RESUMO
Objetivo: A gestão da informação é um conjunto de práticas que visa a otimização do fluxo informacional das organizações, permitindo que elas se adaptem às mudanças de ambiente. Após o período pandêmico, o teletrabalho se tornou uma modalidade de trabalho que vem ganhando espaço no âmbito da administração pública federal e nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), e as bibliotecas universitárias estão inseridas nesse contexto. Nessa perspectiva, o presente estudo tem por objetivo apresentar reflexões sobre a gestão da informação em bibliotecas universitárias em um cenário do teletrabalho.
Método: O estudo caracterizou-se como exploratório, descritivo e bibliográfico, com abordagem qualitativa, tendo como base teórica o modelo de gestão da informação proposto por Choo.
Resultado: Foi possível constatar que nas bibliotecas universitárias as atividades desenvolvidas em regime de teletrabalho podem ser alinhadas com o ciclo de gestão de informação defendido por Choo.
Conclusões: Conclui-se que a gestão da informação nas bibliotecas universitárias deve ser uma prática relevante a ser adotada pelos gestores de bibliotecas, pois, a sua aplicação propicia a melhoria contínua na prestação dos serviços e produtos ofertados pelas bibliotecas de maneira a se adaptarem frente às mudanças sociais, ambientais e tecnológicas que ocorrem na sociedade, como no caso do teletrabalho.
PALAVRAS-CHAVE:
Gestão da informação; Teletrabalho; Bibliotecas universitárias
ABSTRACT
Objective: Information management is a set of practices aimed at optimizing the flow of information within organizations, allowing them to adapt to environmental changes. Following the pandemic period, telework has become a work modality that is gaining ground in the federal public administration and in Federal Institutions of Higher Education (IFES), and university libraries are situated within this context. From this perspective, the present study aims to present reflections on information management in university libraries within a telework setting.
Methods: The study was characterized as exploratory, descriptive, and bibliographic, with a qualitative approach, using the information management model proposed by Choo as a theoretical basis.
Results: The results showed that activities developed in a telework regime in university libraries can be aligned with the information management cycle advocated by Choo.
Conclusions: It is concluded that information management in university libraries must be a relevant practice adopted by library managers, as its application promotes continuous improvement in the services and products offered, allowing them to adapt to the social, environmental, and technological changes occurring in society, such as telecommuting.
KEYWORDS:
Information management; Telework; University libraries
1 INTRODUÇÃO
A Gestão da Informação (GI) está relacionada a um conjunto de práticas voltadas à coleta, armazenamento, organização, análise e geração de novas informações. Tanto que, Valentim et al., (2008) defendem que a GI é parte essencial para o bom desenvolvimento das atividades organizacionais, na medida em que atua no seu fluxo informacional, com métodos e padrões para a sua instrumentalização. Esse ponto se alinha ao que Choo (2006) apresenta como objetivo da GI, relacionado ao aproveitamento dos recursos e capacidades informacionais, para que as organizações se adaptem às mudanças de cenário.
Nesse caminho, as bibliotecas podem fazer uso da GI para melhorar as suas atividades ante às mudanças impostas pela rápida informatização. Rosetto (1997) já chamava atenção pelo uso da GI em bibliotecas no final do século passado para atuar com os documentos em formato digital em bibliotecas. Neves e Padilha (2012) relatam o uso da GI para atuar com a gestão do estoque informacional. Já Souza, Oliveira e Rosário (2016) defendem o uso da GI na gestão da qualidade de serviços ofertados pela biblioteca, utilizando ferramentas apropriadas para subsidiar tomadas de decisão. Chaves et al., (2022) apresentam o mapeamento de processos para aperfeiçoar a GI aplicada na biblioteca, buscando a melhoria contínua da cultura organizacional e promovendo a fluidez das informações.
Assim, é preciso um entendimento maior sobre o uso da GI em bibliotecas brasileiras, principalmente as universitárias, na medida em que essas unidades de informação enfrentam desafios, não apenas com o uso cada vez maior do formato digital, mas com a diminuição da frequência de usuários e menores orçamentos. Estes são fenômenos mundiais, tanto que Simic (2011) escreveu uma resenha sobre cidades estadunidenses que estavam fechando as suas bibliotecas públicas, apresentando as suas preocupações em um país sem bibliotecas. Proctor e Simmons (2000) também relatam situações semelhantes no Reino Unido, em parte pelas questões financeiras, ao mesmo tempo em que defendem as bibliotecas como espaços sociais de grande valor. Evidentemente que esses relatos tratam de bibliotecas públicas, mas em menor caso afetam as bibliotecas universitárias, levantando um alerta para todos os tipos de bibliotecas.
