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Futebol, clãs e nação

Soccer, clans, and nation

Football, clans et nation

Resumos

In an exploration of aspects of soccer and nation in Brazil, the article demonstrates how soccer serves to organize and classify reality by dividing the world into clan-teams. Approaching soccer as more than a metaphor, the article analyzes soccer teams as clans that are parts of a specific universe, where people are divided according to their support for a given team. As a system for classifying reality within people’s day-to-day lives, this universe brings people together and transforms vertical relationships into horizontal ones. Lastly, the article analyzes the relation between this type of classification and the construction of the Brazilian nation. The main purpose is to propose new issues and approaches pertinent to a sociological reading of Brazilian soccer.

soccer; nation; sociology of sports


Dans cet article on examine certaines questions sur le football et la nation au Brésil. On cherche à montrer que le football agit comme une forme d’organisation et de classement de la réalité, par le biais d’une répartition du monde en équipes-clans. Dans un cadre où le football va au-delà de la métaphore, on analyse les clubs comme des "clans", en cherchant à les saisir comme des éléments d’un univers particulier, où les personnes sont rangées selon leur affiliation à un club. Cet univers est un système de classement de la réalité qui opère sur le quotidien des gens, les rapprochant et rendant horizontale la verticalité des relations. On finit par examiner le rapport entre cette forme de classement et la construction de la nation brésilienne. Le but central du travail est de soulever des questions et approches nouvelles en vue d’une lecture sociologique du football au Brésil.

Football; nation; sociologie du sport


soccer; nation; sociology of sports

Football; nation; sociologie du sport

Futebol, Clãs e Nação* * Este artigo deve muito a Roberto DaMatta pelas cruciais sugestões e correções feitas a diferentes versões do mesmo. Várias reflexões foram por ele generosamente sugeridas, enquanto algumas idéias originais foram melhor desenvolvidas a partir de suas observações. Os comentários e idéias de Marcos Lanna também foram importantes. Agradeço igualmente o ótimo julgamento oferecido pelo outro parecerista de Dados. Por fim, agradeço à própria Dados e a Charles Pessanha, seu editor, que tanto contribuiu para o desenvolvimento do texto, facilitanto o diálogo com DaMatta.

Igor José de Renó Machado

INTRODUÇÃO

Este artigo busca realizar uma reflexão inicial sobre algumas questões referentes ao futebol no Brasil. Tentarei demonstrar como este esporte opera como uma forma de organização e classificação da realidade, através da divisão do mundo em times-clãs. Por fim, analiso a relação entre essa forma de classificação e a construção da nação brasileira. Meu objetivo é propor novas questões e enfoques para uma leitura sociológica do futebol no Brasil.

ALGUMAS ANÁLISES SOBRE O FUTEBOL NO BRASIL

A maioria das obras que tratam do futebol no Brasil tem focalizado sua história e vem sendo produzida principalmente por cronistas esportivos1 1 . Para obras acadêmicas que tratam da história do futebol, ver, p. ex., Witter (1990); Melhy e Witter (1982). . Poucos o analisam como uma dimensão importante da realidade nacional e, quando o fazem, as explicações variam entre dois pólos: do ópio à democracia do povo. A abordagem que podemos chamar de "democrática" é "essencialista" e se funda na miscigenação racial e na riqueza do jeito "mulato" de ser do brasileiro. Influenciada, entre outros, por Gilberto Freyre (1964), explica o sucesso do futebol no Brasil em função do caráter mestiço do povo, revestindo o esporte de uma "alma brasileira" ligada à idéia de um encontro idealizado entre brancos, negros e índios, base da noção de democracia racial como ideologia. Essas explicações "racistas" exacerbam o lado positivo do nacionalismo e associam o futebol à constituição étnica da população e da nação que, para elas, antecede a própria história nacional.

Uma análise "universalista" do futebol foi realizada por Roberto DaMatta (1985; 1986; 1994). A partir dos conceitos de "drama social" de Victor Turner e "situação social" de Max Gluckman, DaMatta sugere que o futebol promove uma horizontalização dos relacionamentos em uma sociedade hierárquica, uma vez que a igualdade é uma condição para a disputa (ou jogo), estabelecendo paridade de condições para todas as pessoas envolvidas no campo esportivo. O exercício de acatamento de regras universais em uma sociedade "vertical", onde predominam particularismos e casuísmos, estimularia formas modernas de concepção social, inclusive de cidadania. Segundo DaMatta, o futebol "proporciona uma experiência exemplar de legitimidade e de acatamento de leis" (1985:28), engendrando um espaço primordialmente democrático.

