Resumo
Objetivou-se nesta revisão de escopo identificar o processo de validação e as caraterísticas metodológicas das escalas de percepção de insegurança alimentar validadas em diferentes partes do mundo. Realizou-se busca na PubMed, Embase, SciELO, MEDLINE, LILACS e Google Acadêmico, além da literatura cinzenta. A pré-seleção dos estudos se deu pela leitura dos títulos e resumos, seguida pela leitura na íntegra. Dos 828 estudos identificados, foram selecionados 19 referentes a 21 escalas, dos países: Colômbia; Tanzânia; Líbano; Nova Zelândia; Estados Unidos; Equador; Sri Lanka; Brasil; Guatemala; República Dominicana; Haiti; Costa Rica; Venezuela; México; Bolívia; Burkina Faso; e Filipinas, bem como a Escala Latino-americana e Caribenha (ELCSA) e a da FAO. Colômbia e Equador apresentaram duas escalas validadas. As escalas variaram em relação a ano de validação (2000 a 2020), tempo de referência (últimos 3 a 12 meses), número de questões (7 a 18) e tipos de domicílios (urbanos e rurais). Os processos de validação envolveram fases qualitativas e quantitativas. A validação interna se deu pelo coeficiente alfa de Cronbach e o modelo Rasch; e a externa, por associação e/ou correlação com variáveis socioeconômicas e de consumo alimentar. Assim, as escalas identificadas apresentaram processos de validação e caraterísticas metodológicas distintas.
Palavras-chave:
Escalas; Insegurança alimentar; Validação
Abstract
The objective of this scoping review was to identify the validation process and the methodological characteristics of food insecurity perception scales in different parts of the world. A search was carried out in the PubMed, Embase, Scielo, Medline, Lilacs and Google Scholar databases, in addition to the gray literature. The pre-selection of studies took place by reading the titles and abstracts, followed by reading in full. Of the 828 studies identified, 19 were selected referring to 21 country scales: Colombia; Tanzania; Lebanon; New Zealand; U.S; Ecuador; Sir Lanka; Brazil; Guatemala; Dominican Republic; Haiti; Costa Rica; Venezuela; Mexico; Bolivia; Burkina Faso and the Philippines, as well as the Latin American and Caribbean Scale (ELCSA) and the FAO. Colombia and Ecuador presented two validated scales. The scales varied in relation to the year of validation, reference time, number of questions and types of households. The validation processes involved qualitative and quantitative phases. Internal validation was performed using Cronbach’s Alpha coefficient and the Rasch model; and the external validation by association and/or correlation with socioeconomic and food consumption variables.
Key words:
Scales; Food insecurity; Validation
Resumen
El objetivo de esta revisión de alcance fue identificar el proceso de validación y las características metodológicas de las escalas de percepción de inseguridad alimentaria validadas en diferentes partes del mundo. Se realizó una búsqueda en PubMed, Embase, SciELO, MEDLINE, LILACS y Google Scholar, además de la literatura gris. La preselección de los estudios se realizó mediante la lectura de los títulos y resúmenes, seguida de su lectura completa. De los 828 estudios identificados, se seleccionaron 19 relacionados con 21 escalas de países: Colombia; Tanzania; Líbano; Nueva Zelanda; Estados Unidos; Ecuador; Sri Lanka; Brasil; Guatemala; República Dominicana; Haití; Costa Rica; Venezuela; México; Bolivia; Burkina Faso y Filipinas, así como la Escala Latinoamericana y del Caribe (ELCSA) y la FAO. Colombia y Ecuador presentaron dos escalas validadas. Las escalas variaron en relación al año de validación (2000 a 2020), tiempo de referencia (últimos 3 a 12 meses), número de preguntas (7 a 18) y tipos de hogares (urbanos y rurales). Los procesos de validación involucraron fases cualitativas y cuantitativas. La validación interna se realizó mediante el coeficiente alfa de Cronbach y el modelo de Rasch; y la externa por asociación o correlación con variables socioeconómicas y de consumo alimentario. Así, las escalas identificadas presentaron procesos de validación y características metodológicas distintas.
