o alcance dos objetivos do trabalho de cartografia participativa por meio do Mapa Falado, os participantes/moradores foram divididos em dois grupos, que se reuniram em volta do mapa para realizar as seguintes atividades, divididas em seis etapas:

  1. localizar no mapa pontos de referência: associação, igreja, bar, etc.;

  2. localizar casas onde há pessoas vulneráveis: idosos, pessoas com deficiência;

  3. definir um local seguro para refúgio e justificar a escolha;

  4. sinalizar locais de interdição das vias durante os episódios de inundação e alagamento que inviabilizam a conexão do bairro com o restante da malha viária;

  5. desenhar as rotas de fuga até o refúgio (quais pontos por onde a comunidade costuma passar, quais são seguros, quais não são);

  6. desenhar as rotas alternativas e indicar locais onde seja necessário construir pontes para que as pessoas possam sair do bairro e/ou chegar até o refúgio.

Por sua vez, a dinâmica da Ciranda Mapeantes Mirins ocorreu durante toda a oficina. A Ciranda é um espaço dedicado às crianças, para acolhimento e aprendizado sobre educação ambiental e redução de riscos, e foi criada pela equipe da Unicamp que desenvolveu o PMRR com a finalidade de ser uma estratégia educacional e de lazer e, ao mesmo tempo, de promoção do cuidado infantil – consequentemente, de garantia de participação plena das pessoas cuidadoras (especialmente as mães) durante a oficina. A Ciranda foi conduzida por integrantes da equipe de pesquisadores e por representantes do poder público municipal.

O Quadro 1 sintetiza as técnicas e dinâmicas utilizadas na oficina de cartografia participativa.

Quadro 1
– Dinâmicas da Oficina de Cartografia

Resultados e discussão

A oficina de cartografia participativa (Figuras 3e 4), realizada no dia 29 de março de 2025, promoveu um amplo espaço de diálogo entre moradores do bairro Vila Sônia, técnicos especialistas, pesquisadores, representantes de secretarias municipais, agentes da Defesa Civil e representantes da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Para a realização das atividades, os participantes foram reunidos no salão paroquial da igreja católica do bairro – espaço indicado pela liderança local.

Figura 3
– Oficina de cartografia participativa realizada no dia 29 de março de 2025, no Bairro Vila Sônia, em Itaquaquecetuba/SP

Figura 4
– Oficina de cartografia participativa realizada no dia 29 de março de 2025, no Bairro Vila Sônia, e dinâmica da Teia da Resiliência Comunitária, em Itaquaquecetuba/SP

A oficina contou com a participação de 57 moradores, em sua maioria mulheres, além de um líder comunitário, que também é presidente da AABVS e representante do Nupdec local. Algumas moradoras levaram também seus filhos para participarem da Ciranda Mapeantes Mirins. A oficina foi aberta com a dinâmica nomeada de Teia da Resiliência Comunitária, cuja metodologia foi descrita anteriormente. A dinâmica da Teia permitiu o entrosamento entre a equipe técnica e os moradores, além de trazer à tona elementos passíveis de reflexão para a construção de uma governança participativa no que tange à GRD, à resiliência comunitária e à adaptação climática.

Os relatos durante a construção da teia foram marcantes, e ressaltam a necessidade de articulação entre os moradores do bairro e entre o poder público e os moradores, de modo que a população seja vista pelo corpo técnico municipal e pelos tomadores de decisão como parte importante do processo de construção de uma GRD democrática. O depoimento de uma moradora do bairro, uma senhora idosa, durante a dinâmica da teia traz uma síntese dos danos e impactos materiais e simbólicos sofridos durante os episódios de inundação e alagamento que se repetem anualmente.

Esse ano foi pior, minhas coisas acabaram tudo dentro de casa, fiquei deitada em uma [cama] beliche dentro da água. Eu tinha acabado de sair do hospital. Minhas coisas acabaram tudo, mas o que importa é a saúde, não ligo pra coisas materiais. Aí as pessoas perguntam: “Por que vêm morar aqui? Por que invadiram a privacidade do rio?” A gente veio morar aqui porque precisa, porque se eu pudesse eu morava em outro lugar, mais alto [...]. Estou aqui esperando não só fala, mas uma atitude. A gente não vive só de falatório, tem que ter ação. Eu falo com o pessoal, “como vocês querem melhoria no bairro se a população não ajuda, não se une, não cobra?!” A população tem que se unir! (moradora do bairro Vila Sônia, relato coletado durante a oficina)

A fala também destaca a importância da mobilização comunitária para o fortalecimento da resiliência do território, bem como a necessidade de uma tomada de decisão concreta por parte do poder público. Cabe destacar que quando a moradora, no relato supracitado, menciona estar cansada de reuniões que não culminam em ações concretas – como quando diz “a gente não vive só de falatório, tem que ter ação” –, ela se refere às esporádicas reuniões articuladas entre representantes da Prefeitura Municipal e os moradores, que têm como pauta a questão dos alagamentos e inundações que assolam o bairro há décadas.