Sua reflexão sobre o universo do futebol é um desdobramento de sua perspectiva da sociedade brasileira, a partir da qual ele sugere estudá-la através das categorias "casa" e "rua", lendo-a como um híbrido entre o individualismo americano e o holismo indiano. Para DaMatta, o futebol é, antes de tudo, "agente" do individualismo, por estabelecer igualdades axiomáticas onde reina a diferença da tradição. Seria essa vivência intensa da igualdade que explicaria o sucesso do futebol entre nós. A repisada explicação do futebol como "ópio" do povo é rejeitada por DaMatta (e por nós) como óbvia: por intermédio do futebol o Estado exerce controle social via a massificação do esporte, explorando a relação entre nacionalismo e futebol (ver, p. ex., Shirts, 1982; Lyra Filho, 1973).

Neste artigo, nutrido pela associação entre futebol e universalismo, sugerida por DaMatta, rejeito essa visão do futebol como um agente direto do Estado. Do mesmo modo, compartilho com ele a opinião de que os elos entre futebol e nação são fortes mas não devem ser essencializados no sentido "racial-democrático" ingênuo, inspirado em Gilberto Freyre.

Em estudo recente, Gilson Gil (1994) trata de relacionar o futebol com a criação de um dos aspectos da nação brasileira, demonstrando como a imagem do futebol-arte se vincula com a idéia de povo brasileiro harmonicamente miscigenado. Gil apresenta o futebol como o esporte mais popular do país porque, nessa modalidade esportiva, ocorreu uma feliz associação entre negros, brancos e mulatos, de tal modo que "a partir do futebol, elaborou-se uma visão essencialmente mestiça de nossos jogadores e de nossa cultura" (idem:103). Ocorre que, a partir de 1974, esse modelo entra em crise, devido aos fracassos da seleção nacional, colocando em xeque nossa nacionalidade, com demandas em favor da modernização do futebol brasileiro, que deveria ser mais tático, mais "europeu" e menos "artístico". Essa crise, apontada por Gilson Gil, se funda em uma hipótese freyriana, já que a evolução de nosso futebol enquanto metáfora conflituosa de nossa nacionalidade é marcada desde os anos 70 por uma "crise paradigmática" do "futebol-arte". Percebemos que, em Gil, o futebol é entendido somente enquanto uma metáfora da nacionalidade.

Não discordo da idéia de que o futebol-arte é uma face importante da construção da identidade nacional moderna do Brasil. Também não discuto o fato de que a "modernização" do futebol colocou essa perspectiva em xeque. Quanto à definição de drama de Victor Turner2 2 . Para Turner (1957), os dramas sociais são episódios de tensão e conflito em que as relações sociais do grupo estão em "perigo". , esta comporta quatro fases: fissura, crise, ação de reparação e reintegração ou reconhecimento do cisma (Turner, 1974). A análise de Gil só leva em consideração as duas primeiras fases. Por não atentar para o momento de reintegração, Gil esquece que há hoje, no Brasil, um consenso em torno da imagem do jogador de futebol "moderno", disciplinado, forte, combativo, bem preparado fisicamente e taticamente consciente, brasileiramente convivendo com o jogador criativo e talentoso que desequilibra o jogo tático. O futebol-arte sobrevive no jogador que sozinho desequilibra a partida com lances de magia. A correspondência entre futebol-arte e nação não é exclusiva, nem baseada em uma escolha absoluta, mas persiste entre nós combinando-se criativamente com outros modelos e paradigmas. O drama social provocado pela oposição entre "futebol-força" e "futebol-arte" termina por conciliar o contraste por meio de um turneriano "mecanismo de reparação" que reintroduz o tema do futebol-arte no seio do futebol moderno.

Mesmo a Seleção de 1994, por mais taticamente moderna que fosse, brilhava "brasileiramente" nos pés de Romário. Como não lembrar Ronaldinho e sua capacidade malandra para destruir defesas taticamente organizadas? Continuamos assim "brasileiros" e "malandros" no jeito de jogar, tendo, entretanto, adotado a idéia moderna e européia do "futebol tático". O futebol-arte ainda é nosso paradigma e o erro de Gil jaz na concepção segundo a qual a nossa fé no futebol tem como fonte exclusiva os resultados de campanhas da Seleção.

Se abandonarmos essa visão e tomarmos o futebol como uma "instituição total", no sentido maussiano do termo, iremos verificar que o futebol vai além da metáfora, sendo parte inerente de uma leitura corrente do Brasil moderno. Os debates sobre o estilo da Seleção são apenas uma parcela do grande capítulo que equaciona concretamente futebol e nação: um processo complexo que vem se fazendo ao longo de um século.

