A insurreição da voz feminina em Ruína y leveza, de Julia Dantas

The insurrection of the female voice in Ruína y leveza, by Julia Dantas

La insurrección de la voz femenina en Ruína y leveza, de Julia Dantas

Jian Marcel Zimmermann Sobre o autor

Resumo

A nós, contemporâneos no início do século XXI, coube a tarefa de depurar mazelas sociais e históricas que produziram sociedades com desigualdades internas, seja em termos de representatividade ou de oportunidades e direitos. Nesse sentido, o presente estudo desenvolve reflexões sobre a relação entre gêneros, os estados de exploração e subalternidade presentes nesse âmbito e suas implicações coletivas e subjetivas. Para este fim, elegemos um corpo teórico heterogêneo em termos cronológicos, com autores já clássicos no assunto, como Judith Butler, e também pensadores com carreiras mais recentes, como Djamila Ribeiro. Ademais, utilizamos como corpus de análise o romance Ruína y leveza, publicado em 2015, da escritora Julia Dantas. Essa escolha se deu em função da instigante abordagem do tema e também por sua qualidade estética como objeto artístico. A protagonista da supracitada narrativa percorre caminhos geográficos, intelectuais e afetivos em busca de sanar seus conflitos pessoais. Entretanto, acaba por estabelecer contatos que despertam a consciência de que ela é apenas parte de um problema coletivo, e essa percepção afeta de forma definitiva as escolhas futuras para sua vida. O entrelaçamento analítico entre teoria (social, histórica...) e prática literária nos mostrou a produtividade da mescla entre exercício intelectual e fruição como ferramenta de resistência a um contexto de injustiça e opressão. Percebemos que, para a construção de uma sociedade mais humanizada e equilibrada, é necessário que todos, independentemente do gênero, sejam tomados como sujeitos de suas ações, com equidade de direitos e deveres.

Palavras-chave:
feminismo; literatura; Julia Dantas

Abstract

We, contemporaries at the beginning of the 21st century, were tasked with debugging social and historical problems that produced societies with internal inequalities, whether in terms of representativeness or opportunities and rights. In this sense, the present study develops thoughts on the relationship between genders, the states of exploitation and subordination present in this scope and their collective and subjective implications. To this purpose, we elected a heterogeneous theoretical field in chronological terms, with authors already classic on the subject, such as Judith Butler, and also thinkers with more recent careers, such as Djamila Ribeiro. In addition, we used the novel Ruína y leveza, published in 2015, by the writer Julia Dantas, as a corpus of analysis. This choice was made both for the instigating approach to the theme and also for its aesthetic quality as an artistic object. The protagonist of the aforementioned narrative travels geographically, intellectually and emotionally in search of solving her personal conflicts. However, she establishes contacts that awaken her to the awareness that she is only part of a collective problem, and this awareness affects future choices for her life. The analytical intertwining between theory (social, historical ...) and literary practice showed us the productivity of the mix between intellectual exercise and fruition as a tool of resistance to a context of injustice and oppression. We realize that for the construction of a more humanized and balanced society, it is necessary that everyone, regardless of gender, be taken as subjects of their actions, with equal rights and duties.

Keywords:
Afro-Brazilian poetry; literature of female authorship; editorial market; testimony

Resumen

Nosotros, los contemporáneos de principios del siglo XXI, tenemos la tarea de depurar los males sociales e históricos que produjeron sociedades con desigualdades internas, ya sea en términos de representatividad o de oportunidades y derechos. En ese sentido, el presente estudio desarrolla reflexiones sobre la relación entre géneros, los estados de explotación y subalternidad presentes en este ámbito y sus implicaciones colectivas y subjetivas. Para ello, elegimos un cuerpo teórico heterogéneo en términos cronológicos, con autores ya clásicos en el tema, como Judith Butler, y también pensadores de trayectoria más reciente, como Djamila Ribeiro. Además, se utilizó como corpus de análisis la novela Ruína y leveza, publicada en 2015, de la escritora Julia Dantas. Esta elección se debió al abordaje sugerente del tema y también a su calidad estética como objeto artístico. La protagonista de la narración mencionada recorre caminos geográficos, intelectuales y afectivos en busca de solucionar sus conflictos personales. Sin embargo, termina estableciendo contactos que despiertan su conciencia de que ella es solo parte de un problema colectivo, y esta percepción afecta definitivamente sus elecciones futuras para su vida. El entrelazamiento analítico entre teoría (social, histórica...) y práctica literaria nos mostró la productividad de la mezcla entre ejercicio intelectual y fruición como herramienta de resistencia ante un contexto de injusticia y opresión. Nos damos cuenta de que para la construcción de una sociedad más humanizada y equilibrada es necesario que todos, sin distinción de género, sean tomados como sujetos de sus acciones, con iguales derechos y deberes.