Os desastres anuais que impactam a Vila Sônia representam uma cicatriz na história de Itaquaquecetuba e resulta em insatisfações e queixas por parte dos munícipes. Isto pode ser observado pela frequente veiculação, na mídia, de matérias que denunciam a situação do bairro em períodos chuvosos (Rodrigues e Oliveira, 2020; Tanida, 2019). Em vista disso, o território tem se tornado objeto de atenção por parte da agenda do poder executivo municipal. Ademais, há indicação, na Vila Sônia, de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) – instrumento de caráter executivo extrajudicial que possui como objetivo a recuperação do meio ambiente degradado e o condicionamento de situação de risco potencial a integridades ambientais. A existência de um TAC, cujo objeto é a Vila Sônia, também justifica a ocorrência de reuniões entre os moradores e a Prefeitura.

Contudo, cabe analisar se esse canal de diálogo entre população e tomadores de decisão se configura em: (a) formas de pseudoparticipação, uma vez que os participantes não obtêm nenhum benefício com sua “participação”; (b) formas de participação unidirecional, nas quais a participação é meramente simbólica, sem capacidade de influenciar realmente nas decisões; ou (c) formas efetivas de participação, quando ocorre maior influência das pessoas envolvidas no processo – como indicado por Arnstein (1969).

Não obstante a análise do teor dessas reuniões fugir ao escopo deste estudo, torna-se importante destacar esta lacuna de investigação, haja vista que essa situação pode dirimir a confiabilidade da população na efetividade do processo participativo conduzido por meio da oficina de cartografia participativa aqui apresentada – inserida no âmbito do PMRR. Além disso, esse cenário justifica a fala supracitada em que é mencionada a demanda por “mais ação e menos falatório”, já que a oficina pode ressoar nos moradores como mais um espaço pseudoparticipativo para dialogar sobre os problemas enfrentados – o que causa exaustão pela ausência de concretude na resolução desses problemas.

Nesse sentido, ressalta-se que essa oficina (Figura 5) possui caráter consultivo e se constitui na coleta de informações, por meio da população, para a construção de um mapa e de diretrizes de evacuação como medidas preventivas. Segundo Arnstein (1969), a partir do nível de consulta já se pode falar em processo participativo. Por meio da oficina, houve também o levantamento de demandas de melhorias no bairro que contribuiriam para a adoção de ações preventivas estratégicas na GRD, destacando a fragilidade da infraestrutura básica local (distribuição de água, acesso a esgotamento sanitário, coleta seletiva, sistema de microdrenagem, locomoção e segurança). O produto da oficina, portanto, corresponde a um mapa técnico-comunitário.

Figura 5
– Oficina de cartografia participativa realizada no dia 29 de março de 2025 – dinâmica do Mapa Falado – no Bairro Vila Sônia, em Itaquaquecetuba/SP

Cabe destacar, ainda, que processos somente consultivos estão na base da escada de participação social proposta por Arnstein (1969), não se configurando como participação plena. Não obstante, para que as soluções coproduzidas com a população nessa oficina sejam incorporadas nas políticas públicas municipais, faz-se necessário que o poder público assuma um compromisso com seu papel nessa execução – o que foge ao escopo da pesquisa e das responsabilidades atribuídas aos pesquisadores.

Como resultado da oficina de cartografia participativa, foi gerado um mapa temático de percepção de riscos hidrológicos, de locais seguros, de rotas/caminhos que a comunidade utiliza cotidianamente e de sugestões para a definição das rotas de evacuação. Também foi identificada a presença de habitantes com dificuldades de locomoção – todavia, é possível supor que houve uma sub-representação dessas pessoas durante a oficina (com a indicação pelos moradores de apenas uma residência). Por isso, foi feita a decisão metodológica de não a indicar no produto cartográfico para não incorrer em erros estratégicos na adoção de ações de enfrentamento ao risco.