Minha intenção neste ensaio é tratar o futebol como metáfora da nação, mas ir além da retórica. Quero demonstrar como gradualmente o futebol se tornou um dos instrumentos brasileiros de pensar e de, sobretudo, classificar o mundo. Nesse sentido, a nação brasileira não é apenas metaforizada no futebol, ela passa a "existir" como algo concreto e palpável através das imagens constituídas a partir desse esporte. Vale dizer: a nação brasileira como uma coletividade moderna, cívica, baseada em um território soberano, com bandeira, hino, ordem social e política fundada no indivíduo, nasce para o povo ao lado do nosso futebol-arte no século XX. Entender o futebol é entender uma dimensão importante da nação brasileira; é entender nossa cultura, nos termos de Marshall Sahlins (1988, esp. introdução e conclusão), como um princípio arbitrário de ordenação da realidade. Tentarei demonstrar que, mais do que uma figura de retórica, o futebol, além de ser um sistema de pensamento, é também um dos princípios concretos (ou reais) de organização da realidade brasileira. Um sistema que foi se formando ao longo do século XX, a partir da imensa popularidade do futebol.

Trata-se também de uma das raras linguagens para discorrer sobre o mundo, dominada por brasileiros dos mais variados segmentos sociais. Da fase de implantação até 1930, quando o futebol se firma como o esporte mais popular do Brasil, os clubes elitistas que tinham times de futebol foram obrigados a profissionalizar seus quadros, sendo impelidos a contratar o que havia de melhor na praça. Isto os obrigou a ter em seus times jogadores negros e de segmentos sociais inferiores, mas que eram melhores do que os filhos das elites locais. No Rio, o Vasco da Gama foi o primeiro a contratar negros (sendo bicampeão em 1924 e 1925 com um time inovadoramente "misto"), depois foi a vez do América, em seguida, outros clubes tiveram que seguir os passos de ambos, deixando de lado o pequeno mundo da elite. Desde os anos 50, essa forma de recrutar jogadores tornou-se definitiva, sendo ampliada a partir de 1970 com a mídia3 3 . Apenas indico aqui a importância dos meios de comunicação na difusão do futebol. Uma análise sistemática deve levar em conta a relevância dessa questão e discuti-la criticamente, o que não foi possível fazer neste artigo. . O desempenho como dimensão básica do futebol superou, ou englobou, conforme Louis Dumont (1966), os critérios vigentes de classificação social.

FUTEBOL E VIDA COTIDIANA

Para demonstrar meus argumentos, utilizarei o método de análise de "situações" ou "cenas sociais" proposto por Max Gluckman (1987). Tomarei como base as cenas sociais que são parte da minha experiência pessoal.

Cena 1: Num ônibus em Campinas, vestido com a camisa do Cruzeiro (meu time), um passageiro desconhecido, aparentemente um estudante da Unicamp, perguntou-me quais eram os próximos jogos do Cruzeiro. Lembrei-me de três dos quatro restantes e ficamos a imaginar qual seria o quarto. Esse foi o início de um intenso diálogo que durou os dez minutos do percurso já que descobrimos que éramos ambos cruzeirenses, o que imediatamente criou uma predisposição para simpatia e confiança mútuas. Nunca tinha visto aquele indivíduo, mas a camisa emblemática de um clube de futebol foi suficiente para nos aproximar como pessoas (cf. DaMatta, 1979, cap. IV).

Esta é uma situação corriqueira no meio urbano brasileiro, universo tido como impessoal e anônimo no qual o futebol faz com que desconhecidos reais se tornem "aliados virtuais" ao se reconhecerem como "torcedores" de um mesmo clube. O fato de compartilharem algo em comum transforma desconhecidos em "cidadãos futebolísticos", promovendo sua identificação imediata com um sistema simbólico específico. No caso em pauta, uma cidadania regida pelas estrelas do Cruzeiro.

A cena igualmente revela como o futebol é uma dimensão importante das práticas sociais brasileiras. Mediante a filiação a certos clubes, ele reordena as classificações sociais estabelecidas, formulando uma redefinição no interior da desigual ordem social nacional. O futebol é uma malha que se estende pelo Brasil. Ao mesmo tempo que as pessoas têm posições diferenciadas no sistema como agentes políticos e econômicos, "torcem" pelos seus clubes de coração, "pertencem" a eles e cultivam seus símbolos. No país como um todo usar camisetas de um time significa ser portador de um sinal de identificação totêmica que facilita simpatias, rivalidades, agressões e brincadeiras4 4 . Os motivos que levam à filiação a um ou outro clube é uma outra pesquisa, pois são vários e complexos demais para os limites deste artigo. . Se considerarmos que praticamente a totalidade da população masculina tem seu emblema, podemos entender os times como clãs, constituindo um universo totêmico especial, um universo clânico tão adequado para pensarmos o mundo nacional quanto os totens estudados por Lévi-Strauss.

