RESUMO:
O artigo apresenta os resultados de uma pesquisa teórico-bibliográfica que se debruçou sobre o problema do conteúdo social da brincadeira pré-escolar, focalizando as relações entre forma e conteúdo da atividade lúdica protagonizada na obra máxima de Elkonin, Psicologia do jogo (2019). Partindo da constatação de que pesquisas contemporâneas brasileiras que assumem a perspectiva histórico-cultural têm tematizado apenas secundariamente a dimensão do conteúdo dos papéis sociais protagonizados pelas crianças, e tendo em vista a premissa de que o jogo protagonizado é atividade que proporciona a reconstituição de relações sociais pelo mecanismo da ação lúdica, o estudo investigou o tratamento dado pelo autor à problemática do conteúdo da brincadeira e sua relação com a forma lúdica. A análise da obra foi estruturada com base em quatro eixos: i) contexto histórico e projeto de sociedade; ii) método de conhecimento da realidade; iii) concepção de formação humana (relação indivíduo-sociedade); e iv) práxis pedagógica. Foi possível identificar que as dimensões da forma e do conteúdo da brincadeira são concebidas como unidade dialética, e que o princípio da unidade conteúdo-forma atravessa integralmente a obra analisada, trazendo centralidade ao conteúdo na teoria geral do jogo de Elkonin, fato que tem importantes implicações para a pesquisa científica e para o trabalho educativo escolar.
Palavras-chave:
unidade conteúdo-forma; brincadeira de papéis; Psicologia do jogo; Elkonin; psicologia histórico-cultural
ABSTRACT:
The article presents the results of a conceptual study addressing the social content of preschool play, with a focus on the relationship between the form and content of playful activity in Elkonin’s Psychology of Play (2019). Grounded in the premise that play constitutes an activity through which social relations are reconstituted via playful action, and noting that contemporary cultural-historical studies in Brazil have often treated the content of children’s roleplay as a secondary dimension, this theoretical investigation examined Elkonin’s approach to the problem of play content and its relationship with playful form. The analysis was organized around four axes: (i) the historical context and societal project; (ii) the method for understanding reality; (iii) the conception of human development (individual-society relationship); and (iv) pedagogical principles and action. We found that the dimensions of content and form are conceived as a dialectical unity in play, and such principle permeates Elkonin’s work, placing the play's social content at the center of his general theory of play—an insight with significant implications for both scientific research and educational practice in schools.
Keywords:
unit of content and form; play of roles; Psychology of Play; Elkonin; historical-cultural psychology
RESUMEN:
El artículo presenta los resultados de una investigación teórico-bibliográfica que se enfocó en el problema del contenido social del juego preescolar, centrándose en las relaciones entre la forma y el contenido de la actividad lúdica protagonizada en la obra máxima de Elkonin, “Psicología del Juego” (2019). Partiendo de la constatación de que las investigaciones contemporáneas en Brasil, que asumen la perspectiva histórico-cultural, han tematizado solo de manera secundaria la dimensión del contenido de los roles sociales protagonizados por los niños, y teniendo en cuenta la premisa de que el juego protagonizado es una actividad que permite la reconstrucción de las relaciones sociales mediante el mecanismo de la acción lúdica, el estudio investigó el tratamiento que el autor dio al problema del contenido del juego y su relación con la forma lúdica. El análisis de la obra se estructuró alrededor de cuatro ejes: i) contexto histórico y proyecto de sociedad; ii) método de conocimiento de la realidad; iii) concepción de formación humana (relación individuo-sociedad); y iv) praxis pedagógica. Fue posible identificar que las dimensiones de la forma y el contenido del juego se conciben como una unidad dialéctica, y que el principio de la unidad contenido-forma cruza integralmente la obra analizada, otorgando centralidad al contenido en la teoría general del juego de Elkonin, hecho que tiene importantes implicaciones para la investigación científica y la labor educativa escolar.
Palabras clave:
unidad contenido-forma; juego de roles; Psicología del Juego; Elkonin; psicología histórico-cultural
INTRODUÇÃO
A produção científica acerca da brincadeira infantil ampliou-se significativamente ao longo do século XX e das primeiras décadas do século XXI, registrando tentativas de compreendê-la a partir de diferentes concepções de ser humano e de desenvolvimento. A obra do psicólogo e pesquisador russo Daniil B. Elkonin destaca-se nesse campo pelo esforço de elaboração de uma teoria geral do jogo que pudesse esclarecer cientificamente sua natureza e especificidade, bem como seu processo formativo. Enfrentando lacunas e incoerências teóricas e metodológicas que marcam a literatura sobre o brincar, a obra Psicologia do jogo (Elkonin, 2019) representa uma síntese de seu trabalho investigativo ao longo de quase cinco décadas, englobando o estudo histórico, bibliográfico e experimental da estrutura interna da brincadeira de papéis2, apreendendo-a não como uma atividade qualquer da criança, mas como a atividade-guia3 do período pré-escolar - idade do desenvolvimento que, na sociedade contemporânea, vai de 3 a 6 anos aproximadamente.
Publicada em 1978 e traduzida para a língua portuguesa4 no ano de 1998, a obra Psicologia do jogo - que já completa, portanto, 25 anos de publicação no Brasil - tornou-se amplamente difundida entre pesquisadores dedicados à problemática da brincadeira a partir da psicologia histórico-cultural. A importância dessa obra em muito se liga ao fato de Elkonin (2019) avançar significativamente no exame dos elementos que explicam o jogo em sua totalidade, apreendendo sua origem histórico-social, revelando seu processo formativo na ontogênese e chegando a identificar no papel interpretado pelas crianças a unidade mínima de análise da brincadeira protagonizada.
Entendendo que é na base da assimilação das regras de conduta - condizentes ao sistema de papéis sociais - que se torna possível aos pequenos apreender normas, sentidos e motivos subjacentes ao trabalho adulto e às relações sociais entre as pessoas, Elkonin (2019) defende como conteúdo fundamental do brincar não “a relação homem-objeto, mas a relação homem-homem” (p. 34). Desse modo, na perspectiva da obra, a qualidade das relações que a criança estabelece com o mundo apresenta importância decisiva ao seu desenvolvimento, expressando-se tanto nos temas das brincadeiras, isto é, os campos da realidade social que são reconstituídos no jogo, quanto em seu conteúdo, ou seja, o aspecto central da dinâmica do mundo adulto que evidencia aquilo que as crianças apreendem e interiorizam da realidade vivida (Magalhães; Mesquita, 2014). Por isso, nas palavras de Elkonin:
Os jogos podem ser iguais pelo tema, mas completamente diferentes por seu conteúdo interno. No papel de aviador se pode colocar em primeiro plano o que caracteriza as relações com o mecânico ou com o copiloto como relações de subordinação; mas também pode ser destacada sua atitude cuidadosa com o painel de voo, sua preocupação com os passageiros, suas relações camaradas com os outros membros da tripulação (Elkonin, 1987, p. 101, tradução nossa, grifo nosso).
A possibilidade de desenvolvimento de uma consciência crítica das relações sociais está ligada, necessariamente, à intervenção do professor na brincadeira. (...) o professor deve atentar para o conteúdo representado na brincadeira de papéis, pois reflete condutas fundadas em normas e valores sociais. Nesse sentido, faz-se necessário propiciar uma assimilação crítica dos valores da sociedade atual demonstrando para as crianças que formas de relacionamento e normas de conduta são sociais e históricas e passíveis de mudança. Assim sendo, a intervenção do professor na brincadeira de papéis não pode prescindir de uma clara opção ético-filosófica.
Na mesma direção, Brigatto (2018, p.84) afirma:
É indispensável que a educação escolar acolha os assuntos polêmicos que aparecem na brincadeira e se planejem ações pedagógicas pertinentes à faixa etária, empenhando-se para desenvolver nas crianças a consciência sobre a saúde e a segurança no trânsito quando aparecer o uso de bebidas alcoólicas em excesso, por exemplo. Após as ações pedagógicas, é oportuno que se brinque novamente partindo do mesmo tema para que se observe, na representação do papel, se houve compreensão dos conteúdos desenvolvidos.
Também é possível identificar na literatura um conjunto de pesquisas experimentais que envolvem o planejamento de brincadeiras com o intuito de investigar aspectos relacionados à estrutura do brincar e o processo de desenvolvimento infantil nas quais a problemática do conteúdo social da brincadeira não chega a ser tematizado - ou é abordado de modo secundarizado. O trabalho de Sena e Guimarães (2015) pode ser considerado representante dessa tendência, uma vez que os planejamentos realizados incluem os temas, os papéis e os objetos que serão disponibilizados para as crianças, mas não envolvem problematizações quanto às esferas da realidade social que serão reconstituídas no brincar ou mesmo as implicações ético-morais que determinados temas carregam. A título de ilustração, vemos uma específica situação em que uma criança é interditada pelas outras de protagonizar o papel de príncipe em razão da cor de sua pele, na qual os pesquisadores intervêm da seguinte maneira:
(...) visando a resgatar a situação emergida na aula anterior, o professor pesquisador inferiu falas direcionadas ao brincar de príncipe e princesa. Explicou e exemplificou que, se várias crianças quiserem brincar de príncipe e/ou princesa, essa tensão poderia ser resolvida com a adoção de papéis complementares; para tanto, fez uso da seguinte fala: “...para se brincar de príncipe e princesa se faz necessário também haver o rei, a rainha, a/o serviçal que arruma a princesa, o príncipe, e um ponto muito importante, sem súditos não há reinado!” (Sena; Guimarães, 2015, p. 36).
Observamos nesse episódio a tentativa de superar a lógica de exclusão presente entre as crianças, mas esse movimento é feito sem que se questionem os limites que o próprio tema planejado carrega: a monarquia como sistema político de dominação - e, ao que parece, sem que se enfrente a problemática do racismo subjacente à cena vivida. Com isso, acabam por reafirmar a lógica de subordinação inerente ao brincar de “príncipes e princesas”, evidenciando-a aos pequenos como regra que deve ser reconstituída em sua atividade.
Com o exposto, almejamos explicitar a contradição fundamental que está no cerne da investigação científica e da prática pedagógica vinculadas à brincadeira na sociedade contemporânea: se o desenvolvimento da brincadeira de papéis depende da assimilação das regras de conduta social e, portanto, da reconstituição lúdica das relações sociais entre os adultos, é decisivo constatar que tais relações estão em grande medida orientadas por regras que expressam a alienação própria da sociedade capitalista. Diante desse impasse e da importância do brincar ao desenvolvimento ético-moral na infância, coloca-se a necessidade de reflexão sobre o problema do conteúdo da brincadeira.
Se a forma da atividade lúdica caracteriza-se pela criação de uma situação imaginária no interior da qual se opera a protagonização de papéis sociais mediante ações lúdicas sintéticas e abreviadas que reconstituem normas, motivos e sentidos subjacentes às relações entre pessoas, é necessário que nos interroguemos sobre o conteúdo dessa atividade, ou seja, sobre quais modelos de relação humana são reconstituídos e protagonizados pelas crianças, interiorizando-se como conteúdos de sua consciência. Uma brincadeira bem desenvolvida em seus aspectos estruturais, atingindo os máximos níveis de desenvolvimento dessa atividade descritos por Elkonin (2019), mas que toma como conteúdo aspectos típicos da alienação (racismo, machismo, dominação política, exclusão social, violência), nos serviria de parâmetro de desenvolvimento? Em outras palavras, a atividade lúdica protagonizada, quando realiza a reprodução abreviada e sintetizada de relações alienadas, pode ser considerada expressão de desenvolvimento das funções psíquicas superiores e da personalidade?
A questão que se pretende colocar em foco neste estudo é a relação entre o desenvolvimento da estrutura da brincadeira de papéis sociais - isto é, a forma da atividade - e os conteúdos sociais que se objetivam na protagonização lúdica. Avaliamos que, na ausência de articulação entre forma lúdica e conteúdo social protagonizado, corre-se o risco de se formular uma apreciação dos impactos da atividade lúdica para o desenvolvimento das funções psíquicas superiores sem a devida problematização dos posicionamentos valorativos sobre a vida social que vão sendo incorporados à consciência e à personalidade.
Buscando contribuir para a elucidação desses questionamentos, a pesquisa aqui apresentada voltou-se a investigar o lugar que a relação conteúdo-forma ocupa no conjunto dos conceitos elaborada por Elkonin em sua obra máxima Psicologia do jogo (2019). A hipótese formulada como ponto de partida do estudo foi a seguinte proposição: para a teoria geral do jogo de Elkonin, o conteúdo da brincadeira de papéis é critério basilar para analisar a formação da atividade consciente e orientar a atividade pedagógica na educação infantil, o que significa reafirmar a unidade conteúdo-forma como princípio investigativo da atividade lúdica.
OBJETIVO E CAMINHO METODOLÓGICO
A investigação realizada foi de natureza teórico-bibliográfica, tendo como referencial teórico a psicologia histórico-cultural, sustentada pela matriz filosófica do materialismo histórico-dialético. O objetivo geral de nossa empreitada foi investigar na obra Psicologia do jogo, de Elkonin (2019), o tratamento dado à problemática do conteúdo da brincadeira protagonizada infantil, examinando como se dá a articulação entre a forma (estrutura) da atividade de jogo protagonizado e os conteúdos históricos das relações sociais reconstituídos na ação lúdica infantil, tendo em vista a formação ético-política da atividade-consciente.
Com base nas proposições de Lima e Mioto (2007) acerca da pesquisa bibliográfica, o estudo foi organizado em quatro etapas:
-
contextualização do material bibliográfico, situando a obra Psicologia do jogo (2019) na produção acadêmico-científica de Elkonin e no contexto histórico-social em que foi produzida;
-
delimitação de eixos de análise, buscando apreender as categorias conceituais fundamentais que atravessam e sustentam o problema estudado;
-
leitura sistemática e interpretativa da obra, identificando sua lógica interna e a inserção da problemática do conteúdo social da brincadeira ao longo dos capítulos, à luz dos eixos de análise;
-
síntese integradora dos resultados, articulando os dados encontrados na etapa anterior à unidade conteúdo-forma, de modo a destacá-la no interior da obra estudada.
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
As sucessivas leituras da obra analisada permitiram constatar a centralidade da dimensão do conteúdo na explicação da atividade lúdica protagonizada elaborada por Elkonin (2019), tornando evidente o princípio da unidade entre conteúdo social e forma lúdica da brincadeira infantil - o que corrobora a hipótese de pesquisa. A centralidade do conteúdo emerge de quatro categorias conceituais que operaram como eixos de análise do estudo, a saber:
-
o projeto histórico de sociedade ao qual se vincula a obra Psicologia do jogo (2019), evidenciado por sua contextualização histórica;
-
o método de conhecimento da realidade que fundamenta a obra;
-
a concepção de formação humana que subjaz a explicação do papel da atividade lúdica para o desenvolvimento da criança, a pressupor uma específica compreensão da relação indivíduo-sociedade;
-
a práxis pedagógica, entendida como condição para o desenvolvimento da brincadeira e ao mesmo tempo como aquilo que dá sentido para a produção científica sobre o brincar, gerando orientações para a ação educativa.
Tais eixos sintetizam e exploram dentro de suas particularidades a conclusão geral a que chegamos: a unidade conteúdo-forma atravessa a obra multilateralmente, sendo o conteúdo elemento central da teoria geral do jogo de Elkonin. Nos tópicos seguintes, demonstraremos essa centralidade.
A centralidade do conteúdo como premissa do projeto histórico de sociedade (a obra situada em seu contexto histórico)
Na nota “biografia das pesquisas”, incluída na edição de 2019, publicada pela editora Martins Fontes, Elkonin (2019, p. 8) assevera:
Uma peculiaridade muito importante das pesquisas da psicologia do jogo infantil realizadas pelos seguidores de Vigotski foi que não estiveram dirigidas por uma só vontade e uma única mente, nem por um único centro organizador, e, por isso, não tiveram uma continuidade lógica que permitisse a resolução dos problemas um após outro no campo inexplorado do jogo infantil. Apesar de tudo, foi um trabalho coletivo, que tinha como norte os princípios teóricos traçados por Vigotski e para o qual cada um de nós deu sua contribuição.
Considerada no conjunto das investigações soviéticas em torno da psicologia infantil, a obra Psicologia do jogo (2019) apresenta-se nesse excerto enquanto produto de um projeto coletivo de ciência que tinha como mote não a “genialidade” de um pesquisador e seus interesses pessoais, mas os pressupostos teóricos e as necessidades investigativas gerais da psicologia histórico-cultural. Isso nos convida a refletir acerca das necessidades históricas que justificaram a existência dessa teoria, contribuindo, assim, para que localizemos o problema conteúdo-forma do desenvolvimento na história que lhe subjaz.
Na tentativa de compreender e contextualizar a obra aqui estudada faz-se necessário atentarmos, portanto, a dois movimentos essencialmente ligados: o primeiro se trata das motivações internas presentes no campo da psicologia marxista que justificaram a necessidade de construção de um estudo sistemático sobre a brincadeira infantil. O segundo - determinante em relação ao primeiro - refere-se às condições históricas, próprias da sociedade soviética, que movimentaram a elaboração de uma psicologia embasada no método marxista e comprometida eticamente, em seus princípios, com a construção do socialismo. Vale ressaltar que não temos a pretensão de realizar um estudo historiográfico que esgote a análise das contradições históricas que permearam a construção da obra e o processo de formação da sociedade soviética: afinal, trata-se de um trabalho desenvolvido em mais de 50 anos, anos esses marcados por profundas transformações sociais, políticas e econômicas. Nosso intuito reside apenas em contribuir para a recuperação da historicidade do pensamento de Elkonin e de sua obra, já que é na História que podemos encontrar as bases explicativas que levaram à necessidade social da obra Psicologia do jogo, mas, principalmente, de uma teoria que se propusesse a estudar o problema conteúdo-forma da atividade humana.
Segundo Tuleski (2008), as transformações da sociedade russa, catalisadas pelo processo revolucionário de 1917, abalaram os mais diversos setores sociais do leste europeu, implicando profundas mudanças nos campos da economia, da política e da cultura. Na iminência da Revolução, a Rússia ainda se caracterizava como uma sociedade predominantemente feudal, aristocrática e pouco escolarizada que, apesar de já apresentar substancial classe operária, tinha o campesinato como classe que congregava a maior parte de sua população. Nesse sentido, a Revolução de Outubro, liderada pelo partido bolchevique, enfrentava o desafio de construir o socialismo em uma sociedade que ainda vivia as transformações internas do capitalismo. Mesmo com o processo revolucionário, a luta de classes permanecia existindo, sobretudo porque a expropriação da burguesia não coincidiu com seu imediato desaparecimento, na medida em que as relações burguesas de produção e os meios pelos quais elas se reproduziam não foram plenamente eliminados (Lazaretti, 2011).
No bojo das contradições de classe que permaneciam presentes na sociedade soviética e, ao mesmo tempo, da possibilidade iminente de sua superação, encontra-se o cerne da constituição da psicologia histórico-cultural. Ao contrário do que se imagina, a construção de uma psicologia marxista não emanou do fim das contradições de classe, mas é justamente sua persistência que lançava o desafio de construir uma nova ciência psicológica, alinhada com o desafio ético-político de construir o comunismo (Lazaretti, 2011).
Nesse contexto, o marxismo difundiu-se, e a psicologia incorporou o materialismo histórico-dialético como método de análise capaz de superar os limites da “velha psicologia”, indo em direção à construção de uma teoria geral que partisse de “uma base explicativa única para os fenômenos humanos” (Tuleski, 2008, p. 91). Tendo como referência a visão historicizada acerca do desenvolvimento humano, buscava-se superar os particularismos da ciência burguesa, construindo uma psicologia científica, voltada aos desafios práticos de seu momento histórico. Lazaretti (2011) aponta que a psicologia histórico-cultural nasce como projeto coletivo que visava não apenas conhecer as leis gerais que orientam a formação humana, mas conhecê-las para agir na realidade, tomando-as como pressuposto orientador da prática. É nesse sistema de relações entre a sociedade soviética e o desenvolvimento da psicologia histórico-cultural que Elkonin se localiza: seu trabalho encontra-se imerso nas contradições de seu tempo histórico e não pode ser compreendido apartado do desenvolvimento da psicologia histórico-cultural como um todo.
Segundo Lazaretti (2011), por volta da década de 1930, a Escola de Vigotski já se dividia em torno de “especialidades” de pesquisa, e Elkonin assumia a tarefa de estudar o processo de formação da psicologia infantil, tendo como foco a brincadeira de papéis sociais. Seu trabalho com Vigotski começara a se desenvolver, sobretudo, a partir do interesse demonstrado por Elkonin pela paidologia, um tipo de ciência que se desenvolveu na URSS voltada ao estudo da criança em sua complexidade, a partir de múltiplos pontos de vista como a sociologia, a pedagogia, a fisiologia e a genética (Lazaretti, 2011).
É curioso pensarmos a existência de uma ciência como a paidologia: sua elaboração parecia refletir o interesse social de construir um ser humano “uno”, não dicotomizado, não fragmentado em corpo e mente, em natureza e cultura, em conteúdo e forma. Ao mesmo tempo, anunciava a insuficiência da psicologia em, na prática, potencializar o desenvolvimento humano: embora a ciência psicológica fornecesse o aporte teórico-científico acerca dos princípios gerais do desenvolvimento, sua realização na vida concreta dependia (e ainda depende) do apoio da educação.
Nesse sentido, quando os autores da psicologia histórico-cultural se voltam ao estudo da brincadeira infantil, o assumem não como um problema circunscrito ao saber psicológico, mas enquanto uma questão que atende às necessidades sociais em construir uma nova sociabilidade humana (Vigotski, 1930). Ao investigarem esse objeto, estão primariamente preocupados em descobrir qual é o movimento interno que produz essa forma especial de atividade na ontogênese, como ela se desenrola na idade pré-escolar e quais tendências de futuro carrega. Tal processo de investigação visava criar condições para que fosse possível intervir no desenvolvimento, elaborando processos educativos concretizadores dessa nova sociabilidade, alinhadas com os pressupostos socialistas.
O problema conteúdo-forma do desenvolvimento aparece, portanto, desde os princípios da construção da psicologia histórico-cultural, como um desafio científico pelo fato de ser também um desafio histórico: à compreensão epistemológica da personalidade como síntese de relações sociais vincula-se a perspectiva política de elevação da personalidade humana a um novo patamar, de conteúdos humanizadores. A necessidade de desvendar o que é mais determinante ao desenvolvimento da atividade, da consciência e da personalidade em cada idade - isto é, o conteúdo de cada período do desenvolvimento em articulação com a formação psicológica que ele pressupõe e engendra - aparecia à ciência psicológica como condição para construir uma práxis pedagógica efetiva.
Segundo Elkonin (2019), no início de 1933, Vigotski realizou uma série de atividades no Instituto Pedagógico Herzen de Leningrado que tinham por objetivo discutir a psicologia do pré-escolar. Entre elas, estava a conferência “A brincadeira e o seu papel no desenvolvimento psíquico da criança”, na qual Vigotski (2021) expôs suas reflexões acerca da brincadeira infantil, assumindo que essa atividade seria “a linha que guia o desenvolvimento na idade pré-escolar” (p. 210). Nas palavras de Elkonin (2019, p. 3), “foi nas ideias expressas por Vigotski nessas conferências que apoiei minhas pesquisas posteriores sobre a psicologia do jogo”. Assim, seu trabalho voltou-se, sobretudo, a comprovar experimentalmente as hipóteses formuladas em 1933, assumindo o arcabouço teórico-metodológico da psicologia histórico-cultural como base orientadora de suas investigações.
Foi apropriando-se das contribuições gerais de Vigotski, das elaborações teóricas sobre a atividade humana de Leontiev, dos estudos sobre o pensamento de Galperin, dentre vários outros autores, mas, sobretudo, da herança revolucionária engendrada pelos movimentos de 1917 que Elkonin pôde elaborar um enorme contingente de estudos acerca do desenvolvimento infantil. A partir de 1959, com a criação de um projeto nacionalizado de ensino cujo objetivo era construir Escolas Experimentais que pusessem em prática os achados teóricos realizados até o momento no campo da psicologia e da pedagogia, Elkonin e seus companheiros puderam desenvolver a chamada Periodização do Desenvolvimento (Lazaretti, 2011).
Assumindo como princípio o caráter supraindividual da atividade humana, tal empreitada tinha por objetivo “elucidar a problemática dos períodos do desenvolvimento na ontogênese: desvelar as forças motrizes do processo de desenvolvimento - e, em última instância, a própria natureza desse processo” (Pasqualini; Asbahr, 2019, p. 8) como condição para práxis educativa. Inserida nesse projeto, a importância da obra Psicologia do jogo (2019) não se circunscreveu apenas aos estudos da criança pré-escolar, pois, embora trabalhe um problema particular do desenvolvimento, incorpora o método geral de análise, trazendo contribuições teórico-metodológicas que se alinham ao desafio de construir uma psicologia, mas também uma educação de base marxista.
Nesse sentido, pode-se dizer que a contradição entre conteúdo e forma da atividade humana e suas implicações para a formação ético-política da personalidade apresenta-se como um problema no interior da obra analisada, por ser antes um problema posto para a sociedade. No contexto soviético do século XX, pela primeira vez a humanidade encontrou bases para, de algum modo, enfrentar o desafio de realização de uma sociabilidade humana que superasse as fragmentações do homem burguês, elevando o desenvolvimento humano a níveis mais próximos das máximas possibilidades humano-genéricas.
A obra analisada, portanto, nasce em meio ao desafio histórico de construir um novo indivíduo para uma nova sociedade que surgia de modo que o estudo do desenvolvimento humano, pautado no materialismo histórico-dialético, colocava-se para a sociedade soviética como condição para construir uma educação efetiva que atentasse às transformações da atividade-consciente e da personalidade em cada idade de modo a intervir nesse processo em dada direção ético-política. Sendo assim, enxergamos a impossibilidade de analisar a obra Psicologia do jogo (2019) e, mais especificamente, o tratamento dado pelo autor à unidade conteúdo-forma sem que compreendamos o caráter marxista da psicologia histórico-cultural. Tal obra carrega a complexidade de ser produto de um projeto coletivo de ciência, mas também de uma sociedade que se perguntava - em alguns momentos de modo mais radical do que em outros - como efetivamente produzir outra sociabilidade humana.
A centralidade do conteúdo como premissa do método de conhecimento da realidade
Evidenciar o fundamento marxista da obra Psicologia do jogo (2019) apresenta-se, para nós que investigamos a unidade conteúdo-forma da brincadeira de papéis sociais, como uma tarefa de especial importância. Isso porque, na perspectiva do método materialista histórico-dialético, a construção do conhecimento objetivo depende do desvelamento das relações entre forma e conteúdo, entre aparência e essência. Diz Kosik (2002, p. 20):
O pensamento que destrói a pseudoconcreticidade para atingir a concreticidade é ao mesmo tempo um processo no curso do qual sob o mundo da aparência se desvenda o mundo real; por trás da aparência externa do fenômeno se desvenda a lei do fenômeno; por trás do movimento visível, o movimento real interno; por trás do fenômeno, a essência.
Martins e Lavoura (2018) afirmam que a descoberta das tensões postas na unidade conteúdo-forma se caracteriza como um dos princípios fundamentais à construção do saber teórico dentro do marxismo, mas que tal descoberta não pode ser realizada apartada da totalidade que é o materialismo histórico-dialético. Em outras palavras, os autores indicam que o esclarecimento das relações entre conteúdo e forma de dado objeto só é possível se todos os outros princípios do método também se fizerem presentes na investigação.
Assim, se temos como objetivo compreender na obra Psicologia do jogo (2019) o tratamento dado à essa unidade, é preciso que a compreendamos na relação com a totalidade teórico-metodológica que é o marxismo, isto é, em articulação com os princípios gerais do materialismo histórico-dialético que se expressam na obra. Para tanto, mais que identificar as passagens em que o autor trata diretamente o problema do conteúdo, é preciso analisar como em seus estudos os preceitos do método se fazem vivos, apreendendo precisamente a maneira pela qual eles se aplicam ao estudo do objeto em questão - a brincadeira de papéis.
Sendo assim, iniciemos a análise a partir do que o autor elege como objeto de suas investigações. Diz Elkonin (2019, p. 21): “o objeto de nossa pesquisa é a natureza e o conteúdo do jogo de papéis, a psicologia dessa forma evoluída de atividade lúdica, sua origem, seu desenvolvimento e decadência, sua importância para a vida e o desenvolvimento da criança como futura personalidade”. Dessa passagem, destacam-se dois aspectos metodológicos: o primeiro trata da necessidade exposta - já no problema de pesquisa - de não apenas identificar os aspectos formais do jogo de papéis, mas de desvelar seu conteúdo fundamental. O segundo, por sua vez, trata-se da tarefa de estudar o objeto de estudo em seu desenvolvimento, analisando o trânsito entre suas formas menos e mais evoluídas. Se por um lado o autor apresenta a necessidade de conhecer o conteúdo do jogo, por outro, deixa evidente que é a análise de seu desenvolvimento - ontogenético e histórico, como se vê no interior da obra - que permitirá conhecê-lo.
Ao se perguntar sobre o conteúdo do brincar, assumindo-o como condição para compreender a forma dessa atividade humana e, assim, intervir efetivamente no processo de personalização da criança, Elkonin (2019) aponta o caminho pelo qual o conhecimento científico pode vir a explicar o objeto de estudo em seus aspectos mais essenciais. Nesse processo, a necessidade de apreender o conteúdo da brincadeira protagonizada vem imbricada ao desafio de construir uma teoria geral do jogo que seja capaz de esclarecer regularidades e leis que orientam o desenvolvimento da atividade-consciente infantil. A realização de tal empreitada, no entanto, pressupõe método.
No capítulo 1, intitulado “O objeto das pesquisas é a forma da atividade lúdica das crianças”, o autor apresenta como primeiro princípio metodológico de sua investigação a substituição da análise desintegradora do todo em elementos pela análise desagregadora das unidades. Nessa perspectiva, a fragmentação do objeto de estudo em partes desarticuladas dá espaço à análise do objeto em sua totalidade, buscando reconhecer qual seria o elemento que guarda as propriedades indivisíveis que conservam o todo. Por meio do método inverso, isto é, “o estudo da essência de determinado fenômeno através da análise da forma mais desenvolvida” (Duarte, 2000, p. 84), toma-se a forma evoluída do jogo de papéis como condição para investigar o conteúdo dessa atividade. Diz o autor:
Como encontrar essa unidade do jogo, que já não se divide mais, que conserva as propriedades do todo? Unicamente examinando a forma evoluída do jogo de papéis, tal como se nos apresenta na metade da idade pré-escolar (...). Essa trajetória de cima para baixo, da análise da forma mais desenvolvida para a história de seu aparecimento e decadência, é oposta ao evolucionismo trivial e constitui o segundo grande princípio metodológico de nossa investigação (Elkonin, 2019, p. 24).
Tais afirmações nos conduzem a dois pontos: o primeiro deles trata-se do fato de que as escolhas metodológicas feitas pelo pesquisador não são indiferentes à análise do conteúdo de seu objeto de estudo, pois tomar caminhos investigativos inadequados conduz também a conclusões inadequadas. Elkonin (2019) revela tal aspecto no capítulo 3 da obra, intitulado “Teoria do jogo”, no qual submete à crítica uma série de teorias que se voltaram a estudar a brincadeira, mas, a partir de métodos incapazes de analisar o objeto em sua totalidade, acabaram por formular teses que, embora contribuam para a captação dos aspectos formais do brincar, pouco revelam o real conteúdo dessa atividade:
Quase todos os pesquisadores que se dedicaram a descrever os jogos de crianças pequenas repetem, de diferentes modos, a ideia de Sully de que o fundo do jogo infantil consiste em representar algum papel. Ora, a análise do jogo não conduz a uma explicação da estrutura do próprio papel, de sua gênese, mas à descrição das peculiaridades da fantasia da qual o jogo parece ser uma manifestação (Elkonin, 2019, p. 26, grifo nosso).
A obra de Elkonin, indo na direção oposta dessas correntes, busca explicar a estrutura e o conteúdo da brincadeira protagonizada, o que nos conduz ao segundo ponto central: a obra Psicologia do jogo (2019) se trata de uma empreitada teórica, de uma teoria do jogo protagonizado. Afinal, o autor defende que a apreensão propriamente científica da brincadeira depende do processo de análise, o que significa, como aponta Duarte (2000), que a mera observação empírica do objeto de estudo não é suficiente para que seu conteúdo essencial seja desvelado. Para que tal objetivo seja atingido, faz-se necessária a abstração teórica que investigue o jogo do ponto de vista da história de seu desenvolvimento, conduzindo o pensamento a superar os elementos mais imediatos do brincar (Lazaretti, 2011).
Tendo como horizonte a apreensão da materialidade histórica que constitui o objeto de estudo, Elkonin (2019) dispensa análises metafísicas ou especulações subjetivistas em torno da brincadeira de papéis. Em seu lugar, toma como pontos de partida o acúmulo teórico já produzido pela humanidade em torno do objeto de estudo (como pode se observar no capítulo 3 da obra) e a construção de um método que seja efetivamente capaz de captar os aspectos mais essenciais desse fenômeno, refletindo, no pensamento, seu movimento interno próprio.
Tendo em vista esse segundo ponto, o coletivo de pesquisa ao qual Elkonin pertencia empreendeu uma série de estudos que, a partir do método genético-experimental, tinham como finalidade intervir intencionalmente na realidade de modo a encontrar não apenas os nexos entre os elementos estruturais, mas também o trânsito dado entre as formas menos e mais evoluídas de jogo, revelando, assim, o desenvolvimento ontogenético da brincadeira protagonizada. Diz o autor:
Tal estratégia de formação de um processo qualquer até o nível dado de antemão emprega-se muito nos trabalhos de numerosos psicólogos pertencentes à escola de Vigotski. Essa estratégia, que recebeu a denominação de método genético-experimental, distingue-se basicamente do experimento simples, o qual inclui a formação ativa do trânsito do processo ou da atividade de níveis mais baixos para níveis cada vez mais altos (Elkonin, 2019, p. 240-241).
Nos capítulos 4 e 5, intitulados, respectivamente, “Origem do jogo na ontogenia” e “O desenvolvimento do jogo na idade pré-escolar”, Elkonin (2019) expõe e analisa os dados dessas investigações, chegando a uma conclusão de especial importância para nós: o jogo tem como conteúdo fundamental a reconstituição da atividade humana, do trabalho e das relações sociais entre as pessoas e tal conteúdo se sintetiza no papel social interpretado pela criança. Sendo assim, para o autor, o elemento estrutural do brincar que congrega o movimento de seu conteúdo é o papel: a ele estão subordinadas as ações lúdicas, o emprego lúdico dos objetos e as relações autênticas entre as crianças. Justamente por isso, o papel e as ações que dele decorrem constituem, segundo Elkonin (2019, p. 29), a “unidade fundamental e indivisível da evolução da forma do jogo”.
Ao assinalar o papel como a unidade mínima do jogo protagonizado, o autor traz indícios importantes para o estudo do conteúdo das brincadeiras, pois coloca em evidência que a chave para o analisarmos está no conteúdo do papel. Sendo assim, embora outros elementos da estrutura lúdica colaborem na expressão do conteúdo do brincar (tais como os temas reconstituídos e os objetos utilizados no interior da brincadeira), é o papel que atua de modo mais determinante, sendo inclusive o elemento sem o qual não há brincadeira protagonizada:
(...) o aspecto constitutivo do jogo é que a criança assuma um papel qualquer. Sem isso não se pode jogar. Assim que aparece o papel, aparece o jogo. Não é obrigatório ser adulto no jogo, porquanto se pode assumir o papel de outra criança (conhecem-se jogos em que as crianças assumem os papéis de animais). Não é forçoso que no jogo se crie uma situação lúdica especial com transferência de significado de uns objetos para outros. O jogo é possível mantendo-se a realidade total dos objetos, ações e situação geral (por exemplo, ao assumir papéis de companheiros, as crianças podem dispor-se a dar passeio de verdade, colocar um casaco, levar um brinquedo, etc., podem brincar de jardim de infância, desenhar, resolver problemas, ler etc.), mas ainda fazendo tudo isso assumem forçosamente um papel (Elkonin, 2019, p. 284).
Para Elkonin (2019), ao assumir um papel no interior do jogo, a criança se vê forçada a destacar da realidade a relação entre as pessoas, e, por tal motivo, o desenvolvimento de seu conteúdo depende que a criança não apenas capte os traços essenciais da atividade dos adultos, mas também que passe a subordinar suas ações às regras de conduta subjacentes ao papel. Na brincadeira há, portanto, o desenvolvimento da atitude infantil face às regras do mundo adulto, que paulatinamente vão se destacando como “núcleo central do papel representado pela criança” (Elkonin, 2019, p. 324).
Ao evidenciar as regras de conduta da sociedade como conteúdo do papel, a obra Psicologia do jogo (2019) revela que o caminho metodológico adequado ao estudo da brincadeira é aquele que analisa a atividade infantil enquanto atividade histórica. Sendo uma forma específica de a criança participar e compreender a realidade em que vive, tornando as relações sociais não só conteúdo de sua consciência, mas também de sua personalidade em formação, a brincadeira é defendida como atividade de natureza social e, portanto, real da criança - sobretudo em seu conteúdo. Afinal, nela os pequenos reconstituem relações que concretamente existem e, assim, como afirma Elkonin (2019, p. 35): “o jogo não é o reino da pura invenção, mas uma reconstituição original da realidade vivida, reconstituição feita pela criança ao dar forma aos papéis dos adultos”.
Nesse sentido, é conveniente ressaltarmos que, na perspectiva da obra, a investigação do conteúdo da brincadeira não pode se apartar da análise das contradições próprias da realidade. Em outras palavras, sua investigação toma necessariamente como base a análise da realidade objetiva que circunda e forma a atividade infantil, pois, além de o conteúdo da brincadeira ser precisamente o que da esfera da atividade humana se reflete no jogo através do papel social, ele se desenvolve podendo assumir formas cada vez mais complexas, a depender das condições educativas que são disponibilizadas à criança. Diz o autor:
O conteúdo do jogo revela a penetração mais ou menos profunda da criança na atividade dos adultos; pode revelar somente o aspecto externo da atividade humana, ou o objeto com o qual o homem opera ou a atitude que adota diante de sua atividade e das outras pessoas ou por último, o sentido social do trabalho humano. Claro que o caráter concreto das relações entre as pessoas representadas no jogo é muito diferente. Essas relações podem ser de cooperação, de ajuda mútua, de divisão de trabalho e de solicitude e atenção uns com outros; mas também podem ser relações de autoritarismo, até de despotismo, hostilidade, rudeza, etc. Tudo depende das condições sociais concretas em que vive a criança (Elkonin, 2019, p. 35).
Entre o conteúdo da atividade lúdica e o conteúdo da vida social há, portanto, unidade que só pode ser compreendida em sua totalidade pela via do papel interpretado pela criança. Nesse sentido, nos cabe afirmar que a obra Psicologia do jogo (2019), por meio da análise desagregadora das unidades e do método inverso, encontra no papel lúdico a unidade conteúdo-forma do jogo protagonizado. Isso porque se trata de uma categoria que, ao mesmo tempo que pressupõe a forma lúdica, já que não existe senão na brincadeira, pressupõe a reconstituição de um conteúdo social específico, já que sem ele não se realiza o papel.
Vê-se, assim, que, sob a condução do método marxista, Elkonin (2019) torna a palavra “brincadeira” conceito científico e valendo-se do legado teórico-metodológico da psicologia soviética, ao identificar no papel interpretado pela criança a unidade mínima de análise do jogo, desvela a natureza social dessa atividade, avançando no que diz respeito à comprovação do caráter histórico do conteúdo do jogo protagonizado. A defesa da historicidade da brincadeira, ao mesmo tempo que se apresenta como resultado do método de investigação empregado, revela-se como condição à elaboração de um conhecimento verdadeiro a seu respeito. Nesse sentido, a qualidade ímpar da obra Psicologia do jogo (2019) é, antes de tudo, produto da rigorosidade do método que nela se apresenta. Quando aplicado ao objeto particular da brincadeira de papéis, os princípios do marxismo permitem alçar a um novo patamar teórico as apreensões sobre o jogo infantil, pois é tentando analisar o brincar em sua totalidade que Elkonin (2019) encontra na análise do conteúdo a via para a verdadeira compreensão da forma dessa atividade.
A centralidade do conteúdo como premissa da concepção de formação humana (a relação indivíduo-sociedade)
Os caminhos metodológicos assumidos na obra Psicologia do jogo (2019) nos conduzem a outro elemento necessário à investigação científica da unidade conteúdo-forma: o de analisar as relações postas entre o desenvolvimento do indivíduo e o modo de organização da vida na sociedade. Embora tenhamos nos aproximado dessa discussão na seção anterior, esse é um problema que merece ser mais bem explorado, dadas a centralidade que a relação indivíduo-sociedade apresenta para a psicologia histórico-cultural e as implicações decisivas que carrega para a análise do conteúdo da brincadeira protagonizada.
Na perspectiva da psicologia histórico-cultural, a unidade entre indivíduo e sociedade subjaz na dialética objetivação-apropriação, isto é, postula-se que a formação do indivíduo depende de o sujeito incorporar na própria existência a cultura humana objetivada pelo conjunto dos seres humanos. Na idade pré-escolar, como temos defendido até aqui, destaca-se enquanto elemento motor do desenvolvimento psicológico infantil a apropriação das relações sociais entre as pessoas que, por sua vez, objetivam-se de maneira original na brincadeira de papéis sociais.
Tal afirmação, no entanto, ainda não nos explica por que as relações sociais se tornam conteúdo da atividade infantil. Em outras palavras, nos cabe perguntar: por que as crianças brincam? De que modo e por quais motivos a brincadeira de papéis vem a se desenvolver na idade pré-escolar? Por que a reconstituição das relações sociais entre as pessoas passou a ser uma necessidade social? Por fim, quais são as implicações que a compreensão da natureza do jogo carregam para o entendimento de seu conteúdo? Na tentativa de responder a tais questionamentos, há que se debater um elemento bastante caro ao problema do conteúdo da brincadeira protagonizada e que foi alvo das críticas feitas por Elkonin (2019): o naturalismo.
Como apontamos anteriormente, o capítulo 3 da obra Psicologia do jogo volta-se a analisar uma série de trabalhos que, de alguma maneira, abordaram a brincadeira infantil como objeto de investigação. Com a finalidade de encontrar os limites e os avanços trazidos por tais estudos, Elkonin (2019) se dedica a examinar , principalmente, a teoria do exercício de Gross, a teoria do jogo de Buytendijk e a teoria psicanalítica de Freud, entendendo que é na base das formulações desses autores que grande parte dos estudos ocidentais sobre a brincadeira e a psicologia infantil se desenvolveu. Analisa também os trabalhos de Stern, Clarapèd, Bühler, Piaget, Chateau, Koffka, Lewin e de alguns soviéticos como Básov e Blonski.
Dado os limites e os objetivos deste trabalho, não nos voltaremos a descrever cada uma das teorias submetidas à crítica marxista no interior da obra. O que nos importa destacar é o seguinte: Elkonin (2019) parte da análise das teorias mais desenvolvidas de sua época e, nesse sentido, debate com autores que carregam um sólido corpo teórico-metodológico de apreensão da realidade. Apesar disso, todos eles preservam em alguma medida traços que naturalizam o desenvolvimento, pois incorrem em dois erros fundamentais: (1) negam a diferença qualitativa posta entre o desenvolvimento humano e o animal e (2) assumem a premissa de que entre o indivíduo e a sociedade há uma relação de oposição, na qual o indivíduo se formaria apesar da sociedade.
Tais equívocos se expressam, por um lado, na assunção da brincadeira como um momento “preparatório” para a vida adulta, o que advém da generalização e da transposição direta de resultados de observações de jogos animais para os infantis. Por outro, na defesa do jogo como resultado da contradição entre o mundo infantil e o mundo adulto, em que a criança, para fugir das imposições restritivas dos adultos, realizaria na imaginação seus desejos individuais. Nesse processo, a problemática do conteúdo se esvai, tendendo a concepções que naturalizam o jogo infantil - seja pela biologização dessa atividade, seja pela análise idealista dos motivos que subjazem a brincadeira.
Vê-se, assim, que a ausência de uma teoria da sociedade que sustente a análise do desenvolvimento infantil tem como consequência formulações que, além de ocultar a materialidade histórica do conteúdo da brincadeira de papéis, encobrem a natureza radicalmente social desta atividade.
Subvertendo os caminhos tradicionalmente empreendidos pelos autores de sua época e assumindo o compromisso teórico-prático de desvelar os elementos que entremeiam a unidade conteúdo-forma do jogo, Elkonin (2019) recorre à história. Ao longo dos capítulos investiga a gênese do jogo de papéis na história da sociedade, a história do conceito “jogo” e a história do jogo na ontogênese.
O exame do jogo do ponto de vista da história da sociedade é elemento fulcral que marca a posição marxista da obra, pois, ao contrário das teorias hegemônicas sobre o brincar, os pesquisadores soviéticos vão investigar a origem e o conteúdo da brincadeira não na criança em si, mas na sociedade, a partir daquilo que é mais central à existência humana: a organização do trabalho. Na perspectiva do materialismo histórico, as bases das relações sociais são as relações de produção, pois, como afirma Martins (2008, p. 47), “é no bojo dessas relações que os homens constroem não apenas os meios para sua sobrevivência, mas, sobretudo edificam a si mesmos”. Nesse sentido, enfrentar o desafio de compreender a particularidade psicológica do brincar pressupõe a compreensão dos modos organizativos da vida social.
No capítulo 2, intitulado “Acerca da origem histórica do jogo protagonizado”, Elkonin (2019) dedica-se a tal ponto, buscando investigar a origem histórica tanto dos brinquedos quanto da brincadeira. Ao realizar essa análise, assumindo-a como problema indispensável para investigação do conteúdo e da forma da brincadeira de papéis, trata seu objeto de estudo como objeto histórico, como um fenômeno que nem sempre existiu e que não necessariamente existirá eternamente da mesma forma, como um objeto que congrega em si um desenvolvimento social. Desse modo, o sentido histórico da brincadeira não aparece na obra como mero formalismo ou curiosidade, mas como princípio lógico-explicativo fundamental: é a partir dele que se pode compreender a essência psicológica dessa atividade, blindando-se de qualquer resquício naturalista ou idealista.
Elkonin (2019) parte do desafio de esclarecer principalmente dois elementos: (1) o lugar que a criança ocupa nos mais diversos períodos de desenvolvimento da sociedade e (2) a mudança do conteúdo social da atividade infantil ao longo da história. Diz o autor (2019, p. 49):
A nossa missão é responder, mesmo que seja com hipóteses, a pelo menos duas interrogações. A primeira é: existiu sempre o jogo protagonizado ou houve um período da vida em sociedade em que não se conheceu essa forma de jogo infantil? A segunda: a que mudanças na vida em sociedade e na situação da criança na sociedade se deve o nascimento do jogo protagonizado?
Para analisar tais parâmetros, o pesquisador empreende um estudo que envolve a análise de dados de pesquisas antropológicas de diferentes sociedades, postas em distintos níveis de desenvolvimento das forças produtivas. Na tentativa de compreender o lugar que a criança ocupava na sociedade em relação aos adultos, bem como as atividades que executavam, estuda-se o movimento histórico da relação criança-adulto, indo desde a análise das comunidades primitivas, nas quais todos participam do processo produtivo, até as sociedades de comunismo primitivo, em que já há a divisão do trabalho (Elkonin, 2019).
Ao longo do capítulo, Elkonin (2019) defende a tese de que a brincadeira nem sempre existiu como atividade própria da infância, pois sua origem é histórica, encontrada na complexificação das relações de trabalho e dos modos de produção que paulatinamente demandaram o afastamento dos pequenos em relação ao trabalho produtivo. Nessa perspectiva, quanto mais complexo se torna o trabalho, maior se torna também a necessidade de que as crianças sejam educadas para dele participarem, isso porque o domínio dos instrumentos empregados no processo produtivo não poderia mais realizar-se de forma imediata, a partir da mera observação dos adultos, mas demandava aos adultos entabular relações de ensino para com as crianças. Sintetiza o autor:
Pode-se formular a tese mais importante para a teoria do jogo protagonizado: esse jogo nasce no decorrer do desenvolvimento histórico da sociedade como resultado da mudança de lugar da criança no sistema de relações sociais. Por conseguinte, é de origem e natureza sociais. O seu nascimento está relacionado com condições sociais muito concretas da vida da criança na sociedade e não com a ação de energia instintiva, inata, interna, de nenhuma espécie (Elkonin, 2019, p. 80).
A defesa do caráter social e histórico do jogo protagonizado, enquanto produto e expressão do método marxista, é de especial importância para nós que pesquisamos o conteúdo do brincar, pois contribui para que desnaturalizemos aquilo que as crianças tematizam no interior da brincadeira e o conteúdo de seus papéis. Ao localizar a origem dessa forma especial de atividade humana na relação com o trabalho, Elkonin (2019) ressalta que os temas tipicamente reconstituídos no jogo protagonizado não são produto de qualquer força ou instinto interior da criança, mas são reflexo das relações sociais às quais ela tem acesso:
Brincar com bonecas, disseminado em nossa sociedade principalmente entre as meninas, sempre foi apresentado como instinto de maternidade. Os fatos mencionados refutam esse ponto de vista e evidenciam que essa brincadeira clássica das meninas não é, em absoluto, manifestação do instinto maternal, mas reproduz as relações sociais existentes na sociedade em questão, concretamente a divisão social de trabalho nos cuidados com as crianças (Elkonin, 2019, p. 446).
Os argumentos contra um suposto “inatismo” da brincadeira e seu conteúdo não se restringem, entretanto, ao olhar para o objeto de estudo do ponto de vista da história da sociedade: encontram sustentação também nas análises realizadas pelo autor no capítulo 4, intitulado “A origem do jogo na ontogenia”, no qual se buscou compreender como o jogo surge no interior do próprio desenvolvimento infantil. Nesse contexto, o autor assinala que o estudo científico da brincadeira e o desvelamento de seu conteúdo interno fundamental, mesmo quando o objetivo é compreender o próprio processo de desenvolvimento, não podem se apartar do princípio metodológico da totalidade. Em suas palavras,
A evolução da atividade lúdica está intimamente relacionada com todo o desenvolvimento da criança. Da evolução do jogo só se pode falar depois de se terem formado as coordenações sensório-motoras fundamentais que oferecem a possibilidade de manipular e atuar com os objetos. Sem saber sustentar um objeto na mão é impossível qualquer ação com ele, incluindo a lúdica (Elkonin, 2019, p. 207, grifo nosso).
Nesse sentido, não basta esmiuçar os elementos formais da brincadeira, é preciso compreender como o conteúdo dessa atividade se desenvolve, isto é, seu movimento interno, tomando como referência todo o processo de desenvolvimento da criança. Em outras palavras, o estudo do conteúdo do brincar aparece na obra em dependência com a compreensão do desenvolvimento enquanto sistema, no qual a emergência de uma atividade-guia está sempre relacionada a dois elementos centrais, sendo eles: (1) as conquistas psicológicas promovidas pelo período anterior e (2) o novo lugar social que tais conquistas psicológicas possibilitam que a criança ocupe na relação criança-adulto.
Voltando-se ao primeiro ano de vida e à primeira infância, Elkonin (2019) defende que o surgimento da atividade lúdica depende do desenvolvimento de três premissas fundamentais que se encontram articuladas ao desenvolvimento da linguagem, são elas: a formação do ato de preensão, a formação dos movimentos reiterativos e concatenados e, por fim, o domínio das funções culturais dos objetos. Assim, para que um dia a criança possa vir a brincar de modo protagonizado é condição que ela seja capaz, primeiramente, de manipular os objetos e, mais tarde, de manipulá-los a partir de seus modos sociais de uso. Amparado nos estudos de Frádkina, Slávina e Michailenko, Elkonin (2019, p. 259) sintetiza:
O caminho de desenvolvimento do jogo vai da ação concreta com os objetos à ação lúdica sintetizada e, desta, à ação lúdica protagonizada: há colher; dar de comer com a colher; dar de comer com a colher à boneca, dar de comer à boneca como a mamãe; tal é de maneira esquemática, o caminho para o jogo protagonizado.
Nesse excerto, nota-se o movimento que o conteúdo da atividade infantil toma no decorrer do jogo, bem como as novas estruturas de atividade que dele emergem: se em um primeiro momento o conteúdo da atividade infantil é a ação com os objetos, em um segundo momento ganham importância as relações sociais que, paulatinamente, vão sendo sintetizadas e abreviadas no papel social. A transição entre esses momentos, no entanto, não é espontânea ou movida por forças inerentes à própria criança, ao contrário, tem como base a relação educativa posta entre o adulto e a criança. Diz Elkonin (2019, p. 231): “como foi evidenciado pelas investigações de Frádkina, todas as premissas fundamentais do jogo se apresentam durante o desenvolvimento da atividade da criança com os objetos sob os auspícios de adultos e em atividade conjunta com estes”. Por trás de toda conquista psicológica infantil existe, portanto, um adulto que orienta, demanda e “puxa” o desenvolvimento da criança, fornecendo não só os modelos de ação e relação com a realidade, mas também o conteúdo da atividade infantil a cada período do desenvolvimento.
Evidencia-se, assim, que, ao contrário das teorias analisadas no capítulo 3, Elkonin (2019) compreende que entre a criança e o adulto ou, mais ainda, entre o indivíduo e a sociedade não está posta uma relação de oposição. Na realidade, o desenvolvimento psicológico se dá em função da sociedade, que orienta, educa e fornece os conteúdos fundamentais à atividade infantil. Cabe ressaltar, no entanto, que Elkonin (2019) não parte de qualquer compreensão do fenômeno social, mas o apreende do ponto de vista da luta de classes, entendendo que no cerne da sociedade estão as relações sociais de produção que produzem não apenas relações que humanizam os sujeitos, mas também relações que desumanizam e alienam o homem da própria humanidade. Nesse sentido, as relações sociais reconstituídas por meio dos papéis sociais não são tidas na perspectiva da obra como “isentas” de conteúdo ético-político, tampouco têm efeitos despercebidos para a formação da personalidade infantil. Nas palavras de Elkonin (2019, p. 420-21),
Uma vez que o conteúdo dos papéis centra-se principalmente, como já vimos, nas normas das relações entre as pessoas, [...] poder-se-ia dizer que, no jogo, a criança passa a um mundo desenvolvido de formas supremas de atividade humana, a um mundo desenvolvido de regras das relações entre as pessoas. As normas em que se baseiam essas relações convertem-se, por meio do jogo, em fonte de desenvolvimento moral da própria criança. Nesse sentido, por muito que se pondere a importância do jogo, dificilmente ela poderá ser superestimada. O jogo é a escola da moral, não de moral na ideia, mas de moral na ação.
Em síntese, pode-se afirmar que a brincadeira protagonizada aparece no interior da obra Psicologia do jogo (2019) como uma atividade de natureza e conteúdo sociais, e por tal motivo não é inata, tampouco representa uma forma de a criança “escapar” da realidade: em verdade, consiste em uma atividade forjada em/por relações educativas, uma forma particular de a criança mergulhar profundamente no mundo real, assimilando as contradições que o congrega. Ainda que se expresse no indivíduo, o jogo encontra suas determinações mais essenciais nos modos de relação entre as pessoas e, por isso, a investigação de seu conteúdo pressupõe o desvelamento da existência do indivíduo em unidade com os processos sociais que determinam a vida.
A centralidade do conteúdo como fundamento da práxis pedagógica
Se a defesa do caráter social do conteúdo do jogo protagonizado traz implicações teóricas importantes, já que elucida os traços mais essenciais dessa atividade, encerra também desafios práticos. Afinal, sendo a brincadeira uma atividade especificamente humana e, portanto, histórica, é produto da ação das pessoas, o que significa que sua existência em cada criança depende do esforço das velhas gerações em formá-la.
Pasqualini (2006), ao investigar o sentido da categoria de apropriação em Leontiev, evidencia o caráter educativo que subjaz a dialética entre a incorporação da cultura humana e a objetivação do novo em cada indivíduo singular. Diz a autora (2006, p.82):
[O processo de apropriação] envolve necessariamente a comunicação entre os homens e, em última análise, constitui sempre um processo de educação. Isso se dá porque a atividade adequada não se forma por si mesma na criança, pelo contato direto, imediato ou espontâneo com os objetos da cultura. Embora em tais objetos estejam encarnados os modos de ação e as faculdades humanas historicamente elaborados, é necessária a mediação de outros homens para que se concretize o processo de apropriação (grifo da autora).
Vê-se, portanto, que no cerne da relação indivíduo-sociedade está posto o processo educativo, sendo a direção pedagógica o elemento que permite as formas especificamente humanas de existência se formarem em cada sujeito singular. Assim, se a brincadeira de papéis constitui-se enquanto uma atividade de natureza e conteúdo sociais, nos cabe investigar, no interior da obra analisada, como se concebe a educação desse conteúdo, isto é, de que maneira o conteúdo das relações entre as pessoas torna-se conteúdo da vida infantil.
Diante desse desafio, amparado nos estudos de Lúkov, Vigotskaia, Mikhailenko e Sokolova que foram desenvolvidos com crianças de desenvolvimento típico e atípico, Elkonin (2019) buscou desvelar as leis gerais de formação da atividade lúdica nos pequenos, elucidando o processo pelo qual o adulto educa a brincadeira protagonizada. Nesse sentido, voltou-se ao estudo de um elemento fundamental ao jogo: a simbolização.
Ao contrário das teorias criticadas na obra, que atribuíam a formação do simbolismo no jogo à “naturalmente desenvolvida” imaginação infantil, Elkonin (2019) revela que a imaginação é, na verdade, produto do jogo e que a simbolização nele realizada encontra-se em estreita relação com o desenvolvimento da fala e das ações reais com os objetos. Nas palavras do autor, para que haja simbolização é preciso que “a palavra impregne-se de todas as ações possíveis com o objeto” (Elkonin, 2019, p. 351) e passe, assim, a determinar seu modo de uso, conferindo-lhe caráter lúdico.
Esse processo, no entanto, não acontece de forma espontânea, afinal, se o desenvolvimento da ação lúdica está em estreita relação com o desenvolvimento da fala e das ações concretas com os objetos, explicita-se a necessidade do adulto em ensinar a criança. Diz Elkonin (2019, p. 217):
Sem negar que a criança possa descobrir as funções de objetos soltos, ao cumprir por sua própria conta tarefas que exigem o emprego de instrumentos, consideramos não ser essa, no entanto, a forma fundamental. A forma fundamental é a de atuarem em conjunto crianças e adultos a fim de, paulatinamente, estes transmitirem àquelas os modos planejados pela sociedade para utilizar os objetos. Nesse trabalho conjunto, os adultos organizam em conformidade com um modelo as ações da criança, e em seguida estimulam e controlam a evolução de sua formação e execução.
Além disso, o autor chama atenção para o fato de que a simbolização não acontece apenas “na passagem da ação com um objeto para outro, ao transnomeá-lo” (Elkonin, 2019, p. 355), mas também quando a criança assume o papel de um adulto. Essa assunção, todavia, não se constitui um processo espontâneo. Segundo o autor, todo o desenvolvimento da brincadeira protagonizada requer a direção dos adultos, pois o desenvolvimento do papel depende, não só de que este esteja “saturado” de ações, mas também que estejam claros para a criança os nexos entre o papel e as ações a ele correspondentes. A revelação desses nexos, no entanto, trata se de uma função realizada pelos adultos:
A criação de uma situação lúdica pelos adultos e a compenetração da criança com o papel do adulto, inclusive bem conhecido e próximo da criança pelo caráter de sua atividade, não asseguram por si sós a possibilidade de atuar em conformidade com o papel. Para as crianças permanece oculta a ligação entre o papel e as ações em que pode plasmar-se o seu sentido histriônico. Esse nexo entre o papel e as ações com ele relacionadas não surge de maneira espontânea, e cabe aos adultos descobri-lo para a criança (Elkonin, 2019, p. 262).
A impressão de que a brincadeira desenvolve-se espontaneamente se deve ao fato de que “os adultos não se apercebem da direção que exercem” (Elkonin, 2019, p. 259). Ainda assim, os estudos apresentados por Elkonin (2019) revelam que são precisamente eles quem chamam atenção da criança para o mundo que a cerca, revelam o trabalho humano por trás dos objetos e, nesse processo, elucidam a função que as pessoas assumem e o sentido social do trabalho produtivo. Em última instância, são os adultos que tornam o conteúdo das relações sociais conteúdo da vida infantil e, justamente por isso, uma das grandes contribuições da obra Psicologia do jogo (2019) reside em destacar o adulto que, em toda sua integralidade, existe “oculto” por trás da evolução do conteúdo e das transformações qualitativas que se engendram no psiquismo infantil.
A elucidação da direção educativa que subjaz o jogo é um elemento de especial importância para investigação do conteúdo da brincadeira de papéis, pois ao mesmo tempo que revela o caráter não espontâneo das esferas da realidade que se reconstituem no interior da atividade infantil, evidencia a possibilidade de o adulto intervir intencionalmente em seu desenvolvimento. Por certo, esse é, segundo Elkonin (2019), um dos grandes motivos para o estudo sistematizado da brincadeira protagonizada. Diz o autor:
O estudo do desenvolvimento do jogo protagonizado é interessante em dois sentidos: primeiro, porque assim se descobre com maior profundidade a essência do jogo; segundo, porque, ao descobrir a conexão mútua dos diferentes componentes estruturais do jogo em seu desenvolvimento, pode-se facilitar a direção pedagógica e a formação dessa importantíssima atividade da criança (Elkonin, 2019, p. 233).
É evidente, assim, que, na perspectiva da obra, o estudo do desenvolvimento psicológico da brincadeira está em estreita relação com a necessidade de construir caminhos pedagógicos que favoreçam sua formação, pois, como aponta o autor, esta se trata de uma atividade que carrega decisiva importância ao desenvolvimento da criança pré-escolar. Essa importância - que para Elkonin (2019) ainda está longe de ser revelada em sua integralidade - assenta-se sobretudo nas transformações que essa atividade carrega para o desenvolvimento da consciência e da personalidade infantil.
No capítulo 6 do livro, intitulado “O jogo e o desenvolvimento psíquico”, Elkonin (2019) destaca que as mudanças qualitativas promovidas pelo brincar podem ser sintetizadas em três neoformações fundamentais: o descentramento cognitivo, a formação do pensamento simbólico e o desenvolvimento do autodomínio da conduta. Segundo o autor, a brincadeira exige que a criança descentre-se de si mesma, assumindo uma relação convencional - e, portanto, simbólica - com a realidade. Ao mesmo tempo, demanda aos pequenos que se esforcem no sentido da regulação do próprio comportamento, pautando suas ações nas regras de conduta implícitas no papel: pela primeira vez na ontogênese é possível observar o desenvolvimento da ação volitiva, consciente de si.
Justamente por isso, Elkonin (2019) chama atenção para a necessidade de um ensino sistematizado que se volte à formação dessa atividade, revelando ser não só possível, como desejável, que os adultos tomem frente na direção pedagógica do jogo. Isso nos faz inferir que a escola de educação infantil é tendencialmente um espaço social capaz de promover essa atividade em seus máximos níveis de desenvolvimento. Diz o autor:
No tocante às crianças de menos idade, a sua educação até o ingresso na escola continua sendo ainda, na maioria dos países, com exceção dos socialistas, assunto privado da família, e o conteúdo e os métodos didáticos transmitem-se por tradição. Claro que em alguns países leva-se a efeito um imenso trabalho instrutivo dos pais, mas que se concentra principalmente nos problemas da educação e da higiene. Os de pedagogia da educação familiar das crianças ainda estão pouco estudados. É que resulta difícil fazer de todos os pais outros tantos pedagogos que guiem conscientemente pelos processos evolutivos nesses períodos da infância, que são os de maior responsabilidade (Elkonin, 2019, p. 397-98).
A obra Psicologia do jogo (2019) posiciona-se, portanto, quanto à necessidade de que a educação da criança pequena saia dos limites da esfera privada, adentrando à esfera da coletividade e, nesse processo, contribui para que sustentemos a superação de formas tradicionais e assistemáticas de educação do jogo, indo em direção à defesa de um processo educativo pautado em critérios que direcionem o desenvolvimento infantil em dada direção ético-política. A importância de que a educação infantil seja pautada em critérios é de suma importância ao problema do conteúdo, afinal, se é possível intervir e direcionar a brincadeira há que se questionar em qual direção a faremos. Afirma Elkonin em texto publicado em 1960:
O conteúdo dos jogos de argumento tem significação educativa importante. Por isso, há que se observar com cuidado o que jogam as crianças. É preciso fazê-los conhecer aquelas facetas da realidade cuja reprodução na brincadeira possa exercer influência educativa positiva e distraí-los da representação daquilo que possa desenvolver qualidades negativas (Elkonin, 1960, p. 513).
A direção ético-política no tratamento pedagógico da brincadeira parece estar, na perspectiva do autor, em estreito diálogo com o desenvolvimento do conteúdo do jogo, na medida em que, ao escolherem esferas da realidade para se tornarem conteúdo dos papéis sociais que se reconstituem na brincadeira, os adultos escolhem também elementos que se tornarão conteúdo da vida infantil. Vê-se, portanto, que no interior da obra não se oculta a direção ético-política defendida ao trabalho educativo, tampouco a dependência que a plena realização da educação escolar tem da sociedade. Como diz Elkonin (2019, p. 388):
Assim que surgem problemas de educação social organizada, orientada e conveniente no aspecto pedagógico, a sua solução colide com toda uma série de dificuldades de caráter econômico e político. Para que a sociedade se preocupe com a educação das crianças, deve estar interessada, antes de tudo, na educação múltipla de todas as crianças, sem exceção. Esse interesse existe somente na sociedade socialista.
É importante ressaltarmos, no entanto, que embora Elkonin (2019) evidencie a necessidade da direção educativa do brincar, tem como objeto de estudo o desenvolvimento do jogo do ponto de vista psicológico. Sendo assim, ainda que traga indicações pedagógicas, como a necessidade de que o adulto apresente objetos, sature o papel social e distraia os pequenos de aspectos negativos da realidade, trata-se apenas de aspectos gerais que ainda não elucidam o que fazer diante do desafio tão complexo de educar a brincadeira e a criança pré-escolar em sua integralidade como ser. Esse tipo de orientação, tão caro ao problema da educação do conteúdo do brincar, deve ser ampliado e desenvolvido, sendo tarefa da pesquisa contemporânea apropriar-se do legado deixado pela psicologia do jogo e avançar no que diz respeito à pedagogia do jogo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por meio dos quatro eixos de análise, esperamos ao final deste artigo ter demonstrado nossa conclusão de que o problema do conteúdo atravessa a obra Psicologia do jogo (2019) multilateralmente, apresentando-se como questão fundamental ao estudo científico da brincadeira de papéis. Embora respostas para perguntas mais amplas que relacionem o problema da alienação ao processo de desenvolvimento da criança pré-escolar ainda permaneçam em aberto, entendemos que nosso estudo pôde caminhar - amparado na obra de referência do campo - no sentido de afirmar, reiterar e recuperar a defesa de que o conteúdo da brincadeira de papéis é elemento estruturante ao desenvolvimento da criança pré-escolar e que, portanto, deve orientar as pesquisas e a prática pedagógica na educação infantil.
Tal defesa reveste-se de importância dada a dimensão ético-política que congrega. Afinal, sendo as relações sociais o conteúdo fundamental da brincadeira pré-escolar, em uma sociedade marcada por profundos processos de desumanização, explicita-se a dimensão dos valores que são reconstituídos na atividade infantil e suas implicações para o desenvolvimento da consciência e da personalidade. Assim, atrelados à defesa de que o conteúdo deve orientar o trabalho pedagógico, nos cabe continuar perguntando: em que direção?
REFERÊNCIAS
-
BRIGATTO, Fernanda O. A intervenção pedagógica na brincadeira de papéis em contexto escolar: estudo teórico-prático à luz da psicologia histórico-cultural e pedagogia histórico-crítica. Dissertação (Mestrado em Educação Escolar). Araraquara: Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, 2018. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/166371 Acesso em: 22 set. 2023.
» https://repositorio.unesp.br/handle/11449/166371 -
CORREIA, Mônica F.B.; MEIRA, Luciano R.L. Explorações acerca da construção de significados na brincadeira infantil. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 21, n. 3, p. 356-364, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-79722008000300003. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.1590/S0102-79722008000300003 -
DUARTE, Newton. A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco: a dialética em Vigotski e em Marx e a questão do saber objetivo na educação escolar. Educação & Sociedade, v. 21, n. 71, p. 79-115, jul. 2000. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-73302000000200004. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.1590/S0101-73302000000200004 - ELKONIN, Daniil B. Desarrollo psíquico del niño desde el nacimiento hasta el ingreso en la escuela. In: SMIRNOV, Anatoli; LEONTIEV, Alexei; RUBINSHTEIN, Serguei; TIEPLOV, N. (org.). Psicologia Cidade do México: Grijalbo, 1960. p. 493-522.
- ELKONIN, Daniil B. Sobre el problema de la periodización del desarrollo psíquico en la infancia. In: DAVIDOV, Vasili; SCHUARE, Marta(org.). La Psicologia Evolutiva y Pedagogica en la URSS (Antología) Moscou: Progresso, 1987. p. 104-124.
- ELKONIN, Daniil B. Psicologia do jogo. São Paulo: Martins Fontes, 2019.
- KOSIK, Karel. O mundo da pseudoconcreticidade e a sua destruição. In: KOSIK, Karel. Dialética do concreto Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 13-25.
- LAZARETTI, Lucinéia Maria. D. B Elkonin: vida e obra de um autor da psicologia histórico-cultural. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
- LEONTIEV, Alexei. Uma contribuição à teoria do desenvolvimento da psique infantil. In: VIGOTSKI, Lev S.; LURIA, Alexander; LEONTIEV, Alexei. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem São Paulo: Ícone, 2017. p. 59-83.
-
LIMA, Géssica A.; COSTA, Sinara A. A brincadeira de faz de conta de papéis sociais na produção acadêmica brasileira (2010-2016). Revista HISTEDBR On-line, Campinas, v. 20, p. 1-23, 2020. Disponível em: Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8655337 Acesso em: 4 nov. 2024.
» https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8655337 -
LIMA, Telma Cristiane S.L.; MIOTO, Regina Célia T. Procedimentos metodológicos na construção do conhecimento científico: a pesquisa bibliográfica. Revista Katálysis, Florianópolis, v. 10, n. spe., p. 37-45, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1414-49802007000300004. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.1590/S1414-49802007000300004 -
MAGALHÃES, Giselle M.; MESQUITA, Afonso M. O jogo de papéis como atividade pedagógica na educação infantil: apontamentos para emancipação humana. Nuances: Estudo sobre educação, Presidente Prudente, v. 25, n. 1, p. 266-279, jan./abr. 2014. Disponível em: http://dx.doi.org/10.14572/nuances.v25i1.2727. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.14572/nuances.v25i1.2727 -
MARCOLINO, Suzana; BARROS, Flávia O.M.B.; MELLO, Suely A. A teoria do jogo de Elkonin e a educação infantil. Psicologia Escolar e Educacional, v. 18, n. 1, p. 97-104, jan. 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1413-85572014000100010. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.1590/S1413-85572014000100010 -
MARCOLINO, Suzana. A mediação pedagógica na educação infantil para o desenvolvimento da brincadeira de papéis Tese (Doutorado em Educação). Marília: Universidade Estadual Paulista, 2013. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/106628 Acesso em: 22 set. 2023.
» https://repositorio.unesp.br/handle/11449/106628 - MARTINS, Lígia Márcia. Introdução aos fundamentos epistemológicos da psicologia sócio-histórica. In: MARTINS, Lígia Márcia. Sociedade, educação e subjetividade: reflexões temáticas à luz da psicologia sócio-histórica. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2008. p. 27-55.
-
MARTINS, Lígia Márcia; LAVOURA, Tiago. Materialismo histórico-dialético: contributos para a investigação em educação. Educar em revista, Curitiba, v. 34, n. 71, p. 223-239, set./out. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0104-4060.59428. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.1590/0104-4060.59428 -
PASQUALINI, Juliana C.; ASBAHR, Flávia S. F. Apresentação: Periodização histórico-cultural do desenvolvimento humano: a teoria como ferramenta de análise e projeto de formação humana. Obutchénie. Revista de Didática e Psicologia Pedagógica, v. 3, n. 3, p. 8-18, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.14393/OBv3n3.a2019-51689. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.14393/OBv3n3.a2019-51689 -
PASQUALINI, Juliana C. Contribuições da psicologia histórico-cultural para a educação escolar de crianças de 0 a 6 anos: desenvolvimento infantil e ensino em Vigotski, Leontiev e Elkonin. Dissertação (Mestrado em Educação Escolar). Araraquara: Universidade Estadual Paulista, 2006. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/90339 Acesso em: 22 set. 2023.
» https://repositorio.unesp.br/handle/11449/90339 -
SENA, Silvio; GUIMARÃES, Célia Maria. A intervenção pedagógica no jogo de papéis no contexto educacional da criança pré-escolar. Colloquium Humanarum, Presidente Prudente, v. 12, n. 1, p. 30-37, jan./mar. 2015. Disponível em: https://doi.org/10.5747/ch.2015.v12.n1.h184. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.5747/ch.2015.v12.n1.h184 -
SZYMANSKI, Maria Lidia S.; COLUSSI, Lisiane G. Relações entre os jogos de papéis e o desenvolvimento psíquico de crianças de 5-6 anos. Revista Brasileira de Educação, v. 25, p. 1-21, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1413-24782020250019. Acesso em: 8 out. 2024.
» https://doi.org/10.1590/S1413-24782020250019 - TULESKI, Silvana C. Vygotsky: a construção de uma psicologia marxista. 2. ed. Maringá: Eduem, 2008.
-
VIGOTSKI, Lev S. A transformação socialista do homem Tradução de Nilson Dória. URSS: Varnitso, p. 1-9, 1930. Disponível em: Disponível em: https://www.ufrgs.br/psicoeduc/chasqueweb/vygotsky/vygotsky-a-transformacao-socialista-do-homem.htm Acesso em: 9 ago. 2023.
» https://www.ufrgs.br/psicoeduc/chasqueweb/vygotsky/vygotsky-a-transformacao-socialista-do-homem.htm - VIGOTSKI, Lev S. A brincadeira e o seu papel no desenvolvimento psíquico da criança. In: PRESTES, Zoia; TUNES, Elisabeth(org.). Psicologia, educação e desenvolvimento: escritos de L. S. Vigtoski. São Paulo: Expressão Popular, 2021. p. 209-240.
-
1
Artigo publicado com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq/Brasil para os serviços de edição, diagramação e conversão de XML.
-
2
Na psicologia histórico-cultural, brincadeira protagonizada, brincadeira de papéis, jogo protagonizado e jogo de papéis são utilizados como sinônimos.
-
3
Para Leontiev (2017), a atividade-guia é a atividade social promotora do desenvolvimento, pois é aquela que engendra as mudanças mais determinantes em cada período, promovendo o desenvolvimento dos processos psíquicos e da consciência.
-
4
Segundo Lazaretti (2011), a obra foi publicada em 1978, traduzida para o espanhol em 1980, publicada e traduzida do espanhol para o português em 1998. Em língua inglesa, encontramos como data de publicação o ano de 2005.
-
DECLARAÇÃO SOBRE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
-
DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE
Os autores declaram que não há conflito de interesse com o presente artigo.
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
Histórico
-
Recebido
12 Dez 2023 -
Preprint postado em
24 Out 2023
10.1590/SciELOPreprints.7161 -
Aceito
20 Set 2024
