Resumo
Nesta investigação averiguou-se a sensibilidade do acento em português europeu (PE) ao peso silábico, tema ainda debatido na fonologia desta língua, com o objetivo de responder a duas questões: 1) a restrição à acentuação na antepenúltima sílaba pelo peso da penúltima sílaba está ativa nos falantes nativos do PE?; 2) a restrição à acentuação na antepenúltima sílaba pela presença dos segmentos rótico forte e/ou palatais na posição de ataque da última sílaba está ativa nos falantes nativos do PE? Setenta falantes nativos monolingues de Portugal continental participaram na experiência, na qual ouviram individualmente pseudopalavras que avaliaram em termos de aceitabilidade. Os resultados sugerem que ambas as restrições estão ativas, o que sustenta as propostas de que o sistema acentual do PE é sensível ao peso silábico (e.g., Bisol, 1992; Carvalho, 2011; Wetzels, 2007) e de que o rótico forte e as consoantes palatais possuem uma estrutura fonológica complexa (Veloso, 2019; Wetzels, 2000). A identificação das condições segmentais que restringem a acentuação na antepenúltima sílaba permanece como uma possibilidade interessante para estudos futuros.
Palavras-chave:
acento
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peso silábico
;
segmentos complexos
;
português europeu
;
método experimental
Abstract
This study investigated the sensitivity of stress in European Portuguese (EP) to syllable weight, a topic still debated in the phonology of this language. The aim was to address two questions: 1) Is the restriction on antepenultimate stress due to the weight of the penultimate syllable active in EP native speakers? 2) Is the restriction on antepenultimate stress due to the presence of strong rhotics and/or palatals in the onset position of the final syllable active in EP native speakers? Seventy monolingual native speakers from mainland Portugal participated in the experiment, in which they individually listened to pseudowords and rated their acceptability. The results suggest that both restrictions are active, which supports the proposals that the stress system of European Portuguese is sensitive to syllable weight (e.g., Bisol, 1992; Carvalho, 2011; Wetzels, 2007) and that the strong rhotic and palatal consonants have a complex phonological structure (Veloso, 2019; Wetzels, 2000). The identification of the segmental conditions that restrict stress placement on the antepenultimate syllable remains an interesting possibility for future studies.
Keywords:
stress
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syllable weight
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complex segments
;
European Portuguese
;
experimental method
1. Introdução
Na literatura da fonologia do português, existe um amplo consenso relativamente a uma propriedade distributiva do acento no nível fonético, designada por “janela de três sílabas”. De acordo com esta restrição, em português, o acento recai numa das últimas três sílabas das palavras (Bisol, 2001, 2013; Mateus & d’Andrade, 2000; I. Pereira, 2020), predominando palavras com acento na penúltima sílaba, seguidas por palavras com acento na última e, por fim, na antepenúltima (Bisol, 2001; Lee, 1997; I. Pereira, 2020). Embora o acento seja restrito a estas posições silábicas, a questão sobre que fatores determinam a sua localização continua a ser tema de discussão. Na literatura, existem duas grandes abordagens teóricas relativamente à análise da acentuação do português: a morfológica e a quantitativa. Estas abordagens partem, em geral, da distinção entre dois subsistemas, o dos verbos e o dos não verbos, cada qual com regras próprias (Mateus & d’Andrade, 2000; Wetzels, 2003, 2007).
A abordagem morfológica analisa a posição do acento com base na informação morfológica da palavra e generaliza a acentuação dos não verbos do português da seguinte forma (entre outros, Mateus & d’Andrade, 2000; I. Pereira, 2020):
(a) O acento recai na última vogal do radical, que corresponde à palavra lexical desprovida do índice temático (IT).
Os padrões que não seguem esta regularidade são analisados como lexicalmente marcados.
A abordagem quantitativa, por sua vez, defende que o peso silábico desempenha um papel fundamental na atribuição do acento em português (e.g., Bisol, 1992, 2013; Carvalho, 2011, 2022, 2023; Wetzels, 2003, 2007). De acordo com esta abordagem, a atribuição do acento depende da estrutura das duas últimas sílabas, ou seja, se são sílabas leves ou pesadas. Considera-se pesada a sílaba que contém ditongo decrescente ou que é fechada por uma consoante. Assim, estabelecem-se as generalizações (b) e (c):
(b) O acento recai na última sílaba se essa sílaba for pesada (e.g., jejum, bacalhau, chafariz, animal, etc.); nos outros casos, o acento recai na penúltima sílaba;
(c) O acento não pode recuar além da penúltima sílaba se essa sílaba for pesada (e.g., cadastro vs. *cádastro, arauto vs. *árauto).
De facto, as generalizações (a), da abordagem morfológica, e (b), da quantitativa, preveem igualmente a distribuição do acento de não verbos no léxico do português1. Além disso, a classificação das palavras como marcadas ou não coincide nas duas abordagens.
Neste contexto, Wetzels (2003, 2007) destaca a relevância da segunda generalização da abordagem quantitativa (c), uma vez que esta é capaz de prever o padrão de acentuação na antepenúltima sílaba observado no léxico, algo que a abordagem morfológica não consegue alcançar.
Na Tabela 1, apresenta-se a distribuição do acento em função do peso da penúltima sílaba, de acordo com duas seleções lexicais: a Seleção Lexical de Jspell (SLJspell), baseada no dicionário do Jspell para o português europeu (PE) (Simões & Almeida, n.d.), e na Seleção Lexical de Portuguese Stress Lexicon (SLPSL), que teve por base o Portuguese Stress Lexicon (PSL) (Garcia, 2014)2.