Cena 2: Ao conhecer o pai de uma amiga, fez-se imediatamente a tradicional pergunta: qual é o seu time? Pergunta óbvia em qualquer relacionamento (masculino) que se inicia, e que permite estabelecer uma filiação, uma ligação ao universo dos clubes, universo representativo de um conjunto de emblemas, sentimentos, objetos e elos básicos.

Essa demanda de associação demonstra como as relações sociais são permeadas pelo que pode ser chamado de "universo clânico do futebol", estabelecendo identidades que, no plano dos elos rotineiros, estão ausentes do cotidiano nacional. Assim, no caso em pauta, se eu fosse palmeirense, como o pai de minha amiga, teríamos um vínculo em comum, assunto para muitas conversas e cumplicidade. De todo modo, torcendo ou não para o mesmo time, foi estabelecida uma relação, no caso, um elo que acentuava o conflito entre os clãs-times. Sempre que meu time fosse derrotado pelo dele, alguma forma de jocosidade seria encenada, ou seja, mais um ingrediente de solidariedade em um relacionamento que poderia ser transitório, efêmero ou impessoal.

No universo do futebol são poucos os clãs disponíveis: a torcida só pode escolher no repertório dos times que atravessaram a fase de profissionalização e se tornaram nacional e internacionalmente estabelecidos e conhecidos. Não sendo fechado nem definitivo, esse limite não impede, entretanto, que torcedores de uma cidade continuem torcendo pelo time local (acentuando uma comunidade específica), mesmo que esse time não tenha prestígio nacional. O inverso é verdadeiro, pois ninguém deixa de torcer por times de prestígio de certas cidades, mesmo sem delas ser residente. O fato é que as escolhas são abertas, abrangentes e fundadas na simpatia individual, o que faz com que todas elas, em qualquer idade, sejam legítimas. As preferências sempre recaem sobre os poucos times que estão no "primeiro nível clânico" (esses poucos grandes clubes que arrebanham a maioria dos torcedores), mas — enfatizo — não se deixa de torcer igualmente por times pequenos.

É óbvio que o número de times no primeiro nível "clânico" é pequeno, sendo inversamente proporcional ao seu contingente de torcedores. Além disso, o fato de a televisão só mostrar jogos dos "grandes" times, acentua o papel que estes desempenham de agregadores de preferências. No Brasil, alguns clubes de locais específicos, como os das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, foram ampliando suas torcidas pelo país, deixando de ser "clãs" eminentemente locais.

A regra geral é que a filiação ao clube, embora ainda tenha caráter local, é indiscriminada. Esse pertencer aberto faz com que se possa ultrapassar limites, mesmo quando se sabe que os estados são unidades mínimas de identificação e, no interior dos mesmos, os times citadinos que competem nos campeonatos estaduais. A localidade é uma das marcas de identificação de alguns "times-clãs" menos abrangentes, que têm apenas uma "potência regional" de filiação, embora ninguém tenha que dar preferência ao time de sua cidade.

Um exemplo dessa filiação regional pode ser dado através da Cena 3.

No mesmo dia em que eu usava a camisa do Cruzeiro, ao entrar atrasado na sala de aula, ouvi do professor a seguinte pergunta: "Você é mineiro?" Ou seja, em São Paulo, a camisa do Cruzeiro operava como um emblema de identidade estadual. Se a camisa que eu estava usando fosse a do Flamengo, por exemplo, a identificação com o Rio de Janeiro seria certamente englobada pelo que esse time representa em termos de futebol, já que a sua torcida se espalha por todo o Brasil. O cálculo da identidade assim como a legitimidade da simpatia são abertos, mas — como estou salientando — certos times são mais emblemáticos do próprio futebol que outros.

