Resumo
O artigo discute as relações do economista Vilfredo Pareto com o fascismo italiano. Contrariando parte da literatura, conclui-se que já a partir de agosto de 1922 apoiou um golpe de Estado e a instauração de uma ditadura fascista, considerando-a um estágio necessário para o reestabelecimento da soberania central. Após a marcha sobre Roma, Pareto apoiou e colaborou com o governo, mantendo, entretanto, uma atitude independente e defendendo a normalização e constitucionalização do regime. Foi, assim, um compagnon de route do fascismo. Entre os fascistas, por sua vez, predominaram aqueles que consideravam Pareto um precursor, um apoiador do novo governo e/ou uma fonte de inspiração para o movimento. A pesquisa apoia-se na análise documental da correspondência e dos escritos de Pareto, com especial ênfase nos artigos que publicou em jornais e revistas, bem como nas opiniões a respeito, registradas na imprensa fascista da época.
Vilfredo Pareto; fascismo; crise da democracia; liberalismo; Itália
Abstract
The article discusses the relations of the economist Vilfredo Pareto with Italian fascism. Going against part of the literature, it can be concluded that already since August of 1922 he supported a Coup d’État and the establishment of a fascist dictatorship, considering that this is a necessary stage in order to re-establish central sovereignty. After the March on Roma, Pareto supported the government and collaborated with it, even though he kept an independent attitude and advocated the normalization and the constitutionalization of the regime. Thus, he was a compagnon de route of fascism. In turn, among the fascists there was a predominance of those who considered Pareto a precursor, a supporter of the new government and/or a source of inspiration for the movement. The research is based on the the documental analysis of the mailing and what Pareto wrote, with special emphasis on the articles that he published in newsapers and magazines, as well as on the opinions in this regard, which were recorded in the fascist press at the time.
Vilfredo Pareto; Fascism; Democracy Crisis; Liberalism; Italy
Résumé
L’article discute des relations de l’économiste Vilfredo Pareto avec le fascisme italien. Contrairement à une partie de la littérature, il est conclu que, dès août 1922, il a soutenu un coup d’État et l’instauration d’une dictature fasciste, considérant cette étape nécessaire pour le rétablissement de la souveraineté centrale. Après la marche sur Rome, Pareto a soutenu et collaboré avec le gouvernement, tout en maintenant une attitude indépendante et en défendant la normalisation et la constitutionnalisation du régime. Il fut ainsi un compagnon de route du fascisme. Parmi les fascistes, ceux qui considéraient Pareto comme un précurseur, un partisan du nouveau gouvernement et/ou une source d’inspiration pour le mouvement ont prévalu. La recherche s’appuie sur l’analyse documentaire de la correspondance et des écrits de Pareto, en mettant particulièrement l’accent sur les articles qu’il a publiés dans des journaux et magazines, ainsi que sur les opinions à ce sujet, enregistrées dans la presse fasciste de l’époque.
Vilfredo Pareto; fascisme; crise de la démocratie; libéralisme; Italie
Resumen
El artículo discute las relaciones del economista Vilfredo Pareto con el fascismo italiano. Contrariando parte de la literatura, se concluye que ya a partir de agosto de 1922 apoyó un golpe de Estado y la instauración de una dictadura fascista, considerándola esta un paso necesario para el restablecimiento de la soberanía central. Después de la marcha sobre Roma, Pareto apoyó y colaboró con el gobierno, manteniendo, sin embargo, una actitud independiente y defendiendo la normalización y constitucionalización del régimen. Fue, así, un compagnon de route del fascismo. Entre los fascistas, a su vez, predominaron aquellos que consideraban a Pareto un precursor, un partidario del nuevo gobierno y/o una fuente de inspiración para el movimiento. La investigación se basa en el análisis documental de la correspondencia y los escritos de Pareto, con especial énfasis en los artículos que publicó en periódicos y revistas, así como en las opiniones al respecto, registradas en la prensa fascista de la época.
Vilfredo Pareto; fascismo; crisis de la democracia; liberalismo; Italia
Introdução
A relação ente Vilfredo Pareto (1848-1923) e o fascismo permanece tema controverso. As interpretações se dividem a respeito. Como será demonstrado, existem aquelas que afirmam que o autor do Tratatto foi protofascista, filofascista ou simplesmente fascista; enquanto outras consideram que foi não-fascista, ou mesmo antifascista. Dentre aquelas interpretações que destacam a aproximação de Pareto ao movimento liderado por Mussolini, prevalece a opinião de que esta ocorreu após a marcha sobre Roma e que rapidamente o economista de Lausanne começou a se afastar do governo e a criticá-lo, opondo-se a suas tendências totalitárias.
Este artigo procura contrariar teses predominantes na literatura. Argumenta-se aqui que: 1) depois da derrota do sciopero legalitario, promovido pelos socialistas no final de julho e início de agosto de 1922, Pareto passou a ver os fascistas como uma solução para o ciclo da plutocracia demagógica e para a crise da democracia parlamentar, advogando a realização de um golpe de Estado; 2) a partir da marcha sobre Roma, em outubro de 1922, apoiou a ditadura, considerando-a um estágio necessário mas transitório para o reestabelecimento da soberania central, e defendeu a normalização e constitucionalização do fascismo; 3) embora nunca tenha se filiado ao Partito Nazionale Fascista – e sequer cogitado tal coisa –, o autor do Trattato di sociologia generale (1923) terminou sua vida como um compagnon de route do fascismo, apoiador público do governo e colaborador da imprensa do movimento.
Cabe esclarecer esta última noção. A expressão compagnon de route nasceu nos primeiros anos do regime soviético e foi utilizada para designar artistas e intelectuais que se aproximaram do Partido Bolchevique após outubro de 1917, sem, entretanto, filiar-se a ele ou partilhar completamente de seu ideário. Leon Trotsky popularizou essa expressão em um ensaio publicado na coletânea Literatura i revolyutsiya, em 1924, incutindo a ela um sentido fortemente negativo (Trotsky, 1960 [1924]).1 Utiliza-se neste artigo a noção de compagnon de route, embora sem a carga negativa a ela atribuída por Trotsky, para designar essa “aceitação individual” do fascismo por parte de Pareto, nos limites em que ela ocorreu; ou seja, procurando manter uma posição crítica e justificando sua adesão como o resultado de uma atitude “científica”. Tal noção permite compreender não apenas a relação de Pareto com o fascismo, mas também a que os fascistas estabeleceram com o economista de Lausanne.
Na primeira seção deste artigo é realizada uma abrangente revisão bibliográfica sobre o tema, explicitando as diferentes soluções que foram dadas ao enigma de Pareto – sua relação com o fascismo italiano –, bem como os limites dessas respostas. Na segunda seção é apresentado o diagnóstico paretiano sobre a crise da democracia liberal, o qual ganhou contornos mais dramáticos após o fim da Primeira Guerra Mundial, e as primeiras referências ao fascismo, sempre negativas. As duas seções seguintes tratam da aproximação do autor do Trattato ao fascismo, a partir de agosto de 1922 até sua morte, em agosto de 1923. Durante esse período, Pareto se avizinhou do fascismo, apoiou um golpe de Estado liderado por Mussolini, a implantação de uma ditadura fascista e, nos meses posteriores à instauração do novo governo, defendeu a normalização e constitucionalização do regime. A quinta seção aborda a relação dos fascistas com Pareto e suas ideias. Encerram o artigo algumas considerações finais nas quais os resultados aos quais chegou a pesquisa são cotejados com outras interpretações.2
O enigma de Pareto
O percurso político-intelectual de Vilfredo Pareto é ilustrativo da complexa relação entre liberalismo, conservadorismo e fascismo na Itália. O compromisso do economista de Lausanne com o liberalismo está bem documentado. Escrevendo de modo autobiográfico ao jornalista Antonio Antonucci, em dezembro de 1907, o próprio Pareto afirmou que em sua juventude, “a soberania do povo era um axioma, a liberdade era a panaceia universal” (Pareto, 1975 [1907]: 613). Quando começou na lecionar em Lausanne definia-se, em suas próprias palavras, como um “economista liberal” e um “democrático”, mas com os anos teria mudado de opinião e se avizinhado “às ideias de conservador liberal” (Pareto, 1975 [1907]: 614). Foi assim que Pareto se afastou da democracia, e não do liberalismo. Retrospectivamente, atribuiu essa mudança a acontecimentos políticos que teriam tido lugar após o affaire Dreyfus (1894-1906). O uso pelos dreyfusianos dos mesmos métodos que antes deploravam e a restrição da liberdade por aqueles que diziam defendê-la teriam levado o economista a desiludir-se e a abandonar suas antigas crenças.3 Pareto justificou essa mudança de opinião em termos machiavellianos. Ela seria o resultado “do predomínio do raciocínio sobre o sentimento e da maior consciência adquirida com o estudo da história e com a observação dos fatos presentes” (Pareto, 1975 [1907]: 616. Grifos meus).4
Mais difícil é, entretanto, documentar e compreender a relação de Pareto com o fascismo. O tema já recebeu muita atenção, mas ainda não foi esgotado. O verbete que lhe foi dedicado na Enciclopedia Italiana, escrito por Luigi Amoroso, em 1935, já insinuava uma fórmula que viria a se tornar famosa e resistente. Com o estilo elíptico e comedido que caracterizava a referência ao fascismo na maioria dos verbetes da Enciclopedia, registrava-se: “Antes que acontecesse nas multidões, uma revolução espiritual havia ocorrido nele [Pareto]. Portanto, os italianos hoje o consideram um antecessor” (Amoroso, 1935. Grifo no original). A fórmula assumiria sua forma definitiva na pena de um de seus primeiros biógrafos, o austríaco Franz Borkenau, o qual não titubeou em afirmar que “Pareto é um precursor do fascismo, mas certamente não é um fascista ou um agente do fascismo” (Borkenau, 1936: 174. Grifo meu). A fórmula foi repetida décadas mais tarde por James W. Vander Zanden, para quem “embora Pareto não possa ser caracterizado como um fascista, ele pode ser mais bem compreendido com um precursor do fascismo” (Zanden, 1960: 401).
O livro de Borkenau foi publicado apenas um ano após a tradução para o inglês do Trattato di Sociologia Generale, evento editorial que atraiu a atenção de alguns estudiosos. A recepção de Mind and Society (1935), o título que o livro de Pareto recebeu em inglês, despertou controvérsias. Ellsworth Faris, por exemplo, afirmou que o Trattato “formula a filosofia implícita do fascismo italiano” (Faris, 1936: 657), enquanto George C. Homans escreveu que “a partir das teorias de Pareto os fascistas racionalizaram o que têm feito” (Homans, 1936: 466) e George E. G. Catlin que “Mussolini (...) tomou de Pareto muito da filosofia do fascismo” (Catlin, 1936: 439). Não faltaram, entretanto, defensores. Henry J. Bittermann afirmou que considerar “Pareto como um fascista é, para dizer o mínimo, a-histórico” e que apesar de ter sido homenageado por Mussolini, “ele não estava de forma alguma de acordo com suas políticas” (Bittermann, 1936: 311). George R. Davies, por sua vez, escreveu que “sua relação [de Pareto] com o regime deles [os fascistas] era apenas aquela que uma agência meteorológica tem com um ciclone previsto” (Davies, 1935: 311).
Em sua maioria, essas opiniões estavam amparadas em um conhecimento muito precário da obra de Pareto, resumido, frequentemente, ao Trattato di Sociologia Generale (1923) e a Les Systèmes Socialistes (1902). Este quadro passou a mudar a partir do início dos anos 1960, quando começou a ser publicada a monumental edição das Oeuvres Completes, dirigida por Giovanni Busino, empreendimento generosamente financiado por uma fundação norte-americana. Quase concomitantemente, foram publicadas na Itália as cartas de Pareto a Maffeo Pantaleoni, fonte incontornável para um conhecimento mais aprofundado de suas opiniões políticas (Pareto, 1962). O acesso aos escritos paretianos estimulou imediatamente novas leituras, principalmente na Europa continental, a respeito das ideias de Pareto e de suas orientações políticas.5 Este novo ciclo de pesquisas coincidiu com um renascimento dos estudos sobre o fascismo, apoiados agora em investigações mais rigorosas e amplamente documentadas. Na historiografia, é corrente a afirmação de que esse ressurgimento foi possível devido a uma maior distância temporal desses eventos, a qual permitiu construir um “discurso histórico” e menos ativista sobre o fascismo, bem como pela possibilidade, até então inexistente, de acessar fontes documentais inéditas (v. p. ex. De Felice, 1965: xxii-xxx). Analogamente essas parecem ter sido também as condições para uma retomada dos estudos paretianos.