Outro ponto que agrega complexidade ao cenário atual é a implementação do teletrabalho nas bibliotecas, aplicado durante a pandemia e gradativamente sendo utilizados em várias unidades de informação. Ferreira e Shintaku (2023) apresentam o cenário da implementação do teletrabalho nas bibliotecas universitárias federais do sul brasileiro, revelando que ainda não é utilizado em todas as universidades, mas que essa modalidade de trabalho vem ganhando espaço. Dessa forma, o presente estudo tem por objetivo apresentar reflexões sobre a gestão da informação nas bibliotecas universitárias em um cenário do teletrabalho.
2 BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS
As bibliotecas universitárias (BUs), são organizações que visam servir de suporte para o ensino, pesquisa e extensão das universidades às quais pertencem. Na visão de Rossi e Vianna (2018, p. 6), as BUs “[...] colaboram na geração do conhecimento e dão suporte ao processo de ensino e aprendizagem desenvolvidos na universidade por meio de múltiplos serviços a fim de atender as mais diversas necessidades dos usuários”. Nessa mesma linha de pensamento, Graciosa Herculano (2022, p. 29), menciona que “a biblioteca universitária é um ambiente que aproxima o estudante da prática de estudo apoiando o ensino e aprendizagem para propiciar a formação de sujeitos críticos conforme sua experiência literária”. À vista disso, pode-se dizer que as BUs são unidades de informação que auxiliam no processo ensino e aprendizagem, e propiciam o acesso, a construção e socialização do saber e do conhecimento científico.
Esses conceitos reforçam a relevância das BUs no ambiente acadêmico, de forma que os serviços e produtos ofertados estejam alinhados com a missão da universidade que é contribuir para o desenvolvimento econômico, social, cultural, político, científico e tecnológico da sociedade. Tanto que Ferreira (1980, p. 7), descreve a importância da biblioteca da seguinte maneira:
Se a biblioteca é importante para o ensino em geral, no ensino superior seu papel é proeminente em virtude do valor da própria universidade, pois nenhuma outra instituição ultrapassa em magnitude a contribuição universitária, a qual torna possível o formidável avanço tecnológico e científico que se registra atualmente em todos os campos do conhecimento. Na verdade, em todo o processo educacional, é decisiva a influência da biblioteca, que se pode constituir num dos principais instrumentos de que a universidade dispõe para atingir suas finalidades.
Portanto, é possível observar que as bibliotecas universitárias sempre estiveram inseridas na comunidade acadêmica para disseminar a informação, servir de apoio ao processo ensino e aprendizagem e contribuir para a criação e produção do conhecimento científico. E considerando as constantes transformações da sociedade nos aspectos econômicos, educacionais, sociais e principalmente com as mudanças tecnológicas, é fundamental que a BUs, busquem se adequar para conseguir oferecer serviços e produtos de qualidade e inovadores que atendam as necessidades informacionais dos usuários. Dessa forma, as BUs podem fazer uso dos preceitos da gestão da informação para se adaptarem às mudanças de cenário como por exemplo o teletrabalho, e ao mesmo tempo proporem a melhoria contínua de serviços e produtos ofertados à comunidade acadêmica e à sociedade.
2.1 GESTÃO DA INFORMAÇÃO
A informação é considerada um insumo essencial para o desenvolvimento das organizações. Tanto que Dias e Belluzzo (2003, p. 24), pontuam que “a informação é considerada cada vez mais, um recurso estratégico e de valor agregado para a percepção e absorção de novas tecnologias”. Na percepção de Nonaka e Takeuchi (1997, p. 63), “a informação é um meio ou material necessário para extrair e construir o conhecimento”. Nessa mesma linha de pensamento Choo (2006, p. 403), coloca que “para se tornar estratégica, a informação precisa ser transformada em conhecimento que possa guiar a ação”. Diante desse contexto, pode-se apontar que a informação dentro do contexto organizacional é fundamental para fomentar o desenvolvimento, e contribuir para a construção do conhecimento e a tomada de decisão. Nessa perspectiva, a informação deve ser gerenciada e organizada por métodos e técnicas que proporcionam a vantagem competitiva para empresas e instituições.
