Paixão, criação, ética e cientificidade nas pesquisas compreensivas

Passion, creation, ethics and science in comprehensive research

Pasión, creación, ética y cientificidad en las investigaciones comprensivas

Luiz Fernando de Oliveira Sobre o autor
KAUFMANN. Jean-Claude. . A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis: Vozes, Maceió: Edufal. 2013

Alimentar a paixão do pesquisador pelo trabalho de campo e pelo processo da pesquisa social como um todo é o que consegue Jean-Claude Kaufmann______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013. com seu livro A entrevista compreensiva, o qual, apesar do que propõe seu subtítulo, chega a ser bem mais do que um guia para a pesquisa de campo.

A realização de pesquisas em Educação e, de modo geral, em Ciências Sociais é árdua e trabalhosa. A ida a campo costuma ser angustiante e as exigências burocráticas são vividas com certa tensão pelo pesquisador, sobretudo no caso daqueles que trabalham com sujeitos, por meio de entrevistas, observações ou outras metodologias de coleta de dados. A aridez da escrita de determinados textos do referencial teórico, associada a certos formalismos durante as diversas partes do desenvolvimento da pesquisa, dá o arremate que pode chegar a desestimular os interessados em compreender com profundidade os processos sociais. Porém, é necessário resistir ao eventual desânimo e cultivar o lado prazeroso, belo e poético da elaboração e realização de uma pesquisa, sem, contudo, que se perca do horizonte do pesquisador a importância do rigor e da cientificidade exigidos por esses processos.

Embasado em sua vasta experiência de pesquisa, sobretudo em Kaufmann (1992______. Corps de femmes, regards d'hommes, sociologie des seins nus. Paris: Nathan, 1995., 1995), bem como em um amplo referencial bibliográfico, com o qual estabelece intenso diálogo, o sociólogo francês discute, na obra aqui apresentada, questões cruciais do cotidiano de todos os que se aventuram a compreender profundamente a ótica dos sujeitos acerca de problemas e hipóteses levantados pelas pesquisas em Ciências Sociais, e reflete sobre temas e problemas que permeiam a prática dos iniciantes, mas também dos já experientes pesquisadores da vida humana em sociedade.

O livro é composto por cinco capítulos, cada um deles dedicado a uma discussão específica, embora sem que se perca a geral e ampla visão sobre a pesquisa social. Assim, a construção do objeto, a empatia necessária entre pesquisador e pesquisado na situação de entrevista, o estatuto do material empírico, a elaboração teórica e a redação do trabalho são os eixos a partir dos quais Kaufmann desenvolve suas reflexões, numa permanente busca por instigar a criatividade do leitor-pesquisador. Cada capítulo é subdividido em seções e subseções curtas, forma de estruturação que não compromete a profundidade conceitual e a densidade teórica do livro.

O capítulo I, intitulado "A inversão do modo de construção do objeto", apresenta a problematização dos modelos teóricos já sedimentados na pesquisa social. Nas palavras do autor, "mesmo o modelo teórico mais perfeito tem suas falhas, principalmente quando ele é confrontado aos dados" (KAUFMANN, 2013______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013., p. 51), o que demanda do pesquisador a atenta e sensível abertura ao saber nativo, à semântica do discurso dos entrevistados aos seus horizontes de compreensão, a partir dos quais emergem hipóteses sempre desafiadoras, que necessitam de objetivação, de sua constituição em problema e de formulação teórica.