Ademais, identifica-se como lacuna de pesquisa a necessidade de um levantamento sistemático dos moradores com necessidades especiais, a fim de aprimorar os planos preventivos de desastres. Tal levantamento seria de suma importância, haja vista o relato do líder comunitário e representante do Nupdec sobre um episódio em que uma moradora idosa e cadeirante foi resgatada de sua residência inundada com a água já alcançando sua cintura – impossibilitada de evacuar o imóvel sem auxílio da equipe de resgate devido à dificuldade de locomoção.

Em relação à mobilidade no bairro, os moradores apresentaram rotas/caminhos que a comunidade utiliza cotidianamente e discutiram sobre a possibilidade de usá-los em casos de emergência. Na Figura 6, é possível visualizar um dos mapas temáticos elaborados em conjunto com a comunidade durante a oficina. A Figura 7, por sua vez, apresenta a sistematização dos mapas produzidos durante a oficina em uma cartografia digital.

Figura 6
– Foto com o mapa resultado da oficina de cartografia participativa

Figura 7
– Cartografia técnico-comunitária de rotas de fuga, produto da oficina participativa. A setorização de riscos apresentada é fruto de dados secundários provenientes do PMRR

Outro aspecto destacado pelos moradores se refere aos pontos de alagamento da rua principal do bairro, a estrada Valter da Silva Costa – via que possibilita a conectividade da Vila Sônia com a malha viária da cidade. Embora esteja situada fora da setorização de risco de inundações realizada pelo PMRR, como pode ser observado na Figura 7, ela é severamente atingida por episódios de alagamento, mesmo quando não há extravasamento do rio durante as cheias. Em períodos de pluviosidade intensa, a via principal, que não possui sistema de microdrenagem e nem pavimentação, torna-se intransitável, o que dificulta o acesso ao bairro. A Figura 8 e a Figura 9 mostram a situação das vias durante os episódios de alagamento.

Figura 8
– Situação do bairro durante episódios de inundação e alagamento

Figura 9
– Passarela montada pelos moradores da Vila Sônia para transitar pelo bairro

Tal situação se torna um complicador para a gestão de desastres em eventos catastróficos – como aqueles vivenciados durante as chuvas de fevereiro de 2025, quando o bairro permaneceu alagado por 23 dias, com o nível da água atingindo quase um metro de altura. O bloqueio da via pela água inviabiliza o acesso de serviços urbanos e de saúde, como caminhões de coleta de lixo e ambulâncias. Segundo relatos dos moradores na oficina, durante eventos críticos de alagamento e inundação, os resíduos são coletados por meio de retroescavadeira – único veículo transitável pelas vias nesse período.

Outro ponto destacado pelos moradores se refere ao impacto socioambiental provocado pelo sítio urbano delimitado pela empresa de logística Tora Transportes Industriais, situada ao sul da estrada Valter da Silva Costa, indicada no mapa da Figura 7 como “cicatriz urbana”. Este é um conceito usado para descrever áreas ou espaços urbanos que carregam marcas visíveis e simbólicas deixadas pela história, pelo desenvolvimento e pelas transformações da cidade, especialmente aquelas que resultam em degradação física, social e cultural. São vestígios que indicam rupturas no tecido urbano.

A linha de trem da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que conecta Itaquaquecetuba à cidade de São Paulo, está situada ao sul da estrada Valter da Silva Costa, na divisa com o sítio urbano delimitado pela empresa logística. Em conjunto, a linha férrea e a área ocupada pela empresa configuram uma cicatriz urbana por descaracterizarem cultural e urbanisticamente a Vila Sônia e por restringirem a conectividade das ruas do bairro com a malha viária da cidade, já que sua interligação ocorre única e exclusivamente pela estrada Valter da Silva Costa – frequentemente bloqueada durante os alagamentos.

Como relatado pelos moradores, há uma demanda popular pela construção de uma ponte que conecte a estrada Valter da Silva Costa, na altura da rua Pirituba, à malha viária da cidade, local indicado no mapa da Figura 7, que se encontra em uma área situada fora da setorização de risco indicada pelo PMRR. Por meio dessa ponte, que atravessaria o sítio da empresa logística e a linha férrea, seria possível o trânsito de veículos entre a Vila Sônia e o restante da cidade, viabilizando, também, o acesso parcial de serviços urbanos ao bairro, como coleta de lixo e ambulâncias.