Um marco nesse novo ciclo foi a biografia que G. H. Bousquet (1960) lhe dedicou. Tendo conhecido pessoalmente o economista e frequentado sua casa, Bousquet analisou a relação de Pareto com o fascismo dividindo-a em dois períodos: um primeiro, antes da chegada ao poder, quando “adota a seu respeito uma atitude com muitas reservas, às vezes hostil”; e outro posterior, quando “consente uma aprovação indiscutível à forma bastante moderada que o movimento assumia então” (Bousquet, 1960: 189. Grifos meus). Segundo o biógrafo, essa aprovação foi marcada pelas reservas que Pareto mantinha e pela convicção de que algumas liberdades deveriam ser preservadas (Bousquet, 1960: 189).
Importantes, também, foram os artigos publicados por Norberto Bobbio durante os anos 1960, em particular aquele dedicado explicitamente à sociologia de Pareto, no qual julgou a adesão ao fascismo contextualizando-a nos movimentos culturais da época. O problema central para Bobbio não era o a adesão ao movimento liderado por Mussolini, coisa que muitos futuros antifascistas fizeram nos primeiros meses após a marcha sobre Roma. A questão principal seria esclarecer o nexo entre as ideias que o economista de Lausanne expressou a partir do início do século e a ideologia fascista. A esse respeito, Bobbio era categórico: “Este nexo é inegável” (Bobbio, 1964: 36). O intérprete considerava, entretanto, que o pensamento de Pareto havia sido sempre ambíguo e que isso teria permitido que seus ensinamentos fossem acolhidos tanto por fascistas como por antifascistas (Bobbio, 1964: 37).
Busino abordou o tema em uma revisão bibliográfica que revela forte insatisfação perante as interpretações que acusavam Pareto de ser “um ancestral do fascismo”, sem, entretanto, expor uma conclusão própria a respeito (Busino, 1967: 89). Dino Fiorot, por sua vez, argumentou que a existência de um nexo entre a teoria paretiana e o fascismo era “fora de discussão” (Fiorot, 1975: 217). A questão principal, entretanto, restaria em delimitar aquilo que seria próprio da concepção paretiana e o que seria resultado de “mal-entendimento e de instrumentalização com fins prático-políticos” (Fiorot, 1975: 217). De acordo com Fiorot, o único acordo entre Pareto e o fascismo seria a orientação antidemocrática e o desejo de transformar radicalmente o sistema parlamentar. Mas a concordância terminaria aí. Enquanto o economista de Lausanne advogava um retorno autoritário aos pressupostos liberais, limitando os poderes do parlamento e fortalecendo o executivo, o fascismo apostava “em uma perspectiva totalitária, fundada sobre o pressuposto da identificação do Estado-partido” (Fiorot, 1975: 218).
Também entre estudiosos dos Estados Unidos a tese de Borkenau tornou-se cada vez mais impopular a partir do final dos anos 1960. Ela foi explicitamente recusada por S. E. Finer, editor de uma coletânea de artigos de Pareto publicada em inglês, afirmando que o “Trattato não é protofascista de modo algum, mas implicitamente antifascista” (Finer, 1968: 446). A tese de Finer era, no mínimo anacrônica, uma vez que a primeira edição do Trattato é de 1916, três anos antes do nascimento do fascismo na Piazza di San Sepolcro, em Milano, no dia 3 de março de 1919. Lopreato e Ness argumentaram em outra direção, insistindo que “nenhum rótulo político para Vilfredo Pareto teria uma base válida” dado o caráter estritamente científico e sociológico de seu empreendimento (Lopreato; Ness, 1966: 37). E, mais tarde, o mesmo Lopreato completou: “para a questão se Pareto era de fato um fascista, sua crítica inflexível ao fascismo deveria falar por si” (Lopreato, 1973: 454). O argumento de Lopreato e Ness era similar àquele apresentado contemporaneamente por Marcello Luchetti, editor das cartas de Pareto a Arturo Linaker. Para Luchetti, o economista teria “visto claramente todos os perigos do fascismo e teve perante eles a serenidade do sociólogo competente, que desenvolve seu papel de examinador imparcial, mas internamente desaprova todo o fenômeno” (Luchetti, 1972: 213).
A discussão parece não ter fim. Em 1983, Renato Cirillo voltou ao tema, argumentando que o economista de Lausanne seria na verdade um libertário, no estilo de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, e que “não há em seus escritos nada que pudesse remotamente responsabilizar Pareto pelo corpo de doutrinas que vieram a constituir o fascismo” (Cirillo, 1983: 237). Richard Bellamy, por sua vez argumentou que o liberalismo econômico defendido por Pareto o levou a endossar o governo de Mussolini, embora fosse “possível observar que ele jamais aceitou a ideologia fascista” e, se tivesse vivido o bastante para ver a política econômica implementada, “sem dúvida teria retirado seu apoio” (Bellamy, 1992: 138, ver também 1987: 31-33).
O tema continuou em pauta no século XXI, sendo objeto de pesquisas protagonizadas por Giovanni Barbieri (2003), Joseph Femia (2006), Fiorenzo Mornati (2018, 2020) e Emanuela Susca (2005, 2013). Barbieri argumentou que a solução totalitária proposta pelo fascismo seria incompatível com as ideias de Pareto e que as simpatias que este demonstrou pelo governo de Mussolini teriam sido guiadas por uma compreensão do fenômeno fascista em uma chave “antiestatalista, anticentralista e substancialmente liberista” (Barbieri, 2003: 100). Foi além e interpretou os últimos artigos de Pareto, publicados em 1923, como um afastamento de sua posição inicial e manifestação de suas “reservas no confronto com o fascismo” (Barbieri, 2003: 102). Seu argumento culminou em um exercício de futurologia similar àquele de Bellamy, segundo o qual, caso tivesse vivido mais tempo Pareto “teria seguramente condenado o regime totalitário que o fascismo procurava construir” (Barbieri, 2003: 115).
Também Joseph Femia procurou afastar o autor do Trattato do fascismo e preferiu defini-lo como um “liberal-cético”, o qual partilharia com os fascistas uma visão pessimista da vida política, ao mesmo tempo em que, contrário a estes, afirmaria o primado ético dos indivíduos (Femia, 2006: 5). Para Femia, a afirmação de que Pareto teria sido um precursor do fascismo estaria amparada em uma leitura superficial de sua crítica à “plutocracia demagógica”. Enquanto o ataque do fascismo à plutocracia demagógica teria como pressuposto uma concepção totalitária, anti-individualista e antiliberal, a crítica paretiana teria por objetivo “proteger o individualismo liberal contra as invasões do Estado leviatã” (Femia, 2006: 118).
A abordagem de Mornati (2018, 2020) difere de outros autores na medida em que adota um enfoque mais descritivo, no qual apenas os textos de Pareto parecem ter voz.6 Isto não lhe impediu, entretanto, de afirmar que o economista de Lausanne via o fascismo “como uma reação, exemplificando o instinto de persistência dos agregados, ao ciclo plutocrático-demagógico que, sob a pressão do resíduo dos instintos de combinações, desestabilizou a sociedade italiana” (Mornati, 2018: 13). Acrescentou, ainda, que rapidamente Pareto teria percebido as ameaças decorrentes de “excessos antiliberais no fascismo” e os denunciado publicamente. Com relação ao governo de Mussolini, Mornati sustentou que o autor do Trattato manifestou “certo interesse benevolente, mas breve” (Mornati, 2018, 201: 13). A abrangente biografia intelectual produzida por Mornati não trouxe, entretanto, nenhuma novidade sobre este tema. No último volume, no qual a questão do fascismo foi abordada em mais detalhe, o comentário é rápido, mas preciso. De acordo com Mornati, Pareto teria dado “especial destaque à necessidade de o fascismo avançar em direção a uma reforma constitucional que alinharia as instituições, até então inalteradas, com a grande inovação introduzida pela revolução fascista” (Mornati, 2020: 158).
As hipóteses que norteiam este artigo se aproximam da interpretação de Emanuela Susca, a qual afirmou que, embora não seja possível prever até quando Pareto teria continuado a depositar suas esperanças de renovação política no fascismo, o certo é que o autor do Trattato viu em Mussolini o líder enérgico necessário para superar a crise. Por essa razão, Susca considerava difícil “duvidar que Pareto tenha terminado seus dias com a convicção, ou ao menos com a esperança, de ter encontrado um homem de Estado à altura de sua própria sociologia” (Susca, 2005: 294).7 Em artigo posterior, Susca retornou ao tema, afirmando que a defesa que o economista fez da transitoriedade da ditadura e da liberdade de pensamento em seus últimos escritos não teriam implicado distanciamento do fascismo e de seu governo (Susca, 2013: 87).
Em dois pontos importantes, contudo, as conclusões deste artigo distanciam-se de Susca. Primeiro, assim como boa parte da bibliografia, a autora considera que a adesão de Pareto ao fascismo ocorreu apenas após a marcha sobre Roma (Susca, 2013: 78-79). Susca conjecturou que, ainda em 11 de outubro de 1922, Pareto não via Mussolini como o líder de um golpe de Estado e um futuro ditador, depositando suas esperanças em alguém mais próximo à dinastia reinante, “talvez encorajado pelos rumores que circulavam insistentemente sobre o possível envolvimento do duque Amedeo d’Aosta nos projetos golpistas dos meses precedentes” (Susca, 2013: 78). Sua fonte é Giulia Albanese, a qual, entretanto, fez referência apenas a uma movimentação golpista envolvendo d’Aosta em 1919, dois anos antes da marcha sobre Roma, e não citou Pareto em seu livro (Albanese, 2006: 4-7). Como anunciado previamente, sustenta-se aqui que, já a partir de agosto de 1922, Pareto passou a apoiar o fascismo e a defender um golpe de Estado e uma ditadura liderada por Mussolini.
Segundo, a autora, não dá a devida atenção às intervenções paretianas voltadas à normalização e constitucionalização do regime e menciona apenas rapidamente o importantíssimo artigo “Pochi Punti di un Futuro Ordinamento Costituzionale”, o qual considera uma intervenção no “debate sobre reforma do Estado” (Susca, 2013: 87). Sua fonte a respeito do debate é novamente Giulia Albanese (2006: 183-196.). Nessas páginas, Albanese discute o projeto de reforma da lei eleitoral e não da “reforma do Estado”. Para Pareto, como será visto adiante, essa discussão era secundária (Mornati, 2020: 158, destacou apropriadamente a pouca importância que seu biografado deu à nova lei eleitoral). Mais importante era reformar a Constituição e, principalmente, as relações entre executivo e o parlamento. Ao minimizar a importância desse texto e contextualizá-lo de modo equivocado, Susca deixou de perceber a forte coincidência entre Pareto e algumas alas do fascismo italiano.
Fragmentação da soberania e plutocracia demagógica
A oposição de Pareto à democracia liberal, presente já em seus escritos do final do século XIX, tornou-se cada vez mais forte ao longo dos anos e radicalizou-se durante o biennio rosso (1919-1920), quando Pareto passou a considerar inevitável o colapso do regime liberal (Bonetti, 1994: 81).8 Os artigos que publicou na Rivista di Milano entre maio e julho de 1920, depois reunidos no livro Trasformazione della Democrazia, em fevereiro do ano seguinte, expressavam o ponto de chegada desse movimento político-intelectual. Nesses artigos, procurou assumir posição de um cientista puro, distinguindo a “utilidade da ciência experimental e a utilidade social” (Pareto, 1921: 12) e replicando uma conhecida passagem do realismo machiavelliano afirmou estudar “aquilo que é e não aquilo deveria ser” (Pareto, 1921: 13).9 Por essa razão, dizia não fazer sentido se interrogar, cientificamente, se uma forma de governo seria “boa” ou “má” (Pareto, 1921: 13).
