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Os Enunciados Aderentes

Adhering utterances

RESUMO

Este artigo procura chamar a atenção para um conjunto de manifestações do discurso que proliferam em nosso cotidiano e que proponho agrupar sob o termo de “enunciados aderentes” (EA). Tais enunciados foram até agora pouco abordados pela análise do discurso não só porque se trata de enunciados associados a todos os tipos de objetos (uma camiseta, uma garrafa, um carro, um corpo humano...), mas também porque os linguistas preferem, em geral, estudar enunciados estritamente verbais. O estudo dos EA implica com efeito que se conteste um pressuposto profundamente enraizado segundo o qual é preciso separar rigorosamente os nomes e as coisas. Após ter explicitado a relação de “aderência” entre o enunciado e seu “suporte”, e sublinhado em que este enunciado modifica a identidade do suporte, coloco em evidência diversos parâmetros que convêm levar em conta para abordar os enunciados aderentes. Em um segundo momento, analiso dois tipos de enunciados bem diferentes: de um lado, enunciados com uma visada ecológica (sobre uma lixeira ou um gramado), de outro lado, enunciados portados por manifestantes em agrupamentos com objetivo político.

Palavras-chave:
análise do discurso; enunciado aderente; suporte; manifestante

ABSTRACT

This article aims at drawing attention to a wide range of discourse manifestations that proliferate around us and which I propose to group together under the term “adherent statements”. They have so far been ignored by discourse analysis because they are associated with all kinds of objects (a T-shirt, a bottle, a car, a human body...) and we generally prefer to study purely verbal data. Indeed, the study of these adhering utterances implies challenging a deeply rooted presupposition that words and things must be rigorously separated. After explaining the “adherence” relationship between the utterance and its “support”, and emphasizing how this utterance modifies the identity of this support, I highlight the various parameters that must be taken into account when dealing with these adhering utterances. Secondly, I analyze two very different types of utterances: statements with an ecological purpose (on a garbage can or on a lawn), and statements made by demonstrators at political rallies.

Keywords:
discourse analysis; adhering utterance; support; demonstrator

1. Introdução

Neste artigo, gostaria de chamar a atenção para um conjunto de manifestações do discurso sem dúvida tão antigas como a escrita, mas que proliferam no mundo contemporâneo e que proponho agrupar sob o termo de « enunciados aderentes » (daqui por diante EA). Trata-se de situações muito banais: « Eu amo New York » sobre uma xícara, placa « Legumes » colocada acima da prateleira correspondente em um supermercado, enunciados sobre latas de conserva ou garrafas de vinho, letreiros de estabelecimentos (« Padaria », « Salão de Beleza »...), frases em camisetas, tatuagens, nome da empresa sobre as roupas de um funcionário, título em um quadro, placas indicativas de rua, placas diante de um canteiro de obras, divisas em brasões, nome do fabricante sobre uma bolsa, faixa colocada em volta de um livro em uma livraria (« O último romance de X »...) etc.

Utilizo aqui o termo vago « enunciado » porque pode tratar-se tanto de uma palavra, de um grupo de palavras, de uma frase, de um texto, ou de parte de um texto. Frequentemente encontram-se vários EA sobre o mesmo suporte, mas a responsabilidade enunciativa não é atribuída à mesma instância enunciativa (Possenti, 2009POSSENTI, Sírio. 2009. Ler embalagens. In: Questões para analistas do discurso. São Paulo: Parábola, pp. 39-50.). Em uma caixa de queijo encontra-se a indicação do tipo e da marca desse queijo, mas também um certo número de informações ou de recomendações que são impostas por tal ou tal administração do Estado. Em uma caixa de cigarros figuram enunciados como « Fumar mata » ou « Fumar entope suas artérias », várias informações impostas pelo Ministério da Saúde, mas cujo fabricante as deixaria de lado com prazer.

2. Enunciados aderentes e análise do discurso

Podemos caracterizar os EA como enunciados escritos, em geral curtos, fixados sobre um « suporte », com o qual formam uma totalidade. Esta totalidade é frequentemente um objeto; mas pode tratar-se também de um lugar: uma sala, uma rua, um canteiro de obras, e mesmo uma paisagem.

Algumas dessas categorias foram estudadas por linguistas, mas sem estarem integradas em uma mesma problemática. Por exemplo, para os franceses os nomes de rua (Palm, 1989PALM, Lars. 1989. ‘On va à la Mouff’ ? Étude sur la syntaxe des noms de rues en français contemporain. Acta Universitatis Upsaliensis : Studia Romanica Upsaliensia 45. Uppsala : Almqvist & Wiksell. ; Bosredon; Tamba, 1999______ ; TAMBA, Irène. 1999. Une ballade en toponymie : de la rue Descartes à la rue de Rennes. Linx [En ligne], 40, http://journals.openedition.org/linx/743.
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) ou os títulos de quadros (Péruisset-Fache, 1994PÉRUISSET-FACHE, Nicole. 1994. Le titre de tableau. Thèse, Université de Rouen.; Bosredon, 1994BOSREDON, Bernard. 1994. Etiquetage et titres de tableaux. Des titres de tableaux à la problématique de la nomination unique. Thèse, Université Paris 7., 1997______. 1997. Les titres de tableaux. Une pragmatique de l’identification. Paris : PUF.) ofereceram contribuições a trabalhos centrados na sintaxe e em procedimentos de identificação de um objeto in praesentia por meio de um enunciado escrito que lhe é contiguo. Esse ponto de vista de linguista difere daquele do analista do discurso, que deve integrar as regularidades linguísticas em dispositivos de enunciação historicamente determinados em que o verbal e o não-verbal são indissociáveis. Mas é preciso reconhecer que os analistas do discurso até agora não têm se interessado muito pelos EA. Há, no entanto, algumas felizes exceções, trabalhos que abordam determinados tipos de EA, mas estes últimos estão integrados a problemáticas diferentes. Evocarei aqui dois exemplos.