Para Dias e Belluzzo (2003, p. 65) a “gestão da informação é o conjunto de conceitos, princípios, métodos, técnicas utilizadas na prática administrativa colocados em execução pela liderança de um serviço de informação em C&T para atingir a missão e os objetivos fixados”. Na visão de Davenport (1998, p. 173), a GI “trata-se de um conjunto estruturado de atividades que incluem o modo como as empresas obtêm, distribuem, e usam a informação”. Assim sendo, pode-se considerar que a GI é o procedimento que envolve o gerenciamento, a organização, o tratamento, a disseminação e a utilização da informação em ambientes informacionais ou organizacionais, com o objetivo de propiciar a melhoria contínua dos processos, produtos e serviços dos órgãos privados ou públicos.
Nesse mesmo caminho, Choo (2006), propôs um modelo de gerenciamento da informação como um ciclo contínuo composto por 6 processos: identificação das necessidades de informação, aquisição da informação, organização e armazenamento da informação, desenvolvimento de produtos e serviços de informação e uso da informação. Esses processos funcionam de forma correlata, sendo que o uso efetivo da informação resulta no comportamento adaptativo, cujas ações são dirigidas para objetivos, mas, ao mesmo tempo, reagem às mudanças do ambiente. Choo (2006), coloca ainda que as reações dos indivíduos na organização geram novas necessidades de informação e aquisição da informação, ou seja, retroalimentam o processo gerando novos ciclos de uso da informação.
Nesse sentido, percebe-se que a GI contribui com as organizações e instituições na melhoria contínua de seus processos, fluxos de informação e mudanças de cenário, o que se alinha aos temas deste estudo em que a pandemia impôs mudanças bruscas de cenário, e o teletrabalho entrou como uma melhoria de processo voltado ao trabalho realizado pelas bibliotecas.
2.2 TELETRABALHO
O teletrabalho é a modalidade de trabalho que utiliza os recursos da tecnologia da informação e comunicação (TICs) para o desenvolvimento das rotinas trabalhistas de forma on-line. Para Rosenfield e Alves (2011, p. 216), o termo “teletrabalho pode ser definido como trabalho à distância com utilização das TICs”. Já Nilles (1997, p. 15), definiu o teletrabalho da seguinte maneira: “levar o trabalho aos trabalhadores, em vez de levar estes ao trabalho, atividade periódica fora do escritório central, um ou mais dias da semana, seja em casa ou em um centro de telesserviço”. Assim, pode-se pontuar que o teletrabalho é realizado com os recursos tecnológicos em ambiente distante do local de origem do trabalhador.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), leis que regulamentam as relações de trabalho no Brasil, define o teletrabalho no Art.75B da seguinte maneira: “Considera-se teletrabalho a prestação de serviços preponderantemente fora das dependências do empregador, com a utilização de tecnologias de informação e de comunicação que, por sua natureza, não se constituam como trabalho externo”, regulamentação que consta na Lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017 da Reforma trabalhista (Brasil, 2017).
A lei destaca em Parágrafo único que “o comparecimento do trabalhador no local de trabalho para a realização de atividades que exijam sua presença não descaracteriza o regime de teletrabalho” (Brasil, 2017).
No âmbito da administração pública federal, atualmente, os documentos norteadores que regulamentam o teletrabalho são o Decreto nº 11.072, de 17 de maio de 2022, a Instrução Normativa nº 24, de 28 de julho de 2023 e Instrução Normativa nº 52, de 21 de dezembro de 2023. Essas diretrizes estabelecem o Programa de Gestão e Desempenho (PGD), que contempla a modalidade teletrabalho (Brasil, 2022, 2023a, 2023b). O Decreto nº 11.072, de 17 de maio de 2022, em seu parágrafo único do artigo 1º, estabelece que “O PGD é instrumento de gestão que disciplina o desenvolvimento e a mensuração das atividades realizadas pelos seus participantes, com foco na entrega por resultados e na qualidade dos serviços prestados à sociedade” (Brasil, 2022). Por conseguinte, o PGD é um programa de gestão por resultados que busca gerenciar a produtividade do serviço público com o propósito de oferecer serviços de qualidade para o cidadão.
Portanto, é diante desse novo cenário da gestão de pessoas na administração pública federal que o teletrabalho se insere. Essa modalidade pode ser ofertada pelos órgãos e entidades em regime de execução parcial ou integral.
