Resumo
O artigo problematiza a existência de clivagens políticas no Brasil, quais os seus tipos e se elas conectam eleitores e partidos. Inicia-se com o debate teórico sobre os problemas da abordagem sobre clivagens de Lipset e Rokkan (1967) e as atualizações teóricas do campo. Para os testes empíricos, são utilizados dados de pesquisas de opinião com eleitores e com deputados, entre 1997 e 2023. Os resultados apontam para a existência de divisões estáveis no eleitorado, especialmente em torno da dimensão liberal-fundamentalista, que estão associadas tanto às características demográficas dos eleitores, quanto às suas preferências partidárias. Tais divisões, porém, conectam fracamente eleitores e partidos em termos de congruência política.
clivagens políticas; congruência política; atitudes políticas; Brasil
Abstract
The article examines the existence of political cleavages in Brazil, what types they are and whether they connect voters and parties. It begins with a theoretical debate on the limitations of Lipset and Rokkan’s (1967) approach to cleavages and theoretical updates in the field. Empirical tests took place using data from opinion polls with voters and legislators between 1997 and 2023. The results indicate the existence of stable divisions in the electorate, especially around the liberal-fundamentalist dimension, which are associated with both the demographic characteristics of voters and their party preferences. However, these divisions weakly connect voters and parties in terms of political congruence.
political cleavages; political congruence; political attitudes; Brazil
Résumé
L’article pose la question de l’existence des clivages politiques au Brésil, de leurs types et de leur lien entre les électeurs et les partis. Il commence par le débat théorique sur les problèmes de l’approche des clivages de Lipset et Rokkan (1967) et les mises à jour théoriques dans ce domaine. Pour les tests empiriques, on utilise des données de sondages d’opinion auprès des électeurs et des députés entre 1997 et 2023. Les résultats indiquent l’existence de divisions stables dans l’électorat, en particulier autour de la dimension libérale-fondamentaliste, qui sont associées aux caractéristiques démographiques des électeurs et à leurs préférences partisanes. Ces divisions, cependant, relient faiblement les électeurs et les partis en termes de congruence politique.
clivages politiques; congruence politique; attitudes politiques; Brésil
Resumen
El artículo problematiza la existencia de clivajes políticos en Brasil, de qué tipo son y si conectan a votantes y partidos. Comienza con un debate teórico sobre los problemas del enfoque de Lipset y Rokkan (1967) sobre los clivajes y las actualizaciones teóricas en este campo. Las pruebas empíricas utilizan datos de encuestas de opinión con votantes y diputados entre 1997 y 2023. Los resultados apuntan a la existencia de divisiones estables en el electorado, especialmente en torno a la dimensión liberal-fundamentalista, que están asociadas tanto a las características demográficas de los votantes como a sus preferencias partidistas. Estas divisiones, sin embargo, conectan débilmente a votantes y partidos en términos de congruencia política.
divisiones políticas; congruencia política; actitudes políticas; Brasil
Introdução
É possível falar de clivagens em um país cujo sistema eleitoral permite a existência de trinta partidos políticos, com longo histórico de regimes não democráticos (República Velha, Era Vargas e Ditadura Militar) e com baixa identificação partidária na opinião pública? Dado que as teorias clássicas sobre clivagens foram elaboradas para o contexto europeu, investigar o caso brasileiro nos leva ao diálogo com as atualizações teóricas do campo e exige uma análise de dados temporais que ainda não foi realizada. Portanto, este artigo questiona se existem clivagens no Brasil, quais os seus tipos e se elas conectam eleitores e partidos.
Argumentamos que existem divisões estáveis no eleitorado, especialmente em torno da dimensão liberal-fundamentalista, que estão associadas tanto às características demográficas dos eleitores, quanto às suas preferências partidárias. Tais divisões, porém, conectam fracamente eleitores e partidos em termos de congruência política. Tais hipóteses estão teoricamente fundamentadas em Deegan-Krause (2007; 2013), uma abordagem mais parcimoniosa do que as de Lipset e Rokkan (1967) e Bartolini e Mair (1990), a qual ficou denominada como “clivagens parciais”.
Desde 2018, com a ascensão de Bolsonaro (um líder de extrema direita), o contexto político brasileiro vem sofrendo importantes transformações que despertaram o debate sobre clivagens no eleitorado. Isso porque tal candidato se tornou a segunda maior força política do país (atrás de Lula e do Partido dos Trabalhadores (PT)), superando o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) – rival de mais de duas décadas do PT – mesmo não possuindo os recursos que a literatura julga necessários para tal sucesso: dinheiro de campanha, partido estruturado no eleitorado e tempo de exposição na mídia.
Bolsonaro foi o primeiro candidato competitivo que sustentou uma agenda ultraconservadora nos costumes, dando centralidade para essa questão nos debates, dimensão que vem reconfigurando a direita brasileira (Borges, Vidigal, 2023; Fuks, Marques, 2020; Bello, 2023; Tanscheit, Zanotti, 2023). Sua vitória levou pesquisadores a pensarem que tal conservadorismo sempre dividiu o eleitorado (Rennó, 2020; 2022; Burity, 2021; Lacerda, 2019; Solano, 2018), mas não havia oferta eleitoral congruente, até então.
Para responder nossas questões, o artigo apresenta primeiro um debate teórico sobre os problemas da abordagem sobre clivagens de Lipset e Rokkan (1967) e as atualizações teóricas do campo, fundamentando as hipóteses. Feito isso, descreveremos os dados e a metodologia que serão utilizadas para os testes empíricos. Por fim, discutiremos com a literatura e faremos apontamentos para uma nova agenda de estudo.
Teoria e hipóteses
O termo clivagens teve origem no estudo seminal de Lipset e Rokkan (1967) sobre a formação de sistemas partidários na Europa Ocidental. O diagnóstico gerado a partir dessa pesquisa indicou que os partidos políticos se mantiveram “congelados” em suas representações, resistindo às mudanças sociais e econômicas ao longo do tempo. Essa investigação singular e sua conclusão foram encapsuladas na frase “os sistemas partidários da década de 1960 refletem, com poucas, mas significativas exceções, a estrutura de clivagem da década de 1920” (Lipset, Rokkan, 1967:50).
Apesar de Lipset e Rokkan (1967) terem sido os precursores desse conceito, foi Bartolini e Mair (1990) quem o sistematizou. Para esses autores, as clivagens são compostas por três elementos. O primeiro é o empírico, definido em termos socio estruturais (características sociológicas dos indivíduos). O segundo é o normativo, representando um conjunto de valores e crenças que proporcionam um senso de identidade associado ao primeiro elemento. Por fim, o último elemento é o institucional (ou organizacional), que se refere ao vínculo com alguma organização política (notadamente um partido político) que represente o primeiro e o segundo. Essa definição ficou conhecida como a “nova ortodoxia” (Deegan-Krause, 2013).