Houve, também, relatos sobre a falta de segurança na passarela de pedestres que conecta a estrada Valter da Silva Costa à avenida Eldorado e que dá acesso à malha viária da cidade. Segundo os moradores, a ausência ou insuficiência de iluminação pública no local, que permanece escuro durante a noite, inibe a circulação de pedestres, sobretudo de mulheres e crianças, em razão da insegurança e do medo da violência. Em situações de desastre, a carência de iluminação nas vias agrava o problema, pois dificulta a evacuação das pessoas e o direcionamento a locais seguros.

A construção de propostas concretas, como a sugestão de uma ponte e de melhorias na iluminação da passarela, bem como a definição técnico-comunitária das rotas de evacuação, reforça a importância da institucionalização desses processos participativos. Assim, a participação social foi concebida, nesta pesquisa, como parte de um direito democrático, contribuindo para a construção de soluções mais justas, inclusivas e sustentáveis para a Vila Sônia. Não obstante, cabe destacar os limites da ciência na concretização das soluções propostas, haja vista que este é um papel que cabe ao poder público desempenhar.

É possível afirmar que a realização da oficina de cartografia participativa esteve em consonância com as oito chaves propostas por Reed (2008) para favorecer processos participativos efetivos. A introdução dos moradores desde as etapas iniciais – em março de 2024, durante o início do mapeamento de riscos hidrológicos pelo PMRR –, culminando na oficina de cartografia de rotas de evacuação aqui apresentada, permitiu a construção de um espaço pautado no empoderamento, na aprendizagem coletiva e no intercâmbio de saberes, garantindo que os participantes tivessem voz ativa na identificação de riscos e na proposição de soluções.

A clareza dos objetivos desde o início da oficina, aliada à adaptação dos métodos ao contexto socioterritorial da Vila Sônia – marcado por vulnerabilidades socioeconômicas, ambientais e institucionais –, fortaleceu o envolvimento da comunidade e a legitimidade dos resultados alcançados. A presença de mediadores experientes, a integração entre saberes locais e conhecimentos técnicos e a sistematização das informações em mapas digitais demonstram o equilíbrio entre participação e rigor científico.

Por fim, cabe explicitar que a realização da Ciranda Mapeantes Mirins (Figura 10) se revelou uma estratégia fundamental para assegurar a plena participação das pessoas cuidadoras, em especial das mulheres, nos processos de GRD. Conforme demonstrado por estudos que evidenciam a sobreposição de desigualdades de gênero, raça e classe, as mulheres – particularmente aquelas em situação de vulnerabilidade socioeconômica – são responsabilizadas de forma desproporcional pelo trabalho de cuidados, o que limita sua inserção em espaços de decisão e reforça sua marginalização na esfera pública (Gantus-Oliveira, 2024).

Figura 10
– Ciranda Mapeantes Mirins

Ao disponibilizar um espaço educativo e de acolhimento infantil, a Ciranda não somente possibilita a presença efetiva dessas mulheres nas atividades de prevenção e planejamento comunitário, como também contribui para tensionar a lógica patriarcal que naturaliza sua posição restrita ao âmbito doméstico. Nesse sentido, a Ciranda opera como prática interseccional de inclusão e justiça social, permitindo que mulheres sejam reconhecidas não como sujeitos vulnerabilizados, mas como protagonistas e agentes centrais na construção de territórios mais resilientes e equitativos.

Considerações finais

A experiência de cartografia participativa no bairro Vila Sônia evidenciou o potencial democrático de processos participativos na construção de estratégias de GRD em territórios periféricos. Ao reunir diferentes atores – comunidade, poder público, academia e instituições locais – foi possível identificar as rotas de evacuação preferenciais e seguras e produzir um diagnóstico coletivo das fragilidades urbanas e das demandas da população.

A mobilização comunitária demonstrada durante a oficina reflete o desejo por mudanças concretas e aponta a importância de reconhecer a participação popular como um direito, e não como concessão. Assim, entre os problemas mapeados durante a oficina – e que se constituem como direitos preconizados pela Constituição Federal de 1988 –, destacam-se: o bloqueio das vias por conta dos alagamentos; a insegurança na mobilidade; a exposição a doenças relacionadas aos desastres hidrológicos e às precariedades sanitárias; e a ausência de diretrizes institucionalizadas para a evacuação da população em eventos extremos.