É importante destacar que o termo teletrabalho é encontrado na literatura com outras denominações como: trabalho remoto, home office, trabalho on-line, trabalho à distância, trabalho flexível e trabalho virtual (Araújo; Lua, 2021; Kugelmass, 1996; Rocha; Amador, 2018). No entanto, neste estudo adotou-se o termo teletrabalho devido ser a designação utilizada na legislação brasileira.
Vale ressaltar que a adoção da modalidade teletrabalho pelas empresas privadas e públicas é motivada por vantagens apresentadas tanto para o empregador, como por exemplo, o aumento da produtividade e a redução de custos operacionais, como para o colaborador, como é o caso do ganho de qualidade de vida e a redução do tempo de deslocamento no trânsito (Ferreira, 2025; Giglio; Galegale; Azevedo, 2018).
Com isso, atende-se a forma de trabalho híbrida, no qual parte das atividades são efetuadas presencialmente e parte são atendidas de forma remota, possibilitando que quase todos os profissionais possam aderir ao teletrabalho, como no caso dos trabalhadores lotados nas bibliotecas. Cabe destacar que o teletrabalho nas bibliotecas universitárias é uma modalidade de trabalho que está sendo implementada nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), vinculadas ao Sistema de Pessoal Civil da Administração Federal (SIPEC).
3 METODOLOGIA
Tendo em vista que o objetivo do estudo é apresentar reflexões sobre a GI nas BUs em um cenário do teletrabalho, a pesquisa é caracterizada como exploratória, visando aumentar a familiaridade com o fenômeno estudado (Gil, 2022).
Nesse mesmo caminho, a pesquisa apresenta características descritivas de abordagem qualitativa, conforme pontuam Hernández Sampieri, Fernández Collado e Baptista Lucio (2006), na medida em que busca descrever o fenômeno da pesquisa.
Dessa forma, buscou-se identificar e relatar a relação entre o modelo de GI proposto por Choo (2006), Figura 1, e a aplicação da GI nos serviços prestados pelas BUs, no contexto do teletrabalho, por meio de um estudo bibliográfico.
A coleta de dados deu-se por meio do Google Acadêmico, pois como destacam Jacsó (2005), Harzing (2017), Zientek et al., (2018) essa fonte indexa grande parte das publicações, incluindo artigos de eventos e revistas, livros, teses e dissertações. No Brasil, o Google Acadêmico indexa grande parte das revistas brasileiras, e agregadores como o Scientific Electronic Library Online (SciELO), Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI), entre tantos outros.
Assim, o estudo fez buscas múltiplas com cada um dos elementos propostos no modelo de gestão da informação defendido por Choo (2006) e biblioteca universitária, como por exemplo: “necessidade de informação” AND “biblioteca universitária”. A seleção dos artigos deu-se pela relevância e em língua portuguesa, na medida em que o contexto é brasileiro, de forma a fundamentar cada elemento do modelo.
Neste sentido, a análise buscou relacionar os preceitos apresentados por Choo (2006) em seu modelo de gestão da informação, com as informações relacionadas à biblioteca universitária, pontuando que cada etapa do modelo é possível de ser realizada na modalidade teletrabalho.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
De acordo com Choo (2006), a primeira fase do ciclo da GI contempla as “necessidades de informação”, oriundas dos problemas, lacunas, incertezas e outros fatores criados pelos indivíduos ou grupos internos nas organizações. Cabe relatar que, para o autor, essas necessidades são dinâmicas e mutáveis conforme a percepção e posição dos usuários, podendo gerar novas necessidades à medida que o ciclo informacional ocorre.
Miranda (2006, p. 106) define as necessidades de informação “como um estado ou processo no qual alguém percebe a insuficiência ou inadequação dos conhecimentos necessários para atingir objetivos e/ou solucionar problemas, sendo essa percepção composta de dimensões cognitivas, afetivas e situacionais.” Já Cunha, Amaral e Dantas (2015) mencionam que as necessidades de informação das pessoas são diversas, como, por exemplo, encontrar documentos específicos de determinado tema, solucionar problemas, encontrar dados ou informação factual, entre outras. Assim, pode-se dizer que as necessidades de informação das pessoas estão relacionadas com questões pessoais, profissionais e educacionais, e dependem do contexto em que a pessoa está inserida, para que a informação possa ser relevante para a solução de um problema, atender a uma necessidade básica ou até mesmo para a tomada de decisão, independentemente se está atuando presencialmente ou na forma de teletrabalho.