Com o objetivo de flexibilizar esse conceito, Deegan-Krause (2013) propôs a definição “clivagens parciais” – quando ao menos dois desses elementos se fazem presentes. A clivagem completa exigiria a presença dos três elementos, enquanto a presença de apenas um deles seria denominada de “difference”. Haveria clivagens parciais, por exemplo, quando as issue positions dos eleitores estivessem alinhadas com suas preferências partidárias (issue divide) ou quando as características sociodemográficas desses eleitores estivessem alinhadas com suas posições políticas (census divide).
Essa proposição de Deegan-Krause (2013) encontra respaldo em alguns outros trabalhos (Kitschelt, 1994; Torcal, Mainwaring, 2003; Deegan-Krause, 2007; Kriesi, 2010; Bonilla et al., 2011; Von Schoultz, 2016; Bornschier, 2018; Marks et al., 2021), os quais argumentam que a ligação entre divisões sociais e partidos políticos não é tão rígida como se acreditava anteriormente, abrindo espaço para a flexibilização do conceito.
Apesar dessa flexibilização, para confirmar a existência de clivagens, é necessário que haja um nexo entre eleitores e partidos (Von Schoultz, 2016; Bornschier, 2018; Dalton, 2018), que deve acontecer tanto pelo lado da demanda, mensurada pela preferência partidária ou escolha eleitoral, quanto pela oferta partidária, cujas estratégias de mensuração mais utilizadas têm sido por meio dos conceitos de responsividade (Bornschier, 2013, 2018, 2020; Bornschier et al., 2021) e congruência (Dalton, 2018).
Críticos ao modelo clássico, Mainwaring e Torcal (2005: 261-262) apontam que tal perspectiva assume que os eleitores identificam seus interesses com base em suas posições estruturais na sociedade – classe, religião, etnia ou nacionalidade e residência urbana/rural – e que partidos defendem programática ou ideologicamente os interesses de diferentes setores da sociedade. Em consequência, clivagens seriam produtoras de congruência política entre elites políticas e os cidadãos.
Ao inserirem o componente de congruência política, o foco do debate sobre clivagens recai sobre a relação entre issue positions dos cidadãos (eleitores) e das elites partidárias.2 Para esse tipo de análise, verifica-se se as atitudes políticas dos cidadãos se aproximam daquelas dos representantes dos partidos políticos de preferência dos referidos cidadãos (Deegan-Krause, 2013; Dalton 2018). Tal medida é comumente utilizada como um indicador do grau de qualidade representativa de regimes democráticos (Dahl, 1971; Pitkin, 1967; Carreirão, 2019).
Desde a década de 1980, estudos que analisaram a congruência entre eleitores e partidos constataram que, em boa parte das democracias, estava ocorrendo um processo de baixa identificação partidária e desalinhamento nas preferências (Manin, 1997; Dalton, McAllister, Wattenberg, 2000; Webb, Farrell, Holliday, 2002; Dalton, Flanagan, Beck, 1984; Dalton, 2018). Tal diagnóstico veio acompanhado do enfraquecimento do poder explicativo das clivagens políticas. Os eleitores não estariam fazendo escolhas eleitorais alinhadas ideologicamente com os partidos, além das características estruturais perderem o poder preditivo do voto. Uma explicação para esse fenômeno pode ser encontrada na teoria da modernização (Inglehart, 1997; Inglehart, Welzel, 2009; Norris, Inglehart, 2019; Dalton, 2018).
Tal teoria, originalmente desenvolvida por Lipset (1949) e que foi revisitada por Inglehart (1997), adquirindo contornos culturalistas, sustenta que em sociedades mais desenvolvidas e ricas, as preocupações relacionadas à qualidade de vida, direitos civis, meio ambiente e outros temas se tornam mais importantes do que as questões econômicas, as quais perpassam as clivagens do modelo de Lipset e Rokkan.
Por outro lado, essa mudança estimulou o surgimento de novos partidos que absorveram tais demandas, como os partidos verdes. Essa migração eleitoral para partidos novos ficou conhecida como volatilidade extrassistema (Guarnieri, 2019). Concomitantemente, houve uma reação materialista por parte dos eleitores. Essa perspectiva aponta que, após o período de desalinhamento, ocorreu um realinhamento em torno de uma divisão transitória, caracterizada pelo embate entre valores materialistas e pós-materialistas. Nesse sentido, a expansão eleitoral da extrema direita na Europa e o fenômeno Trump nos EUA seriam indicadores de um novo realinhamento entre partidos e eleitores que teria iniciado à esquerda, com os Verdes (Dalton, 2018; Norris, Inglehart, 2019).
Uma das abordagens congruentes com a tese do realinhamento é a das “Novas clivagens” (neo-cleavage) ou “GAL/TAN”, introduzida por Hooghe, Marks e Wilson (2002) e exemplificada no trabalho de Marks et. al. (2021). A contribuição dessa abordagem foi apontar que as identidades sociais e as divisões públicas podem mudar ao longo do tempo, contrariando a tese do congelamento (Lipset, Rokkan, 1967). Nessa perspectiva, há uma maior fluidez do que nas perspectivas anteriores, tornando possíveis novas clivagens ou novas identidades em clivagens antigas.
Apesar desses avanços, tais inovações teóricas propostas após a obra de Lipset e Rokkan (1967) ainda estão, em sua maioria, limitadas à compreensão do fenômeno Europeu e norte-americano. Em países latino-americanos, onde o processo de modernização é bem diferente, também houve tentativas de analisar clivagens políticas.
Neste contexto, o desafio é ainda maior, dado que a identidade partidária não é difundida no eleitorado (Carreras, Morgentern, Su, 2015; Lupu, 2015; Gimenes et al., 2016; Bornschier, 2013; 2020; 2023; Samuels, Zucco, 2018). Apesar disso, Samuels e Zucco (2018) apontam que no Brasil há duas identidades partidárias consolidadas no eleitorado: o petismo e o antipetismo. Ao tratar a identidade partidária negativa como uma identidade política, os autores contribuem para o debate sobre clivagens, possibilitando pensar que esse antipartidarismo também se estrutura em torno de características ideológicas e sociodemográficas.
A literatura sobre a região apontou que a ausência de clivagens estaria associada, entre outros fatores (personalismo eleitoral e preferências por políticas públicas balanceadas), ao fraco enraizamento social dos partidos políticos (Ames, Baker, Rennó, 2009) e à ausência de partidos programáticos – o que impediria os eleitores de distinguirem ideologicamente os partidos. Como consequência, o padrão eleitoral seria o fenômeno do ticket splitting, em que eleitores escolhem partidos de diferentes ideologias em eleições presidenciais e legislativas, o que acarretaria barreiras para a governabilidade (Lucas, Samuels, 2010). Da mesma forma, ao votar em partidos ideologicamente distintos, desencadearia o fenômeno da incongruência ideológica.
Contrariando essas expectativas teóricas, pesquisas recentes encontraram evidências de clivagens na América Latina (Moreno, 1999; Boas, Smith, 2015; Mainwaring, Torcal, Somma, 2015; Bonilla et al., 2011; Torcal, Mainwaring, 2003) e, para o caso brasileiro, do congelamento do sistema partidário (Guarnieri, 2019).
