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Validade e confiabilidade das medidas de confiança interpessoal: o barômetro das Américas

Validity and reliability in measurements of interpersonal trust: the Americas barometer

Lucio Rennó Sobre o autor

Resumo

Using an innovative databank, this article conducts validity and reliability tests for various measures of the concept of interpersonal trust. The Brazilian round of the Americas Barometer 2008 included different measures of the interpersonal trust concept, allowing the evaluation of its internal consistency and external validity. After a battery of tests, the conclusion is that the measure of interpersonal trust traditionally used in series like the World Values Survey, Eurobarometer, and Latinobarometer suffers from serious validity and reliability problems.

interpersonal trust; measurement; validity; reliability


interpersonal trust; measurement; validity; reliability

Validade e confiabilidade das medidas de confiança interpessoal: o barômetro das Américas* * Agradeço ao Projeto de Opinião Pública da América Latina (LAPOP) pelo Small Grants Award que propiciou a realização desta análise. Também fico muito grato a um parecerista anônimo da revista DADOS pelos valiosos comentários.

Validity and reliability in measurements of interpersonal trust: the Americas barometer

Lucio Rennó

Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Brasília, DF, Brasil (e-mail: lucio_renno@yahoo.com)

ABSTRACT

Using an innovative databank, this article conducts validity and reliability tests for various measures of the concept of interpersonal trust. The Brazilian round of the Americas Barometer 2008 included different measures of the interpersonal trust concept, allowing the evaluation of its internal consistency and external validity. After a battery of tests, the conclusion is that the measure of interpersonal trust traditionally used in series like the World Values Survey, Eurobarometer, and Latinobarometer suffers from serious validity and reliability problems.

Key words: interpersonal trust; measurement; validity; reliability

INTRODUÇÃO

Confiança interpessoal é um conceito central nas ciências sociais, sendo muito aplicado à discussão sobre cultura política (Almond e Verba, 1965; Inglehart, 1988), capital social (Coleman, 1998; Putnam, 1994) e redes sociais (Granovetter, 1973; Burt, 2000). A confiança, portanto, está na essência de relações causais complexas que vinculam as crenças e ações de indivíduos ao funcionamento de organizações e instituições, levando a resultados positivos coletivos e individuais.

Por exemplo, em nível individual, Coleman indica que confiança interpessoal e capital social podem contribuir para a formação de capital humano (1998). Indivíduos que estão envolvidos em redes sociais, com altos níveis de confiança, obtêm dividendos de sua colaboração com outros, aumentando o acesso a diferentes recursos.

No estudo de organizações, as características de redes como a força de vínculos entre indivíduos, o que inclui a confiança interpessoal, podem aumentar o potencial de difusão de informação e inovação (Burt, 2000). A confiança também está relacionada à participação em organizações voluntárias, pois aumenta a probabilidade de os indivíduos interagirem com outros (Putnam, 1994). Em ambos os casos, a confiança é catalisadora da ação coletiva, da colaboração e coordenação entre indivíduos, melhorando o funcionamento de redes e organizações.

Além disso, a confiança interpessoal também tem um papel em nível macro, relacionada a resultados referentes à sociedade. Uma sociedade rica em confiança interpessoal, redes sociais e organizações voluntárias tem mais probabilidade de sustentar instituições políticas eficientes, assim como obter melhores resultados econômicos. Uma sociedade civil ativa impõe controle social sobre as instituições políticas e econômicas, aumentando a responsabilização política (accountability) e a eficiência econômica (Putnam, 1994). Outra abordagem vincula a confiança interpessoal com uma síndrome atitudinal específica que é favorável ao desenvolvimento de instituições democráticas (Almond e Verba, 1965; Inglehart, 1988). A confiança também está relacionada ao comportamento em conformidade à lei, tolerância e reciprocidade; todos conducentes ao apoio difuso à democracia. Em última instância, dentro desta perspectiva, regimes democráticos estáveis são constituídos por indivíduos com altos níveis de confiança interpessoal.

Dessa forma, fica claro que a literatura especializada sobre o tema aponta para efeitos da confiança interpessoal em diversos níveis de análise. Apesar de seu papel central em tantas abordagens teóricas, a discussão sobre a mensuração da confiança interpessoal é rara e superficial, especialmente na ciência política1 1 . Para uma exceção, veja Seligson e Rennó (2000) e Lundasen (2002). . Outras disciplinas, como a psicologia e a economia têm feito avanços mais substanciais (Glaeser et alii, 2000; Miller e Mitamura, 2003). Nossa proposta é de contribuir para esse debate em andamento. O propósito deste artigo é avaliar as estratégias de mensuração utilizadas na operacionalização da confiança interpessoal em estudos comparados de opinião pública. O principal objetivo é contrastar diferentes formas de mensuração da confiança interpessoal utilizando o Barómetro das Américas.

Este artigo utilizará variações na formulação de perguntas sobre confiança interpessoal inseridas principalmente na rodada do Barómetro das Américas de 2008, e parcialmente replicadas em 2010 no Brasil. Houveram diferenças dramáticas nos resultados em nível agregado, dependendo do enunciado e alternativas de resposta dos itens testados.

A Figura 1 apresenta os resultados comparando os vários países incluídos no Barómetro das Américas contrastando a média da confiança interpessoal em cada um. O Brasil aparece quatro vezes para cada medida diferente de confiança interpessoal utilizada nos dois anos de realização da pesquisa - 2008 e 20102 2 . Todos os países aparecem com abreviações comumente usadas de seus nomes e indicam o ano da coleta de dados (08 ou 10 para 2008 e 2010). Assim, Canadá em 2008 aparece na tabela como CA08, CR08 indica a Costa Rica em 2008, e assim sucessivamente. . A barra BR08 e BRIO indica o ano de coleta do dado para a medida tradicional de confiança interpessoal no Brasil, medida de forma idêntica aos demais países incluídos no Barómetro das Américas. BR08IT e BR10IT, por sua vez, foram testadas exclusivamente no Brasil, com uma ligeira diferença no enunciado da pergunta e nas alternativas de resposta, que serão descritas em detalhe adiante.


A diferença na posição do Brasil na Figura 1 na classificação das respostas agregadas varia dramaticamente dependendo da formulação do item de confiança interpessoal. Com a formulação tradicional, o Brasil ocupa as últimas posições na distribuição de países, à frente apenas de Peru e Haiti, que consistentemente ocupam a rabeira do ordenamento tanto em 2008 quanto em 2010. Já com a formulação levemente alterada, a posição do Brasil no ranking muda significativamente, indo para o topo da distribuição, ficando próximo de Canadá, Estados Unidos e Costa Rica, países com o mais longo histórico democrático na região. Esse achado levanta importantes questões sobre a sensibilidade do conceito às suas medidas, e trás à tona dúvidas sobre a validade e confiabilidade das medidas de confiança interpessoal, especialmente em nível agregado (Seligson, 2002).

No mais, é interessante reparar que a há pouca variação no posicionamento dos países nas coletas em 2008 e 2010. Ou seja, há certa estabilidade no tempo no posicionamento dos países quando os comparamos no tempo usando a mesma medida. Isso indica certa confiabilidade da mensuração - a mesma medida aplicada em amostras distintas apresenta resultados semelhantes. Mas, isso não quer dizer que essa medida seja uma boa mensuração do conceito de confiança interpessoal. Ela pode ser confiável, no sentido de estável no tempo, mas inválida, no sentido de não medir aquilo que de fato queremos mensurar. Portanto, é possível especular que a mensuração do conceito de confiança interpessoal sofra mais claramente de patologias relacionadas à sua validade do que sua confiabilidade.

As diferenças drásticas nos resultados apresentados acima, principalmente quando contrastamos o uso de formas distintas de mensurar a questão da confiança interpessoal no Brasil, indicam um potencial problema de falta de validade dessa medida. Se as duas formas de mensurar o conceito se referem à mesma ideia, então diferenças na formulação não deveriam levar a variações substantivas tão grandes. Ao cabo, esse achado levanta a possibilidade de que há erros sistemáticos de mensuração do conceito de confiança interpessoal na forma em como ele é costumeiramente mensurado.

Testamos esta conjectura utilizando dados das rodadas do Barómetro das Américas no Brasil e América Latina em 2008 e 2010. Assim, podemos testar como diferentes medidas de confiança se comportam quando coletadas simultaneamente em distintos contextos. Portanto, conduziremos vários testes de confiabilidade e validade das diferentes medidas de confiança interpessoal. Baseamos nossa discussão numa combinação de técnicas, conforme sugestão de Carmines e Zeller (1979).