Nesse sentido, no âmbito das BUs, as necessidades de informação são moldadas pela oferta de cursos de graduação e pós-graduação das instituições, bem como pelo perfil e demandas de seus usuários: docentes, discentes e pesquisadores (Machado; Silva, 2002). Nesse caminho, as bibliotecas devem manter um acervo dinâmico e atualizado, tanto em formato impresso quanto digital, e um canal de comunicação ativo com a comunidade acadêmica, visando atender às necessidades de pesquisas e estudos dos usuários.
Do ponto de vista do teletrabalho nas BUs, essa etapa é passível de ser executada buscando identificar as necessidades de informação dos usuários por meio de canais como chats on-line, videoconferência pelo Teams, Google Meet, e-mails, WhatsApp, Instagram, Facebook, e outros canais de redes sociais. A utilização de canais de interação informatizado atende à fase de identificar as “necessidades de informação” proposta pelo modelo.
A segunda fase do ciclo proposto por Choo (2006), a “aquisição da informação”, refere-se ao equilíbrio entre a necessidade de informação da organização e as mudanças do ambiente externo, tornando-se uma tarefa complexa devido à multiplicidade de fontes e formatos de informação disponíveis. Essa fase é complexa e exige controle e administração, sendo necessário contar com o conhecimento de bibliotecários e outros profissionais da informação para que a variedade de informações possa ser equilibrada entre quantidade e qualidade. A utilização da tecnologia da informação é essencial nessa etapa.
No caso das BUs, a aquisição da informação é feita geralmente pelo setor de referência e pelo setor de desenvolvimento e formação de recursos informacionais.
O setor de desenvolvimento e formação de recursos informacionais desenvolve a política de desenvolvimento de coleções, tendo por finalidade atender às necessidades informacionais dos usuários (Castro, 2005). Para Machado (2023, p. 158), “o desenvolvimento de coleções ancora um conjunto de ações direcionadas a formar, desenvolver e manter uma coleção de materiais informacionais numa biblioteca [...]”. Dentro dessas ações destaca-se o processo de aquisição, que tem por função manter a atualização e renovação do acervo com fontes de informação impressas, como livros e manuais, e fontes digitais, como bases de dados, e-books, bibliotecas digitais e periódicos eletrônicos.
O setor de referência atua na aquisição da informação por meio da busca e disponibilização de materiais que possam satisfazer as necessidades de informação dos usuários, por meio de fontes impressas ou digitais, de forma rápida, precisa e confiável. Esse setor oferece um serviço de atendimento individualizado que procura atender o usuário em suas questões específicas, contribuindo para uma busca mais eficiente em pesquisas e estudos. Portanto, o serviço de referência tem por objetivo principal disponibilizar a informação aos usuários, de forma a atender às suas necessidades informacionais de modo personalizado (Pinto, 2017).
Nesse mesmo caminho, pode-se entender, conforme a gestão da informação e do conhecimento, que as pessoas podem ser consideradas como fontes, na medida em que os bibliotecários atuam com o seu conhecimento na oferta de informação. Esse ponto alinha-se ao que Choo (2006, p. 408) advoga, de que, “[...] as pessoas sempre serão as fontes de informação mais valiosas em qualquer organização”. Neste caso, o atendimento personalizado e a promoção de capacitações e treinamentos pelas bibliotecas estão contidos nesta etapa do ciclo.
O ciclo de aquisição é uma atividade desenvolvida a partir do serviço de referência, da política de desenvolvimento de coleções da instituição e de sugestões da comunidade acadêmica por meio dos canais formais e informais da biblioteca. Nesse contexto, o bibliotecário utiliza recursos tecnológicos, como consulta a bases de dados, pregões eletrônicos e catálogos on-line para pesquisa dos materiais para compra e outras ferramentas disponíveis para esse processo, o que torna possível considerar o teletrabalho para esta etapa do ciclo. Entretanto, destaca-se que esse procedimento é uma atividade que cada biblioteca desenvolve conforme a sua realidade de recursos financeiros, de pessoal e política de desenvolvimento do acervo.
A terceira fase do ciclo proposta por Choo (2006) é a “organização e armazenamento da informação”, na qual se reflete como a organização recupera e compartilha a informação disponível. Essa fase envolve aspectos técnicos e tecnológicos, na medida em que as informações da organização devem estar armazenadas em sistemas de informação, contribuindo para a memória organizacional.