Palabras clave:
Escalas; Inseguridad alimentaria; Validación
Introdução
A insegurança alimentar (IA) é definida como o acesso limitado a alimentos nutricionalmente adequados e saudáveis1. Uma pessoa encontra-se nessa situação quando não tem acesso regular a alimentos seguros e nutritivos suficientes para o crescimento e desenvolvimento normal, bem como para uma vida ativa e saudável2.
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), utilizando a Global Scale of Experience of Food Insecurity (FIES), mostrou que em 2022 a fome afetou entre 691 e 783 milhões de pessoas no mundo, sendo que, nesse mesmo ano, 29,6% da população global (2,4 bilhões de pessoas) estavam em IA moderada e grave. Quando se analisou a prevalência entre os continentes, observou-se que a África apresentou 60,9% de IA moderada e grave, América Latina e Caribe 37,5%, Ásia 24,2% e América do Norte e Europa (8,0%)2. Portanto, existem ainda muitos lugares enfrentando crises alimentares cada vez mais profundas, e há incerteza quanto ao número exato de agregados familiares afetados por esse fenômeno2.
Com o intuito de mensurar diretamente a IA e a fome, foi desenvolvido na década de 1990, nos Estados Unidos, o instrumento Household Food Security Survey Module (HFSSM), com 18 questões, abrangendo todos os níveis de gravidade da IA observados nos domicílios com e sem crianças3,4. Essa escala apresenta variantes linguísticas, devido a processos de tradução e adaptação transcultural, sendo que diversos países desenvolveram escalas de percepção de IA a partir da experiência dos Estados Unidos5,6.
Assim, essas escalas vêm ganhando notoriedade internacional e se destacam pela facilidade de aplicação, baixo custo e por terem como base as experiências vivenciadas e percebidas pelas famílias7-9.
A validação das escalas de percepção é recomendada, uma vez que considera alguns aspectos restritos de confiabilidade e validade na avaliação da situação de segurança alimentar1,10. A consistência interna da escala é estimada pelo coeficiente alfa de Cronbach e o modelo Rasch, sendo o primeiro a faceta de confiabilidade mais utilizada10.
Como diversos países têm utilizado e validado suas escalas para avaliar e medir a situação da IA nos domicílios, torna-se importante desenvolver a presente revisão, uma vez que pouco se sabe em relação as caraterísticas metodológicas utilizadas durante o processo de validação. Esta revisão inova por propor o mapeamento das escalas de IA validadas no mundo em relação ao processo de validação e suas caraterísticas gerais.
Metodologia
Protocolo e registro
Trata-se de uma revisão de escopo com protocolo de pesquisa registrado no Open Science Framework sob o número 10.17605/OSF.IO/HMKYF, desenvolvida e estruturada com base nas recomendações do PRISMA Extension for Scoping Reviews.
Critério de elegibilidade
Estudos originais e revisões de literatura (narrativa, integrativa, sistemática e com meta-análise), bem como resumos de conferências, materiais governamentais, cartas ao editor e outros documentos, foram considerados elegíveis para o presente estudo.
Assim, os critérios para não inclusão ou exclusão foram os seguintes: (1) estudos que não utilizavam escalas validadas de percepção para diagnóstico da insegurança alimentar; (2) estudos que utilizavam escalas validadas de percepção para diagnóstico da insegurança alimentar mas que não explicavam o processo de validação.
Pergunta norteadora da pesquisa
Foi identificada primeiramente a questão norteadora da pesquisa, definindo-se o objetivo do estudo e os descritores, utilizando-se a combinação mnemônica PCC: P (população) - países do mundo; C (conceito) - escalas validadas; C (contexto) - insegurança alimentar. A pergunta norteadora foi: “Quais são as caraterísticas do processo de validação das escalas de percepção de insegurança alimentar validadas em diferentes países?” E a pergunta complementar foi: “Quais são as características metodológicas dessas escalas validadas?”
Estratégia de busca
A estratégia de busca envolveu a seleção de descritores em pesquisas publicadas e disponíveis na PubMed. Em seguida, os descritores definidos foram indexados no vocabulário controlado do Medical Subject Heading Terms (MeSH) e combinados com seus respectivos vocábulos em inglês: escala; scale; escala psicométrica; psicometric scale; insegurança alimentar; food insecurity; estudos de validação; validation study, bem como seus sinônimos.