Apesar dos alertas metodológicos e da insistência em uma ciência livre de valores, os artigos da Rivista di Milano tornaram explícita uma orientação política fortemente antidemocrática e antissocialista. Pareto identificava na sociedade contemporânea o fortalecimento de tendências centrífugas alimentadas por sentimentos por ele denominados de “resíduos persistência dos agregados” e de “resíduos em relação com a coletividade” (Pareto, 1921: 31).10 A valorização crescente das relações com a família e com grupos afins, a emergência de associações econômicas particulares, as necessidades de diferenciação sempre maiores e o crescimento dos sentimentos de hierarquia estimulariam cada vez mais o crescimento das forças centrífugas existentes na sociedade. A conclusão de Pareto era dramática:
No período do deslocamento na direção da força centrífuga, o poder central, seja monárquico, oligárquico, popular, da plebe – tudo isso pouco importa – se enfraquece; o que se chama de ‘soberania’ desse poder tende a se tornar um nome sem sentido, desmorona e cobre o país com suas ruínas; cresce o poder de alguns indivíduos, de algumas coletividades, ainda subordinadas na teoria, ganhando independência na prática (Pareto, 1921: 41).
As principais manifestações dessa desagregação da soberania teriam sido as greves dos trabalhadores agrícolas, dos funcionários públicos e de solidariedade com outras categorias (Pareto, 1921: 47-54). Em tais eventos, o poder do governo central teria se detido perante os sindicatos, os quais receberam imunidade para impor sua vontade sobre toda a nação, afetando radicalmente a vida econômico-social. A pulverização da soberania se manifestaria também nos conflitos existentes entre os sindicatos de categorias profissionais diferentes (Pareto, 1921: 58). A existência de movimentos que se colocavam à margem da ação da lei e da justiça, criaria uma situação análoga àquela pluralidade de poderes soberanos e à anarquia que teria caracterizado a Idade Média.11
A desagregação da soberania central completava-se com o desenvolvimento de uma plutocracia demagógica. O aumento da riqueza e da poupança de capital, acompanhada pela persistência de uma distribuição desigual da riqueza, teria criado as condições para o crescimento de duas classes sociais com interesses convergentes: “os especuladores ricos e aquela dos operários, ou se quisermos, em geral, os trabalhadores” (Pareto, 1921: 73). A aliança entre os plutocratas e os democratas colocaria sob ameaça os interesses comuns da nação. Os parlamentos modernos seriam instrumentos eficazes do desenvolvimento dessa plutocracia demagógica e para a realização de seus interesses em detrimento dos demais. Essa ideia já havia sido avançada no Trattato, quando Agostino Depretis e Giovanni Giolitti foram definidos como chefes do “sindicato dos ‘especuladores’ que dominava o país” (Pareto, 1988 [1916], § 2255).12
Em 1920, Pareto via apenas nos nacionalistas uma corrente política com a coragem necessária para enfrentar a plutocracia demagógica e defender o uso da força e da violência para derrotar os adversários.13 Mas a existência dessa corrente não seria suficiente para interromper o ciclo. Os nacionalistas “são poucos e não são seguidos”, afirmou Pareto em um “Apêndice” que acrescentou ao seu livro pouco antes de ser publicado (Pareto, 1921: 125). Nessa época, o juízo a respeito dos fascistas não era muito favorável. Em uma carta a Arturo Linaker, de 18 de março de 1921, Pareto escreveu: “Os fascistas por enquanto me parecem apenas frondeurs. Para que se tornem revolucionários é necessário que encontrem um mito” (Pareto, 1975 [1921]: 1062). Eram meses nos quais Pareto via de modo muito negativo o movimento de Mussolini. Em abril de 1921 voltou a escrever a Linaker, desta vez com visível mau-humor:
Parece que o fascismo escorrega em direção a um estado como aquele do terror branco que ocorreu na França no tempo da restauração. Deve ser muito bom viver em um país no qual o pacífico transeunte é cercado por jovens heróis e constrangido a gritar: Viva a Itália! Viva tantas outras coisas; morte a tantas outras! E no qual quem está quieto em casa deve, sob pena de incêndio e saque, expor a bandeira tricolor quando os fascistas desejam invadir a rua. A tirania vermelha não era melhor. Muito bem! Mas não são preferíveis os países nos quais não existem nem uma, nem outra? (Pareto, 1975 [1921]: 1061).
Esse juízo negativo sobre o fascismo aparecia, também, na correspondência que Pareto manteve, no primeiro semestre de 1921, com seu amigo Maffeo Pantaleoni. No dia 2 de maio de 1921, Pareto escreveu que o fascismo era “um episódio, por enquanto, em grande parte romântico” e tinha dúvidas se este seria algum dia “um fenômeno de importância histórica” (Pareto, 1962 [1921], v. 3: 280). Pantaleoni não concordava sempre com seu correspondente e se mostrava mais otimista com a evolução dos fascistas, principalmente depois que estes integraram o Blocco Nazionale liderado por Giovanni Giolitti e conseguiram eleger 35 deputados, no pleito de 15 de maio daquele ano. Mas Pareto insistia, escrevendo em 22 de maio, que o fascismo era um fenômeno “desorgânico” (Pareto, 1962 [1921], v. 3: 282) e reafirmando, no dia 27, que “o problema daquele partido é o de não ter um ideal, um mito, um programa” (Pareto, 1962 [1921], v. 3: 284).14
A ausência de uma ideologia própria foi mais uma vez sublinhada pelo economista de Lausanne em uma carta de 7 de junho de 1921, na qual se referia a “Mussolino”, a quem acusava de ser “intriguento”.15 Na missiva, Pareto manifestou seu contentamento pelas dúvidas que Pantaleoni teria começado a expressar com relação aos fascistas e aproveitou a oportunidade para escrever mais uma vez que enquanto eles “não tiverem um ideal, um mito, um programa, não serão um partido”. Manipulados por Giolitti, não passariam de um meio: “não são um fim”, escrevia (Pareto, 1962 [1921], v. 3: 285). Pareto parecia cada vez mais pessimista a respeito da evolução do fascismo e, em agosto de 1921, chegou a antever o fim do movimento em um futuro não muito distante em mais uma carta a Pantaleoni: “vês que tinha razão te dizendo que se não conseguisse ter um ideal, uma fé, um mito, não poderia durar” (Pareto, 1962 [1921], v. 3: 292).
Foi apenas no início de 1922 que Pareto passou a prestar mais atenção no fenômeno do fascismo. Seu primeiro artigo a respeito do tema foi publicado em janeiro daquele ano na revista literária La Ronda. Nele, identificou os elementos mais constantes do fascismo: “o uso de uma violência extralegal” e “um mito cujo núcleo é o nacionalismo” (Pareto, 1980 [1922]: 1079). Mas não viu muita originalidade no movimento e o considerou “um caso particular de fenômenos muito mais gerais” (Pareto, 1980 [1922]: 1079). Na ocasião, o fascismo era visto por Pareto como um efeito da fragmentação da soberania central e do ciclo da plutocracia demagógica; processos agravados pela guerra. O movimento liderado por Mussolini seria uma a reação a um conflito provocado pelo recurso à violência extralegal por parte dos socialistas e uma manifestação da “desagregação da autoridade pública” (Pareto, 1980 [1922]: 1085). Como reação, o fascismo seria útil à burguesia italiana, a qual aceitava “a tutela do fascismo, talvez às escondidas o ajude economicamente”, embora provavelmente não movesse “um dedo abertamente para defendê-lo dos inimigos” (Pareto, 1980 [1922]: 1088).
“Agora ou nunca”: golpe de estado e revolução
À atitude de Pareto parece mudar a partir de agosto de 1922, depois da derrota do sciopero legalitario promovido pelos socialistas contra o squadsrismo fascista.16 Começou aí a titubeante caminhada do economista na estrada do fascismo. Em 11 de agosto, Pareto escreveu a seu amigo Pantaleoni: “Quando escrevi a Sociologia, ninguém previa o fascismo; mas eu mostrei que quando o governo descuida a proteção dos cidadãos, uma uniformidade histórica necessita que surjam forças políticas privadas que o substituam” (Pareto, 1962 [1922]: 309).17 Mas ainda continuava com dúvidas a respeito do alcance que esse movimento teria. No dia 17 de agosto, expressou-as em mais uma carta a seu amigo: “Para mim, o problema, e parece que Mussolino também pensa assim, está em saber se o fascismo se tornará um partido orgânico, com os seus mitos, os seus fins e seus propósitos de dominar, de vencer, de esmagar” (Pareto, 1962 [1922]: 311).
Nesse mesmo dia, Pareto publicou um artigo em Il Secolo a respeito de um discurso no qual o deputado socialista Claudio Treves censurava a violência fascista. O economista afirmava que violações à lei não poderiam ser condenadas ou absolvidas por princípio. Cada caso deveria ser examinado em sua particularidade. Deixava claro, entretanto, que considerava o uso da violência fascista contra os socialistas justificável naquela situação: “Em tempo de guerra, o império da lei deve ceder àquele das armas” (Pareto, 1974 [1922]: 769). Essa justificativa se tornou mais explícita no artigo “L’uso della Forza”, publicado no dia 24 de setembro em Il Giornale di Roma, a convite de Stanislao Scalfati (ver a reconstrução do episódio em Scalfati, 1932: 122). A força não poderia tudo, afirmava, mas também não era verdade que nada pudesse. Na situação presente, na qual vislumbrava uma transformação radical do ciclo da plutocracia demagógica, Pareto se inclinava a concordar com aqueles que, como o historiador Ettore Ciccotti, defendiam a ditadura, dada a “impotência do presente ordenamento para resolver os poderosos problemas que o afligem” (Pareto, 1974 [1922]: 775).
O artigo sobre o uso da força foi lido pelos fascistas como uma justificativa para assumirem o poder mediante o uso da violência. A correspondência de Pareto revela que ele se inclinava por uma solução desse tipo e que a apoiava, embora duvidasse da capacidade dos fascistas levarem a cabo o empreendimento. Escrevendo a Linaker, no dia 11 de setembro, afirmou: “Os fascistas, ou fazem agora a revolução ou não a fazem mais. A segunda hipótese me parece a mais provável” (Pareto, 1975 [1922]: 1097). A fórmula aparece também em carta que Pareto encaminhou a Vincenzo Fani Ciotti junto a seu artigo de 24 de setembro. Nessa missiva, datada de 11 de outubro, poucas semanas antes da marcha sobre Roma, Pareto revelou uma explícita simpatia pelo líder do fascismo: “Parece-me ótima a via que segue Mussolini, proclamando que o fascismo é antidemocrático” (Pareto, 1975 [1922]: 1106). Também julgava surpreendente que a burguesia italiana tivesse sido capaz de um ato coragem e enfrentado os socialistas nas ruas, mas manifestava dúvidas a respeito da capacidade dos fascistas evoluírem como um movimento antidemocrático. Em suma, temia que se enredassem no parlamentarismo e vaticinava: “ou levam a cabo uma revolução, ou um golpe de Estado, ou se exaurem” (Pareto, 1975 [1922]: 1106). Suas reiteradas dúvidas perante a capacidade do fascismo executar um golpe não escondiam, entretanto, seu desejo de que este ocorresse.
A famosa carta de Pareto ao secretário do Partito Nazionale Fascista, Michele Bianchi, teria sido redigida nessa mesma semana e entregue pessoalmente por Giovanni Preziosi. Nela, aconselhava-se os fascistas a darem o golpe: “Diga a Mussolini, ou agora ou nunca mais”, teria escrito Pareto. O episódio foi narrado Giovanni Preziosi em Il Giornale d’Italia imediatamente após a morte do economista, o qual também contou que a missiva teria sido repassada a Mussolini (Preziosi, 1923; ver tb. De Felice, 1966: 306). Poucos dias depois, quando os fascistas marchavam sobre Roma, Pareto escreveu a Pantaleoni: “Amanhã o telégrafo nos dirá o que aconteceu com a ‘revolução’ fascista. Se não ocorrer agora é provável que não ocorra mais, o que não quer dizer que outra revolução seja impossível” (Pareto, 1975 [1922]: 315). Nessa mesma carta era registrado um juízo muito positivo sobre Mussolini, acompanhado de algumas reservas perante o movimento dos fascistas: “Mussolini me parece um homem de Estado de mérito incomum, mas não sei se será capaz de livrar-se do lastro dos seguidores” (Pareto, 1975 [1922]: 316).
