Accessibility / Report Error

A notícia política na mídia evangélica: o Mensageiro da Paz e a Folha Universal em perspectiva comparada

Political news in the brazilian evangelical media: o Mensageiro da Paz and Folha Universal from a comparative perspective

L'Information politique dans les média évangéliques: Mensageiro da Paz (Messager de la Paix) et Folha Universal (Feuille Universelle) dans une perspective comparée

Resumos

This article analyzes the editions published from May 2010 to January 2011 of Folha Universal, the weekly newspaper of the Universal Church of the Kingdom of God in Brazil, with a circulation of 2.7 million, and O Mensageiro da Paz, the Assembly of God's monthly publication. During Brazil's last elections, the Evangelicals' political force and their capacity to define the agenda of the Presidential campaign attracted constant news attention in the lay press. However, little was said about this world's internal diversity or the different ways these religious people think of politics. Wagering on a dialectic interweaving worldview and communication, we focused on the symbolic expressiveness of these publications as a window on the way politics was portrayed and experienced by the two main forces in the Brazilian Evangelical/Pentecostal community during the last electoral campaign.

Election; Evangelical; media


Dans cet article, on analyse les éditions à partir de mai 2010 jusqu'à janvier 2011 de Folha Universal (hébdomadaire de l'Église Universelle tiré à 2,7 millions d'exemplaires) et de Mensageiro da Paz (publication mensuelle de l'Assemblée de Dieu). Pendant les dernières élections, la force politique des évangéliques et leur capacité de modeler la campagne présidentielle ont été objet de nouvelles difusées par les médias laïques. Mais on a très peu parlé de la diversité à l'intérieur de cet univers et des différentes formes de la pensée politique de ces réligieux. Tout en croyant à l'incorporation dialectique entre perception du monde et communication, on part de l'expressivité symbolique de ces médias et on les prend comme une fenêtre sur le mode comment la politique a été représentée et vécue pendant la dernière période électorale entre les deux grandes factions du segment évangélique/ pentecôtiste brésilien.

élections; évangélique; médias


Election; Evangelical; media

élections; évangélique; médias

A notícia política na mídia evangélica: o Mensageiro da Paz e a Folha Universal em perspectiva comparada

Political news in the brazilian evangelical media: o Mensageiro da Paz and Folha Universal from a comparative perspective

L'Information politique dans les média évangéliques: Mensageiro da Paz (Messager de la Paix) et Folha Universal (Feuille Universelle) dans une perspective comparée

Diana LimaI; Vinícius WerneckII

IProfessora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).E-mail: dlima@iesp.uerj.br

IIDoutorando em Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).E-mail:werneck.cp@gmail.com

ABSTRACT

This article analyzes the editions published from May 2010 to January 2011 of Folha Universal, the weekly newspaper of the Universal Church of the Kingdom of God in Brazil, with a circulation of 2.7 million, and O Mensageiro da Paz, the Assembly of God's monthly publication. During Brazil's last elections, the Evangelicals' political force and their capacity to define the agenda of the Presidential campaign attracted constant news attention in the lay press. However, little was said about this world's internal diversity or the different ways these religious people think of politics. Wagering on a dialectic interweaving worldview and communication, we focused on the symbolic expressiveness of these publications as a window on the way politics was portrayed and experienced by the two main forces in the Brazilian Evangelical/Pentecostal community during the last electoral campaign.

Key words: Election; Evangelical; media

RÉSUMÉ

Dans cet article, on analyse les éditions à partir de mai 2010 jusqu'à janvier 2011 de Folha Universal (hébdomadaire de l'Église Universelle tiré à 2,7 millions d'exemplaires) et de Mensageiro da Paz (publication mensuelle de l'Assemblée de Dieu). Pendant les dernières élections, la force politique des évangéliques et leur capacité de modeler la campagne présidentielle ont été objet de nouvelles difusées par les médias laïques. Mais on a très peu parlé de la diversité à l'intérieur de cet univers et des différentes formes de la pensée politique de ces réligieux. Tout en croyant à l'incorporation dialectique entre perception du monde et communication, on part de l'expressivité symbolique de ces médias et on les prend comme une fenêtre sur le mode comment la politique a été représentée et vécue pendant la dernière période électorale entre les deux grandes factions du segment évangélique/ pentecôtiste brésilien.

Mots-clés: élections; évangélique; médias

INTRODUÇÃO

A presença de atores religiosos e a ascendência de valores confessionais sobre a política brasileira não é recente. Embora a laicidade tenha se firmado no corpo da lei com a Constituição republicana de 1891, o certo é que a Igreja Católica soube manter sua influência na vida pública por meio da educação escolar dos filhos das elites, da atividade da Ação Católica e da atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) (Della Cava, 1975; Giumbelli, 2002: 229-284; Leite, 2003; Montero, 2006; Novaes, 1997; Sanchis, 1994; Steil, 1999). Também os protestantes, ainda que em pequena quantidade e sem despertar atenção como grupo diferenciado, estiveram na política, com assento no Congresso Nacional desde a década de 1930. "Alguns deles tinham um eleitorado basicamente protestante, mas nenhum tinha o endosso oficial de uma denominação" (Freston, 1999:335). Até a eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, em 1985, seu modo de agir não divergia de maneira significativa da dos demais candidatos, nem na forma como se apresentavam na disputa eleitoral, nem naquilo que se refere às suas bases ou ao seu desempenho parlamentar. Naquele momento, contudo, o estabelecimento de um ambiente plural no mundo cristão brasileiro, promovido pela expansão do pentecostalismo, refletiu-se inclusive na política institucional. Se até as duas últimas décadas do século passado a inscrição religiosa não distinguia a atuação dos parlamentares evangélicos da dos outros parlamentares, a participação massiva dos evangélicos pentecostais na Constituinte produziu uma importante mudança nesta realidade ao promover um intensificado trânsito de personagens e valores entre esferas da vida – religião e política – modernamente, e até então no Brasil, concebidas como separadas.

Duas grandes denominações pentecostais brasileiras, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – e a Assembleia de Deus1 1 . Em 2000, segundo o Censo, dois terços do universo evangélico brasileiro era pentecostal. Apesar do grande número de denominações, a IURD, a Congregação Cristã do Brasil e a AD concentravam, então, 74% dos fiéis. AIURD e a AD são as igrejas com mais visibilidade e penetração na política institucional. A Congregação Cristã do Brasil mantém atitude mais sectária e apolítica desde a sua fundação. , entraram na atividade política nacional no momento da redemocratização, quando elegeram parlamentares com inscrição denominacional e, ao mesmo tempo, orientaram, com grande eficácia, seus fiéis na votação de candidatos ao Executivo e ao Legislativo (Pierucci, 1989; Pierucci e Mariano, 1992; Freston, 1992, 1993; Oro, 2003). A participação dessas importantes instituições do ambiente religioso brasileiro suscitou o interesse dos pesquisadores porque quando passaram a comparecer nos processos eleitorais e a participar ativamente na política, elas contrariavam a ideia – até então vigente no entendimento sobre o quadro religioso nacional – de que o ascetismo evangélico envolveria inclusive a total abstenção à política. Esse cenário provocou ainda mais a curiosidade dos cientistas sociais que se dedicam à religião porque, como afirma Machado (2006), os pentecostais "são o grupo evangélico mais competitivo e com maior capacidade de transferir influência da esfera religiosa paraaesferapolítica", sendo particularmente pronuncia da adisposição dos fiéis da IURD em seguir as indicações das lideranças da igreja.

Segundo Pierucci e Mariano (1992), em 1989, apesar de suas diferenças teológicas,foi em nome de uma mesma causa – a da liberdade religiosa – que esses setores se engajaram na eleição do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Enquanto os pastores da Assembleia de Deus temiam que Luiz Inácio Lula da Silva, candidato da esquerda, impusesse no Brasil a experiência de intolerância religiosa vivida nos países comunistas, a Igreja Universal acreditava que o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) iria entregar toda a vida confessional brasileira à Igreja Católica.

Freston oferece um quadro menos linear dos evangélicos naquele momento em que a Igreja Universal ainda não tinha a força que veio a demonstrar mais tarde. "Além do Movimento Evangélico pró-Collor, outros comitês se formam: pró-Brizola e pró-Lula" (Freston, 1992:33). E relata que quando perguntou aos integrantes do Movimento pró-Collor "se não estavam com receio de perseguição religiosa, a resposta eminentemente sensata foi que não, porque a liberdade religiosa estava garantida pela Constituição" (ibidem). O autor entende, assim, que a motivação desse grupo para não votarem Lula"girou em torno da 'convulsão social' que suas políticas gerariam". Para ele, a "politização pentecostal" é uma "afirmação da maioridade cívica" deste segmento social, que resultou de uma combinação de diversos fatores conjunturais e estruturais. Freston adverte ainda que há uma "enorme diversidade de estilos religiosos e de atitudes sociopolíticas abrigada pelo rótulo de evangélico" (ibidem:42).

Mais de vinte anos depois, a observação do processo eleitoral de 2010 reforça a constatação da relevância das posições desses grupos no embate público. Nas últimas eleições presidenciais, sua força política voltou a se mostrar e foi diretamente disputada pelos três candidatos. Ainda que Pierucci (2011) tenha constatado que a confissão religiosa seja um fator secundário na determinação do voto, é indiscutível que, de maneira sintomática, todos os candidatos tenham incorporado às suas campanhas o tratamento de questões sexuais e reprodutivas, procurando corresponder a demandas morais vocalizadas por diferentes setores do universo cristão.