O estudo seminal de Moreno (1999) identificou três issue positions distintas para os países da América Latina, em especial para o Brasil: “Materialismo Esquerda-Direita”, “Democrático-Autoritário” e “Liberal-Fundamentalista”. A primeira se refere à divisão econômica tradicional baseada na orientação dos respondentes em questões econômicas, como redistribuição de riqueza e propriedade pública ou privada dos meios de produção, em vez da classe social. A segunda se concentra na reforma do poder para torná-lo mais democrático, avaliando a confiança nas instituições e lidando com questões de ordem pública. A última engloba principalmente aspectos relacionados ao papel da religião e ao posicionamento em torno de temas morais como aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. Em suma, as críticas supracitadas mostram que a teoria de Lipset e Rokkan têm limitações em sua aplicabilidade a contextos fora do europeu, evidenciando a necessidade de análises mais contextualizadas.
No seu trabalho, Moreno (1999) propõe a ideia de que a divisão democrática-autoritária, que foi fundamental durante a era pós-redemocratização, perderia relevância com a consolidação democrática na América Latina, sendo substituída por divisões centradas em questões culturais, especialmente a liberal-fundamentalista. Apesar disso, Bonilla et al. (2011) e Torcal e Mainwaring (2003) apontam para a presença de uma clivagem democrática-autoritária no contexto chileno, que divide defensores e opositores do antigo regime militar e persiste no tempo, questionando a validade da tese do congelamento.
Mainwaring, Torcal e Somma (2015) notaram que a classe social tem se mostrado evidente, sendo observado o voto majoritário dos estratos mais pobres em partidos de orientação esquerdista (ou de centro-esquerda). Tal tendência é particularmente pronunciada durante os anos 2000 em países como Brasil, Argentina, Bolívia, Guatemala, Peru e Venezuela, enquanto é menos proeminente no Chile, República Dominicana, Equador, Honduras, Panamá e Uruguai.
Boas e Smith (2015) identificam clivagens que se baseiam em divisões entre grupos seculares e religiosos em alguns países latino-americanos, nos quais o primeiro grupo demonstra maior propensão a votar em partidos de orientação ideológica de esquerda, enquanto o segundo tende a preferir partidos de direita.
Evidências para o caso brasileiro confirmaram a persistência da divisão liberal-fundamentalista durante as primeiras décadas do século XXI, conforme estudo de Borba, Silva e Amorim (2024) ao replicar os testes de Moreno (1999) até 2018. Contudo, a continuidade da divisão democrática-autoritária ainda é incerta. Além disso, estudos recentes identificaram que essa dimensão tem ganhado cada vez mais relevância na disputa político-partidária e na divisão do eleitorado brasileiro (Borba et al, 2024; Borges, Vidigal, 2023; Fuks, Marques, 2020; Bello, 2023; Tanscheit, Zanotti, 2023).
Tendo em vista esses trabalhos, apresentamos nossa primeira hipótese:
H1: Existem divisões estáveis no eleitorado brasileiro, especialmente em torno da dimensão liberal-fundamentalista, (h1.1) que estão associadas às suas características demográficas (position divide) e (h1.2) às identidades partidárias (issue divide).
Conforme já argumentamos, parte importante da literatura recente sobre clivagens considera insuficiente apontar a relação entre estrutura social, valores políticos e preferência partidária como evidência de institucionalização da clivagem (Bornschier, 2018; Dalton, 2018; Schoultz, 2017). Isso ocorre porque analisar apenas o lado da demanda resulta em uma simplificação da institucionalização dessas clivagens no âmbito do sistema partidário, mesmo em definições mais razoáveis como nos termos de Deegan-Krause (2013).
Mainwaring, Bizarro e Petrova (2018), ao proporem sua nova definição de sistema partidário institucionalizado, apresentam três características: estabilidade dos principais partidos, estabilidade de votos dos principais partidos e estabilidade das ligações partidárias com os eleitores. No debate sobre clivagens, a característica mais importante para a institucionalização de uma clivagem é principalmente a última, estabilidade das ligações partidárias com os eleitores, pois isso não só indica uma estabilidade histórica, mas também serve como um indicador razoável para as expectativas futuras dos atores envolvidos (Tóka, 1997; Bartels, 2000; Green, Palmquist, Schickler, 2002).
Ou seja, para se falar em clivagens, é necessário analisar as relações entre a demanda (eleitorado) e a oferta partidária, o que pode ser verificado por meio dos estudos de responsividade ou congruência entre elites e eleitores (Dalton, 2018). Dessa forma, entendendo que divisões estáveis estejam presentes no eleitorado brasileiro, cabe testar se elas encontram correspondência no âmbito do sistema de partidos. Apesar de ser uma temática bastante consolidada na literatura internacional (Carreirão, 2015) são poucos os estudos sobre o tema para os países da América Latina (Pederiva, Rennó, 2015; Lupu, Warner, 2017; Bornschier, 2013; 2019; 2020; Otero, Rodriguez-Zepeda, 2010). Tais trabalhos indicam para níveis distintos de responsividade-congruência na região. Bornschier (2013) classifica Chile e Uruguai como responsivos, Argentina aparece em uma situação intermediária, e os demais países como não responsivos. Em outro estudo (que incluiu o Brasil), o mesmo autor (2020) encontrou uma baixa congruência entre a elite política e os eleitores.
Aprofundando o caso brasileiro, Otero e Rodriguez-Zepeda (2010) encontram baixos indicadores de congruência, corroborando estudos mais abrangentes. Porém, Maciel (2018) identificou que existe congruência política quando se analisa a maioria dos temas identificados na dimensão liberal-fundamentalista, enquanto Moreira (2019) identificou que a congruência tende a ser maior para temas como políticas sociais. Por outro lado, quando analisadas as diferenças entre eleitores e elites, os resultados indicam que os primeiros tendem a apresentarem posicionamentos mais de centro em relação a essas questões políticas, nas elites há uma maior dispersão (Maciel, 2023).
O diagnóstico de baixa congruência é explicado, para o caso brasileiro, pela trajetória histórica errática do sistema partidário do país, especialmente em função das reestruturações acontecidas nos períodos autoritários (Bornscheir, 2019), e pela própria morfologia institucional do país (Ames, Baker, Rennó, 2010), que produz uma hiper fragmentação partidária e partidos pouco programáticos. Tendo em vista esses estudos, apresentamos nossa segunda hipótese:
H2: Ainda que existam divisões latentes e estáveis no eleitorado, elas estão fracamente conectadas com as posições das elites partidárias, resultando em baixos níveis de congruência política.
