Open-access Flipbook para educação alimentar de crianças não amamentadas: avaliação de estudantes e profissionais da saúdea

Flipbook para la educación nutricional de niños no amamantados: evaluación por estudiantes y profesionales de la salud

Resumo

Objetivo  adaptar para o formato flipbook a linguagem e o projeto gráfico-editorial de um website sobre educação alimentar de lactentes menores de seis meses não amamentados, avaliando sua usabilidade por estudantes e profissionais da saúde.

Método  na etapa de adaptação do recurso foi desenvolvido um flipbook (projeto de desenvolvimento de maturidade tecnológica 8); a etapa de avaliação foi um estudo transversal com 112 estudantes e 18 profissionais da saúde no Sul do Brasil, coleta de dados em 2024 por formulário autoaplicado, com a System Usability Scale, com análise descritiva.

Resultados  a usabilidade do flipbook foi melhor imaginável (escore 95 pelos estudantes e 92,5 pelos profissionais). Obteve avaliação positiva na expectativa de uso (95,5% e 100%), facilidade da ferramenta (75% e 100%), atributos integrados e consistentes (83% e 88,9%) e aprendizagem rápida (72,3% e 100%). Indicaram barreiras: custo de impressão, falta de conhecimento prévio e acessibilidade por deficiência visual, que resultaram respectivamente em versão digital; material de treinamento e audiobook.

Conclusão e implicações para a prática  o produto foi considerado prático, acessível, fácil de usar e com funções integradas e consistentes. Poderá auxiliar na formação profissional e na educação em saúde impactando positivamente o crescimento e desenvolvimento infantil.

Palavras-chave:
Estudantes de Enfermagem; Pessoal de Saúde; Saúde da Criança; Segurança Alimentar; Tecnologia Educacional

Abstract

Objective  to adapt the language and graphic-editorial design of a website on nutritional education for non-breastfed children under six months of age into a flipbook, and to evaluate its usability among students and health professionals.

Method  in the resource adaptation stage, a flipbook was developed (Technology Readiness Level 8); the evaluation stage involved a cross-sectional study with 112 students and 18 health professionals in southern Brazil. Data were collected in 2024 using a self-administered questionnaire and the System Usability Scale, followed by descriptive analysis.

Results  the flipbook’s usability was rated as “best imaginable” (scores of 95 by students and 92.5 by professionals). Positive evaluations were reported for usability expectations (95.5% and 100%), ease of use (75% and 100%), integrated and consistent features (83% and 88.9%), and rapid learning (72.3% and 100%). Barriers identified included printing costs, lack of prior knowledge, and accessibility challenges for visually impaired individuals, which prompted the development of a digital version, training materials, and an audiobook, respectively.

Conclusion and implications for the practice  the product was considered practical, accessible, and user-friendly, with integrated and consistent features. It has the potential to contribute to professional training and health education, positively influencing child growth and development.

Keywords:
Nursing Students; Healthcare Staff; Child Health; Food Security; Educational Technology

Resumen

Objetivo  adaptar el lenguaje y el diseño gráfico-editorial de un sitio web sobre educación nutricional para lactantes menores de seis meses no amamantados al formato flipbook y evaluar su usabilidad entre estudiantes y profesionales de la salud.

Método  en la fase de adaptación del recurso, se desarrolló un flipbook (proyecto con nivel de madurez tecnológica 8); la fase de evaluación consistió en un estudio transversal con 112 estudiantes y 18 profesionales de la salud en el sur de Brasil, con datos recolectados en 2024 mediante cuestionario autoadministrado y la Escala de Usabilidad del Sistema, seguido de análisis descriptivo.

Resultados  la usabilidad del flipbook fue considerada la mejor posible (puntuaciones de 95 para estudiantes y 92,5 para profesionales). Se registraron evaluaciones positivas respecto a la expectativa de uso (95,5% y 100%), facilidad de uso de la herramienta (75% y 100%), atributos integrados y consistentes (83% y 88,9%) y aprendizaje rápido (72,3% y 100%). Se identificaron barreras como costo de impresión, falta de conocimientos previos y accesibilidad para personas con discapacidad visual, lo que llevó respectivamente a la creación de una versión digital, materiales de capacitación y un audiolibro.

Conclusión e implicaciones para la práctica  el producto fue considerado práctico, accesible, fácil de usar y con funciones integradas y consistentes. Puede contribuir a la formación profesional y la educación sanitaria, impactando positivamente el crecimiento y desarrollo infantil.

Palabras-clave:
Estudiantes de Enfermería; Personal de Salud; Salud Infantil; Seguridad Alimentaria; Tecnología Educacional

INTRODUÇÃO

De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, as taxas de aleitamento materno no Brasil são de 52,1% aos 12 meses, 35,5% aos 24 meses e de 45,8% de aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses de vida.1,2 Observa-se um aumento nesses índices em comparação às últimas décadas; entretanto, permanecem aquém do ideal proposto pela Organização Mundial da Saúde, que recomenda elevar a taxa de aleitamento materno exclusivo para pelo menos 50% até 2025.3

Nesse sentido, é crucial fortalecer estratégias de triagem e prevenção de agravos nutricionais decorrentes da falta de acesso a uma alimentação adequada, principalmente em regiões economicamente vulneráveis. A intensificação da cooperação internacional e o compartilhamento de experiências são medidas essenciais para aprimorar a segurança alimentar e as condições de saneamento básico, impactando diretamente a saúde infantil. Adicionalmente, o fortalecimento das instituições de atenção primária à saúde, bem como a constante revisão e aprimoramento das políticas e legislações pertinentes, são indispensáveis para assegurar o acesso universal a alimentos seguros e nutritivos e para prevenir doenças associadas a riscos microbiológicos, como doenças alimentares, incluindo síndromes diarreicas e eméticas, além de evitar enfermidades relacionadas à má nutrição.4

A promoção da segurança alimentar pode ser viabilizada por meio de recursos educacionais abertos, definidos como materiais de ensino, aprendizagem ou investigação em domínio público, ou licenciados para permitir seu uso, adaptação e distribuição.5 Esses recursos baseiam-se em dois princípios: licenças de uso flexíveis e abertura técnica, utilizando formatos facilmente acessíveis e modificáveis.6

Verifica-se que o uso de recursos educacionais vem crescendo de forma exponencial, sendo considerados métodos complementares ao processo de aprendizagem.7,8 Entre esses recursos, destaca-se o flipbook, que se configura como uma estratégia prática de aprendizagem para desenvolver conhecimentos e experiências e, simultaneamente, promover interações, favorecendo benefícios à aprendizagem, ao suporte e à melhoria das habilidades de resolução de problemas.9,10 Diante do avanço das propostas de recursos educacionais na área da saúde, a enfermagem tem papel crucial ao adaptar-se às mudanças cotidianas e aos avanços tecnológicos, o que demanda a reformulação dos processos de trabalho por meio da criação de novos saberes e da readequação dos recursos.11

Este estudo está em consonância com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, especialmente ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2, que preconiza a erradicação de todas as formas de má nutrição até 2030. Além disso, a promoção da saúde infantil por meio de práticas alimentares adequadas contribui diretamente para o ODS 3 (Saúde e Bem-estar), especificamente na meta de redução da mortalidade neonatal e infantil. A avaliação de um recurso educacional voltado para estudantes de enfermagem, como proposto neste artigo, também se coaduna com o ODS 4 (Educação de Qualidade), ao fortalecer a formação de futuros profissionais da saúde e aprimorar sua atuação na prática clínica, capacitando-os para oferecer orientações qualificadas às famílias e, assim, impactar positivamente a saúde das crianças, contribuindo para o avanço coletivo em direção às metas globais estabelecidas.12

Este estudo justifica-se pela necessidade de abordar a segurança alimentar e nutricional de crianças menores de seis meses que não são amamentadas, considerando que, apesar dos esforços e políticas públicas direcionados à promoção do aleitamento materno, muitas crianças brasileiras ainda não recebem aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses. Neste contexto, torna-se fundamental qualificar os futuros profissionais de enfermagem e as equipes de saúde para a adequada orientação das famílias, visto que a nutrição adequada é uma estratégia essencial para o desenvolvimento infantil pleno e para a redução da morbimortalidade.1,7,8

A partir de um recurso seminal (i.e., versão website validada),13 desenvolvido para apoiar os familiares de crianças menores de seis meses não amamentadas, identificou-se a demanda de tradução do conhecimento (TC)14,15 para outro público: profissionais em formação e atuantes nos serviços de saúde. O recurso seminal foi adaptado para a versão flipbook com o objetivo de mediar as orientações dos profissionais aos familiares quanto à alimentação da criança menor de seis meses não amamentada. O flipbook poderá facilitar a tomada de decisão em saúde, ao oferecer recursos educacionais que sejam seguros, eficazes, custo-efetivos e socialmente aceitáveis.