Após a seleção dos descritores, realizou-se a busca na PubMed; Embase; Scielo; Mediline e Lilacs, em Maio e Junho de 2023. Na seleção dos artigos foi empregado o recurso dos operadores booleanos AND e OR, conforme descrito: ((Escala OR Scale OR “Escala psicométrica” OR “Psicometric Scale” OR “Escala de percepção”) AND (“Insegurança Alimentar” OR “Food Insecurity” OR “Inseguridad Alimentaria” OR Fome) AND (“Estudos de Validação” OR “Validation Study” OR Validação OR Validating OR Validate OR Validated)) (Quadro 1).
Como PubMed, Embase, SciELO, Mediline e Lilacs têm suas propriedades de busca, adaptou-se a estratégia utilizada, entretanto manteve-se as semelhanças nas combinações de descritores (Quadro 1). Para literatura cinzenta (dissertações e teses), foram utilizados o Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e LA Referencia - rede latino-americana de repositórios de acesso aberto. Utilizou-se também o Google Acadêmico para identificar outros materiais e estudos não identificados nas bases citadas.
Além disso, foram consultadas as listas de referências dos artigos (busca reversa) e realizou-se a busca manual, a partir dos estudos que foram refenciados, com o objetivo de localizar outros documentos publicados e não identificados nas buscas iniciais. Não se limitou o período e o idioma de publicação.
Os estudos relevantes foram identificados pela triagem dos títulos, resumos e textos completos. Inicialmente, os resultados da pesquisa de cada banco de dados foram importados para o software Rayyan QCRY para excluir os estudos duplicados. O processo de seleção dos materiais foi feito no mesmo software por uma dupla de pesquisadores, de forma cega, independente e paralela.
Ressalta-se que informações metodológicas adicionais, referentes ao processo de validação das escalas que não estavam presentes nos estudos selecionados, foram pesquisadas em outros materiais relacionados, como relatórios e artigos de revisão.
Resultados
A busca eletrônica identificou incialmente 873 estudos. Desses, foram removidos 45 duplicados. A partir da leitura do título, foi feito o primeiro refinamento da pesquisa, sendo excluídos 798 estudos que não abordavam o tema de interesse da revisão (como trabalhos que utilizavam escalas não validadas, que propunham novos instrumentos de avaliação da IA ou que faziam comparação entre as escalas). Foram selecionados 30 estudos para leitura dos resumos, e outros 13 identificados pela busca reversa. A partir da leitura dos resumos foram excluídos cinco estudos, sendo 38 selecionados para leitura na íntegra. Após a leitura integral foram excluídos outros 19 estudos que não apresentavam escalas validadas. Assim, ao final, foram incluídos na presente revisão 19 estudos (Figura 1).
Esses 19 estudos apresentaram 21 escalas de diagnóstico da IA validadas, referentes aos seguintes países: Colômbia; Tanzânia; Líbano; Nova Zelândia; Estados Unidos; Equador; Sir Lanka; Brasil; Guatemala; República Dominicana; Haiti; Costa Rica; Venezuela, México; Bolívia; Burkina Faso; e Filipinas. Além dessas, foram encontradas a Escala Latino-Americana e Caribenha (ELCSA), cuja abrangência é regional, e a da FAO (Food Insecurity Experience Scale - FIES). Cabe ressaltar que, desses países, Colômbia e Equador foram os únicos que apresentaram duas escalas validadas.
As escalas foram agrupadas e analisadas inicialmente de acordo com país, ano de validação, tempo de referência, tamanho da amostra, tipos de domicílios, número de questões e classificação da situação de segurança alimentar (Quadro 2 e Figura 2).
Quanto ao ano de validação dos instrumentos, variou de 2000 (Venezuela)11 a 2020 (Sri Lanka)28. Em relação ao tempo de referência, foi observado que as questões e as respostas dos entrevistados foram apresentadas na maioria das vezes levando em consideração os últimos 12 meses antes da pesquisa, exceto nos estudos realizados na República Dominicana17 e Colômbia22, que utilizaram como tempo de referência os últimos 30 dias; Venezuela, Colômbia e Líbano11,13,24, os últimos seis meses; Brasil, ELCSA, Haiti, Guatemala e México12,16,20,21,25,28 utilizaram os últimos três meses como tempo de referência (Figura 2).