S. Possenti estuda os EA em uma embalagem de “cookies” e em uma de bebida de sucos à base de soja o que ele chama “textos em embalagens” para se interrogar, no quadro de uma reflexão mais ampla, sobre a heterogeneidade das fontes de enunciação em um texto. As embalagens implicam com efeito um tipo de textualidade bem diferente daquilo que se privilegia habitualmente em análise do discurso: “seria mais produtivo considerar que uma embalagem apresenta um texto heterogêneo do que admitir que apresenta um conjunto de textos independentes que deveriam ser analisados em si mesmos” (2009, p. 47-48). O problema é então saber o que é um texto “heterogêneo” quando nos deparamos com um mosaico de sequências verbais de naturezas diversas que não são unificadas pela remissão a uma única fonte de enunciação, sem contudo deixar de formar uma unidade, imposta por um suporte que foi cuidadosamente concebido por uma empresa. Mesmo apoiando-se sobre eles, essa pesquisa não é, portanto, dirigida especificamente a embalagens, nem aos EA: “vale para outros textos, especialmente para bulas, contratos, instruções para montagem e uso de aparelhos, propagandas, informações sobre compras por correio ou internet” (2009, p. 40). Um dos interesses maiores de tal reflexão é mostrar que é possível sair de corpora rotineiros, de levar em conta manifestações do discurso em nosso ambiente cotidiano para ver surgir dificuldades, incitações que enriquecem nossos conceitos e métodos de análise.

Por outro lado, M.-A. Paveau (2009PAVEAU, Marie-Anne. 2009. Une énonciation sans communication : les tatouages scripturaux. Itinéraires, 2009-1, pp. 81-105, http://journals.openedition.org/itineraires/353.
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) aborda EA de um tipo bem diferente, porque seu suporte é humano - as tatuagens - no quadro de uma pesquisa sobre “escrita corporal”, os enunciados escritos no corpo. Ela sublinha que esse tipo de dado é marginalizado em análise do discurso, isto é, em ciências da linguagem porque “não entra no dispositivo padrão que funda toda enunciação sobre interação comunicacional explícita ou implícita, de superfície ou de maneira primitiva”. As tatuagens mostram que “dizer, não é forçosamente dizer a alguém, pode ser apenas dizer a si mesmo ou simplesmente exprimir, marcar ou formular a própria experiência, instalar uma relação com o real” (2009, p. 16). Atribui então o desinteresse da grande maioria dos analistas do discurso por esses dados ao fato de que tais dados se acomodam mal a alguns de seus pressupostos.

O caráter periférico ou não de um fenômeno depende com efeito largamente dos pressupostos dos pesquisadores. Eu me dei conta disso a propósito das aforizações (Maingueneau, 2012______. 2012. Les phrases sans texte. Paris: Armand Colin.) : se as frases sem texto são periféricas em análise do discurso, e se é melhor deixá-las a cargo de uma disciplina de abrangência restrita, a paremiologia, ciência dos enunciados sentenciosos, é por que um pressuposto muito forte quer que uma frase só seja considerada uma frase se ela pertence a um texto que concerne a um gênero do discurso. Mas é suficiente apreender o conjunto das frases sem texto em toda a sua diversidade - dos provérbios tradicionais às informações nos sites da internet - para se dar conta de que se trata de um fenômeno que não tem nada de marginal e que permite questionar o próprio conceito de enunciação.

As tendências atualmente dominantes em análise do discurso apoiam-se no pressuposto segundo o qual o universo do discurso pode ser unificado em torno de uma espécie de protótipo da atividade discursiva. Existem dois candidatos a esta função: o par texto/gênero, que prevalece na tradição europeia, e a interação conversacional, que prevalece na tradição norte-americana. Mas essas duas abordagens partilham de uma certa concepção do discurso como prática fundamentalmente verbal, interação entre locutores socialmente especificados que em situações bem definidas desenvolvem estratégias em função de seus objetivos e seus interesses. Evidentemente, o estudo dos EA se acomoda mal a tal visão do discurso.

