Resumo
Neste texto, abordarei tanto o impacto do texto “Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero” quanto o contexto específico de emergência e efervescência do então incipiente ativismo de pessoas trans não binárias no Brasil, relacionando-o com a produção de um campo transfeminista. Entrecruzo esse contexto com minhas próprias experiências pessoais, na medida em que também passei a fazer parte desse campo naquele momento, e foi nele que me constitui enquanto uma pessoa trans não binária, há pouco mais de uma década. O presente texto é, simultaneamente, um relato de experiência e um esforço de reflexão crítica a respeito desse momento de produção de um campo transfeminista e de seus impactos na contemporaneidade.
Pessoas trans não binárias; Transfeminismo; Ativismos; Linguagem
Abstract
In this text, I will address both the impact of the text “Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero” and the specific context of the emergence and effervescence of the then incipient activism of non-binary trans people in Brazil, relating it to the production of a transfeminist field. I intertwine this context with my own personal experiences, insofar as I also became part of this field at that time, and it was in this context that I constituted myself as a non-binary trans person just over a decade ago. This text is both an account of my experience and an endeavour to critically reflect on this moment in the production of a transfeminist field and its impact on contemporaneity.
Non-binary trans people; Transfeminism; Activisms; Language
Pronomes, essas unidades de linguagem tão potentes em termos de significação, tão significativas no léxico contemporâneo (e por um bom motivo). Os pronomes são como pequenos recipientes de verificação de que as outras pessoas estão pegando o que você está colocando. E são pedidos tímidos de outres para que digam sim, eu vejo você, e mesmo que você seja imaginade à semelhança de algo que ainda não vi, vejo que ainda não te vi, mas ainda assim, agora, vou te amar (Bey, 2021:238, tradução minha)1.
Na última década, pessoas trans têm trazido a questão da linguagem para o centro do debate público. Se antes era raro que se perguntasse a alguém sobre como essa pessoa preferia ser chamada – se no feminino, no masculino ou sem referência a gênero –, hoje essa prática tem se tornado cada vez mais comum, seja nas universidades, nas escolas, nos ambientes de trabalho e mesmo entre algumas famílias. Os pronomes passam a ter mais importância, se reconfigurando enquanto tecnologias de reconhecimento e de cuidado.
Em 2013, Juno Cremonini Takano2 escreveria o texto intitulado Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero. Nele, a autora defende uma mudança na forma como nos relacionamos com a linguagem, a partir da experiência das pessoas trans não binárias, no âmbito de um momento de emergência dos debates transfeministas no Brasil. Neste texto, abordarei tanto seus impactos quanto o contexto específico de emergência e efervescência do então incipiente ativismo de pessoas trans não binárias no país, relacionando-o com a produção de um campo transfeminista.
Entrecruzo esse contexto com minhas próprias experiências pessoais, na medida em que também passei a fazer parte desse campo naquele momento e foi nele que me constitui enquanto uma pessoa trans não binária, há pouco mais de uma década. O presente texto é, simultaneamente, um relato de experiência e um esforço de reflexão crítica a respeito desse momento de produção de um campo transfeminista e seus impactos na contemporaneidade. Sua publicação vem acompanhada de uma revisão crítica do texto de Juno, feita por ela, agora renomeado Deixando o X para trás na linguagem não binária.
Transfeminismo, internet e não binariedade
Para Jaqueline Gomes de Jesus (2014), professora, pesquisadora e ativista transfeminista brasileira, o transfeminismo consiste numa
linha de pensamento e prática que rediscute a subordinação morfológica do gênero (como construção social) ao sexo (como biologia), condicionada por processos históricos, criticando-a como uma prática social que tem servido como justificativa para a opressão sobre quaisquer pessoas cujos corpos não estão conformes à norma binária homem/pênis e mulher/vagina, incluindo-se aí: homens e mulheres transgênero; mulheres cisgênero histerectornizadas e/ou mastectomizadas; homens cisgênero orquiectomizados e/ou ‘emasculados’; e casais heterossexuais com práticas e papéis afetivossexuais divergentes dos tradicionalmente atribuídos, entre outras pessoas (Jesus, 2014:5).