Além disso, a escala validada para mulheres gestantes do Sri Lanka28 utilizou como tempo de referência o terceiro trimestre de gestação (32 a 36 semanas), sendo a única com essa caraterística.
Com relação ao tamanho da amostra, foi observada uma variação de 5215 a 265.21221 domicílios. Ressalta-se que todos os estudos tiveram desenho transversal. De modo geral, a maioria envolveu os domicílios urbanos e rurais. Porém, alguns países incluíram somente domicílios de áreas urbanas, como Venezuela11 e Costa Rica18, e outros apenas domicílios rurais, como Equador, República Dominicana, Tanzânia, Guatemala, Líbano e Sri Lanka15,17,19,21,24,28.
Os estudos que não fizeram menção à presença ou à ausência de crianças no momento da entrevista foram desenvolvidos nos seguintes países: Bolívia14, Burkina Faso14, Filipinas14, FAO23, Líbano24, México25 e Sri Lanka28. Os demais desenvolveram seus estudos em domicílios considerando a presença ou ausência de crianças, sendo as questões adaptadas para essas situações específicas (Figura 2). As escalas variaram de 7 a 18 perguntas. Cabe ressaltar que o único país que apresentou sete questões no instrumento foi o Líbano24.
A classificação da (in)segurança alimentar foi feita da seguinte forma: segurança alimentar (acesso constante aos alimentos com qualidade e em quantidade suficiente); IA leve (queda na qualidade ou preocupação com acesso aos alimentos no futuro); IA moderada (falta de acesso consistente aos alimentos, o que diminui a qualidade da dieta e interrompe os padrões normais de alimentação); e IA grave (quando em algum momento do ano as pessoas ficam sem comida, passam fome e, no caso mais extremo, ficam sem comida por um dia ou mais) (Quadro 2)2.
Nova Zelândia7, Venezuela11; Colômbia13, Equador15, República Dominicana17, Costa Rica18 e Tanzânia19 avaliaram a frequência de ocorrência de cada item da seguinte forma: três vezes como “sempre”; dois, “às vezes”; um, “raramente”; zero, “nunca”, gerando um escore de IA com variação de 0 a 36 pontos. E outros avaliaram as respostas como “sim” ou “não” - Brasil12, Bolívia14, Burkina Faso14, Filipinas14, Haiti20, Guatemala21, FAO23, México25, Estados Unidos26 e Equador27.
Os pontos de corte utilizados para a classificação da (in)segurança alimentar por Costa Rica, Haiti, Guatemala, Colômbia, México e Equador18,20,21,22,25,27 foram: segurança alimentar (0 ponto), IA leve (1-5), IA moderada (3-10) e IA grave (7-16).
A Venezuela11 e Colômbia13 apresentaram uma classificação diferenciada em relação ao ponto de corte, em que os domicílios com 0 ponto foram classificados como seguros, 1-12 (IA leve), 13-24 (IA moderada) e 25 pontos ou mais (IA grave). Diferentemente dos demais países, Equador15 e Estados Unidos26 foram os únicos que classificaram a (in)segurança alimentar em dois níveis. Para os Estados Unidos a classificação se deu da seguinte forma: 0-2 (segurança alimentar) e 3 ou mais respostas afirmativas (IA); e Equador: 1-3 pontos (IA sem fome) e 4 pontos (IA com fome).
Os instrumentos foram caraterizados tendo em conta os padrões de referência para validação e as metodologias utilizadas nesse processo (Quadro 3). Em relação aos padrões de referência para validação das escalas, Brasil12, Bolívia14, Burkina Faso14, Filipinas14, Equador15, República Dominicana17, Costa Rica18, Líbano24 e Estados Unidos26 utilizaram a HFSSM como modelo padrão. Já as escalas desenvolvidas no Haiti20, Guatemala21, Colômbia22, México25, Equador27 e Sri Lanka28 utilizaram como padrão de referência a ELCSA durante o processo de validação. Portanto, essas duas escalas foram as mais utilizadas como padrões de referência no processo de validação dos instrumentos (Quadro 3).