A existência dessa carta a Bianchi tem sido contestada. Bousquet foi cuidadoso e afirmou que o único documento existente era a carta a Pantaleoni (ver Bousquet, 1960: 191–192). Busino foi além: considerou falsa a afirmação de Preziosi e afirmou que este teria tomado conhecimento da carta a Pantaleoni, também seu amigo, e utilizado uma frase dela como peça de propaganda (Busino, 1967: 109).18 Luchetti, por sua vez, escreveu que a carta a Bianchi não passava de “um rumor absurdo”, atribuindo-o a uma “agência de notícias” (Luchetti, 1972: 222). Bousquet citou Preziosi, embora não tenha informado a fonte; a referência de Busino é um artigo de novembro de 1932 em La Vita Italiana; Luchetti, cita uma outra nota escrita por Preziosi (1933) e faz referência ao artigo de Il Giornale d’Italia, mas sem entrar em detalhes.19
A única prova apresentada por estes intérpretes é a inexistência da carta. De fato, a carta nunca foi encontrada e Pareto não fez referência ao episódio sequer na correspondência a seus amigos mais próximos. Também não há menção à missiva nos artigos e na correspondência de Mussolini, razão pela qual cautela é necessária. Ainda assim é preciso considerar que, além do depoimento de Preziosi, as cartas a Linaker, Fani Ciotti e Pantaleoni, estas sim preservadas, utilizam fórmulas muito parecidas – “agora ou nunca” – e apontam na mesma direção: Pareto considerava urgente que os fascistas recorressem à força para impor sua vontade à Nação e aconselhava-os a tomar a iniciativa. É possível, portanto, duvidar que Pareto tenha influenciado diretamente a decisão dos fascistas, como afirmado por Preziosi; mas as evidências de que o economista desejava um golpe imediato e a instauração de uma ditadura fascista são muito sólidas.
Ditadura, legalidade e normalização
Logo após a marcha sobre Roma e a nomeação de Mussolini como chefe de governo, Pareto reagiu manifestando sua opinião a respeito das primeiras medidas do novo gabinete. Já no dia 30 de outubro escreveu a seu amigo Pantaleoni: “ótimo o início da parte política, não tanto o da econômica” (Pareto, 1975 [1922]: 316). As críticas do economista diziam respeito ao fechamento da bolsa de valores pelos fascistas de Milano e aos boatos referentes à regulação do câmbio; medidas que Pareto, fiel a seus princípios econômicos liberais, considerava equivocadas. Mas suas ressalvas não diminuíram o entusiasmo, o qual transparecia em sua correspondência. A seu amigo Linaker escreveu, em 27 de dezembro: “Mussolini se revela a cada dia como um homem de Estado de primeira grandeza. Se a força humana é capaz de curar a vida italiana, podemos esperar que a fortuna lhe seja próspera. De outra maneira cairíamos na anarquia; esta é a última carta da Itália” (Pareto, 1972 [1922]: 182).
Nestes primeiros meses as maiores dúvidas de Pareto residiam na resiliência do fascismo e em sua capacidade de resistir ao assédio da plutocracia demagógica. Não temia uma radicalização do fascismo, e sim sua moderação e cooptação. No artigo “Il Fascismo e le Classi”, publicado em 3 de janeiro de 1923 no jornal Il Nuovo Paese, Pareto expressou seu receio de que o fascismo procurasse uma conciliação com a ideologia democrática e que manobras parlamentares substituíssem “o trabalho audaz e enérgico” (Pareto, 1974 [1923]: 778). Se isso ocorresse, afirmou, “a presente revolução permanecera na história como mais rica de boas intenções do que de efeitos” (Pareto, 1974 [1923]: 778).
Nesse mesmo mês teve início a colaboração de Pareto com a revista Gerarchia, dirigida por Mussolini. Em um artigo publicado na edição de janeiro desse periódico, o economista elogiou a política externa do governo e as reformas promovidas na economia pelo ministro Alberto De Stefani. Pareto manifestou, entretanto, tímidas reservas a respeito da capacidade do fascismo superar os obstáculos e continuar avançando na direção tomada (Pareto, 1974 [1923]: 1158). Temia que o fascismo pudesse ser assimilado por correntes políticas democráticas ou socialistas e que renunciasse a persistir naquele caminho ao qual havia se lançado e que ele, como compagnon de route, considerava o mais adequado (Pareto, 1974 [1923]: 1158). Mas o juízo geral era positivo: “Por enquanto, parece que a Itália se encontra em um bom caminho” (Pareto, 1980 [1923]: 1158). Com seus interlocutores fascistas Pareto continuava a manifestar otimismo, como na carta a Fani Ciotti, de 8 de janeiro: “As medidas do governo se sucedem de modo veloz; quase todas boas, algumas ótimas” (Pareto, 1975 [1923]: 1127).
Essas medidas foram discutidas de modo mais extenso por Pareto em um artigo publicado em Il Giornale Economico, de 10 de janeiro de 1923. Seu juízo sobre a orientação econômica adotada pelo governo, em grande parte alinhada com o programa liberal, era agora positivo e se mostrava satisfeito com o fato de o fascismo ter colocado um fim à “estatização” dos serviços públicos: “o fascismo parece a salvação da Itália”, afirmou (Pareto, 1980 [1923]: 1150). Também estava contente com as ações voltadas a aniquilar a força dos sindicatos e comemorou que o fascismo tivesse posto um fim ao poder das “pseudo-cooperativas, da tirania das ligas e dos ferroviários, esta inédita, da indisciplina dos empregados do Estado e dos municípios, e de uma parte não desprezível dos operários” (Pareto, 1980 [1923]: 1150).
Os artigos publicados por Pareto, em 1923, revelam o apoio de Pareto à ditadura fascista ao mesmo tempo em que expressam seus desejos de um restabelecimento definitivo da soberania central e de que o exercício da violência voltasse a ser monopólio do Estado. Não há indícios, entretanto, de que fosse favorável a uma moderação do uso da força pelo Estado. No artigo de Il Giornale Economico afirmava que o uso da força deveria ser “um privilégio do governo, não se pode concedê-lo, por muito tempo, a privados”. Como havia escrito anteriormente, o uso da força por agentes não-governamentais poderia ser justificado pela situação, mas uma vez realizada a necessária “revolução”, “convêm que sejam reprimidos pelo governo” (Pareto, 1980 [1923]: 1152). Pareto considerava que aquilo que Mussolini estava fazendo nesse sentido era “obra louvável”, referindo-se, certamente, à estatização das squadre fascisti e a conversão destas em Milizia Volontaria per la Sicurezza Nazionale (Pareto, 1980 [1923]: 1152).20
Este tema foi tratado de maneira mais extensa no artigo que Pareto publicou no jornal argentino La Nación, em março de 1923. Nele, distinguia dois momentos diferentes do fascismo. Em um “primeiro tempo”, o fascismo era “uma reação espontânea e um pouco anárquica”, contra a “tirania vermelha” (Pareto, 1980 [1923]: 1168).21 Mas haveria um fascismo característico de um “segundo tempo”, o qual teria tido lugar após a marcha sobre Roma e no qual o movimento teria se transformado em governo: “Após a revolução que levou o fascismo ao poder, a ação individual e um tanto desordenada dos fascistas, foi substituída por uma disciplina rigorosa, que apenas assegurava o domínio do poder central, salvo algumas perturbações” (Pareto, 1980 [1923]: 1171). Tratava-se de uma fase, como afirmou poucos dias mais tarde em uma entrevista a Amadeo Ponzone, de “restabelecimento da autoridade do governo e da ordem pública” (Pareto, 1974 [1923]: 739). De todo modo, considerava que o governo estava no caminho correto e embora qualquer juízo definitivo sobre o futuro fosse prematuro, considerava possível afirmar “que o início era bom e abre a esperança de um amanhã feliz” (Pareto, 1980 [1923]: 1173).
Pareto julgou importante retomar o argumento e expô-lo, desta vez diretamente, aos próprios fascistas. Na edição de abril da revista Gerarchia, em um artigo emblematicamente intitulado “Legalità”, argumentou que nos anos precedentes os governos haviam sido incapazes de utilizar a força para garantir a eficácia da lei e que isso havia permitido que o fascismo “em seu primeiro tempo” recorresse à violência. Mas argumentava que este momento deveria ser “apenas transitório e deveria terminar com o fim do violento conflito que o havia originado” (Pareto, 1980 [1923]: 1179). De acordo com o economista, “depois do ‘primeiro tempo’ deve vir o ‘segundo’, que cria uma nova legalidade, uma nova constituição, uma nova ordem política e econômica, para que a lei, determinada objetivamente e impondo-se a todos, cumpra o ofício que manteve durante séculos entre os povos civilizados” (Pareto, 1980 [1923]: 1179).
Pareto voltou à carga em um artigo publicado pela mesma revista em julho, com o título “Libertà”, um ensaio que o chefe de redação, Amedeo Sarfatti, filho da diretora da revista, Margherita Sarfatti, julgou que teria “um grande significado” naquele momento (Pareto, 1980 [1923]: 1191). No artigo, o economista marcava distância do partido liberal, acusando-o de ter sido conivente com “as ocupações das terras e das fábricas” durante o biennio rosso e tomava partido daqueles que haviam se mobilizado contra estas, “primeiro com as expedições punitivas, depois com a marcha sobre Roma” (Pareto, 1980 [1923]: 1192). De acordo com Pareto, em conjunturas excepcionais existiriam condições excepcionais da liberdade e da proibição. A questão mais importante seria saber se a “ditadura” permaneceria por muito tempo ou o se fascismo deveria renunciar a ela, uma questão que deveria ser respondida, afirmava, com o método experimental e não com declarações sentimentais sobre a liberdade (Pareto, 1980 [1923]: 1193-1194). Mas a questão não implicava em um juízo negativo a respeito do fascismo, nem no desejo de que a ditadura fosse imediatamente suprimida. De acordo com Pareto, as ditaduras, inclusive a fascista, não seriam boas ou más em si: “O regime fascista não é bom apenas porque é ditatorial, aliás, como tal, poderia ser ruim com um mau ditador, como qualquer outra ditadura, mas porque seus efeitos foram bons, como mostra a melhoria das condições do país, da tirania vermelha de 1919-1920, até o estado atual” (Pareto, 1980 [1923]: 1194).
O artigo incluía também alguns alertas. O primeiro dizia respeito à necessidade de o governo preservar a liberdade religiosa e a liberdade de cátedra nas universidades para que nelas pudessem ser ensinadas “as teorias de Newton, como as de Einstein; as teorias de Marx, como as da ‘escola histórica’” (Pareto, 1980 [1923]: 1196). O segundo alerta dizia respeito à necessidade de não postergar indefinidamente uma reforma constitucional. A reforma eleitoral debatida pelos fascistas, embora importante, teria efeitos apenas superficiais e deveria servir como uma preparação para “mudanças substanciais” (1980 [1923]: 1196). Mas apesar dos alertas, Pareto permanecia otimista a respeito do futuro do fascismo e da Itália e expressava esse otimismo com grandiloquência:
“Hoje chegamos a um ponto em que podemos ver, entre as brumas do futuro, o princípio das transformações da democracia, do parlamentarismo, do ciclo da plutocracia demagógica, e a Itália, que já foi mãe de muitas formas de civilização, bem, poderia desempenhar um papel importante na geração de uma nova” (Pareto, 1980 [1923]: 1197).
Os artigos de Pareto nas páginas da revista Gerarchia, dirigida por Mussolini, são indício da complexa relação que manteve com o fascismo. Quando Gerarchia publicou seu primeiro artigo na edição de janeiro, o evento foi saudado em um anúncio nas páginas de Il Popolo d’Italia do dia 20 desse mês. Embora publicasse grande e diverso grupo de autores, não havia espaço na revista para vozes que se opusessem ao chefe de governo. Em suas páginas é possível acompanhar as variadas ênfases que certos temas e opiniões recebiam, de acordo com os interesses imediatos de Mussolini. Se Pareto publicou nessa revista foi porque não havia nada nesses artigos que opusesse seu autor ao governo e porque Mussolini considerou que ideias nele expressadas eram apropriadas a seus propósitos.