Antes de prosseguir, cabe definir esses dois conceitos-chave para a análise: confiabilidade e validade. Confiabilidade se refere a quão consistentes são as medidas de um mesmo conceito. Assim, os testes de confiabilidade avaliam as comunalidades, covariação entre itens que medem um mesmo conceito ou suas diferentes dimensões e são baseados em estimativas de correlação entre itens. Técnicas estatísticas de estimação, como o coeficiente Alpha de Cronbach e análises fatoriais ajudam a entender a dimensionalidade latente de um conceito, quando mensurado por múltiplos itens. A confiabilidade também é mensurada pela consistência dos resultados obtidos com a mesma medida quando aplicada em diferentes momentos no tempo, com amostras similares. Assim, confiabilidade refere-se principalmente às propriedades de mensuração de uma medida. Uma analogia é com a ideia de calibragem de uma balança: uma medida confiável é aquela que sempre que aplicada, apresenta resultados fiéis ao estado verdadeiro da variável que se quer medir. Ou seja, mantendo-se constantes as condições de pressão e temperatura, um instrumento confiável de mensuração apresentará sempre resultados idênticos para o mesmo objeto mensurado.

Validade, por outro lado, é um conceito mais complexo. De acordo com Adcock e Collier (2001) e Fowler (1995), validade refere-se a quão bem uma medida capta a ideia que embasa um conceito teórico. Assim, validade é aferida em relação à teoria que aponta as causas e consequências que determinado conceito tem sobre outros conceitos. Uma forma de avaliar a validade de uma medida se dá por meio da análise sobre como essa medida se relaciona com medidas de outros conceitos, onde a teoria prevê uma relação (Adcock e Collier, 2001). Os testes de validade são, em grande parte, baseados em análise de correlação e regressão, já que busca avaliar o que causa a variação em certa variável e os possíveis efeitos dessa variável sobre outras. Cabe também destacar que, segundo Adcock e Collier, avaliações da validade de um conceito são específicas ao contexto espacial e temporal em que o conceito é mensurado, pois uma mesma medida de um conceito pode ter efeitos e causas distintas em diferentes contextos e não serem adequadas para todos os casos (Adcock e Collier, 2001:534). Em pesquisas de opinião pública entre países este problema é particularmente preocupante, pois o significado das palavras e expressões pode variar quando traduzida para diferentes idiomas ou até mesmo regiões dentro de um país. A tradução de conceitos para diferentes línguas, mantendo significados idênticos nas diferentes línguas, é tarefa central para redes de pesquisa comparadas, como o Barómetro das Américas, Latinobarômetro, World Values Survey, entre outras. Portanto, a operacionalização de conceitos mediante questionários em pesquisas desse tipo são especialmente sensíveis à formulação e tradução dos itens. Nesse caso, testes de validade devem ser feitos com vistas a contemplar a variação contextual. Assim, é importante avaliar se a validade de uma medida é mantida quando testada em diferentes países. Também implementamos esta ideia no nosso estudo ao testar a validade da medida de confiança interpessoal tradicional em diferentes países incluídos no Barómetro das Américas.

Em suma, nosso objetivo é submeter as diferentes medidas de confiança interpessoal a uma bateria de testes para avaliar sua saúde metodológica, oferecendo, ao cabo, um diagnóstico da qualidade da medida em relação à sua confiabilidade e validade. O artigo primeiramente discute as definições de confiança interpessoal e como preocupações conceituais se relacionam com as avaliações de confiabilidade e validade. Em seguida, são descritas as diferentes medidas de confiança interpessoal utilizadas na rodada brasileira do Barómetro das Américas. Finalmente, os testes de confiabilidade e validade são realizados e apresentamos as conclusões do estudo.

DEFINIÇÕES SOBRE CONFIANÇA INTERPESSOAL

A operacionalização de conceitos teóricos é sempre uma tarefa desafiadora nas ciências sociais. Podemos, inclusive, afirmar que nossos conceitos são tão úteis quanto mais precisa e correta for sua forma de mensurarão. Sendo assim, teorizar e mensurar são tarefas inseparáveis e indistinguíveis nas ciências sociais: são duas faces da mesma moeda. Nesse sentido, apresentamos aqui evidências de que o conceito de confiança interpessoal enfrenta longo caminho adiante, tanto em termos teóricos quanto empíricos.

A confiabilidade e a validade das medidas de confiança interpessoal não foram suficientemente verificadas, especialmente em pesquisas comparativas entre países. Em geral, usa-se a medida tradicional de confiança interpessoal, conforme disponível na série World Values Survey, na qual a pergunta pede ao entrevistado que se posicione frente à uma pergunta com duas alternativas de resposta: Você acredita que se pode confiar na maioria das pessoas ou é melhor tomar cuidado ao lidar com as pessoas? Esse único item é amplamente utilizado em pesquisas ao redor do mundo e no Brasil. Estudos importantes sobre confiança nas pessoas e nas instituições, como a coletânea organizada por José Alvaro Moisés, baseiam-se em medidas únicas de confiança interpessoal (2010). Ponte (2010), estudando o caso mexicano, e Moisés e Carneiro (2010) e Moisés (2010), que enfocam o caso brasileiro, incluem a confiança interpessoal, mensurada da forma descrita acima, em modelos sobre distintas formas de apoio ao regime democrático. Essa vertente de pesquisa segue a dinâmica proposta por Ronald Inglehart, em seus diversos estudos.

A confiabilidade dessa medida baseada em um único item, no entanto, somente pode ser avaliada ao longo do tempo em uma mesma amostra ou em diferentes amostras coletadas em momentos aproximados no tempo. Ou seja, avaliar a confiabilidade de uma única medida é tarefa árdua. Não obstante, tais análises de confiabilidade podem ainda sofrer problemas de comparabilidade devido a efeitos de contexto, nesse caso entendidos como questões relacionadas à posição do item nos questionários, que varia de uma pesquisa para a outra (Fowler, 1995). Assim, não podemos saber ao certo quanto a operacionalização do conceito de confiança por meio de uma única medida sofre de erros sistemáticos causados pelo desenho da pergunta.

Uma medida melhor de confiança interpessoal, do ponto de vista da verificação de confiabilidade, seria uma escala composta por mais de dois itens, permitindo testes de confiabilidade interitens utilizando o coeficiente Alpha de Cronbach, que resume a covariação entre diversos itens, e outras técnicas, como a análise fatorial. Com as opções de mensuração propostas na rodada de 2008 do Barómetro das Américas no Brasil, que inclui vários itens distintos de confiança interpessoal, a confiabilidade pode ser verificada de forma mais específica. Portanto, a primeira lição importante é que itens de confiança interpessoal em pesquisas de opinião pública comparadas deveriam permitir testes de confiabilidade antes de avançar para testes mais sofisticados de hipóteses.

Se levarmos em consideração que diversos estudos apontam para a multidimensionalidade do conceito de confiança interpessoal, o uso de escalas passa a ser ainda mais recomendado para captar essas distintas dimensões (Seligson e Rennó, 2000; Putnam, 1994; Stolle, 1998; Fowler, 1995). Seligson e Rennó diferenciam dimensões internas versus externas da confiança. A dimensão interna diz respeito a quanto a pessoa entrevistada confia nas demais. A dimensão externa se refere à perspectiva de quão confiáveis os outros são e quanto as pessoas em geral são dignas de confiança. Neste caso a pergunta aos entrevistados é sobre sua percepção acerca de como as pessoas em geral confiam umas nas outras. Por outro lado, uma segunda dimensão é a diferenciação entre formas particularizadas e generalizadas de confiança, em que a primeira se refere à confiança em pessoas próximas aos entrevistados e a segunda ao público mais geral, mais distante do entrevistado (Putnam, 1994; Stolle, 1998). Essa última forma é a tradicionalmente avaliada em pesquisas de opinião. A confiança generalizada está relacionada à ideia de Granovetter sobre vínculos fracos entre indivíduos, facilitando a disseminação de informação (1973). Assim, a confiança generalizada passa a ser essencial para a governança democrática, pois facilita a coordenação entre o indivíduo e grupos sociais (Warren, 1999). Portanto, se há mais do que uma dimensão da confiança interpessoal, é possível formular novas hipóteses sobre como distintos aspectos da confiança interpessoal relacionam-se com outras variáveis. Ou seja, essa discussão estimula um esforço de repensar os vínculos teóricos entre o conceito de confiança interpessoal e outras variáveis com as quais diferentes teorias apontam alguma relação, como engajamento cívico, valores democráticos, entre outros. Como já foi dito, testes sobre a dimensionalidade de confiança são raros.3 3 . Ver Uslaner (1999) para uma exceção. A maioria dos estudos enfoca um único item de confiança e o usa para testar teorias que relacionam o comportamento de confiança ao engajamento cívico, bem-estar e apoio à democracia (Inglehart, 1988,1999).

A discussão sobre a dimensionalidade de confiança interpessoal se refere a como o conceito é definido e entendido. Portanto, está vinculada ao entendimento teórico de confiança e sua estrutura conceituai. A clareza conceituai também é muito importante para avaliações de confiabilidade e validade. Se confiança é definida de uma forma que indica dimensões múltiplas, então as medidas de confiança devem refletir tal multidimensionalidade. Se o conceito é definido de forma imprecisa ou não há consenso sobre o significado do conceito, sua mensuração torna-se ainda mais complexa. Esse parece ser o caso do conceito de confiança interpessoal.