A partir das reflexões propostas pelo autor no capítulo I, é possível pensar na arbitrariedade e até mesmo na desonestidade, não raras nas pesquisas em Ciências Sociais, que consistem na tentação constante à qual os pesquisadores são expostos, de enquadrar pragmaticamente o seu objeto a determinados referenciais teóricos. Esse encaixotamento do objeto, essa sua redução a um espelho de uma teoria cristalizada e a seleção tendenciosa de pontos capazes de "comprovar" o que, na realidade, o campo desmente representam atitudes não científicas e antiéticas, devendo ser, portanto, descartadas da prática dos pesquisadores que se pretendem autênticos. Obviamente, tudo isso demanda maior volume de trabalho, assim como uma permeabilidade ao novo - sobretudo nos casos em que o novo ao qual se deve acolher contraria as expectativas teóricas e as convicções político-ideológicas do pesquisador -, mas poderá ter como resultado uma significativa contribuição científica. O que não se pode perder de vista é o fato de a validade de um modelo teórico ligar-se menos a engessamentos conceituais do que à "coerência dos encadeamentos, ao rigor da ilustração de uma hipótese, à precisão de análise de um contexto, isto é, à sutileza das articulações entre teoria e observação" (KAUFMANN, 2013______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013., p. 57).

No capítulo II, "Começar o trabalho: rapidez, flexibilidade e empatia", Kaufmann aborda os problemas relacionados à delimitação temática e à construção do objeto das pesquisas em Ciências Sociais, com todas as implicações que delas emergem. Atento à possibilidade de não confirmação de uma hipótese no momento da ida a campo e quando da análise dos dados, o autor traz um alento a todos os que sofrem com a crença (ou com o preconceito) de que uma produção científica autêntica não possa surgir de hipóteses enfraquecidas ou que não se confirmam. É precisamente nesses casos que a criatividade científica pode propiciar mudanças de rumo na direção do inesperado, em que habitam a originalidade e o ineditismo capazes de contribuir com o campo de estudos para além da mera formatação do objeto pelos moldes das teorias consagradas e sedimentadas nos espaços de luta acadêmica.

Em cada linha de sua obra, Kaufmann procura criticar o academicismo, fugir a qualquer pretensão normativa - o que é comum em determinados manuais - e explorar a flexibilidade e a inventividade das quais carece toda e qualquer pesquisa, mas especialmente aquelas que se valem da entrevista compreensiva como método de coleta e produção de dados. A própria heterodoxia terminológica do autor (que não se prende a jargões pomposos e quase sempre vazios) e o seu uso constante de metáforas, analogias e coloquialismos ao longo do livro ajudam a encorajar os estudiosos que intentam buscar um estilo de escrita criteriosa, mas, sobretudo, bela e palatável - arrisco-me aqui no uso deste segundo adjetivo, nada "técnico", por assim dizer.

Na continuação de seu percurso (démarche) pelo universo da pesquisa social pautada na entrevista compreensiva, Kaufmann traz, como objeto do terceiro capítulo de seu livro, cujo título é "O estatuto do material", uma indagação que se multiplica em tantas outras. Tal indagação é por que as pessoas falam? Mais do que isso: como falam, de onde falam, o que escondem ao falar e o que dizem por meio de hesitações, silêncios, gestos? Como simbolizam o mundo? De que modos o significam? De que maneira as sutilezas advindas da posição social condicionam a fala dos informantes? Trabalhos que problematizam estas indagações não são raros. A título de exemplo, pode-se mencionar o importante livro de Flick (2005FLICK, U. Métodos qualitativos na investigação científica. Tradução de Artur M. Parreira. Lisboa: Monitor, 2005.), que aborda com propriedade diversas metodologias qualitativas de investigação científica. A originalidade de Kaufmann, porém, reside especificamente na poesia de seu trabalho e no prazer quase literário que sua leitura é capaz de proporcionar.