Os artigos de Pareto nessa revista advogaram por um programa de normalização do fascismo e conclamaram a evitar os excessos. Pareto explicitou sua posição e a importância desses artigos em uma carta a Carlo Placci, de 1 de julho de 1923: “Muito justo que, como você diz, ‘não possamos viver eternamente em um regime de exceção’. Sobre isso eu também escrevi em dois artigos de ‘Gerarchia’, um já publicado (Legalità) e outro que será (Libertà), bem como um artigo que publicou ‘La Nación’, de Buenos Aires” (Pareto, 1975 [1923]: 1151). Mas eram conselhos amigáveis de um compagnon de route que achava que as coisas estavam caminhando na direção certa. Na mesma carta, dizia a seu amigo: “Você faz bem em ser filofascista; no fascismo pode estar a salvação da Itália… mas não faltam de um lado os precipícios e de outro o caminho que ainda precisa ser percorrido” (Pareto, 1975 [1923]: 1151).
Os alertas de Pareto devem ser interpretados contextualmente. Ele não era o único a defender a normalização do fascismo. Nas páginas de Il Popolo d’Italia foram frequentes os chamados à disciplina e ao respeito às hierarquias, e o apelo a que o governo pudesse levar a cabo sua obra sem ser atrapalhado por militantes bem-intencionados, mas afobados (De Felice, 1966: 446). Desde novembro de 1922, era recorrente no discurso político de Mussolini a dura crítica ao ilegalismo fascista, bem como o chamado à “normalidade”.22 O tema era discutido energicamente no interior do movimento fascista. A normalização política e a desmobilização do squadrismo também foi o tema central da campanha revisionista protagonizada por Massimo Rocca e Giuseppe Bottai na revista Critica Fascista, em agosto e setembro de 1923, a qual encontrou forte oposição dos intransigentes liderados por Roberto Farinacci (cf. De Felice, 1966: 449ss).
É a partir desse contexto que devem ser analisados os artigos publicados por Pareto em uma revista controlada diretamente por Mussolini. Longe de expressar uma oposição ao governo, a insistência de Pareto na desmobilização do squadrismo e na concentração do poder nas mãos do governo, restabelecendo a soberania central, era programa de correntes importantes do fascismo e desejo do próprio chefe de governo, que pretendia ver sua posição pessoal fortalecida. Também a insistência de Pareto em uma reforma constitucional que permitisse a superação definitiva da democracia parlamentar em uma nova forma estatal estava de acordo com múltiplas vozes que se manifestavam no interior do fascismo. A reforma constitucional era discutida fervorosamente nas fileiras fascistas já antes da Marcha sobre Roma (ver p. ex. Govi, 1922) e com maior intensidade nos meses sucessivos (ver p. ex. o debate em Il Popolo d’Italia e na revista Gerarchia durante o primeiro semestre de 1923: Govi, 1923; Panunzio, 1923a, b; Corradini, 1923; Volt, 1923a; Solmi, 1923).
A última contribuição de Pareto a esse debate foi um artigo publicado por Giovanni Preziosi na revista La Vita Italiana, intitulado “Pochi Punti di un Futuro Ordinamento Costituzionale”. O artigo veio à luz um mês após a morte do economista. Pareto considerava que seria melhor que a reforma constitucional fosse feita o quanto antes e sugeria preservar as formas existentes, renovando sua substância. Por essa razão defendia que o parlamento fosse preservado: “Qualquer opinião que se tenha sobre o parlamento, convém agora conservá-lo” (Pareto, 1923: 166). Desejava reformá-lo, em vez de suprimi-lo, encontrando a melhor solução, com o menor dano possível. Coincidia nisso com Mussolini, que contemporaneamente, em discurso ao Senado, em 8 de julho de 1923, afirmou que embora o parlamento não pudesse “conter toda a vida de uma Nação”, sua crítica não significava querer “abolir o parlamento”. Tratava-se, para il duce de “melhorá-lo, aperfeiçoá-lo, corrigi-lo” (Mussolini, 1956b [1923]: 259).
Contrariando vozes influentes no interior do PNF, Pareto insistia que a reforma eleitoral não era tão importante assim e que não era nela que seria encontrada uma solução para a transformação do parlamento (Pareto, 1923: 166).23 A questão principal dizia respeito aos poderes atribuídos ao legislativo. Considerava necessário substituir a impotência e a incompetência da Câmara pela “potência de uma elite” e pela “competência de um bom Conselho de Estado, de conselhos dos produtores (não esquecer os consumidores), etc.” (Pareto, 1923: 167). Na proposta de Pareto, as funções legislativas da Câmara de deputados deveriam ser reduzidas e as leis elaboradas por um Conselho de Estado, antes de serem submetidas ao parlamento. Os deputados deveriam permanecer como “a parte alta da política”, expressando “sentimentos, interesses e até preconceitos”, os quais também poderiam se manifestar por meio do instituto do referendo. (Pareto, 1923: 167–168). Era por meio da Câmara e do referendo que o consenso necessário à preservação da ordem política poderia se formar. Pareto não acreditava que bastaria esse consenso para governar, assim como não bastaria a força; mas ele seria uma condição necessária.
O programa rapidamente esboçado por Pareto deslocava a distribuição dos poderes, favorecendo o executivo em detrimento do legislativo, sem, entretanto, liquidar as funções deste (Barbieri, 2003: 109). O artigo não ia muito além disso. Pareto parecia mais interessado em argumentar contra os excessos que se manifestavam na imprensa fascista e a reivindicação de dissolução do parlamento verbalizada ocasionalmente pelos intransigentes, do que em propor o conteúdo de uma reforma constitucional futura: “Os piores inimigos de um ordenamento são aqueles que desejam levá-lo aos extremos”, alertava (Pareto, 1923: 169).
O fascismo e Pareto
Pouca atenção foi dada à literatura produzida pelo próprio fascismo a respeito de Pareto. Algumas tentativas foram fortemente enviesadas e produziram resultados insatisfatórios. Luchetti (1972: 233ss), por exemplo, afirmou ter investigado os necrológios na imprensa fascista diária para afirmar a pouca importância que os fascistas deram a seu suposto mestre. Uma tese contestável quando se amplia o escopo dos jornais pesquisados e se presta, também, atenção às revistas fascistas, voltadas para a elite do movimento. Cirillo (1983), por sua vez, não deu atenção nem aos jornais, nem às revistas e, por essa razão, desatacou a aversão às ideias de Pareto manifestada por Ugo Spirito (cf. Spirito, 1930). Mas Spirito era um revisionista situado à margem da cultura fascista ou, de todo modo, pouco representativo desta. Barbieri analisou essa literatura fascista com um pouco mais de atenção, mostrando que, enquanto para alguns fascistas as ideias de Pareto haviam influenciado o movimento, para outros isso não teria ocorrido. Esses fascistas, entretanto, teriam concordado a respeito da existência de “um nexo entre as concepções políticas de Pareto e a ideologia fascista” (Barbieri, 2003: 125).
Segundo Benito Mussolini, seu primeiro contato com as ideias de Pareto teve se deu em maio de 1904, quando frequentou o curso de verão em ciências sociais na Université de Lausanne (Suíça), onde Pareto era docente. Mussolini fez menção a essas aulas em um discurso na Università Bocconi, em 5 de outubro de 1924, publicado dois dias depois em Il Popolo d’Italia, no qual afirmou sua admiração pelo professor: “há muito tempo fui um estudioso de vossa disciplina e discípulo daquele que corretamente poderia ser chamado o príncipe dos economistas: falo de Vilfredo Pareto” (Mussolini, 1956d [1924]: 100). O próprio Pareto referiu-se a esse evento em uma carta a Carlo Placci, na qual afirmou não ter conhecido pessoalmente o agora chefe de governo (Pareto, 1975 [1923]: 1125; ver comentário de De Felice, 1965: 38). O episódio foi narrado por Mussolini em sua autobiografia (1928: 14) e pela sua biógrafa oficial, Margherita Sarfatti (1925: 101ss). Entretanto, de acordo com Busino (1967: 108–109), não existe nos arquivos da École des Sciences Sociales et Politiques da Universitè de Lausanne nenhum registro de inscrição de Mussolini e, uma vez que os cursos não eram abertos e só podiam ser frequentados por alunos matriculados, é pouco provável que o futuro líder dos fascistas tivesse, de fato, assistido a essas aulas.
Mais importante do que esse nebuloso episódio biográfico é a presença de Pareto e de suas ideias nos escritos do próprio Mussolini. É notável, por exemplo, a resenha que ele publicou no jornal Avanguardia Socialista, de 14 de outubro de 1904, sobre a conferência paretiana intitulada “L’individuel et le Social”, proferida no 2º Congresso Internacional de Filosofia, em Genebra. Mussolini considerou tal conferência “a única nota de são positivismo naquela assembleia de ex-pastores, ex-teólogos, acadêmicos ou não, mais ou menos envelhecidos” (Mussolini, 1951 [1904]: 73). O que mais chamou a atenção do jovem estudante foi a afirmação feita pelo sociólogo de que não existiria oposição entre indivíduos e a sociedade e sim luta de interesses entre diferentes partes da própria sociedade (Mussolini, 1951 [1904]: 73).
Eventuais menções ao nome de Pareto se sucederam ao longo dos anos nos discursos e escritos mussolinianos. Também era frequente, e em certo sentido mais importante do que citações esparsas, o uso consistente de ideias e conceitos paretianos, em especial o uso dos conceitos de elite e de plutocracia demagógica. Mussolini fez referência explícita à teoria das elites e a seu autor em um artigo publicado no jornal La Lima, em 25 de abril de 1908, quando ainda era um socialista intransigente: “Recordas-te da teoria das elites de Vilfredo Pareto? É talvez a concepção sociológica mais genial dos tempos modernos. A história não é, senão, uma sucessão de elites dominantes” (Mussolini, 1951 [1908]: 128).
O conceito é relativamente frequente nos escritos e discursos de Mussolini, o qual chegou a considerar durante a guerra, em artigo de dezembro de 1916, ter “o privilégio de assistir à formação da trincheirocracia, da elite nova e melhor, que dirigirá a Itália de amanhã” (Mussolini, 1951b [1916]: 272). Mais frequente foi o uso que Mussolini fez da ideia de classe dirigente, um conceito que pode ser encontrado algumas raras vezes no Tratatto (Pareto, 1988 [1916], §§ 1932, 2176 e 2179). Foi este o conceito mobilizado em seu discurso de San Spolcro, em 1919, no ato de fundação dos Fasci di Combattimento, para expressar o maior problema que o novo movimento deveria enfrentar: “Dentre todos os problemas, aquele que hoje mais interessa é o de criar a classe dirigente e de muni-la dos poderes necessários” (Mussolini, 1953 [1919]: 326).
A definição do fascismo como uma “nova classe dirigente”, nos discursos mussolinianos, coincide com a derrota do sciopero legalitario em agosto de 1922. A expressão apareceu pela primeira vez no discurso pronunciado em Roma, na sede do Fascio di Combattimento, no dia 2 de agosto: “É do fascismo, das futuras universidades fascistas e das escolas fascistas que deverá surgir a nova classe dirigente” (Mussolini, 1956a [1922]: 331). A partir desse ponto, a ideia de que o fascismo constituía uma nova classe dirigente, destinada a destruir e substituir a antiga permanece uma constante no discurso mussoliniano, enquanto à referência ao conceito de elite praticamente desaparece.
O conceito de plutocracia também aparece nos escritos e discursos mussolinianos. O uso desse conceito, antes de 1919, é raríssimo; mas se torna muito frequente depois da reunião de San Sepolcro. A modalidade de uso, entretanto, oscilou. Em um contexto marcado pelo fim da guerra e pelo tratado de Versailles, Mussolini fazia uso da ideia de plutocracia para se referir às forças políticas estrangeiras que ameaçavam os interesses da nação italiana. Com esse propósito escreveu, em 1919, a respeito do “ocidente plutocrático” (Mussolini, 1954 [1919]: 109), dos “bandidos da plutocracia internacional” (Mussolini, 1954 [1919]: 138) e da “plutocracia anglo-americana” (Mussolini, 1954 [1919]: 362). A ideia de plutocracia demagógica aparecerá no final daquele mesmo ano, em um artigo de 7 de dezembro de 1919, no qual escreveu contra o governo de Francesco Saverio Nitti, considerado “o governo típico da plutocracia demagógica e da demagogia plutocrática” (Mussolini, 1954a [1919]: 183). Em 1922, após, portanto, a publicação de Trasformazione della Democrazia, Mussolini referiu-se à “plutocrática democracia parlamentar esquerdóide” (Mussolini, 1956a [1922]: 139) e, em 1923, à “democracia socialistóide e plutocrática” (Mussolini, 1956c [1923]: 107). Embora o conceito de plutocracia democrática não se faça presente no livro que Pareto publicou em 1921, ele já havia sido utilizado ocasionalmente no Trattato (Pareto, 1988, §§ 2180 e 2553)
Os sentidos que Mussolini atribuiu ao conceito de plutocracia demagógica ou de plutocracia democrática são muito próximos daqueles presentes na obra de Pareto. Assim como seu mestre, o líder do fascismo mobilizou essas ideias no interior de um discurso político de crítica à democracia parlamentar e à incapacidade de esta expressar os interesses e as necessidades da nação, carregando as tintas no ataque aos socialistas e aos liberais que seriam coniventes com eles. Reproduzia, desse modo, aquelas “ideologias da crise”, presentes no pensamento político italiano nas duas primeiras décadas do século XX e, particularmente, a versão que o elitismo havia dado a elas (ver Gentile, 2001).24 Mas, como seria de se esperar, os conceitos que Pareto utilizava para descrever certos fenômenos a respeito dos quais procurava manter certo distanciamento científico, no discurso de Mussolini adquiriam a força de uma categoria de acusação.