De certa forma, dado que estamos discutindo o significado de nossas medidas e sua relação com conceitos, é importante associar a discussão sobre validade com a de alargamento conceituai ou imprecisão teórica (conceptual stretching) (Sartori, 1970; Collier e Mahon, 1993). Estes últimos chegam a afirmar que questões sobre estiramento conceituai e sua capacidade de ser aplicado a diferentes contextos se traduzem na discussão sobre mensuração pela investigação sobre a validade das medidas. Em outras palavras, validade está baseada em uma reflexão sobre como definimos nossos conceitos e estipulamos teoricamente sua influência sobre outros conceitos. Portanto, a definição do conceito, feita pela teoria, deve ser levada em consideração em testes sobre confiabilidade e validade. Em suma, para poder discutir questões de validade, bem como confiabilidade, é fundamental revisar a definição e a teoria por trás do conceito de confiança.

Confiança interpessoal é um desses conceitos que todos parecem entender, mas que não tem uma definição clara e consensual (Hardin, 1999). Existem muitas definições concorrentes e, às vezes, obscuras de confiança interpessoal. Uma amplamente citada é a de confiança interpessoal como "interesse encapsulado", em que uma pessoa confia em outra quando a segunda tem interesses investidos em atingir os propósitos da primeira (Hardin, 1999). Nesta perspectiva, a confiança é baseada no conhecimento de uma pessoa sobre as preferências de outro indivíduo e, baseado nestes interesses e preferências, forma expectativas sobre o comportamento do outro indivíduo. Assim, confiar é um ato calculado baseado no conhecimento dos interesses do outro. Só se confia quando se sabe que os interesses não são conflitantes com aqueles da pessoa em quem se confia. Isto levanta uma situação curiosa: como se inicia uma relação de confiança? Em outras palavras, a definição de Hardin de confiança parece inexoravelmente conectada à ideia de confiança personalizada, em que os indivíduos têm laços fortes e intensos entre si ou, ao menos, algum acesso à informação sobre o outro cidadão que pode ser intermediada por amigos ou baseada em reputações. De qualquer forma, na perspectiva de Hardin, não faz sentido confiar em estranhos.

Offe apresenta uma definição similar de confiança, baseada no conhecimento sobre o comportamento dos outros e em avaliações de risco de se envolver em relações baseadas na confiança interpessoal. "Confiança é a crença com relação à ação esperada de outros" (Offe, 1999:47). Crença, neste caso, é a estimativa de probabilidade que outros não agirão de forma a prejudicar a pessoa que confia ou outro envolvido na relação. Como é uma probabilidade, não há certeza de que a confiança não levará a comportamentos que coloquem em perigo o que confia. Portanto, sempre há risco envolvido nas relações de confiança. Obviamente, o risco é diminuído pela quantidade de informação que um tem sobre o outro, que pode ser baseada em experiências anteriores com aquela pessoa, reputações e a intermediação de terceiros. Contudo, e este é o ponto principal de Offe, não há forma de saber exatamente quanta informação e monitoramento são necessários para que haja confiança. De fato, confiança não é necessária quando se tem informação completa. Assim, informação demais excede os benefícios da confiança. Nesta perspectiva, a confiança é um atalho para a plena informação. Se eu confio em você, não preciso investir muito em monitoramento e na coleta de informações. Portanto, confiança, na perspectiva de Offe, não depende necessariamente de relações fortes entre indivíduos e pode extrapolar a rede pessoal.

Por outro lado, a discussão de Mansbridge (1999) sobre confiança altruísta ajuda a entender como relações de confiança se iniciam entre estranhos. De acordo com este autor, há uma base moral para a confiança, dado que cidadãos podem ter perspectivas gerais sobre quão confiáveis os outros são. A ideia aqui é que a noção de ser confiável é independente da quantidade de informação que se tem sobre os interesses e preferências de outros. Neste caso, considerar as demais pessoas confiáveis é uma atitude baseada em perspectivas mais amplas sobre natureza humana e expectativas sobre como todos, em geral, devem ser tratados. Em vez de calcular o risco envolvido em confiar nos outros, na essência da definição de Hardin e também Offe, Mansbridge argumenta que a pessoa "A" confia em outros porque "A" se beneficia da confiança recebida de outros: a ideia de tratar os outros como gostaria de ser tratado está na essência dessa definição. A perspectiva de Mansbridge se aproxima mais à dimensão de confiança generalizada, que vai além dos ciclos restritos das redes pessoais do indivíduo.

Todos estes autores, no entanto, não tentam operacionalizar o conceito de confiança de forma empírica. De fato, algumas das propostas acima não são claramente operacionalizáveis. Hardin, Offe e Mansbridge não estão preocupados em oferecer comentários sobre como medir as diferentes ideias representadas pelo conceito de confiança. Mas, suas colaborações indicam claramente o grande desafio de se mensurar apropriadamente - sem erros sistemáticos - um conceito tão complexo.

Para tal tarefa, normalmente usa-se uma definição mais simples. Confiança é considerada, na maioria das vezes, como sinônimo de reciprocidade (Putnam, 1994, Inglehart, 1988, 1999; Uslaner, 1999). Nessa perspectiva, uma pessoa age de certa forma esperando que outros reagirão de forma semelhante no futuro e essa predisposição leva os indivíduos a "darem um voto de confiança" aos demais. Há aqui certa semelhança com o conceito de confiança proposto por Mansbridge, que mais claramente assume esse traço atitudinal, incondicional, ao contrário das outras definições que trazem embutidas ideias de condicionalidade, ou de um caráter situacional da confiança interpessoal. No caso desses autores, a confiança interpessoal é melhor entendida pelos efeitos que apresenta, como estímulo ao engajamento cívico. Assim, a confiança é mais claramente definida pelo seu impacto sobre outras variáveis do que pelo seu significado preciso.

Parece, portanto, que há pouca clareza sobre o significado de confiança interpessoal, certamente dificultando nossa habilidade de medi-la. Assim, confiança interpessoal sofre, primeiramente, de estiramento conceituai, com consequências diretas para sua mensuração. Claramente, a confiança não é um fenômeno simples de se apreender e é multidimensional. Portanto, é mais apropriado ser medido por um conjunto de indicadores que melhor captam as diferentes facetas do conceito, em vez de uma única medida, baseada em apenas um item de um questionário. Contudo, e ainda mais desalentador, a maioria das operacionalizações de confiança está baseada em um único item com uma formulação ou alguma variação desta: você acredita que se pode confiar na maioria das pessoas ou é melhor tomar cuidado ao lidar com as pessoas?

A estratégia dominante da maioria dos estudos empíricos de confiança interpessoal é evitar sua definição precisa e, no lugar disto, enfocar na indicação de quais são os vínculos teóricos entre confiança e outros conceitos, tais como participação cívica e valores democráticos (Dahl, 1971; Almond e Verba, 1965). Os argumentos iniciais eram muito simples. A confiança interpessoal faz parte de uma síndrome cultural associada a instituições democráticas fortes (Inglehart, 1988). Contudo, Muller e Seligson (1998) questionaram a clareza deste mecanismo causal, indicando que a confiança é, na verdade, um resultado da existência continuada da democracia, e não uma causa da mesma.

Uma consequência dessa crítica é que pesquisas posteriores moderaram suas afirmações sobre a causalidade entre confiança interpessoal e democracia4 4 . Para uma exceção, ver a obra de Ronald Inglehart e também achados recentes de Moisés e colaboradores no caso brasileiro (2010). . A democracia não é necessariamente condicionada por confiança, mas a confiança pode influenciar fatores conducentes ao funcionamento de democracias, tais como participação cívica, redes sociais, responsabilização de políticos e tolerância (Seligson, 1999; Booth e Richard, 2001; Uslaner, 1999; Rennó, 2003). A cadeia causal ainda vincula a confiança interpessoal à democratização e apoio à democracia, apesar de indiretamente (Seligson e Rennó, 2000). A confiança cria incentivos para que indivíduos participem de ação coletiva e desenvolvam valores caros à democracia, como tolerância e sentimentos de empoderamento e de pertencimento. Uma sociedade civil mais ativa, por outro lado, engendra mais controle sobre o Estado, levando a maior transparência e responsabilização. A democracia se beneficia disto. De acordo com Mark Warren (1999), a democracia é dependente destas externalidades positivas de relações de confiança.

As afirmações de cadeias causais entre confiança e outros tipos de comportamento político facilitam testes de validade. Tais testes, como será discutido adiante, requerem o modelamento da relação entre confiança e outros constructos, que deve ser orientada pelo conhecimento teórico e empírico acumulado. Apesar de a discussão sobre a definição de confiança ainda ser inconclusiva, a identificação do efeito de confiança sobre outras variáveis está mais desenvolvida, ajudando a iluminar os testes de validade que se seguem.