No campeonato brasileiro de 1995, por exemplo, o Flamengo (talvez o nosso maior clã, ao lado do Corinthians) realizou muitos de seus jogos em outros estados, a fim de arrecadar mais dinheiro ¾ a lotação dos estádios fora do Rio de Janeiro era garantida por sua enorme torcida. Assim, mesmo que a disputa entre clubes sirva como metáfora para o embate entre cidades, regiões, estados e até mesmo classes sociais e grupos étnicos (como parece ter sido o caso nos primórdios do nosso futebol), mesmo que sobrevivam rivalidades históricas como a de São Paulo versus Rio de Janeiro, como centros urbanos representativos de estilos de vida, os grandes clãs superam essas identificações essencialmente locais, operando uma mudança de dimensão. É claro que em momentos específicos, como finais de campeonato, as equipes promovem o colapso de identidades locais, como na final do Campeonato Brasileiro entre Santos e Botafogo, reacendendo antigas oposições. Mas aqui, o colapso das identidades futebolísticas revela a exceção que confirma a regra, o que problematiza a liberdade de escolha e a lealdade, componentes importantes na definição dos campeonatos, bem como a constituição das "personas" individuais, locais, regionais, nacionais e até mesmo mundiais no universo social brasileiro.

Uma situação suficientemente expressiva disto é a Cena 4, na qual rememoro um diálogo que mantive com um amigo, torcedor do Santos, quando assistíamos à final da Copa Brasil de 1995 entre Corinthians e Grêmio. "Mas você não vai torcer para o Corinthians?", perguntei. "Nem morrendo! Para o Corinthians eu não torço nem que ele jogue contra times argentinos!" Meu amigo é paulista, e uma visão mecânica do jogo das identidades, fundada na importância ideológica do Estado nacional e nos planos cívico e político, poderia supor uma identificação gradual e linear em termos de importância e exclusividade, do time municipal ao nacional, com o nacional englobando sucessivamente o estadual e o municipal. O jogo das identidades futebolísticas, individualisticamente construídas, porém, transcende todos os critérios e classificações rotineiros como sexo, idade, etnia, classe social, cor, educação, residência etc., de modo que o local pode englobar o estadual e o nacional. A rivalidade entre times-clãs subverte a regionalidade e até mesmo o nacionalismo. Meu amigo sendo santista doente, odiava o Corinthians, torcendo contra ele em todas as circunstâncias — mesmo quando ele jogava contra um time "estrangeiro" ¾ , o que nos leva a pensar que os "times clânicos" são capazes de despertar identificações mais fechadas. Em São Paulo, por exemplo, o Corinthians é o exemplo máximo: poucos torcedores de outro time paulista o apoiariam em uma final contra qualquer time carioca.

Na França, como observam os sociólogos J. Faure e C. Suaud, ocorre o oposto: "os clubes são colocados nas relações de simbolização, de sorte que, através das equipes de futebol, são as vilas, as comunidades locais — étnicas, religiosas ou outras —, as culturas e identidades regionais que se rivalizam" (1994:4, tradução minha). Naquele país, o futebol mobiliza rivalidades locais, enquanto no Brasil, essas identidades imediatas, locais, e primárias são apenas um dos ingredientes do fenômeno geral das identidades e rivalidades promovidas e patrocinadas pelo futebol que, em um certo nível, é um elemento que permite delas escapulir.

Tudo isso revela como, entre nós, o futebol é em si uma rivalidade, pois são os clãs que de fato entram em disputa ou combate. O combate não metaforiza apenas aspectos da chamada "realidade social", ele se dá entre diferentes "clãs", entre indivíduos aleatoriamente distribuídos entre os clãs possíveis. Assim, o futebol é mais do que uma metáfora; é, como atividade, uma forma de embate entre grupos sociais organizados de forma alternativa, marginal ou anti-rotineira. O seu valor e a sua importância dizem respeito a essa capacidade de reordenar a própria ordem social, fazendo com que inimigos de classe sejam aliados no estádio, e aliados étnicos e políticos se dividam como torcedores desse ou daquele time.

A discussão do papel marcante dos clubes grandes nessa reordenação social não deve encobrir o papel de outros milhares de times existentes no país. Apenas se quer enfatizar que eles têm funções diferentes. Alguns aspiram a entrar no circuito dos grandes; outros têm interesses estritamente locais (como os times de fábricas, bairros e vizinhanças); alguns formam apenas espaços de lazer onde amigos jogam pelo prazer de jogar, criando expectativa de rivalidade entre si ou o aumento da solidariedade. A capacidade de arregimentação ou de torcida diminui nessa mesma proporção.