Além das referências explícitas a Pareto e seus conceitos, é possível encontrar nos discursos e escritos de Mussolini temas e abordagens que remetem a seus escritos. Veja-se, por exemplo, o importante artigo intitulado “Forza e Consenso”, publicado na revista Gerarchia (Mussolini, 1956b [1923]: 195-196), que reproduz questão explorada à exaustão no Trattato, ou o discurso “Cinque Anni dopo San Sepolcro”, de 23 de março de 1924, no qual citou os conselhos de “um de meus mestres, o mais ilustre: Vilfredo Pareto” a respeito dos limites de uma ditadura, e expôs um conceito de liberdade claramente baseado naqueles artigos que seu admirado economista havia publicado na imprensa fascista poucos meses antes de sua morte (Mussolini, 1956c [1924]: 205-217). De acordo com Barbieri (2003: 120), Mussolini estaria, na verdade, contestando nesses artigos as objeções que Pareto havia feito ao fascismo. As evidências documentais, entretanto, apontam de maneira consistente em outra direção.
As referências de Mussolini a Pareto não são apenas instrumentais. Há razões para acreditar em uma admiração sincera. Menos de um mês após a Marcha sobre Roma, no dia 22 de dezembro de 1922, o novo governo convidou Pareto a representar a Itália na Comissão sobre o desarmamento da Sociedade das Nações. Pareto aceitou o convite, afirmando coincidir com as linhas principais do governo italiano a respeito, mas prevendo que sua saúde poderia dificultar sua participação.25 Mussolini também propôs sua nomeação ao Senado. Pareto a aceitou, embora nunca tenha encaminhado os documentos necessários para sua efetivação. As razões para essa atitude são várias. Embora considerasse a nomeação uma honra, não estava disposto a participar das sessões do Senado em Roma devido a suas condições de saúde. Ao seu advogado, confessou: “para dizer a verdade, a convalidação da nomeação senatorial não me incomoda muito e, de todo modo, não me movo de Céligny. Sou grato ao governo pela nomeação, e suponho que, cientificamente, não lhe diminua o valor a recusa política da convalidação” (Pareto, 1975 [1923]: 1150). Por outro lado, temia que o episódio dificultasse a obtenção da cidadania fiumiana, que desejava para poder efetivar seu divórcio de Alessandra Bakounine, obstaculizado pela legislação italiana.26
Mussolini não era o único a admirar o economista. Em setembro de 1921, Alberto De Stefani, então deputado fascista, havia proclamado nas páginas de Il Popolo d’Italia a importância das ideias de Pareto para o pensamento econômico dos fascistas: “Do ponto de vista econômico, por exemplo, eu daria a carteira de filiação aos Fasci a Vilfredo Pareto, Maffeo Pantaleoni, Umberto Ricci e Luigi Einaudi, todos eles desmascaradores potentes dos truques da democracia e da plutocracia. O vade mecum do fascista está na obra destes homens, e seria bom que os fascistas se formassem nelas” (Zamboni, 1921). E repetiu seu juízo alguns meses depois no mesmo jornal referindo-se a “quatro grandes fascistas italianos não militantes e não membros: Vilfredo Pareto, Maffeo Pantaleoni, Umberto Ricci e Luigi Einaudi” (De Stefani, 1922). Ainda mais enfático foi Vincenzo Fani Ciotti, em um artigo publicado na revista Gerarchia de maio de 1923. Assinando sob seu pseudônimo – Volt – o articulista afirmou que “Vilfredo Pareto pode ser definido quase como o Karl Marx do fascismo” (Volt, 1923b: 974) e que “sua teoria confirmada pelos fatos e sua austera obra de estudioso consagrada no governo pátrio” por essa razão não seria um paradoxo dizer que no economista “também o fascismo encontrou seu profeta” (Volt, 1923b: 977).
O lugar de Pareto no panteão fascista pode ser aquilatado pelos artigos publicados nos jornais e revistas logo após sua morte, em 19 de agosto de 1923. Ao contrário do afirmado por Luchetti, a notícia do falecimento do economista repercutiu amplamente na imprensa fascista. Em Il Popolo d’Italia, o jornal fundado por Mussolini, apareceu uma discreta coluna não assinada na terceira página, na qual extratos do texto de Volt, inclusive aquele no qual Pareto era definido como “o Karl Marx do fascismo”, foram publicados sem citar o autor ou o artigo original (La Morte, 1923). Uma maior atenção foi dada em outros jornais. Na edição do dia 21 de agosto do Corriere Italiano, Nello Quilci publicou um artigo fortemente retórico, recordando o tempo no qual as ideias de Pareto inspiraram a “nova juventude estudiosa” que atacava os velhos grupos dirigentes, “aspirando assumir a sucessão, segundo a lei da circulação das aristocracias”, juventude essa que havia encontrado no economista “o Mestre mais digno da renovação ideológica e política dos últimos anos de paixão e de trabalho” (Quilici, 1923). No mesmo dia, Giovanni Preziosi publicou em Il Giornale d’Italia aquele artigo já citado, o qual concluía com a afirmação de que o “patriarca de Céligny” havia sido um mestre “para a geração que na Itália está agora à frente do Estado” (Preziosi, 1923). E no jornal L’Impero, dirigido pelos futuristas Mario Carli e Emilio Settimelli, destacava-se que Pareto havia dado “solícita, espontânea e fervorosa adesão ao governo fascista” (M., 1923).
A imprensa nacionalista também deu destaque à morte de Pareto e a sua obra. O jornal L’Idea Nazionale publicou dois artigos a respeito. O primeiro, anônimo, no dia 21 de agosto, afirmava que a morte de Pareto era “um luto grave para a Itália, para o governo nacional, para o fascismo” e destacou o fato dele ter saudado o movimento liderado por Mussolini desde seu início como “força antissocialista e, portanto, regeneradora do sentimento da Pátria e restauradora daquela verdade indestrutível que coloca a propriedade privada e a poupança na base da produção e da riqueza tanto dos indivíduos como das nações” (È Morto, 1923). O segundo, no dia seguinte, era de autoria do economista Luigi Amoroso (1923), e afirmava que o movimento fascista “teve nele um precursor”.
A vida e as ideias de Pareto também foram celebradas nas revistas fascistas. Na Gerarchia, coube a Alfredo De Stefani, agora todo-poderoso ministro das Finanças, ressaltar a influência de Pareto, ao lado de Maffeo Pantaleoni, na renovação do pensamento econômico italiano.27 De acordo com o articulista, a teoria paretiana da história era o aspecto de sua obra que teve maior ressonância e aquele no qual “foi precursor da dialética do fascismo” (De Stefani, 1923: 1188). A ideia de Pareto como um precursor foi, entretanto, contestada na revista Critica Fascista, na qual se insistia que o fascismo era movimento original, sem antecedentes notáveis. Na revista dirigida por Giuseppe Bottai, o economista era apresentado como “um cientista no significado mais rígido e próprio da palavra ciência” (Signoretti, 1923: 111). Embora não fosse um precursor, Pareto teria interpretado de modo correto as correntes políticas existentes, criticando a democracia, reivindicando “o uso da força como um máximo coeficiente na determinação dos eventos históricos” e antevendo as forças políticas que teriam condições de substituir as antigas classes dirigentes. O articulista comentava ainda o valor que os últimos artigos publicados por Pareto na revista Gerarchia, os quais “representam um testamento de sabedoria política para nossa ação futura. Remetendo-nos a seus ensinamentos poderemos evitar muitos erros” (Signoretti, 1923: 111).
O artigo de Critica Fascista é indicativo dos múltiplos usos que a obra de Pareto tinha para as diferentes correntes do fascismo. Sua publicação coincidiu com a escalada do confronto entre os intransigentes, chefiados pelo líder squadrista Roberto Farinacci, e os revisionistas, que tinham na revista de Bottai seu quartel. A menção aos artigos publicados em Gerarchia tinha o propósito de estabelecer um elo entre os alertas que o velho mestre havia registrado a respeito da duração da ditadura e a campanha de normalização do fascismo conduzida pelos revisionistas. Também a conclusão do artigo, reivindicando o estímulo que a obra de Pareto poderia representar no processo de criação da “aristocracia do pensamento da nova geração italiana” ecoava o programa dos revisionistas e sua ênfase na formação de uma nova elite intelectual fascista (Signoretti, 1923: 112).
A nota dissonante ficou a cargo de um artigo publicado no jornal Il Nuovo Paese, dirigido por Carlo Bazzi. Em nota assinada por G. Colamarino, acusava-se Pareto de não possuir uma “profunda cultura filosófica” e de manter-se no campo da sociologia e do positivismo. Por esse motivo, o economista teria sido incapaz de compreender a dimensão “espiritual e ideal” do fascismo, o qual era “um aberto desmentido ao pessimismo um tanto catastrófico manifestado nestes últimos anos pelo pensador de Céligny” (Colamarino, 1923). Com visível orientação neoidealista, o artigo de Colamarino revelava as múltiplas tendências intelectuais presentes no movimento fascista. Essa foi, entretanto, uma voz muito isolada naquele mês de agosto de 1923, predominando aqueles que consideravam Pareto um precursor do fascismo, um apoiador do novo governo e/ou uma fonte de inspiração para o movimento.
Com algumas poucas exceções, como Spirito e alguns neoidealistas antipositivistas, as ideias de Pareto foram consideradas pelos fascistas ora como uma análise correta da crise do parlamentarismo, ora como uma previsão de sua vitória, ora como uma explicação para o sucesso de Mussolini e seus companheiros (p. ex. os artigos de Stirari, 1925a, b). A comparação com Gaetano Mosca é a esse respeito reveladora. Este último não era menos conservador que Pareto, nem menos crítico ao regime parlamentar e à democracia. Pelo contrário, em sua juventude foi ainda mais antidemocrático e antissocialista do que Pareto (ver, p. ex. seu primeiro livro: Mosca, 1884). Mas a atitude crítica que assumiu perante o fascismo impediu que suas ideias fossem reivindicadas pelo movimento e tornaram sua vida acadêmica muito difícil, chegando a ser excluído da Facoltà di Scienze Politiche e impedido pelos fascistas de lecionar nela em 1924 (cf. D’Addio, 1993: 329). Se o fascismo pôde reivindicar as ideias do economista de Lausanne foi porque ele se comportou como um compagnon de route pelo menos desde agosto de 1922.