Do ponto de vista de validade, os testes devem enfocar se medidas diferentes de confiança são estatisticamente relacionadas aos conceitos com os quais teoricamente espera-se que se relacionam. Do ponto de vista da confiabilidade, a questão é: quantas dimensões têm o conceito de confiança e como a multidimensionalidade potencial está refletida nas medidas existentes. Começamos por esse aspecto e em seguida abordamos a questão da validade5 5 . Essa revisão da literatura não se pretende exaustiva, apenas aponta alguma das contribuições teóricas mais relevantes sobre o tema. Para mais algumas abordagens, veja Newton (1999) e Hardin (2000). .

EXPERIÊNCIAS COM DIFERENTES MEDIDAS DE CONFIANÇA INTERPESSOAL EM PESQUISAS COMPARADAS

A rodada de 2008 e 2010 do Barómetro das Américas no Brasil incluiu vários itens de confiança interpessoal para permitir grande quantidade de testes de confiabilidade e validade. O item tradicional de confiança incluído em todos os países é:

Em inglês:

IT1. Now, speaking of the people from here, would you say that people in this community are generally very trustworthy, somewhat trustworthy, not very trustworthy or untrustworthy...? [Read options]

(1) Very trustworthy (2) Somewhat trustworthy (3) not very trustworthy (4) untrustworthy (8) DK

Em espanhol:

IT1. Ahora, hablando de la gente de aqui, idiría que la gente de su comunidad es ...? [Ler alternativas]

(1)Muy confiable (2) Algo confiable (3) Poco confíable (4) Nada confiable (8) NS/NR

Em português:

IT1. Agora, falando das pessoas daqui, o sr./sra. diria que as pessoas daqui são...?: [Ler as alternativas]

(1) Muito confiáveis (2) Algo confiáveis (3) Pouco confiáveis (4) Nada confiáveis (8) NS/NR

Esse item é o mais similar no Barómetro das Américas à sua versão usada no World Values Survey (WVS), Latinobarômetro e Eurobarômetro, já descrita anteriormente. Contudo, em vez de oferecer alternativas de resposta balanceadas, com duas opções mutuamente excludentes de escolha, como a que é usada no WVS, o item acima oferece quatro escolhas de resposta em uma escala unipolar (mede a intensidade). Perguntas balanceadas, em teoria, são melhores, mas não medem intensidade, ao menos não no formato da questão de confiança no WVS. Para medir intensidade, elas exigiriam outro item, que perguntaria exatamente sobre se a percepção declarada para a pergunta anterior é forte ou fraca. A opção do Barómetro das Américas, assim, inova ao medir a intensidade da confiança. De qualquer forma, esse item é o que mais se aproxima da versão popularizada no WVS.

Fica claro que um primeiro fator de complicação em pesquisas comparativas entre países é a tradução dos itens para os diferentes idiomas. O enunciado da pergunta e as alternativas de resposta das três formulações são muito semelhantes, mas criam uma oportunidade a mais de confusão, como veremos logo adiante. Na Figura 1, discutida na introdução deste artigo, esta é a medida de confiança com baixa pontuação para o Brasil (BR08 e BR1O).

Contudo, na rodada de 2008 e 2010, outra medida de confiança foi incluída na pesquisa brasileira, sendo uma variação direta do item tradicional acima.

BRAIT1. Agora, falando das pessoas daqui, o sr./sra. diria que as pessoas de sua comunidade são dignas de confiança...? [Ler as alternativas]

(1) Muito dignas de confiança (2) Mais ou menos dignas de confiança (3) Pouco dignas de confiança (4) Nada dignas de confiança (8) NS/NR

Essa versão contém duas diferenças em relação ao item de confiança interpessoal tradicional. No enunciado da pergunta a frase "dignas de confiança" substitui "confiáveis". De certa forma, essa opção aproxima a tradução do português à versão em inglês, que menciona "trustworty", ou seja, que pode ser confiado, em vez de simplesmente "trust", confiança. Mas afasta a tradução em português da versão em espanhol, que pergunta quão confiáveis (confiables) são as pessoas da comunidade e não quão merecedoras de confiança estas são. Ou seja, as dificuldades na tradução ficam evidentes.

Estas variações nas traduções remetem ao debate entre as perspectivas de Hardin e Mansbridge sobre confiança. A questão central aqui é o uso da palavra "trustworthy", que foi traduzida de duas formas diferentes no Brasil no experimento realizado no Barómetro das Américas. No formato tradicional, IT1, a pergunta é quantas pessoas do local são confiáveis. Na nova versão, BRAIT1, a tradução de "trustworthy" é mais literal, dignas de confiança. Fundamentalmente, as duas medidas podem também estar se referindo a dois entendimentos diferentes de confiança, com resultados potencialmente variados. De fato, a diferença nos resultados apresentados na Figura 1 pode advir dessa variação no entendimento dos dois itens. Utilizando outras técnicas, como entrevistas em profundidade, é possível testar como realmente são entendidas as diferenças entre as perguntas, mas isto é certamente uma pergunta de pesquisa que deve ser explorada em estudos futuros.

Contudo, a variação nos resultados também pode ser devida a uma segunda diferença na formulação entre os itens IT1 e BRAIT1 referente às alternativas de resposta. A versão em inglês "somewhat" e em português "algo" no IT1 é traduzida na versão BRAIT1 em português como "mais ou menos". Na verdade, essa alternativa gera alguma inconsistência na análise, pois é uma categoria mais comumente utilizada pela população do que "algo", e pode estar atraindo um número desmedido de respostas, já que é uma alternativa mediana pouco precisa. Infelizmente, não poderemos diferenciar os impactos que são causados pela variação na alternativa de resposta ou no enunciado da pergunta. De toda sorte, as variações na formulação desse item tiveram impacto relevante nos padrões de resposta dos entrevistados, o que ficou evidente na Figura 1.

Por sua vez, a Tabela 1 abaixo indica a variação entre os dois itens de confiança. A tradução das alternativas de resposta varia nos dois formatos da questão. Fica claro que a alternativa "mais ou menos", oferecida no item BRAIT1, tem um impacto sobre os resultados. A categoria intermediaria positiva aumenta quando traduzida como "mais ou menos". Se levarmos em consideração que a categoria intermediaria negativa é traduzida em ambos os casos como "pouco", não podemos presumir que "mais ou menos" é entendido como menos positivo do que "algo". Provavelmente é entendido mais amplamente devido ao seu uso mais comum quando comparado a "algo". Adicionalmente, a proporção de respostas nas alternativas mais extremas, "Muito Confiável" e "Nada Confiável", permanece quase idêntica em ambos os formatos. Assim, a variação na formulação afeta exclusivamente as categorias intermediárias do item de confiança e não aquelas que têm uma posição forte com relação à confiança. E interessante notar como os resultados se mantêm bastante estáveis em 2008 e 2010, com um suave aumento nas duas questões de pessoas que respondem "Muito Confiável".

Além desses itens, o questionário do Barómetro das Américas aplicado no caso brasileiro em 2008 também incluiu várias outras medidas de confiança com a intenção de abordar as diferentes dimensões do conceito, especialmente as dimensões particularizadas e generalizadas de confiança.

No Barómetro das Américas em sua rodada brasileira, o questionário inclui os seguintes itens de confiança interpessoal:Gostaria de perguntar em que medida o(a) Sr.(a) confia nos seguintes grupos. O(A) Sr.(a) poderia me dizer se confia totalmente, em parte, pouco ou não confia nas pessoas dos grupos abaixo, (leia e assinale uma resposta para cada item)

Essa bateria de itens se propõe a mensurar as dimensões generalizadas e particularizadas da confiança interpessoal, pedindo que o entrevistado avalie desde pessoas próximas, como família e aqueles que conhece pessoalmente, até desconhecidos, como pessoas que está vendo pela primeira vez, pessoas de outras religiões e países. Notem que as respostas também são compostas por uma formulação ligeiramente diferente dos itens anteriores. Desta vez, a categoria intermediaria superior não está formulada como "algo" ou "mais ou menos", e sim "em parte".

O questionário de 2008 também inclui dois outros itens que foram perguntados em todos os países. Abaixo apresentamos a versão em português. O item IT1B é o costumeiramente usado no World Value Survey e no Latinobarômetro.

IT1A. O quanto o sr./sra. confia em pessoas que conhece pela primeira vez? O sr./sra. diria que: [Ler as alternativas]

(1) Confia plenamente (2) Confia Algo (3) Confia pouco (4) Não confia (8) NS/NR

IT1B. Falando de forma geral, o sr./sra. diria que se pode confiar na maioria das pessoas ou que é melhor tomar cuidado com a maioria das pessoas?

(1) Pode confiar na maioria das pessoas (2) E melhor tomar cuidado com a maioria das pessoas (8) NS/NR

No primeiro formato, IT1A, apenas 2% dos entrevistados respondem que confiam plenamente. Doze por cento dizem que têm alguma confiança, 39% confiam pouco e 44% dizem que não confiam. Como esse item assemelha-se ao BRAIT2E da série anterior, cabe uma comparação de suas distribuições de frequência. Os resultados, de fato, são bastante parecidos. Neste último item, a distribuição é 2% confiam totalmente, 14% confiam em parte, 32% confiam um pouco e 49% não confiam. Os resultados para as opções "confia algo" e "confia em parte" são praticamente idênticos nas duas questões, mostrando que não há muita diferença no uso desses adjetivos para a qualificação da resposta. O que muda um pouco são as respostas mais extremas de ausência de confiança, realçadas no item BRAIT2E.