Se a análise do discurso se interessa pouco por um conjunto tão considerável de dados, é não somente porque espontaneamente ela privilegia os dados para os quais a dimensão verbal é preponderante, mas também porque seus corpora de predileção são aqueles imediatamente interpretáveis em termos de ideologia e/ou aqueles cujas implicações sociais parecem fortes. Os debates no Parlamento ou as emissões de televisão, por exemplo, acumulam os dois critérios; por outro lado, o estudo das interações entre médicos e pacientes ou aqueles dos currículos escolares satisfaz antes o segundo critério; a saúde e a escola têm se tornado setores chave da sociedade contemporânea. Se se adotar esta perspectiva, a imensa maioria dos EA não pode senão ser deixada à margem, dada sua aparente trivialidade: que interesse pode apresentar uma placa de esgoto na qual está escrito o nome da municipalidade?

A solução a mais fácil para os analistas do discurso é então remeter o estudo dos EA a outras disciplinas, em função do tipo de dado em que se está interessado: sinalética, sociolinguística, semiótica, antropologia, marketing etc. Tal decisão parece dificilmente justificável se se pensa que a análise do discurso deve abordar as manifestações do discurso em toda a sua diversidade, que ela não pode se limitar às conversações ou aos textos originários de setores privilegiados da vida social: política, mídia, educação, justiça, saúde, negócios. Sem dúvida, o estudo dos EA não pode ser feito recorrendo-se aos mesmos instrumentos que utilizamos para os panfletos eleitorais, as emissões de televisão ou as entrevistas de emprego, mas isso não significa que eles exerçam um papel marginal no funcionamento da sociedade. A integração de tais fenômenos no campo da análise do discurso não é um obstáculo se aceitarmos a ideia de que o discurso não é um universo homogêneo e que se deve tirar disso consequências em matéria de conceitos e de métodos de análise (Maingueneau, 2017______. 2017. The heterogeneity of discourse: expanding the field of discourse analysis. Palgrave Communications, 3, http://www.palgrave-journals.com/articles/palcomms201758.
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).

3. A aderência

Como seu próprio nome indica, um EA baseia-se crucialmente sobre uma relação de “aderência” entre uma sequência verbal e um suporte. Esta relação não pode ser contingente: um panfleto eleitoral colado de modo grosseiro sobre um poste elétrico pode estar aderido fisicamente a este objeto, mas não constitui um EA. Não existe, com efeito, relação de apropriação entre este panfleto e o poste elétrico sobre o qual ele foi fixado, o panfleto não tem outra influência sobre ele senão enfeia-lo. Não se dirá também que as publicidades em uma estação de metrô são EA, embora haja espaços reservados para elas; tais publicidades aparecem como apareceriam em qualquer lugar para serem vistas por aqueles que passam. Do mesmo modo, os homens-placa, pagos para exibirem enunciados publicitários apenas transportam e tornam visíveis enunciados com os quais mantêm somente uma relação efêmera e contingente.

A aderência não concerne também a situações em que texto e objeto se confundem. Um jornal ou um livro, por exemplo, são objetos, mas sua finalidade é dar corpo a um texto. A aderência não concerne, ainda, a objetos em que é impossível distinguir enunciado e suporte. Sobre a célebre tela de Magritte a assinatura do pintor abaixo à direita do quadro ou a frase « Isto não é um cachimbo » são constituintes dessa pintura; por outro lado, podemos falar de EA para a placa colocada pelo museu ao lado do título « A traição das imagens », associada ao nome do autor e a diversas indicações : 1928-1929, pintura a óleo sobre tela, 59 × 65 cm...

A noção de « suporte » não deve dar a impressão de que o enunciado viria a se acrescentar a ele sem alterá-lo, ao contrário há interação entre o suporte e o EA: eles se afetam mutuamente, produzindo uma realidade nova. O epitáfio inscrito em um túmulo acrescenta algo ao pedaço de mármore que lhe serve de suporte: faz dele um túmulo, e até mesmo o túmulo de alguém; por sua vez o pedaço de mármore acrescenta algo ao enunciado; transforma-o em uma inscrição funerária, até mesmo em uma inscrição em acepção plena, visto que se trata de uma gravação.

Acrescentando EA a objetos que estavam até então desprovidos de tais enunciados ou modificando, no plano verbal ou não verbal, os EA já existentes, um ator social dá sentido ao mundo que habitamos. Os EA se integram em atividades socialmente reconhecidas que lhes conferem simultaneamente uma dimensão ideológica e uma sustentação institucional. No centro histórico de uma cidade, por exemplo, em um certo número de edifícios figuram EA que indicam seu nome e dão informações sobre sua história. Esse tipo de EA implica uma atividade (visita turística) associada a uma ideologia difusa acerca da preservação do patrimônio e sua valorização ; implica também diversos atores institucionais (no nível da cidade, do Estado, da Região, do País) que decidem onde é preciso colocar esses enunciados, os redigem e os apresentam sob tal ou tal forma.