Enquanto corrente de pensamento, o feminismo trans ou transfeminismo surge em meados dos anos 1980, com a participação ativa de pessoas trans enquanto autories de textos e livros, especialmente no contexto norte-americano. Raul Nunes de Oliveira (2017) destaca as influências que Sandy Stone, Susan Stryker, Emi Koyama, Kate Bornstein, Julia Serano e Patrick Califia tiveram no desenvolvimento dessa nova linhagem do pensamento feminista, com o advento, por exemplo, da noção de cisgeneridade3. Essa corrente teórica se preocupava, ainda, em produzir uma oposição robusta às posições genitalistas e transfóbicas de parte do feminismo radical estadunidense, que se proliferava desde o início dos anos 1970 no bojo das guerras sexuais feministas (as sex wars) que opunham feministas antipornografia, de um lado, e feministas sexo-positivas (ou pró-sexo), de outro (Rubin, 2011). As posições de feministas radicais transfóbicas ou trans-excludentes ganharam coro com a publicação do livro The Transexual Empire: The Making of the She-Male, de Janice Raymond, em 1979. O livro teve repercussões sociais e políticas profundas para as pessoas trans, na medida em que associava a transgeneridade a um suposto complexo industrial médico-psiquiátrico que promoveria cirurgias de redesignação sexual. Mais do que isso, Raymond equiparava a transição de gênero ao estupro, porque reduziria a “real” forma feminina a um artefato, supostamente apropriando-se de “sua” corporalidade4.
Quase dez anos mais tarde, em 1987, a teórica e ativista transfeminista Sandy Stone, que foi pessoalmente atacada por Raymond em seu livro, produziria a primeira versão de seu influente ensaio The Empire Strikes Back: A Posttransexual Manifesto, apresentado numa conferência em 1988. Nele, Stone (2014) questiona a ideia de Raymond de que transexuais seriam responsáveis por semear a divisão entre as mulheres, ao defender a subversão do que classifica como os “antigos discursos binários” sobre o gênero:
Sugiro que comecemos levando a acusação de Raymond de que “transexuais dividem as mulheres” além de si mesma, e a transformemos em uma força produtiva para dividir multiplicativamente os antigos discursos binários de gênero — assim como o próprio discurso monista de Raymond. Para dar destaque às práticas de inscrição e leitura que fazem parte dessa invocação deliberada da dissonância, sugiro constituir transexuais não como uma classe ou um problemático “terceiro gênero” [gender], mas sim como um gênero [genre] — um conjunto de textos corporificados cujo potencial para a disrupção produtiva das sexualidades estruturadas e dos espectros de desejo ainda precisa ser explorado (Stone, 2014:14, tradução minha, itálico no original)5.
Enquanto conjunto de teorias e práticas, portanto, o transfeminismo foi produzido inicialmente enquanto uma resposta clara das pessoas trans às posturas genitalistas e biologizantes, quer fosse de grupos conservadores de direita, que, por meio da mobilização de uma série de pânicos morais (Weeks, 1985; Rubin, 2011; Jesus; Alves, 2012), visava unir forças contra as minorias sexuais e de gênero e suas pautas, quer fosse contra as feministas radicais transfóbicas, que se mobilizavam intensamente para minar quaisquer conquistas de direitos às pessoas trans (Bagagli, 2019), e mesmo para defender seu extermínio.
O pensamento transfeminista emerge, portanto, da necessidade de pessoas trans de se organizarem politicamente e de produzirem reflexões a respeito de suas próprias experiências individuais e coletivas de corporalidade, cuidado, subversão, violência e exclusão. Já naquele momento inicial, havia um diálogo com o feminismo negro, em especial por meio da ideia da coprodução da opressão e da violência por diferentes marcadores sociais em articulação6 (Jesus, 2014) e da atividade política de pessoas trans negras nos movimentos sociais estadunidenses, tanto nas décadas anteriores7 como naquele contexto. O contato com o construcionismo e com o pós-estruturalismo também é uma de suas marcas fundamentais8.
Coacci (2014) aponta para uma dificuldade em precisar o momento histórico do surgimento do pensamento transfeminista no Brasil, mas situa sua emergência entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000. É importante salientar, no entanto, que já havia movimentos sociais organizados de pessoas trans no Brasil desde meados dos anos 19909, com suas próprias dinâmicas e questões, com um foco especial no enfrentamento à violência policial, que há décadas atingia as travestis, e ao início da epidemia de HIV/Aids. Esses movimentos sociais se adensaram ao longo dos anos, constituindo seu próprio percurso na relação com setores e agentes do Estado e com outros movimentos sociais10. Tudo indica que o contato dos ativismos trans no Brasil com o pensamento transfeminista estadunidense, já num momento mais maduro dos movimentos sociais brasileiros, tenha ocorrido principalmente por meio da internet. Aline Freitas, ativista midialivrista e programadora, foi responsável por fundar o primeiro blogue sobre transfeminismo no país11. O blogue não existe mais, e os registros a respeito dele são escassos (Oliveira, 2017). Num texto seu de 2005, intitulado Ensaio de construção do pensamento transfeminista, publicado no site do Centro de Mídia Independente (CMI) e recuperado por meio da plataforma Internet Archive, Aline Freitas argumenta:
Nosso papel histórico deve ser construído por nós mesmxs. O transfeminismo é a exigência ao direito universal pela auto-determinação, pela auto-definição, pela auto-identidade, pela livre orientação sexual e pela livre expressão de gênero. Não precisamos de autorizações ou concessões para sermos mulheres ou homens. Não precisamos de aprovações em assembléias para sermos feministas. O transfeminismo é a auto-expressão de homens e mulheres trans e cissexuais. O transfeminismo é a auto-expressão das pessoas andrógenas em seu legítimo direito de não serem nem homens nem mulheres. Propõe o fim da mutilação genital das pessoas intersexuais e luta pela autonomia corporal de todos os seres humanos (Freitas, 2005:s.p.).