Já no item IT1B, 93% dos entrevistados afirmam que é melhor ter cuidado com as outras pessoas. Nesse caso, quando comparamos essa resposta com a alternativa mais utilizada no Barómetro das Américas, IT1, apresentada na Tabela 1, fica claro que a existência de quatro opções oferece mais variações de resposta, que se distribuem de forma mais equânime pela população. Aparentemente, o formato da pergunta que é usado no WVS e Latinobarômetro exagera a predominância da desconfiança. Ao menos, isso fica claro no caso brasileiro. Teria sido melhor oferecer ao entrevistado, após a opção balanceada, uma alternativa que medisse a intensidade da opinião, perguntando em um formato de branching se o entrevistado pensa assim fortemente ou fracamente (Fowler, 1995). Na ausência dessa pergunta posterior, o item IT1B deixa de captar variação significativa nas respostas dos entrevistados. Lembre-se, esse é o item utilizado pela maior parte das pesquisas correntes embasadas no Latinobarômetro, WVS e similares no Brasil. Dessa forma, temos mais evidências de que essa modalidade de mensurar a confiança interpessoal tende a subestimar o nível dessa atitude.

Não obstante, as diferentes medidas podem indicar distintas dimensões do conceito de confiança, raramente analisadas em pesquisas comparadas, permitindo testes diversificados de confiabilidade e validade. A essa tarefa nos dedicamos no restante do texto.

TESTES DE CONFIABILIDADE E VALIDADE

Ao analisar temas de mensuração, um primeiro passo é verificar a consistência interna de medidas diferentes do mesmo conceito. Isso, é claro, depende da inclusão de vários itens que abordem o mesmo conceito. Só assim é possível testar as propriedades de uma escala que congregue esses itens. Na maioria das pesquisas comparadas entre países é impossível acrescentar vários itens sobre um mesmo tema ou conceito, dado que há limitações de espaço nos questionários. Portanto, a habilidade de testar a confiabilidade de indicadores de confiança interpessoal é reduzida. Este não é o caso com a rodada brasileira do Barómetro das Américas de 2008, que, como vimos, incluiu vários itens de confiança interpessoal.

A Tabela 2, abaixo, apresenta os resultados de testes de correlações entre-item e o coeficiente Alpha de Cronbach de confiabilidade de escala. Como o item IT1B somente tem duas categorias, todas as outras variáveis com escalas de quatro pontos foram recodificadas como variáveis dicotômicas. Os valores ausentes (missing values) para cada variável, que somados chegam a aproximadamente 2% das respostas em cada item, foram codificados como zero. Assim, as variáveis dicotômicas fazem a diferenciação entre aqueles que apresentam algum nível de confiança, distinguindo os que confiam muito e algo de todos os demais. A diferença em como os itens são formulados afeta a análise, explicando parcialmente por que IT1B parece ser a medida com menor correlação com as outras. Isso ocorre porque as demais medidas foram originalmente formuladas com quatro alternativas de resposta. Para indicar a recodificação das variáveis, acrescentamos a seus nomes o prefixo "r" e o sufixo "dum".

Os resultados indicam que as diferentes correlações entre os itens de confiança interpessoal podem ser convertidas em um único indicador, com o valor total de 0,74 para a escala. Contudo, este resultado pode ser uma consequência do total de itens incluídos na análise (quanto mais, melhor), bem como por um efeito inflacionado pela relação entre alguns poucos itens. A matriz acima indica, de fato, que a série BRAIT2, que varia de BRAIT2A a BRAIT2G, tem a correlação mais forte com o teste e com os itens remanescentes. As medidas tradicionais -IT1, IT1A, IT1B - parecem ter as mais baixas correlações com o resto dos itens. IT1A e IT1B também têm as mais baixas correlações com a pontuação geral do teste. De fato, ao aplicar testes Alpha somente para a série BRAIT, os valores permanecem altos, em .73. Quando aplicamos o mesmo teste somente para os itens tradicionais de confiança - IT1, IT1 A, IT1B - o Alpha cai para .44. Apesar de esses resultados serem afetados pela quantidade de itens em cada escala, a diferença mesmo assim é grande entre as duas escalas. Ou seja, as medidas tradicionais de confiança interpessoal apresentam baixos índices de confiabilidade. Pequenas variações em sua formulação, sempre tentando captar o mesmo conceito, geram diferenças nos resultados.

Os testes acima não dizem muito sobre a dimensionalidade dos itens de confiança. Eles apontam para o fato de que utilizar a bateria de itens BRAIT como uma escala seria possível. No entanto, é importante verificar se estes itens se encaixam em diferentes dimensões analíticas.

Para testar a multidimensionalidade da confiança interpessoal, primeiro conduzimos uma análise fatorial para verificar em quantos fatores os itens "carregam". Se estiverem abordando uma única dimensão de confiança, então deveriam todos carregar num único fator. A Tabela 3 indica que este não é o caso. Seis fatores são gerados pela análise fatorial baseada em máxima verossimilhança e rotação ortogonal varimax6 6 . Constatou-se uma situação de caso Heywood, o que exige cuidado na avaliação dos resultados, apesar de não invalidá-los. Como se trata de uma estimação de máxima verossimilhança, não há uma estimativa da quantidade de variação explicada, apenas o teste de qui-quadrado, que é comprometido pela situação de Heywood. Não obstante, a definição de quantidade de fatores não é influenciada pela situação acima e esse aspecto da análise é o que mais nos interessa aqui. . A escolha dessa forma de estimação deve-se ao caráter dicotômico das variáveis incluídas. Como fizemos na Tabela 2, todas as variáveis foram recodificadas de sua métrica original para duas categorias a fim de homogeneizá-las e evitar resultados artificiais na análise fatorial gerada pela variação na forma de mensuração. Dado que onze variáveis foram incluídas na análise, os resultados claramente indicam que os itens não medem fortemente uma dimensão singular de confiança.

As cargas nos fatores também fornecem pistas de quais itens estão mais fortemente associados a cada fator. Assim, fica claro que os itens BRAIT2F e BRAIT2G, sobre quanto se confia em pessoas de outras religiões e países, têm uma associação mais forte. BRAIT2E, que mede a confiança nas pessoas que se conhecem pela primeira vez, também carrega nesta categoria. Isto potencialmente constitui uma dimensão extrema de confiança, na qual os indivíduos tendem a confiar até mesmo naqueles que podem ser considerados muito diferentes. Também é uma indicação das categorias onde os índices gerais de confiança são mais baixos. Ou seja, são poucas as pessoas que demonstram essa propensão a confiar até mesmo em que não se conhece. São poucos os que demonstram alguma propensão ao estilo de confiança, como traço atitudinal, no sentido atribuído ao conceito por Mansbridge.

Uma segunda dimensão inclui mais claramente os itens BRAIT2C e BRAIT2D, que verificam o nível de confiança com relação aos vizinhos e pessoas conhecidas, respectivamente. Este é um nível mais moderado de confiança, no qual os indivíduos parecem ter alguma relação. Contudo, BRAIT2C também carregou fortemente em outras dimensões, indicando que não fica claro como os indivíduos avaliam seus vizinhos. Por exemplo, o próximo fator parece incluir esse item, assim como outros que abordam a confiança nas pessoas de forma geral, expressada pelo item de confiança tradicional IT1 e sua variação BRAIT1 e também BRAIT2A.

Uma quarta dimensão inclui dois itens tradicionais, IT1A e IT1B, com um enfoque sobre a confiança em pessoas desconhecidas e o risco de confiar nos outros e BRAIT2E, confiar nas pessoas que se está conhecendo pela primeira vez. Como havíamos dito acima, esses itens indicam baixos níveis de confiança declarada. O último item, além de carregar nos fatores 1 e 4, também é o que mais fortemente carregou no fator 5. Finalmente, a última dimensão inclui família e vizinhos, indicando um nível ainda mais próximo de confiança. Obviamente, essa classificação dos itens é guiada pela forma como se distribuem na população, com opções que demonstram níveis mais altos de confiança se correlacionando com variáveis que apresentam o mesmo padrão. De qualquer forma, podemos afirmar com base nos dados acima que os entrevistados tendem a pensar de forma similar sobre os mesmos aspectos da confiança interpessoal, indicando que há dimensões diferentes na ideia de confiança.

Em suma, as medidas diferentes de confiança não discriminam claramente entre dimensões ortogonais, baseadas nas diferenças entre os itens, com alguns itens carregando em vários fatores. Ainda assim, há alguma possibilidade que a proximidade de atores determine os níveis de confiança, passando de uma confiança mais personalizada, baseada em relações mais próximas, para relações mais distantes e sentimentos generalizados de confiança. As duas dimensões clássicas dos estudos de confiança interpessoal, personalizada e generalizada, apresentam uma gradação mais detalhada quando incluímos atores diferentes e distintas formulações da questão nos enunciados das questões.