Certos estudos sobre futebol só levam em conta os times profissionais (ver, p. ex., Witter, 1990), considerando o chamado futebol de várzea como um sistema diferente. Mas, no fundo, a distinção entre ambos é apenas de gradação. Alguns times se tornam "clãs" nacionais ou estaduais, outros são "clãs regionais", desfrutando de prestígio variado que vai do time da cidade ao time da rua, sem esquecer dos clubes que configuram apenas espaços de lazer5 5 . Para uma análise de clubes locais como clãs que servem para pensar relações locais de poder, ver a criativa análise de Lanna (1995), principalmente o capítulo 2, na parte que trata da dualidade (:103-119). Interessante notar que em São Bento do Norte (cidade analisada pelo autor) os clubes locais assumem o nome e as cores de times-clãs nacionais, como Flamengo, Palmeiras, Vasco, São Paulo, e até mesmo internacionais, como o Arsenal. . Torcer para os times menores não significa abrir mão da paixão pelas agremiações que se transformaram em times-"totens" do futebol brasileiro. O que é feito, diga-se de passagem, com o auxílio das "mídias" falada e escrita, com a televisão ocupando um espaço crucial na divulgação dos seus mitos, emblemas e histórias.

CLÃS E STATUS

Cena 5: Um amigo, doutorando da Unicamp, fez uma aposta com Carlos, operador da máquina copiadora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas ¾ IFCH, antes de um jogo entre Santos e Corinthians. A aposta consistia no seguinte: após o jogo, o torcedor do time derrotado seria obrigado a usar a camisa do time adversário. Uma reciprocidade às avessas seria emblemática do reconhecimento da derrota. O Corinthians perdeu e Carlos foi obrigado a vestir a camisa do Santos. Meu amigo, radiante, chamava as pessoas (que também tinham o mesmo tipo de relação com Carlos) para mostrá-lo trabalhando vestido com a camisa do time adversário, o que estabelecia um clima pleno de jocosidade6 6 . São comuns no ambiente futebolístico brasileiro as chamadas "relações jocosas". Elos que reúnem a um só tempo distância, agressividade e solidariedade como quer a velha teoria de Radcliffe-Brown (1973). . O perdedor, embora contrariado, agüentava tudo resignado, com honra e espírito olímpico: "fazer o quê?"

Esta Cena demonstra como o universo do futebol modifica práticas cotidianas bem estabelecidas, tendo conseqüências para a vida dos seus aficcionados. Ela também revela como o futebol fornece um mapa de navegação social alternativo, diverso dos critérios "socioeconômicos" vigentes nos esquemas de classificações sociais rotineiros. Ao promover essa reordenação, o futebol sugere virtualidades: ao apostarem, Carlos e meu amigo ficaram em pé de igualdade. No plano do futebol, importavam menos a classe social ou a posição ocupacional do que a identidade do time que obrigou o perdedor a usar o sinal máximo dessa identificação no trabalho. Trata-se, como acentuei, de um sistema alternativo que, como ocorre com o Carnaval e outras situações sociais vigentes no Brasil, promove um equilíbrio ritualizado capaz de temporariamente neutralizar os efeitos perversos das diferenças sociais.

Na verdade, o futebol transforma a vida social em um espetáculo de derrotas e vitórias, fazendo com que as torcidas se alternem em posições superiores ou inferiores. É uma região de intensos e irresolvidos conflitos. Trata-se de um lugar onde se trava, como no potlatch, uma eterna e, como sugeriu DaMatta (1994), agonística disputa por status. Status dado pelo futebol, pois ninguém é mais que ninguém quando seu time ganha, o momento da vitória sendo compreendido como o instante de exibir a camisa, de gozar de quem torce para times adversários, de se deliciar com o "gosto da vitória" e com a posição de frágil superioridade conseguida nesse embate por um status abertamente simbólico.

O que nos leva à Cena 6. Você chega no trabalho no dia seguinte de uma vitória do seu time. Seu amigo mais próximo, que torce pelo time adversário, será o alvo de muitas de suas gozações. Outros colegas que não torcem para quem venceu, mais detestam o time derrotado, vão tomar parte no coro de jocosidades. O fato de a vitória se exprimir na forma de "gozação" ou jocosidade delimita a punição pela derrota e traduz o teor da vitória: trata-se de fato de algo tão instantâneo e fugaz como o riso de uma piada A gozação, como verificou a antropologia social clássica de Marcel Mauss e Radcliffe-Brown, transaciona sentimentos opostos de proximidade amistosa e de preferência inamistosa, aumentando a solidariedade. Mas não se pode esquecer que transposta para o plano coletivo, essa jocosidade se transforma em agressividade como ocorre nas brigas de torcida, intimamente relacionadas com o desenvolvimento das torcidas organizadas que, por serem estruturas de louvação permanentes, tendem a se fixar na vitória, esquecendo o dado constitutivo do universo do futebol: sua configuração como um campo competitivo, agonístico e de trocas recíprocas.

