Open-access Fatores associados à qualidade da relação médico-paciente no Brasil

Resumo

O estudo investigou a influência de fatores associados a pacientes e médicos na qualidade dessa relação, medida pelo Patient-Doctor Relationship Questionnaire (PDRQ-9), na atenção primária do SUS, com dados de 5.971 pacientes adultos e 494 médicos de Unidades de Saúde da Família (USF) de todas as regiões do Brasil. A análise multivariada indicou que apenas características dos pacientes foram significativamente associadas à qualidade da relação médico-paciente, incluindo: residir em área urbana, sexo masculino, ter dez anos ou mais de estudo, conseguir consulta no mesmo dia em que buscou atendimento, ter mais de três consultas anuais com o mesmo médico e ser atendido em USF com alta qualidade na atenção primária. Tais resultados apontam para iniquidades na relação médico-paciente, com pacientes que compartilham características comuns com seus médicos (origem urbana e maior escolaridade) ou que consultam em USF com atenção primária de maior qualidade, tendo relacionamentos mais satisfatórios. Isso revela a importância do desenvolvimento da competência cultural dos médicos e o impacto da organização dos serviços na qualidade dos relacionamentos.

Palavras-chave:
Relações médico-paciente; Qualidade da assistência à saúde; Avaliação de processos em cuidados de saúde; Medidas de experiência relatadas pelo paciente

Abstract

This study investigated the influence of patient- and doctor-related factors on the quality of this relationship, measured by the Patient-Doctor Relationship Questionnaire (PDRQ-9), within the primary care setting of Brazil’s SUS (Unified Health System). Data were collected from 5,971 adult patients and 494 doctors from Family Health Units (USF) across all regions of Brazil. Multivariate analysis indicated that only patient characteristics were significantly associated with the quality of the doctor-patient relationship. These included living in urban areas, being male, having ten or more years of education, obtaining a same-day consultation, having more than three consultations per year with the same doctor, and being seen at a USF with high-quality primary care. The findings highlight inequalities in the doctor-patient relationship, showing that patients who share common characteristics with their doctors (urban background and higher education) or consult in higher-quality primary care settings report more satisfactory relationships. This underscores the importance of developing doctors’ cultural competence and the impact of service organization on relationship quality.

Key words:
Physician-patient relations; Quality of health care; Process assessment; Health care; Patient-reported experience measures

Resumen

Este estudio investigó la influencia de los factores asociados a pacientes y médicos en la calidad de esta relación, medida por el Cuestionario de Relación Paciente-Médico (PDRQ-9), en la atención primaria del SUS, con datos de 5.971 pacientes adultos y 494 médicos de Unidades de Salud de la Familia (USF) de todas las regiones de Brasil. El análisis multivariante indicó que únicamente las características de los pacientes se asociaban significativamente con la calidad de la relación médico-paciente, entre ellas: vivir en una zona urbana, ser hombre, tener diez años o más de estudios, obtener cita el mismo día en que solicitaron atención, tener más de tres citas al año con el mismo médico y ser atendidos en una USF con atención primaria de alta calidad. Estos resultados apuntan a desigualdades en la relación médico-paciente, ya que los pacientes que comparten características comunes con sus médicos (origen urbano y mayor escolaridad), o que consultan en USF con atención primaria de mayor calidad, tienen relaciones más satisfactorias. Esto revela la importancia de desarrollar la competencia cultural de los médicos y el impacto de la organización de los servicios en la calidad de las relaciones.

Palabras clave:
Relaciones médico-paciente; Calidad de la atención sanitaria; Evaluación de procesos en la atención sanitaria; Medidas de la experiencia comunicada por el paciente

Introdução

A relação médico-paciente é um elemento central a ser considerado a fim de melhorar a qualidade da saúde das populações. Uma boa relação médico-paciente está associada a diversos efeitos positivos, como maior adesão aos tratamentos e recomendações médicas1, controle de doenças e sintomas, melhor status funcional e psicológico2,3 e satisfação com o cuidado recebido4. Paradigmas consagrados de qualidade colocam a relação médico-paciente como elemento fundamental de qualidade, como o “Quadruple Aim”5, método clínico centrado na pessoa6, e como atributo essencial da atenção primária à saúde (APS)7.

A relação médico-paciente se manifesta através da confiança estabelecida entre o profissional e a pessoa, do comportamento empático do médico e de boas habilidades de comunicação e interação. Isso leva a uma aliança terapêutica, em que objetivos e responsabilidades são estabelecidos em conjunto e se fortalecem por meio de um vínculo construído ao longo do tempo8-11.