Naquele pequeno ensaio, já estava presente o embrião que se transformaria, anos mais tarde, no transfeminismo brasileiro. As relações entre essa corrente teórica e a tecnologia, aliás, sempre foram intensas – também no caso estadunidense, grande parte das pessoas ativistas mantinham blogues, eram programadoras, promoviam a cultura livre12 ou estavam envolvidas com o movimento de software livre. Como aponta Jesus (2014), o pensamento transfeminista brasileiro floresceu na internet e, por meio dela, num ecossistema de blogues e de plataformas de redes sociais como o Tumblr, o Twitter e o Facebook, se disseminou.
Um ponto de inflexão importante nesse processo que narro aqui foi a fundação do site Transfeminismo.com 13, pela ativista e pesquisadora Hailey Kaas, em 2011. Nele, tanto ela como outras ativistas, dentre as quais podemos mencionar Beatriz Bagagli, Viviane Vergueiro e Luc Rizzaro, publicavam textos que debatiam conceitos, problemáticas e preocupações coletivas, à luz do pensamento transfeminista. Não é possível dissociar desse contexto e desse movimento o papel que as “comunidades virtuais”14 tiveram, quer seja na consolidação do próprio pensamento transfeminista no caso brasileiro, quer seja na aproximação de pessoas muito similares e/ou diferentes entre si e na produção de identidades, sujeitos e práticas. Houve ao menos dois grupos no Facebook vinculados ao site Transfeminismo.com – o último, denominado Transfeminismo <3, foi criado por Hailey em 2015 (Coacci, 2014; Oliveira, 2017).
Com isso em mente, é importante frisar que, apesar do meu foco neste texto ser um determinado recorte do transfeminismo e o então incipiente ativismo não binário, tanto ativistas transfeministas como ativistas LGBTIA+, de forma mais ampla, se valiam dessas “comunidades virtuais” como forma de engajar pessoas no ativismo, em discussões e em leituras a respeito dessas temáticas emergentes15. Esses espaços estavam longe de ser harmoniosos, entretanto, e eram permeados de dissensos e de conflitos graves entre ativistas do mesmo campo – afinal, ali era, também, o espaço da treta (Bulgarelli, 2018). As tretas consistiam, simultaneamente e articuladas a outras técnicas, em estratégias de engajamento, de produção de um campo transfeminista e de sujeitos16.
A marca distintiva desse momento de efervescência – que se intensifica em 2011 e se estende pelo menos até 2015 – foi o uso das plataformas de redes sociais, da tecnologia e das “comunidades virtuais” como pontos nodais da constituição de uma tradição teórica transfeminista e de sujeitos transfeministas – como argumentam Oliveira (2017) e Nascimento (2021). Uma parte importante das pessoas que participaram da constituição desse campo, em especial mulheres trans e travestis, mas também homens trans e pessoas trans não binárias, tiveram sua formação intelectual atravessada, ao menos parcialmente, pelo transfeminismo naquele momento. Nomes relevantes no campo ao longo da última década, como Kayla Lucas França (em memória), Amara Moira, Amanda Palha, Hailey Kaas, Jaqueline Gomes de Jesus, Caia Maria Coelho, Viviane Vergueiro, Sara Wagner York, Luc Rizzaro e Sofia Fávero são apenas alguns exemplos, mas essa lista poderia continuar e ser expandida indefinidamente, ao passo em que o transfeminismo constitui, hoje, um dos mais importantes campos em que se trava o debate a respeito de gênero e sexualidade no país.
Foi precisamente esse contexto, permeado pelo dissenso, por tretas, por debates teóricos e políticos, por estratégias coletivas de cuidado e afeto e, fundamentalmente, pela necessidade, que possibilitou a emergência da não binariedade enquanto um horizonte de possibilidades mais factível. Pessoas trans que questionavam o “binarismo”, por não se verem refletidas num modelo de desejo-identidade que abarcava eminentemente apenas homens ou mulheres, passaram a se engajar nesses debates e a demandar que suas preocupações fossem devidamente consideradas e ouvidas pelas pessoas que eram suas pares nos debates transfeministas17. A exemplo da experiência protagonizada pelo site Transfeminismo.com, uma série de sites e blogues dedicados a discutir a não binariedade surgiram entre 2011 e 2014, ainda que não tenham perdurado muito, por diferentes motivos. Esse foi um primeiro momento da organização política das pessoas trans não binárias no Brasil, em diferentes espaços e por diferentes sujeitos.