Dados
Para testar a hipótese de que existem divisões estáveis no Brasil, que estão associadas às características demográficas do eleitorado e às preferências partidárias (H1), será preciso dados sobre a posição dos eleitores em relação a um conjunto de questões políticas, como “aborto”, “casamento entre pessoas do mesmo sexo”, “autoritarismo”, “papel do Estado na economia”, entre outras. Da mesma forma, é preciso que as bases de dados contenham informações sobre características sociodemográficas e preferências partidárias dos eleitores, para que se possa testar a associação entre posições políticas e características sociodemográficas por um lado e posições políticas e preferências partidárias por outro. Por fim, para testar a hipótese de congruência (H2), as bases de dados do nível da opinião pública precisam estar pareadas com dados de sondagens realizados com elites políticas. Isso significa que, a título de exemplo, para uma base de dados de eleitores coletada em 2019, será preciso uma base de dados sobre elites políticas coletada entre representantes eleitos para o mandato 2018-2022.
Dado que bases de dados nem sempre são construídas com a mesma estrutura e pelos mesmos grupos de pesquisa ao longo dos anos, há o desafio de selecionar perguntas que possam ser minimamente comparáveis. Esse é outro critério que utilizamos para selecionar as pesquisas que serão utilizadas nas análises. Diante desses critérios, foram selecionadas 10 bases, como pode ser observado na Tabela 1. As questões selecionadas de cada uma delas estão no Anexo A, onde apresentamos as questões utilizadas.
Metodologia
Para classificar os eleitores como liberal ou fundamentalista é preciso analisar um conjunto de variáveis, dada a multidimensionalidade do fenômeno (Ellis, Stimson, 2012). Ao mesmo tempo, há quem se posicione contrário ao aborto e favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. Atitudes e valores, desde a pesquisa de Converse (1964) nem sempre se apresentam de forma estruturada e coerente, o que torna a tarefa de localizar os cidadãos em uma escala ideológica complexa.
Para enfrentar esse desafio, utilizamos uma técnica de redução de dimensionalidade amplamente reconhecida pela literatura: a Análise Fatorial (AF, Brown, 2006). Tal técnica permite extrair um (ou mais) componente ideológico latente (fatores) a partir do posicionamento dos cidadãos em várias questões morais e políticas. Tal técnica é adotada por grande parte dos estudos que discutem as questões apresentadas neste trabalho (Moreno, 1999; Kriesi et al., 2008; Häusermann, Kriesi, 2015; Beramendi et al., 2015; Bornschier, 2010; Dalton, 2018)8.
Inicialmente, com os dados de opinião pública, fizemos uso da Análise Fatorial Exploratória. Para a escolha do número de fatores mantidos em cada caso, empregamos três critérios principais. O primeiro é o critério padrão de Kaiser, que sugere reter fatores com autovalores (eigenvalues) maiores ou iguais a 1 (Kaiser, 1958; Fleck, Bourdel, 1998). O segundo critério é que esse fator deve apresentar pelo menos duas variáveis com carga fatorial maior ou igual a 0,4. O terceiro é a avaliação da proporção de variação explicativa para decidir se a inclusão ou exclusão de uma determinada dimensão seria justificável. Isso se torna relevante, pois algumas clivagens vinculam questões com temas diferentes, como crenças religiosas e valores morais. Em uma análise fatorial irrestrita, essas clivagens podem expressar dois fatores separados, mas com uma diferença não substancial na proporção de variação explicativa ao ponto de justificar sua separação. Nesse sentido, ao realizar essas ponderações consideramos também a ancoragem teórica das dimensões expressas nesse processo de análise.
Quanto à rotação da AF, optamos pelo uso da rotação varimax, uma escolha também adotada, por exemplo, por Dalton (2018). Para o estudo de clivagens, a rotação ortogonal é considerada a mais adequada, uma vez que preconizamos a independência entre as dimensões. Autores também têm destacado que a rotação ortogonal facilita a interpretação dos dados nas ciências sociais (Brown, 2006).
Outra vantagem em utilizar técnicas de redução de dimensão é que ela ajuda a lidar com o problema da diferença de perguntas entre os anos. Em vez de um conjunto estático de questões temáticas, os itens em cada ponto temporal são examinados em um modelo dimensional para identificar as clivagens representadas por essas questões. Mesmo sendo diferentes, essas clivagens refletem a mesma divisão teórica associada (Dalton, 2018). Esse mesmo processo será realizado para variáveis associadas a outras dimensões de clivagens já exploradas pela literatura, como a democrática-autoritária e a econômica. Com isso será possível saber se outras clivagens além da liberal-fundamentalista também se estruturaram no eleitorado brasileiro ao longo dos anos.
Os resultados das Análises Fatoriais serão transformados em factor scores9 e utilizados como variável dependente em modelos de regressão linear, elaborados para testar se as dimensões apresentadas acima estão associadas às características sociodemográficas e as preferências partidárias do eleitorado. Para esses testes, serão utilizadas variáveis como renda, idade, população, religião, religiosidade, sexo, cor/raça, escolaridade, identidade partidária, autoposicionamento ideológico e antipartidarismo (sobre a operacionalização das variáveis, ver Quadro 5, Anexo A).
Para atender os pressupostos de um modelo de regressão linear (Wooldridge, 2006) (assumptions, Anexo C), adotamos a técnica de winsorização (winsorizing), uma vez que foram produzidos valores extremos (outliers) em nossa dependente. Por meio da Análise Fatorial encontramos valores extremos na faixa negativa da escala, o que significa que há casos em que eleitores são extremamente liberais, se diferenciando bastante do primeiro quartil.
Winsorizar um vetor implica substituir uma quantidade pré-definida dos valores extremos por valores dentro do menor ou maior quantil (Signorell et al., 2023). No nosso caso, realizamos a winsorização apenas nos valores do extremo inferior, correspondentes aos quantis que representam os 5% dos indivíduos com os scores mais baixos. Adicionalmente, foram adotados erros padrão robustos no modelo para lidar com problemas de heteroscedasticidade (dados e modelos sem winsorização e sem erro padrão robusto podem ser encontrados no Anexo B).
Com esse segundo conjunto de análises, buscamos identificar o segundo nível do conceito de clivagens, conforme conceituado por Deegan-Krause (2013), em especial o da estrutura. Uma análise mais abrangente, como já mencionado, envolve também a análise da congruência entre público e elite política. Essa dimensão envolve uma análise mais adequada à exigência de Bartolini e Mair (1990).
Para testar a hipótese da congruência, adaptamos a medida proposta por Moreno (1999), utilizando algumas questões valorativas presentes nas bases de dados amostrais da população e da elite política (deputados) do Brasil. Tais escolhas se justificam devido às dificuldades encontradas durante o processo de seleção das variáveis apropriadas para o estudo de congruência. Nos deparamos com uma significativa discrepância nos enunciados das questões entre as bases de dados, algo que não ocorre em trabalhos semelhantes em outros contextos, como o estudo de Dalton (2018), aplicados a países da União Europeia, tanto à elite quanto ao público.
Além disso, há o fenômeno da migração partidária. Representantes podem ter sido eleitos por um partido e, no momento da aplicação do questionário, estarem vinculados a outro partido. Nem todos os questionários perguntam se o deputado pertencia a outro partido em uma mesma legislatura. As bases de dados do BLS possuem essa pergunta, onde foram identificados apenas 2 casos de migração partidária em 2021 e 3 em 2017. Apesar disso, não consideramos a migração partidária um desafio analítico para o teste de congruência, pois apenas uma minoria (5,2%) “cruza de um extremo a outro o espectro político” (Melo, 2000).