Palabras-clave:
feminismo; literatura; Julia Dantas

Introdução

Os movimentos de opressão e resistência que marcam a história da humanidade apresentam, neste início do século XXI, contornos e ferramentas singulares, que podem operar tanto na solidificação da ordem desigual estabelecida como na reversão desse cenário. O acesso instantâneo à informação e à desinformação é um fenômeno que, muito embora conhecido, pode promover desde iniciativas altruístas até movimentos massivos de preconceito, muitas vezes ignorados, ou até chancelados, pelos órgãos reguladores. A arte pode desempenhar um relevante papel nesse contexto, ao problematizar questões que cotidianamente são tratadas de forma superficial, ou nem mesmo abordadas.

Este estudo visa problematizar as injustiças nas questões de gênero, colocar em evidência a tortuosa relação masculino/feminino no que tange à colocação no mercado de trabalho, à violência física, à representação política, etc. Para a efetivação deste objetivo, pelo viés artístico, elegemos como corpus de análise o romance Ruína y leveza, de Julia Dantas.

Dantas é uma escritora e jornalista gaúcha, e embora jovem, tem indicações para importantes premiações literárias. Ruína y leveza, publicado em 2015, é seu livro de estreia e narra, em primeira pessoa, a trajetória da protagonista, Sara, numa viagem de descoberta geográfica e pessoal, na qual ela conhece alguns países sul-americanos e toma consciência da situação opressiva destinada às mulheres em nosso continente.

A base para nossas considerações é composta por autores clássicos na problematização de gênero, como Judith Butler e Nelly Richards, que estabelecem bases aplicáveis a diferentes contextos, e também por autores que abordam contextos mais específicos, como Djamila Ribeiro. Esse apanhado teórico visa promover reflexões que suplantem a superficialidade das efêmeras informações cotidianas, a fim de estimular o movimento de resistência às injustiças e preconceitos arraigados historicamente, em matéria de gênero, em nossa sociedade conservadora.

A necessária revisão de um cenário caótico e pseudo-oculto

Em muitas sociedades, os cenários opressivos são, muitas vezes, mascarados a fim de que a ordem estabelecida seja mantida, um véu de harmonia reveste situações de injustiça e violência que historicamente se perpetuam e, com os avanços sociais, apenas assumem novos contornos, muito embora a situação discriminatória permaneça inalterada. Tal é o cenário brasileiro (mas, infelizmente, não de forma exclusiva) no que tange à participação feminina nas diversas searas que compõem nosso meio social, e qualquer olhar mais detido perceberá as discrepâncias existentes na relevância atribuída aos diferentes gêneros.

É evidente que percebemos evolução na participação feminina, por exemplo, no mercado de trabalho, entretanto, essa mudança de cenário explicita outras formas de discriminação. Ao analisarmos dados fornecidos pelo IBGE, percebemos que, em todas as ocupações verificadas nas pesquisas, as mulheres recebem, em média, 20,5% a menos que os homens para exercerem exatamente o mesmo ofício, o que é justificado por discursos vazios que, na prática, tentam ocultar a injustiça inegável (Oliveira, 2019OLIVEIRA, Nielmar de (2019). Pesquisa do IBGE mostra que mulher ganha menos em todas as ocupações. Agência Brasil, 8 mar. 2019. Disponível em: Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-03/pesquisa-do-ibge-mostra-que-mulher-ganha-menos-em-todas-ocupacoes . Acesso em: 5 nov. 2020.
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).