Um dos principais blogues criados na época foi o Batatinhas - Perspectivas trans fora da binária. A descrição inicial do blogue era a seguinte:
Este é um blogue coletivo da comunidade ‘Gêneros não-binários, genderqueers e batatinhas’ feito por pessoas trans*18 com gêneros não-binários sobre as nossas vidas, nosso gênero, sobre o binarismo, o cissexismo e a transfobia. Queremos trazer nossas narrativas para o público, e colocar como visíveis algumas perspectivas que são muitas vezes esquecidas, apagadas da forma como pensamos a transgeneridade: as narrativas não-binárias.
Muitas vezes, quando pensamos em pessoas trans*, pensamos e falamos sobre somente mulheres trans* e homens trans*. Contudo essas categorias identitárias não esgotam as possibilidade [sic], muito menos se o intuito é a libertação geral das amarras que a hierarquia de gênero coloca. Queremos contar como é a trajetória e reclamar das pedras e frigideiras no caminho. Nossa intenção é discutir e aprender sobre o cissexismo e empoderar-nos coletivamente contra essas estruturas perversas. Queremos apontá-las e desmantelá-las.
Nos organizamos semanalmente para produzir conteúdo, seja de punho próprio ou através de traduções. Nosso conteúdo é produzido colaborativamente, pela comunidade de pessoas trans* que integra nosso grupo. O blogue é aquilo que queremos colocar publicamente como nossa forma dialogar [sic] com quem está do lado de fora.
Se você é uma pessoa trans* não-binária, sinta-se mais do que convidada a participar do nosso grupo e aprender, debater e produzir conosco. Queremos criar um espaço de empoderamento, livre de julgamentos e invalidações. Todas as identidades são legítimas, todos os sentimentos são honestos, nenhuma cara de desdém será tolerada. ;)
(Reprodução do texto da página Sobre do site naobinario.wordpress.com, arquivado pelo Internet Archive em 3 de outubro de 2013. Nota de rodapé minha).
Ao se utilizar da mesma estratégia do Transfeminismo.com e de outros sites e blogues, de se valer de uma “comunidade virtual” – neste caso, o grupo Gêneros não-binários, genderqueers e batatinhas, do Facebook –, o Batatinhas garantiu uma visibilidade considerável para os textos ali publicados e para as temáticas cujo debate promovia. Um desses textos foi precisamente o post Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero, de autoria de Juno Cremonini Takano. É muito difícil mensurar com precisão o impacto desse texto no transfeminismo e no próprio movimento de pessoas trans não binárias. Me limito, portanto, nesse caso, a mencionar apenas dois pontos: primeiro, o fato de que ele foi replicado por vários outros blogues, e, até hoje, diferentes versões suas continuam a reemergir na internet; em segundo lugar, o fato de que uma de suas sugestões inovadoras mais singelas – a substituição do marcador de gênero feminino ou masculino pela desinência “e”, como em “todes”, e não o uso de “x” ou “@” – vingou. Exploro, adiante, tanto o sentido que esse momento narrado aqui e esse artefato tiveram para mim, pessoalmente, como os efeitos de ambos para o momento atual do campo.
As perspectivas trans fora da binária
Está fora do escopo deste texto abordar, em profundidade, uma história da linguagem neutra, linguagem não sexista, neolinguagem ou linguagem não binária. É importante mencionar, entretanto, que, desde ao menos o início dos anos 1970, ativistas e acadêmicas feministas de diferentes correntes, e de diferentes países, têm tecido críticas a respeito tanto do uso do masculino como genérico como do uso exclusivo de pronomes masculinos e femininos (Blaubergs, 1980). A preocupação com o que então se chamava de ‘linguagem sexista’, no caso brasileiro, parece datar da mesma época19, e existem indicações, em manuais de jornalismo e de setores estatais, sobre o uso de uma “linguagem menos sexista” desde ao menos a década de 2010, ainda que seja provável que tenha havido iniciativas anteriores20. Feitos esses apontamentos, o que pretendo fazer aqui, em outra direção, é abordar o papel que nós, as pessoas trans não binárias, tivemos nesse debate e, em especial, no campo do transfeminismo brasileiro.
Conheci Juno quando éramos adolescentes, por meio do Orkut, por nossos interesses em comum por comunidades de role-playing game (RPG)21 textual. Ela também escrevia no Incandescência, blogue que eu apreciava muito ler. Compartilhávamos outros interesses, como as línguas artificiais, tecnologia, Linux, software livre e cultura livre. Tanto eu como Juno participamos, ainda bem jovens, e junto de outras pessoas, alguns anos mais tarde, de um determinado momento da discussão, no Brasil, sobre o que então chamávamos de ‘linguagem neutra de gênero’.