Ressalta-se que a FAO23 utilizou tanto a HFSSM quanto a ELCSA como padrão de referência, enquanto a ELCSA16 usou a HFSSM, a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) e a Escala de Percepción de Seguridad Alimentaria (EPSA) como padrões de referência.
Em relação ao processo de validação das escalas, primeiramente as escalas originais foram traduzidas para a língua local de cada país, e as questões, adaptadas para o contexto local das regiões por meio de um painel de especialistas, sendo que cada escala apresentou características específicas nesse processo (Quadro 3).
Em todos os estudos realizou-se a validação interna da escala por meio do coeficiente alfa de Cronbach, exceto nos realizados na Nova Zelândia7, Equador15, República Dominicana17, Guatemala21, Líbano24, Estados Unidos26 e o desenvolvido pela FAO23, que utilizaram somente o modelo Rasch para avaliar a confiabilidade e a adequabilidade do instrumento. Colômbia13, Haiti20, Equador27 e Sri Lanka28 foram os únicos países que utilizaram tanto o coeficiente alfa de Cronbach como o modelo Rasch em seus estudos. Os resultados do coeficiente alfa de Cronbach e do modelo Rasch foram considerados adequados em todos os estudos (Quadro 3).
Na validação externa, determinou-se a relação da escala com outras variáveis - como consumo alimentar, disponibilidade e aquisição de alimentos, renda familiar, fatores sociais e demográficos - associadas à insegurança alimentar, utilizando métodos de análises de correlação e/ou associação (Quadro 3).
Discussão
Na presente revisão, observou-se que o tempo de referência mais utilizado durante o processo de validação das escalas foi os últimos 3, 6 e 12 meses. Nessas situações, quanto menor for o tempo de referência, mais fácil será para os entrevistados se recordarem dos acontecimentos passados, mas pode aumentar a carga cognitiva sobre o respondente, levando a respostas menos precisas4,29.
Além disso, os estudos envolveram os dois tipos de domicílios (urbanos e rurais), exceto em estudos desenvolvidos na Venezuela e Costa Rica, que envolveram domicílios de áreas urbanas, e Sri Lanka, Líbano, Guatemala, Tanzânia, Haiti, República Dominicana e Equador, que utilizaram domicílios rurais. Portanto, o envolvimento na amostra de domicílios urbanos e rurais é de extrema importância, uma vez que representam distintos contextos culturais, sociais e econômicos que podem influenciar a ocorrência da situação de IA8.
Ainda, as questões apresentadas nos instrumentos faziam menção sobre a presença ou ausência de menores de 18 anos nos domicílios, exceto nos estudos realizados na Bolívia, Burkina Faso, Filipinas, Líbano, México, Sri Lanka e pela FAO. Assim, quando na presença de crianças, as questões eram respondidas na totalidade, e reduzidas quando os domicílios eram compostos apenas por adultos25,27. Portanto, as questões foram adaptadas para essas situações específicas, uma vez que, na presença de menores de 18 anos, as chances do domicílio apresentar-se em situação de IA são maiores, uma vez que os menores não contribuem para a renda familiar. O rendimento familiar apresenta papel determinante no acesso aos alimentos, isto é, o aumento no rendimento familiar determina o aumento de uma dieta mais diversificada e saudável dos domicílios21,30,32.
Além disso, a adaptação de uma versão para famílias com crianças tem sido justificada pelas necessidades nutricionais específicas desta faixa etária em termos de quantidade, qualidade e regularidade da oferta alimentar10. No entanto, Marques e colaboradores salientam a necessidade de se investir no desenvolvimento de mais instrumentos de IA especialmente concebidos para este grupo populacional10, uma vez que também apresentam necessidades nutricionais específicas, como apontado para as crianças. Porém, nenhuma escala incluída no presente estudo destacou esse grupo no processo de construção e validação.
