Discurso e Interação: a Reformulação nas Entrevistas

Discourse and interaction: The reformulation in interviews

Resumos

Partindo de uma abordagem textual-interativa, este artigo discute a correção como um procedimento de reformulação de ações utilizado pelos participantes da atividade interacional. São observadas as atividades dos interlocutores durante entrevistas transmitidas pela televisão, tendo em vista as condições que organizam o direito à palavra, propostas por Charaudeau (1995).

Discurso; Interação; Entrevista; Reformulação


The purpose of this paper is to analize the correction as a procedure used by participants to repair actions in the interactional activity. In order to do this, we observe interlocutors' activities during interviews transmitted on TV and we take into account Charaudeau's perspective (1995) about the conditions which organize the right to speech.

Discourse; Interaction; Interview; Reformulation


Discurso e Interação: a Reformulação nas Entrevistas* * Uma versão abreviada deste trabalho foi apresentada no Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: controvérsias e perspectivas, realizado na Faculdade de Letras/UFMG – Núcleo de Análise do Discurso, no período de 11 a 14 de novembro de 1997.

(Discourse and interaction: The reformulation in interviews)

Leonor Lopes FÁVERO (Universidade de São Paulo)

Maria Lúcia da C. V. de O. ANDRADE (Universidade de São Paulo)

Zilda Gaspar Oliveira de AQUINO (Faculdades Oswaldo Cruz)

ABSTRACT: The purpose of this paper is to analize the correction as a procedure used by participants to repair actions in the interactional activity. In order to do this, we observe interlocutors' activities during interviews transmitted on TV and we take into account Charaudeau's perspective (1995) about the conditions which organize the right to speech.

RESUMO: Partindo de uma abordagem textual-interativa, este artigo discute a correção como um procedimento de reformulação de ações utilizado pelos participantes da atividade interacional. São observadas as atividades dos interlocutores durante entrevistas transmitidas pela televisão, tendo em vista as condições que organizam o direito à palavra, propostas por Charaudeau (1995).

KEY WORDS: Discourse; Interaction; Interview; Reformulation.

PALAVRAS-CHAVE: Discurso; Interação; Entrevista; Reformulação.

0. Introdução

A conversação é sempre resultante de uma atividade interpessoal desenvolvida entre pelo menos dois indivíduos em situação face a face, dentro de uma configuração contextual de que fazem parte os entornos espaço-temporal e sócio-histórico que unem os participantes. Há diferenças de grau de manifestação da co-produção discursiva, segundo o caráter mais dialógico ou menos dialógico do texto. No caso de entrevistas de televisão, temos uma construção textual em que a dialogicidade pode-se apresentar em grau menor, ou seja, mais assimétrica, se compararmos, por exemplo, com conversações espontâneas entre amigos; entretanto, trata-se de uma interação menos assimétrica do que uma conferência ou aula em que, basicamente, apenas um dos interlocutores mantém o turno.

Partir de uma abordagem textual-interativa permite estudar, nas entrevistas, as relações interpessoais estabelecidas devido à maneira como esse evento discursivo está organizado. Para tanto, é preciso observar –como afirma Brait (1993: 194) - "não apenas o que está dito, o que está explícito, mas também as formas dessa maneira de dizer que, juntamente com outros recursos, tais como entoação, gestualidade, expressão facial etc., permitem uma leitura dos pressupostos, dos elementos que mesmo estando implícitos se revelam e mostram a interação como um jogo de subjetividades, um jogo de representações em que o conhecimento se dá através de um processo de negociações, de trocas, de normas partilhadas, de concessões".