O que se dá é um reordenamento das rotinas por intermédio do futebol. Cria-se um mapa diverso que envolve sempre o último jogo, o último embate, a última guerra pelo status momentâneo de vencedor que será posto em risco (ou doado como um presente) na próxima partida. Essa obrigatoriedade de arriscar o status obtido em cada campanha futebolística define a coesão desse universo, pois todo torcedor sabe que o seu time pode ser a próxima vítima. Ninguém jamais está imune à derrota do mesmo modo que ninguém pode ser vitorioso sempre. O futebol é uma caixinha de surpresas, é um esporte que comporta "zebras" homéricas. Até o Santos de Pelé, Coutinho e companhia perdia!7 7 . DaMatta (1994) sugere que essa insegurança existe porque o futebol é jogado com o pé e não com a mão, o que amplia as possibilidades de erro no jogo e de resultados inesperados.

A incerteza sustenta a continuidade dessa disputa dinâmica e agonística por status, uma contenda estruturada na obrigação de o vencedor permanecer na competição, colocando em risco sua glória. Esta obrigação conduz à coesão. E como o futebol se estende por todo o país, falamos da coesão da nação brasileira. Essa malha clânica se espalha e encrava na "vida socioeconômica" do Brasil; ela fornece elementos indispensáveis para se pensar a nação brasileira de forma alternativa. Se, por um lado, Elisa Reis (1983) afirma que a nação foi construída tardiamente, por outro, pode-se dizer que, no século XX, o futebol contribuiu para o seu desenvolvimento. Foi este esporte que forneceu o conjunto de identidades locais, regionais e nacionais aberto e livre de constrangimentos de cor, nível educacional, vizinhança e classe. Além disso, como demonstrou DaMatta, o futebol, por sua excelência, está intimamente associado ao orgulho de ser brasileiro. É ele e não a economia e a tecnologia, a expressão máxima da nossa nacionalidade.

Quando o Brasil é mais Brasil? Na Copa do Mundo, é claro. O embate universal entre nações nos faz mais brasileiros que nunca. Enfeitamos as ruas, usamos o verde-amarelo (que em qualquer outra situação é "brega"), nos emocionamos até o último minuto de cada jogo. Quando as ruas do país estão mais vazias, em sinal claro de desprezo por todas as rotinas? Num jogo da seleção numa Copa do Mundo. Se ganhamos ou perdemos, quem perde não é a Seleção, é o Brasil, somos todos nós. Nesses termos, a derrota no jogo final da Copa de 50, no Maracanã, foi — quem sabe? — o primeiro momento em que o país chorou como brasileiro de forma sincronizada, total e universalmente.

CONCLUSÃO

Como as brigas de galo de Bali, tão bem estudadas por Clifford Geertz (1989), o futebol é uma história que nós, brasileiros, contamos para nós mesmos, de um certo ponto de vista. No Brasil, o futebol é um discurso capaz de criar muitas identidades. Funda-as, como busquei revelar aqui, de modo profundo, "real" e concreto no sentido das emoções despertadas pelo orgulho da nacionalidade. E por ser vitorioso, o futebol é um discurso capital sobre a nacionalidade. Não é simplesmente um outro discurso sobre a brasilidade, ele é fundamental para sua constituição. Não há dúvida que o futebol é um mapa alternativo, mas é um mapa tão real quanto aquele da vida econômica ou política, pois possibilita o sentimento da nação. Mais que isso: ele possibilita uma imagem da nação quase que à revelia das condições econômicas e das imagens negativas do Brasil, sistematicamente veiculadas pelos órgãos de formação da opinião pública.

Esse mundo alternativo onde os lugares não estão fixos, onde pessoas de classes diferentes se relacionam através da lógica clânica do futebol, apresenta-se como mais justo8 8 . Aqui, então, chegamos a concordar com DaMatta no que se refere ao aspecto igualitário do futebol. . Seria um erro sociológico crasso pensar que o futebol mistifica a realidade dura e cruel, mascarando de modo barato as dificuldades da "vida". Explicá-lo por meio desse tipo de argumento não faz justiça à complexidade desse universo. O futebol não é ópio do povo, ele é o Brasil lido como uma malha complexa com implicações nas dimensões cívica, nacional, econômica e política, e também sentido como uma entidade concreta que reage, que comenda, que vive, que morre e, sobretudo, que é vitoriosa.

Afirmo que o futebol se apresenta como uma realidade contrastante com a da vida "socioeconômica", sendo, assim, concretamente, uma crítica social à nossa sociedade. Afirmo, também, que o futebol é responsável direto pela formação da nação brasileira, em função da identificação nacional com a Seleção e da extensão dessa "malha" clânica por todo o país. Finalmente, cabe destacar um fato curioso: um dos principais elementos de constituição da nação brasileira é "um sistema alternativo de classificação".