Como soluções relacionadas aos problemas elencados, sugere-se: a construção de uma ponte que conecte a via principal do bairro à malha viária da cidade, permitindo o trânsito de veículos e serviços urbanos; a melhoria e manutenção da rede de iluminação pública; a construção e melhoria do sistema de microdrenagem pluvial e de saneamento básico, o que reduziria consideravelmente os impactos dos alagamentos e a vulnerabilidade da população exposta; a definição das diretrizes para evacuação, a partir do fornecimento de suprimentos básicos (inclusive de resgate) para o refúgio improvisado na igreja católica do bairro, da fixação de placas de sinalização indicando o trajeto para evacuação até o local seguro e da articulação de estratégias oficiais de comunicação.

Em síntese, a cartografia participativa possibilitou: (1) agregar informações mais representativas e precisas sobre as necessidades, prioridades e capacidades da população local; (2) adaptar o Plano Preventivo de Defesa Civil (PPDC) às condições locais, de forma que os recursos possam ser empregados de modo mais eficiente; (3) levantar informação técnica local de maneira menos custosa; (4) proporcionar aos cidadãos oportunidade para influenciar e ter um impacto sobre os processos decisórios; (5) empoderar os cidadãos; (6) reforçar identidades coletivas; (7) gerar confiança do público no processo.

O mapa técnico-comunitário resultante transcende sua função de produto, tornando-se um instrumento de articulação política e social capaz de impulsionar ações preventivas para a redução dos impactos causados por desastres hidrológicos, além de fortalecer o vínculo entre saberes técnico-comunitários e técnico-científicos. Entretanto, para que os efeitos dessa iniciativa não se limitem ao campo simbólico, é necessário que o poder público assuma o compromisso com a institucionalização das propostas construídas, garantindo a continuidade e efetividade das ações.

Além dos avanços alcançados, a experiência da cartografia participativa na Vila Sônia dialoga diretamente com o panorama mais amplo das periferias urbanas brasileiras como territórios onde as desigualdades estruturais e racializadas se expressam e, ao mesmo tempo, onde se manifesta uma potência política singular. Esse processo coletivo de cartografia e mobilização comunitária evidencia que a construção do direito à cidade e aos territórios saudáveis e sustentáveis perpassa não somente a reivindicação de melhorias infraestruturais, mas também a afirmação do protagonismo periférico na definição e gestão das políticas públicas. Desse modo, a experiência aqui apresentada reforça a importância de olhar para as periferias não apenas como espaços de vulnerabilidade, mas também como territórios de potências políticas que, em suas múltiplas expressões, desafiam os modelos tradicionais de gestão urbana e abrem caminhos para a ampliação da democracia participativa.

Nota de agradecimento

Os autores agradecem à equipe da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) responsável pelo desenvolvimento do Plano Municipal de Redução de Riscos de Itaquaquecetuba, coordenada pelo professor Jefferson de Lima Picanço. São eles(as): Alexandra Martins Silva, Ana Elisa Silva de Abreu, Ana Paula Leal Pinheiro Cruz, Carolina de Souza Oliveira, Débora Piai de Assis, Jefferson de Lima Picanço, Julia Vieira Santo, Luiz Antonio Bongiovanni, Luiz Henrique Colato Toni, Mateus Hcristos Leptokarydis e Rafaela Vital Santana Araújo. Os autores também agradecem às equipes da Prefeitura Municipal de Itaquaquecetuba, da Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Brasil pelo financiamento 309518/2025-3. Um agradecimento especial aos moradores da Vila Sônia e ao presidente da associação do bairro, Michael Oliveira, pela mobilização comunitária.

Referências

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Notas

  • 1
    Considera-se, para tanto, os dados disponíveis até o desenvolvimento desta pesquisa, em 16 de julho de 2025.
  • 2
    O Marco de Sendai é um acordo global adotado em 2015 que orienta a prevenção e redução dos riscos de desastres por meio de medidas integradas e inclusivas para fortalecer a resiliência das comunidades. Seu objetivo principal é minimizar perdas em vidas, saúde, meios de subsistência e ativos econômicos, sociais e culturais até 2030 (UNDRR, 2015).
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editores:
    Lucia Bógus
    Luiz César de Queiroz Ribeiro

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    2 Out 2025
  • Aceito
    17 Abr 2026
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