Tradicionalmente, nas BUs, nos processos de organização e armazenamento da informação, são utilizados códigos de classificação para agilizar e facilitar a busca e recuperação da informação, sendo os mais tradicionais: a Classificação Decimal de Dewey (CDD) e a Classificação Decimal Universal (CDU).
A CDD foi criada por Melvil Dewey em 1876. Ele dividiu o conhecimento humano em 10 classes principais: 000 - Ciência da computação, Informação e obras gerais; 100 - Filosofia e Psicologia; 200 - Religião; 300 - Ciências sociais; 400 - Linguagem; 500 - Ciência; 600 - Tecnologia; 700 - Arte e Recreação; 800 - Literatura e 900 Geografia e História (Vogel; Pazos, 2024). Essa classificação é uma das mais utilizadas no mundo, constituindo-se num sistema padrão de organização de bibliotecas.
A CDU foi desenvolvida por Paul Otlet e Henri La Fontaine e sua estrutura organizacional tem como base a CDD. Ela está dividida em 2 volumes, sendo que o volume 1 apresenta a tabela sistemática, que se subdivide na tabela principal (conhecimento humano) e tabelas auxiliares, e o volume 2, o índice alfabético (Silva, 2014).
A classificação é uma das atividades que fazem parte do preparo técnico do acervo. De acordo com Silva (2014, p. 2), “classificar significa dividir elementos em grupos, reunir coisas, assuntos e seres de acordo com cada característica em comum ou incomum, analisando as diferenças e semelhanças entre os grupos”. Portanto, os sistemas de classificação têm por objetivo organizar e agrupar os documentos de um mesmo assunto ou de assunto similar em uma biblioteca. Assim, os materiais em suporte físico são armazenados em estantes, seguindo uma organização padrão aceita internacionalmente, o que facilita a recuperação da informação de forma similar em todas as bibliotecas usuárias do padrão.
Para documentos digitais, há diversos sistemas de informação, sendo os mais comuns os repositórios e as bases digitais de artigos, periódicos e outros. Entretanto, não há um padrão internacional que atue na organização do acervo digital, sendo a recuperação efetuada, em grande parte, por meio de sistemas de busca. Em alguns casos, os acervos digitais são organizados conforme as áreas de conhecimento, apenas como forma de classificar os itens.
Para o teletrabalho, a fase de “organização e armazenamento da informação” apresenta um aspecto fundamental na medida em que os colaboradores da organização requerem o compartilhamento da informação para a sua atuação. Nesse sentido, faz com que essa fase tenha impacto no sucesso da implementação e manutenção do teletrabalho, requerendo a oferta de sistemas de informação adequado para facilitar a recuperação de informação que envolve as atividades dos colaboradores.
No caso da implementação de teletrabalho na biblioteca universitária, a “organização e armazenamento da informação” dependerão da atividade do bibliotecário. Em relação às atividades de processamento técnico, por exemplo, o uso da CDU ou CDD já está consolidado, o que confere maior facilidade na implementação dessa modalidade de atuação. Em outras atividades, mais particulares, as BUs se comportam exatamente como as organizações, de acordo com suas necessidades informacionais.
A quarta fase do ciclo de Choo (2006) está associada à oferta de “produtos e serviços da informação”, que atendam às necessidades de informação dos colaboradores da organização, com qualidade e valor, e com o propósito de contribuir para o usuário tomar as melhores decisões. Nessa fase, notam-se dois elementos: produtos e serviços, sendo os produtos vistos como artefatos informacionais e os serviços como atividades realizadas.
No ambiente das BUs, esse processo pode estar relacionado com a oferta de produtos e serviços à comunidade acadêmica discriminados pelos seguintes autores: Castro (2005): acesso e pesquisa em bases de dados, pesquisa bibliográfica, normalização bibliográfica, circulação (empréstimo, devolução, renovação e reserva), referência (atendimento ao usuário), reprodução e disseminação seletiva da informação (DSI); Zaninelli, Nogueira e Peres (2019): os serviços podem ser: e-books, acesso à base de dados, bibliotecas virtuais, repositórios digitais de teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso, gestão de dados e bibliotecas das coisas (empréstimo de guarda-chuva, calculadora, fone de ouvido, carregador de celulares e adaptadores); Silvestre e Cunha (2022), citam: o plantão virtual pelo chat no site o Messenger, Whatsapp ou direct do Instagram, treinamentos e capacitações em diversas plataformas, webconferência, clube de leitura e cineclube pelo Instagram ou Youtube, nada consta e pagamento de multa via on-line, digitalização de documentos e envio do material via e-mail. Portanto, as BUs, dentro de suas possibilidades, inovam continuamente para oferecer produtos e serviços de qualidade para a seus usuários.