Essas discussões ocorriam principalmente na internet, em redes sociais como o Facebook, especialmente entre 2013 e 2014. Tanto os debates sobre esse tema como os contatos que estabelecíamos ocorriam, em sua maior parte, no contexto das “comunidades virtuais” que mencionei anteriormente. As interações não eram sempre centradas exclusivamente no que chamávamos de ‘linguagem neutra’ e, muitas vezes, abordavam a não binariedade de forma mais ampla. Debates a respeito dos mais diversos temas, que orbitavam o horizonte de interesses de pessoas trans também muito diversas, ocorriam com frequência nos grupos de Facebook e na linha do tempo de pessoas e páginas com maior projeção. O perfil de Juno naquela rede era um desses espaços, mas havia muitos outros22.
Esses espaços, em especial os grupos, eram utilizados também para outras funções, como para anúncios de vagas de trabalho inclusivas para pessoas trans; compartilhamento de traduções de textos sobre gênero e sexualidade23; indicações de filmes e livros; e, também, desabafos sobre situações de disforia ou violência. No caso específico do grupo Gêneros não-binários, genderqueers e batatinhas, foram criados outros grupos, fosse para o debate de temas mais sensíveis, fosse para que pessoas interessadas pudessem paquerar, flertar e trocar “nudes” entre si com mais privacidade; houve ainda a criação de um ou outro grupo que visava aproximar pessoas que estivessem mais próximas geograficamente, e me recordo especificamente do caso do grupo Gêneros não-binários, genderqueers e batatinhas de Belo Horizonte.
Como Bulgarelli (2018) aponta, era muito comum que ativistas muito próximes mantivessem contato apenas pela internet, por longos períodos, antes de efetivamente se encontrarem pessoalmente. E era esse o caso naquele momento – ao menos para mim, que morava em Campinas, metrópole no interior de São Paulo. Participei, entretanto, de ao menos dois encontros presenciais de pessoas trans não binárias e transfeministas: um ocorreu próximo ao Centro Cultural São Paulo (CCSP), localizado nas imediações da Estação Vergueiro da capital paulista, no bairro da Liberdade, em meados de 2014. Era comum que se organizassem encontros desse tipo para reunir pessoas que, muitas vezes, só se conheciam, até então, por meio das redes sociais. O outro encontro ocorreu no mesmo ano, em um coreto do Parque Jardim da Luz, ao lado da Estação da Luz24. Nessas ocasiões, tive a oportunidade de me encontrar com muitas pessoas desse campo, com as quais eu, até então, só tinha tido contato pela internet – Juno e Hailey foram algumas delas. Esse momento foi importante porque materializou, para mim, tanto em termos subjetivos como políticos, o transfeminismo e a não binariedade enquanto conjuntos de práticas e teorias marcadas na experiência e no corpo, e perpassadas por uma necessidade coletiva. Foi através dessas experiências que muites de nós, inclusive eu, nos fizemos.
O blogue Batatinhas era um dos elementos, dentre outros, em torno do qual essas pessoas orbitavam. A bandeira genderqueer 25 era a utilizada, naquele momento, pelo blogue, inclusive ao frisar sua relação com o transfeminismo (conforme Imagem 1). Hoje, é mais comum ver outra bandeira associada às pessoas trans não binárias, em amarelo, branco, roxo e preto. O nome do blogue, por sua vez, era uma brincadeira com o fato de que, por não se identificarem nem como homens nem como mulheres, pessoas trans não binárias teriam sido chamadas por alguém de “batatas”26, o que levou o termo a ser usado como um apelido (ver Imagem 2). Nele, eram publicadas traduções de textos em inglês sobre não binariedade e genderqueer, mas também textos originais. Juno era uma das autoras que com mais frequência contribuía para o blogue, e foi lá que seu texto intitulado Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero teve sua primeira versão publicada, ainda em 2013. No texto, Juno discute a necessidade de que se debatam novas formas de relação com a linguagem, partindo das necessidades específicas das pessoas trans não binárias.
– Desenho de batatas coloridas com as cores da bandeira genderqueer (roxo, branco e verde).
O campo transfeminista, que era especialmente mais aberto a uma crítica a respeito das perspectivas binárias de gênero do que outros, recebeu tanto o debate sobre linguagem não binária como o debate sobre não binariedade de forma mista. Apesar de não haver como reconstruir esses debates em sua totalidade – os fragmentos a respeito deles são escassos –, me recordo de ao menos dois pontos fundamentais sobre o qual transfeministas debateram acaloradamente. O primeiro foi a questão da transição de gênero e da “passabilidade”. Diferente de parte das mulheres transexuais e travestis, ou de parte dos homens trans, pessoas trans não binárias não necessariamente recorrem à terapia hormonal como parte de suas transições. As modificações corporais mais perceptíveis também são variadas e podem, em alguns casos, não existir.