Quanto aos padrões de referência, as escalas HFSSM e ELCSA foram as mais utilizadas no processo de validação dos instrumentos de outros países. Isso pode se justificar da seguinte forma: na década de 1990, pesquisadores reunidos pelo United States Department of Agriculture (USDA) desenvolveram uma escala válida de abrangência nacional, a HFSSM, composta por 18 itens. A partir de 1995, esse instrumento passou a ser utilizado em pesquisas americanas, como na National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES)8. Desde então, diversos países realizaram traduções e adaptações transculturais da HFSSM5 com o objetivo de avaliar a situação de IA nos domicílios.
A ELCSA foi desenvolvida levando em consideração as experiências no processo de validação das escalas da Venezuela, da Colômbia e do Brasil, contando com o apoio da FAO. Desde a sua publicação em 2007, a ELCSA vem sendo utilizada em estudos referentes à segurança alimentar, em pesquisas nacionais e em avaliações de políticas e programas sociais1. Ressalta-se que pelas vantagens que a escala apresenta, como ser de baixo custo, fácil aplicação e uniformidade em toda América Latina e Caribe, ela se tornou um importante indicador de abrangência regional1. Portanto, com a ELCSA, países latino-americanos e caribenhos que ainda não têm escalas validadas poderão utilizar essa ferramenta, visto que a utilização de um mesmo indicador para toda a região possibilita a comparabilidade entre os países, o que pode contribuir para a tomada de decisões políticas8.
Das escalas que utilizaram a ELCSA como modelo padrão, o Sri Lanka foi o único país que validou seu instrumento com oito questões, denominado ELCSA for pregnant women in Sri Lanka (ELCSA-P-SL), especialmente para mulheres gestantes. Isso porque pode acontecer de, durante o pré-natal, não serem avaliados aspectos econômicos e sociais relacionados ao acesso à alimentação adequada que se comportam como determinantes na evolução da gravidez. Portanto, utilizando a ELCSA como parte do protocolo de controle pré-natal, pode-se identificar situações que requerem acompanhamento e controle da gestação28. Além disso, o uso de um menor número de questões em pesquisas dessa natureza se deve, na maioria das vezes, a restrições de tempo e recursos que investidos, sendo um recurso para fazer face a estas questões.
Em relação à EBIA apresentada nesta revisão com 15 questões, destaca-se que sofreu modificação em 2009, com exclusão de uma questão referente à perda de peso entre os moradores dos domicílios. Essa exclusão se deve à elevada prevalência de excesso de peso que tem sido observada com maior frequência no país, inclusive entre as famílias de baixa renda8. Portanto, atualmente a EBIA utilizada no Brasil apresenta 14 questões, é validada e a mais indicada para avaliar os domicílios brasileiros9.
É importante enfatizar que as escalas apresentaram diferentes métodos de classificação da (in)segurança alimentar. Essas diferenças estão associadas a diversos fatores de risco observados nas famílias e requerem distintas intervenções políticas governamentais33.
Em relação ao processo de validação das escalas e metodologias utilizadas, os estudos incluídos nesta revisão apresentaram processos e caraterísticas metodológicas que foram além da tradução do padrão de referência utilizado para o idioma de cada país no qual se pretendia desenvolver o instrumento. Além do processo de tradução, os estudos fizeram a validação interna da escala pelo coeficiente alfa de Cronbach e pelo modelo Rasch, ambos recomendados para esse tipo de análise pela FAO1.
O coeficiente alfa de Cronbach permite avaliar a consistência interna das respostas aos itens da escala e indicar se estão correlacionadas entre si, sendo o valor mínimo aceitável de 0,734. Assim, o processo de validação interna de um instrumento, como no caso de escalas de percepção, é essencial para garantir confiabilidade e adequabilidade, sendo altamente recomendado sempre que se pretende realizar estudos desta natureza1,8,10.
Ressalta-se que todas as escalas apresentaram valores de alfa de Cronbach considerados adequados, com destaque para HFSSM, ELCSA e EBIA, que foram as únicas que apresentaram valores superiores (> 0,90), revelando o bom desempenho dos itens que as compõem.