Diversos fatores podem interferir no desenvolvimento de uma boa relação entre o médico e seu paciente. Fatores relacionados aos pacientes, como idade, sexo, raça, escolaridade, status socioeconômico e presença de comorbidades estão associados12-15. Em relação aos médicos, as condições de trabalho e a satisfação do médico podem afetar a qualidade da relação, bem como características relacionadas à formação e à experiência profissional16-18.

Escalas psicométricas têm sido usualmente utilizadas para estudar a relação médico-paciente9. No Brasil, encontra-se validado o Patient-Doctor Relationship Questionnaire (PDRQ-9), um instrumento prático e com bons parâmetros psicométricos19 que avalia a relação médico-paciente a partir da perspectiva do paciente, com foco na percepção da disponibilidade para ajuda e na empatia do médico20. O PDRQ-9 já foi utilizado em pesquisas nacionais de avaliação do cuidado da APS21,22.

Como elemento central do cuidado, o PDRQ-9 também deve integrar o conjunto de indicadores de pagamento por desempenho no novo modelo de financiamento federal da APS23. Para superar os desafios de qualidade existentes no Brasil, é importante conhecer os fatores que afetam a relação médico-paciente, obtendo informações que sirvam de subsídio para atuar na melhoria dos resultados em saúde e na experiência com o cuidado24.

O objetivo deste estudo é avaliar a associação de fatores relacionados a pacientes e médicos da atenção primária do SUS com a qualidade da relação médico-paciente, mensurada através do PDRQ-9.

Método

Delineamento e amostra

Trata-se de uma pesquisa aninhada em um estudo transversal de abrangência nacional, realizado para avaliar a qualidade da atenção primária à saúde (APS) no Brasil,com informações fornecidas por diferentes perfis de médicos25. Em cada região do país foram escolhidos municípios com uma probabilidade proporcional ao número de Unidades de Saúde da Família (USF) que adotam a Estratégia de Saúde da Família (ESF). A seleção das USF em cada município ocorreu por meio de amostragem sistemática, estratificada pelo número de equipes da ESF. Os dados para a seleção da amostra foram obtidos através de uma lista de todos os médicos que atuam na ESF no Brasil, fornecida pelo Ministério da Saúde.

Em cada USF selecionada foram entrevistados, no próprio local, usuários adultos, seguindo uma seleção consecutiva após a consulta médica. Esses usuários responderam ao questionário PDRQ-9, à versão curta do Instrumento de Avaliação da Atenção Primária - PCATool-Brasil e a perguntas estruturadas sobre variáveis sociodemográficas, morbidade e qualidade do cuidado recebido. Todos os médicos selecionados foram entrevistados também por meio de questionário estruturado reduzido, com questões sociodemográficas, formação e experiência do profissional, e da Warr-Cook-Wall Job Satisfaction Scale, instrumento de avaliação da satisfação com o trabalho voltado para profissionais de saúde26. A coleta de dados ocorreu entre julho e novembro de 2016.

O cálculo amostral do estudo original contemplava 6.193 usuários, distribuídos em 516 clusters (médicos), visando identificar uma diferença de 0,3 ponto nos escores do PCATool-Brasil entre os grupos. Considerou-se desvio padrão de 1,7, efeito de delineamento (DEFF) de 3,4 e perdas de 20%, com poder estatístico de 80% e significância de 5%. O número total de usuários foi distribuído igualmente entre os três grupos de médicos, optando-se por entrevistar 12 pacientes por médico.

Para discriminação de uma relação paciente de alta qualidade, avaliada através do PDRQ-9, foi utilizado o ponto de corte de 3,5 no escore do instrumento, que tem variação possível de 1 a 5 (escores maiores indicam melhor relação). O ponto de corte foi selecionado através de utilização do índice de Youden.

Critérios de inclusão

Para médicos: atuar há pelo menos 12 meses na UBS selecionada. Para pacientes: maior de 18 anos; ter se consultado com o médico selecionado no mesmo dia e ao menos uma vez anteriormente à entrevista; ter condições de responder ao questionário.

Análise estatística

As variáveis qualitativas foram descritas utilizando frequências absolutas e relativas, considerando a amostra total e também estratificada por alto e baixo escore do PDRQ-9. As variáveis associadas ao alto escore do PDRQ-9 foram identificadas por meio da equação de estimação generalizada (EEG) mediante distribuição de Poisson, com estimativa robusta da variância, sendo exibida a razão de prevalência (RP) e seus respectivos intervalos de confiança (IC). O método de estimação generalizada considera a estrutura de correlação entre as observações e é empregado sobretudo em análises com desfecho binário27. Especialmente neste estudo, os pacientes estão agrupados por médicos (serviço de saúde), sugerindo a necessidade de contemplar a correlação entre os pacientes de um mesmo médico no modelo ajustado28,29. Para uma melhor modelagem, foram utilizadas as informações dos clusters (médicos) com mais de seis entrevistas de pacientes.