Houve alguns atritos com relação a essa questão porque, segundo argumentos de algumas pessoas que se engajavam nesses debates, a experiência das pessoas trans não binárias com sua transição seria mais fácil ou cômoda, em contraste com as violências pelas quais outras pessoas trans, de identidades supostamente binárias, passariam. Outro ponto importante foi a discussão a respeito da binariedade ou não binariedade da identidade de gênero travesti, específica do contexto latino-americano. Enquanto algumas travestis se reivindicavam explicitamente como travestis não binárias, a exemplo de Kayla Lucas França, outras buscavam associar a identidade travesti a aspectos eminentemente mais femininos27, recusando uma associação à não binariedade.
Apesar das tensões que permeavam esses debates no transfeminismo e que serviam de pano de fundo tanto para a discussão sobre não binariedade quanto para a discussão sobre linguagem não binária, o texto de Juno foi amplamente republicado, tanto nas redes sociais como em outros sites e blogues28, servindo de catalisador para essas e outras discussões naquele momento. Mesmo propondo uma reconfiguração mais profunda da nossa relação com a marcação de gênero na linguagem do que o uso de truques e trocas de letras, as primeiras versões do texto continham, ao fim, dicas para o uso, em contextos informais, da desinência “e” no lugar do “x” (como em “todes”, ao invés de “todxs”)29.
Essa foi a prática que se popularizou anos depois, com a disseminação da utilização desse formato por círculos sociais distintos, por movimentos sociais e mesmo por parte de empresas e de setores e agentes do Estado. Cerca de dez anos após a publicação da primeira versão do texto, a linguagem não binária entrou na pauta do debate público; em torno dela, se mobilizaram uma série de pânicos morais, à esquerda e à direita do espectro político.
Considerações finais
O fenômeno da deslegitimação das identidades e experiências das pessoas trans, e em especial das pessoas trans não binárias, não é recente. Não raras são as vezes em que a afirmação de uma identidade trans por alguém é recebida com comentários do tipo: “já que é assim, me sinto uma árvore!”; “nasceu homem e é homem. Ponto!”; ou “uma surra bem dada resolvia essa frescura!”. Comentários desse tipo e similares se avolumam em quaisquer matérias jornalísticas que tratem de pessoas trans não binárias, e eu mesme já recebi esse tipo de ataque e piores30; eles também não são exclusividade do ambiente virtual e estão mais ou menos disseminados no senso comum. Essa modalidade de transfobia está articulada a um fenômeno mais amplo e relativamente recente de ataques contra as pessoas trans, que se tem convencionado chamar de “políticas antitrans”, como aponta Inaê Barbosa (2024) 31.
As políticas antitrans consistem em, para além dos ataques ao uso da linguagem não binária,
três outras grandes frentes de articulação e ação [...]: impedir o acesso de crianças e adolescentes trans a procedimentos médicos, como bloqueadores de puberdade e hormonização; impedir pessoas trans de participar de competições esportivas; e proibir a instalação de banheiros unissex em estabelecimentos públicos e privados (Barbosa, 2024:22).
Essas medidas têm como principal objetivo frear ou retroceder os direitos que vêm sendo conquistados pelas pessoas trans por meio de sua luta política coletiva, no âmbito da justiça, dos direitos e das políticas públicas.
Em sua revisão crítica do texto Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero, republicado agora, neste número da cadernos pagu, como Deixando o X para trás na linguagem não binária, Juno busca fazer precisamente um balanço das críticas que as propostas de modificação da forma como nos comunicamos têm recebido por parte de setores conservadores da sociedade. Não cabe fazer, aqui, paráfrases de seus argumentos, mas tão somente reforçar alguns pontos que considero cruciais: a importância de uma luta que nasce da necessidade; e a importância da autonomia para que pessoas trans possam decidir seus próprios futuros.
De fato, a linguagem não é a maior preocupação das pessoas trans, na medida em que nossa maior preocupação consiste em conseguirmos sobreviver – aspectos muito básicos, mesmo, como termos um teto sobre nossas cabeças; uma fonte de renda suficiente e estável; podermos nos relacionar livremente; termos acesso à comida e à água, aos serviços de saúde e à educação; não estarmos sujeites à violência sexual etc. –, mas a linguagem é, e sempre foi, muito importante, como nos ensinam, há décadas, as travestis e o pajubá (Silva, 2021), pois, se não é possível que tenhamos autonomia para encontrar meios de suprir nossa necessidade de nos comunicarmos umes com es outres, é muito difícil que todo o resto seja possível. Como afirma Takano (2024) a respeito das críticas de que essa não seria uma prioridade, algumas pessoas cisgêneras estão tão alheias “à realidade trans, a tal ponto que só nos encontramos no fato de que falamos a mesma língua. A reivindicação pontual de que a língua fosse alterada, as vozes das pessoas não binárias mais privilegiadas, ela percebeu. Todo o restante, não percebeu”.