(Recebido para publicação em junho de 1999)

(Versão definitiva em janeiro de 2000)

NOTAS:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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___. (1974), Dramas, Fields and Metaphors: Symbolic Action in Human Society. Ithaca/London, Manchester University Press.

WITTER, J. (1990), O que É Futebol. São Paulo, Ed. Brasiliense.

ABSTRACT

Soccer, Clans, and Nation

In an exploration of aspects of soccer and nation in Brazil, the article demonstrates how soccer serves to organize and classify reality by dividing the world into clan-teams. Approaching soccer as more than a metaphor, the article analyzes soccer teams as clans that are parts of a specific universe, where people are divided according to their support for a given team. As a system for classifying reality within people’s day-to-day lives, this universe brings people together and transforms vertical relationships into horizontal ones. Lastly, the article analyzes the relation between this type of classification and the construction of the Brazilian nation. The main purpose is to propose new issues and approaches pertinent to a sociological reading of Brazilian soccer.

Keywords: soccer; nation; sociology of sports

RÉSUMÉ

Football, Clans et Nation

Dans cet article on examine certaines questions sur le football et la nation au Brésil. On cherche à montrer que le football agit comme une forme d’organisation et de classement de la réalité, par le biais d’une répartition du monde en équipes-clans. Dans un cadre où le football va au-delà de la métaphore, on analyse les clubs comme des "clans", en cherchant à les saisir comme des éléments d’un univers particulier, où les personnes sont rangées selon leur affiliation à un club. Cet univers est un système de classement de la réalité qui opère sur le quotidien des gens, les rapprochant et rendant horizontale la verticalité des relations. On finit par examiner le rapport entre cette forme de classement et la construction de la nation brésilienne. Le but central du travail est de soulever des questions et approches nouvelles en vue d’une lecture sociologique du football au Brésil.

Mots-clé: Football; nation; sociologie du sport

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  • ___. (1974), Dramas, Fields and Metaphors: Symbolic Action in Human Society Ithaca/London, Manchester University Press.
  • WITTER, J. (1990), O que É Futebol. São Paulo, Ed. Brasiliense.
  • *
    Este artigo deve muito a Roberto DaMatta pelas cruciais sugestões e correções feitas a diferentes versões do mesmo. Várias reflexões foram por ele generosamente sugeridas, enquanto algumas idéias originais foram melhor desenvolvidas a partir de suas observações. Os comentários e idéias de Marcos Lanna também foram importantes. Agradeço igualmente o ótimo julgamento oferecido pelo outro parecerista de Dados. Por fim, agradeço à própria Dados e a Charles Pessanha, seu editor, que tanto contribuiu para o desenvolvimento do texto, facilitanto o diálogo com DaMatta.
  • 1
    . Para obras acadêmicas que tratam da história do futebol, ver, p. ex., Witter (1990); Melhy e Witter (1982).
  • 2
    . Para Turner (1957), os dramas sociais são episódios de tensão e conflito em que as relações sociais do grupo estão em "perigo".
  • 3
    . Apenas indico aqui a importância dos meios de comunicação na difusão do futebol. Uma análise sistemática deve levar em conta a relevância dessa questão e discuti-la criticamente, o que não foi possível fazer neste artigo.
  • 4
    . Os motivos que levam à filiação a um ou outro clube é uma outra pesquisa, pois são vários e complexos demais para os limites deste artigo.
  • 5
    . Para uma análise de clubes locais como clãs que servem para pensar relações locais de poder, ver a criativa análise de Lanna (1995), principalmente o capítulo 2, na parte que trata da dualidade (:103-119). Interessante notar que em São Bento do Norte (cidade analisada pelo autor) os clubes locais assumem o nome e as cores de times-clãs nacionais, como Flamengo, Palmeiras, Vasco, São Paulo, e até mesmo internacionais, como o Arsenal.
  • 6
    . São comuns no ambiente futebolístico brasileiro as chamadas "relações jocosas". Elos que reúnem a um só tempo distância, agressividade e solidariedade como quer a velha teoria de Radcliffe-Brown (1973).
  • 7
    . DaMatta (1994) sugere que essa insegurança existe porque o futebol é jogado com o pé e não com a mão, o que amplia as possibilidades de erro no jogo e de resultados inesperados.
  • 8
    . Aqui, então, chegamos a concordar com DaMatta no que se refere ao aspecto igualitário do futebol.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      02 Ago 2000
    • Data do Fascículo
      2000

    Histórico

    • Aceito
      Jan 2000
    • Recebido
      Jun 1999
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