Dada a limitação dos dados, devido à baixa quantidade de questões idênticas (ou semelhantes), optamos por realizar uma análise de congruência com uma variável econômica (papel do Estado na economia) e outra que explora a dimensão liberal/fundamentalista (religiosidade, casamento gay e aborto). Para esta última, conduzimos uma Análise Fatorial Confirmatória, tendo em vista a necessidade de confirmar as expectativas levantadas no âmbito do eleitorado, com o objetivo de gerar escores de fatores individuais para ambos os níveis (elite e público).
Posteriormente, foi realizada uma recodificação das duas dimensões (da variável econômica e dos escores), padronizando os valores entre 0 e 1. Isso posicionou as visões pró-mercado e de fundamentalismo mais próximas de 1 (consequentemente, as visões pró-estado e mais liberais, mais próximas de 0).
A medida de congruência testada para avaliar a representação é o centrismo (Dalton, 2018), que corresponde à diferença absoluta entre a média das posições dos apoiadores do partido e a média das posições das elites partidários em cada dimensão (liberal-fundamentalismo e papel do estado). O centrismo pode ser descrito como indicativo de que as elites do partido se encontram em proximidade com as posições médias das posições de seus apoiadores. Pode ser abordado de duas maneiras: como uma medida agregada e como uma medida individual. Em nossa análise, optamos por trabalhar com as duas: o macro gap e o micro gap.
Nossa estratégia se assemelha a de Dalton (2018), que comparou a visão de candidatos e eleitores de partidos com pelo menos 20 apoiadores e 3 representantes. Nossas bases são de deputados eleitos e não candidatos. Mas o critério de 20 e 3 foi adotado.
O macro gap resulta de uma simples operação que visa mensurar a distância entre os posicionamentos da elite política e do eleitorado de forma agregada. Essa medida consiste na diferença absoluta entre a média das posições dos apoiadores do partido em uma dimensão específica (economia ou em liberal/fundamentalismo) e a média das posições dos deputados do mesmo partido em cada dimensão. Como utilizamos a diferença absoluta, essa medida nunca é negativa e, quanto maior o valor, maior a discrepância. Isso permite a comparação dos macros gaps entre diferentes períodos ou entre partidos dentro do mesmo período.
O micro gap segue a mesma lógica, porém, em vez de utilizar o posicionamento médio dos eleitores, calcula a diferença absoluta entre a posição do indivíduo naquela dimensão e a posição média dos deputados do mesmo partido do respondente naquela mesma dimensão.
Por fim, para testar a hipótese da congruência, utilizaremos teste de diferença de média para duas amostras independentes (elite e eleitorado). O Teste T de Student para duas amostras independentes nos permite determinar se as diferenças nas médias são estatisticamente significativas10. Tal teste assume que as variâncias nas duas amostras são aproximadamente iguais.
Resultados e discussão
Iniciamos a discussão com os testes relacionados à primeira hipótese, sobre a estabilidade das issue positions no tempo e sobre as divisões existentes no eleitorado. A série inicia com os dados coletados pelo WVS em 1997. Para as análises, utilizamos as variáveis que mais se aproximam do estudo de Moreno (1999), apresentadas no Anexo A.
Os resultados corroboram a hipótese de que existe uma divisão estável no eleitorado, sendo esta em torno da dimensão liberal-fundamentalista (H1), somando-se aos achados de outras pesquisas que também se detiveram a esse contexto (Moreno, 1999; Borba, Silva e Amorim, 2024). Tal fenômeno configura aquilo que Deegan Krause (2013) chamou de diferença de valores (values difference).
A Tabela 1 apresenta como variáveis relacionadas à religião (importância da religião, crenças religiosas e importância de Deus), sexualidade (liberdade sexual, homossexualidade), aborto e divórcio podem ser resumidos em uma única dimensão latente.
Segundo Moreno (1999), esta dimensão ideológica reflete as questões relevantes nas novas democracias, onde atitudes em relação ao aborto, religiosidade e sentimentos nacionalistas definem os polos da divisão. Além disso, corrobora com os trabalhos nacionais que vêm apontando para a importância dessa dimensão em períodos eleitorais (Mariano, Pierucci, 1992; Bohn, 2014; Peixoto, Rennó, 2011; Nicolau, 2020; Smith, 2019; Cyfer, 2018; Miskolci, 2018; Miskolci, Pereira, 2018; Neves, 2018; Ferreira, 2022; Tamaki, Mendonça, Ferreira, 2021; Mariano, 2016; Burity, 2020).
Nas bases ACD (2019) e das Clivagens (2023), destacou-se uma dimensão adicional à liberal-fundamentalista, ausente nas ondas anteriores. Todas as questões que abordaram a avaliação do papel do Estado em oposição à responsabilidade privada, tanto na redução da desigualdade e no fomento do bem-estar quanto na administração das principais empresas e da economia, apresentaram ligação com o fator. Tal resultado aponta para uma maior complexidade do fenômeno brasileiro, em que a saliência de questões econômicas (típicas das velhas democracias) coexistem com questões de ordem cultural e ou política (Dalton, 2018; Bornscheir, 2023).
Por outro lado, é pertinente pensar se essa mudança decorre de um contexto distinto ou se está relacionada à formulação das questões, uma vez que se observa uma diferença notável, mesmo considerando a proximidade entre ACD (2019) e a pesquisa realizada em 2018 pelo WVS. Enquanto as questões do WVS possuem uma abordagem mais ampla, focalizando aspectos que identificam posicionamentos em temas econômicos, as questões da ACD e da base das Clivagens encaminham de maneira mais direta o debate sobre a responsabilidade/papel do Estado vs. a responsabilidade/papel da iniciativa privada.
Com o estabelecimento dessa divisão duradoura em relação ao liberal-fundamentalismo, surge o questionamento sobre a estabilidade ou flutuação da intensidade do fundamentalismo durante esses anos. Feita a análise fatorial com a combinação dos conjuntos de dados das quatro ondas do World Values Survey (considerando as variáveis que se repetem nas quatro ondas), observamos uma redução no nível de fundamentalismo (Figura 2). Tal resultado converge com as descobertas de Silva (2017), que indicaram que, embora haja grande visibilidade de movimentos de direita em âmbito nacional, o eleitorado do país tem se tornado menos conservador com o passar do tempo.
A partir da Análise Fatorial, mensuramos os factor scores individuais e utilizamos como variável dependente dos modelos de regressão, que tem como objetivo verificar se a dimensão liberal-fundamentalista está associada às características sociodemográficas do eleitorado e as suas atitudes políticas, como o partidarismo (positivo e negativo). Como pode ser observado na Figura 3, escolaridade, identidade evangélica e religiosidade se apresentam como preditores históricos do fundamentalismo. No modelo, a idade seguiu a mesma tendência apenas para os anos entre 2014 e 2023. Atinente a outra característica sociodemográfica, ser mulher apresentou uma associação ambígua com aquela dimensão, sendo positiva em 2014 e negativa em 2019 e 2023. Tais resultados corroboram parcialmente nossa h1.1 de que a clivagem liberal-fundamentalista encontra correspondente empírico. Essa é uma das condições para a formação de clivagens parciais, do tipo position divide (Deegan-Krause, 2013).