A adaptação do recurso educacional do formato website para flipbook justificou-se pela necessidade de conferir linearidade e controle ao fluxo de leitura pedagógica. Enquanto o ambiente web predispõe à navegação fragmentada por hiperlinks, a estrutura sequencial em páginas do flipbook favorece a concentração e otimiza o tempo de consulta de estudantes e profissionais, além de possibilitar a portabilidade do material para cenários de assistência com conectividade limitada.

O objetivo deste estudo foi adaptar, para o formato flipbook, a linguagem e o projeto gráfico-editorial de um website sobre educação alimentar de lactentes menores de seis meses não amamentados, avaliando sua usabilidade por estudantes e profissionais da saúde.

MÉTODO

Trata-se de um projeto matricial de TC,14,15 estruturado em duas etapas complementares: um estudo de desenvolvimento (Etapa 1) e um estudo transversal (Etapa 2). O delineamento conceitual está ancorado no referencial canadense de TC para a transposição de evidências à prática. A primeira etapa configura-se como um estudo de desenvolvimento, cuja finalidade reside na criação e readequação de intervenções ou estratégias inovadoras e aprimoradas para atingir metas específicas de aprendizagem.16,17 Para a estruturação do ciclo de aplicação do conhecimento, utilizou-se o modelo conceitual ilustrado na Figura 1.

Figura 1
Aplicação do projeto de pesquisa no Ciclo da Tradução do Conhecimento

O movimento contínuo ilustrado na Figura 1 evidencia a importância da identificação da lacuna de conhecimento. O funil central da figura indica a criação do conhecimento, que resultou no recurso seminal Vialáctea, criado e validado na versão website para familiares de crianças menores de seis meses não amamentadas.13 Este recurso encontra-se no nível 8 de maturidade tecnológica, o que significa que foi testado e está pronto para a implementação.18

As etapas de criação do conhecimento podem impactar os sete pontos de aplicação (círculo externo da figura), considerando as perspectivas de diferentes grupos de usuários ao longo do ciclo, que é continuamente ajustado pelo conhecimento produzido. Os pontos do ciclo de aplicação podem ocorrer de forma sequencial ou simultânea.

A Etapa 1 foi desenvolvida para adaptar, para o formato flipbook, a linguagem e o projeto gráfico-editorial de um website sobre educação alimentar de lactentes menores de seis meses não amamentados, com engajamento de stakeholders (correspondendo ao ponto do ciclo de aplicação do modelo de TC: adaptar o conhecimento ao contexto local). A necessidade de adaptação emergiu durante o evento de lançamento do website, quando gestores da saúde do município (stakeholders) identificaram a necessidade de treinamento dos profissionais e de um recurso que minimizasse a barreira de acesso a informações seguras e atualizadas. Assim, os profissionais possam mediar as orientações com os familiares e recomendar o uso cotidiano do website no cotidiano de cuidado infantil. A definição da conversão do website para flipbook, voltado à população de estudantes e profissionais, ocorreu em reunião com ampliação dos stakeholders, incluindo, além dos gestores da saúde, representantes da educação e profissionais do município.

A Etapa 2 foi desenvolvida para avaliar a usabilidade do recurso educacional junto à população-alvo de estudantes e profissionais de saúde (correspondendo ao ponto do ciclo de aplicação do modelo de TC: avaliar barreiras/facilitadores para o uso do conhecimento).

Etapa de adaptação da linguagem e do projeto gráfico-editorial

O processo de adaptação do recurso seminal Vialáctea, do formato website para o flipbook, seguiu um fluxo metodológico estruturado em três etapas interdependentes (Figura 2).

Figura 2
Processo de adaptação do recurso educacional: website Vialáctea para flipbook

A adaptação da linguagem (passo 1) alinhou o conteúdo original do website, anteriormente direcionado a famílias, às especificidades de estudantes e profissionais da saúde. Foram inseridas terminologias técnicas e científicas compatíveis com o nível de formação desse público. Essa etapa contou com revisão de especialistas em linguística e publicidade, garantindo precisão conceitual e clareza textual. A adaptação do projeto gráfico-editorial teve início com a reestruturação do conteúdo (passo 2). Uma equipe composta por pesquisadoras, designers, publicitários e linguistas reorganizou as informações do recurso seminal para o formato flipbook. Nessa etapa, foi elaborado o wireframe no software Adobe Photoshop® (versão 27.0), definindo o esboço visual simplificado para definir a disposição, a hierarquia e a funcionalidade dos elementos estruturais. Na sequência, procedeu-se ao layout e à diagramação (passo 3), com foco na transição da navegação por rolagem (scrolling) do website para a interface de folheamento (digital e impressa) do flipbook. Nos layouts, o conteúdo anteriormente contínuo na tela foi delimitado em páginas, planejando-se o macro visual: escolha tipográfica, paleta de cores, margens, hierarquia da informação e ritmo de leitura. A versão final diagramada subsidiou a etapa subsequente de avaliação de usabilidade junto ao público-alvo.