Outrossim, os cargos oferecidos às mulheres normalmente são de hierarquia intermediária, independente da capacitação que possuem. Em nosso país, elas ocupam apenas 34% dos cargos de liderança executiva, o que nos coloca, em um ranking estabelecido pela International Business Report (Participação..., 2020PARTICIPAÇÃO de mulheres em cargos de diretoria no Brasil aumenta. Diário do Comércio, 6 mar. 2020. Disponível em: Disponível em: https://diariodocomercio.com.br/dia-internacional-da-mulher/participacao-de-mulheres-em-cargos-de-diretoria-no-brasil-aumenta/ . Acesso em: 05 nov. 2020.
https://diariodocomercio.com.br/dia-inte...
), apenas em 8° lugar em um cenário de 32 países elencados para o estudo.

Ao analisarmos nosso cenário político, percebemos um panorama ainda mais alarmante. Mesmo com a criação de leis que obrigam partidos políticos a apresentarem um mínimo de candidatas para as eleições, a representatividade feminina continua sendo pífia nessa seara. Dados apresentados pela Inter-Parlamentary Union mostram que, no Brasil, apenas cerca de 10% dos deputados em nosso congresso federal são mulheres, o que nos coloca na vergonhosa 154º posição (entre 193 países pesquisados) na escala elaborada pela instituição (Santos, 2017SANTOS, Bruno C. dos (2017). 5 dados sobre a participação das mulheres na política brasileira. Politize!, 17 mar. 2017. Disponível em: Disponível em: https://www.politize.com.br/participacao-das-mulheres-na-politica-brasileira/ . Acesso em: 05 nov. 2020.
https://www.politize.com.br/participacao...
).

A situação torna-se mais assombrosa se atentarmos para o fato de que a discriminação sofrida pelas mulheres não se restringe à representatividade; ela ataca, talvez principalmente, questões de dignidade em direitos invioláveis, como a segurança. Não é novidade, infelizmente, que as mulheres são vítimas de violência diariamente, mas ao analisarmos as estatísticas, o que é uma “impressão” transforma-se em demonstração de uma realidade estarrecedora. Em um levantamento encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado em fevereiro de 2019 (Franco, 2019FRANCO, Luiza (2019). Violência contra a mulher: novos dados mostram que “não há lugar seguro no Brasil”. BBC News Brasil, 26 fev. 2019. Disponível em: Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503 . Acesso em: 5 nov. 2020.
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), demonstrou-se que, nos 12 meses anteriores à pesquisa, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil. Além disso, 22 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de assédio. Percebe-se sobretudo a situação opressiva ao notarmos que 42% dos casos de violência supracitados ocorreram no ambiente doméstico, sendo que mais da metade dos casos sequer foi denunciado pelas vítimas.

Esse contexto requer, de forma urgente, o fortalecimento dos movimentos de resistência, sendo operado nas diversas esferas que compõem nosso Estado, a fim de sistematizar uma “patrulha” que impeça a proliferação de discursos e práticas discriminatórias. Nesse sentido, a arte tem a capacidade (quiçá o dever) de chamar a atenção e despertar uma consciência mais crítica sobre um tema tantas vezes postergado, como afirma Nelly Richard (2002RICHARD, Nelly (2002). Intervenções críticas. Arte, cultura, gênero e política. Tradução de Romulo Monte Alto. Belo Horizonte: Editora UFMG., p. 167):

A arte e a literatura sabem torcer os esquemas identitários, desviá-los na direção das margens, onde se alojam as matérias simbolicamente mais complexas por sua turbidez, convulsões e quebras. A arte e a literatura impedem que se dogmatize o feminino no eu, sem rupturas e nem resíduos, do sociologismo linear do gênero com que operam, tediosamente, os relatórios acadêmicos e as comissões públicas, relativos à “condição da mulher” ou aos “direitos das mulheres”.

A problematização das estruturas que perpetuam a injustificável predominância de gênero, muito embora caracterize-se por ser um fenômeno histórico, deve prover a desestabilização de conceitos opressivos atualmente vigentes, que subjazem as nossas “verdades universais” e que emergem nas abusivas práticas anteriormente descritas, como afirma Judith Butler:

Assim, o ponto de partida crítico é o presente histórico, como definiu Marx. E a tarefa é justamente formular, no interior dessa estrutura constituída, uma crítica às categorias de identidade que as estruturas jurídicas contemporâneas engendram, naturalizam e imobilizam (Butler, 2003BUTLER, Judith (2003). Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira., p. 22).

A desconstrução do estereótipo de uma categoria passível de exploração e submissão deve efetivamente promover uma mudança na esfera legal, para que sejam desnaturalizadas. Butler define, em linhas gerais, como se dá esse processo:

Em outras palavras, a construção política do sujeito procede vinculada a certos objetivos de legitimação e de exclusão, e essas operações políticas são efetivamente ocultas e naturalizadas por uma análise política que toma as estruturas jurídicas como seu fundamento (Butler, 2003BUTLER, Judith (2003). Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira., p. 19).

Todavia, para além da esfera jurídica, em um país com sérias dificuldades na aplicação de suas leis (ainda mais em sua modificação), é preciso um movimento que logre uma conscientização do problema e desenvolva um anseio de mudança. O cenário atual nos apresenta como regra a discriminação e a violência, e o processo de mudança deve transformá-las em, no máximo, exceções, para as quais nossas leis, agora atualizadas, apliquem seu rigor.

Essa conscientização passa por assumirmos, todos, categoricamente, que a desigualdade na relação de gênero tem como base a dominação, sob diversos aspectos, do homem sobre a mulher, como afirma Jane Flax (1991FLAX, Jane (1991). Pós-modernismo e relações de gênero na teoria feminista. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco., p. 228): “Entretanto, as relações de gênero, tanto quanto temos sido capazes de entendê-las, têm sido (mais ou menos) relações de dominação. Ou seja, as relações de gênero têm sido (mais) definidas e (precariamente) controladas por um de seus aspectos inter-relacionados-o homem.”

Esse reconhecimento é apenas o primeiro, embora fundamental, passo em direção à equidade de direitos e de representatividade social, política e pessoal. As artes, as ciências e a cultura em geral podem desempenhar um papel transformador (embora não sozinhos), pelo viés crítico e questionador, podem nos apresentar um panorama de nossa sociedade que o cotidiano alienante muitas vezes nos impede de ver. É nesse sentido que percebemos nosso objeto de análise, um valoroso contributo na resistência ao senso comum e aos clichês sociológicos que tantos freios impõem ao desenvolvimento saudável e equilibrado de nossa sociedade.

Sara, da ruína à leveza

O romance Ruína y leveza nos apresenta a trajetória da personagem Sara (narradora do enredo) rumo ao autoconhecimento, uma espécie de depuração das angústias que vinha acumulando em sua rotina que se desenvolvia sem maiores reflexões. A história é estruturada a partir de um tempo fragmentado, com flashbacks e flashforwards, através dos quais podemos acompanhar o movimento epifânico da protagonista.

A despeito de não ser dividida em capítulos tradicionais, a narrativa apresenta cisões marcadas por páginas individuais, intituladas “diário de sonhos”. Estes elementos não são localizáveis em uma imaginável linearidade cronológica da diegese, entretanto, apresentam em seu título a estação do ano em que foram “sonhados”. Além de somar elementos semânticos e hermenêuticos ao enredo, os “diários de sonhos” operam a transposição entre episódios e temporalidades da trama, possibilitando ainda uma visão contrastiva dos estados da protagonista no que tange à tomada de consciência, em suas diversas esferas.

O ponto de ruptura na vida sem sobressaltos de Sara se dá quando ela descobre que a estabilidade da união amorosa que tinha com Henrique foi rompida com a confissão de que ele a havia traído com uma ex-namorada. A partir dessa revelação, Sara termina o relacionamento, o que lhe causa um enorme sofrimento, e dá início à sua jornada em busca de si:

Me dei conta de que eu não vivia mais na minha mente, nem nas formas do meu corpo (estava mais magra porque não tinha apetite, mais pálida porque nunca mais houve fins de semana no parque, mais etérea porque pouco de mim seguia concreto). Eu não estava mais nos meus sapatos, nos meus objetos, no cheiro das minhas roupas, nas palmilhas dos tênis ou nos dedos das luvas. Eu não me reconhecia ali, nem em lugar algum, só no passado eu parecia fazer sentido (Dantas, 2015DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora., p. 34).

O trauma faz com que a protagonista perceba o quanto a vida que levava tinha poucas escolhas conscientes suas; muito embora se considerasse feliz, era um arremedo de felicidade estabelecido sob a base da alienação de si e da realização de expectativas alheias:

Nossos amigos nos consideravam o casal perfeito, íamos nos dar bem para o resto da vida, ter filhos com quem conversaríamos como se fossem adultos, teríamos um apartamento com churrasqueira e piscina e um gato com listras de nome cult como Felini. Íamos ter bons empregos, carreiras brilhantes, divertidas férias anuais com road trips e colocaríamos aparelhos nos dentes dos nossos filhos. Íamos passar os domingos tomando chimarrão de pijama na varanda, ir ao cinema às quintas-feiras, passar feriados na praia e ainda encontrar tempo para receber amigos em casa para uma janta ou para encher a cara com o amigo metido a artista-de-alma-atormentada que dormiria no nosso sofá sempre que ficasse sem dinheiro (Dantas, 2015DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora., p. 100).

Sua primeira atitude no novo estado conjugal foi passar a dividir apartamento com uma antiga amiga, Marcela. Parece-nos um movimento de extrema relevância em seu intuito de fugir dos estereótipos que antes seguia, pois a amiga, solteira, tem um estilo de vida que o senso comum destina a homens solteiros, com descompromisso afetivo, liberdade sexual, vida social mais ativa que a profissional, excesso de bebidas alcoólicas etc. Entretanto, a radical mudança acaba se transformando em um problema, pois Sara flerta com o alcoolismo e com a automutilação; a forma escolhida para obliterar os clichês sociais aos quais se via vinculada acaba trazendo-lhe mais sofrimento. Em lugar de traçar um caminho subjetivo, ela apenas mira a outra extremidade de uma estrutura binária que, em princípio, buscava transpor, como afirma Butler:

Tais limites se estabelecem sempre nos termos de um discurso cultural hegemônico, baseado em estruturas binárias que se apresentam como a linguagem da racionalidade universal. Assim, a coerção é introduzida naquilo que a linguagem constitui como o domínio imaginável do gênero (Butler, 2003BUTLER, Judith (2003). Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira., p. 28).

Sara visita os extremos desse “domínio imaginário do gênero” e percebe, a partir da dor, que essa prática, em vez de lhe conceder autonomia nas decisões que conscientemente pretendia destinar à própria vida, apenas solidificava, por meio da exceção afirmativa, o maniqueísmo social que ela agora buscava suplantar.

Entretanto, a protagonista percebe que necessita de algo mais impactante a fim de expiar suas inquietações, e é nesse sentido que decide realizar, sozinha, uma viagem pela América Latina. A motivação para o empreendimento encontramos nas palavras da própria personagem: “De meses de silêncio eu talvez pudesse aprender alguma coisa, seria uma espécie de retiro zen, uma viagem introspectiva dentro de uma viagem de deslocamento geográfico e, quem sabe, no fim, eu alcançaria algum deslocamento espiritual” (Dantas, 2015DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora., p. 47).

A iniciativa de fazer uma viagem tendo como impulso um revés não é necessariamente um ato original, contudo, o objetivo terapêutico da aventura ganha contornos singulares em virtude dos contatos que Sara estabelece em sua trajetória errante. A protagonista conhece o argentino Lucho, também viajante, e desenvolve com ele uma amizade curiosa, que transita do ódio ao afeto (não se trata, todavia, de um sentimento conjugal). Sara define o novo amigo como um “maldito riponga arrogante”, que além de ter um modo de vida contrastante ao anteriormente vivido pela narradora, faz questão de apontar as contradições e as frivolidades da antiga vida da nova amiga. Michel Onfray, em Teoria da Viagem, apresenta-nos uma lista de questionamentos que motivam as pessoas à viagem, e que bem se aplica ao caso de Sara:

A Viagem supõe uma experimentação em nós que tem a ver com exercícios costumeiros entre os filósofos antigos: o que posso saber de mim? O que posso aprender e descobrir a meu respeito se mudo de lugares habituais e modifico minhas referências? O que resta da minha identidade quando são suprimidos vínculos sociais, tribais, quando me vejo sozinho, ou quase, num ambiente hostil ou pelo menos inquietante, perturbador, angustiante? (Onfray, 2015ONFRAY, Michel (2015). Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM., p. 75).

É nesse sentido que o personagem Lucho torna-se de extrema relevância, pois ele, sem pudores convencionais, e despreocupado com as possíveis reações da amiga, cinge os pontos nevrálgicos da inquietação de Sara, desnuda os vazios velados em sua irrefletida rotina.

Assim, a partir da inclusão de personagens secundários e suas micronarrativas, é que se estrutura a nova consciência da protagonista. O deslocamento físico e o contato com novas realidades incitam Sara à problematização, que vai da reflexão sobre a sua condição individual até o cenário coletivo, alicerçada pelas histórias de vida e dos episódios correntes das pessoas que vai conhecendo pelo caminho.

Sara viaja por países como Bolívia e Peru, conhece tanto cidades turísticas como interioranas, e se depara com o que lhe parece uma situação insolúvel de miséria financeira, precárias condições sanitárias e uma exploração que, de tão arraigada no contexto sul-americano, parece não ter origem detectável:

Talvez fosse apenas pelo jeito de falar de Carmen, mas aquela selva era regida por forças invisíveis. Alguma empresa construiria uma hidrelétrica, eles nunca trouxeram os resultados, alguém a sequestraria. Parecia uma zona perdida para onde eventuais exploradores espicham seus pescoços atrás de material de pesquisa ou fonte de renda (Dantas, 2015DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora., p. 138).

Além dos efeitos semânticos do processo acima analisado, é possível ver nele implicações na estrutura dos elementos narrativos. A figura do antagonista apresenta relevância variável em cada narrativa; o que aqui chama a atenção, entretanto, é a inclusão do que podemos chamar de um “antagonista oculto”. Apesar de sua postura atuante nos eventos citados do romance, ele não é uma figura identificável, sua presença é perceptível embora sua (ou suas) identidade não seja concretamente definida. Desse modo, a ocultação do antagonista se apresenta como um movimento inventivo singular que confere méritos construtivos ao objeto estético ora examinado.

A protagonista de Ruína y leveza faz amizade com Carmen, uma jovem universitária peruana, conhece sua família e sente-se condoída pela falta de perspectiva que o contexto oferece. Trata-se de um aprofundamento na compreensão de seu lugar no mundo, como sugerido por Djamila Ribeiro: “O fundamental é que indivíduos pertencentes ao grupo social privilegiado em termos de locus social consigam enxergar as hierarquias produzidas a partir desse lugar, e como esse lugar impacta diretamente a constituição dos lugares de grupos subalternalizados” (Ribeiro, 2019RIBEIRO, Djamila (2019). Lugar de fala. São Paulo: Pólen., p. 85).

Ademais, a tomada de consciência da protagonista direciona-se para ponderar, como afirma Jane Flax, sobre como as relações de gênero se relacionam a outros tipos de relações sociais como as de classe ou raça. (Flax, 1991FLAX, Jane (1991). Pós-modernismo e relações de gênero na teoria feminista. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco., p. 225) A amiga Carmen está prestes a tornar-se mais um número nas estatísticas de jovens que abandonam os estudos e dedicam-se a afazeres domésticos em função de uma gravidez inesperada. Sara constata a desigualdade nas relações de gênero também a partir desse episódio, em que o sofrimento feminino, muitas vezes, é silenciado por uma, na maioria das vezes proposital, ignorância masculina do problema: “Homens nunca podem ter certeza. Agora mesmo um adolescente em Masenawa está fazendo pães e nem desconfia que sua namoradinha está cogitando retalhar o próprio útero com agulhas” (Dantas, 2015DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora., p. 164).

Sara ajuda a amiga, inclusive financeiramente, a realizar o aborto, ilegal, em uma clínica com alguma estrutura e condições sanitárias (ao invés do procedimento, com agulhas de crochê e chás, ao qual se submeteria). A partir desse episódio, Sara estende sua reflexão à condição opressiva em que vive a mulher peruana (e posteriormente conclui que o cenário brasileiro não se apresenta tão distinto), no que tange à violência física e aos algozes:

Em um país no qual mais da metade dos homens admite alguma vez ter agredido sua companheira, eu olhava para os lados e me perguntava como podiam ser aqueles os jovens que em dez anos estariam batendo nas namoradas que então beijavam debaixo dos arcos da Plaza San Francisco. Eu podia adivinhar o machismo, o conservadorismo e a violência no quinhão da realidade peruana que eu podia tocar, mas era evidente que eu não passava da superfície (Dantas, 2015DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora., p. 136).

É possível perceber uma harmoniosa relação entre estrutura narrativa e conteúdo diegético a partir da constituição da trama em diferentes espaços geográficos. A multiplicidade de lugares e seus contextos fomenta, na narradora/protagonista, a percepção crítica do espaço que ocupa no mundo, assim como o ocupado pelas demais mulheres, de forma geral. Na medida em que transita por diferentes países e cenários, apesar das singularidades locais, ela percebe a constante condição subalterna da figura feminina, que buscará suplantar ao longo da narrativa.

Nesse sentido, a trajetória da protagonista lhe proporciona uma tomada de consciência, tornando inviável um retorno, mesmo que próximo, à vida que anteriormente levava. A partir das reveladoras experiências de sua viagem, só é possível um recomeço, que fica evidente no diálogo final que trava com Lucho, quando questionada se agora seguiria sozinha, ela responde: “Agora eu começo sozinha” (Dantas, 2015DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora., p. 204).

Considerações finais

A literatura, enquanto objeto estético, pode servir a diversas finalidades, que vão desde o entretenimento até a produção de conhecimento científico, se pensarmos em duas possíveis extremidades. Ademais, um construto artístico literário pode, em contextos opressivos, produzir uma tomada de consciência, promover um despertar das reflexões acerca do mundo circundante. Este estudo, ao associar teorias que problematizam a questão de gênero com um romance que tematiza, dentre outras coisas, o papel ao qual as mulheres são subjugadas em nosso continente, fornece mais um elemento desvelador para uma sociedade que tende a ocultar o referido problema.

O deslocamento físico da protagonista de Ruína y leveza promove encontros com pessoas e situações que desencadeiam nela também um deslocamento espiritual e intelectual. Questões como violência doméstica, aborto, preconceito de gênero e exploração financeira aparecem agora de maneira concreta na vida de Sara. O que antes, em virtude de sua confortável e alienante condição social, eram apenas teorias aplicáveis a mundos existentes, porém apenas hipotéticos para ela, nesse momento a obrigam a agir para reverter um contexto segregador e de subalternidade feminina.

Este estudo, ao associar teorias concernentes aos problemas de gênero com a prática da produção artístico/literária, produz mais um elo na corrente de resistência que nosso mundo opressor demanda para tornar-se viável e equilibrado. O caminho para a transformação passa pelo engajamento de todos os setores, da legislação à educação, e a produção intelectual pode promover a aceleração de um processo que, muito embora já esteja em atraso, não se tornará obsoleto.

Referências

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  • DANTAS, Julia (2015). Ruína y leveza. Porto Alegre: Não Editora.
  • FLAX, Jane (1991). Pós-modernismo e relações de gênero na teoria feminista. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco.
  • FRANCO, Luiza (2019). Violência contra a mulher: novos dados mostram que “não há lugar seguro no Brasil”. BBC News Brasil, 26 fev. 2019. Disponível em: Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503 Acesso em: 5 nov. 2020.
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  • OLIVEIRA, Nielmar de (2019). Pesquisa do IBGE mostra que mulher ganha menos em todas as ocupações. Agência Brasil, 8 mar. 2019. Disponível em: Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-03/pesquisa-do-ibge-mostra-que-mulher-ganha-menos-em-todas-ocupacoes Acesso em: 5 nov. 2020.
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  • ONFRAY, Michel (2015). Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM.
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  • RIBEIRO, Djamila (2019). Lugar de fala. São Paulo: Pólen.
  • RICHARD, Nelly (2002). Intervenções críticas. Arte, cultura, gênero e política. Tradução de Romulo Monte Alto. Belo Horizonte: Editora UFMG.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jun 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    20 Jan 2022
  • Aceito
    09 Maio 2022
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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