Tais resultados estão previstos na teoria da modernização (Inglehart, 1997; Inglehart, Welzel, 2005). Para esta corrente teórica, os avanços promovidos pela modernidade, como democratização do ensino e melhoria na qualidade de vida das pessoas, despertaram um movimento progressista nos valores, e, consequentemente, uma reação conservadora (cultural backlash) por parte das camadas mais tradicionais (pessoas mais velhas, menos escolarizadas e religiosas, por exemplo). Ao encontrar tais resultados para o Brasil, país que não experienciou a modernização da mesma forma que os países europeus, convivendo ainda com graves mazelas econômicas, mostramos que os avanços que ocorreram aqui foram suficientes para produzir fenômenos próximos daquele continente.
Com relação às variáveis de atitudes políticas (petismo e antipetismo) os resultados aparecem na direção esperada, mas em apenas alguns pontos do tempo: ser petista está associado positivamente com o liberalismo (1997 e 2023), enquanto o antipetismo está associado positivamente com o fundamentalismo (2019 e 2023). Tal resultado ajuda a compreender outras camadas do fenômeno do partidarismo brasileiro, investigado por Samuels e Zucco (2018). Para além de uma identidade política, há elementos ideológicos que ligam (ou afastam) eleitores dos partidos. O fato de não existir uma estabilidade nesses dados nos permite confirmar apenas parcialmente nossa h1.2. Por outro lado, é interessante destacar que, no ano de 2023, os vínculos entre preferência partidária e a dimensão liberal fundamentalista são estatisticamente significativos e na direção esperada, tanto para petismo quanto para o antipetismo, o que pode estar relacionado ao crescente processo de polarização em curso na sociedade brasileira, conforme destacado em estudos recentes (Fuks, Marques, 2022; Nunes, Traumann, 2023).
O próximo passo é verificar a existência de congruência entre eleitores e elites partidárias, utilizando as medidas de micro e macro gap (H2). O macro gap refere-se à distância (diferença) entre a média da ideologia (representada pela dimensão liberal-fundamentalista e pela variável Estado-mercado) dos representantes eleitos e a média de seus eleitores. O micro gap refere-se à distância entre a média da ideologia dos representantes eleitos para cada eleitor individualmente. Dessa forma, ao passo que o macro gap apresenta apenas um valor para cada ponto no tempo, a medida de micro gap apresenta uma distribuição de valores. O micro gap permite verificar se a medida de macro gap é ou não artificial, ou seja, se a distância entre partidos e eleitores recebe valores que estão presentes dentro da distribuição dos valores da ideologia do eleitorado.12
Conforme detalhado na seção metodológica, utilizamos uma medida adaptada da dimensão liberal-fundamentalista, dada a necessidade de pareamento dos questionários aplicados tanto às elites partidárias quanto ao público em geral. Para a dimensão econômica, encontramos apenas uma questão semelhante. Os dados das medidas agregadas (macro gap) e das medidas individuais (micro gap) levam em consideração respostas de partidos com pelo menos 20 apoiadores e 3 deputados, critério estabelecido por Dalton (2018).
Essa restrição impede que sejam contabilizados partidos pequenos, que não possuem representatividade nas amostras em termos de identidade partidária. Ao seguir essa restrição, não conseguimos incorporar os avanços desenvolvidos por Bolognesi, Babireski e Maciel (2019), que desenvolveram uma classificação ideológica de partidos menos expressivos.
Como lidamos com vários pontos no tempo, os dados captam essas medidas em diferentes contextos políticos, como os governos petistas, seguido pelo crescimento do sentimento antipetista e antipolítica, bem como a novidade representada pelo bolsonarismo.
Referente ao macro gap, a figura 4 revela o crescimento da diferença entre a média dos eleitores e dos partidos na dimensão liberal-fundamentalista. Já na dimensão econômica, parece haver certa estabilidade a partir de 2017/2018. Contudo, analisar os dados agregados pelos partidos esconde dinâmicas heterogêneas. Analisando esse mesmo gráfico, mas variando conforme os partidos políticos, encontramos diferentes processos, o que ajuda a entender melhor o resultado encontrado na Figura 4.
Identificamos que a maior taxa do macro gap liberal-fundamentalista (Figura 5) é explicada em grande parte pelo comportamento dessa medida entre PT e os petistas. Após o realinhamento eleitoral apresentado por Singer (2009), o eleitorado do PT passou a pertencer as camadas mais populares, base social distinta dos formadores do partido (classe média escolarizada, sindicalistas e Igreja Católica). Esse mesmo eleitorado popular foi um dos fatores chave para a vitória de Collor em 1989, devido ao seu conservadorismo moral (Pierucci, Lima, 1991; Mariano, Pierucci, 1992), entre outros fatores (ver Fragnello, Simoni, Zilli, 2022). Ao avançar sobre essa camada social, herda também o seu conservadorismo, o que ajuda a entender o gap entre eleitores e representantes.
Por outro lado, a brusca mudança entre os anos 2017/2018 e 2018/2019 pode ser atribuída à mudança que ocorreu entre o (Partido do) Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e os (p)mdbistas.
Analisando o caso do Partido Social Liberal (PSL), encontramos que o gap na dimensão econômica é maior do que a dimensão cultural. Essa diferença pode ser atribuída ao fato de os eleitores desse partido não serem tão pró-mercado quanto suas elites partidárias. Esse mesmo resultado também é encontrado para o PSDB (2017/2018), embora isso nem sempre tenha ocorrido (2005/2006).
Como destacado anteriormente (Figura 1) sobre o aumento do liberalismo na opinião pública, entendemos que o que produziu esse aumento do macro gap (agregado) foi a maior liberalização no nível dos partidos em relação ao público, principalmente entre as elites do PT. A Figura 6 mostra esse processo de deslocamento das elites partidárias em direção ao liberalismo (valores mais próximos de zero), o que provoca o aumento do macro-gap. Tais dados são complementados pelo apêndice online14, que mostra essa distribuição por partido.
O caso do PT chama atenção pelo fato de apresentar uma elite com alto grau de liberalismo nos costumes e eleitores que nem podem ser categorizados como liberais. Boa parcela dos eleitores do PT são menos liberais que os representantes desse partido, o que reforça a tese de que o desempenho eleitoral deste partido está muito atrelado ao desempenho econômico e das políticas sociais.
Por outro lado, na dimensão econômica, tanto o público quanto a elite petista aproximaram suas posições, já que as elites do partido passaram a adotar uma postura ligeiramente mais favorável ao mercado, resultando em uma distribuição mais semelhante à do público. Essa análise exploratória pode ser verificada para cada partido no apêndice online.