No entanto, é importante salientar que as duas formulações alternativas do item tradicional de confiança parecem se referir a uma dimensão semelhante de confiança, indicando que ambas poderiam ser usadas em avaliações de como as medidas de confiança se relacionam às medidas de outros conceitos. De fato, esse é o próximo ponto de análise.

A tarefa final para avaliar os diferentes itens de confiança é medir sua validade externa ou de constructo, como denominam Adcock e Colher (2001). Validade externa se refere a como constructos empíricos de conceitos, que deveriam estar associados segundo expectativas teóricas, de fato se correlacionam em análises empíricas. Se as relações teoricamente esperadas não estão presentes nos testes empíricos, então uma explicação para a ausência da relação pode estar associada a como os conceitos estão sendo mensurados. Cabe destacar aqui que a ausência de relação encontrada pode ser uma consequência de uma teoria mal formulada. Mas, no caso da confiança interpessoal, conceito tão caro a várias teorias sobre democratização e modernização, cabe antes desconfiar de sua mensuração do que de sua pertinência teórica.

Para testar a validade externa de itens de confiança, desenvolvemos um modelo - baseado na discussão sobre capital social, voltada para os determinantes da participação em associações civis (Rennó, 2003). A variável dependente é um índice aditivo de participação em reuniões de organizações religiosas, Associações de Pais e Mestres, associações de vizinhança, sindicatos trabalhistas, partidos políticos e grupos de mulheres. Trata-se de uma simples contagem do número de reuniões das diferentes associações em que o entrevistado participou no último ano. Como é um indicador de evento objetivo, vivido pelo entrevistado, não cabe aqui toda uma discussão sobre sua validade ou confiabilidade, já que podemos assumir que há validade de face desse índice. Ele é uma mera soma de participação em eventos concretos.

Nossa variável explicativa central é a confiança interpessoal. A hipótese de que confiança está na essência de ação coletiva e participação cívica é central para muitos estudos sobre os correlatos do capital social (Putnam 1994; Stolle, 1998; Seligson, 1999; Brehm e Rahn, 1997; Rennó, 2001,2003). O argumento é que cidadãos com níveis mais altos de confiança interpessoal têm mais probabilidade de participar de ação coletiva, na forma de grupos sociais e associações, porque têm mais probabilidade de ver os demais cidadãos de forma positiva e se sentem mais propensos a se arriscar em interações com desconhecidos. Em sua construção teórica clássica, a confiança interpessoal está baseada em expectativas de que os indivíduos não tirarão vantagem de outros e que, portanto, a confiança é um catalisador para interações sociais.

Discussões anteriores sobre por que cidadãos participam de grupos também incluem outros fatores, além da confiança interpessoal. Outras variáveis explicativas são:

1) Atenção à mídia medida por um índice agregado de frequência em que os entrevistados prestam atenção a notícias políticas em programas de televisão e rádio, jornais e a Internet. A hipótese é que cidadãos que prestam atenção aos temas políticos terão mais probabilidade se serem ativos em organizações sociais. Em 2008 foram utilizadas quatro perguntas para mensurar atenção aos meios de comunicação.

2) A posição ideológica de esquerda está baseada no autoposicionamento de cidadãos num contínuo esquerda-direita de dez pontos, em que o valor um (1) é esquerda e o valor dez (10) é direita. Esta variável foi recodifiçada para um (1) para aqueles que se posicionaram em valores entre um (1) e três (3) e zero (0) para todos os demais, inclusive aqueles que não sabiam como responder este item. A expectativa no Brasil é que cidadãos que entendem o espectro ideológico direita/esquerda e estão mais à esquerda terão mais probabilidade de participar de associações.

3) Vítima de crime é uma variável binária que indica se o entrevistado foi vítima de um crime nos últimos doze meses. Indivíduos que são vítimas de crime terão menos probabilidade de participar de associações. O trauma causado pelo crime deve reduzir a propensão do indivíduo a participar em formas de ação coletiva, pois pode gerar pontos de vista negativos sobre estranhos e fortalecer a sensação de que há riscos na esfera pública (Brehm e Rahn, 1997; Rennó, 2003).

4) Votou nas últimas eleições também é uma variável binária indicando se o entrevistado votou ou não nas eleições presidenciais brasileiras de 2006. A variável é uma proxy da participação política e a expectativa é que cidadãos que participam politicamente terão mais probabilidade de se engajar em associações sociais. O voto é obrigatório no Brasil. No entanto, a punição por não votar é pequena. Assim, 15% dos entrevistados não votaram em 2006.

5) A Tabela 4 abaixo também inclui controles de gênero, idade, escolaridade e renda. A expectativa é que mulheres têm menos probabilidade de participar de associações, indivíduos com mais escolarização têm mais probabilidade de participação, idade deve ter um impacto não-linear, pois à medida que aumenta a idade, a participação também deve aumentar, mas deve se estabilizar ou reduzir após certo patamar. Por isso, incluímos um termo ao quadrado para idade. Finalmente, a expectativa sobre renda não é clara. Quanto à renda, a expectativa é que cidadãos mais pobres, por conta de terem necessidades individuais e coletivas mais imediatas do que cidadãos mais abastados, tendam a se engajar mais em associações para suprir suas necessidades.Dado que a variável dependente é uma contagem simples do número de reuniões de associações das quais o entrevistado participou no ano anterior, os dados se aproximam a uma distribuição Poisson. Assim, estimamos a equação utilizando uma Regressão de Poisson com erros-padrão robustos.

Os resultados abaixo confirmam algumas destas hipóteses. Atenção à mídia e participação política por meio do voto nas eleições anteriores têm um efeito positivo sobre a participação cívica. As variáveis de controle também são determinantes importantes da participação em associações. Homens de meia-idade, mais pobres, são os mais prováveis de participar em associações cívicas.

As variáveis mais importantes, para nossos propósitos imediatos, são os indicadores de confiança interpessoal. Os três modelos apresentados indicam o impacto das duas medidas diferentes de confiança separadamente e depois simultaneamente. Fica claro que confiança interpessoal afeta a participação em associações, como previsto teoricamente, mesmo quando se controla pelo efeito de várias outras causas possíveis. Isto ocorre nos modelos 1 e 2, mesmo quando a confiança é medida de forma diferente. Portanto, a confiança interpessoal parece, sim, ter um impacto robusto sobre a participação em associações. Este impacto é independente de variações nas estratégias de mensuração. Contudo, quando confiança interpessoal é medida como BRAIT1, o efeito substantivo dessa variável é maior.

Dado que as duas medidas não têm forte correlação e carregam na mesma dimensão de forma fraca quando comparadas a outros itens de confiança, como vimos na análise sobre confiabilidade dos conceitos de confiança interpessoal, incluímos ambas simultaneamente na equação no modelo 3. Os resultados, neste caso, indicam que BRAIT1, o item com uma tradução ligeiramente diferente da forma tradicional, aparenta ter uma relação mais forte com a participação em associações. Seu impacto é estatisticamente significativo, enquanto a medida tradicionalmente usada não é, e a magnitude de seu impacto é quase três vezes aquela da medida tradicional7 7 . A comparação da magnitude do impacto é possível, mesmo que os coeficientes sejam difíceis de se interpretar, pois a métrica de ambas variáveis de confiança é idêntica. . Neste sentido, a nova medida parece se aproximar mais às expectativas teóricas da teoria de capital social8 8 . Não testamos aqui todas as outras alternativas possíveis de mensuração de confiança interpessoal que poderiam ser desenvolvidas baseadas nos testes de confiabilidade. Nosso objetivo neste trabalho é contrastar as duas versões semelhantes dos itens de confiança e não todas as alternativas possíveis. Essa segunda tarefa é uma boa sugestão para trabalhos futuros. .

Os nossos últimos testes se referem à lógica da especificidade contextual de conceitos e a mensuração de validade (Adcock e Collier, 1991). Os impactos de certas medidas podem apresentar resultados distintos quando analisadas em casos diferentes, levantando dúvidas sobre a possibilidade de generalização indiscriminada e universalidade do efeito de uma variável. Para verificar esse aspecto da mensuração do conceito de confiança interpessoal, contrastamos abaixo o impacto da confiança sobre comportamento associativo, utilizando o modelo acima, em países incluídos no Barómetro das Américas que falam diferentes idiomas. Testamos o modelo acima em países que falam espanhol, francês e inglês para verificar se os resultados obtidos no Brasil podem ser replicados na Costa Rica, Uruguai, Haiti e Jamaica, onde variáveis semelhantes foram coletadas utilizando os mesmos questionários, mas em línguas distintas. Estes países oferecem variação suficiente de instituições políticas, herança cultural, experiência com democracia e desenvolvimento econômico, apesar de serem de tamanhos comparáveis. Esses atributos permitem verificar como o contexto, em países bastante diferentes, pode influenciar a validade de uma questão. Sem falar, obviamente, da variação de idiomas do questionário. Assim, propomos um teste bastante árduo para a validade contextual da medida tradicional de confiança interpessoal. Dessa forma, testamos o Modelo 1 da Tabela 4 com o item IT1, em todos esses países.