A resposta dos movimentos sociais de pessoas trans às pessoas que tentam minar suas conquistas de direitos e impedir mais avanços tem consistido em apostas na estratégia de visibilidade massiva32 e no aprofundamento das políticas públicas de acesso e permanência de pessoas trans em espaços que antes lhes eram vedados. Uma das frentes de luta tem sido, para além da política institucional, em que vemos pessoas trans cada vez mais se candidatando e se elegendo (Gontijo, 2014; Carvalho, 2015; Santos, 2016a; 2016b; Vilhas, 2024), o espaço das universidades públicas. Por meio da conquista de políticas de acesso e permanência no ensino superior, como cotas para pessoas trans (Iazzetti, 2021), estamos cada vez mais próximes de um futuro em que estejamos nos espaços que quisermos, em condições de igualdade, e especialmente naqueles espaços dos quais fomos historicamente excluídes.
Agradecimentos
Agradeço à Kayla Lucas França (em memória), por tudo; a Inácio Saldanha pelo incentivo de escrever este texto; e à Regina Facchini, minha orientadora, pela parceria na discussão das ideias deste artigo.
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1
“Pronouns, those units of language so potent with signification, so meaningful in the contemporary lexicon (and for good reason). Pronouns are like tiny vessels of verification that others are picking up what you’re putting down. And they’re timid requests of others to say yes, I see you, and even if you are imaged in the likeness of something I’ve yet to see, I see that I’ve not yet seen you, but I still, now, will love you” (Bey, 2021:238).
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2
Juno nasceu em Promissão, cidade do interior de São Paulo, nos anos 1990. Durante sua trajetória como escritora e militante, escreveu para diversos blogues, sobre temas que orbitavam entre a cultura livre, o transfeminismo, a política e a não binariedade, dentre outros. Criou o blogue Incandescência em meados de 2011, onde compartilhava textos seus, tanto em prosa como em poesia, sobre variados temas, para além de alguns textos mais focados em política.
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3
Sobre a noção de cisgeneridade, ver a dissertação de Viviane Vergueiro Simakawa (2015) e o artigo de Amara Moira Rodovalho (2017).
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4
Sobre isso, cf. a dissertação de Bagagli (2019).
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5
“I suggest we start by taking Raymond's accusation that "transsexuals divide women" beyond itself, and turn it into a productive force to multiplicatively divide the old binary discourses of gender--as well as Raymond's own monistic discourse. To foreground the practices of inscription and reading which are part of this deliberate invocation of dissonance, I suggest constituting transsexuals not as a class or problematic "third gender", but rather as a genre-- a set of embodied texts whose potential for productive disruption of structured sexualities and spectra of desire has yet to be explored” (Stone, 2014:14).
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6
Ideia que, alguns anos mais tarde, viria a culminar na noção de “interseccionalidade”.
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7
No fim da década de 1960, ativistas trans negras como Marsha P. Johnson e Zazu Nova participaram ativamente da revolta de Stonewall, uma série de protestos e embates com as forças policiais estatais em Nova Iorque, que marcaria a história dos movimentos sociais LGBTIA+ pelas próximas décadas.
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8
Essa faceta aparece não somente nas reflexões e interlocuções teóricas, mas também nas relações entre as pessoas. A antropóloga Donna Haraway e o antropólogo James Clifford foram supervisores do doutorado de Sandy Stone, por exemplo.
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9
Sobre isso, ver o livro de Jovanna Cardoso da Silva (2021) e o artigo de Mario Carvalho e Sérgio Carrara (2013).
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10
Não é minha intenção, aqui, discorrer sobre esse importante histórico em mais detalhes, na medida em que meu foco são os ativismos não binários e sua origem no transfeminismo. Sobre outros aspectos históricos dos movimentos sociais de pessoas trans no Brasil, cf. Carvalho e Carrara (2013), Bulgarelli (2018), Coacci (2018), Silva (2021) e Vilhas (2023).
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11
Ele se chamava Transfeminismo, mas não se confunde com o homônimo Transfeminismo.com, lançado em 2011 e que abordarei logo adiante.
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12
Em termos gerais, a “cultura livre” pode ser definida como um movimento anti-copyright, que defende o direito de que as pessoas copiem, compartilhem e utilizem obras alheias livremente, sem a necessidade de pedir permissão. A título de exemplo, a maior parte das licenças da Creative Commons se enquadra como uma alternativa livre às licenças de direitos de autor (copyright).
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13
Hoje Transfeminismo.org, que abriga o recém-criado Centro de Pesquisa Transfeminista.
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14
Uso aqui essa expressão de forma a fazer alusão a, e abarcar, diferentes modalidades de expressão de interesses em comum, mas também de estabelecimento de contatos, conexões e debates com múltiplas pessoas no ambiente da internet, independentemente da plataforma. Estou me referindo às listas de discussão por e-mail, a grupos do Facebook, comunidades do antigo Orkut, grupos do Google, mas também, de forma mais ampla e mais recente, às pessoas com interesses em comum que interagem por meio da linha do tempo do Twitter/X, do Bluesky e do Instagram sem dispor, necessariamente, de uma funcionalidade específica para criação de grupos de interesses afins, como as plataformas/serviços mencionadas anteriormente. Em suma, se trata de demarcar, neste ambiente, o que Sonia Alvarez (2014) definiu como “teias político-comunicativas”.