Tendo sido afastada a ameaça de inibição da liberdade religiosa que preocupava muitos desses eleitores no fim dos anos 1980, ao que parece, hoje os pentecostais veem na política uma via de afirmação da moral cristã sobre os costumes privados. Mas não é só isso. Muito além desse ponto comum, como argumentou Freston (1992) e demonstrou Figueiredo Filho (2002), há numerosas diferenças no modo de perceber e de estar na política dentro deste universo a que a mídia secular insiste em se referir, genérica, indistinta e não raro pejorativamente, como "evangélicos".

Com vistas a avançar na compreensão a cerca do modo como esses dois grupos religiosos representam a política, vamos verificar como a vida pública foi tratada no interior dessas duas importantes frações do universo evangélico pentecostal durante o último período eleitoral. Queremos verificar em que medida suas características institucionais e teológicas se refletem nas suas formas de participar da atividade política. Instigados pela insistência com que a mídia laica se ocupou dos "evangélicos" durante o período eleitoral de 2010, apostamos no rendimento heurístico de uma análise dos seus próprios veículos de comunicação.

O objetivo não é verificar as suas posições partidárias, muito facilmente evidenciadas pelo material examinado. Também não vamos fazer especulações a cerca de supostos interesses inexplícitos a orientar a atividade política desses grupos ou oferecer a nossa avaliação pessoal sobre o seu comportamento enquanto instituições religiosas ou enquanto atores políticos. Tendo em mente as peculiaridades e semelhanças entre essas duas comunidades de fé, olhamos para esses veículo sem busca de respostas a cerca do modo como essas duas denominações representam e assim participam da política partidária.

Apoiados na ideia consagrada de que os elementos constitutivos de uma estrutura são simbolicamente expressivos desta estrutura (Barthes, 2006; Jakobson, 2001; Lévi-Strauss, 1996; Saussure, 2004), tomamos como material empírico para análise os jornais impressos publicados por essas duas denominações cristãs, Assembleia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus. Sabemos que a imprensa, embora seja importante, não é a única forma de comunicação nesses universos (Conrado, 2001; Birman, 1996; Figueiredo Filho, 2002; Fonseca, 1997, 2003; Swatowiski, 2004), mas entendemos que é uma boa janela de acesso às visões de mundo vigentes nos ambientes em que são produzidos e por onde circulam. Assim, serão examinadas e comparadas as edições de maio de 2010 a janeiro de 2011 da Folha Universal –semanário da Igreja Universal com tiragem de 2,7 milhões de exemplares – e do Mensageiro da Paz – publicação mensal da Assembleia de Deus.

MÍDIA E PRODUÇÃO DE SENTIDO

A riqueza dos meios de comunicação de massa enquanto recurso analítico está consolidada nas teorias da comunicação, seja por meio de pesquisas de referência visual, seja por meio de análises de discurso ou conteúdo, entre outros. Mais especificamente os jornais impressos, como os utilizados no presente artigo, são constantemente estudados em interface com diversas áreas das ciências humanas (historiografia, política, cultura etc.)2 2 . Há, certamente, diferenças entre os jornais analisados e aqueles que constituem a "grande mídia". Enquanto os jornais seculares dispõem de estrutura profissional de produção e distribuição, não podem perder totalmente de vista os interesses de seus anunciantes e costumam visar um público amplo; os jornais evangélicos têm uma fabricação mais caseira e se dirigem ao leitor evangélico, ainda que a Folha Universal circule também fora do ambiente religioso. Além disso, os jornais seculares, embora tenham suas agendas em diversos temas, com certa frequência tratam de assuntos polêmicos sem assumir posições, e os jornais evangélicos, por conta de sua própria essência de órgão oficial de uma instituição ou de uma coletividade, costumam adotar posições oficiais e dogmáticas a respeito de muitos dos temas que aborda. Mas ao lado dessas e de outras diferenças sobre as quais aqui não cabe discorrer, é importante lembrar que em um aspecto todos os jornais se assemelham: em ambos os mundos, no secular e no religioso, os jornais utilizam-se da língua e da palavra, integrando o processo de construção social da realidade. .

Neste esforço de melhor compreender os enquadramentos da vida pública e política nas páginas dos dois jornais analisados (Folha Universal e Mensageiro da Paz), é relevante ressaltar que se compreende o jornalismo como parte de um processo de construção social da realidade – não um espelho dela. No esteio de uma parcela significativa dos estudos sobre comunicação e política, compreendemos que o "discurso jornalístico é produzido com base no concurso e do efeito daquilo que lhe ofertam outros códigos, isto é, outras vozes e múltiplas polifonias provenientes de outros campos culturais ou que deles são tomadas por empréstimo" (Vizeu, 2007:9).

Notícias não espelham a realidade. Ao contrário, elas a constituem como um fenômeno social compartilhado, visto que no processo de descrever o evento, as notícias o definem e redefinem (Tuchman, 1978:184; Correia, 2005:184). Fausto Neto, conforme sumariza Vizeu (2007:7), entende que "toda notícia constitui uma espécie de formação substitutiva. Ou seja, é algo que tenta se colocar no lugar de outra coisa que lhe é exterior". Como, entretanto, o tema ali tratado e o fato originário acontecem com um intervalo de tempo de natureza incontornável, cabe aos jornais recorrerem à mediação para reconstruir o tempo do fato originário da notícia.

Por conta disso, a língua é um ponto de partida importante: é o principal recurso por meio do qual um jornal elege o real que vai narrar, "e ao escolher o modelo narrativo em que o vai exprimir, [...] reduz a infinitude de realidades e significações a um pequeno conjunto que as representa." (Correia, 2005:196). Passa-se, portanto, a ver a língua como a dimensão constitutiva do jornalismo (Vizeu, 2005:8). Aliando essa dimensão a todos os outros recursos do fazer jornalístico, da diagramação ao foto jornalismo, da tipologia ao formato e às cores dos papéis utilizados, o jornal impresso torna-se um lugar privilegiado de produção de sentidos e um importante campo de ação para a pesquisa que propomos.

Não há objetividade no jornalismo. Ao contrário, há toda uma estrutura que, ao reger a prática jornalística, favorece a criação e a manutenção da ilusão da não subjetividade dos processos jornalísticos, como é o caso dos próprios critérios de noticiabilidade. Por outro lado, são amplas as formas pelas quais essa subjetividade é exercida – e, de certa forma, inevitavelmente exercida. Ao "construir-se um discurso especialmente virado para a descrição do que existe", do que é natural ou tido como dado, "cai-se facilmente, independentemente de qualquer imputação de intencionalidade conspirativa, no risco de se construir um discurso" que divide a realidade entre a norma e o desvio. E conclui Correia: "Os relatos podem ser ideológicos, não por causa de qualquer forma de parcialidade ou de manipulação intencional dos dados, mas porque são sempre produzidos no interior de uma determinada matriz ideológica" (Correia, 2005:191).

Peter Berger e Thomas Luckmann (1985:179) sustentam que na experiência da vida cotidiana, o ser humano partilha sua existência com os demais à sua volta, num processo de interações sociais (e, portanto, de interações comunicativas mediadas pela linguagem) que é fundamental para a produção de sentidos e de autossentidos. Segundo os autores, não se pode dissociar o que chamamos de realidade dos processos de socialização primária (experimentada na infância) ou secundária (interiorização, pelo indivíduo já socializado, de valores de submundos institucionais). É a partir de nossas relações comunicativas com os outros, das interações a que somos submetidos e da constituição de um universo simbólico que percebemos a realidade a partir de determinados enquadramentos específicos e criamos um significado para o mundo – e para nós mesmos.

As possibilidades que a análise dos dois jornais evangélicos abrem para a compreensão do tema que nos interessa são, portanto, bastante ricas. Como foram tratados os temas políticos em cada um dos veículos, nas edições que circularam durante a última eleição presidencial? Uma eleição especialmente singular, durante a qual os candidatos buscaram o apoio formal das igrejas e as lideranças dessas igrejas diversas vezes se pronunciaram publicamente acerca da sua posição política, ao mesmo tempo que debates sobre o próprio vínculo entre religião e política invadiram o noticiário e a mídia secular.

Em seguida vamos apresentar as duas denominações em questão, bem como os jornais tomados como janela de acesso ao ambiente empírico que pretendemos examinar. Não custa lembrar que estamos menos interessados em verificar qual é a posição político-partidária de cada uma delas ou em evidenciar seus interesses como grupo e antes preocupados em compreender o que é, para elas, a política.