Em relação ao micro gap da dimensão liberal-fundamentalista, a Figura 7 apresenta duas tendências. A primeira é o aumento da dispersão dos pontos em torno da mediana, o que indica que a diferença entre eleitores e partidos tem apresentado resultados mais discrepantes (aumento de amplitude). A segunda é que a mediana vem aumentando, o que significa maiores gaps entre eleitores e partidos. Como identificado anteriormente (Figura 6), os partidos têm se tornado mais liberais, aumentando a distância do eleitorado mais fundamentalista. Como resultado, tem-se um espaço aberto para ofertas partidárias que apresentam propostas de extrema direita.
Por outro lado, em relação à questão econômica (Figura 8), não ocorreram mudanças significativas. Houve um aumento da amplitude (diferença entre menor e maior valor dos gaps) até 2018, seguido por uma redução nos últimos anos. Já a mediana, apresentou variação significativa, mas se estabilizou próximo aos valores anteriores. Portanto, é possível afirmar que a dimensão econômica da ideologia contribui menos que a dimensão liberal-fundamentalista para a compreensão atual das clivagens no Brasil.
Tal resultado ajuda a entender a ascensão da nova direita brasileira, que tem dado centralidade para a agenda moral. Ao fazer isso, se posiciona como uma oferta partidária que representa esse conjunto de valores do eleitorado, que não havia sido capturado por nenhum outro partido.
Seguindo a lógica de analisar o comportamento dessa medida desagregada para os partidos, a Figura 9 revela um gap significativo no PSL, partido de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, na dimensão liberal/fundamentalista. Uma análise das distribuições, (disponível no arquivo Apêndice online)15, sugere que a elite desse partido é bastante fundamentalista, o que impacta o gap observado. Isso corrobora a interpretação de que, na ausência de um partido de extrema direita, o partido de Bolsonaro se posicionou o mais longe possível (mais extremo que seus próprios eleitores) do centro ideológico para se diferenciar dos demais partidos. Em contraste, o PT apresentou uma maior amplitude do gap liberal-fundamentalista no ano 2021-2019, o que é explicado pela maior liberalização das suas elites. Esses dois resultados evidenciam como um processo de polarização das elites (PSL mais fundamentalista e PT mais liberal) contribuiu para o aumento do gap, indo na contramão do que a literatura apresenta para contextos polarizados. Em contextos polarizados, onde as preferências políticas estão mais evidentes, é esperado que haja um menor gap entre partidos e eleitores (Hausermann, Bornschier, 2023).
Tal resultado encontrado pode ser algo característico de contextos marcados pelo baixo partidarismo na opinião pública. Sistemas partidários fragmentados, pouco enraizados na sociedade, acabam produzindo o fenômeno do ticket splitting, como mencionado na seção teórica. Se eleitores não apresentarem u
Um elemento importante a mencionar é que a quantidade de não respostas às questões foi relativamente baixa. Os brasileiros que escolheram partidos com menos de 20 apoiadores e/ou 3 deputados (critério de seleção usado por Dalton) também foram escassos. O principal motivo para a não seleção de casos ocorreu quando o público não indicou apoio a nenhum partido. Portanto, os resultados do centrismo (micro e macro-gap) estão limitados aos brasileiros que escolhem partidos.
Para confirmar a existência dos gaps supracitados, utilizamos o teste t de Student (Figura 10). Os testes verificam a subtração (média elite - média eleitorado), em que valores maiores que zero indicariam elites mais fundamentalistas e pró-mercado, enquanto valores menores indicariam elites mais liberais e pró-Estado. Os resultados apontam que em todas, exceto uma, as diferenças são estatisticamente significativas (p < 0.05). Na primeira linha (A), consideramos todos os eleitores, sem aplicar o critério de seleção de Dalton (2018). Na segunda linha (B), analisamos apenas os casos em que há um partido correspondente que possui no mínimo 20 apoiadores e 3 deputados eleitos. Apenas em 2014, na dimensão econômica, não foi possível rejeitar a hipótese nula (de que não há gap, portanto, diferença).
De maneira agregada, os valores negativos da dimensão do fundamentalismo revelam que os eleitores apresentam maior inclinação ao fundamentalismo do que os partidos. Como destacado anteriormente, há casos, como o PSL, em que isso se inverte. Por outro lado, os eleitores apresentam-se, na dimensão econômica, mais pró-Estado do que os partidos, com exceção de 2014, quando não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas.
Conclusão
A ascensão de Bolsonaro em 2018, que mobilizou pela primeira vez no período pós-Constituinte um discurso radical contra minorias, partidos políticos mainstream (principalmente os de esquerda) e em defesa dos valores “tradicionais”, despertou o interesse de pesquisadores sobre o tema das divisões sociais do eleitorado (Rennó, 2020; Amaral, 2019; Nunes, Traumann, 2023; Hunter, Power, 2020; Layton et al., 2021; Borba, Silva e Amorim, 2024).
Durante a rivalidade histórica entre PT e PSDB - que durou de 1994 até 2014 - não havia um tema que fosse apontado como o principal divisor do eleitorado. Embora houvesse a discussão sobre um voto de classe (Singer, 2009), o estudo de Peixoto e Rennó (2011) mostrou que a motivação para o voto no PT era a percepção de mobilidade social ascendente. Mais do que classe, havia um dispositivo racional por trás do voto em Dilma. Tal achado, somado a outros, contribuíram para o enfraquecimento do debate sobre clivagens no Brasil.
Apesar dessas contribuições, não houve um esforço para compreender se a dimensão dos valores morais estruturava o eleitorado ao longo dos períodos eleitorais, mesmo com a literatura apontando para a saliência dessa dimensão em vários anos, como mencionado anteriormente neste artigo. Nossa contribuição ocorreu exatamente nesse ponto. Mostramos que a dimensão liberal-fundamentalista sempre esteve presente no eleitorado desde a década de 1990 e que estava associada à religião evangélica, idade, escolaridade e religiosidade dos eleitores.
Tendo em vista tal achado, é possível pensar que Bolsonaro foi o candidato que conseguiu despertar algo que estava latente no eleitorado. O que faltava para a “revelação” da direita no Brasil e sua organização política era uma oferta que fosse capaz de atender os anseios desse grupo social.
A afirmação de que Bolsonaro despertou uma direita já existente é corroborada pelo achado de que, nos últimos anos no Brasil, o que ocorreu foi um crescimento do liberalismo entre os eleitores e não o do conservadorismo. Dessa forma, o sucesso de Bolsonaro e da direita é produto de uma reação cultural, nos termos propostos por Norris e Inglehart (2019).
Essa leitura abre espaço para o fortalecimento de uma agenda de pesquisa dedicada à mobilização das teorias da modernização e do pós-materialismo para se pensar o caso brasileiro. Tal abordagem não foi muito bem recebida no Brasil dadas as diferenças contextuais em relação aos países europeus, para os quais essa teoria foi desenvolvida. Com este estudo, apresentamos evidências de que essa teoria pode sim ser mobilizada.