Número absoluto de ocorrências e valores percentuais da distribuição do acento dos nomes e adjetivos de acordo com o peso da penúltima sílaba
A distribuição encontrada em ambas as seleções confirma a generalização (c), ocorrendo muito poucas proparoxítonas com a penúltima sílaba pesada (SLJspell, 0.01%; SLPSL, 0.05%), como víquingue (SLJspell) e pénalti (SLPSL). Estas ocorrências, consideradas exceções, encontram-se assinaladas a cinzento, na tabela.
Não obstante, esta generalização enfrenta uma limitação: quando a penúltima sílaba é leve, mas o ataque da última sílaba é preenchido por uma consoante rótica forte ou por uma palatal, o acento não pode recuar para além da penúltima sílaba (e.g., casmurro [kɐʒ'muʀu] vs. *['kaʒmuʀu], rebanho ['ʀɨ'bɐɲu] vs. *['ʀɨbɐɲu]). De facto, estes padrões não podem ser explicados pela estrutura da penúltima sílaba.
Número absoluto de ocorrências e valores percentuais da distribuição do acento dos nomes e adjetivos de acordo com o tipo de consoante palatal na posição de ataque da última sílaba
Os dados da Tabela 2, que ilustra a distribuição do acento em função do tipo de consoante da última sílaba nas seleções lexicais analisadas, corroboram a limitação apresentada, uma vez que não se atestam proparoxítonas com rótico forte ou palatais, salvo alguns casos com fricativas palatais (SLJspell: /ʒ/ 0.81% - como cônjuge; SLPSL: /ʃ/ 0.60%, /ʒ/ 1.17% - como hipálage).
As propostas teóricas apresentadas em resposta a esta crítica baseiam-se na estrutura fonológica destes segmentos, os quais podem ser analisados como a combinação de dois (auto)segmentos independentes no nível fonológico (Veloso, 2019). Para o rótico forte, Mateus e d’Andrade (2000) defendem que a forma lexical deste segmento na posição intervocálica é a geminada /ɾ. ɾ/, composta por dois /ɾ/ simples em diferentes sílabas. Para as consoantes soantes palatais [ʎ] e [ɲ], Wetzels (2000, 2007) propõe formas subjacentes geminadas, /ʎ.ʎ/ e /ñ.ñ/, respetivamente, no português do Brasil. Já Veloso (2019) sugere uma análise diferente, argumentando que todas as consoantes palatais se combinam com o autossegmento de palatalidade {I}, definido como um dos elementos primitivos da Fonologia de Elementos (conforme Backley, 2011; Kaye et al., 1985). Assim, a complexidade destes segmentos confere peso à sílaba precedente, preenchendo a coda com uma parte da sua estrutura, o que permite analisar estes padrões com base na abordagem quantitativa.
Existem, contudo, contra-argumentos que questionam tanto a abordagem quantitativa quanto o estatuto especial dos segmentos rótico forte e palatais no PE.
Primeiramente, a abordagem quantitativa enfrenta dificuldades em comprovar a sensibilidade ao peso silábico com base apenas no léxico existente, dado que muitas palavras mantiveram a vogal acentuada ao longo da evolução histórica, com poucas exceções (Herman & Wright, 2000); ou seja, não é claro se sílabas fechadas ainda atraem o acento.
Quanto ao estatuto fonológico geminado do rótico forte, não há evidências conclusivas de que continue a fechar a sílaba precedente, como acontecia no latim. Além disso, análises como as de Bonet e Mascaró (1997) indicam diferentes estatutos fonológicos para [ɾ] e [ʀ], corroborados pelos estudos que observam a evolução do rótico forte no PE para fricativas posteriores como [ʁ]/[χ]/[x] (Amorim, 2014; Pereira et al., 2020; Rennicke & Martins, 2013) e por estudos na área da aquisição (Amorim, 2014; R. Pereira et al., 2020), que mostram que crianças categorizam [ɾ] e [ʀ] de forma distinta. A existência de dois róticos na fonologia da língua colocaria em causa a explicação segundo a qual o peso da penúltima sílaba é conferido pela complexidade do rótico forte no nível subjacente.
No caso das consoantes palatais, a proposta de Veloso (2019) é contestada por R. Pereira (2020) que argumenta, por exemplo, que há proparoxítonas com palatais na última sílaba (e.g., cônjuge) e que palavras com outras fricativas na mesma posição também são raras (e.g., epígrafe), rejeitando, assim, o estatuto especial das palatais.
Neste sentido, o comportamento sincrónico do rótico forte e das palatais pode ser um vestígio diacrónico, em vez de uma característica ativa na fonologia do PE (Bonet & Mascaró, 1997; I. Pereira, 2020; R. Pereira, 2020).
Com o objetivo de contribuir para a compreensão dos mecanismos que regem a acentuação no PE, no presente estudo adotou-se uma metodologia de cariz experimental. Considerando duas restrições fonológicas, uma prevista pela abordagem quantitativa e outra observada no léxico, foram formuladas duas questões de investigação:
i. A restrição ao acento na antepenúltima sílaba pelo peso da penúltima sílaba está ativa nos falantes nativos do PE?
ii. A restrição ao acento na antepenúltima sílaba pelas consoantes rótica forte e/ou palatais na posição de ataque da última sílaba está ativa nos falantes nativos do PE?
Ao responder à primeira questão, pretende-se verificar se o sistema de acentuação dos não verbos no PE é sensível ao peso silábico. Com a segunda, procura-se investigar a possível existência de segmentos complexos na fonologia desta variedade.