No modelo multivariável foram incluídas, inicialmente, as variáveis explicativas que se mostraram individualmente associadas ao alto escore do PDRQ-9, com p-valor inferior a 0,20 no teste Wald. Em seguida foram excluídas de maneira sucessiva as variáveis com p-valores mais elevados, visando um modelo apenas com variáveis cujo p-valor é inferior a 0,05. Em se tratando da adequação do modelo, foram avaliadas por meio do teste de Wald-Wolfowitz e do critério de quase-verossimilhança sob o modelo de independência (QIC), assim como pela realização da inspeção gráfica dos resíduos de Pearson. Todas as análises foram feitas no Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 23.

Aspectos legais e éticos

Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, CAAE 48653615.6.0000.5327.

O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado por todos os entrevistados. Os questionários foram aplicados nas unidades de saúde, por meio de ferramenta eletrônica (tablet), por entrevistadores treinados. As informações foram transferidas de maneira anônima para análise.

A pesquisa foi financiada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Resultados

As características dos participantes são apresentadas na Tabela 1. A maioria dos 5.971 pacientes incluídos na amostra são mulheres, com cor da pele autodeclarada não-branca e com idade superior a 45 anos. Dois terços são portadores de ao menos uma das comorbidades crônicas questionadas (hipertensão arterial, diabetes mellitus, doença respiratória (asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica), depressão, obesidade e tabagismo. A maioria consultou em USF com alto escore de APS, avaliado através do PCATool-Brasil, e teve mais de três consultas nos últimos 12 meses.

Tabela 1
Descrição da amostra de pacientes e médicos. Brasil, 2016.

Em relação aos 494 médicos participantes do estudo, a maioria é mulher com até 40 anos de idade. A maior parte dos médicos tem especialização em medicina de família e comunidade (MFC), tem mais de cinco anos de experiência de trabalho na APS e está há mais de dois anos na mesma USF.

A Tabela 2 apresenta as razões de prevalência (RP) dos fatores que foram associados a uma alta qualidade da relação médico-paciente, de acordo com o PDRQ-9, nas análises uni e multivariada.

Tabela 2
Modelo univariável e multivariável das características associadas ao alto escore do PDRQ-9* por meio do modelo de equações de estimação generalizada. Brasil, 2016.

Em relação às características do pacientes, na análise univariada houve associação de melhor relação médico-paciente com residir em município urbano, sexo masculino, ter dez ou mais anos de estudo, estar trabalhando ou aposentado, pertencer às classes socioeconômicas ABC, obter a consulta no mesmo dia em que procurou atendimento, ter se consultado mais de três vezes no último ano com o seu médico e ser atendido em USF com alto escore de qualidade da APS. Em relação às características dos médicos, na análise univariada houve associação com ter especialização em MFC e atender até 12 pacientes por turno de trabalho.

Na análise multivariada, apenas características dos pacientes se mantiveram significativamente associadas à qualidade da relação médico-paciente: residir em município urbano, sexo masculino, ter dez ou mais anos de estudo, conseguir a consulta no mesmo dia em que procurou atendimento, ter se consultado mais de três vezes no último ano com o seu médico e ser atendido em USF com alto escore de qualidade da APS.

Discussão

A partir de fatores relacionados a pacientes e médicos da APS do SUS avaliados nesta pesquisa, foi possível encontrar associação da qualidade da relação médico-paciente com o paciente residir em município urbano, ser do sexo masculino, ter dez ou mais anos de estudo, conseguir a consulta no mesmo dia em que procurou atendimento, ter se consultado mais de três vezes no último ano com o seu médico e ser atendido em USF com alto escore de qualidade da APS.

De maneira geral, esses achados estão alinhados com outras pesquisas que buscaram identificar fatores associados à relação médico-paciente12,30,31. Chama atenção a falta de associação com cor da pele e idade do paciente, algo presente em outros estudos31,33. Normalmente representando um fator de iniquidade, essas associações não foram encontradas no presente estudo. Ao mesmo tempo, outros fatores possivelmente relacionados à iniquidade foram identificados, como a associação positiva entre a qualidade da relação médico-paciente e variáveis como sexo masculino, residência em municípios predominantemente urbanos e maior nível de escolaridade. Esses achados estão em consonância com a literatura30-32. A menor qualidade da relação médico-paciente observada entre mulheres pode ser explicada por vieses de gênero, seja pela possibilidade de receberem uma atenção de menor qualidade ou pela tendência das mulheres de avaliar o cuidado recebido de forma mais crítica do que os homens, possivelmente devido a uma maior exigência quanto ao atendimento de suas necessidades.