Voltando aos temas abordados pelo autor, é interessante pensar sobre como os entrevistados costumam reagir ao serem convidados a colaborar com uma pesquisa. Não raro eles consideram uma banalidade o que o pesquisador deseja saber deles, embora nem sempre verbalizem isso, mas demonstram-no pelo olhar, pela insegurança, pela dúvida discreta e, por vezes, como uma pergunta: "o que a minha vida tem de importante para a sua pesquisa?" É desafiador conduzir uma entrevista compreensiva, especialmente porque ela exige, além da já mencionada abertura ao saber do outro, a construção de uma relação empática, o que demanda, inclusive, uma capacidade de envolvimento e de sedução (outro termo bastante heterodoxo) da parte do entrevistador. Tais habilidades tendem a gerar, a partir da desconfiança do entrevistado, uma entrega progressiva, por meio da qual, de pouco em pouco, ele começa a construir e a reconstruir por meio de palavras suas experiências, opiniões, preconceitos, valores, em suma: sua vida. E tudo isso pode ser desencadeado pelo simples fato de o informante perceber na suposta desimportância de seu existir uma grandeza que interessa àquele que o questiona, que o instiga a enfrentar, por meio da memória e da oralidade, seus medos, suas dores, suas alegrias.

O tema central do capítulo IV do livro de Kaufmann - "A fabricação da teoria" - traz uma ênfase na proposta de inversão da construção das hipóteses. Conforme o autor, todo o esforço despendido em uma pesquisa compreensiva deve se voltar para o constante exercício de renúncia das hipóteses no intuito de encontrar aquelas inerentes às categorias nativas de pensamento (KAUFMANN, 2013______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013., p. 122). Sem abandonar a cientificidade mas incorporando a ela todo o seu tom poético, o sociólogo traduz a complexidade do universo da pesquisa social e afirma que, à medida "que o pesquisador progride na definição de modelos", sobretudo daqueles que emergem do acolhimento do saber nativo, "ele acumula novas chaves de leitura daquilo que escuta: a cada dia seu ouvido fica mais atento e sua investigação avança" (KAUFMANN, 2013______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013., p. 119).

Por fim, Kaufmann discute as fases finais do processo da pesquisa compreensiva no capítulo V, "Terminar o trabalho". Entre os assuntos de maior relevância, podem-se destacar reflexões acerca dos fichamentos das entrevistas, da estrutura textual e da própria montagem e da apresentação final do trabalho. O autor problematiza igualmente - e com seu característico estilo figurativo - a necessária honestidade do pesquisador na construção de um texto rigoroso, leve, belo e que costuma destinar-se a uma "dupla audiência", isto é, à leitura do "homem comum, conhecedor ou curioso do fato concreto", que costuma ler "as histórias e as descrições factuais, sobrevoando as ideias, mergulhando aqui e acolá em uma que lhe seja mais próxima", bem como ao olhar mais técnico e criterioso do "homem científico", que tanto "pode tomar o texto que se valeu da entrevista compreensiva como um texto agradável, até mesmo de relaxamento, fazendo uma leitura próxima daquela do homem comum", como "pode também lê-lo sob o ângulo de suas contribuições teóricas" (KAUFMANN, 2013______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013., p. 180).

A escrita científica e acadêmica costuma ser marcada pela aridez sintática e pelo jargão técnico, que criam uma ilusão de cientificidade. Nem sempre a simplicidade é bem vista no campo de disputa intelectual, sendo que a leveza na escrita pode ser erroneamente percebida e estigmatizada como banalidade ou como um discurso do senso comum. Uma das propriedades mais relevantes do livro de Kaufmann consiste na desmitificação da ideia de que os textos científicos mais "difíceis" são os "melhores". Ao contrário disso, o autor defende uma postura nova em relação ao conhecimento científico, capaz de dar o devido valor aos aspectos artesanais de todas as fases da pesquisa em Ciências Sociais, desde a elaboração do projeto até a apresentação do texto final. Segundo o autor, o "ideal seria poder redigir uma pesquisa como um romance clássico, cujo fio não seria uma história, mas a sequência dos argumentos, perfeitamente interligada e cheia de surpresas e sobressaltos" (KAUFMANN, 2013______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013., p. 170-171).