O modelo Rasch pode ser utilizado para verificar a unidimensionalidade do instrumento, isto é, se todos os itens presentes na escala estão mensurando um único constructo ou fator, que para este estudo seria a insegurança alimentar35. Com esse modelo, espera-se que as famílias que não vivenciam a situação de IA tenham menor probabilidade de responder positivamente às questões do que aquelas que experimentaram essa situação8.
Além da validade interna, os estudos realizaram a validação externa dos seus instrumentos. Foi observado que, para o processo de validação das escalas, houve sua aplicação em inquéritos populacionais e o uso de métodos de associação e correlação com as variáveis de cada estudo, como as socioeconômicas, demográficas e de consumo alimentar, para determinar a relação da escala com as variáveis associadas ao fenômeno de IA.
De acordo com a pesquisa de Vasconcelos (2016), a validade externa em um determinado estudo permite ao pesquisador generalizar os resultados obtidos para outras populações, em outros contextos36. Assim, a validade externa mostra que os resultados obtidos em uma pesquisa independem da amostra ou da situação particular da pesquisa, mas que suas conclusões são verdadeiras37.
Dessa forma, para os estudos que não realizam a validação interna e externa, os resultados não devem ser generalizados. Isso porque as validações interna e externa são práticas metodológicas consagradas e indispensáveis em pesquisas dessa natureza para que se tenha um instrumento consistente e confiável, capaz de refletir a realidade do país36.
Considerando as escalas encontradas nesta revisão, a HFSSM e a ELCSA foram as que apresentaram mais pressupostos psicométricos, além de serem as mais utilizadas como modelo padrão no processo de validação das escalas de percepção em outros estudos. Cabe destacar que elas foram as únicas que, para além da validação interna e externa, exploraram outras características psicométricas importantes, como o posicionamento das questões (dificuldade/intensidade) frente ao traço latente e a avaliação da invariância da medida (funcionamento diferencial das questões). Estudos anteriores também enfatizaram o destaque do diferencial dessas escalas em relação às questões psicométricas8,10.
Assim, as escalas apresentadas nesta revisão apresentam processos de validação com caraterísticas metodológicas semelhantes e adequadas para medir a situação de IA dos domicílios, e que podem servir de incentivo para novos estudos de validação de escalas de percepção, dada a importância da utilização de instrumentos confiáveis e válidos, não apenas em pesquisas epidemiológicas, mas como ferramentas de triagem e tomada de decisão para orientar ações de enfrentamento de IA em níveis local e nacional.
Os pontos fortes desta revisão de escopo se relacionam à ampla busca feita em diversas bases de dados e à inclusão de 19 estudos, desenvolvidos em diversos países do mundo, tornando os resultados mais confiáveis, além da complementação de informações por meio de outros materiais. Além disso, todos os estudos realizaram a validação interna e externa dos seus instrumentos, mostrando que as escalas apresentam consistência e confiabilidade aceitáveis para cada país.
Uma limitação do presente estudo diz respeito às metodologias incompletas que alguns estudos apresentaram durante o processo de validação das escalas, dificultando a compreensão do processo, sendo necessária a busca complementar de informações em outros documentos e materiais adicionais. Independentemente das limitações mencionadas, os resultados desta revisão sugerem que as escalas validadas são muito úteis para avaliar a situação de IA dos domicílios. Recomenda-se o desenvolvimento de mais estudos dessa natureza que explorem de forma exaustiva as caraterísticas psicométricas importantes das escalas de IA para além da validade interna e externa.
Conclusão
Foi possível concluir que as escalas de percepção de insegurança alimentar validadas em diferentes países apresentam processos de validação e caraterísticas metodológicas que variam de acordo com tempo de referência, tamanho da amostra, número de questões, tipos de domicílios (rurais ou urbanos) e padrões de referência para validação. Além disso, a validação interna e externa são práticas metodológicas consideradas indispensáveis no processo de validação das escalas de percepção. Os resultados deste estudo irão auxiliar na identificação das melhores escalas validadas disponíveis que podem ser utilizadas na tomada de decisões e no desenvolvimento de novas escalas em diferentes países.
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Financiamento
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Nutrição da Universidade Federal de Viçosa (PPGCN/UFV). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - Minas Gerais (FAPEMIG). Universidade Federal de Viçosa.



Fonte: Autores.
Fonte: Autores.