AS DENOMINAÇÕES EM QUESTÃO

A Assembleia de Deus (AD)

A história do protestantismo no Brasil, e dentro dela a do percurso do pentecostalismo, desde o início do século XX, com sua ênfase na experiência direta do Espírito Santo e na glossolalia, já foi contada. Não está no escopo deste artigo avaliar os critérios empregados pela literatura acadêmica para ordenar o fragmentado universo cristão não católico no Brasil e classificar a diversidade denominacional que dele resulta. Tampouco interessa aqui esgotar as tipologias disponíveis para a compreensão deste quadro. Paul Freston (1993; 1994) nos ajuda a agrupar a pluralidade e nos permite deixar claro que estão em análise duas instituições religiosas muito distintas. Para ele, a chegada e a evolução do pentecostalismo no Brasil pode ser melhor compreendida se ordenada com base nas características das igrejas e nas marcas que carregam do momento em que surgiram. Freston identifica, então,"três ondas pentecostais":

A primeira onda é a década de 1910, com a chegada quase simultânea da Congregação Cristã (1910) e a Assembleia de Deus (1911) [...]. ACongregação, após grande êxito inicial, permanece mais acanhada, mas a Assembleia se expande geograficamente nesse período como a igreja protestante nacional por excelência [...]. A segunda onda pentecostal é dos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se fragmenta, a relação com a sociedade se dinamiza e três grandes grupos (em meio a dezenas de menores) surgem: a Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962) [...]. A terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Sua representante máxima é a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) [...] essas igrejas trazem uma atualização inovadora da inserção social e do leque de possibilidades teológicas, litúrgicas, éticas e estéticas do pentecostalismo. (Freston, 1994:70-71)

A capacidade elucidativa dessa tipologia reside na atenção que confere aos contextos sociais e históricos de emergência de cada uma dessas igrejas ou conjunto de igrejas. Em outras palavras, seguindo a pista de Freston, está claro que para se entender as duas igrejas em foco nesta análise, é imprescindível levar a sério seus respectivos processos de formação, bem como o momento que surgiram.

AAD foi fundada no Brasil mais ou menos na mesma época em que, entre integrantes do chamado movimento de santidade3 3 . O movimento holiness surgiu no coração do metodismo pregando a doutrina da "perfeição cristã" e defendendo o direito a todos os fieis à experiência imediata e intensa com o Espírito Santo. Essa benção ou o"batismonoEspíritoSanto" seria capaz de trazer a paz e a limpeza interior a todo aquele que a alcança. Nos cultos avivados do movimento, a glossolalia sinalizava o encontro espiritual. Em pouco tempo, o falar em línguas assumiu centralidade teológica e litúrgica no pentecostalismo. , o próprio pentecostalismo surgiu nos Estados Unidos e se espalhou para o resto do mundo. O autor lembra que, neste momento, os pastores pentecostais estavam mais preocupados com a divulgação da mensagem do que com a estruturação de igrejas. Assim, sem estar vinculado a qualquer instituição estrangeira, o pentecostalismo pôde se desenvolver no Brasil com características eclesiais próprias. A AD nasceu em Belém, capital do Estado do Pará, do encontro de missionários suecos – homens humildes e marginalizados na Suécia luterana – com a realidade patriarcal e rural das regiões Norte e Nordeste do Brasil, no início do século XX. Por 40 anos cresceu e se expandiu pelo país como uma igreja de excluídos, valorizando a leitura direta da Bíblia4 4 . "[S]uas Escolas Dominicais muito facilmente se tornaram verdadeiros centros de alfabetização de adultos para uma população de balconistas, trabalhadores rurais, ferreiros, seringueiros, operários da construção civil, faxineiras" (Mafra, 2001:31). e a bênção divina, mantendo recato na vestimenta e reserva em relação a hábitos como a dança, o fumo, o álcool e o futebol, segundo o exemplo de modéstia trazido por seus criadores. Eram, na sua reserva e humildade, "[o]s escolhidos de Deus" (Novaes, 1985). "Aaparência digna dos fiéis contrastava com o 'vozerio impetuoso' da oração em 'línguas estranhas', num misto de ordem e intensidade mística incompreensível para muitos" (Mafra, 2001:30).

Em 1930 a igreja já se espalhara pelo país inteiro, como resultado do trabalho evangelizador das lideranças pastorais e também dos fiéis, que, seguindo a recomendação de que cada membro da igreja é também um missionário da palavra bíblica, fervorosamente espalhavam a mensagem pentecostal por seus caminhos de trabalhadores migrantes. Esta ampliação provocou desavenças entre suecos e brasileiros, uma vez que contrariava as pretensões originais daqueles dissidentes da igreja nacional (sueca) luterana que aqui vieram para criar pequenas congregações livres e locais. Foi assim que, naquele ano, a igreja se autonomizou da Missão Sueca (embora a sua presidência tenha permanecido nas mãos dos pastores suecos até 1951) e transferiu a sede da denominação de Belém para o Rio de Janeiro.

Já em relação à hierarquia na Assembleia, tradicionalmente "um homem chega a ser pastor na AD, vencendo uma série de estágios de aprendizado: auxiliar, diácono, presbítero, evangelista, pastor" (Freston, 1994:87). Sua ordenação não depende de uma formação especializada, ele é escolhido por unanimidade entre todos os pastores e reconhecido como "ungido do Senhor". A igreja se organiza segundo uma lógica de rede altamente hierarquizada, formada por igrejas-mães e congregações dependentes. O pastor que preside a Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil tem autoridade sobre todas as decisões, embora seus poderes sejam diluídos em função da coexistência de muitas convenções estaduais e ministérios filiados. Contudo, Freston entende que ainda que o modelo da igreja sectária continue prevalecendo, ele vem sendo desafiado por pastores jovens, com formação teológica em seminários e institutos bíblicos hoje mantidos pela própria igreja, no Brasil, na África e em outros países da América Latina. Em 1994, o autor avaliava que, com dificuldade de se adaptar à cultura urbana brasileira e à ascensão social e escolarização de boa parte dos filhos das suas famílias, e também em virtude do surgimento de novas denominações pentecostais para lhe fazer concorrência, a "AD, atualmente, enfrenta crises de vários tipos" (Freston, 2002:89).

O Mensageiro da Paz

O Mensageiro da Paz (MP) é o periódico mensal da Assembleia de Deus, vendido tanto nas lojas da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) quanto por meio de assinaturas ou cotas para igrejas. A tiragem do jornal não é divulgada no expediente ou na capa – como o faz a Folha Universal. Por meio de contato com a redação do jornal, cuja sede está localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, apurou-se que a média encontra-se entre 125 mil e 150 mil exemplares mensais5 5 . Em comunicação pessoal, um redator do jornal informou que a maior tiragem foi em 2001, nos 90 anos da Assembleia de Deus no Brasil, quando o número ficou próximo de 500 mil exemplares. .

O jornal tem formato tabloide, com 28 páginas coloridas, impressas em papel top print, de baixa porosidade comparada ao papel jornal (utilizado pelo Folha Universal), possibilitando melhor fidelidade para reprodução de cores, fotos e ilustrações. Publicado há 80 anos, é considerado o órgão oficial da Assembleia de Deus: "O MP é o grande canal de informações da Assembleia de Deus no Brasil e tem o prestígio de servir ao povo de Deus há 72 anos" (CPAD, 2010).

Nos textos oficiais (ibidem), o Mensageiroda Paz afirma ter por objetivo levar "a visão do evangelismo e a divulgação da doutrina pentecostal por intermédio da imprensa". A descrição vai além e estabelece por si própria o paralelo com a imprensa tradicional: "Embora siga os mesmos padrões do jornalismo secular, a redação CPAD apresenta estilo próprio, desenhado por um Manual de Redação que segue a linguagem do meio cristão evangélico".

As matérias no periódico se dividem entre não assinadas e assinadas por pastores, e percorrem um amplo espectro de gêneros textuais: há testemunhos, artigos opinativos, notícias, relatos sobre falecimentos e aniversários, reflexões teológicas e séries de textos que funcionam como cursos (seja para a prática ministerial ou para montar um grupo musical). O Mensageiro da Paz contém as seguintes seções a cada edição, sendo que as barras, aqui, descrevem uma mudança de página: Capa/ AD em Pauta/ Opinião e Expediente/ Destaque/ Matéria da Capa/ Opinião, Cartas e Cremos/ Nacional/ Prática Ministerial/ Internacional/ Avanços, sinais & descobertas/ Matéria da Capa/ Apologética Contemporânea/ A Bíblia tem resposta/ Artigo/ Mulher & Família/ Testemunhos/ Curso de Música/ Louvor e Adoração/ Artigo/ Música, Em dia com Israel/ Artigo/ Entrelinhas/ Nossa História/ Em evidência.

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)

A Igreja Universal do Reino de Deus é a maior representante da "terceira onda pentecostal". Ela foi fundada em 1977 no Rio de Janeiro por Edir Macedo, um homem de origem católica que teve uma rápida passagem pela umbanda e foi membro da Igreja de Nova Vida6 6 . A Igreja de Nova Vida foi criada na década de 1960 por um pastor canadense que saiu da AD para oferecer um pentecostalismo menos rígido e influenciado pela renovação carismática norte-americana. Seu público é composto pela classe média baixa. . Pregando a "teologia da prosperidade", praticando a cura divina e a libertação do poder do demônio, a IURD é a igreja que mais tem atraído fiéis desde a década de 1990, quando, justamente, o campo pentecostal brasileiro começou a se expandir ao ponto de modificar a demografia religiosa do país.

Os valores estimulados pelo sistema moral da Igreja Universal do Reino de Deus e repetidos em sua pedagogia voltada para o trabalho empreendedor autônomo são aqueles caros à ética profissional postulada pelo mercado pós-social que se instala no Brasil nos anos 90 do século XX e ao hedonismo que a essa altura está, em ampla medida, moralmente legitimado no Ocidente moderno (Lima, 2007). É assim que a humildade não é um conceito importante no projeto de criação dessa denominação, como foi no caso da fundação da Assembleia de Deus. Ao contrário, no sistema teológico da IURD, o sagrado e o desfrute intramundano da fortuna estão positivamente vinculados e é a busca individual pela plenitude terrena, prioritariamente objetivada na riqueza material, o que dá sentido à adesão religiosa.