É a questão de identidade que está aqui em jogo: os EA modificam a natureza dos objetos do qual fazem parte. As maçãs vendidas em um supermercado são frequentemente associadas a dois tipos de EA padrão: sobre cada fruta está fixada uma pequena etiqueta colorida que indica o nome e a marca, e ao lado da pilha de maçãs, uma etiqueta branca, maior que dá diversas informações sobre a origem, o preço... associadas a um código de barras. Essas frutas podem igualmente ser vendidas em bandejas cobertas de papel filme que possuem cada uma uma etiqueta. Não são as mesmas maçãs que aquelas vendidas a granel em um mercado tradicional, acompanhadas de um enunciado manuscrito escrito com giz sobre uma lousa preta que indica o preço por quilo e, eventualmente, o nome do produto. No supermercado as maçãs estão bem calibradas e em conformidade com um estereótipo: são grandes, sua casca é lisa, sua cor viva; no mercado tradicional as frutas são de tamanhos desiguais e apresentam múltiplas imperfeições. Essa discrepância corresponde a diferentes atividades: por um lado, uma transação oral que implica uma relação pessoal com um “pequeno produtor” que vende “suas” frutas; por outro lado, compras em um supermercado onde o consumidor, que guardou seu carro em um estacionamento e que empurra um carrinho, está diante de gôndolas de mercadorias calibradas submetidas a múltiplas normas exigidas por um circuito comercial nacional ou internacional. Mas é suficiente que o supermercado acrescente alguns EA como “Orgânico” ou “Produto Orgânico” a maçãs pouco atraentes, colocadas a granel em uma caixa, para que sua identidade mude: não são mais frutas de segunda categoria, não adequadas a um supermercado, mas produtos de qualidade, vendidos mais caro.

Podemos avaliar o poder que os EA têm de transformar a identidade dos objetos considerando um caso extremo, o dos enunciados que aparentemente se contentam em dizer qual é seu suporte. Por exemplo, no Bois de Vincennes, um parque perto de Paris, foram colocados à disposição dos pedestres bancos rústicos de madeira em cujos encostos estão gravados o nome das espécies de árvores das quais eles são feitos: “carvalho”, “robinier” ... É o que mostra esta foto:

À primeira vista, isso pode parecer surpreendente. A menos que seja uma prática apresentada como artística, não se imagina um banco de ferro em que se teria escrito em letras grandes: “FERRO”. É evidentemente por se tratar de madeira que o objeto faz sentido em nosso mundo. O nome “ROBINIER” permite recategorizar este banco, torná-lo um instrumento pedagógico a serviço de um discurso difuso, de ordem ecológica. A existência de tal EA implica um mundo no qual o ser humano teria reencontrado o contato com a natureza: os pedestres não devem mais considerar estes bancos como meros objetos utilitários, mas como madeira. A maneira pela qual a inscrição é realizada mostra essa rejeição ao mundo industrial; as letras desalinhadas e grosseiramente gravadas mostram sua divergência com os rótulos metálicos padronizados. Isso vale para o próprio banco, que ostensivamente exibe sua proximidade com o tronco da árvore de onde foi tirado. O suporte institucional não está ausente: por meio desses EA, o gestor do parque, neste caso a Cidade de Paris, mostra uma orientação política, mostra o ethos de um grupo que defende a causa ambiental e atribui aos pedestres um lugar correspondente.

Os EA parecem pertencer, assim, a dois espaços ao mesmo tempo, um fechado, outro aberto. O espaço fechado é o de seu suporte e, muitas vezes, de seu ambiente material: há a rua e a placa que indica seu nome, há também o bairro ou a cidade da qual essa rua faz parte. Além disso, o espaço aberto conecta os EA a elementos diversificados: discursos e instituições, cuja natureza varia segundo os tipos de EA considerados. Assim, para os EA colocados sobre certos produtos alimentícios, intervêm vários organismos: a marca do produtor, do comerciante, das organizações nacionais, ONGs.

Essas conexões podem desencadear redes mais ou menos ricas. São pobres, por exemplo, os EA com função sinalizadora, destinados a facilitar a orientação, em espaços públicos ou em diversas instituições (estações, hospitais, escolas, shopping centers, bibliotecas, prefeituras...). São claramente mais ricos, por outro lado, em embalagens de produtos alimentícios, como se vê nas várias partes que compõem essa caixa de “bebida de soja”:

Todos os lados do suporte são cobertos com EA cuja forma e distribuição resultam de uma negociação entre restrições de várias ordens: impostas pelo marketing, pela logística, regulamentação sobre a comercialização de produtos alimentícios... Decifrar esses EA significa colocar o produto no centro de uma infinidade de elos, implementar uma rede de relações.

4. Problemas de tipologia

A análise de S. Possenti, evocada anteriormente, sobre outra bebida de soja mostrou quão problemática é a textualidade desses enunciados. Nós nos encontramos confrontados a uma dupla heterogeneidade - a da responsabilidade enunciativa e a das sequências verbais distribuídas na superfície do suporte - mas as duas, submetidas a lógicas distintas, não necessariamente convergem. Em exemplos desse tipo compreende-se quanto a noção de EA pode ter de insatisfatória se não for afinada: não se pode com efeito nem considerar que há apenas um EA neste suporte, composto de módulos heterogêneos, nem considerar que cada módulo representa um EA autônomo.