2. Presente estudo
Foi realizada uma experiência de julgamento de aceitabilidade de pseudopalavras, de modo a averiguar a sensibilidade do acento de não verbos do PE ao peso silábico e a existência de segmentos complexos nesta língua. Esta escolha metodológica justifica-se pelas limitações de se inferir conclusões robustas apenas com base na observação do léxico existente, especialmente perante as críticas baseadas na mudança histórica. Uma vez que as pseudopalavras não existem no léxico, o julgamento é feito de acordo com o padrão de acentuação mental de cada falante.
Metodologia
Participantes
Setenta e dois falantes (38 do sexo feminino) nativos monolingues de PE, oriundos de Portugal continental, participaram voluntariamente nesta experiência. Consideraram-se os seguintes critérios de inclusão para este estudo: 1) ter sido falante monolingue do PE na infância3; 2) ter pais portugueses; 3) ser oriundo de Portugal continental; 4) não ter problemas auditivos e 5) ser jovem adulto. Assim, os dados de dois participantes, que não satisfizeram os critérios, foram excluídos das análises. Desta forma, foram considerados nas análises estatísticas os dados de 70 participantes (sexo feminino = 37), com idades compreendidas entre os 18 e os 40 anos (M = 26.16 anos; DP = 3.54). O facto de o intervalo de idades dos participantes ser relativamente restrito, permitiu-nos minimizar um eventual efeito de uma possível mudança diacrónica. A maior parte dos participantes (97%) tinha um grau académico igual ou superior à licenciatura, ou estava a frequentar uma licenciatura aquando da recolha de dados. Nenhum deles apresentava problemas auditivos.
Materiais
De modo a responder às questões colocadas neste estudo, foram criadas 80 pseudopalavras que seguiam as regras das sequências segmentais e de redução vocálica (RV) do PE. A lista de pseudopalavras foi revista por dois linguistas, falantes nativos do PE (disponível no Apêndice 1). Estas pseudopalavras organizam-se em seis tipos diferentes, a seguir apresentados na Tabela 3. Neste estudo, o rótico forte é representado pelo símbolo R, proposto por Rennicke e Martins (2013), como fonema de escopo mais abstrato.
• Tipo 1: Palavras trissilábicas proparoxítonas cuja penúltima sílaba é fechada pela consoante ou pelo elemento nasal, abrangendo quatro padrões segmentais: ˈCV.CVl.CV, ˈCV.CVr.CV, ˈCV.CVs.CV e ˈCV.CVN.CV (e.g., [ˈgɛfaɫkɐ], [ˈtabiʃku]);
• Tipo 2: Palavras trissilábicas proparoxítonas com uma rótica forte ([ʁ]4 ou [r]) ou palatal ([ʎ, ɲ, ʃ, ʒ]) no ataque da última sílaba, abrangendo seis padrões segmentais: ˈCV.CV.RV e ˈCV.CV.CpaltV (e.g., [ˈgɛfɐʀɐ], [ˈtabiɲu]);
• Tipo 3: o grupo de controlo formado por palavras trissilábicas proparoxítonas cuja penúltima sílaba é aberta: ˈCV.CV.CV (e.g., [ˈkasidɐ], [ˈmɔtɐsu]);
• Tipo 4: Palavras paroxítonas com a mesma sequência segmental das palavras do Tipo 1: CV.ˈCVl.CV, CV.ˈCVr.CV, CV.ˈCVs.CV e CV.ˈCVN.CV (e.g., [gɨˈfaɫkɐ], [tɐˈbiʃku]);
• Tipo 5: Palavras paroxítonas com a mesma sequência segmental das palavras do Tipo 2: CV.ˈCV.RV e CV.ˈCV.CpaltV (e.g., [gɨˈfaʀɐ], [tɐˈbiɲu]);
• Tipo 6: Palavras paroxítonas com a mesma sequência segmental das palavras de Tipo 3: CV.ˈCV.CV (e.g., [kɐˈsidɐ], [muˈtasu]).
Estes seis tipos de palavras foram criados com o objetivo de responder às questões anteriormente formuladas. A comparação entre as respostas às palavras do Tipo 1 e do Tipo 3 permitiu-nos examinar se a restrição à acentuação na antepenúltima sílaba pelo peso da penúltima sílaba está ativa nos participantes nativos do PE, permitindo-nos averiguar a primeira questão. Por outro lado, a comparação entre as respostas às palavras do Tipo 2 e do Tipo 3 permitiu-nos verificar se a inexistência de palavras do Tipo 2 no léxico é uma restrição ativa no PE ou apenas uma lacuna lexical, sendo tratadas da mesma maneira que as proparoxítonas do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV), respondendo, assim, à segunda questão.
As comparações entre as pseudopalavras do Tipo 1 e do Tipo 2 com as do Tipo 4 e do Tipo 5, respetivamente, serviram para verificar se a posição do acento tem influência nas respostas dos participantes. Ademais, as palavras dos Tipos 4 e 5 serviram como uma forma de controlo, na medida em que, atendendo apenas à posição do acento, era esperado que fossem aceites pelos falantes nativos como possíveis na língua. Caso não fossem, isso poderia ser devido à sua sequência segmental, o que colocaria em causa a validade das palavras dos Tipos 1 e 2. Por outras palavras, caso os participantes aceitassem as palavras dos Tipos 4 e 5, mas não as dos Tipos 1 e 2, a sequência segmental destas últimas não poderia constituir a razão pela qual seriam rejeitadas.
As palavras do Tipo 1 e do Tipo 2 desempenham um papel fundamental neste estudo, na medida em que, de acordo com a abordagem quantitativa do sistema de acento dos não verbos, o Tipo 1 é inexistente e uma forma não admissível no português. Relativamente às palavras do Tipo 2, embora sejam formas não confirmadas no léxico da língua, são admissíveis. As palavras do Tipo 3 surgem como a condição de controlo, servindo de linha de base na análise, já que correspondem a uma forma existente e, portanto, admissível, embora possuam um padrão de acentuação marcado, tal como as palavras dos Tipos 1 e 2.
Cada um dos segmentos dos Tipos 1, 2, 4 e 5 foi inserido em dois contextos segmentais:
a) “guefa_(c)a”;
b) “tabi_(c)o”.
As vogais /i/ e /a/ foram escolhidas para a sílaba crítica, isto é, a penúltima sílaba, por dois motivos: i) a vogal /i/ resiste ao fenómeno de RV, mantendo-se a realização fonética [i]; ii) embora /a/ em posição átona se realize como [ɐ], sofrendo RV, não é, geralmente, apagado. Já as vogais /e, ɛ/ e /ɔ, o/ em posição átona, que se realizam como [ɨ] e [u], respetivamente, são frequentemente apagadas na fala corrente, e, consequentemente, perde-se uma sílaba da palavra (Freitas et al., 2015; Mateus & d’Andrade, 2000), o que poderia afetar o resultado da nossa experiência.
Quanto ao rótico forte, para o Tipo 2, foram criados dois tipos de palavras com duas variantes fonéticas: a vibrante múltipla alveolar [r] e a variante fricativa. Assim sendo, foram criadas oito palavras para os Tipos 1 e 4, e 12 palavras para os Tipos 2 e 5. Paralelamente, foram criadas 20 palavras dos Tipos 3 e 6 (igualando o mesmo número de palavras-alvo). Desta maneira, foram construídas 80 pseudopalavras. Além disso, foram criados 10 outros itens que funcionaram como fillers. A lista de pseudopalavras encontra-se no Apêndice 1.
Os estímulos foram gravados por uma falante nativa do PE, natural do Norte de Portugal, numa cabine do Laboratório de Cognição Humana da Escola de Psicologia da Universidade do Minho. Foi utilizado o microfone TRUST Mico USB ligado a um computador portátil. As gravações foram realizadas com recurso ao programa Praat (Boersma & Weenink, 2020), a uma frequência de amostragem de 48000 Hz, com 16 bits por amostra, e os dados armazenados em formato mono .wav (Windows PCM) sem compressão. Foram gravados separadamente o enunciado “Isto é” e os estímulos antecedidos do artigo indefinido concordante com a última vogal (e.g., uma guefalca, um tabisco), para que pudessem ser apresentados em sequência como uma frase. Desta forma, garantiu-se que os estímulos fossem processados como um nome. Posteriormente, os estímulos foram manipulados com o software Audacity (Audacity Team, 2019) de modo a remover o ruído e a normalizar a amplitude de pico de cada gravação. Foi ajustado o intervalo no início para ±0,7 segundos e no fim para ±0,3 segundos.
Como ilustrado na Tabela 4, foram elaboradas duas listas de estímulos compostas por pares de pseudopalavras com a mesma sequência segmental, mas com posições acentuais diferentes, para que os participantes ouvissem apenas uma das formas do mesmo par. Nesta tabela, A indica acento na antepenúltima sílaba e P, na penúltima.
Relativamente aos fillers, estes foram os mesmos nas duas listas. Assim, incluindo os fillers (n = 10) cada lista continha 50 palavras na totalidade.
Lista 1: Tipo 1A (4) + Tipo 2A (6) + Tipo 3A (10) + Tipo 4A (4) + Tipo 5A (6) + Tipo 6A (10) + Fillers (10) = 50
Lista 2: Tipo 1B (4) + Tipo 2B (6) + Tipo 3B (10) + Tipo 4B (4) + Tipo 5B (6) + Tipo 6B (10) + Fillers (10) = 50
Procedimento
As recolhas foram realizadas individualmente numa cabine individual da Biblioteca Geral da Universidade do Minho ou num espaço silencioso da Biblioteca da FLUP. Os estímulos foram apresentados via Praat (Boersma & Weenink, 2020)5, instalado num computador TOSHIBA dynabook PT65DGP-RJA, utilizando auscultadores Sennheiser HD 200 Pro ligados à placa de som interna do mesmo.
Todos os participantes assinaram uma declaração de consentimento, na qual expressaram a aceitação voluntária da sua participação, bem como a sua autorização para a recolha e análise de dados para fins académicos, sob a condição de anonimato. Foi ainda aplicado um questionário relativo às informações sociodemográficas, de forma a obter informações que permitissem assegurar um grupo de participantes com características relativamente homogéneas e apropriadas, tendo em conta os propósitos da investigação. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos, com 35 participantes para cada lista.
Antes de começar a experiência, a investigadora responsável leu as instruções aos participantes. Essas mesmas instruções foram projetadas no ecrã do PC no início da experiência, como se pode ver na Figura 1. Foram programados dois segundos de silêncio antes de cada novo estímulo e um segundo no final do mesmo, como intervalo entre estímulos.
Os participantes ouviram cada estímulo uma vez, e estes foram apresentados por ordem aleatória. Não houve possibilidade de repetição da audição. Os participantes utilizaram o rato do computador, ligado ao PC por cabo, para escolherem a resposta que consideravam correta - <Sim> ou <Não>. As opções de resposta eram apresentadas no ecrã juntamente com a pergunta “É aceitável?” (ver Figura 2).
Tratamento dos dados
Os dados obtidos foram tratados quantitativamente, realizando uma análise estatística com o software R Studio (RStudio Team, 2023) e o Excel 2016, tendo sido este último também usado para a criação de gráficos.
De modo a responder às questões de investigação, foram efetuados dois tipos de análises. Numa primeira análise, tendo como variável dependente a taxa de aceitação das pseudopalavras, consideraram-se como variáveis independentes a posição do acento (com duas condições - penúltima sílaba vs. antepenúltima sílaba) e o tipo de penúltima sílaba, ou tipo de segmentos complexos na posição de ataque da última sílaba, com 3 condições: 1) penúltima sílaba aberta (CV); 2) a penúltima sílaba fechada (CVC); e 3) segmento complexo (consoante palatal ou rótica; SC) na última sílaba. Numa segunda análise, para além destas, considerou-se também como fator o tipo de resposta (aceitação vs. rejeição) e, como variável dependente, o tempo de reação na emissão das respostas.
Hipóteses
Tendo em conta as questões de investigação colocadas, e postulando o sistema do acento de não verbos do PE sensível ao peso silábico, foram formuladas duas hipóteses:
H1. Se a restrição ao acento na antepenúltima sílaba pelo peso da penúltima sílaba estiver ativa nos falantes nativos do PE, esperava-se que os participantes rejeitassem mais as palavras do Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV) do que as do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV).
Caso esta hipótese se confirmasse, poder-se-ia afirmar que a restrição à acentuação na antepenúltima sílaba pelo peso da penúltima sílaba está ativa nos falantes nativos do PE. Consequentemente, haveria um argumento externo para a sensibilidade ao peso silábico do sistema do acento do PE.
H2. Se a restrição ao acento na antepenúltima sílaba pelas consoantes rótica forte e/ou palatais na posição de ataque da última sílaba estiver ativa nos falantes nativos do PE, esperava-se que os participantes rejeitassem mais as palavras do Tipo 2 (ˈCV.CV.RV/ˈCV.CV.CpaltV) do que as do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV).
Se esta hipótese se confirmasse, poder-se-ia afirmar que tal restrição está ativa nos falantes nativos do PE. Desta maneira, haveria dados para sustentar a existência de segmentos complexos na fonologia desta língua.
Adicionalmente, previa-se que os participantes aceitassem mais as palavras dos Tipos 4, 5 e 6 do que as palavras dos Tipos 1, 2 e 3, dado que a acentuação na penúltima sílaba quando a última é leve/aberta é o padrão mais confirmado no léxico do português e considerado como não marcado, não apenas pelos autores da abordagem quantitativa (Bisol, 1992, 2013; Carvalho, 2011, 2022, 2023; Wetzels, 2003, 2007), mas também pelos da abordagem morfológica (e.g., Mateus & d’Andrade, 2000; I. Pereira, 2020).
3. Resultados
Análise das respostas de aceitação
Com o intuito de verificar se existiam diferenças nas taxas de aceitação conforme a posição do acento, foi efetuada uma análise estatística para o modelo logístico "resposta2 ~ condicao1*acento + (condicao1+acento|subject) + (1|item)", com base nas 2800 respostas dos participantes nesta medida.
No Gráfico 1 estão representadas as percentagens de aceitação de cada tipo de pseudopalavras, sendo possível observar-se que, em geral, as que têm acento na penúltima sílaba foram mais aceites do que as que possuem acento na antepenúltima sílaba.
Relativamente aos resultados das análises estatísticas, verificaram-se efeitos principais do tipo de condição silábica, χ2(2) = 14.53, p < .001 e da posição do acento χ2(1) = 32.05, p < .001, bem como um efeito de interação entre os dois fatores, χ2(2) = 11.21, p = .004. Quanto à condição silábica, os participantes aceitaram mais as condições CV e SC do que a condição CVC (p < .001 e p = .026, respetivamente). No que diz respeito à posição do acento, os participantes mostraram preferência por palavras com a penúltima sílaba acentuada em todas as condições silábicas. As análises post hoc do efeito de interação entre os dois fatores permitiram verificar que existiam diferenças significativas nos níveis de aceitação das condições por posição do acento. Quando o acento estava na antepenúltima sílaba, verificaram-se diferenças significativas entre todas as condições: CV vs. CVC (p < .001); CV vs. SC (p = .012); CVC vs. SC (p = .012), tendo sido a condição CV a que registou a maior taxa de aceitação, e CVC a menor. Por outro lado, não se verificaram diferenças significativas em nenhuma comparação entre condições quando o acento estava na penúltima sílaba. Ou seja, a taxa de aceitação entre as condições só diferiu quando o acento estava na antepenúltima sílaba. Esta interação revelou ainda a existência de diferenças significativas entre as posições do acento em função da condição silábica, tendo sido as palavras com a penúltima sílaba acentuada mais aceites do que as palavras com a antepenúltima acentuada nas condições CVC e SC (p < .001). Embora se tenha confirmado o mesmo padrão na comparação entre as palavras acentuadas na penúltima e as palavras acentuadas na antepenúltima sílaba na condição CV, esta diferença é apenas marginalmente significativa (p = .062).
Análise dos tempos de reação
Seguidamente, foram analisados os tempos de reação com o Modelo linear misto "rt.p ~ condicao1*resposta2*acento + (condicao1+acento|subject) + (1|item)". O Gráfico 2 representa a distribuição dos tempos de reação (segundos) para as respostas “Sim”/“Não” para cada condição silábica, conforme a posição do acento e o Gráfico 3 as médias dos tempos de reação nas mesmas condições. Nas análises dos tempos de reação, não foram consideradas as respostas para as quais não havia registo dos tempos de reação devido a um problema técnico (83 respostas: 2.96% do total de dados recolhidos) nem os valores de tempos de respostas que estavam dois desvios padrão abaixo ou acima da média por condição e por participante (48 respostas: 1.71% do total de dados recolhidos). Assim sendo, foram consideradas 2669 respostas nesta análise.
Verificou-se um efeito principal do tipo de resposta, F(1, 2337.52) = 20.16, p < .001. Verificou-se também um efeito de interação entre o tipo de condição silábica (CV, CVC ou SC) e o tipo de resposta, F(2, 2496.92) = 8.64, p < .001, assim como um efeito de interação entre o tipo de resposta e a posição do acento, F(1, 2225.25) = 22.09, p < .001. Além disso, verificou-se uma interação entre os três fatores considerados nesta análise (condição silábica × tipo de resposta × posição do acento), F(2, 2507.23) = 5.08, p = .006.
Em relação ao tipo de resposta, os resultados indicam que os participantes demoraram mais a emitir respostas de negação (M = 4.12 s) do que de aceitação (M = 3.80 s).
Distribuição dos tempos de reação para as respostas de aceitação e rejeição por condição silábica e posição do acento
As análises post hoc do efeito de interação entre o tipo de condição silábica e o tipo de resposta revelaram que os participantes foram mais rápidos a emitir respostas positivas do que negativas na condição CV (3.57 s vs. 4.05 s; p = .012), revelando um padrão inverso na condição CVC (3.98 s vs. 3.93 s; p = .015). Relativamente à condição SC, embora os participantes tenham emitido mais rapidamente respostas positivas do que negativas (4.11 s vs. 4.39 s), a diferença não atingiu significância estatística. Por outro lado, considerando a condição em função do tipo de resposta, os participantes emitiram mais rapidamente respostas positivas na condição CV do que em CVC (p = .008) e do que em SC (p = .029). Nas respostas negativas não se verificou nenhuma diferença significativa entre as condições.
As análises post hoc do efeito de interação entre o tipo de resposta e a posição do acento demonstraram que os participantes foram mais rápidos a emitir respostas positivas do que negativas (3.47 s vs. 4.22 s) quando o acento das palavras recaía na penúltima sílaba (p = .001). Por outro lado, demoraram mais a emitir respostas de aceitação do que de rejeição (4.26 s vs. 4.07 s) quando o acento recaía na antepenúltima sílaba (p = .001). Considerando a posição do acento por tipo de resposta, os participantes responderam mais rapidamente de forma positiva às palavras com a penúltima sílaba acentuada do que às palavras com a antepenúltima acentuada (3.47 s vs. 4.26 s; p < .001). Não se verificou uma diferença significativa na latência das respostas negativas conforme a posição do acento.
Médias dos tempos de reação para as respostas de aceitação e rejeição por condição silábica e posição do acento
Por fim, as análises post hoc da interação entre os três fatores revelaram que, nas palavras acentuadas na antepenúltima sílaba, os participantes demoraram mais tempo a rejeitar as palavras na condição SC do que na condição CVC (p = .027), tendo sido a condição CVC com a antepenúltima sílaba acentuada aquela em que se verificou uma maior rapidez nas respostas de rejeição. Por outro lado, os participantes demoraram mais tempo a aceitar palavras nas condições CVC (p < .001) e SC (p = .014) do que em CV. No que diz respeito à comparação entre as condições CVC e SC com o acento na antepenúltima sílaba, verificou-se uma diferença marginalmente significativa nas respostas de aceitação (p = .057), demorando os participantes mais tempo na condição CVC do que na condição SC. Nas palavras acentuadas na penúltima sílaba não se verificou qualquer diferença entre as várias condições silábicas, tanto no caso das respostas de aceitação como de rejeição.
4. Discussão
Com a realização deste estudo pretendeu-se responder às seguintes questões através do método experimental:
i. A restrição ao acento na antepenúltima sílaba pelo peso da penúltima sílaba está ativa nos falantes nativos do PE?
ii. A restrição ao acento na antepenúltima sílaba pelas consoantes rótica forte e/ou palatais na posição de ataque da última sílaba está ativa nos falantes nativos do PE?
Antes da discussão dos resultados à luz das questões de investigação e das hipóteses colocadas, refletir-se-á sobre o padrão de acentuação (marcado vs. não marcado), na medida em que a obtenção dos resultados esperados a este nível é o garante de que a manipulação realizada neste estudo funcionou corretamente, dado que este constituía um procedimento de controlo.
Como previsto, confirmou-se a preferência dos participantes pelas palavras acentuadas na penúltima sílaba em todas as condições silábicas (CV, CVC e SC). É pertinente destacar que, na condição CV, os participantes também diferenciaram o padrão de acentuação não marcado (CV.ˈCV.CV) do marcado (ˈCV.CV.CV), embora a diferença tenha sido apenas marginalmente significativa.
Através da análise dos tempos de reação, foi possível constatar que os participantes foram mais rápidos a aceitar as palavras com o padrão de acentuação não marcado do que as palavras com o padrão marcado, verificando-se que aceitaram mais rapidamente as palavras de Tipo 4 (CV.ˈCVC.CV), 5 (CV.ˈCV.RV/CV.ˈCV.CpaltV) e 6 (CV.ˈCV.CV), cujo acento recai na penúltima sílaba, em comparação com as de Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV), 2 (ˈCV.CV.RV/ˈCV.CV.CpaltV) e 3 (ˈCV.CV.CV), cujo acento recai na antepenúltima sílaba. Além disso, a análise dos tempos de reação por condição demonstrou que foi mais fácil aceitar do que rejeitar as palavras com o padrão de acentuação não marcado (Tipos 4, 5 e 6), uma vez que, para estes tipos de palavras, os participantes emitiram as respostas positivas mais rapidamente do que as negativas. Pelo contrário, custou-lhes mais aceitar do que rejeitar as palavras com o padrão de acentuação marcado (Tipos 1, 2 e 3), demorando mais tempo, nestes casos, a emitirem respostas positivas do que negativas.
Estes resultados parecem indicar que os falantes nativos de PE recorreram à sua intuição, ou seja, ao conhecimento implícito da gramática da língua, permitindo aceder a essas regras gramaticais subjacentes. Estes resultados corroboram alguma da literatura existente sobre este assunto, que identifica a penúltima sílaba como a posição de acento mais frequente. Consequentemente, os resultados desta experiência sustentam as generalizações estabelecidas tanto na abordagem quantitativa (b) como na abordagem morfológica (a).
Além disso, estes resultados permitem atestar a fiabilidade dos dados obtidos nesta experiência. Como as palavras paroxítonas dos Tipos 4, 5 e 6, cuja sequência segmental é a mesma das palavras proparoxítonas dos Tipos 1, 2 e 3, respetivamente, foram aceites com uma taxa elevada e não foram observadas diferenças significativas entre os Tipos 4, 5 e 6, é possível afirmar com alguma segurança que as diferenças verificadas entre os Tipos 1, 2 e 3 não se deveram às sequências segmentais. Parece seguro, então, assumir que as diferenças encontradas se deveram às condições silábicas manipuladas na experiência, permitindo retirar conclusões acerca das hipóteses formuladas a este respeito.
Relativamente à primeira hipótese (H1), os resultados a apoiam, uma vez que se verificou que a taxa de aceitação das palavras do Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV), constituído por palavras proparoxítonas com a penúltima sílaba pesada, foi menos de metade da taxa de aceitação das palavras do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV), constituído por palavras proparoxítonas com a penúltima sílaba leve. Por outro lado, entre os Tipos 4 (CV.ˈCVC.CV) e 6 (CV.ˈCV.CV), que têm as mesmas sequências segmentais dos Tipos 1 e 3, respetivamente, mas nas quais o acento recai na penúltima sílaba, não se verificaram diferenças estatisticamente significativas. A tendência verificada para evitar a acentuação na antepenúltima sílaba quando a penúltima é pesada fornece evidência de que a restrição em questão poderá estar ativa nos falantes nativos do PE na avaliação de novas palavras.
Os dados dos tempos de reação corroboraram esses resultados. Os participantes demoraram mais tempo a aceitar as palavras do Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV) do que as do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV). Ou seja, mesmo quando aceitaram as palavras do Tipo 1, o facto de terem demorado mais tempo a fazê-lo pode ser considerado um indicador da sua dificuldade em aceitar este tipo de palavras, em comparação com as palavras do Tipo 3, que serviram como controlo. Recorde-se que as palavras dos Tipos 1 e 3 têm ambas o mesmo padrão de acentuação, considerado marcado na gramática do português, tanto pela abordagem quantitativa como pela morfológica. Assim, a diferença verificada entre o Tipo 1 e o Tipo 3, tanto na análise de aceitação como na de tempos de reação, dever-se-á às diferenças na estrutura da penúltima sílaba, fechada no Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV), e aberta no Tipo 3 (ˈCV.CV.CV). Parece que os nativos de PE, para além de terem ativo o conhecimento do padrão de acentuação gramatical, também têm ativo o conhecimento da restrição à acentuação da antepenúltima sílaba pela penúltima sílaba pesada.
Assim sendo, os resultados obtidos neste estudo sustentam a generalização (c) da abordagem quantitativa relativa ao sistema de acento de não verbos do PE; isto é, o acento não pode recuar além da penúltima sílaba se esta for pesada. Consequentemente, sustentam também a proposta de esta língua ser sensível à quantidade silábica (Bisol, 1992, 2013; Carvalho, 2011, 2022; Pimenta, 2019; Veloso, 2019; Wetzels, 2003, 2007).
No que diz respeito à segunda hipótese (H2), esta também foi sustentada, uma vez que as palavras do Tipo 2 (ˈCV.CV.RV/ˈCV.CV.CpaltV), palavras proparoxítonas com o rótico forte ou uma consoante palatal no ataque da última sílaba, foram menos aceites do que as palavras do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV), palavras da condição de controlo. Por outro lado, não se verificaram diferenças entre as palavras dos Tipos 5 (CV.ˈCV.RV/CV.ˈCV.CpaltV) e 6 (CV.ˈCV.CV), que têm as mesmas sequências segmentais das palavras dos Tipos 2 e 3, respetivamente, mas nas quais o acento recai na penúltima sílaba, tendo sido as palavras do Tipo 5 aquelas em que se registou a taxa de aceitação mais elevada. Assim, esta tendência para evitar a acentuação na antepenúltima sílaba na presença de rótico forte ou palatais na última sílaba fornece evidência de que a restrição em questão poderá estar ativa nos falantes nativos do PE na avaliação de novas palavras.
Os dados dos tempos de reação corroboram os resultados de aceitação. Os participantes demoraram mais tempo a aceitar as palavras do Tipo 2 (ˈCV.CV.RV/ˈCV.CV.CpaltV) do que as do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV). Ou seja, quando os participantes aceitaram as palavras do Tipo 2, demoraram mais tempo a fazê-lo, o que significa que esse tipo de resposta teve mais custo, em comparação com as palavras do Tipo 3, que funcionaram como controlo. Embora ambos os tipos sejam aparentemente idênticos do ponto de vista da estrutura silábica e do padrão de acentuação (ˈCV.CV.CV), estes resultados demonstram que o tipo de segmento na posição de ataque da última sílaba influenciou a decisão e os tempos de reação dos participantes. Em outras palavras, a existência de segmentos complexos no ataque da última sílaba parece restringir a acentuação na antepenúltima sílaba mais do que seria de esperar apenas do padrão de acentuação marcado.
Assim, as diferenças verificadas entre as palavras do Tipo 2 e do Tipo 3, tanto na análise de aceitação como na de tempos de reação, parecem ficar a dever-se às diferenças no segmento de ataque da última sílaba (segmento complexo no Tipo 2 e qualquer outro segmento no Tipo 3). Consequentemente, os resultados deste estudo parecem apoiar a proposta sobre a existência de segmentos complexos na fonologia do PE, nomeadamente o rótico forte e as consoantes palatais, os quais parecem conferir peso à sílaba precedente, tal como defendido por Veloso (2019) e Wetzels (2000, 2007).
Além disso, os resultados indicaram um padrão interessante na comparação entre os Tipos 1 e 2, embora não se tenha previamente formulado nenhuma hipótese específica sobre esta questão. Com efeito, os participantes manifestaram comportamentos distintos perante palavras do Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV: forma inexistente e proibida, de acordo com a teoria quantitativa) e do Tipo 3 (ˈCV.CV.CV: forma existente). Foram, ainda, confirmadas diferenças entre este último tipo e o Tipo 2 (ˈCV.CV.RV/ ˈCV.CV.CpaltV: forma inexistente, mas teoricamente não proibida).
No que diz respeito às formas inexistentes, observaram-se, neste estudo, diferenças comportamentais entre os dois tipos destas formas. Na análise das respostas de aceitação, verificou-se que as palavras do Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV) foram mais rejeitadas do que as do Tipo 2 (ˈCV.CV.RV/ˈCV.CV.CpaltV).
Quanto aos tempos de reação, também se verificaram diferenças entre estes dois tipos. Nas respostas de rejeição, os participantes demoraram mais tempo a emitir uma resposta para as palavras do Tipo 2 do que para as palavras do Tipo 1. Pelo contrário, nas respostas de aceitação, os participantes demoraram mais tempo a emitir uma resposta para as palavras do Tipo 1 do que para as palavras do Tipo 2. Isto demonstra que foi mais fácil rejeitar e mais difícil aceitar as palavras do Tipo 1 do que as do Tipo 2. Recorde-se que o Tipo 2, por sua vez, foi mais fácil de rejeitar e mais difícil de aceitar do que as palavras do Tipo 3, que é a condição de controlo.
A interpretação do estatuto “intermédio” das palavras do Tipo 2, em relação às quais os participantes se comportaram de forma distinta, comparativamente com as palavras do Tipo 1 e do Tipo 3, parece sustentar a hipótese de que os falantes nativos do PE possuem uma perceção não binária do peso silábico (Garcia, 2017).
5. Considerações finais
Neste estudo, explorou-se, com recurso ao método experimental, a questão das restrições à acentuação na antepenúltima sílaba pelo peso da penúltima sílaba e pela presença do rótico forte ou consoantes palatais. A partir dos resultados obtidos, pode concluir-se que ambas as restrições parecem estar ativas nos falantes nativos do PE aquando da avaliação de novas palavras. Desta forma, este estudo contribuiu com evidências externas para as seguintes propostas teóricas: 1) a sensibilidade do sistema do acento do PE, pelo menos dos não verbos, à quantidade silábica; 2) a existência de um segmento complexo, no sentido definido por Veloso (2019), na fonologia desta língua.
Por outro lado, neste estudo foram consideradas, de forma conjunta, as palavras com os segmentos rótico forte e palatais na condição SC. Considerando que estes segmentos apresentam características distintas, seria pertinente explorar essas subcondições separadamente para testar se todos estes segmentos [r, ʁ, ʎ, ɲ, ʃ, ʒ] se comportaram da mesma maneira. O mesmo poderá ser feito em relação às palavras do Tipo 1 (ˈCV.CVC.CV) para verificar se todas as subcondições da penúltima sílaba pesada restringem a acentuação na antepenúltima sílaba.
Além disso, os resultados obtidos sugerem, ainda que de forma preliminar, a possibilidade de um peso silábico gradiente, tal como proposto por Garcia (2017). Seria também interessante investigar esta hipótese noutros estudos, contrastando as formas existente (ˈCV.CV.CV), não existente, mas não proibida (ˈCV.CV.RV/ˈCV.CV.CpaltV) e proibida (ˈCV.CVC.CV), de modo a compreender melhor o peso silábico na perceção dos falantes nativos.
Agradecimentos
Este trabalho foi financiado por fundos nacionais através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), I.P., no âmbito dos projetos do Centro de Linguística da Universidade do Porto (CLUP; UID/00022/2025; DOI 10.54499/UID/00022/2025) e do Centro de Investigação e Inovação em Educação (inED; UID/05198/2025; DOI 10.54499/UID/05198/2025). O estudo foi parcialmente desenvolvido no Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi; PSI/01662) da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, com financiamento da FCT através do Orçamento do Estado (UID/01662/2025; DOI 10.54499/UID/01662/2025). Adicionalmente, a autora Helena Mendes Oliveira contou com o financiamento da FCT, I.P. e da Universidade do Minho através do Contrato-Programa do Concurso Individual de Emprego Científico (5.ª Edição, Ref.ª 2022.05154.CEECIND).
Disponibilidade de dados
Os dados que sustentam os resultados deste estudo, os scripts utilizados nas análises estatísticas e os materiais necessários para a replicação da experiência estão disponíveis mediante solicitação aos autores.
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