Nesse ciclo, pode-se apontar que diversas BUs já disponibilizam serviços e produtos de forma digital e on-line. Em vista disso, este processo pode continuar a ser ofertado pelas BUs, na modalidade de teletrabalho. Nessa etapa, é importante enfatizar que cada biblioteca disponibiliza serviços e produtos de acordo com a sua realidade, recursos e demanda.
A quinta fase do ciclo elaborado por Choo (2006) é a “distribuição da informação”, na qual as informações são disseminadas e compartilhadas pelas pessoas na organização. Esse processo é efetuado por meio de canais de informação formais ou informais, propiciando maior aprendizado organizacional, de modo a produzir novas informações e soluções no ambiente organizacional.
Nas BUs, a distribuição da informação corresponde à disseminação seletiva da informação (DSI), que tem por objetivo disseminar a informação aos usuários, tanto dos serviços e produtos ofertados, quanto das novas aquisições que chegam às unidades.
Eirão e Cunha (2013, p. 41) mencionam que “a DSI possui a característica de antecipar as necessidades do usuário, facilitando as pesquisas permitindo ao usuário ganhar tempo e obter um produto personalizado”. Por conseguinte, esse processo nas BUs vai ao encontro do que defende Choo (2006, p. 414), para que “a informação correta atinja a pessoa certa no momento, lugar e formatos adequados”. Desse modo, o serviço de disseminação nas bibliotecas é essencial para distribuir e compartilhar a informação de forma a atender às necessidades informacionais do usuário certo no momento certo e por meio de fontes de informação adequadas.
A DSI pode ocorrer por meio de canais de informação como: boletins, e-mails, palestras, cursos, folhetos, guias, manuais, estantes expositoras com novas aquisições, redes sociais, sites das bibliotecas, Youtube, sugestões de leitura, lista de últimas aquisições, divulgação de eventos, resumo de obras adquiridas recentemente, fóruns e debates por área de interesse (Dionisio; Farias, 2021). Com isso, esse processo é imprescindível para as bibliotecas universitárias, pois, além de ser um canal para disseminar a informação científica nas universidades, constitui-se num importante meio de interação com o usuário, para se obter feedback e sugestões para a tomada de decisões com relação à manutenção, alteração, e inclusão de novos serviços e produtos para os usuários.
Essa etapa é uma rotina que pode perfeitamente ser desenvolvida por meio do teletrabalho, pois, como pontua Almeida (2008, p. 36) “com as mudanças introduzidas pela tecnologia, os serviços de disseminação seletiva foram gradativamente incorporados aos formatos eletrônicos”. Destarte, a DSI é uma etapa que, nas BUs, se constitui num processo em que os bibliotecários distribuem e compartilham as informações de acordo com as necessidades do público-alvo, utilizando redes sociais, sistemas informatizados e outros formatos eletrônicos.
A sexta fase do modelo proposto por Choo (2006) é o “uso da informação”, atrelado ao reconhecimento da importância da informação para as organizações, fase em que a troca e a interpretação pelos indivíduos proporcionam a criação de significado, a construção do conhecimento e a tomada de decisões no ambiente organizacional.
Já nas BUs, o uso da informação pelos usuários resulta em pesquisas e estudos que geram contribuições e conhecimentos, os quais proporcionam o desenvolvimento econômico, político, tecnológico e científico para a sociedade. Tanto que Fujita (2005) pontua que a biblioteca universitária “insere-se em um contexto universitário cujos objetivos maiores são o desenvolvimento educacional, social, político e econômico da sociedade humana”. À vista disso, as BUs desempenham um papel fundamental para a sociedade, uma vez que, além de servir de suporte para o ensino, a pesquisa e extensão, contribuem para a criação e construção do conhecimento científico.
Nessa etapa, a modalidade do teletrabalho é possível para os bibliotecários que desenvolvem atividades técnicas (preparo técnico do acervo, que envolve a classificação, catalogação e indexação), como aqueles que alimentam bases de dados, repositórios digitais, bibliotecas virtuais, periódico eletrônicos, porque são atividades que permite o uso dos recursos eletrônicos e ferramentas digitais para preparar o material para que o usuário possa fazer o “uso da informação”, disponíveis nos diversos suportes de informação.