Esta questão não é marginal, pois um dos múltiplos tipos de suportes contêm vários EA. Claro, pode-se considerar a possibilidade de estabelecer uma tipologia tomando por base a relação entre módulos e EA, mas o problema é complicado pelo fato de que vários fatores devem ser levados em conta: a fonte da enunciação, a natureza linguística do enunciado (sigla, nome próprio ou comum, frase...), a posição do enunciado, seu tamanho, seu lugar sobre o suporte... Há aqui um tema de pesquisa interessante.

Uma maneira muito diferente e mais rápida de classificar os EA seria distinguir, do ponto de vista pragmático, várias funções-chave; em particular:

  • - identificar: o nome de uma cidade, um título de quadro... ;

  • - categorizar: “Padaria” no comércio, “Ouro” em um monte de maçãs... ;

  • - prescrever: “Desacelerar, saída da escola”, “Circulação proi­bida”... ;

  • - informar: composição do produto em uma lata de conserva, placa explicativa em um monumento...

Essas funções maiores são frequentemente completadas por informações que têm valor de justificativa, na maioria das vezes escritas em tipo menor. Muitos desses enunciados têm, além disso, um valor pragmático indireto. Os EA “Fumar provoca câncer” em um maço de cigarros informam para desaconselhar e quando lemos em uma placa “Zona de Pedestres” temos, em um primeiro nível, uma informação, mas, em um segundo, uma prescrição que proíbe a passagem de veículos.

Tal caracterização dos EA, no entanto, permanece muito aquém da riqueza dos fenômenos tratados. Nós nos encontramos um pouco na mesma situação quando se trata de gêneros de discurso: as tipologias por grandes funções captam muito pouco de seu funcionamento efetivo e de seu papel na sociedade. Na ausência de uma tipologia, podemos explicitar algumas diretrizes quando somos confrontados a EA, destacando vários ângulos sob os quais podemos abordá-los. Em particular:

  • - a maneira pela qual se estabelece a aderência: pode ser direta (se o enunciado for fixado sobre o suporte) ou indireta. O título de uma pintura pode ser fixado na moldura, mas também pode ser colocado sobre uma placa ao lado; cabe então ao visitante estabelecer a conexão entre os dois objetos. Mas há relações mais fluidas: por exemplo, no caso de uma placa “Paysage de Provence” colocada no acostamento de uma rodovia.

  • - as condições de acessibilidade do enunciado aderente: ele é visível? fácil de decifrar? ...

  • - as propriedades da inscrição: seu tamanho, seu modo (manuscrito, impresso, gravado...), o tipo de fonte, sua cor, sua dimensão, sua associação ou não com sinais icônicos (fotos, logos, gráficos...);

  • - suas características sociolinguísticas, em especial a escolha e o registro da língua. Em uma loja de roupas situada em um país que não é anglófono, painéis como WOMAN e MAN não têm o mesmo valor que os painéis redigidos na língua vernácula. Na França, muitas comunas da Bretanha sobrepõem na mesma placa, ou em duas placas separadas, o nome da comuna em francês e em bretão; um ponto que merece atenção é que encontramos tais sinais em regiões da Bretanha onde jamais se falou bretão, o que implica um interdiscurso regionalista e a intervenção de vários atores políticos e associativos.

  • - as propriedades linguísticas (lexicais, sintáticas, enunciativas) de EA: por exemplo, aquelas que categorizam um lugar (“Brechó”, “Sala de Espera” ...) ou aquelas usadas para se orientar (“Saída”, “Centro da Cidade” ...) são geralmente compostas de nomes ou grupos nominais sem determinante.

  • - a copresença eventual de EA, atribuídos ou não a uma mesma fonte de enunciação (caso do pacote de cigarros). Em um supermercado, por exemplo, há apenas uma fonte, a gestão do estabelecimento, que coloca enunciados categorizantes (“bio”, “café da manhã” ...) e placas incitativas (“Peça seu cartão de sócio”, “Superpromoção”). O comprador se move entre esse nível “macro” de EA, que enquadra seu percurso, e um nível “micro”, o dos EA inscritos nos produtos, aos quais ele presta atenção variável, dependendo de suas preocupações. A existência de aplicativos de smartphones que permitem verificar imediatamente a qualidade nutricional de um alimento dá hoje a esse nível micro um valor estratégico: a leitura de EA ultrapassa, portanto, a percepção individual, mobiliza saberes e experiências colocados em outro espaço diferente daquele da loja. Em um enlaçamento notável, este novo dispositivo de leitura de EA tem, por sua vez, efeitos sobre os próprios produtos porque os comerciantes se esforçam para mudar sua composição a fim de satisfazer as normas do aplicativo.

  • - a hierarquia entre EA colocados sobre um mesmo suporte: o nome do supermercado em letras enormes sobre a entrada principal domina o setor “O Mercado”, que domina “Frutas”, “Legumes” etc. O mesmo acontece no nível micro: alguns enunciados aderentes em uma garrafa estão em primeiro plano (por sua posição, sua cor, seu tamanho, sua forma), outros são colocadas ao fundo, e alguns quase ilegíveis. É por isso que a lei impõe a forma, a cor e o tamanho dos enunciados do tipo “Fumar Mata”. Mas o contraste entre esses dois exemplos é claro: enquanto o supermercado controla todos os seus EA, tal controle não vale para produtos à venda que, como vimos, têm de gerenciar módulos ligados a fontes enunciativas distintas, muitas vezes em conflito.