Considerações finais
A análise documental aqui exposta permitiu corrigir alguns erros factuais na literatura precedente, como por exemplo, a menção de Preziosi a um artigo, supostamente publicado em novembro 1932, que não existe nessa edição de La Vita Italiana; ou a referência por Susca a um complô golpista envolvendo d’Aosta em 1922, quando sua fonte faz referência a eventos de 1919; ou ainda a forte repercussão da morte de Pareto na imprensa fascista, ao contrário do afirmado por Barbieri. Onde este artigo se afasta mais das interpretações precedentes é na periodização do apoio de Pareto ao fascismo, que aqui se sustenta ter início antes da marcha sobre Roma, e não depois, como comumente afirmado; e na reavaliação da proposta de normalização e constitucionalização do fascismo, a qual, em vez de representar um afastamento, ou mesmo uma ruptura com o governo, encerra uma proposta de continuidade do fascismo sob bases mais estáveis e duradouras.28
Estas conclusões permitem pensar de modo mais nuançado a complexa relação existente entre o liberalismo, o conservadorismo e o fascismo italiano, um programa de pesquisa que está longe de ter se esgotado. A colaboração entre essas diferentes correntes político-intelectuais foi muito menos contingente, ocasional ou simplesmente oportunista do que muitas vezes se afirmou. O recente livro de Clara E. Mattei (2022) contribui de modo importante para a compreensão do forte nexo existente entre o pensamento econômico liberal e o fascismo, com um lugar de destaque para Pareto. Neste artigo a ênfase esteve nas ideias políticas do economista de Lausanne e, em particular, na sua crítica à democracia liberal e aos socialistas, as quais foram partilhadas pelo fascismo. Pareto não foi o único que, começando no campo do liberalismo, terminou por apoiar o fascismo, mas distinguiu-se de outros, como Benedetto Croce, ao justificar esse apoio não como uma contingência ou um mal menor, mas como a consequência imanente de sua ciência.29 Os fascistas pareceram compreender esse movimento e por esse motivo festejaram não apenas seu apoio, mas principalmente sua sociologia.
Referências
- Albanese, Giulia. (2006), La Marcia su Roma Roma, Laterza.
- Amoroso, Luigi. (1923), "L'Opera Politica di Vilfredo Pareto". L'Idea Nazionale, p. 3.
-
Amoroso, Luigi. (1935), Pareto, Vilfredo. Enciclopedia Italiana Disponível em: https://www.treccani.it/enciclopedia/vilfredo-pareto_ (Enciclopedia-Italiana)
» https://www.treccani.it/enciclopedia/vilfredo-pareto_ - Barbieri, Giovanni. (2003), Pareto e il Fascismo Milano, Franco Angeli.
- Baty-Delalande, Hélène. (2011), "L'espérance au Conditionnel des 'Compagnons de Route'" (1920-1939). Itinéraires, v. 4, n. 4, pp. 135-151.
- Bellamy, Richard. (1987), Modern Italian Social Theory: Ideology and Politics from Pareto to the Present. Stanford, Stanford University.
- Bellamy, Richard. (1992), Liberalism and Modern Society; an Historical Argument. Cambridge, Polity.
- Bianchi, Alvaro. (2024), "Fascismos: Ideologia e História". Novos Estudos CEBRAP, v. 43, n. 1, pp. 45-63.
- Bittermann, Henry J. (1936), "Pareto's Sociology". The Philosophical Review, v. 45, n. 3, pp. 303-313.
- Bobbio, Norberto. (1964), "Introduzione alla Sociologia di Pareto". Giornale degli Economisti e Annali di Economia, v. 23, n. 1/2, pp. 2-40.
- Bonetti, Paolo. (1994), Il Pensiero Politico di Pareto Roma, Laterza.
- Borkenau, Franz. (1936), Pareto. New York, J. Wiley & Sons inc.
- Bousquet, G. H. (1960), Pareto, 1848-1923: le Savant et l'Homme. Lausanne, Payot.
- Busino, Giovanni. (1967), "Introduction a une Histoire de la Sociologie de Pareto". Cahiers Vilfredo Pareto, v. 5, n. 12, pp. 3-170.
- Busino, Giovanni. (2003), "Autour de l'Édition des Œuvres de Pareto et sur ses interprétations". Revue Européenne des Sciences Sociales, v. 41, n. 125, pp. 55-75.
- Catlin, George E. G. (1936), "Review of The Mind and Society: Treatise on General Sociology; Some Relations Between Political and Economic Theory; An Introduction to Pareto and His Sociology". Political Science Quarterly, v. 51, n. 3, pp. 438-441.
- Caute, David. (1988), The Fellow Travellers: Intellectual Friends of Communism New Haven, Yale University Press.
- Cirillo, Renato. (1983), "Was Vilfredo Pareto Really a "Precursor" of Fascism?" The American Journal of Economics and Sociology, v. 42, n. 2, pp. 235-245.
- Colamarino, G. (1923), "Vilfredo Pareto è Morto". Il Nuovo Paese, p. 1, 21 ago.
- Corradini, Enrico (1923). "Il Fascismo e la Riforma Costituzionale". Gerarchia, v. II, n. 7, pp. 1064-1067.
- D'Addio, Mauro. (1993), "Gaetano Mosca e l'Istituzione della Facoltà Romana di Scienze Politiche". Il Politico, n. a., LVIII, n. 2, pp. 329-373.
- Davies, George R. (1935), "Pareto, The Darwin of Social Science". Social Science, v. 10, n. 2, pp. 117-122.
- De Felice, Renzo. (1965), Mussolini il Rivoluzionario. 1883-1920. Torino, Einaudi.
- De Felice, Renzo. (1966), Mussolini il Fascista, 1921-1925. Torino, Einaudi.
- De Stefani, Alberto. (1922), "Il Programma Finanziario del Partito Nazionale Fascista: Lettera Aperta al Senatore Luigi Einaudi". Il Popolo d'Italia, 14 gen., p. 1.
- De Stefani, Alberto. (1923), "Vilfredo Pareto". Gerarchia, v. II, n. 9, p. 1187-1189.
- "È Morto Vilfredo Pareto". (1923), l'Idea Nazionale, p. 3, 21 ago.
- Faris, Ellsworth. (1936), "An Estimate of Pareto". American Journal of Sociology, v. 41, n. 5, pp. 657-668.
- Femia, Joseph V. (2006), Pareto and Political Theory. London; New York, Routledge.
- Finer, S. E. (1968), "Pareto and Pluto-Democracy: The Retreat to Galapagos". The American Political Science Review, v. 62, n. 2, pp. 440-450.
- Fiorot, Dino. (1975), Politica e Scienza in Vilfredo Paereto Milano, Comunità.
- Fonzo, Erminio. (2017), Storia dell'Associazione Nazionalista Italiana (1910-1923). Napoli, Edizioni Scientifiche Italiane.
- Gentile, Emilio. (2001), Le Origini dell'Ideologia Fascista (1918-1925) Bologna, Il Mulino.
- Gentile, Emilio. (2022), Storia del Fascismo. Bari; Roma, Laterza.
- Giacalone-Monaco, Tommaso. (1959), "Pareto e la Bakounine". Giornale degli Economisti e Annali di Economia, v. 18, n. 3/4, pp. 191-220.
- Govi, Mario. (1922), "Il Riordinamento dello Stato e il Fascismo". Gerarchia, v. 1, n. 10, pp. 575-583, 25 out.
- Govi, Mario. (1923), "In Tema di Riforma dello Stato". Il Popolo d'Italia, p. 3, 24 jan.
- Homans, George C. (1936), "Review of The Mind and Society [Trattato di Sociologia generale, 1916]". Isis, v. 24, n. 2, pp. 456-467.
- "La Morte di Vilfredo Pareto". (1923), Il Popolo d'Italia, p. 3, 21 ago.
- Lopreato, Joseph; Ness, Robert C. (1966), "Vilfredo Pareto: Sociologist or Ideologist?". The Sociological Quarterly, v. 7, n. 1, pp. 21-38.
- Lopreato, Joseph. (1973), "Notes on the Work of Vilfredo Pareto". Social Science Quarterly, v. 54, n. 3, pp. 451-468.
- Luchetti, Marcello. (1972), "Pareto e il Fascismo Alla Lucce del Carteggio Editi". In: Pareto, Vilfredo. Lettere ad Arturo Linaker 1885-1923: a Cura di Marcello Luchetti. Roma, Edizioni di Storia e Letteratura, pp. 213-236.
- M., l. (1923), "Vilfredo Pareto è Morto". L'Impero, p. 4, 21 ago.
- Machiavelli, Niccolo. (1971), Tutte le Opere Firenze, Sansoni.
- Mattei, Clara E. (2022), The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism Chicago, University of Chicago Press.
- Mornati, Fiorenzo. (2018), Vilfredo Pareto: an Intellectual Biography. Volume I: From Science to Liberty (1848-1891). Basingstoke, Palgrave Macmillan.
- Mornati, Fiorenzo. (2020), Vilfredo Pareto: an Intellectual Biography. Volume III: From Liberty to Science (1898-1923). Basingstoke, Palgrave Macmillan.
- Mosca, Gaetano. (1884), Sulla Teorica dei Governi e Sul Governo Parlamentare. Palermo, Tipografia dello "Statuto".
- Mussolini, Benito. (1928), My Autobiography New York, Charles Scribner's Sons.
- Mussolini, Benito. (1951a), Opera Omnia (1 dicembre 1901 - 5 febbraio 1909): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. I.
- Mussolini, Benito. (1951b), Opera Omnia (25 maggio 1915 - 17 giugno 1917): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. VIII.
- Mussolini, Benito. (1953), Opera Omnia (13 novembre 1918 - 23 marzo 1919): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. XII.
- Mussolini, Benito. (1954a), Opera Omnia (14 settembre 1919 - 25 maggio 1920): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. XIV.
- Mussolini, Benito. (1954b), Opera Omnia (24 marzo 1919 - 13 settembre 1919): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. XIII.
- Mussolini, Benito. (1956a), Opera Omnia (14 gennaio 1922 - 30 ottobre 1922): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. XVIII.
- Mussolini, Benito. (1956b), Opera Omnia (31 ottobre 1922 - 22 agosto 1923): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. XIX.
- Mussolini, Benito. (1956c), Opera Omnia (23 agosto 1923 - 3 giugno 1924): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, 1956c. v. XX.
- Mussolini, Benito. (1956d), Opera Omnia (14 giugno 1924 - 4 novembre 1925): a Cura di Edoardo e Duilio Susmel. Firenze, La Fenice, v. XXI.
- Ory, Pascal; Sirinelli, Jean-François. (2004), Les Intellectuels en France Paris, Perrin.
- Panunzio, Sergio. (1923a), "Riforma Elettorale, Riforma Costituzionale". Il Popolo d'Italia, p. 1, 25 mar.
- Panunzio, Sergio. (1923b), Sulla "Riforma dello Stato". Il Popolo d'Italia, 18 fev.
- Pareto, Vilfredo. (1921), Trasformazione della Democrazia Milano, Studio editoriale "Corbaccio".
- Pareto, Vilfredo. (1923), Pochi Punti di un Futuro Ordinamento Costituzionale. La Vita Italiana, v. XII, n. CXXVIII-CXXIX, pp. 165-169.
- Pareto, Vilfredo. (1962), Lettere a Maffeo Pantaleoni, 1890-1923: a Cura di Gabriele di Rosa. Roma, Edizioni di Storia e Letteratura.
- Pareto, Vilfredo. (1972), Lettere ad Arturo Linaker 1885-1923: a Cura di Marcello Luchetti. Roma, Edizioni di Storia e Letteratura.
- Pareto, Vilfredo. (1974), Écrits politiques. Reazione, Libertà, Fascismo, 1896-1923: Textes Réunis avec une Introduction par Giovani Busino. Genève, Droz.
- Pareto, Vilfredo. (1975), Correspondance, 1890-1923: publiée par Giovanni Busino. Genève, Droz.
- Pareto, Vilfredo. (1980), Écrits Sociologiques Mineurs Genève, Droz.
- Pareto, Vilfredo. (1988), Trattato di Sociologia Generale: Edizione Critica a Cura di Giovanni Busino. Torino, Utet.
- Pareto, Vilfredo. (1964-2005), Œuvres Complètes; Publiées sous la Direction de Giovanni Busino. Genève, Droz, 32v.
- Preziosi, Giovanni. (1923), "Vilfredo Pareto". Il Giornale d'Italia, p. 1, 21 ago.
- Preziosi, Giovanni. (1933), "Il Peggior Sordo...". La Vita Italiana, v. XXI, n. CCXLVI, p. 357.
- Quilici, Nello. (1923), "Un Grande Scomparso: Vilfredo Pareto". Corriere Italiano, p. 3, 21 ago.
- Rizi, Fabio Fernando. (2003), Benedetto Croce and Italian Fascism. Toronto, University of Toronto.
- Sabbatucci, Giovanni. (2014), Partiti e Culture Politiche nell' Italia Unita Roma, Laterza.