A Tabela 5 indica claramente que a medida tradicional de confiança não resiste a testes de especificidade contextual. Dos quatro países acima, os níveis de confiança interpessoal afetam a participação em associações cívicas somente no Haiti. Nos outros três, a confiança não tem impacto estatisticamente significativo e em dois casos o sinal é invertido. Claramente, confiança, em nível individual, parece ser sensível ao ambiente. Em países como Haiti e Brasil, que apresentam níveis agregados de confiança interpessoal mais baixos do que Uruguai, Costa Rica e Jamaica, ter alguma confiança em outras pessoas faz bastante diferença em influenciar o engajamento cívico. Já nos demais países, a despeito das variações idiomáticas e das traduções dos questionários, o efeito da confiança interpessoal não parece ser tão relevante. Assim, as evidências são de uma heterogeneidade causal da medida de confiança interpessoal.

Por último, a Tabela 6 replica os testes de validade de constructo feitos acima, para os dados de 2010. Há uma única diferença no modelo abaixo. A variável "Atenção à Mídia" em 2010 é operacionalizada com apenas um item, em vez de quatro, como foi o caso de 2008. Mas ambas captam a atenção dos entrevistados a notícias sobre política no rádio, televisão, jornais e Internet. Essa mudança pode ter alterado o efeito da variável, já que em 2010 ela não repete o mesmo resultado de 2008, sendo significativa apenas em dois países, no lugar de em todos. Combinar atenção a notícias políticas em diferentes meios de comunicação em uma única pergunta pode ter inserido imprecisão na análise, já que é sabido que uma boa questão de pergunta trata apenas de um tema ou um comportamento por vez (Fowler, 1995)9 9 . Esse é um exemplo típico dos problemas em se construir um questionário comparado, criado por um amplo grupo de pesquisadores. Questões que não são centrais ao estudo acabam recebendo menos importância no estudo e menos espaço no questionário: esse parece ser o caso da atenção à mídia que foi condensada a uma pergunta em 2010, mesmo incluindo na pergunta formas distintas de atenção aos meios de comunicação, algo que deve ser evitado na boa prática de desenho de questionários (Fowler, 1995). .

As demais variáveis são idênticas às de 2008. Em 2010, o impacto da confiança interpessoal muda, sendo significativa apenas no Haiti e Jamaica. Ou seja, na Jamaica essa variável passa a ser significativa em 2010, quando não o era em 2008. No Brasil, o impacto da confiança interpessoal, presente em 2008, desaparece em 2010, apesar de o tamanho da amostra ter crescido no Brasil em 2010. Portanto, não só confirmamos a especificidade espacial dessa variável, como também a instabilidade de seu impacto no tempo, o que nos leva a crer que o efeito dessa variável não é tão robusto quanto à literatura sobre o tema nos leva a pensar. Confiança interpessoal, portanto, parece ser espacial e temporalmente limitada (bounded) e definida.

As explicações mais consistentes de participação em organizações sociais, tanto em 2008 quanto 2010, são participação eleitoral e características demográficas, como gênero e idade. Um resultado inesperado é que vitimização por crime aumenta a propensão a se engajar em associações da sociedade civil, ao contrário da expectativa teórica. E possível, então, repensar a teoria no sentido de se propor futuramente uma hipótese alternativa na qual o indivíduo vitimizado vê em sua exposição ao crime um estímulo a se engajar em movimentos coletivos que tentem prevenir ou atenuar a probabilidade de ocorrência desses eventos no futuro. Mas, esse tipo de argumentação merece testes específicos e ficam como uma hipótese a ser perseguida em pesquisas futuras.

CONCLUSÃO

A variedade de alternativas de mensuração de confiança interpessoal incluída na rodada brasileira do Barómetro das Américas em 2008 permite testes singulares de confiabilidade e validade. Nossa avaliação dos itens de confiança é de que a variação no enunciado da pergunta e nas alternativas de resposta têm um impacto profundo sobre os resultados da análise quando avaliamos os dados em nível agregado. A comparação entre as duas versões do item de confiança coloca o Brasil em posições diametralmente distintas no contínuo que classifica os países, conforme indicado na Figura 1. Claramente, há implicações sérias desse achado para a elaboração de testes teóricos em nível agregado, como é a tradição dos estudos inaugurada por Ronald Inglehart usando o WVS e o Eurobarômetro.

Também, quando examinamos a confiabilidade e validade das duas diferentes medidas de confiabilidade em nível individual, utilizando várias técnicas diferentes, os resultados são mistos. Os testes de confiabilidade claramente indicam que escalas desenvolvidas com itens múltiplos são possíveis e podem melhorar o nível de detalhamento e especificidade na mensuração das diferentes dimensões teóricas do conceito de confiança interpessoal. A diferença conceitualmente definida entre confiança particularizada e generalizada e as definições baseadas em confiança moral/altruísta versus situacional/calculada são perceptíveis quando analisamos as diferenciações internas nos padrões de respostas dos entrevistados a itens múltiplos sobre confiança interpessoal.

Testes de validade que seguem ao exame da confiabilidade indicam que em nível individual o impacto da variável central - confiança interpessoal - em uma variável que a teoria aponta como sendo claramente afetada por ela apresenta resultados inconstantes e efêmeros. A medida tradicional de confiança interpessoal, quando contrastada com o modelo de mensuração alternativo na rodada de 2008 do Barómetro das Américas no Brasil, se mostra como uma variável menos eficaz em prever engajamento cívico. Não obstante, esse resultado para 2008 merece ser avaliado com cuidado, já que o item para mensurar confiança interpessoal traz uma alternativa de resposta que é problemática, a resposta "mais ou menos". No caso, não fica claro se é a modificação no enunciado da questão que gera os resultados diferentes ou nas alternativas de resposta. Estudos futuros deverão experimentar variações nos enunciados e nas alternativas de resposta sucessivamente, para isolar o impacto de cada uma das mudanças.

Apesar desse aspecto ainda inconclusivo sobre qual a melhor formulação da pergunta e das opções de resposta, não restam dúvidas de que a medida de confiança interpessoal é sensível ao contexto em que é mensurada e às características do caso estudado. Quando testamos um modelo idêntico, que salienta o impacto da confiança sobre a participação em associações nos diferentes países, vemos que os resultados variam de um país para outro. Confiança não afeta a variável dependente de forma igual em todos os locais e seu impacto varia também no tempo, quando contrastamos as análises dos dados em 2008 e 2010. Claramente, isto não somente levanta questões sobre a capacidade de fazer generalizações das teorias de capital social e a validade universal de suas medidas, mas também indica problemas adicionais para análises em nível agregado que presumem tal universalidade. Portanto, o uso de medidas agregadas de confiança interpessoal, presumindo efeitos idênticos dessa variável em outras em nível individual, não se sustenta em testes empíricos.

Questões para futuros estudos podem explorar também como as diferentes formas de confiança afetam diferentemente o envolvimento em ação coletiva. Ou seja, precisaríamos mensurar as diferentes dimensões da confiança interpessoal e sistematicamente avaliar seu impacto em diferentes formas de engajamento cívico, por exemplo. Uma hipótese possível é que formas personalizadas de confiança levam à participação em algumas formas de ação coletiva, como grupos locais, e confiança generalizada leva à participação em outras formas de ação coletiva, como organizações em nível nacional10 10 . Uslaner (1999) segue este caminho em seu estudo de confiança generalizada e particularizada. . Ou seja, ainda há muito que se avaliar sobre as implicações empíricas dos argumentos teóricos acerca do papel da confiança interpessoal nos sistemas políticos contemporâneos. Descartá-la como um conceito teoricamente inútil parece-nos prematuro. O caminho a trilhar e explorar mais detalhadamente suas formas de mensuração, de tal maneira a polir essas medidas cada vez mais para que melhor reflitam as nuanças teóricas que a transformam um dos conceitos mais debatidos na literatura sobre comportamento político.