Não vou desenvolver aqui mais aprofundadamente esta proposta muito geral, mas comentar agora alguns exemplos de EA em suportes variados - humanos, objetos, lugares - enfatizando a relação que podemos estabelecer entre a sua presença e as mudanças em um determinado setor da vida social.

5. Quando os suportes são humanos

Como o exemplo da tatuagem há pouco mencionado, não há nada que impeça que o suporte de um EA seja o corpo de uma pessoa. No entanto, há uma distinção entre portadores e aquilo que chamamos os sustentadores.

5.1. Os portadores

É possível designar “portadores” aqueles que são obrigados a colocar EA em suas roupas em razão de sua adesão a uma determinada organização, geralmente uma empresa. Nos fast-food McDonald’s, por exemplo, os funcionários usam ostensivamente vários EA em suas camisetas e bonés: seu nome, o da marca, sua função no restaurante, slogans (por exemplo nos EUA “i’am lovin’ it)... É possível também considerar como portadores de EA pacientes em hospitais nos quais se colocam pulseiras.

Converte-se, por meio desse rótulo um indivíduo, com todas as suas características sociais, em um paciente, um elemento da máquina hospitalar, reduzido às propriedades necessárias à sua existência dentro daquela instituição. Essas pulseiras são solidárias de práticas: em particular, o transporte de pacientes, muitas vezes inconscientes, nos corredores do hospital, na consulta de seu prontuário. Alguns módulos da pulseira são legíveis para todo mundo (sobrenome, nome, data de nascimento, sexo, data da cirurgia...), mas outros são opacos para quem é estranho à instituição. A existência de um código de barras, em particular, implica que certo número de pessoas especializadas disponha de um leitor específico que lhes permite ter acesso ao prontuário médico do paciente A gestão desse tipo de pulseira só pode ser feita por meio de um equipamento de informática e certa distribuição de tarefas e categorização de tais pessoas. O hospital deve transformar-se para poder colocar esses rótulos nos pacientes e gerenciá-los de forma eficaz. Aqui encontramos a lógica da «instituição discursiva» (Maingueneau, 1987MAINGUENEAU, Dominique. 1987. Nouvelles tendances en analyse du discours. Paris : Hachette., p. 19): a instituição desenvolve práticas enunciativas que moldam a instituição.

5.2. “Sustentadores”

Os “sustentadores”, ao contrário dos funcionários do McDonald’s, voluntariamente colocam EA sobre eles para expressar uma convicção, em um sentido muito amplo. EA, assim, engaja a imagem do indivíduo que a mostra, torna-o não só um portador, mas também um “sustentador”, alguém que apoia uma pessoa singular ou um coletivo: um partido, uma equipe esportiva etc.

Os EA desses sustentadores são de tipos diversos. Aqueles que são inscritos diretamente no corpo - concernentes a uma “corpografese” (Paveau; Zoberman, 2009______ ; ZOBERMAN, Pierre. 2009. Corpographèses ou comment on/s’écrit le corps. Itinéraires, 2009-1, pp. 7-19, https://journals.openedition.org/itineraires/321.
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) - diferem daqueles que estão apenas fixados sobre um suporte externo (folha de papel, pedaço de papelão...). Alguns são permanentes (tatuagens), outros efêmeras (adesivos, enunciados escritos com pincel atômico ou a tinta...). Podemos também estabelecer uma distinção entre EA singulares e aqueles que são compartilhados: por exemplo, se duas pessoas colocam o mesmo adesivo em suas roupas. Se indivíduos que compartilham o mesmo EA estiverem reunidos, trata-se de manifestantes. Como o indica a própria polissemia do substantivo, os manifestantes são indivíduos que devem, mediante seu engajamento corporal, manifestar, dar uma grande visibilidade a enunciados que exprimem uma convicção compartilhada, a favor de uma causa justa ameaçada por um exterior hostil ou indiferente.

Há atualmente tensão entre dois tipos de manifestação (Maingueneau, 2020______. 2020. O ethos no corpo. In: Variações sobre o ethos. São Paulo: Parábola, pp. 114-126.), que correspondem a dois tipos de EA. Aquelas que se pode chamar de “clássicas” encenam um apoiador coletivo, constituído por um número mais ou menos elevado de corpos individuais; da multidão emergem EA - especialmente inscritos em faixas - que visam a tornar visíveis enunciados compartilhados que convergem para o mesmo hiperenunciador (Maingueneau, 2004______. 2004. Hyperénonciateur et ‘particitation’. Langages, 156, pp. 111-127.). Estes EA permitem especificar a razão de ser da manifestação e de unir seus membros. Sem eles, a manifestação não passaria de um agregado de indivíduos. Mas hoje estamos vendo cada vez mais manifestações nas quais, ao lado desses EA coletivos fixados em faixas ou grandes banners, proliferam pequenos cartazes individuais escritos com pincel atômico ou presos às roupas dos manifestantes. É como se os indivíduos não mais se satisfizessem em se fundir em um grupo, mas tivessem necessidade de exibir enunciados singulares, seus enunciados.