-
Sarfatti, Margherita G. (1925), The Life of Benito Mussolini New York, Frederick A. Stokes. Disponível em: http://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.158095
» http://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.158095 - Scalfati, Stanislao G. (1932), Studi Paretiani Roma, Il Giornale Economico.
- Signoretti, Alfredo. (1923), "Vilfredo Pareto". Critica Fascista, v. I, n. 6, pp. 11-112, 1 set.
- Solmi, Arrigo. (1923), "Riforma costituzionale". Gerarchia, v. II, n. 8, pp. 1123-1133, ago.
- Spirito, Ugo. (1930), La Critica della Economia Liberale Milano, Fratelli Treves.
- Stirari, L. (1925a), "Il Fascismo Osservato Attraverso la Sociologia di Vilferdo Pareto". La Vita Italiana, v. XIII, n. CLI, pp. 9-14, jul.
- Stirari, L. (1925b), "Il Fascismo Osservato Attraverso la sociologia di Vilferdo Pareto". La Vita Italiana, v. XIII, n. CLV, pp. 310-320, nov.
- Susca, Emanuela. (2005), Vilfredo Pareto: Tra Scienza e Ideologia. Napoli, La Città del Sole.
- Susca, Emanuela. (2013), "Recidere il 'Nodo Gordiano': Ancora su Vilfredo Pareto e il Fascismo". Studi Urbinati, B-Scienze umane e sociali, v. 80, pp. 69-92.
- Trotsky, Leon. (1960), Literature and revolution Ann Arbor, University of Michigan Press.
- Volt, [Vincenzo Fani Ciotti]. (1923a), "La Riforma Costituzionale. Epistemarchia?" Il Popolo d'Italia, p. 1, 25 fev.
- Volt, [Vincenzo Fani Ciotti]. (1923b), "Uomini d'Italia: Vilfredo Pareto". Gerarchia, v. II, n. 5, pp. 974-977, maio.
- Zamboni, Mario. (1921), "L'Orientamento del Fascismo Secondo il Pensiero dell'on. Alberto De Stefani". Il Popolo d'Italia, p. 3, 21 set.
- Zanden, James W. Vander. (1960), "Pareto and Fascism Reconsidered". The American Journal of Economics and Sociology, v. 19, n. 4, pp. 399-411.
Notas
-
1
. Sobre a noção de compagnon de route (fellow travellers/companheiros de viagem) e a história destes personagens, ver Caute (1988) e Baty-Delalande (2011).
-
2
. A maior parte da pesquisa documental que permitiu a redação deste artigo foi realizada na British Library e na Cambridge University Library, onde foi possível acessar as obras completas de Vilfredo Pareto editadas por Giovanni Busino, parte considerável dos livros aqui citados e periódicos acadêmicos. Pesquisa adicional na Emeroteca Digitale da Biblioteca Nazionale Centrale di Roma e na Digiteca da Biblioteca di Storia Moderna e Contemporanea di Roma permitiu localizar os jornais e revistas fascistas mencionados principalmente na seção V.
-
3
. O affaire Dreyfus dividiu a opinião pública francesa. Começou em dezembro e 1884 quando o capitão Alfred Dreyfus foi condenado por alta-traição. A partir de 1886 surgiram evidências de que o juízo havia manipulado evidências para forjar uma falsa acusação carregada de antissemitismo. A historiografia costuma dar o caso por encerrado em 1906, quando o juízo foi cancelado e o capitão parcialmente reabilitado. A literatura sobre a questão é enorme. Aqui, apenas indica-se uma contribuição importante sobre o tema para uma história intelectual: Ory; Sirinelli (2004: chap. I).
-
4
. Na dedicatória de Il principe a Lorenzo de’Medici, Machiavelli afirmou que havia aprendido o “conhecimento das ações dos grandes homens (...) com uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua leitura das antigas” (Machiavelli, 1971 [1513]: 257)
-
5
. Ver a narração, pelo próprio Busino (2003), do prometeico trabalho editorial que resultou nos 31 volumes publicados pela editora Droz.
-
6
. A edição italiana do livro precede a publicada em inglês. Utiliza-se a última, entretanto, porque no primeiro volume desta edição Mornati acrescentou um capítulo introdutório, contendo um juízo sobre a relação entre Pareto e o fascismo, que não estava presente na edição italiana.
-
7
. A conclusão de Susca reproduz juízo expresso por Pareto em carta ao economista Lello Gangemi, ex-aluno de Pantaleoni: “A vitória do fascismo confirma esplendidamente as previsões de minha Sociologia e de muitos de meus artigos. Posso, portanto, alegrar-me, como homem e como cientista” (Pareto, 1975: 1114).
-
8
. O biennio rosso foi um período de intensa agitação sindical com greves e ocupações de fábricas e terras por trabalhadores da cidade e do campo, na esteira do final da Primeira Guerra Mundial.
-
9
. “Mas uma vez que minha intenção foi escrever coisa que seja útil, a quem a escutar, pareceu-me mais conveniente ir atrás da verdade efetiva da coisa do que da sua imaginação” (Machiavelli, 1971 [1513]: 280).
-
10
. Embora faça detalhada tipologia dos resíduos no Trattato, a definição destes é ambígua e fugidia. Pareto afirmou que nas teorias não lógico-experimentais seria possível encontrar duas partes: a primeira e mais importante “corresponde diretamente a ações não-lógicas e é expressão de certos sentimentos”; e a segunda remete à “manifestação do desejo de lógica do homem” (Pareto, 1988: § 798, p. 676). Mais adiante, deu o nome de resíduos a essa primeira parte e derivações à segunda (Pareto, 1988: § 868, p. 710). Em suma, para Pareto os “sentimentos ou instintos (...) correspondem aos resíduos”, mas os resíduos não se confundem com eles (Pareto, 1988: § 857, p. 714). Frequentemente os resíduos são definidos como os “sentimentos elementares” (Bobbio, 1964: 26), ou os “instintos que dão lugar a raciocínios não-lógicos” (Barbieri, 2003: 26).
-
11
. Juízo similar já havia sido emitido por Pareto em um artigo de 29 de fevereiro de 1920: “No presente, vemos a desagregação do Estado e o crescimento da anarquia” (Pareto, 1974 [1920]: 579).
-
12
. Líder da chamada Sinistra, Agostino Depretis foi chefe do Conselho de Ministros de março de 1876 a março de 1878. Giovanni Giolitti ocupou o mesmo posto múltiplas vezes: de maio 1892 a dezembro de 1893; de novembro de 1903 a março de 1905; de maio de 1906 a dezembro de 1909; de março de 1911 a março de 1914; e de junho de 1920 a julho de 1921.
-
13
. A referência era aos partidários da Associazione Nazionalista Italiana (ANI), fundada por Enrico Corradini, em 1910. Faziam parte da ANI importantes intelectuais como Alfredo Rocco, Luigi Federzoni e Gioacchino Volpe, que mais tarde ocuparam posições de destaque no governo fascista. Em março de 1923 a ANI se fundiu com o Partito Nazionale Fascista e deixou de existir. Sobre a história da ANI, ver Fonzo (2017).
-
14
. Sobre a ausência de uma ideologia ou uma doutrina do fascismo em seus primeiros anos de existência, ver Bianchi (2024).
-
15
. Até as vésperas da marcha sobre Roma, Pareto se referiu a Benito Mussolini em sua correspondência como “Mussolino”. Sobre isto a literatura avançou três hipóteses: a) trata-se simplesmente de um equívoco devido à pouca familiaridade com a política italiana cotidiana que Pareto, morando em Céligny, possuía; b) era uma referência irônica a Giuseppe Mussolino (1876-1956), bandoleiro e herói popular (cf. Barbieri, 2003: 91; Fiorot, 1975: 297); e c) foi um ato falho de teor psicanalítico (cf. Bousquet, 1960: 191).
-
16
. O sciopero legalitario foi a greve geral promovida pelos socialistas, entre 31 de julho e 7 de agosto de 1922, contra a violência fascista. As squadre fascistas resistiram firmemente, destruindo piquetes, atacando sindicalistas, mantendo os serviços públicos funcionando e evitando em muitos casos a interrupção da produção nas fábricas (sobre o sciopero legalitario e a vitória dos squadristi ver De Felice, 1966: cap. Terzo; Albanese, 2006: 43-58; Gentile, 2022: 209-214).
-
17
. No Trattato, Pareto apresentou a questão do seguinte modo: “onde a classe dominante não sabe, não quer, não pode usar a força para reprimir as transgressões às uniformidades na vida privada, a obra anarquista dos governados compensa. (...) Deve-se notar também que, onde a obra do poder público é fraca, pequenos Estados se estabelecem dentro do grande Estado, pequenas sociedades dentro de uma maior. Da mesma forma, onde o trabalho da justiça pública falha, é substituído pela justiça privada, sectária e vice-versa” (Pareto, 1988 [1923]: § 2180).
-
18
. Segundo contou Scalfati, Preziosi de fato conhecia a carta de Pareto a Pantaleoni. Scalfati também narrou que o fascista Dino Grandi se encontrou com Pareto em Genève, em outubro de 1922, e que o economista teria instado os fascistas a agirem (Scalfati, 1932: 124n).
-
19
. A confusão a respeito das fontes parece ter sido criada pelo próprio Preziosi, que em 1933 citou textualmente um artigo que teria sido publicado em La Vita Italiana em novembro de 1932. Mas nessa edição Pareto não é mencionado. Isso não impediu que Bousquet citasse o texto transcrito por Preziosi , mas sem atribuir-lhe a fonte, nem que Busino falasse do texto de 1932 sem dar a referência completa, ou mesmo que Barbieri insistisse no erro.
-
20
. A criação da Milizia foi decidida na reunião do Conselho dos Ministros de 28 de dezembro de 1922 e promulgada por decreto-lei em 14 de janeiro de 1923. Como destacou De Felice, por um lado, a criação da Milizia legalizava um exército particular do fascismo, enquanto, por outro, subordinava o squadrismo à disciplina estatal (De Felice, 1966: 432).
-
21
. Esta passagem reaparecerá ipsis litteris em uma entrevista que Pareto concedeu a Amadeo Ponzone, publicada em La Tribuna em 24 de abril de 1923.
-
22
. Ver, por exemplo, o discurso de 16 de novembro de 1922 na Câmara dos Deputados: “O Estado é forte e demonstrará sua força contra todos, mesmo contra eventual ilegalismo fascista, pois seria um ilegalismo impuro, sem nenhuma justificativa” (Mussolini, 1956b [1922]: 22). A própria criação da Milizia teria, segundo Mussolini, o propósito de “assegurar a normalidade constante na vida produtiva e social da nação”, como afirmou na reunião do Grande Conselho do Fascismo de 25 de julho de 1923 (Mussolini, 1956b [1923]: 334).
-
23
. Aprovada no Parlamento em 18 de novembro de 1923 com o apoio dos liberais a nova lei eleitoral, conhecida como Legge Acerbo, atribuiu um “prêmio de maioria” ao partido que elegesse o maior número dos deputados, garantindo a maioria absoluta ao PNF. Sobre a Legge Acerbo e o “suicídio da classe dirigente liberal” italiana, ver Sabbatucci (2014: 241-274).
-
24
. Gentile (2001: 141ss) considera que as “ideologias da crise” são um mito do pós-guerra. Trata-se de uma literatura fortemente antidemocrática e de cunho conservador que destacava a falência das instituições democráticas parlamentares e a incapacidade de estas expressarem os interesses verdadeiros da Nação. Destacavam-se nessa literatura, ao lado de Vilfredo Pareto, autores como Gaetano Mosca, Robert Michels e Benedetto Croce.
-
25
. Ver a carta de Pareto a Mussolini, datada de 28 de dezembro de 1922 (Pareto, 1975 [1922]: 1123).
-
26
. Sobre o processo de divórcio e os conflitos de Pareto com a justiça italiana, ver o artigo de Giacalone Monaco (1959).
-
27
. A influência das ideias de Pantaleoni e Pareto na formulação da política econômica austera e privatizante do fascismo durante a gestão De Stefani (1922-1925) foi destacada recentemente por Clara E. Mattei (2022).
-
28
. Em relação à normalização e continuidade do fascismo, a interpretação deste artigo se aproxima daquela de Susca (2005, 2013).
-
29
. Sobre a relação entre Benedetto Croce e o fascismo, ver a pesquisa bem documentada de Rizi (2003).
-
*
A pesquisa teve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), 2020/07210-4.