Por fim, encontramos que tanto esse aumento do liberalismo na opinião pública quanto essa reação conservadora não foram totalmente absorvidas pelas elites políticas, que se apresentam mais contrárias à intervenção do Estado na economia e menos fundamentalistas que o público de eleitores. A eleição presidencial de 2018, nesse sentido, ao ocorrer no âmbito de uma “conjuntura crítica”, parece ter contribuído para ampliar o gap entre eleitores e partidos.
Tal gap, identificado em nossa análise, traz implicações diretas sobre o debate acerca do ticket-splitting no Brasil. Nossos achados contribuem com uma leitura alternativa: os eleitores votam em diferentes partidos por causa do gap ideológico existente entre ambos. O caso do PT é emblemático: ao passo que eleitores e partidos se aproximam ideologicamente da issue economia, divergem em termos da issue liberal-fundamentalista. Isso não significa, obviamente, que outros elementos não influenciem nessa decisão, como bem apontam Dennison e Kriesi (2023) ao destacarem o aspecto multidimensional da escolha eleitoral, que envolve, além dos elementos estruturais trazidos pelas clivagens, as dimensões da issue salience e da issue ownership.
Por outro lado, é possível pensar que a própria incongruência ideológica é posterior ao ticket splitting, sendo este, fruto dos problemas institucionais já apontados pela literatura (Ames, Backer, Rennó, 2010). Dessa forma, problemas institucionais geram um baixo enraizamento dos partidos, produzindo o ticket splitting, o que levaria à incongruência ideológica.
Cabe destacar que os resultados aqui apresentados são preliminares, sendo um primeiro esforço de sistematização e tratamento de um conjunto bastante volumoso de dados. Além disso, fazem parte de uma agenda de pesquisas em desenvolvimento, com desdobramentos em estudos para 18 países da América Latina.
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Notas
-
1
. Census Divide, Position Divide e Issue Divide são tipos de clivagens parciais, pois representam a interseção entre duas variáveis (Estrutura, Valores e Instituições). Full cleavage é a interseção entre as três variáveis.
-
2
. Por issue position consideramos o posicionamento dos cidadãos em relação a algumas questões políticas como aborto, intervenção do Estado na economia, entre outros.
-
3
. O World Values Survey (WVS) é um programa de pesquisa internacional dedicado ao estudo científico e acadêmico dos valores sociais, políticos, econômicos, religiosos e culturais das pessoas no mundo. O objetivo do projeto é avaliar o impacto que a estabilidade dos valores ou a mudança ao longo do tempo têm sobre o desenvolvimento social, político e econômico de países e sociedades. https://www.worldvaluessurvey.org/
-
4
. Alcántara M. (dir.) Proyecto Élites Latinoamericanas (PELA-USAL). Universidad de Salamanca (1994-2021).
-
5
. Zucco, Cesar, 2023, “Brazilian Legislative Surveys (Waves 1-9, 1990-2021)”, https://doi.org/10.7910/DVN/WM9IZ8, Harvard Dataverse.
-
6
. A pesquisa “A Cara da Democracia no Brasil” é um dos eixos que articulam a investigação sobre representação, participação e opinião pública no âmbito do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação (IDDC). https://www.institutodademocracia.org/a-cara-da-democracia
-
7
. Projeto de Pesquisa: “As bases das clivagens políticas no Brasil” . Trata-se de um survey nacional com amostra de 1500 eleitores, entre 14 de janeiro e 17 de fevereiro de 2023.
-
8
. Autores como Moreno (1999) e Dalton (2018) empregam Principal Component Analysis (PCA). A literatura tem demonstrado que, para uma solução não contaminada por erro de variância, a Análise Fatorial (AF) representa uma escolha mais apropriada. Ademais, a AF é considerada uma técnica estatisticamente mais rigorosa (Fabrigar et al., 1999; Laros, 2005). Como um teste de robustez, apresentamos os resultados dos testes utilizando também PCA e TRI na pasta “Apêndice online e replicação”.
-
9
. Factor scores são considerados variáveis quantitativas numéricas, o que justifica o uso de modelos de regressão linear.
-
10
. A técnica de teste de médias t de Student considera a variabilidade das amostras para determinar se as diferenças observadas nas médias são estatisticamente significativas.
-
11
. As variáveis relacionadas às questões morais do banco ACD (discriminalização do aborto, casamento de pessoas do mesmo sexo, adoção de criança por casal gay, descriminalização do uso de drogas e ensino religioso nas escolas) são de natureza categórica, sendo classificadas como aprovação, não sabe ou rejeição. Por essa razão, a correlação na Análise Fatorial desse base de dados difere das demais, nas quais a correlação de Pearson foi empregada. No caso da ACD, optou-se pela utilização da correlação “mixed” do pacote “Psych” do R, apropriada para situações envolvendo a combinação de variáveis de diferentes níveis (numéricas e categóricas). Essa abordagem emprega uma mistura de correlações tetracóricas, policóricas, Pearsons, bisseriais e polisseriais.
-
12
. Imagine que a média da ideologia de um partido seja 5 (escala de 0 a 10) e que a do eleitorado seja 6. Logo, teremos um gap de 1. Porém, quando analisamos a distribuição dos valores da ideologia do eleitorado, podemos encontrar valores concentrados nos pontos 2 e 10 da escala (em um cenário de dois eleitores, um localizado no ponto 10 e outro no ponto 2, temos média 6, por exemplo). Portanto, o macro gap apresentaria um resultado artificial da distância entre partidos e eleitores. Um partido que seria considerado de centro, recebe apoio tanto de um eleitor que é de extrema esquerda e outro que é de extrema direita. Importante destacar que apenas analisamos a distribuição dos valores da ideologia para o eleitorado (e não para partidos), tendo em vista que a literatura apresenta este grupo como ideologicamente menos estruturado que as elites partidárias.
-
13
. Partidos com somente um ponto no tempo [Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido da Frente Liberal (PFL), Partido Socialista Brasileiro (PSB) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB)], omitidos da tabela. PDT é a sigla do Partido Democrático Trabalhista.
-
14
. O documento do apêndice online consta no link: https://github.com/gregorioCPcG/-Existem-Clivagens-Pol-ticas-no-Brasil-
-
15
. O apêndice online e os scripts para replicação constam na pasta “Apêndice online e replicação”
- Banco de Dados:











Elaborado pelos autores. Fonte: WVS (1997, 2006, 2014 e 2018).
Elaborado pelos autores. Fonte: WVS, ACD e CLIVAGENS.
Elaborado pelos autores. Fonte: PELA e BLS.
Elaborado pelos autores. Fonte: PELA e BLS.13
Fonte: Elaborado pelos autores, com base em
Elaborado pelos autores. Fonte: PELA e BLS.
Elaborado pelos autores. Fonte: PELA e BLS. Nota: círculo branco refere-se à média.
Elaborado pelos autores. Fonte: PELA e BLS. Nota: círculo branco refere-se à média.
Elaborado pelos autores. Fonte: PELA e BLS. Nota: círculo branco refere-se a média.
Elaborado pelos autores. Fonte: PELA e BLS.