O texto de Kaufmann não é meramente manualístico. A proposta não é a de apresentar ao leitor um manual prático no modelo "como realizar uma entrevista compreensiva" ou "como desenvolver um trabalho de campo", até porque as pesquisas em Ciências Sociais, sobretudo as que partem da oralidade, da narrativa, das histórias de vida e da memória, são necessariamente vivas, escapam a fórmulas pretensamente pré-fabricadas e exigem envolvimento, sensibilidade, sutileza, delicadeza, perspicácia e, acima de tudo, encantamento da parte do pesquisador. Por essa razão, Kaufmann apresenta uma obra profundamente reflexiva e autorreflexiva, crítica e autocrítica, provocadora e atenta ao inacabamento do modelo de entrevista e de pesquisa que se propõe analisar. Do mesmo modo, longe de ser "panfletário", o livro de Kaufmann pode ser lido como uma dura crítica aos pedantismos do academicismo clássico e como uma apologia do trabalho criativo e apaixonado.

Como complemento, Kaufmann apresenta nas "Referências" uma subseção intitulada "Obras essenciais", que traz algumas indicações de leituras com as quais dialoga no decorrer de seu texto. Além da indicação das obras e dos textos, o autor escreve uma breve resenha de cada uma e cada um deles, justificando sua pertinência. As sugestões de leitura vão desde obras relativamente antigas, mas ainda relevantes - como os trabalhos de Geertz (1986GEERTZ, C. Du point de vue de l'indigène: sur la nature de la compréhension anthropologique. Paris: PUF, 1986.), Michelat (1975MICHELAT, G. Sur l'utilisation de l'entretien non directif em sociologie. Revue Française de Sociologia, v. 16, n. 2, p. 229-247, 1975.) e Mills (1967MILLS, W. L'imagination sociologique. Paris: Maspero, 1967.) -, até as mais atuais - como o estudo de Glaser e Strauss (2010GLASER, B.; STRAUSS, A. La découvert de la théorie ancrée. Paris: Armand Colin, 2010.) -, igualmente interessantes a todos os que têm por finalidade o aperfeiçoamento de suas técnicas de pesquisa, bem como a construção de novas metodologias e formas de análise e escrita.

Conforme o próprio autor, a "metodologia só pode ser transmitida como um saber explícito em pequenas doses: o melhor tratado sempre fornecerá apenas alguns instrumentos. Nada substitui a experiência" (KAUFMANN, 2013______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013., p. 183). Portanto, se alguém buscar no livro aqui resenhado algum tipo de solução prática ou utilitária para os dilemas do seu trabalho de pesquisa, esta pessoa terá suas expectativas frustradas. Mas as que, de fato, desejam construir uma pesquisa criativa, corajosa, reflexiva, eticamente respeitosa, densa, mas ao mesmo tempo leve e, sobretudo, bela - e o autor insiste no aspecto beleza - terão, no mínimo, um instrumento importante para nortear os caminhos que deverão percorrer, da concepção de seu trabalho até a sua apresentação aos pares e mesmo aos leitores não iniciados, por assim dizer.

  • FLICK, U. Métodos qualitativos na investigação científica. Tradução de Artur M. Parreira. Lisboa: Monitor, 2005.
  • GEERTZ, C. Du point de vue de l'indigène: sur la nature de la compréhension anthropologique. Paris: PUF, 1986.
  • GLASER, B.; STRAUSS, A. La découvert de la théorie ancrée. Paris: Armand Colin, 2010.
  • KAUFMANN, J.-C. La trame conjugale, analyse du couple par son linge. Paris: Nathan, 1992.
  • ______. Corps de femmes, regards d'hommes, sociologie des seins nus. Paris: Nathan, 1995.
  • ______. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió: Edufal, 2013.
  • MICHELAT, G. Sur l'utilisation de l'entretien non directif em sociologie. Revue Française de Sociologia, v. 16, n. 2, p. 229-247, 1975.
  • MILLS, W. L'imagination sociologique. Paris: Maspero, 1967.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Oct-Dec 2015

Histórico

  • Recebido
    Jul 2015
  • Aceito
    Set 2015
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