NOTAS

  • 1
    . Para uma exceção, veja Seligson e Rennó (2000) e Lundasen (2002).
  • 2
    . Todos os países aparecem com abreviações comumente usadas de seus nomes e indicam o ano da coleta de dados (08 ou 10 para 2008 e 2010). Assim, Canadá em 2008 aparece na tabela como CA08, CR08 indica a Costa Rica em 2008, e assim sucessivamente.
  • 3
    . Ver Uslaner (1999) para uma exceção.
  • 4
    . Para uma exceção, ver a obra de Ronald Inglehart e também achados recentes de Moisés e colaboradores no caso brasileiro (2010).
  • 5
    . Essa revisão da literatura não se pretende exaustiva, apenas aponta alguma das contribuições teóricas mais relevantes sobre o tema. Para mais algumas abordagens, veja Newton (1999) e Hardin (2000).
  • 6
    . Constatou-se uma situação de caso Heywood, o que exige cuidado na avaliação dos resultados, apesar de não invalidá-los. Como se trata de uma estimação de máxima verossimilhança, não há uma estimativa da quantidade de variação explicada, apenas o teste de qui-quadrado, que é comprometido pela situação de Heywood. Não obstante, a definição de quantidade de fatores não é influenciada pela situação acima e esse aspecto da análise é o que mais nos interessa aqui.
  • 7
    . A comparação da magnitude do impacto é possível, mesmo que os coeficientes sejam difíceis de se interpretar, pois a métrica de ambas variáveis de confiança é idêntica.
  • 8
    . Não testamos aqui todas as outras alternativas possíveis de mensuração de confiança interpessoal que poderiam ser desenvolvidas baseadas nos testes de confiabilidade. Nosso objetivo neste trabalho é contrastar as duas versões semelhantes dos itens de confiança e não todas as alternativas possíveis. Essa segunda tarefa é uma boa sugestão para trabalhos futuros.
  • 9
    . Esse é um exemplo típico dos problemas em se construir um questionário comparado, criado por um amplo grupo de pesquisadores. Questões que não são centrais ao estudo acabam recebendo menos importância no estudo e menos espaço no questionário: esse parece ser o caso da atenção à mídia que foi condensada a uma pergunta em 2010, mesmo incluindo na pergunta formas distintas de atenção aos meios de comunicação, algo que deve ser evitado na boa prática de desenho de questionários (Fowler, 1995).
  • 10
    . Uslaner (1999) segue este caminho em seu estudo de confiança generalizada e particularizada.
  • (Recebido para publicação em junho de 2011)

    (Reapresentado em outubro de 2011)

    (Versão definitiva em novembro de 2011)

  • *
    Agradeço ao Projeto de Opinião Pública da América Latina (LAPOP) pelo Small Grants Award que propiciou a realização desta análise. Também fico muito grato a um parecerista anônimo da revista
    DADOS pelos valiosos comentários.
  • APÊNDICE

    Demais itens utilizados na análise multivariada:

    Foram usadas perguntas diferentes para atenção aos meios de comunicação. Em 2008 foi construído um índice baseado na bateria abaixo:

    Agora, mudando de assunto [Depois de ler cada pergunta, repetir "todos os dias", "uma ou duas vezes por semana", "raramente", ou "nunca" para ajudar o entrevistado]

    Em 2010, o questionário dispunha apenas de uma questão:

    Agora gostaríamos de saber quanta informação sobre política e sobre o país é transmitida para a população.

    GIO. Com que frequência o sr./sra. presta atenção às notícias, seja na TV, rádio, jornais ou na Internet? [Leia as Alternativas]:

    (1) Diariamente (2) Algumas vezes na semana (3) Algumas vezes ao mês (4) Raramente (5) Nunca (88) NS (98) NR

    Também a variável que mede vitimização por crime apresentou alguma variação entre 2008 e 2010, mas não tão radical quanto a pergunta acima.

    Em 2008 a pergunta tinha o seguinte formato:

    VIC1. Agora mudando de assunto, o sr/sra foi vítima de algum ato de deliquência (assalto, roubo, sequestro relâmpago etc.) nos últimos doze meses?

    (1) Sim [Siga] (2) Não [Vá para VIC20] (8) NS [Vá para VIC20]

    Em 2010 a pergunta muda um pouco, aumentando o número de exemplos citados para facilitar o processo de memória do entrevistado.

    VIC1EXT. Agora mudando de assunto, o(a)sr./sra. foi vítima de algum tipo de crime nos últimos doze meses? Ou seja, você foi vítima de assalto, roubo, sequestro relâmpago, fraude, chantagem, extorsão, ameaças violentas ou qualquer outro tipo de crime nos últimos doze meses?

    (1) Sim [Siga] (2) Não [Vá para VIC1HOGAR] (8) NS [Vá para VIClHOGAR](98)NR [Vá para VIC1HOGAR]

    Para mensurar posicionamento ideológico à esquerda:

    L1. (Escala Esquerda-Direita) Nessa folha há uma escala, de 1 a 10, que vai da esquerda para a direita. Hoje em dia, quando se conversa de tendências políticas, fala-se de pessoas que simpatizam mais com a esquerda e de pessoas que simpatizam mais com a direita. De acordo com o sentido político que os termos "esquerda" e "direita" têm para o sr./sra, onde o sr./sra. se situa nesta escala? Indique o número que se aproxima mais da sua própria posição.

    Para mensurar participação eleitoral nas últimas eleições, usou-se uma pergunta sobre as eleições de 2006, já que tanto a pesquisa de 2008 quanto a de 2010 ocorreram antes do ciclo eleitoral de 2010.

    VB2. 0(A)sr./sra. votou nas últimas eleições presidenciais de 2006?

    (1) Sim, votou [Siga] (2) Não votou [Vá para VB60](88) NS [Vá para VB60]

    (98) NR [Vá para VB60]

    Q1. [anote sem perguntar]Sexo: (1) Homem (2) Mulher

    Q2. Quantos anos o(a) sr./sra. tem? ______ anos (888=NS) (988=NR)

    [ENTREGUE O CARTÃO "F"]

    Q10. Somando a renda de todas as pessoas que moram na sua casa, incluindo envios de dinheiro de pessoas que estão no exterior ou outro lugar e o salário de todos os adultos e crianças que trabalham, qual das seguintes categorias mais se aproxima da renda familiar dessa casa?

    (Se não entendeu, pergunte: quanto dinheiro ao todo entra na sua casa por mês?)

    (00) Sem Renda

    (01) Até R$ 510,00

    (02) De R$ 510,01 até R$ 1020,00

    (03) De R$ 1020,01 até R$ 1.530,00

    (04) De R$ 1.530,01 até R$ 2.550,00

    (05) De R$ 2.550,01 até R$ 3.570,00

    (06) De R$ 3.570,01 até R$ 4.080,00

    (07) De R$ 4.080,01 até R$ 6.120,00

    (08) De R$ 6.120,01até R$ 7.650,00

    (09) De R$ 7.650,01 até R$ 10.200,00

    (10) Mais de R$ 10.200,01

    (88) NS

    (98) NR

    [PEGAR DE VOLTA O CARTÃO "F"]

    ED. Qual foi o último ano de escola que o(a)sr./sra. terminou ______ Ano do ______ (primário, secundário, universidade, superior não-universitário)

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    1 . Para uma exceção, veja Seligson e Rennó (2000) e Lundasen (2002). 2 . Todos os países aparecem com abreviações comumente usadas de seus nomes e indicam o ano da coleta de dados (08 ou 10 para 2008 e 2010). Assim, Canadá em 2008 aparece na tabela como CA08, CR08 indica a Costa Rica em 2008, e assim sucessivamente. 3 . Ver Uslaner (1999) para uma exceção. 4 . Para uma exceção, ver a obra de Ronald Inglehart e também achados recentes de Moisés e colaboradores no caso brasileiro (2010). 5 . Essa revisão da literatura não se pretende exaustiva, apenas aponta alguma das contribuições teóricas mais relevantes sobre o tema. Para mais algumas abordagens, veja Newton (1999) e Hardin (2000). 6 . Constatou-se uma situação de caso Heywood, o que exige cuidado na avaliação dos resultados, apesar de não invalidá-los. Como se trata de uma estimação de máxima verossimilhança, não há uma estimativa da quantidade de variação explicada, apenas o teste de qui-quadrado, que é comprometido pela situação de Heywood. Não obstante, a definição de quantidade de fatores não é influenciada pela situação acima e esse aspecto da análise é o que mais nos interessa aqui. 7 . A comparação da magnitude do impacto é possível, mesmo que os coeficientes sejam difíceis de se interpretar, pois a métrica de ambas variáveis de confiança é idêntica. 8 . Não testamos aqui todas as outras alternativas possíveis de mensuração de confiança interpessoal que poderiam ser desenvolvidas baseadas nos testes de confiabilidade. Nosso objetivo neste trabalho é contrastar as duas versões semelhantes dos itens de confiança e não todas as alternativas possíveis. Essa segunda tarefa é uma boa sugestão para trabalhos futuros. 9 . Esse é um exemplo típico dos problemas em se construir um questionário comparado, criado por um amplo grupo de pesquisadores. Questões que não são centrais ao estudo acabam recebendo menos importância no estudo e menos espaço no questionário: esse parece ser o caso da atenção à mídia que foi condensada a uma pergunta em 2010, mesmo incluindo na pergunta formas distintas de atenção aos meios de comunicação, algo que deve ser evitado na boa prática de desenho de questionários (Fowler, 1995). 10 . Uslaner (1999) segue este caminho em seu estudo de confiança generalizada e particularizada. * Agradeço ao Projeto de Opinião Pública da América Latina (LAPOP) pelo Small Grants Award que propiciou a realização desta análise. Também fico muito grato a um parecerista anônimo da revista DADOS pelos valiosos comentários.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      26 Jan 2012
    • Data do Fascículo
      Set 2011

    Histórico

    • Aceito
      Nov 2011
    • Revisado
      Out 2011
    • Recebido
      Jun 2011
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