Essa situação abre a possibilidade de divergências, por vezes fortes, entre os slogans coletivos elaborados por instituições que organizam a manifestação e os EA individuais. Pode acontecer mesmo que a balança penda para o outro lado, isto é, que as faixas coletivas se tornem raras e os enunciados individuais se multipliquem. É o que se pôde constatar na França em 2018-2019 com as manifestações dos “Coletes amarelos”, que não foram estruturadas por organizações. Percebia-se uma proliferação de enunciados pessoais escritos com pincel atômico nos coletes dos manifestantes, mas havia poucas faixas. Por outro lado, viam-se muitas bandeiras francesas, ou seja, objetos que, precisamente, não têm EA, significantes cujo significado muito pobre abre a possibilidade para os mais variados investimentos ideológicos.

6. Dois exemplos “ecológicos”

6.1. Uma lixeira

A foto a seguir mostra uma lixeira, colocada em uma área de piquenique para turistas que visitam o Marais poitevin, região situada no oeste da França.

Na tampa da lixeira pode-se ler “Férias Limpas”; no saco branco estão inscritos, no interior de faixas verdes, dois enunciados em letras brancas: “Gestos limpos” e “Fim dos rejeitos selvagens”.

Esses três EA fazem parte da lixeira, que é em si mesma um dos elementos de totalidade mais ampla, neste caso a área de piquenique. A questão que se pode colocar é saber por que há tais enunciados nesta lixeira. Aqueles que administram os rejeitos na área não se contentaram em colocar simplesmente uma lixeira, eles julgaram necessário acrescentar enunciados com valor prescritivo. Esse valor é evidente em «Fim dos rejeitos selvagens» que apresenta as características de um slogan; é mais indireto para os grupos nominais «Férias Limpas» e «Gestos Limpos». De fato, atualmente em muitos países as lixeiras não são mais consideradas apenas como lixeiras, mas como o suporte legítimo de injunções com valor moral que se apoiam sobre um interdiscurso difuso associado à cor verde e articulado em torno de algumas fórmulas (Krieg-Planque, 2009KRIEG-PLANQUE, Alice. 2009. La notion de « formule » en analyse du discours. Presses Universitaires de Besançon.): «proteção ambiental», «desenvolvimento sustentável», «reciclagem de rejeitos». É esse interdiscurso que justifica a presença de tais EA nessa lixeira. Reciprocamente, vinculando a lixeira a este interdiscurso difuso, os EA reforçam sua legitimidade.

Esta lixeira não pode, portanto, ser considerada isoladamente. Para os turistas que frequentam a região, ela se inscreve em uma vasta série de lixeiras de todos os tipos colocadas em locais públicos, elas próprias portadoras de EA com conteúdo ecológico, propensas a incitar boas práticas. Não longe do banco mencionado anteriormente onde está inscrito o EA “Robinier” encontramos, por exemplo, essas lixeiras com EA muito mais ricos:

Antes de dizer que esses EA “refletem”, “exprimem” uma certa ideologia prévia, é melhor aqui raciocinar em termos de discurso. A ideologia - são também as práticas e objetos por meio dos quais as pessoas são disciplinadas, organizam o espaço onde vivem e dão sentido aos múltiplos gestos de sua existência cotidiana. Os EA colocados nas lixeiras têm o poder de converter um objeto utilitário atribuindo-lhe um rito purificador (“limpo”) que permite aos turistas agir para a proteção do planeta e, ao fazê-lo, se comportar como bons cidadãos, membros de uma comunidade moral globalizada.

Não podemos nos deter aí. É preciso levar em conta a instituição ou instituições que gerenciam a lixeira, a qual é apenas um exemplar de um modelo produzido em série. Foram necessários agentes coletivos para arrecadar fundos, projetar as lixeiras, os sacos e seus EA, controlar sua produção; mas também para gerenciar a substituição de sacos, tratar os rejeitos. “Férias Limpas” e “Gestos Limpos” não são apenas EA prescritivos, são também designações de campanhas nacionais contra “rejeitos selvagens” liderados pela associação “Progresso e meio ambiente”, fundada em 1971, cuja sede fica a mais de 400 quilômetros dessa área de piquenique, em Paris. Seu logo também se encontra, aliás, na parte superior do saco plástico1 1 . “Férias Limpas” mudou seu nome em 2017 para “Gestos Limpos - Férias Limpas”; isso explica por que existem dois EA na lixeira. . Em seu site, esta ONG define assim seus objetivos:

A associação permite que a comunidade de atores (cidadãos, empresas, coletividades locais, poderes e atores públicos e associações) atue em conjunto concretamente para a prevenção de rejeitos selvagens e marinhos.)

(http://www.gestespropres.com/qui-sommes-nous/ ; acesso setembro 4, 2019)

A existência de EA na referida lixeira implica uma nova divisão de responsabilidades e poderes: não é mais a cidade ou o Estado que assume essa responsabilidade, mas um ator de um novo tipo, uma ONG que se apresenta ela própria como coordenadora de diversas instituições, por meio de gêneros de discurso específicos: por exemplo, uma “parceria” firmada com a “Associação dos Prefeitos da França”.