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15
O caso do ativismo intersexo, abordado por Guzzo (2024), guarda semelhanças muito relevantes a esse respeito, quando comparado ao transfeminismo.
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16
É importante pontuar, para não correr o risco de reforçar estigmas a respeito das pessoas trans e travestis, que, apesar de relevante, essa não foi uma marca distintiva específica do transfeminismo. Tanto os movimentos sociais feministas mais clássicos quanto os movimentos LGBTIA+ e de pessoas negras tiveram sua produção histórica permeada por profundos dissensos e cisões, mas mais do que isso: essa dimensão permeia qualquer movimento social.
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17
Com isso, não estou, em absoluto, sugerindo que pessoas trans não binárias passam a existir, no Brasil, nesse momento; pontuo, apenas, que elas passaram a se engajar de forma mais intensa no debate transfeminista. Como Azevedo (2024) recorda, naquele momento coexistiam as noções de genderqueer e de não binariedade, e ambas eram utilizadas por pessoas trans não binárias para se referirem às suas identidades, de forma alternada. Com o tempo, por uma série de motivos, o primeiro termo caiu em desuso.
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18
Naquele momento, o termo ‘trans*’ (lê-se “trans com asterisco”) era utilizado para se referir às pessoas trans de forma geral, como um termo guarda-chuva. Hoje, ‘trans’ aparece mais comumente sem o asterisco, que tem caído em desuso.
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19
Especialmente no campo da Linguística, a exemplo de Torres (1980) e Furlanetto (1981).
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20
Para exemplos dessas iniciativas na década de 2010, cf. Basthi (2011) e Rio Grande do Sul (2014).
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21
Role-playing game é um tipo de jogo em que a pessoa que joga assume o papel de um personagem numa dada trama.
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22
Por uma série de motivos, não listarei outras pessoas com perfis de grande projeção naquela época. Cabe mencionar, entretanto, a página Travesti Reflexiva, criada por Sofia Fávero, que consistia também em um importante espaço no qual parte desses debates ocorria.
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23
Me recordo, aliás, que a primeira vez em que li o livro O pensamento hétero e outros ensaios, de Monique Wittig, foi por meio de uma dessas traduções, feitas de forma amadora por ativistas, num momento em que ainda não existia inteligência artificial ou tradutores de texto como os conhecemos.
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24
Agradeço à Malu por me lembrar desse outro encontro.
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25
Genderqueer é uma identidade de gênero, mais comum, hoje, no contexto norte-americano. Pessoas genderqueer podem se identificar com uma combinação de gêneros, com nenhum deles, ou variar entre eles.
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26
Não consegui recuperar com mais precisão a origem do apelido “batatinhas” para se referir às pessoas trans não binárias naquele contexto, mas é provável que esse relato que faço aqui esteja bem próximo do original.
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27
A respeito da dificuldade de enquadrar a identidade travesti em categorizações estanques, cf. Vilhas (2023).
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28
Uma versão republicada em 2016, no site do Partido Pirata, permanece no ar, disponível em https://partidopirata.org/deixando-o-x-para-tras-na-linguagem-neutra-de-genero-por-juno/, acessada em 4 de maio de 2024.
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29
Naquele mesmo momento, começavam a emergir, simultaneamente, outras propostas de reconfiguração da linguagem por parte de ativistas trans, como, por exemplo, o “sistema elu/delu”, criado com base no pronome pessoal neutro do latim, illud.
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Em 2019, dei uma entrevista para a BBC (Lemos, 2019) a respeito da minha experiência enquanto uma pessoa trans não binária, junto de outras pessoas trans. Após a divulgação da matéria nas redes sociais e sua replicação por outros veículos de mídia, grupos conservadores passaram a me procurar – e encontrar – nas redes sociais, tecendo comentários desse tipo ou fazendo ataques mais graves. A circulação da matéria foi tão intensa que, ainda dois anos depois de sua publicação, em 2021, eu recebia notícias de familiares meus que estavam irritades com o fato de que seus vizinhos postavam minha foto, que estampa a matéria, em suas redes sociais, fazendo piada com a existência de pessoas trans não binárias.
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Esse fenômeno parece ser corolário, é claro, do pensamento feminista radical transfóbico que emergiu no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 (Bagagli, 2019).
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32
Uso esse termo no mesmo sentido que Regina Facchini (2009).



Fonte: Reprodução do blogue Batatinhas (2013).
Fonte: Reprodução do blogue Batatinhas (2013).