Após a adaptação do projeto gráfico-editorial, o recurso foi registrado (https://www.registrodeobras.com/index) para assegurar a propriedade intelectual e proteção do material. Foram providenciados o ISBN e a ficha catalográfica. Para garantir acessibilidade, o recurso foi hospedado em uma plataforma institucional de acesso aberto, vinculada à universidade sede do projeto. Essa medida permite que qualquer interessado acesse, baixe e utilize o material, democratizando o conhecimento e promovendo a educação em saúde e bem-estar.

Por fim, a divulgação do recurso foi amplamente realizada a partir de redes sociais e outros canais de comunicação. Estratégias voltadas a meios acadêmicos, políticos e assistenciais foram implementadas para que o recurso seja conhecido e utilizado por um público diversificado, incluindo acadêmicos, profissionais de saúde e gestores.

Etapa de avaliação de usabilidade do recurso educacional

Após a adaptação do recurso, iniciou-se a avaliação, com a realização de um estudo transversal. A redação segue os critérios do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).19 O estudo foi realizado em um município da região central do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. A população foi composta por estudantes e profissionais da saúde. Os critérios de elegibilidade para estudantes incluíram a matrícula ou conclusão de disciplinas específicas que abordam conteúdos relacionados à puericultura, aleitamento materno e cuidados com crianças não amamentadas; para profissionais, exigiu-se o atendimento a crianças expostas ao HIV, em virtude da recomendação nacional de não aleitamento materno como profilaxia da transmissão vertical.

A coleta de dados ocorreu no segundo semestre de 2024. O recrutamento dos estudantes deu-se por meio do curso de graduação em Enfermagem de uma universidade pública. A amostra de conveniência totalizou 112 entre 158 elegíveis. Quanto aos profissionais, o convite foi direcionado aos membros da Comissão de Aleitamento Materno do município, aos profissionais do Serviço de Assistência Especializada e do Centro de Testagem e Aconselhamento, totalizando 18 participantes. O desequilíbrio numérico entre os grupos, com maior concentração de discentes do que de profissionais de saúde, reflete o rigor dos critérios de elegibilidade, que restringiram os profissionais àqueles atuantes na linha de frente do atendimento a crianças não amamentadas, em acompanhamento especializado.

Inicialmente, os objetivos da pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foram apresentados. Foram distribuídas cópias impressas do flipbook, sendo reservado tempo para o conhecimento e manuseio do material. Em seguida,os participantes responderam a um formulário autoaplicável via Google Forms, acessado por código QR.

Todos receberam orientação sobre a navegação pelo flipbook e o acesso ao Google Forms por meio de um card (impresso e digital enviados por mídia eletrônica e projetado em retroprojetor), contendo o código QR que permitiu o preenchimento pelo próprio dispositivo eletrônico. A equipe disponibilizou tablet para apoio à coleta de dados.

A avaliação imediata do manuseio justifica-se pela natureza do estudo, focado na usabilidade inicial do recurso. Estudos futuros são necessários para avaliar o impacto do uso continuado na rotina clínica a longo prazo.

O formulário foi estruturado em três seções. Na primeira, os participantes responderam itens relativos ao perfil sociodemográfico (idade, sexo, semestre, experiência profissional). Na segunda seção, responderam aos dez itens da System Usability Scale, versão traduzida e validada para o português brasileiro como Escala de Usabilidade de Sistema – versão brasileira,20 com escala Likert de cinco pontos (de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”) e dez questões complementares sobre expectativa, motivação, conhecimento e capacidade, com respostas dicotômicas (sim/não), além de duas questões dissertativas sobre barreiras e facilitadores ao uso do recurso. A seção final solicitava sugestões de estratégias para implementação do flipbook. O formulário foi submetido a teste piloto em grupo de pesquisa, para aprimorar a clareza das perguntas e reduzir possíveis falhas. O tempo estimado para resposta foi de quinze minutos.

A média da System Usability Scale é de 68 pontos.20 A usabilidade é classificada nos níveis: “pior possível” (≤ 20,5), “pobre” (21-38,5), “mediana” (39-52,5), “boa” (53-73,5), “excelente” (74-85,5) e “melhor imaginável” (acima de 86-100).21 O cálculo do escore é realizado da seguinte maneira: para as afirmações ímpares (1, 3, 5, 7, 9), subtrai-se 1 da pontuação do participante; para as respostas pares (2, 4, 6, 8, 10), subtrai-se a resposta de 5. Em seguida, somam-se os valores das dez questões e multiplica-se o resultado por 2,5. Os dados foram exportados para planilha Microsoft Excel® e analisados no software Statistical Package for the Social Sciences (versão 21.0). As informações das escalas e as questões abertas foram analisadas de forma descritiva.

Ao final da coleta, um card com informações sobre a Plataforma Educativa PEFAS+ (https://www.ufsm.br/grupos/gp-pefas/paginas/pefas/SAN) foi entregue a cada participante, para acesso digital às tecnologias produzidas pelo grupo de pesquisa. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (Parecer 7.068.594/2024, CAAE 82840624.1.0000.5346).

RESULTADOS

Adaptação do recurso educacional

O website Vialáctea é uma plataforma aberta que foi adaptada para um formato específico, a fim de apresentar o conteúdo de maneira mais imersiva e semelhante a um livreto, com as seguintes especificações técnicas: papel couchê fosco com gramatura de 170g/m2, peso total de 260g, 154 páginas, 49 ilustrações e argola de 3,5mm para manter as páginas e capa/contracapa unidas, com dimensões descritas na Figura 3. Na contracapa do flipbook foi adicionado o card utilizado para divulgação do website, indicando que o estudante ou profissional de saúde pode recomendar o recurso aos familiares. Consta, ainda, a Identidade Visual do Vialáctea, o objetivo do recurso educacional, o código QR para acesso, além dos créditos e fomento.

Figura 3
Adaptação de formato e estrutura de conteúdo da versão website para o flipbook - versão impressa e exemplo de mosaico das páginas de apresentação e sumário

A estrutura de páginas da web interconectadas, com navegação livre a partir do sumário e de links, conforme a árvore de decisão do website, foi adaptada para um documento único e sequencial, estruturado com cores para facilitar a localização do conteúdo, conforme as páginas de “Como usar esse flipbook” (p.1), “Apresentação” (p.2) e “Sumário” (p.4) (Figura 3). O design usa ícones, imagens, quadros, tabelas, caixas de textos de alertas e dicas para a prática, além de códigos QR para acesso a outros recursos. Layouts atrativos e funcionais foram desenvolvidos para otimizar a experiência do usuário, integrando texto, ilustrações, ícones e quadros de forma complementar.

O conteúdo elaborado, baseado em evidências científicas, foi mantido em conformidade com as recomendações e políticas públicas brasileiras tendo sido validado previamente por especialistas durante o desenvolvimento do website. Assim, o conteúdo do flipbook é composto pelos três tipos de leite (fórmula infantil, leite de vaca líquido e leite em pó) e pelos utensílios (mamadeira, copinho e colher dosadora) utilizados para alimentar a criança. Essa abordagem atende ao objetivo de aprendizagem do público-alvo, garantindo a hierarquização do acesso ao conteúdo conforme as demandas laborais ou de estudo.

Avaliação do recurso educacional por discentes do curso de graduação em enfermagem

Dos 112 estudantes participantes da pesquisa, a maioria era composta por mulheres (83%), com faixa etária predominante entre 20 e 25 anos. Dois participantes (1,8%) apresentavam alguma deficiência e quatro (3,6%) possuíam filhos. O escore de avaliação da usabilidade do flipbook foi 95, sendo classificado como “melhor imaginável”.

Quanto à expectativa de uso, 95,5% responderam que gostariam de usar esse produto frequentemente. Sobre a facilidade no uso da ferramenta, 75% relataram concordar fortemente que o recurso é fácil de usar; o mesmo percentual discordou fortemente que o flipbook seja desnecessariamente complexo e 73,2% discordaram de precisar de auxílio técnico para a utilização do produto. Quanto aos atributos do flipbook, 83% concordaram fortemente que as funções foram bem integradas, e apenas um participante concordou fortemente que havia inconsistências.

Quanto à demanda de aprendizagem para uso do flipbook, 72,3% avaliaram que a maioria das pessoas aprenderia rapidamente a utilizar a ferramenta. No total, 92,8% discordaram que o flipbook seja complicado de usar. Entre os participantes, 68,8% se sentiram seguros utilizando a ferramenta e 1,8% concordaram fortemente que precisariam aprender muitas coisas antes de utilizar o produto.

Totalmente favoráveis quanto à confiança nas informações, benefício para a formação e contribuição para a atuação (100%), e majoritariamente favoráveis à disposição de uso, expectativa de que o recurso apoiará o ensino e motivação para usá-lo como ferramenta de apoio didático na aprendizagem sobre alimentação de crianças menores de seis meses não amamentadas (99%). Quanto às possíveis barreiras, a minoria apontou preferência por manter rotinas/hábitos de ensino (8%), falta de tempo (5%) e incoerência com o contexto local de ensino (2%).

Avaliação do recurso educacional por profissionais de saúde

Entre os 18 participantes que avaliaram o recurso educacional estavam enfermeiros (6), nutricionistas (3), psicólogos (2) e um representante de cada uma das demais categorias: assistente social, biomédico, dentista, farmacêutico, fonoaudiólogo, médico e técnico de enfermagem. A mediana do tempo de formação foi de sete anos (1-28), sendo que a maioria possuía especialização/residência (55,5%). Quanto à experiência no atendimento a gestantes, puérperas ou crianças, variou entre 1-5 anos (55,6%) e acima de 5 anos (38,9%).

O escore de avaliação da usabilidade do flipbook foi de 92,5, sendo classificado como o melhor imaginável.

Em relação à expectativa de uso, 100% indicaram que gostariam de usá-lo frequentemente. Acerca da facilidade de uso, 100% relataram concordar fortemente que o flipbook é fácil de usar; 95,5% discordaram fortemente que seja desnecessariamente complexo e 77,7% discordaram de precisar de auxílio técnico para uso do produto.

Quanto aos atributos do flipbook, 88,9% concordaram fortemente que as funções estavam bem integradas e nenhum participante considerou haver inconsistências. Sobre a demanda de aprendizagem, 100% avaliaram que a maioria das pessoas aprenderia rapidamente a utilizar a ferramenta, e o mesmo percentual discordou que seja complicado de utilizar. Esse resultado se manteve quanto à sensação de segurança no uso do flipbook. Dos profissionais participantes, 83,3% discordaram sobre a necessidade de aprender muitas coisas antes de utilizar o produto.

Totalmente favoráveis quanto à confiança nas informações, disposição de uso, expectativa de que o recurso atualize o conteúdo sobre alimentação de crianças menores de seis meses não amamentadas, motivação para usar como ferramenta de apoio, benefício do uso do flipbook na educação permanente, crença de que pode contribuir junto às famílias de crianças não amamentadas e capacidade de uso (100%). Quanto às barreiras, a minoria apontou preferência por continuar com rotinas de ensino (5,5%) e falta de tempo (5,5%).

Acerca dos pontos positivos e negativos apontados por ambos os grupos que participaram da avaliação, elaborou-se uma análise de convergência (Figura 4). Os pontos negativos indicaram possibilidades de ajustes no flipbook e aprimoramento do kit educativo Vialáctea.

Figura 4
Análise de convergência dos pontos positivos e negativos

Os pontos negativos mencionados, como custo de impressão e necessidade de acessibilidade digital, são considerações práticas relevantes para a disseminação do recurso. Assim, desenvolveu-se uma versão digital do flipbook, que compõe o kit educativo Vialáctea do projeto matricial. Ambas as versões (impressa e digital) obtiveram registro de ISBN, respectivamente 978-85-64049-46-8 e 978-85-64049-49-9. A obra literária foi registrada no Portal de Obras (https://www.registrodeobras.com/index): 312251206. A versão digital está hospedada em um domínio institucional de acesso aberto (https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/564/2020/01/Flipbook-Digital.pdf).

Quanto aos pontos elencados como falta de conhecimento prévio sobre o tema e conteúdo extenso, foi elaborado um material de treinamento (https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/564/2020/01/Material-de-treinamento-ViaLactea-Digital-digital.pdf). Quanto à acessibilidade para pessoas com deficiência visual, foi elaborado um audiobook (https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/564/2020/01/AudioBook-Vialactea-1.mp3) e um vídeo de divulgação do kit educativo com linguagem de sinais (libras; https://www.youtube.com/watch?v=Vco8Jwfinls&feature=youtu.be).

Sugestões de melhorias no design (tamanho, marcadores, tipo de encadernação) são valiosas para futuras versões e estratégias de implementação.

DISCUSSÃO

A adaptação do recurso educacional decorre da criação de um website que atendeu a um problema clínico relacionado à insegurança alimentar de crianças não amamentadas e à demanda do cotidiano de cuidados de seus familiares. Esse desdobramento compromete a equipe de pesquisa a buscar potencializar o uso do recurso educativo criado.

O engajamento das partes interessadas22 é crucial no desenvolvimento de materiais educativos em saúde, abrangendo a participação de indivíduos ou grupos com interesse na intervenção educativa, como gestores, profissionais de saúde e educadores. Essas parcerias entre pesquisadores, usuários e mediadores do conhecimento, apoiadas por estruturas apropriadas, são essenciais para aprimorar a TC.23 Isso possibilita que necessidades e preocupações do público-alvo sejam consideradas, identificando barreiras e, consequentemente, estratégias para superá-las, aumentando a probabilidade de sucesso do projeto.

A barreira na formação e na educação permanente dos profissionais converge com o compromisso de TC em ação, sendo esse um processo dinâmico que sintetiza, dissemina, troca e aplica o conhecimento de forma ética para promover a saúde e fortalecer os serviços de saúde.24 Com essa intencionalidade, os materiais educativos em saúde criados ou adaptados ao público-alvo devem garantir que seus conteúdos sejam compreendidos e relevantes.25 A avaliação com o público-alvo possibilita que, além do conteúdo, a linguagem e o formato sejam acessíveis e aplicáveis ao contexto local em que será utilizado.

Neste estudo, a usabilidade do flipbook, avaliada como melhor imaginável, apresentou escore superior aos observados em avaliações de outros recursos educacionais com estudantes da área da saúde, como softwares e ferramentas de e-learning, que atingem classificações de “Bom” a “Excelente”.26-28 Os escores de usabilidade de 95 e 92,5, classificados como “melhor imaginável”, decorrem do formato sequencial do flipbook, que, ao manter o fluxo tradicional de leitura pela virada de páginas, reduz a sobrecarga cognitiva extrínseca e a desorientação espacial, frequentemente presentes em ferramentas de e-learning baseadas em hiperlinks.

O resultado sugere que o formato flipbook, ao oferecer conteúdo estruturado por árvore de decisão conforme tipo de leite e utensílio, com busca por assunto e fundamentação em evidências científicas para educação alimentar e nutricional de crianças não amamentadas, foi percebido como útil, fácil de usar, consistente e adequado para o aprendizado pelos participantes do estudo.

Os participantes reconheceram os benefícios do flipbook para a formação e atuação profissional, demonstrando alta confiança nas informações e expectativas. Isso indica que o recurso atende a uma necessidade percebida em relação ao tema da segurança alimentar de crianças não amamentadas, conteúdo essencial na prática da enfermagem pediátrica e na atenção primária à saúde.28 Ademais, os participantes manifestaram motivação para utilização do flipbook, corroborando a premissa de que elevada motivação para o uso é fator relevante para a efetividade de recursos educacionais.29

A obtenção de 100% de confiança e segurança quanto ao uso do flipbook reflete o fortalecimento da autonomia do estudante no cenário de atenção à saúde. Ao dispor de um recurso educacional de fácil manejo durante a consulta, o graduando reduz o receio de cometer equívocos na tomada de decisão, funcionando assim como elemento de suporte formativo e permitindo ao estudante maior protagonismo na condução da consulta de puericultura.

O flipbook foi avaliado como fácil, intuitivo, descomplicado e seguro de usar, aspecto fundamental para adoção de recursos educacionais.10 A facilidade de uso, sem necessidade percebida de auxílio técnico, contrasta com avaliações de tecnologias mais complexas, como a realidade virtual, que pode demandar maior suporte.30

A percepção de que as funções estavam bem integradas e consistentes reforça a qualidade do design e da estrutura do material.31 A composição do flipbook com apresentação de pontos-chave, organizado em módulos, em formato de fácil leitura e com recursos gráficos de alta qualidade, contribui para melhoria do conhecimento sobre segurança alimentar.32 Um flipbook dirigido ao profissional de saúde, com foco nas partes interessadas, aprimora a competência cultural; a apresentação visual fortalece o engajamento e a compreensão dos recursos educacionais.33

As características do design do flipbook (ícones, imagens, quadros, tabelas, caixas de texto de alertas e dicas para a prática, códigos QR para acesso a outros recursos ou informações complementares) facilitam o uso, promovendo conteúdo interativo, tornando conceitos complexos mais acessíveis e gerando experiências significativas de aprendizagem. Tal aprendizagem significativa promove a transformação do conhecimento, capacitando o estudante a compreender e atuar de maneira autônoma ao longo de sua trajetória profissional.34 Recursos educacionais apresentam potencial para efeitos positivos de aprendizagem significativa em profissionais de saúde, exemplificados pelo impacto na mudança de conhecimento e prática em consultas de puericultura mais qualificadas para vigilância do crescimento e do desenvolvimento.35

Os pontos positivos destacados nas respostas abertas (formato impresso e digital, praticidade, linguagem acessível, clareza, design, relevância) corroboram o elevado escore na escala de avaliação de usabilidade, com avaliação positiva quanto à expectativa de uso, facilidade da ferramenta, atributos integrados e consistentes e aprendizagem rápida. A percepção de que o conteúdo é baseado em evidências e contribui para a segurança alimentar infantil valida a qualidade e o objetivo do material. Esses resultados alinham-se com as qualidades desejáveis em recursos educacionais, tais como compreensão do tema, qualidade técnica,36 motivação e interatividade.37

A identificação de barreiras como “conteúdo extenso” e “falta de conhecimento prévio” transcende a mera avaliação tecnológica e revela lacunas estruturais na formação acadêmica em enfermagem pediátrica. Esse panorama aponta que temas complexos, como segurança alimentar na primeira infância, muitas vezes abordados de forma fragmentada ou superficial nas matrizes curriculares, podem gerar insegurança teórica nos estudantes. Assim, o flipbook atua não apenas como material de apoio, mas como ferramenta pedagógica prévia à inserção do estudante na prática clínica. Por outro lado, em um cenário nacional marcado por assimetrias socioeconômicas, a conversão do material para formatos digitais e de audiobook representa alternativa multimodal, democratizando o acesso ao conhecimento.

O desenvolvimento do flipbook Vialáctea, integrado ao kit educativo, atende à necessidade de recursos educacionais abertos, baseados em evidências e adaptados ao contexto local. Profissionais de saúde avaliam positivamente o uso de kits de ferramentas em saúde para apoiar familiares nas demandas de cuidado, podendo ser útil tanto como intervenção multicomponente quanto individualmente como intervenção educacional.37 Além disso, a versão digital pode superar barreiras geográficas de distribuição física, enquanto o formato em áudio favorece a inclusão e acessibilidade para usuários com diferentes níveis de letramento ou deficiência visual, alinhando-se às diretrizes de humanização e universalização na atenção à saúde.

CONCLUSÃO E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

O recurso educacional no formato flipbook sobre segurança alimentar e nutricional de crianças menores de seis meses não amamentadas foi avaliado positivamente por estudantes e profissionais de saúde, sendo considerado prático, acessível, fácil de usar e com funções integradas e consistentes.

O elevado potencial de aceitação e utilização no contexto acadêmico e clínico indica que as implicações para a prática referem-se à apresentação de um recurso educacional com alta usabilidade, capaz de apoiar a formação e auxiliar profissionais na promoção da segurança alimentar e nutricional de crianças não amamentadas, o que pode impactar positivamente no crescimento saudável e na redução da morbimortalidade infantil. O flipbook pode ser utilizado de modo complementar a outros materiais, como a Caderneta da Criança, sendo fonte de informação segura e alinhada às diretrizes nacionais.

O desenvolvimento do flipbook com o engajamento das partes interessadas e avaliação do público-alvo gerou um produto de tradução do conhecimento em educação alimentar de crianças não amamentadas, que obteve a melhor classificação e pode ser utilizado no Brasil e adaptado a outros contextos. Uma limitação identificada no desenvolvimento do flipbook refere-se à produção imagética, que retrata apenas parcialmente a diversidade brasileira, embora inclua personagens pardos, brancos e pretos, alinhados à demografia nacional e a aspectos culturais e nutricionais do país. Reconhece-se, portanto, a necessidade de adaptação para públicos cultural e linguisticamente diversos, considerando as diretrizes alimentares locais, a fim de ampliar a implementação do kit educativo Vialáctea. Adicionalmente, uma limitação da avaliação do material corresponde ao uso de amostragem por conveniência restrita a um único município.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Cassiani Mello Gubiani pela contribuição na coleta de dados como bolsista de iniciação científica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no artigo.

  • a
    Extraído da dissertação – Segurança alimentar e nutricional de crianças menores de seis meses não amamentadas: avaliação de um recurso educacional por estudantes de enfermagem, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal de Santa Maria, em 2025.
  • FINANCIAMENTO
    O presente estudo foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (edital Universal n° 18/2021 (faixa B; processo número 403547/2021-0) e Programa CAPES: PDPG-CONSOLIDACAO-3-4 (processo número 88881.710198/2022-01).
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2026
  • Aceito
    15 Jul 2026
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