Portanto, observa-se que, nos processos propostos por Choo (2006), as BUs, procuram dentro de suas possibilidades desenvolver as suas atividades alinhadas ao modelo de gestão da informação defendido por Choo (2006), com o intuito de adaptar-se às mudanças de ambiente e buscar a melhoria contínua dos serviços e produtos ofertados à comunidade.
É importante destacar que Ferreira (2025), em seu estudo “A gestão da informação e do conhecimento na implementação do teletrabalho nas bibliotecas universitárias da região sul do Brasil”, relata que todos os setores possuem servidores contemplados com a modalidade teletrabalho. Por outro lado, a prevalência na maioria das instituições que adotaram o teletrabalho para as unidades de biblioteca ocorre nos setores que desenvolvem atividades nas áreas administrativas e técnicas, confirmando, dessa forma, que o teletrabalho é possível em todos os setores de uma biblioteca universitária, desde que haja um planejamento e uma organização adequados, com estratégias e preferencialmente apoiadas nos preceitos da gestão da informação.
Entretanto, é necessário esclarecer que a GI ocorre de maneira contínua e precisa constantemente ser avaliada para ser atualizada e adaptada de acordo com as mudanças ambientais para oferecer serviços e produtos de qualidade à sociedade.
5 CONCLUSÃO
O teletrabalho nas BUs é relativamente novo, tendo a sua implementação nas IFES realmente efetuada após o período da pandemia. No âmbito da administração pública federal essa modalidade foi viável por meio do Decreto nº 11.072, de 17 de maio de 2022, complementadas e atualizadas por instruções normativas.
No que tange à GI observa-se, ainda que não totalmente, as atividades desenvolvidas nos setores das BUs estão intrínsecas ao modelo proposto por Choo (2006), conforme a análise da pesquisa.
Dessa forma, este estudo refletiu que o modelo de gestão da informação proposto por Choo (2006) pode ser alinhado em atividades desenvolvidas nos diversos setores da biblioteca universitária, e consequentemente sendo viável para o contexto do teletrabalho. Destaca-se que o uso da tecnologia se configura como um forte aliado no desenvolvimento desses processos, utilizando ferramentas como chats on-line, videoconferências pelo Teams, Google Meet, e-mails, redes sociais e sistemas de informação específicos utilizados pelas bibliotecas.
Na análise realizada foi possível relacionar as rotinas de trabalho da biblioteca com todos os procedimentos da GI apontados por Choo (2006), evidenciando que a aplicação da GI em unidades de informação favorece a oferta e a otimização dos serviços e produtos prestados à comunidade acadêmica.
Nessa perspectiva, é importante que os gestores das BUs tenham um olhar favorável a GI como uma prática relevante a ser adotada, pois, propicia a melhoria contínua na prestação dos serviços e produtos ofertados pelas bibliotecas de maneira a se manterem adaptadas frente às mudanças sociais, ambientais e tecnológicas que ocorrem na sociedade, como no caso o teletrabalho.
REFERÊNCIAS
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ORIGEM DA PESQUISA
O artigo teve origem do tema oriundo da dissertação de mestrado da primeira autora. A dissertação foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná, com o título: “A gestão da informação e do conhecimento na implementação do teletrabalho nas bibliotecas universitárias da região sul do Brasil”, autoria de Berenice Rodrigues Ferreira, Universidade Federal do Paraná, 2025, link de acesso: https://acervodigital.ufpr.br/xmlui/handle/1884/98192.
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PREPRINTS
O manuscrito não é um preprint.
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USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Não se aplica.
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CONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEM
Não se aplica.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Não se aplica.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA E OUTROS MATERIAIS
A pesquisa não possui dados.
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LICENÇA DE USO
As autorias cedem à Revista Encontros Bibli os direitos exclusivos de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY) 4.0 International. Essa licença permite que terceiros remixem, adaptem e criem a partir do trabalho publicado, atribuindo o devido crédito de autoria e publicação inicial neste periódico. As autorias têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não exclusiva da versão do trabalho publicada neste periódico (ex.: publicar em repositório institucional, em site pessoal, publicar uma tradução, ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial neste periódico.
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PUBLISHER
Universidade Federal de Santa Catarina. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade das pessoas autoras, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
Editado por
A pesquisa não possui dados.


Fonte: