RESUMO
Traçar o perfil dos pacientes que desenvolveram osteonecrose dos maxilares associada a agentes antiangiogênicos e identificar os tratamentos realizados atualmente no manejo odontológico. Foi realizada busca nas bases de dados PubMed®/Medline® e Scopus por meio dos descritores “osteonecrosis AND antiangiogenic therapy”, sendo utilizados os critérios de inclusão: artigos publicados em inglês, relato de caso, disponíveis on-line e por período ilimitado. Após análise dos 209 artigos encontrados, foram selecionados 18 artigos para este estudo, resultando em 19 relatos de caso, visto que um dos artigos apresentou dois casos que se enquadravam nos critérios de inclusão. A osteonecrose dos maxilares associada a medicamentos é caracterizada pela exposição de osso necrótico na cavidade oral que não cicatriza em um período de 8 semanas em pacientes que não foram submetidos à radioterapia. Os medicamentos antiangiogênicos são indicados no tratamento de alguns tumores, pois impedem o crescimento de novos vasos sanguíneos, controlando o crescimento do tumor e a chance de metastização. Torna-se imprescindível a realização de prevenção odontológica do paciente a ser submetido a uso de antiangiogênicos visando a minimizar as chances de desenvolvimento da osteonecrose.
Descritores:
Osteonecrose; Assistência odontológica; Metástase neoplásica; Inibidores da angiogênese; Antineoplásicos
ABSTRACT
To establish the profile of patients who developed antiangiogenic agent-related osteonecrosis of the jaws, and identify the treatments currently used in dental management. We searched the PubMed®/Medline® and Scopus databases using the words “osteonecrosis AND antiangiogenic therapy”, with the following inclusion criteria: articles published in English, case reports, available online, and for an unlimited period. Of the 209 articles retrieved, 18 were selected, for a total of 19 case reports, since one article included two cases that met the inclusion criteria for this study. Medication-related osteonecrosis of the jaws is characterized by exposure of necrotic bone in the oral cavity that does not heal over a period of 8 weeks in patients with no previous history of radiation therapy. Antiangiogenic drugs are indicated in the treatment of certain tumors, since they stop the formation of new blood vessels, controlling tumor growth and the chance of metastasis. Dental prevention is essential in patients who will be put on antiangiogenic agents, to minimize the risk for osteonecrosis.
Keywords:
Osteonecrosis; Dental care; Metastatic neoplasm; Angiogenesis inhibitors; Antineoplastic agents
INTRODUÇÃO
A osteonecrose dos maxilares associada a medicamentos (OMAM) é caracterizada pela exposição de osso necrótico na cavidade oral que não cicatriza em um período de 8 semanas em pacientes que não foram submetidos à radioterapia. Segundo a American Association of Oral and Maxillofacial Surgeons (AAOMS), para ser diagnosticado com OMAM, o paciente deve apresentar características como tratamento prévio/atual com bisfosfonatos, antirreabsortivos ou agentes antiangiogênicos.(1–7)
A angiogênese é responsável pela formação de vasos sanguíneos, o que possibilita o crescimento e a invasão tumoral nos vasos, favorecendo as metástases tumorais.(7) Os agentes antiangiogênicos são indicados nos tratamentos de doenças que dependem da neoformação vascular para seu crescimento e metastização.(7) A osteonecrose dos maxilares associada a agentes antiangiogênicos (OMAA) ocorre pela interferência na angiogênese do processo de reparo ósseo, levando à diminuição do fluxo sanguíneo nos ossos maxilares e resultando em contaminação bacteriana do osso exposto.(1,2,4,5,7,8)
A OMAA é uma complicação relativamente atual, visto que esses medicamentos estão sendo usados em larga escala.(7) Desta forma, ainda não foram realizados estudos longitudinais para verificar os principais fatores de risco odontológicos específicos dessa classe de medicamentos.
OBJETIVO
Traçar o perfil dos pacientes acometidos por osteonecrose dos maxilares associada a medicamentos e identificar os principais fatores de risco por meio de uma revisão integrativa.
MÉTODOS
Foi realizada uma busca nas bases de dados PubMed®/Medline® e Scopus com os descritores “osteonecrosis AND antiangiogenic therapy”. Os critérios de inclusão foram artigos publicados em inglês, de relato e/ou série de casos, disponíveis on-line e período ilimitado. Os critérios de exclusão foram pacientes tratados com bisfosfonatos e/ou antirreabsortivos, pacientes irradiados na região acometida pela osteonecrose, osteonecrose não envolvendo os ossos maxilares e estudos realizados em animais.
RESULTADOS
Foram encontrados 209 artigos nas bases de dados, sendo selecionados 18 artigos para a amostra final, em um total de 19 casos relatados, visto que um dos artigos apresentou dois casos que se enquadravam nos critérios de inclusão.
Na figura 1, observa-se o fluxograma com o resultado dos artigos encontrados. Os dados obtidos nos artigos selecionados foram registrados nas tabelas 1 e 2, tendo sido relacionados em ordem cronológica.
Características de diagnóstico da osteonecrose dos maxilares associada a antiangiogênicos, tipos de agentes antiangiogênicos e seu mecanismo de ação nos artigos selecionados
Fatores locais, sistêmicos e conduta da osteonecrose dos maxilares associada a antiangiogênicos
DISCUSSÃO
A OMAM é uma doença incomum que pode resultar em redução significativa da qualidade de vida, caracterizada quando todas as seguintes características estão presentes: tratamento atual ou prévio com agentes antirreabsortivos ou antiangiogênicos; osso exposto ou osso que pode ser sondado por fístula intra- ou extraoral na região maxilofacial que persiste por mais de 8 semanas; ausência de histórico de radioterapia nos ossos afetados ou doença metastática evidente na região.(7)
Historicamente, os primeiros medicamentos associados foram os bisfosfonatos, resultando no termo “osteonecrose dos maxilares associada a bisfosfonatos” (OMAB). No entanto, observou-se a necessidade de incluir outros medicamentos na etiopatogenia da osteonecrose, como os antirreabsortivos e antiangiogênicos. Os casos relatados de osteonecrose associada ao uso de agentes antiangiogênicos têm se acumulado ao longo dos anos e, dessa forma, o termo mais adequado para essa doença é a OMAA.(2,7,20)
A OMAM foi relatada pela primeira vez por Marx, em 2003,(21) e, apesar de ser estudada há quase duas décadas, a fisiopatologia da doença ainda não foi totalmente esclarecida. Os processos de inibição da reabsorção e remodelação óssea osteoclástica, inflamação e infecção, e a inibição da angiogênese são as hipóteses mais aceitas.(7,20,22)
O processo de angiogênese permite o crescimento e a formação de novos vasos sanguíneos, sendo essas características essenciais para a progressão de doenças, principalmente as oncológicas. Essa etapa é mediada por sinais químicos do organismo, sendo o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) o mais relevante neste processo. Este sinal liga-se a receptores de células endoteliais, que revestem a parede interna dos vasos sanguíneos, estimulando a angiogênese e alterando o equilíbrio de neoformação vascular.(7,23,24)
O mecanismo de ação dos antiangiogênicos resume-se em bloquear a ação direta ou indireta do VEGF. Algumas drogas atuam impedindo a ligação entre o VEGF e as células endoteliais, como o bevacizumabe, considerado um anticorpo monoclonal. Já o sunitinibe, outro agente antiangiogênico, atua de forma endógena, impedindo que receptores de VEGF enviem sinalização para as células endoteliais, sendo considerados inibidores da tirosina-quinase.(24,25)
Nesta revisão, pudemos constatar que os antiangiogênicos foram prescritos nos casos de câncer metastático em 63,2% (n=12),(1–5,10–13,17,18) sendo o câncer renal o diagnóstico mais prevalente (n=6; 31,6%),(4,6,11,13,15,17) seguido do câncer de cólon, com 15,8% (n=3).(2,4,5) A OMAA também foi descrita em um caso não oncológico de trombose venosa de retina.(14)
O antiangiogênico mais encontrado foi o bevacizumabe, com 58% dos relatos (n=11),(1–4,9,10,12,14,16,17) seguido do sunitinibe, com 11% (n=2),(13,15) e os demais 31% representados por aflibercepte (n=1),(5) sorafenibe (n=1),(20) cabozantinibe (n=1),(18) pazopanibe (n=1),(6) sorafenibe + sunitinibe (n=1)(11) e bevacizumabe + sorafenibe (n=1).(8)
Nos artigos selecionados, a Itália(3–6,10,12,18,19) foi o país de origem do maior número de artigos com 39% (n=7), seguida do Brasil,(14,17) com 11% (n=2), e Estados Unidos(1) (n=1), Suécia(11) (n=1), Turquia(2) (n=1), Grécia(13) (n=1), Israel(15) (n=1), Bélgica(16) (n=1), Alemanha(8) (n=1), Coreia(6) (n=1), Suíça(9) (n=1), representando, juntos, 50% (n=9) dos artigos. Por meio dessa evidência, sugere-se que não há influência geográfica e econômica em pacientes acometidos por OMAA.
A média de idade dos pacientes acometidos pela OMAA foi de 59,70 anos e a mediana foi de 60 anos, com idade mínima de 47 anos(3) e máxima de 79 anos.(4) Em relação ao sexo dos pacientes, pudemos observar o envolvimento de 11 homens (58%)(2–4,10,14–17,19) e 8 mulheres (42%);(1,5,6,8,9,12,13,16,18) dados discrepantes ao relatado pela AAOMS em 2014.(7) A raça dos pacientes estudados não foi nos artigos, sendo, por esse motivo, excluída a referida coluna da tabela final.
A região mais acometida foi a mandíbula em 95% dos casos, sendo o lado esquerdo envolvido em 69% dos casos (n=13),(1,3,4,8,10–14,16–18) o direito em 21% (n=4)(2,5,15,19) e os dois lados simultaneamente em 5%.(6) O seio maxilar esquerdo foi relatado em 5% dos casos.(9) Essa predileção pela região de mandíbula é explicada pelo fato de a mesma ser formada por osso compacto, o que significa menor aporte sanguíneo em sua estrutura quando comparada à maxila,(4,7,8) além de apresentar regiões com mucosa mais delgada, recobrindo áreas de proeminências ósseas, como, por exemplo, a linha milo-hióidea.(4,8)
Os sinais clínicos mais frequentes foram exposição de tecido ósseo em 84,2% dos casos (n=16),(1–4,6,8,10–17,19) seguida de: supuração (n=4)(5,6,15,18) e tecido mole inflamado (n=4)(8,13,15,18) (21% cada), fístula (n=3)(4,8,9) e úlcera (n=3),(2,4,8) (15,8% cada), necrose do tecido mole (n=2),(2,4) abscesso (n=2),(8,12) doença periodontal (n=2)(12,13) (10,5% cada) e avulsão atraumática (n=1),(5) trismo (n=1),(10) e linfadenopatia (n=1)(11) e necrose de nervo (n=1)(16) (5,3% cada). Os principais sintomas encontrados foram a dor em 73,7% dos casos (n=14),(2–4,6,8–17) seguida de edema (n=4),(3,6,8,16) em 21%, lesão gengival (n=2)(4,19) e paciente assintomático (n=2)(4,18) (10,5% cada). Além desses, também foram citados desconforto (n=1),(1) dificuldade de mastigação (n=1),(2) halitose (n=1),(1) parestesia de lábio inferior (n=1),(3) limitação de abertura da cavidade oral (n=1),(15) sangramento gengival (n=1),(6) drenagem de pus (n=1)(6) e nevralgia (n=1)(9) − cada um representando 5,3% da amostra. Um dos artigos não relatou os sinais e sintomas encontrados.(5)
Os exames mais frequentemente solicitados para diagnóstico complementar foram radiografia panorâmica,(2–6,9–18) tomografia computadorizada(2–6,8–12,15–19) e cintilografia óssea.(3,6) Por meio da radiografia panorâmica e tomografia computadorizada, observou-se que, nos casos inicias, não são encontradas alterações radiológicas óbvias;(13,14) entretanto, com a evolução do quadro, é possível verificar áreas de rarefação/osso hipodenso, presença de sequestro ósseo e ruptura da cortical óssea,(2–6,8–12,15–19) e, nas imagens obtidas na cintilografia, observamos, nas regiões de osteonecrose, hipercaptação do contraste.(3,6) Um dos artigos não relatou o tipo de imagem realizada.(1)
O tempo de aparecimento da lesão varia de acordo com o tipo, a dose e a duração do uso dos antiangiogênicos - e quanto maior a duração da terapia e mais idoso for o paciente, maior é a chance de desenvolvimento da OMAA.(4,7,12,16) O tempo mínimo encontrado foi de 1 semana(1) e o máximo de 4 anos.(13)
Os principais fatores de risco para o desenvolvimento da OMAA foram procedimentos odontológicos invasivos com manipulação de tecido ósseo, como extração dentária e cirurgia periapical/periodontal, além de trauma local, doença periodontal, infecção periapical, entre outros.(1–5,7,10–19) A OMAA também pode se desenvolver de forma espontânea.(7,10,16,17) Confirmando a descrição da literatura, os principais fatores de risco/desencadeantes encontrados foram exodontias em 50% dos casos (n=9),(4,9–11,15,16,18,19) Avulsão atraumática representou 11,1% dos casos (n=2);(5,12) trauma (n=1),(13) erupção (n=1)(3) e abcesso (n=1)(8) representaram 15,8% do total. Houve o desenvolvimento de OMAA de forma espontânea em 22,2% dos relatos de casos (n=4).(1,2,14,17) Em um dos artigos, o fator desencadeante não foi relatado.(6)
Os casos de OMAA devem ser tratados de acordo com o proposto pela AAOMS,(7) ou seja, considerando seu estadiamento. Nesta revisão, observamos que os tratamentos mais realizados foram antibioticoterapia em 63,2% dos casos (n=12),(3,4,6,8,10,12–16,18) enxaguatório bucal antimicrobiano em 52,6% (n=10),(1,4,8,9,13,14,16–18) interrupção do antiangiogênico em 42,1% (n=8),(1,5,6,8,13,15,19) remoção do osso exposto em 42,1% (n=8),(1,3,8–11,14,18) seguido de desbridamento de tecido mole (n=2),(16,18) curativo (n=2),(2,16) laserterapia (n=2),(4,5) sonda nasogástrica para interrupção da alimentação oral (n=2),(8,16) que representaram 10,5% cada. Curetagem (n=1),(2) remoção de prótese total (n=1),(12) drenagem de abcesso (n=1),(8) drenagem seio maxilar (n=1)(9) e remoção de implante (n=1)(6) representaram 26,3% dos casos restantes. Nos estágios iniciais, o tratamento pode ser realizado de forma mais conservadora, entretanto nos casos mais graves, é necessária a intervenção cirúrgica, almejando a estabilidade do OMAA.(7,15,17)
Alguns autores acreditam que fatores predisponentes podem aumentar o risco de desenvolvimento da OMAA, como tabagismo e diabetes,(5,7,11,12) etilismo,(5) anemia, entre outros. De acordo com a AAOMS, estudos padronizados e com evidências concretas devem ser realizados para comprovar a influência de outras comorbidades e/ou fatores predisponentes no desenvolvimento da OMAA.(7)
Em dois relatos de casos,(1,18) os pacientes foram submetidos à radioterapia, porém em região diferente da afetada pela OMAA sendo, portanto, incluídos nesta revisão. Em um relato de caso,(10) o paciente estava na vigência do tratamento da OMAA e iniciou terapia com ácido zoledrônico. Pelo fato de a OMAA ter sido diagnosticada antes do uso do bisfosfonato, o relato de caso foi incluído para análise.
Os desfechos dos casos relatados nesta revisão demonstram que, após os tratamentos realizados, a OMAA pode permanecer estável, ou seja, sem infecção, sem sintomatologia e sem progressão; entretanto seu desaparecimento completo não é alcançado.(7) O tempo para que se atinja a estabilidade da OMAA varia de acordo com a idade do paciente, o estágio de evolução e o tempo de uso do medicamento antiangiogênico.(7,12)
CONCLUSÃO
É de extrema importância que os pacientes que iniciarão tratamento com agentes antiangiogênicos realizem avaliação odontológica criteriosa previamente à terapia visando à adequação da cavidade oral, prevenindo infecções e a necessidade de procedimentos invasivos, e evitando, assim, a osteonecrose dos maxilares.
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