Com o objetivo de trabalhar essa especificidade do discurso oral, discutiremos as propriedades identificadoras da correção enquanto atividade de reformulação textual tendo como corpus uma entrevista do programa Roda Viva, com duração de noventa minutos, transmitido pela TV Cultura de São Paulo, no dia 24/10/1994, em que foi entrevistado o então Ministro da Fazenda Ciro Gomes. Nesse programa, tem-se um entrevistador que cumpre o papel de condutor e mediador da entrevista junto a um grupo de entrevistadores (em torno de seis) que varia conforme a área de atuação da pessoa entrevistada. No caso da entrevista sob análise, o grupo compõe-se, principalmente, de profissionais que atuam em jornais e revistas de grande circulação na imprensa escrita, mas há também a participação de jornalistas de televisão e especialistas na área de economia.

Para fazer o contraponto, estaremos utilizando trechos de entrevista da qual participa Paulo Salim Maluf, também no Programa Roda Viva e do locutor esportivo Silvio Luís, do Programa Juca Kfouri, apresentado pela CNT (Gazeta).

Cabe destacar que a investigação foi conduzida a partir dos pressupostos teóricos de disciplinas tais como a Análise da Conversação, a Lingüística Textual e a Sociolingüística Interacional, visando à análise da estrutura de participação e à observação do alinhamento adotado para a situação de representatividade durante a interação, no momento em que se processam as reformulações.

1. A interação e a estrutura de participação

A comunicação interpessoal desenvolve-se entre indivíduos e é entendida como uma relação dialógica em que ambos os interlocutores adaptam continuamente o diálogo às necessidades do outro. Desse modo, a interação caracteriza-se por situar-se em um contexto em cujo âmbito se estabelece um campo de ação comum no qual os sujeitos envolvidos podem entrar em contato entre si. Torna-se, portanto, fundamental a capacidade de ação de cada indivíduo, que deve estar apto a influir no desenvolvimento sucessivo da interação, determinando-o com sua atuação: cada ação de um sujeito deve constituir a premissa das ações realizadas posteriormente pelos demais. Por fim, a interação realiza-se sobre uma série de regras e pode até introduzir alterações no contexto, configurando-se como um processo circular em que as ações de cada participante determinam um retorno por parte do outro ou dos outros sujeitos implicados. É uma espécie de retroação sobre o indivíduo que a realizou.

Na visão de Kerbrat-Orecchioni (1984), o discurso deve ser tomado como um processo interativo fundado na manutenção de acordos a que se chega por meio de negociações. Tais negociações podem ter como objeto a forma ou o conteúdo da interação. Do mesmo modo, podem ter como objeto as opiniões emitidas pelos participantes, pondo em prática uma série de processos argumentativos que visam a modificar o sistema de conhecimentos e crenças dos participantes.

Para Goffman (1967), a negociação tem sempre origem em um conflito ou divergência e, a partir de uma discussão, busca-se chegar a um acordo. Seguindo a perspectiva de Goffman, o conflito inicial dá origem a uma iniciativa por parte do locutor. Após essa manifestação, o interlocutor pode fazer uso de uma reação, que pode ser favorável ou desfavorável. No primeiro caso, a negociação pode ser concluída com a manifestação de um acordo, que dará lugar ao encerramento ou fecho da interação. No outro caso, a conversação não poderá ser encerrada visto que não há acordo. O locutor pode fazer uma ou várias iniciativas que podem ser reformulações da mesma informação até que se possa chegar ao encerramento da interação com algum tipo de acordo, que pode inclusive ser o acordo sobre a possibilidade de se chegar a um acordo.

De acordo com Schiffrin (1987), o discurso é estruturado por meio de elementos lingüísticos e não lingüísticos, e transmite significações decorrentes das interpretações que os falantes fazem com base nos conteúdos dos enunciados e nas inferências obtidas pragmaticamente, realizando ainda as ações pretendidas pelos falantes.

A estrutura de participação envolve os participantes da interação (falante, ouvinte ratificado e, no caso das entrevistas, ouvinte não ratificado ou expectadores), isto é, diz respeito às diversas maneiras como eles se inter-relacionam. Para criar essa estrutura, Schiffrin baseia-se em Goffman (1981), apresentando uma distinção entre a estrutura de participação e o formato da produção, ou seja, entre os papéis dos participantes durante um evento discursivo e o alinhamento adotado para a situação de representatividade. O formato de produção só pode ser explicado se atentarmos para a função dos encaixamentos na fala (mudanças de entonação ou qualidade de voz) produzidos pelo falante quando, por exemplo, lê algo em voz alta, recita um texto ou fala por outro, ou seja, através das palavras do outro. Nesse caso, o participante deixa de ser um falante no sentido típico da palavra e torna-se um animador: fala o discurso, mas não é o seu autor, nem seu protagonista. Verificamos, portanto, que o formato de produção evidencia como os participantes se relacionam com o que é dito ou feito, isto é, a sua posição diante de seus turnos, atos de fala e enunciados.

Nas entrevistas, entrevistador e entrevistado cumprem seus papéis alternando-se nos turnos ao mesmo tempo em que contribuem para o desenvolvimento desse tipo de texto. Não se pode deixar de observar o papel desempenhado pela audiência como elemento propulsor de modificações na interação entre os participantes, já que a interação se desenvolve exatamente em função da terceira-parte e é em razão de não se perder esse aliado que se procede a reformulações, preservando-se ou atacando-se a auto-imagem, embora o direito à participação por meio de interferências em que se localizem formulações lingüísticas seja pequeno se o relacionarmos com o tempo de participação direta do entrevistador/entrevistado durante o transcorrer do programa.

Em toda a entrevista, os interlocutores representam seu papel discursivo e de identidade (entrevistador/entrevistado) que pode ser definido como o conjunto de direitos e deveres comunicativos associados aos papéis dos interagentes e ao desempenho de uma identidade social.

Importa salientar a configuração espacial desse programa em que os entrevistadores se encontram reunidos atrás de uma espécie de balcão, que lembra um júri, formando um círculo, no centro do qual está o entrevistado sentado numa cadeira giratória, que permite sua movimentação para poder olhar de frente e se envolver com quem lhe dirige a palavra. Cabe observar que o programa sob análise apresenta características próprias, na medida em que adota a técnica do distanciamento entre entrevistadores e entrevistado quanto ao espaço físico e deixa de lado o caráter intimista, o contato mais próximo, típicos de certas entrevistas, como por exemplo: Jô Soares Onze e Meia (SBT com o animador Jô Soares) ou Aquela Mulher (GNT com a jornalista Marília Gabriela). A preferência do programa Roda Viva é por manter um tom mais formal e, até certo ponto, inquisitorial às entrevistas veiculadas.

2. A correção e a estrutura de participação

Segundo Antos (1982: 92), ao produzir um enunciado, o locutor realiza uma atividade intencional: "Formular um texto não é só planejá-lo, mas também realizá-lo", isto é, formular é efetivar atividades que estruturam e organizam os enunciados de um texto e o esforço que o locutor faz para produzi-los se manifesta por traços que deixa em seu discurso. Assim, formular não significa simplesmente deixar ao interlocutor a "tarefa" da compreensão, mas, sim, deixar, através desses traços, marcas para que o texto possa ser compreendido, o que faz com que a produção do texto seja, ao mesmo tempo, ação e interação.

Entendidas dessa maneira, as atividades de formulação podem ser subdivididas em:

a) de formulação stricto sensu, quando o locutor não encontra problemas de processamento e linearização;

b) de formulação lato sensu, quando o locutor encontra problemas de formulação e deve resolvê-los.

As situações que desencadeiam problemas (Antos, id.) recebem diferentes denominações; trouble-source (Schegloff, Jefferson e Sacks, 1977: 363), störungen (Gulich e Kotschi, 1987: 233) turbulências (Marcuschi, 1986: 30). São constituídas pelas hesitações, paráfrases, correções e alguns tipos de repetições denominadas por Gulich e Kotschi (id.) refrasagens.

A correção1 * Uma versão abreviada deste trabalho foi apresentada no Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: controvérsias e perspectivas, realizado na Faculdade de Letras/UFMG – Núcleo de Análise do Discurso, no período de 11 a 14 de novembro de 1997. , objeto de estudo deste trabalho, desempenha papel considerável entre os processos de construção do texto, como o demonstra o número de correções encontradas no corpus analisado. Corrigir é produzir um enunciado lingüístico (enunciado reformulador - ER) que reformula um anterior (enunciado fonte – EF), considerado "errado" aos olhos de um dos interlocutores; a correção é, assim, um claro processo de formulação retrospectiva:

O enunciado X é reformulado por um enunciado Y com a finalidade de garantir a intercompreensão, principal objetivo da correção.

A paráfrase e a refrasagem também têm a função de assegurar a intercompreensão, porém "elas se diferenciam pela natureza da relação semântica2 * Uma versão abreviada deste trabalho foi apresentada no Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: controvérsias e perspectivas, realizado na Faculdade de Letras/UFMG – Núcleo de Análise do Discurso, no período de 11 a 14 de novembro de 1997. que liga o enunciado reformulador ao enunciado fonte e pelos marcadores de reformulação"(Gulich e Kotschi, op. cit., p.43).

A correção será tratada como reformulação, isto é, como procedimento de reformulação de ações, observadas em relação a infrações a regras conversacionais ou às condições que organizam o direito à palavra e que, na visão de Charaudeau (1995), são de três ordens:

a) o saber partilhado – (nível do saber) - os interlocutores exercem uma prática discursiva em que as representações são supostamente partilhadas e a compreensão se dá pela ativação desse saber.

b) a representação - (nível do poder) - os interlocutores assumem comportamentos que os levam a representar diferentes papéis que vão dar legitimidade a sua palavra. Por exemplo, numa aula universitária, espera-se que o professor fale sobre determinado assunto, já que lhe foi dado esse papel, esse poder; o mesmo ocorre numa entrevista de televisão em que os participantes estão atentos aos papéis que devem ou querem representar.

c) a credibilidade - (nível do crer) - os interlocutores não ocupam simplesmente o espaço, mas são reconhecidos como tendo o direito de ocupá-lo porque o sabem fazer. O saber fazer corresponde à aptidão em ligar o espaço externo – dimensão situacional - ao interno – dimensão lingüística -, o que permitirá o reconhecimento da competência do sujeito que comunica, fundamentando, assim, o direito à palavra.

No programa Roda Viva, se procedêssemos à troca do apresentador Matinas Suzuki por Jô Soares, por exemplo, a palavra não teria a mesma credibilidade já que o segundo, apesar de brilhante, tem sua imagem ligada ao Programa que apresenta – um talk show.

No corpus sob análise, as relações interativas estão muito bem demarcadas, já que se observa um intenso jogo de reformulações, em que os participantes estão atentos aos papéis que querem representar (Ciro Gomes = ministro enérgico; entrevistadores = conhecedores do processo econômico pelo qual o país atravessa). Entretanto, muitas vezes, o interlocutor interfere na construção de tais papéis, buscando modificar a imagem que o entrevistado quer que a audiência construa. Observa-se, nesses textos, a ausência de opacidade relativa aos papéis de participação de entrevistador / entrevistado. Ao empregar a estratégia da correção, o entrevistado preocupa-se mais com a audiência do que com o envolvimento com o entrevistador, redirecionando a atividade interacional e não permitindo, nesse instante, que o entrevistador assuma o comando da situação.

3. As correção na entrevista com Ciro Gomes

O programa Roda Viva pauta-se pelo interesse em discutir temas atuais e pelo teor informativo das entrevistas realizadas; é construído em função de questionar, esclarecendo pontos de interesse para a audiência, tanto quanto polemizando as ações, atitudes, idéias do entrevistado, normalmente representado por pessoa que esteja em evidência no momento, seja um político, escritor, esportista, artista etc. (cf. Erlich, 1993). Além disso, diferentemente de outros programas de entrevistas que muitas vezes optam pelo viés humorístico próprio de determinado apresentador para prender a atenção, este programa é construído a partir da área específica de atuação do convidado; esse ponto de vista norteia a convocação do conjunto de entrevistadores, o que significa dizer que os participantes não são fixos, exceção feita ao mediador.

Durante a entrevista, um dos entrevistadores (o jornalista Otávio Costa da Revista Isto É, identificado como L9) formula uma pergunta relacionada à queda da Bolsa; entretanto, o entrevistado não a reconhece como tal e, inclusive, discorda da asserção feita antes do pedido de esclarecimento. Isso faz com que o entrevistador use a estratégia da correção de ação (infração): "estou perguntando ((risos))", revelando que ele como interactante cumpre o seu papel na estrutura de participação, qual seja, o daquele que tem a função de perguntar. Verifica-se que o entrevistador faz uso de um comentário metacomunicativo, fazendo lembrar ao entrevistado qual é o seu papel na estrutura de participação.

(1)

Nas entrevistas com políticos, muitas vezes, o entrevistador busca combinar enunciados que desestruturem o entrevistado (cf. Halperín, 1995). É assim que o jornalista de O Estado de São Paulo (identificado como L7) elenca as expressões que teriam sido empregadas por Ciro Gomes (L2) a respeito dos especuladores, parodiando a fala do ministro. Este interrompe em sobreposição, corrigindo a colocação do entrevistador e indicando a ação pretendida por L7 que seria a de desqualificar a auto-imagem pública do ministro. Dessa forma, Ciro Gomes mostra-se em desacordo com o ato enunciativo, redireciona, por meio da correção, a atividade interacional, desautorizando o interlocutor a proceder de tal forma, revelando o papel que ele espera que o entrevistador represente, mostrando-se atento à construção do contexto do qual são participantes ativos e, portanto, responsáveis:

(2)

Na verdade, um político não se apresenta tranqüilo quando participa de um programa de entrevistas, pois sua imagem está sempre em jogo e, se ele não estiver atento, poderá ver atingidos sua imagem e seu poder (cf. Fairclough, 1989).

A preocupação com a auto-imagem perante a audiência conduz o ministro a revelar sua dificuldade em participar de uma discussão em que precisa corrigir a todo instante os entrevistadores e reconduzir o dito porque, caso contrário, se instaura a mentira, a distorção dos fatos e ele não pode admitir isso por implicar a fixação de idéias enganosas que poderiam derrubar o Plano Real.

(3)

Em outro segmento em que interagem L7 e L2, observa-se que após um pedido de informação do entrevistador, L2 não atende ao pedido, antes emprega uma correção metacomunicativa, em que ao mesmo tempo altera os papéis de participação, assumindo nesse instante a posição de entrevistador-mediador, já que solicita a participação de outro entrevistador, anulando, assim, a ação de L7, que acaba por rir da situação, como se verifica a seguir:

(4)

L4 discutia a respeito das medidas tomadas pelo ministro e colocava a posição da FIESP, criticando a forma como as medidas econômicas foram anunciadas.

(5)

Nesse fragmento, verifica-se que o entrevistado responde à colocação feita por L4 por meio de uma negação e corrige o dito, esclarecendo a respeito do que entende sobre o que é administração e possibilitando que a audiência o observe como alguém que se coloca em situação de superioridade em relação ao entrevistador. Verifica-se que a negação do enunciado, quando acompanhada de um argumentação procedente, realmente parece fortalecer a posição do locutor.

Diferentemente, nos trechos 6 e 7, encontramos uma negação em que não há argumentação. Isto faz com que a correção do dito seja repetida em sobreposição pelo menos por quatro vezes, revelando a não aceitação dessa correção por parte do interlocutor:

(6)

(7)

A correção relacionada à ação do entrevistador pode ser detectada no segmento do qual participa Paulo Maluf (L2), durante o Programa Roda Viva em que o ex-prefeito corrige o interlocutor, não entrega o turno que foi assaltado e realinha o papel do entrevistador Marcelo Beraba, chefe de redação do jornal A Folha de S. Paulo (L3), e observa-se, inclusive, a utilização da entonação enfática (EU) para acentuar o seu poder. O tópico referia-se à anulação do decreto relativo à proibição do fumo em restaurantes, na cidade de São Paulo, devido a sua inconstitucionalidade:

(8)

No programa Juca Kfouri levado ao ar no dia 30 de abril de 1997 pela emissora CNT-Gazeta, o entrevistado Silvio Luiz (L2), locutor esportivo do SBT, escapa a todo momento do tópico em desenvolvimento (A Torcida do Vasco da Gama) e acaba invertendo os papéis relativos à estrutura de participação: quem é o entrevistador e quem é o entrevistado. O entrevistador Juca Kfouri (L1)se vê obrigado a aceitar a direção que a entrevista passa a tomar (Questões políticas e econômicas do país: segmento 9), mas revela certa impaciência e corrige a ação de seu interlocutor, questionando sobre qual a função do convidado em seu programa (segmento 10):

(9)

(10)

4. Conclusão

No que concerne à ocorrência de correções nas entrevistas, observamos uma forte tendência a que os falantes procedam a esse tipo de atividade, revelando uma reorganização das ações e/ou infrações dos participantes, tendo em vista , especialmente, a presença da audiência.

Entendida como procedimento que se instaura a partir de uma projeção oriunda da estrutura de expectativa., a correção coloca-se como uma estratégia que possibilita a resolução de problemas interacionais que estão sendo criados, promovendo um dinamismo dessa atividade

Pode-se dizer também que há uma ordem de reelaboração textual e ela não é ocasional ou aleatória. Isto aponta para o possível local relevante para a ocorrência de correção, o que leva a reafirmar que as ocorrências de composição do texto conversacional são produto de uma organização local, específica da oralidade, já que o falante tem a possibilidade de usar uma palavra ou estrutura que acabou de produzir ou, ainda, procurar uma nova e/ou mais satisfatória que permita a preservação da auto-imagem pública.

1 As correções lingüísticas propriamente ditas foram tratadas em FÁVERO, L. L., M. L. C. V. O. ANDRADE, Z. G. O. AQUINO (1996) Estratégias de construção do texto falado: a correção.

2 Veja-se Fávero, Andrade e Aquino (id.ibid.).

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  • AQUINO, Z. G. O. (1997) Conversaçăo e Conflito: um estudo das estratégias discursivas em interaçőes polęmicas Vol II- Anexos. Tese de Doutoramento, Universidade de Săo Paulo.
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  • FÁVERO, L.L., M.L.C.V.O. ANDRADE & ZILDA G.O. AQUINO (1996) Estratégias de construçăo do texto falado: a correçăo. In: M.A. KATO (org.) Gramática do Portuguęs Falado Vol. V: Convergęncias Săo Paulo: Editora da UNICAMP/FAPESP, 355-366.
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  • GULICH, E. & T. KOTSCHI (1987) Les actes de reformulation dans la consultation. La Dame de Caluire. In: P. Bange (org.) L'analyse des interactions verbales. La Dame de Caluire: une consultation Actes du Colloque tenu ŕ l'Université Lyon 2, 13 a 15 dez. 1985, Berna.
  • HALPERÍN, J. (1995). La entrevista periodística: intimidades de la conversación pública Buenos Aires: Paidós.
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  • SCHEGLOFF, E.; G. JEFFERSON & H. SACKS (1977) The preference for self-correction in the organization of repair in conversation. Language, 53, 361-382.
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  • TANNEN, D. & C. WALLAT (1987) Interactive frames and knowledge schemas in interaction: examples from a medical examination/interview. In: Social Psychology Quaterly 50, no. 2.

  • *
    Uma versão abreviada deste trabalho foi apresentada no Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: controvérsias e perspectivas, realizado na Faculdade de Letras/UFMG – Núcleo de Análise do Discurso, no período de 11 a 14 de novembro de 1997.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Dez 2001
  • Data do Fascículo
    1998
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