Do mesmo modo, alguns aspectos do ascetismo frente às coisas do mundo, que o protestantismo histórico e o pentecostalismo tradicional prescreviam para seus fiéis, são afrouxados por esta expressão emblemática da forma religiosa que se convencionou chamar de neopentecostalismo. Embora, nos templos, as drogas, a promiscuidade, o homossexualismo, o álcool, o cigarro e o jogo sejam repetidamente condenados pelo clero, o fiel da Igreja Universal é o principal responsável pela retidão de sua conduta, sendo que cabe a ele saber o que é apropriado a um evangélico.

Para alcançar a vida boa que Deus lhe reservou, o membro da Igreja Universal é chamado a intervir na sua própria realidade, colocando sua "fé em exercício", como dizem os pastores. Além de convocar a membresia a tomar para si as rédeas de seu destino social, em suas pregações os pastores insistem que, pronunciadas com fé, palavras positivas7 7 . Para um aprofundamento do tema da "Confissão Positiva" ou do poder performativo da linguagem, ver Mafra (2002) e também Fonseca (2000). têm força performativa e podem expulsar o mal – personificado na figura do demônio8 8 . Sobre a Teologia da Batalha Espiritual, ver Mariz (1997; 1999). Para a discussão acerca da demonização do panteão afro-brasileiro operada pela IURD, ver Silva (2007) e Reinhardt (2007). – que obstrui o acesso a tudo de bom que a existência terrena pode oferecer ao bom cristão.

Na IURD, a mensagem da prosperidade é dividida em partes e passada para o público em cultos voltados, cada dia da semana, a um tema diferente. Segunda-feira é o dia da "Reunião dos Empresários", terça-feira, os membros reúnem-se para a "Sessão de Descarrego"; na quarta, o culto é dedicado aos "Filhos de Deus"; quinta-feira é a consagração da "Família"; sexta-feira é o dia do culto da "Libertação"; sábado eles reservam para a "Terapia do Amor" e, no domingo, fazem "Louvor e Adoração". Esse universo é composto por um contingente de pessoas cuja adesão à igreja varia em graus de intensidade entre frequentadores eventuais, fiéis, obreiros e pastores. Os frequentadores eventuais são convidados a participar de correntes de oração para a obtenção da graça. Muitos, assim, conhecem a libertação e firmam sua adesão à igreja. Os obreiros são fiéis que trabalham voluntariamente nos templos ajudando nos cultos e mantendo as igrejas limpas e arrumadas. Os pastores, rapazes cuja habilidade para a função é identificada no cotidiano da participação religiosa, recebem também uma formação na escola da própria instituição e são remunerados em sua atividade. Esses pastores seguem as orientações da hierarquia da IURD e raramente criam uma relação congregacional com a comunidade onde estão atuando, porque são periodicamente deslocados de uma igreja para outra, no Brasil e no exterior.

A Igreja Universal é parte de um complexo empresarial transnacional gerido de maneira centralizada por Edir Macedo e seus homens de confiança. Esse complexo envolve uma grande força midiática impressa e eletrônica, uma construtora, uma agência de viagens e um pequeno banco, além da entidade de assistência social, a Associação Beneficente Cristã.

A Folha Universal

O veículo Folha Universal é um dos jornais com maior circulação na América Latina, alcançando tiragem semanal de 2,7 milhões de exemplares. A sua distribuição ocorre por meio dos templos, que recebem os jornais entre sexta-feira e domingo e os entregam ao longo da semana (nos próprios templos e fora deles, em trabalhos de evangelização).

Em ocasiões especiais há uma tiragem maior, como na edição 911, da última semana de setembro de 2009, quando 3,5 milhões de exemplares foram impressos em uma edição especial contra as Organizações Globo9 9 . Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/congresso/distribuicao-universal/ . A tiragem recorde aconteceu há pouco tempo, na primeira semana de junho de 2010, quando se comemorou a edição de número 1.000. Foram, então, 4 milhões de exemplares, cujas páginas continham mensagens de congratulações de personalidades conhecidas nacionalmente. Eram pessoas do meio político brasileiro, entre os quais estão a presidenta e o vice-presidente, Dilma Roussef (PT) e Michel Temer (Partido do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB), o presidente do Senado, José Sarney (PMDB), entre outros; funcionários da Rede Record, como a apresentadora Ana Hickmann e a jornalista Ana Paula Padrão; ou, por fim, evangélicos famosos, como o jogador de futebol, Kaká. Estimativas divulgadas pelo próprio veículo sugerem que o jornal seja lido, semanalmente, por mais de 10 milhões de pessoas.

A redação do jornal é em São Paulo, havendo correspondentes em onze capitais (Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, São Luís, Manaus, Rio Branco, Macapá, Goiânia, Cuiabá e Curitiba). Tanto as notícias quanto as reportagens são sempre assinadas. Nas edições analisadas, entretanto, diversas fotografias são creditadas a agências (Folhapress, do Grupo Folha; Agência France-Presse e Reuters) ou a portais de conteúdos fotográficos de baixo custo, como o PhotoXpress. Algumas imagens são cedidas e outras são da lavra do próprio jornal.

O jornal se apresenta em formato tabloide, com dimensões aproximadas de 288 mm x 388 mm. Constituído sempre de 32 páginas coloridas, impressas em papel jornal, tem os espaços para publicidade bem delimitados e não tem seção dedicada a classificados. Quanto aos temas, o periódico os divide em dois grandes eixos que se separam fisicamente em dois cadernos: de um lado, aqueles diretamente relacionados à Igreja e à fé – no Folha IURD –, de outro, assuntos gerais (como política, saúde, cultura, entretenimento) – no caderno principal.

Nos texto soficiais (Folha Universal, 2011), o jornal diz ter por objetivo "levar seus leitores à melhor informação, ao entretenimento e à reflexão sobre os mais variados assuntos". O formato tabloide foi adotado em 2006 para acompanhar "a tendência moderna de mercado, utilizada inclusive na Europa"; essa reestruturação vai além, e procura "tornar a leitura mais fácil e rápida [...], textos mais enxutos, com a valorização da parte fotográfica". O jornal diz também que as matérias são tratadas de maneira simples, objetiva, clara e isenta. São abordados assuntos de interesse geral, como saúde, educação, esportes, política, economia, oportunidades, cidadania e orientações, entre outros. É um jornal que já conquistou espaço em todas as camadas da sociedade. Trata-se de um semanário diversificado,atual,buscandosempreinformações de qualidade, com respaldo de especialistas (ibidem).

Para os interessados em anunciar no jornal, o veículo informa que o público-alvo são os homens e as mulheres a partir de 16 anos, classes ABCD, o que é, de certa forma, toda a população brasileira alfabetizada.

A POLÍTICA NA MÍDIA EVANGÉLICA DURANTE A DISPUTA ELEITORAL

As 36 edições e quase 1.200 páginas publicadas pelo Folha Universal e as 8 edições e 224 páginas distribuídas pelo Mensageiro da Paz constituem um corpus empírico rico, repleto de referências à disputa eleitoral, as quais vamos analisar em dois planos. Selecionamos as edições dos dois jornais nas quais as eleições foram tematizadas e, de um lado, olhamos para uma dimensão mais aparente, relativa a todos os momentos em que os candidatos foram citados nominalmente ou nos quais o tema da eleição foi explicitamente tratado. De outro, prestamos atenção à forma de apresentação de cada edição. Redobrando o sentido da mensagem linguística contida na notícia e mantendo com ela uma relação de significação, o modo como a notícia é encadeada com outros textos (os que lhe dão suporte e os que não têm nenhuma relação direta com ela) e com os recursos visuais (imagens e chamadas) encarregados de marcar o valor diferencial de cada questão abordada pelo jornal, é aqui igualmente importante. Ele contribui no processo intermitente de produção de sentidos que, postos em diálogo com os leitores, conformam as concepções de mundo partilhadas nos espaços sociais por onde circulam.

Como veremos adiante, nos meses que antecedem a eleição de 2010, ambos os veículos trataram de temas relativos à política institucional.

A Disputa no Mensageiro da Paz

No Mensageiro da Paz de setembro de 2010 (nº 1.504), a matéria de capa tem a manchete "Está em suas mãos escolher o presidente" sobre as fotos de Serra, Marina e Dilma, nessa ordem. A matéria se propõe traçar "o perfil e as propostas dos principais candidatos à Presidência" (MP:4-5), e, embora inexplicitamente, o jornal faz uma valoração. Destaca-se rapidamente o fato de que enquanto Serra e Marina olham para o leitor e estampam um grande sorriso, Dilma olha para um ponto di-fuso e traz a compleição séria. Ainda na capa do jornal, embaixo das três fotografias, o texto da chamada explica ao leitor que "[o]s evangélicos representam 25% da população, o que lhes dá um peso importante nessa decisão [...] sabe-se que as bases da economia brasileira não serão mudadas, assim como Lula não as mudou ao assumir em 2003, traindo seu discurso de mais de dez anos de oposição, decisão esta que garantiu o crescimento do nosso país iniciado nos anos 90" (ibidem).

No interior do jornal,Marinaestánamesma foto,emboraespelhada, Serra tem uma nova foto novamente sorrindo e Dilma passa a ser representada por uma foto em fundo preto, olhar preocupado e novamente sem sorrir.

O objetivo expresso discursivamente pela edição é claro. Embora argumentem que "o que preocupa agora são outros aspectos" que não a economia, como "melhoria na educação, segurança, saúde e alguns posicionamentos do próximo presidente no que diz respeito a determinados projetos de lei que se chocam com os valores",são esses últimos "posicionamentos" os únicos que realmente importam. Mais à frente, a real preocupação se traduz em temas: "conheça o perfil ideológico dos candidatos e o que pensam sobre fé, aborto, união civil homossexual, adoção de crianças e legalização das drogas" (ibidem:1).

Nesta edição o jornal traz ainda um texto de página inteira, assinado por um pastor e "consultor doutrinário da CPAD", sobre os "constantes ataques do maligno para o esfacelamento da família" (ibidem:11); uma matéria de meia página sobre um "ataque frontal à liberdade religiosa" nos EUA (ibidem:13); uma pequena notícia sobre a rejeição da "adoção gay" por parte de "crianças argentinas" (ibidem:12) e, em grande destaque, em página dupla, uma matéria não assinada informando que "[e]specialistas destacam que educação tolerante, banalização do casamento e desapreço aos valores criam uma sociedade degenerada e violenta". Há uma "[c]rise moral em nosso país", cuja responsabilidade recai sobre leis criadas nos últimos anos (ibidem:14-15). Interessante notar que os dois parlamentares citados como autores de tais leis são membros do PT, partido de Dilma. Na página 18, um artigo assinado por um pastor e "1ºSecretário da AD em Campina Grande (PB), coordenador do Setor Oeste e presidente da Comissão Jurídica" convida os evangélicos a escolherem para o Poder Legislativo um representante que "seja uma pessoa que tem compromisso com Deus e com a Igreja, que serve ao Senhor". Para o autor, é "sem fundamento" o argumento segundo o qual a "política não é coisa de cristão, que Deus não quer que determinado irmão ou irmã seja candidato(a) porque ele(a) vai se corromper [...]". A igreja prescinde da política para sua "sustentação espiritual", diz ele, mas não "para sua administração e expansão geográfica, para a implantação da sua estrutura patrimonial, para o cumprimento de sua missão evangelizadora." Além desses pontos, também para a boa concretização de obras sociais de grande relevância, é preciso que os "evangélicos" entendam que "a política não é um bicho, é uma porta [...]". Na página 26, uma notícia breve informa que "[n]ova lei sobre o aborto divide a Espanha".

Na edição de outubro (nº1.505), que foi distribuída antes do primeiro turno, uma matéria de página dupla (ibidem:4-5) dá ao leitor a dimensão da população evangélica do país e, dentro dela, do tamanho da membresia da Assembleia de Deus. Segundo estimativa da própria igreja, em 2010 havia, "no mínimo, 15 milhões [...]. As estimativas mais ufanistas falam em 25 milhões". Na página (dupla) central, o MP apresenta os "[c]andidatos apoiados pelas Convenções regionais CGADB"10 10 . Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil. , convidando os leitores a seguirem a "indicação orientativa da liderança das Convenções regionais" na hora de votarem para deputado estadual e federal. Os nomes são indicados como "pessoas de confiança", que "estarão defendendo os valores esposados pelas Assembleias de Deus no Brasil", inclusive "a se oporem à descriminalização do aborto, à união civil homossexual, à adoção de crianças por homossexuais, ao projeto de lei contra a dita 'homofobia' e à legalização das drogas" (ibidem:14). Nas duas páginas constam 22 fotos coloridas e a lista de nomes dos candidatos. O texto da matéria volta ao assunto: "[o]s evangélicos representam hoje 25% da população, o que lhes dá um peso muito importante nessa decisão".

Na edição seguinte (nº1.506), de novembro, publicada após os resultados do primeiro turno e antes da votação do segundo turno, o tema da eleição aparece duas vezes. No espaço dedicado à Opinião, na página 2, lê-se que "[e]vangélicos levaram eleição ao segundo turno". O texto analisa as notícias produzidas pela mídia secular e reproduz o resultado da pesquisa realizada pelo Ibope, publicado pelo O Estado de S. Paulo: a posição de Dilma Rousseff em relação ao aborto teria levado a candidata a perder "sete pontos no meio evangélico faltando dois dias para a eleição". Em seguida, a coluna é direta: "Há [sic] poucos dias do segundo turno [...], os evangélicos têm diante de si mais uma grande missão: demonstrar, nas urnas, a importância de se valorizar genuinamente os valores cristãos".

Na página 7, na seção Destaque, um box com fotografias de parlamentares pastores e "irmãos" eleitos para a próxima legislatura traz um título entusiasmado: "Cresce Bancada Evangélica em Brasília. Bancada da AD também aumenta, de 5 para 22 parlamentares". O texto ressalta o crescimento da bancada como um fator muito positivo para os evangélicos e volta a dar relevo à força dos evangélicos, que levaram a votação ao segundo turno.

É nesse mote que a mesma edição traz na capa a frase "Evangélicos podem decidir segundo turno", chamando para uma reportagem especial de quatro páginas. A reportagem se divide em três partes. A primeira, nas páginas 14 e 15, no centro do jornal, relata a posição do governo em relação aos repetidamente citados temas do aborto, da união homoafetiva, da prostituição, do aborto etc. A menção à candidata Dilma, mais de uma vez na reportagem, pode ser resumida em uma das legendas, sob uma foto que não a retrata: "O Programa Nacional de Direitos Humanos reflete, em muitos dos seus artigos, ideais históricos da esquerda, linha ideológica do atual presidente brasileiro e de sua candidata à presidência, Dilma Rousseff, co autorado PNDH-3" (ibidem:15).

A segunda parte, na página 16, traz um artigo opinativo alertando os evangélicos contra o oportunismo político. O pastor Elinaldo Renova-to de Lima, "escritor, comentarista de Lições Bíblicas da CPAD e líder da AD em Parnamirim", "[a]lerta os evangélicos contra o oportunismo político" e argumenta que "Dona Dilma" era favorável ao aborto, seguindo a inspiração de Lula, seu "Tutor Maior". Quando amargou a ida ao segundo turno, "ela vem a público para dizer que não apoia o aborto! Que oportunismo! Que desfaçatez! Que desprezo à inteligência e ao discernimento dos que não votaram nela!". No mesmo diapasão discursivo, o pastor cita Stálin e suas promessas de liberdade religiosa, que "deu no que deu", e faz referência também a Fidel Castro e Hugo Chávez. Ao fim do artigo o pastor declara seu voto em Serra, diz ter esperança de que Marina também o faça e pede que "Deus salve o Brasil!" (ibidem:16).

Na página 17 encontramos a terceira parte do artigo, com os relatos sobre os valores cristãos de Dilma e Serra, com 3,5 colunas dedicadas ao candidato tucano e 1,5 coluna voltadas para a candidata petista. O tom do texto é favorável ao candidato do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) e contrário à candidata do PT, sempre em função das mesmas questões, como o aborto e a união civil homossexual.

A Disputa no Folha Universal

O veículo da IURD,o Folha Universal, trouxe, já na edição de nº962 (12 a 18 de setembro de 2010) uma matéria de capa chamada "A Importância do Voto. Mais de 135 milhões de brasileiros vai às urnas decidir o futuro do Brasil nas próximas eleições. Saiba por que você não pode desperdiçar essa chance". Ainda na capa, o jornal informa: "A novidade deste ano: além dotítulo de eleitor, você deve levar documento com foto". O texto da matéria de quatro páginas é majoritariamente informativo e tem como gancho "uma situação extrema" vivida em Mato Grosso, onde"uma operação da Polícia Federal prendeu prefeito,o vice [...] e mais oito vereadores suspeitos de participar de um esquema de corrupção", e convoca os leitores a refletirem sobre a escolha dos candidatos. Eles devem ter "capacidade administrativa e honestidade". Integrantes de ONGs como a Transparência Brasil e a Voto Consciente são entrevistados e o jornal põe em destaque uma de suas respostas: "Escolha um candidato que você se identifique. Se você acredita queoprincipalproblemanasua cidadeéasaúde, procurecandidatos que defendam a causa ou atuem em benefício da área. Veja se ele tem um passado limpo, não tem processos" (Folha Universal:9).

A mesma matéria traz um guia do voto, com espaços em branco para a famosa cola, que os leitores podem recortar para preencher e levar à urna. Há também entrevistas com um jovem de 17 anos, que vota pela primeira vez, e com uma senhora de 70 anos, que vota desde os 25 e nunca faltou a uma eleição. Ambos não são obrigados, por lei, a votar, mas dizem que fazem questão de fazê-lo. Na página 10 há um quadro com perguntas e respostas de utilidade pública (como justificar a ausência; se pode votar usando camisa de candidato; como regularizar o título; se a identidade basta para votar; se analfabetos também podem votar etc.), e na página 11 o jornal ressalta as atribuições constitucionais de cada um dos cargos em disputa (presidente, senadores, deputados federais e estaduais). É, claramente, uma reportagem que poderia estar em qualquer jornal secular.

No caderno Folha IURD, o jornal traz uma matéria com foto do bispo Macedo ao lado do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e outra, menor, com a maquete das "futuras instalações" do Templo de Salomão, a ser construído em São Paulo. Em letras capitais, a manchete diz: "O Templo. Conquista de São Paulo. Recepcionado pelo bispo Macedo, prefeito Gilberto Kassab conhece obra do Templo de Salomão e diz que local será futuro ponto turístico da cidade". Na página seguinte, outra matéria informa que "[c]onstrução de templo é atração do canal de notícias norte-americano", a CNN. No corpo da matéria, o The Guardian e o The New York Times também são citados. Todos esses veículos deram destaque à "grandeza da obra que terá 55 metros de altura [...] superando os 38 metros do Cristo Redentor". Rabinos exaltam "a utilização de materiais vindos de Israel" e o ministro "Celso Amorim elogia projeto da IURD" (ibidem:2i).

Algumas páginas mais à frente, depois de uma sequência de matérias de cunho religioso, na seção "Política e Fé" (ibidem:6i), a matéria intitulada "Doação de remédios. Farmácia Solidária pretende reduzir custos no orçamento familiar e estimular reaproveitamento" traz uma foto e fornece o e-mail do vereador baiano, Isnard Araújo, responsável pelo projeto de lei. "Fale com o vereador", sugere o jornal. O caderno não explicita, mas Isnard Araújo é pastor da IURD. Logo abaixo, uma nota breve informa sobre outro projeto, desta vez relativo a "esportes para crianças e jovens". O "Fale com o Vereador" ocorre novamente, e indica André Luiz Magalhães, do Partido Republicano Brasileiro (PRB) de Goiás.

Uma matéria de quatro páginas, baseada na "Primeira Pesquisa Nacional sobre População em Situação de Rua" realizada em 2008, na seção "Brasil em Xeque" conta "histórias de sem-tetos que, mesmo sem apoio, conseguiram recuperar a dignidade de ter um lar" e reproduz o depoimento de um homem de 43 anos que acredita que "[q]uem vive assim fica anos sem ver o céu porque só olha para baixo, humilhado", mas que, "[n]aquele dia senti[u] que podia fazer qualquer coisa" (ibidem:14-17).

Na edição publicada no dia da votação do primeiro turno, de número 965, um selo no canto superior direito, com fundo vermelho e letra branca anuncia: "Rede de mentiras – Boato religioso tenta prejudicar eleição de Dilma". A chamada leva à contracapa, em que a Folha Universal tenta desconstruir o "Boato do Mal": "Mensagem leviana que circula na internet acusa Dilma [...] com o objetivo de jogar a candidata contra os evangélicos. No Brasil, golpes sujos são comuns em véspera de eleição" (Folha Universal:24). Na capa, a fotografia de um núcleo familiar formado por um casal e dois filhos ilustra a manchete: "A Fórmula da Felicidade. Pesquisa inédita revela quais são os componentes de uma vida feliz: acreditar em Deus, ter um bom casamento e levar uma vida financeira estável". Na página 4 do caderno principal, na seção Aconteceu, "[o] Brasil vai às urnas" é o título da matéria informativa sobre a votação. Um "[g]uia do voto" contendo informações sobre o horário de funcionamento das urnas e sobre os documentos necessário para votar, além de um espaço para a cola, pode ser recortado. Nesta edição, a seção Brasil em Xeque trata da "janela de oportunidade demográfica" (ibidem:15) que o Brasil estaria vivendo. "Se o Brasil fosse uma pessoa, ele estaria no auge [...]. Com o número de nascimentos em baixa – atualmente é de 1,9 filho por mulher, em média [...] o país mudou." A matéria leva ao entendimento de que as oportunidades estão colocadas para aqueles que souberem planejar suas vidas e as de suas famílias.

Na edição 967, de 17 de outubro, a matéria de capa tem por tema "[a] força da[s] mulher[es]", que "brilha[m] em funções antes dominadas pelos homens, avançam no mercado de trabalho, lideram equipes e já são maioria nas universidades". Das páginas 8 a 11, diversos exemplos são citados, de empresárias a apresentadoras de TV, de policiais militares a ministras de Tribunais. A página 12 encerra a matéria com Dilma. O título, "Vítima de mentiras", destaca-se sobre uma foto da candidata do PT acenando ao lado de uma bandeira do Brasil. O subtítulo resume oespíritodotexto:"Escolhidacomouma dasmulheresmaisinfluentes do mundo por importante revista americana, Dilma é atacada por boatos que dizem que ela é a favor do aborto. Mas ela já disse: é contra" (ibidem:12). Acapa do caderno Folha IURD, igualmente discute a situação da mulher moderna e revela o que a igreja tem proporcionado a elas mundo afora:

A modernidade trouxe muitos benefícios para as mulheres [...]. Hoje há mais leis que as protegem e os avanços da ciência e da medicina propiciam-lhes o direito de planejar a gravidez, retardar o envelhecimento [...]. Mas os tempos modernos também acarretaram mudanças nada benéficas: mães solteiras e adolescentes, mulheres que dormem com vários homens [...] deixam-se escravizar pelos padrões de beleza estabelecidos pela mídia [...]. Justamente para resgatar valores cristãos e familiares, Cristiane Cardoso Fundou o Sisterhood, um grupo exclusivo da Igreja Universal. Nele, jovens aprendem como se tornar mulheres de Deus, cheias de graciosidade, beleza e força [...]. (ibidem:___)

Na página 6i, a seção Política e Fé, normalmente com metade da página dedicada a comentar as atividades de parlamentares ligados à igreja, destaca o "PAC da Baixada" e o senador Marcelo Crivella, cujo "objetivo [é o] de continuar trazendo recursos para o Rio de Janeiro". Adiante, o senador "apontou os pontos em que discorda do projeto de lei 122/2006 sobre criminalização da homofobia". Um padre ou um pastor não pode ser punido caso afirme que a homossexualidade é pecado, mas "qualquer descriminação e violência física e psicológica contra homossexuais deve ser punida por lei [...]. Para os evangélicos, isso é pecado.O que não significa fechar as portas das igrejas e dos lares nem negar a eles amizade e respeito." O texto encerra com a informação de que a ONG Transparência Brasil o considera o "terceiro senador com as propostas mais relevantes para o País".

Na contracapa do jornal, a matéria "Insegurança pública. Em São Paulo, segurança privada cresce a passos largos no vácuo deixado pelo governo" fecha esta edição. O Estado de São Paulo elege, desde 1995, governadores filiados ao PSDB. José Serra (PSDB) foi governador de São Paulo até abrir mão do posto, em abril de 2010, para concorrer com Dilma Rousseff (PT) na eleição presidencial. A matéria, dessa forma, faz referência ao candidato tucano ao dizer que a violência em São Paulo crescera por conta de "vácuo deixado pelo governo".

Na semana seguinte, na edição 968, de 24 de outubro, a matéria de capa, que o leitor encontra entre as páginas 8 e 11, denuncia "[a] derrota do jogo sujo" e informa:

A manchete acima é composta por letras de veículos de comunicação que, no ano passado, promoveram um ataque covarde à Igreja Universal. Organizações Globo, Grupo Folha e Veja uniram-se a promot ções estão anuladas. A pergunta que fica: por que a IURD é vítima de tantas agressões? (Folha Universal:8-11)

Em seguida, a chamada "O candidato do Vaticano. Entidade máxima do clero romano no Brasil entra na campanha de José Serra. O que está por trás do apoio?" leva o leitor à página 13, onde uma foto de José Serra beijando um terço estampa a mensagem: "Na mão do clero. Bispos e padres católicos tentam influenciar eleições, declaram apoio a José Serra e atacam Dilma. Especialistas estranham atitude inédita". A partir dali, 5 páginas são dedicadas ao tema das eleições. Ao lado da chamada para esta grande matéria, na capa do jornal, o título: "Bispo Edir Macedo pede cautela. Em artigo no seu blog, bispo diz para eleitores terem cuidado na hora de votar" indica a página 24. Ali, uma pequena foto de Silas Malafaia no canto inferior direito divide espaço com uma imagem grande de uma barriga de gestante, ilustrando o alerta: "Cuidado com o profeta velho." Finalmente, ainda na capa, a chamada "[f]arpas, criança e sofrimento" leva o leitor à página 18, onde é discutido o problema do trabalho infantil entre "famílias pobres e sem alternativas".

Na página 3 desta edição, uma matéria de página inteira discute o modelo de combate ao tráfico e em destaque reproduz a avaliação de Walter Fanganiello Maierovitch, "desembargador aposentado do Tribunal de Justiça e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone, de ciências criminais": "Estatísticas são importantes. O problema é quando o estado mascara, como aconteceu em SãoPaulo". Adiante, na já mencionada página 13, a Igreja Católica é acusada de promover uma "campanha difamatória agressiva" contra Dilma, ao mesmo tempo que declara apoio a Serra, de São Paulo. A Folha Universal considera inédita tamanha intensidade na mistura de religião e política e a critica, citando a professora Maria das Dores Campos Machado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): "É um ativismo religioso extremamente conservador e moralista. O debate não está sendo feito com base em questões econômicas ou sociais como distribuição de renda, mas sim focado em questões moralistas. É um movimento que acontece há algumas eleições, mas agora se apresenta de forma clara em uma disputa presidencial. Isso é novo."

É interessante notar que um dos trechos da fala da socióloga é transformado em olho11 11 . Na linguagem jornalística, a frase posicionada com destaque no meio da massa de texto, com destaque de cor ou tipo é conhecida como olho. : "O estado não pode atender um e sacrificar os outros, é preciso respeitar todos" (ibidem:14). A matéria destaca a preferência de Serra pelos católicos, além da preferência da Igreja Católica por Serra.Cita também uma frase de Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à revista IstoÉ: "O Serra tem uns demônios dentro dele que, às vezes, nem ele mesmo controla" (ibidem:16). Em contraponto, Marina recomenda aos brasileiros que não importem conflitos religiosos e, abaixo de uma foto onde aparece sorridente, Dilma defende "a convivência entre diferentes religiões e a liberdade religiosa, assegurada pela Constituição" (ibidem).

Na seção Brasil em Xeque, o jornal noticia que a "Polícia Federal apreende milhões de panfletos contra Dilma encomendados pela Igreja Católica. Dona de gráfica é irmã de coordenador da campanha de Serra. Agora a investigação quer descobrir: de onde veio o dinheiro?" (ibidem:17)

A última edição antes do segundo turno traz uma interessante matéria de capa:"Vida após o câncer". Do lado direito, acima, um selo de fundo vermelho e letra branca anuncia: "Artigo: por que votar em Dilma. Pág. 24". Entre as páginas 8 e 11, a matéria destacada na capa da edição explora diversos casos de pessoas que tiveram câncer e hoje vivem bem, beneficiados pelos avanços da medicina. A matéria não se refere à candidata Dilma, mas favorece a associação de ideias. O "poder da fé" também é ali ressaltado. Entre as páginas 14 e 17, o jornal traz uma matéria também anunciada na capa, sobre os "[a]taques à verdade. Escutamos cerca de 200 mentiras por dia. Os motivos podem variar, mas o resultado é sempre ruim." "Diversas calúnias marcam a campanha eleitoral para a Presidência da República no Brasil. O grande alvo foi a candidata do PT, DilmaRousseff"(:15).

Na contracapa, o texto assinado pelo senador Marcelo Crivella, expõe "7 razões para votar em Dilma", que resumidamente seriam: 1) veio do povo; 2) dará prosseguimento à diminuição da desigualdade, promovida por Lula; 3) mais empregos, mais comida e dignidade para os carentes; 4) respeitada no exterior, ajudou a devolver a autoestima dos brasileiros; 5) conhece como ninguém o PAC; 6) é hora de uma mulher no governo, quetem as cicatrizes da torturanaditaduraeaprendeu na pele o que é democracia; 7) vai respeitar as igrejas e a liberdade religiosa. Uma foto grande com Dilma sorrindo estampa a página.

À GUISA DE CONCLUSÃO: OS EVANGÉLICOS E OS EVANGÉLICOS NAS ELEIÇÕES DE 2011

Provocados pela indiferenciação com que, no período eleitoral, a mídia laica e, eventualmente, o próprio senso comum erudito referiu-se ao contingente de sujeitos sociais que costumam exercer seu direito de voto orientados pelo pertencimento confessional, neste artigo atentamos para os veículos de informação impressos das duas denominações religiosas brasileiras mais importantes em termos de atividade política. Do conjunto de questões que se colocam para o amplo e complexo debate acerca da relação entre religião e política no Brasil atual, queríamos responder uma pergunta: como foi tratada e, portanto, como pensam a campanha eleitoral cidadãos brasileiros que têm na adesão religiosa o eixo de sua identidade como eleitor?

A Assembleia de Deus e a Igreja Universal entraram na política no final da década de 1980 e desde então, concorrendo com as semelhanças (Pierruci e Mariano, 1992), várias diferenças (Freston, 1992; Oro, 2003) marcam essas participações "evangélicas". A observação dos seus respectivos jornais, a cada notícia, a cada edição e no seu todo, revela que não apenas as posições político-partidárias são distintas, mas que no interior dessas duas comunidades de fé tão diferentes, a política e a participação na política são representadas de maneira muito diversa.

No jornal da Assembleia de Deus, publicado pela entidade que, embora não controle toda a comunidade, constitui ali dentro uma voz hierarquicamente muito forte, encontramos um interesse quase que exclusivo pela conservação da moral privada, relativa, do ponto de vista público, aos direitos sexuais e reprodutivos. No noticiário eleitoral do Mensageiro da Paz a participação civil aparece como uma concessão necessária ao tempo, uma concessãoque nãorompe comoespírito original de afirmação religiosa, nem com a orientação ao apartamento das coisas do mundo, fundante da Assembleia de Deus. A razão secular é retratada como uma realidade que cabe aos 25% (evangélicos) da população brasileira regular por meio da obediência aos princípios da fé. A política é apresentada como uma arena onde se pode/deve assegurar a força institucional da igreja perante as demais entidades religiosas deste país e reafirmar os valores congregacionais para os fiéis. Por sua vez, a Folha Universal, edição após edição, igualmente reflete as ambições de visibilidade institucional e influência social da IURD, e segue a lógica estruturante da teologia da prosperidade. O jornal circula, se não universalmente, amplamente, e veicula matérias que visam despertar demandas de diferentes tipos e levar o leitor, que pode ser iurdiano ou não, a posicionar-se politicamente em relação às múltiplas dimensões da vida social intramundana.

É assim que, como vimos, o Mensageiro da Paz retorna sempre à "descriminalização do aborto, à união civil homossexual, à adoção de crianças por homossexuais, ao projeto de lei contra a dita 'homofobia' e à legalização das drogas"(MP, 1.505:14), sugerindo que a participação na política obedece à lógica simbólica que ordena o mundo assembleiano e entende que quem respeitar os valores cristãos estará preservado contra o mal. As edições dos jornais aqui analisadas buscam sustentar a mensagem política – explicitada nos espaços dedicados ao pleito eleitoral – com notícias sobre o "esfacelamento da família", a liberdade religiosa, a adoção de crianças por casais homossexuais, a "banalização do casamento e o desapreço aos valores", a "crise moral em nosso país", e o aborto que "divide a Espanha". E insistem: "Os evangélicos representam hoje 25% da população" e têm "uma grande missão: demonstrar, nas urnas, a importância de se valorizar genuinamente os valores cristãos."

A Folha Universal é parte de um conglomerado midiático que, assim como os cultos da Igreja Universal, atinge um público amplo, integrado não só por fiéis, mas também por frequentadores eventuais de seus templos. Mantendo coerência com o estilo da igreja, neste jornal o tom pedagógico típico do jornalismo é acrescido do mesmo estilo didático empregado nos seus serviços religiosos dedicados ao enfrentamento da vida cotidiana. Deste modo, as edições do período eleitoral trouxeram informações de utilidade cívica, como nos jornais seculares, e ofereceram aos seus milhões de leitores orientação prática para o manejo das coisas da vida, como a superação da pobreza, o planejamento familiar, a saúde, como também fazem os pastores nas reuniões da prosperidade –que tratam a cada dia de uma dimensão da existência terrena.

Neste veículo, publicado por esta denominação que explicitamente e de diferentes formas confronta a hegemonia histórica da Igreja Católica no Brasil, a razão religiosa não se separa da razão mundana e a discussão da política, embora sempre encadeada com matérias de cunho religioso e apostas na força da fé, envolve o mesmo espectro de questões contempladas em um jornal secular. Nos termos de Freston (1992:32), poderíamos dizer que voto religião, para a teologia da prosperidade, não se distingue do voto cidadão. Assim como se faz nas igrejas, ao falar da votação o jornal implicitamente convida seus leitores a colocar a fé em ato. Proceder como cristão, segundo este veículo, é votar com consciência acerca de questões relativas à moral privada, mas também àquelas que dizem respeito aos temas públicos.

A Folha Universal fornece ao seu leitor a dimensão da força da igreja e de sua membresia não por meio de números. Agrandiosidade da Igreja Universal se materializará em breve no Templo de Salomão que, conforme o jornal, será um monumento maior do que o Cristo Redentor, emblema da catolicidade cultural brasileira. A atenção a ela devotada por políticos, pela mídia nacional e internacional, e pela população, que se mobiliza aos milhões para estar nos eventos que realiza no espaço público, evidenciam sua importância enquanto ator social. É deste lugar social que a Igreja Universal convoca seus interlocutores a não separarem religião e política, entendendo a segunda como um dos meios de alcance para a prosperidade prescrita pela primeira.

NOTAS

(Recebido para publicação em agosto de 2011)

(Versão reapresentada em janeiro de 2012)

(Aprovado para publicação em março de 2012)

  • BARTHES, Roland. (2006), Elementos de Semiologia. São Paulo, Editora Cultrix.
  • BERGER, Peter e LUCKMANN, Thomas. (1985), A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento Petrópolis, Vozes.
  • BIRMAN, Patrícia. (1996), "O Bispo, o Povo e a TV: Alguns Efeitos, talvez Inesperados, da Presença Política Recente dos Pentecostais". Cadernos de Conjuntura,nş54. Rio de Janeiro, IUPERJ.
  • CONRADO, Flavio C. (2001), "Política e Mídia: A Igreja Universal do Reino de Deus nas Eleições". Religião e Sociedade, vol. 21, nş2, pp. 85-111.
  • CORREIA, João Carlos. (2005), "Poder do Jornalismo e a Mediatização do Espaço Público". Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades Covilhã, Universidade da Beira Interior.
  • DELLA CAVA, Ralph. (1975), Igreja e Estado no Brasil do Século XX. São Paulo, Cebrap.
  • FIGUEIREDO, Valdemar F. (2002), Entre o Palanque e o Púlpito: Mídia, Religião e Política. Dissertação, Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ).
  • FONSECA, Alexandre B. (1997), Evangélicos e Mídia no Brasil. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ).
  • _____. (2000), "Nova Era Evangélica, Confissão Positiva e o Crescimento dos Sem-religião". NUMEN, Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, vol. 3, nş2, pp. 63-90.
  • _____. (2003), "Igreja Universal: Um Império Midiático", in A. P. Oro, A. Corten e J. P. Dozon (orgs.), Igreja Universal do Reino de Deus: Os Novos Conquistadores da Fé. São Paulo, Paulinas.
  • FRESTON, Paul. (1992), "Evangélicos na Política Brasileira". Religião e Sociedade, vol. 16, nos 1-2.
  • _____. (1993), Protestantes e Política no Brasil: Da Constituinte ao ImpeachmentTesede Doutorado em Ciências Sociais, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP.
  • _____. (1994), "Breve História do Pentecostalismo Brasileiro", in A. Antoniazzi (org.), Nem Anjos nem Demônios. Petrópolis, Editora Vozes.
  • _____. (1999), "Protestantismo e Democracia no Brasil". Lusotopie, pp. 383-403.
  • GIUMBELLI, Emerson. (2002), O Fim da Religião. Dilemas da Liberdade Religiosa no Brasil e na França São Paulo, Attar Editorial.
  • JAKOBSON, Roman. (2001), Essai de Linguistique General. Paris, Ed. de Minuit.
  • LEITE, Márcia P. (2003), "Novas Relações entre Identidade Religiosa e Participação Política no Rio de Janeiro Hoje: O Caso do Movimento Popular de Favelas", in P. Birman (org.), Religião e Espaço Público. São Paulo, Attar Editorial.
  • LÉVI-STRAUSS, Claude. (1996), Anthropologie Structurale. Paris, Plon.
  • LIMA, Diana. (2007), "Trabalho, Mudança de Vida e Prosperidade entre Fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus". Religião e Sociedade, vol. 27, nş1, pp. 132-155.
  • MACHADO, Maria das Dores C. (2006), Política e Religião. A Participação dos Evangélicos nas Eleições Rio de Janeiro, Editora FGV.
  • MAFRA, Clara. (2001), Os Evangélicos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.
  • _____. (2002), Na Posse da Palavra: Religião, Conversão e Liberdade Pessoal em Dois Contextos Nacionais. Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
  • MONTERO, Paula. (2006), "Religião, Pluralismo e Esfera Pública no Brasil". Novos Estudos Cebrap, vol. 74, pp. 47-65.
  • NOVAES, Regina. (1985), Os Escolhidos de Deus: Pentecostais Trabalhadores e CidadaniaRio de Janeiro, Editora Marco Zero.
  • _____. (1997), De Corpo e Alma: Catolicismo, Classes Sociais e Conflito no CampoRio de Janeiro, Graphia.
  • ORO, Ari P. (2003), "Igreja Universal: Um Poder Político", in A. P. Oro, A. Corten e J-P. Dozon (orgs.), Igreja Universal do Reino de Deus. Os Novos Conquistadores da Fé. São Paulo, Paulinas.
  • PIERUCCI, Antônio Flávio. (1989), "Representantes de Deus em Brasília: A Bancada Evangélica na Constituinte". Ciências Sociais Hoje, vol. 11, pp. 104-132.
  • _____. (2011), "Eleição 2010: Desmoralização Eleitoral do Moralismo Religioso". Novos Estudos Cebrap, vol. 89, pp. 5-16.
  • _____ e MARIANO, Ricardo. (1992), "O Envolvimento dos Pentecostais na Eleição de Collor". Novos Estudos Cebrap, vol. 34, pp. 92-106.
  • REINHARDT, Bruno. (2007), Espelho ante Espelho. A Troca e a Guerra entre o Neopentecostalismo e os Cultos Afro-brasileiros em Salvador São Paulo, Attar.
  • SANCHIS, Pierre. (1994), "O Repto Pentecostal à 'Cultura Católico-Brasileira'", in A. Antoniazzi (org.), Nem Anjos nem Demônios. Petrópolis, Vozes.
  • SAUSSURE, Ferdinand de. (2004), Cours d eLinguistique Générale. Paris, Payot.
  • SILVA, Vagner G. (2007), "Neopentecostalismo e Religiões Afro-brasileiras: Significados do Ataque aos Símbolos da Herança Religiosa Africana no Brasil Contemporâneo". Mana Revista de Antropologia, vol. 13, nş1.
  • STEIL, Carlos. (1999), "A Igreja dos Pobres: Da Secularização à Mística". Religião e Sociedade, vol. 19, nş2.
  • SWATOWISKI, Claudia. (2004), Universal Produções: Características de uma Empresa de Comunicação de Massa Evangélica. Comunicação apresentada no X Simpósio de Pesquisa em Comunicação da Região Sudeste (SIPEC). Rio de Janeiro, 7-8 de dezembro.
  • TUCHMAN, Gaye. (1978), Making News: A Study in the Construction of RealityNew York, Free Press.
  • VIZEU, Alfredo. (2007), "A Produção de Sentidos no Jornalismo: Da Teoria da Enunciação a Enunciação Jornalística". Anuário Internacional de Comunicação Lusófona,vol.2, nş1, pp. 1-11.
  • Sobre a Folha Universal, disponível em: <http://www.universalproducoes.com.br/portal/templates/htm/portalup_00/folhauniversal.htm>. Acesso em: 10/05/2011.
  • CPAD. Quem somos. Disponível em: <http://www.cpad.com.br/paginas/quem_jornalismo.htm>. Acesso em: 30/6/2010.
  • 1
    . Em 2000, segundo o Censo, dois terços do universo evangélico brasileiro era pentecostal. Apesar do grande número de denominações, a IURD, a Congregação Cristã do Brasil e a AD concentravam, então, 74% dos fiéis. AIURD e a AD são as igrejas com mais visibilidade e penetração na política institucional. A Congregação Cristã do Brasil mantém atitude mais sectária e apolítica desde a sua fundação.
  • 2
    . Há, certamente, diferenças entre os jornais analisados e aqueles que constituem a "grande mídia". Enquanto os jornais seculares dispõem de estrutura profissional de produção e distribuição, não podem perder totalmente de vista os interesses de seus anunciantes e costumam visar um público amplo; os jornais evangélicos têm uma fabricação mais caseira e se dirigem ao leitor evangélico, ainda que a
    Folha Universal circule também fora do ambiente religioso. Além disso, os jornais seculares, embora tenham suas agendas em diversos temas, com certa frequência tratam de assuntos polêmicos sem assumir posições, e os jornais evangélicos, por conta de sua própria essência de órgão oficial de uma instituição ou de uma coletividade, costumam adotar posições oficiais e dogmáticas a respeito de muitos dos temas que aborda. Mas ao lado dessas e de outras diferenças sobre as quais aqui não cabe discorrer, é importante lembrar que em um aspecto todos os jornais se assemelham: em ambos os mundos, no secular e no religioso, os jornais utilizam-se da língua e da palavra, integrando o processo de construção social da realidade.
  • 3
    . O movimento
    holiness surgiu no coração do metodismo pregando a doutrina da "perfeição cristã" e defendendo o direito a todos os fieis à experiência imediata e intensa com o Espírito Santo. Essa benção ou o"batismonoEspíritoSanto" seria capaz de trazer a paz e a limpeza interior a todo aquele que a alcança. Nos cultos avivados do movimento, a glossolalia sinalizava o encontro espiritual. Em pouco tempo, o falar em línguas assumiu centralidade teológica e litúrgica no pentecostalismo.
  • 4
    . "[S]uas Escolas Dominicais muito facilmente se tornaram verdadeiros centros de alfabetização de adultos para uma população de balconistas, trabalhadores rurais, ferreiros, seringueiros, operários da construção civil, faxineiras" (Mafra, 2001:31).
  • 5
    . Em comunicação pessoal, um redator do jornal informou que a maior tiragem foi em 2001, nos 90 anos da Assembleia de Deus no Brasil, quando o número ficou próximo de 500 mil exemplares.
  • 6
    . A Igreja de Nova Vida foi criada na década de 1960 por um pastor canadense que saiu da AD para oferecer um pentecostalismo menos rígido e influenciado pela renovação carismática norte-americana. Seu público é composto pela classe média baixa.
  • 7
    . Para um aprofundamento do tema da "Confissão Positiva" ou do poder performativo da linguagem, ver Mafra (2002) e também Fonseca (2000).
  • 8
    . Sobre a Teologia da Batalha Espiritual, ver Mariz (1997; 1999). Para a discussão acerca da demonização do panteão afro-brasileiro operada pela IURD, ver Silva (2007) e Reinhardt (2007).
  • 9
    . Fonte:
  • 10
    . Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil.
  • 11
    . Na linguagem jornalística, a frase posicionada com destaque no meio da massa de texto, com destaque de cor ou tipo é conhecida como olho.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      05 Jul 2012
    • Data do Fascículo
      2012

    Histórico

    • Recebido
      Ago 2011
    • Aceito
      Mar 2012
    • Revisado
      Jan 2012
    Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) R. da Matriz, 82, Botafogo, 22260-100 Rio de Janeiro RJ Brazil, Tel. (55 21) 2266-8300, Fax: (55 21) 2266-8345 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
    E-mail: dados@iesp.uerj.br