Podemos ir mais longe, expandir a rede que a lixeira desencadeia: na parte inferior do saco está “NF” [norma francesa] em branco sobre fundo preto. Trata-se de uma certificação que atesta a conformidade do produto às características de segurança e qualidade. Essa certificação liga o saco plástico a uma instituição, a Afnor (Associação Francesa de Normalização). Trata-se de um ator que atribui referenciais de certificação para cada categoria de produtos. A Afnor ela própria se inscreve em um espaço mais vasto porque representa a França junto a organizações internacionais, em particular a “Organização Internacional de Normalização” e o “Comitê Europeu de Normalização”, os quais definiram seus próprios EA na forma de siglas: ISO e CEN. Tais siglas são objeto de duras negociações de ordem linguística. “NF” faz parte da sintaxe do francês, que coloca após o nome o adjetivo relacional, enquanto ISO tem afinidades com a sintaxe do inglês (“International Organization for Standartization”), mas, por razões políticas, não se adota totalmente tal sintaxe, de modo que a sigla apareça desvinculada de uma língua específica.

6.2. Uma área gramada

Uma lixeira é uma realidade material compacta, bem delimitada. É em suportes desse tipo que se pensa espontaneamente quando se trata de EA. Mas o suporte pode ser menos facilmente delimitado e a aderência menos imediata. Como no caso desta placa colocada em uma área gramada entre a beira da estrada e um muro do Château de Vincennes, no subúrbio parisiense. A aderência é aqui assegurada por uma estaca plantada no solo e os transeuntes devem identificar a zona de suporte da EA, ou seja, a superfície afetada por essa “poda tardia”.

O texto do EA diz:

PODA TARDIA = ZONA DE REFÚGIO PARA

PROTEGER A NATUREZA

PERMITIR QUE A FLORA E A FAUNA COMPLETEM

SEU CICLO DE DESENVOLVIMENTO

PARA SE REPRODUZIR E ASSIM PRESERVAR A BIODEVERSIDADE

O EA converte em suporte, em totalidade delimitável e significante, uma área até então despercebida. Sem este cartaz, ninguém prestaria atenção ao fato de que há ali um espaço digno de consideração e que a grama não é cortada nesta época do ano. O pedestre que a lê não pode mais perceber essa área nos arredores da cidade como um componente insignificante da paisagem; a placa faz dela um fragmento da natureza, elemento de preocupação ecológica para a Prefeitura de Vincennes, cujo nome e brasão aparecem no topo da placa. Ela se apresenta como um ator que busca uma verdadeira política de proteção ambiental, baseada em um conhecimento científico, como testemunha o léxico adotado (cf. o uso de “fauna”, “flora”, “ciclo de desenvolvimento”, “biodiversidade”).

7. Conclusão

A sociedade contemporânea é atravessada por uma tendência de fundo: a multiplicação de EA sobre suportes anteriormente desprovidos de tais EA. É evidente para seres não humanos, mas também para humanos, quer se trate de pacientes de hospitais, de trabalhadores, de manifestantes, de tatuados. A análise desses EA mobiliza elementos diversificados, cuja apreensão leva a tecer múltiplas redes, nas quais o material, o institucional e o ideológico se mostram indissociáveis.

Estudar os EA, portanto, me parece uma tarefa necessária e interessante para a análise do discurso. Mas isso implica que voltemos a um pressuposto muito enraizado que consiste em separar rigorosamente a linguagem e o mundo, que façamos entrar no espaço do discurso seres híbridos, onde palavras e coisas são indissociáveis. Certamente, há muito tempo, há um interesse na análise do discurso pelas condições materiais de emergência e desenvolvimento do discurso; isso é particularmente evidente para aqueles que estudam a mídia, na qual os dispositivos tecnológicos desempenham um papel essencial; mas também para pesquisas sobre a relação entre linguagem e trabalho, onde os agentes estão constantemente em contato com artefatos. Mas estas pesquisas encontram apenas ocasionalmente os EA, apreendidos no quadro limitado de suas áreas. Falta uma problemática mais geral, transversal aos múltiplos campos de atividade.

Essa problemática se inscreve ela própria em uma perspectiva mais ampla, que consiste em levar em conta a heterogeneidade do universo do discurso. A análise do discurso tem tudo a ganhar acolhendo fenômenos que ela tem tendência a rejeitar como periféricos. É por isso que, de minha parte, tenho me esforçado em fazê-lo, interessando-me pelos discursos constituintes e pela aforização; outros voltam sua atenção para as novas tecnologias de comunicação. Tal ampliação não consiste em justapor regiões heterônomas, mas em pensar, simultaneamente, na especificidade de cada uma e em sua profunda interpenetração em nossa existência cotidiana.

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  • 1
    . “Férias Limpas” mudou seu nome em 2017 para “Gestos Limpos - Férias Limpas”; isso explica por que existem dois EA na lixeira.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Mar 2021
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    27 Out 2020
  • Aceito
    03 Nov 2020
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