A associação entre a qualidade da relação médico-paciente e fatores como urbanização e escolaridade, características frequentemente compartilhadas pelos próprios médicos, sugere uma dificuldade em estabelecer boas relações com pacientes que apresentam perfis socioculturais distintos. Nesse contexto, a competência cultural, atributo derivado da APS, torna-se fator essencial a ser considerado no Brasil para reduzir essas disparidades. A competência cultural diz respeito à capacidade de reconhecer e atender às necessidades particulares de subpopulações que podem não ser visíveis por conta de suas especificidades étnicas, raciais ou culturais7. Dessa forma, é um elemento fundamental a ser incorporado no atendimento clínico, especialmente em contextos de iniquidades.

A presença de multicomorbidade não esteve associada com a relação médico-paciente, fator encontrado em outras pesquisas12,15. Contudo, a gravidade das comorbidades é o mediador da associação, nesse caso. Não foi avaliada a gravidade das comorbidades na atual pesquisa, podendo ser essa a explicação da falta de associação.

Características relacionadas ao médico, como carga de trabalho e especialização em MFC, foram associadas a melhor relação médico-paciente na análise univariada, o que encontra respaldo na literatura17,18. Contudo, nenhuma característica relacionada ao médico se manteve na análise multivariada. Essa ausência pode ser explicada, ao menos em parte, pela menor amostra e maior homogeneidade das características dos médicos entre si, quando comparados com a amostra de pacientes.

A capacidade de obter uma consulta no mesmo dia para um problema espontâneo, bem como um alto escore de qualidade da APS, mantiveram-se associados na análise multivariada. Caraterísticas do serviço de saúde influenciam a forma como a relação médico-paciente se desenvolve. A longitudinalidade é um componente importante da relação médico-paciente, assim como um atributo essencial da qualidade dos serviços de APS7. Ela não está presente de maneira consistente em todos os países e depende do sistema de saúde, com alguns serviços focados apenas em fornecer acesso, mas não necessariamente como o mesmo médico ao longo do tempo. Serviços de saúde organizados de forma a oferecer acesso de qualidade e efetividade no atendimento contribuem para o desenvolvimento de uma melhor relação entre médico e paciente, o que também encontra respaldo na literatura30,34.

Em suma, mantiveram-se associadas com a qualidade da relação médico-pacientes as características dos pacientes que apresentam semelhança sociocultural com a dos médicos, bem como características do serviço de saúde. Isso aponta para a importância do desenvolvimento da competência cultural por parte dos médicos, bem como a organização qualificada dos serviços de APS, de forma a impactar de forma relevante a relação médico-paciente e, consequentemente, a qualidade do cuidado oferecido.

Este foi o primeiro estudo a utilizar as categorias de qualidade da relação médico-paciente estabelecidas a partir do escore do PDRQ-9. Sua utilização permitiu uma compreensão mais simples e intuitiva dos resultados, uma vez que as características de médicos e pacientes foram associadas a uma categoria de qualidade (em vez de um valor no escore de qualidade), o que também facilitou a comunicação das conclusões. O fato de se tratar de uma amostra nacional confere maior validade externa aos resultados.

Por ser um estudo transversal, não é possível fazer inferências causais em relação aos fatores encontrados, cabendo a novas pesquisas aprofundarem essa discussão com metodologias adequadas. Da mesma forma, as covariáveis incluídas não pretenderam ser exaustivas em relação às possibilidades relevantes. Outros fatores não estudados podem estar implicados, sendo outra possibilidade de pesquisa. O estudo foi realizado com dados coletados em 2016. A relação médico-paciente tende a ser um elemento relativamente estável ao longo do tempo. Contudo, mudanças sociodemográficas ou culturais nesse período podem impactar da interpretação dos resultados no contexto atual.

A relação médico-paciente está presente como elemento central da qualidade do cuidado, inclusive integrando indicadores de qualidade dos sistemas de saúde e esquemas de avaliação e pagamento por desempenho. A partir dos resultados deste estudo, pesquisadores, profissionais e gestores podem aprofundar a discussão da influência de características de médicos, pacientes e serviços de saúde na qualidade da relação médico-paciente. Isso permitirá desenvolver iniciativas de qualificação profissional e do serviço de saúde que busquem reduzir as iniquidades e oferecer um cuidado centrado nas pessoas, respeitando suas necessidades, características e valores.

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  • Financiamento
    Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
  • Editores-chefes:
    Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    Jul 2025

Histórico

  • Recebido
    26 Jul 2024
  • Aceito
    09 Dez 2024
  • Publicado
    11 Dez 2024
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