Open-access Sala de aula invertida assistida por dispositivos digitais em um curso de farmácia1

Resumo

Os estudantes da atualidade vivem a cultura digital (cibercultura) e suas expectativas em relação ao seu próprio desenvolvimento e formação diferem significativamente das expressadas por gerações anteriores. Nesse contexto, as metodologias ativas têm sido apontadas como estratégias capazes de promover experiências de aprendizagem mais significativas. Esse estudo teve como objetivo investigar a integração entre Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) e a metodologia Sala de Aula Invertida (SAI) na disciplina de Homeopatia de um curso de graduação em Farmácia. Trata-se de uma pesquisa quali-quantitativa, exploratória, com abordagem participante, realizada com 22 estudantes. Os dados foram obtidos por meio de instrumentos de percepção e atividades avaliativas buscando interpretar informações relacionadas ao objeto em estudo. O estudo foi realizado em três etapas: na primeira foram elaborados materiais didáticos e instrumentos investigativos, na segunda, foram aplicados os pré e pós-testes aos estudantes, juntamente com a coleta de dados e, na terceira, foi avaliado o impacto da estratégia SAI a partir da avaliação dos dados coletados. Os resultados indicaram melhora estatisticamente significativa no desempenho após as aulas práticas (p < 0,05) e elevada aceitação da metodologia, com percepção de maior autonomia e preparação prévia para as atividades laboratoriais. Conclui-se que o estudo contribui para o campo da Educação em Ciências Farmacêuticas ao evidenciar o potencial da integração entre TDIC e Sala de Aula Invertida como estratégia pedagógica no ensino superior em saúde.

Palavras-chave:
Cibercultura - Educação - Ensino superior - Ciências - farmacêuticas - Metodologias ativas - Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC)

Abstract

Contemporary students live in a digital culture (cyberculture), and their expectations regarding their own development and education differ significantly from those expressed by previous generations. In this context, active methodologies have been identified as strategies for promoting more meaningful learning experiences. The aim of this study was to investigate the integration of Digital Information and Communication Technologies (DICT) with the Flipped Classroom (FC) methodology in the homeopathy course of an undergraduate pharmacy program. An exploratory mixed-methods study involving 22 students and adopting a participant-research approach was conducted. Data were obtained using instruments measuring perception and assessment activities to interpret information related to the object under study. The study was carried out in three stages: in the first, teaching materials and investigative instruments were developed; in the second, pre- and post-tests were administered to the students, together with data collection. In the third stage, the impact of the FC strategy was assessed on the basis of the data collected. The results showed a statistically significant improvement in performance after the practical classes (p < 0.05) and a high level of acceptance of the methodology, with a perceived increase in both autonomy and prior preparation for laboratory activities. The study contributes to the field of Pharmaceutical Sciences Education by demonstrating the potential of integrating DICT with the FC as a pedagogical strategy for higher education in health.

Keywords:
Cyberculture - Education - Higher education - Pharmaceutical sciences - Active methodologies - Digital Information and Communication Technologies (DICT)

Introdução

O ensino superior na área das Ciências Farmacêuticas enfrenta o desafio de articular fundamentos teóricos e práticas laboratoriais de forma integrada e significativa, em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Farmácia, que preconizam formação crítica, reflexiva e centrada no estudante, de modo a acompanhar as transformações sociais decorrentes do avanço acelerado das tecnologias digitais (Brasil, 2017).

O ciberespaço4 contribui substancialmente com esse processo de transformação por constituir um ambiente favorável à circulação de saberes e ao autoaprendizado, exigindo do docente a atuação como mediador do processo formativo, para que possa acompanhar as dinâmicas da cibercultura (Lévy, 1999; Lemos, 2002; Teixeira, 2013). Segundo Souza (2022), o sistema educacional deve acompanhar esse ritmo acelerado de inovações para tornar-se mais “atraente” e alinhado às expectativas dos estudantes da atualidade.

Em disciplinas com forte componente técnico, é comum que os estudantes apresentem dificuldades na transição entre o estudo conceitual e a aplicação prática, especialmente quando o tempo presencial é predominantemente dedicado à execução de procedimentos (Bollela, 2017). Nesse contexto, as Metodologias Ativas, aliadas às Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), têm sido apontadas como estratégias capazes de favorecer maior engajamento discente e melhor preparação prévia para atividades práticas (Morán, 2015; Valente, 2014; Liu et al., 2025).

A Sala de Aula Invertida (SAI) propõe que o estudo inicial dos conteúdos ocorra antes do encontro presencial, reservando o tempo em sala para aprofundamento, discussão e aplicação (Bishop, 2013; Pavanelo, 2017), o que pode ser particularmente relevante em componentes curriculares laboratoriais (Bollela, 2017).

Embora a SAI e o uso de TDIC sejam amplamente discutidos na literatura educacional, ainda são limitados os estudos que analisam sua aplicação integrada em disciplinas laboratoriais específicas das Ciências Farmacêuticas, especialmente em contextos públicos de ensino superior e com diagnóstico prévio das condições de dromoaptidão5 dos estudantes. Nesse sentido, o presente estudo avança ao articular análise combinada de desempenho acadêmico e percepções discentes, em um componente curricular de natureza prática, contribuindo com evidências empíricas situadas para o campo da Educação em Saúde.

Portanto, esta pesquisa visa investigar a integração entre TDIC e a metodologia Sala de Aula Invertida na disciplina de Homeopatia de um curso de graduação em Farmácia, buscando identificar possíveis impactos no desempenho e na percepção dos estudantes.

Revisão da literatura

O avanço das tecnologias digitais transformou profundamente as formas de acesso, circulação e produção do conhecimento no ensino superior. O ciberespaço configura-se como ambiente de interação contínua, colaboração e compartilhamento de informações, redefinindo as dinâmicas tradicionais de ensino e aprendizagem (Lévy, 1999; Lemos, 2002). Essa transformação desloca o foco da centralidade da transmissão de conteúdos para processos mais participativos, em que o estudante assume papel mais ativo na construção do conhecimento.

Na sociedade atual, em um contexto cada vez mais tecnológico, as TDIC (aparelhos celulares, smartphones, notebooks, tablets, redes sociais, entre outros) estão ganhando cada vez mais espaço nas salas de aula, tornando-se progressivamente integradas ao processo de ensino-aprendizagem, sendo utilizadas como recurso didático quase indispensável em várias instituições de ensino. Valente (2014) aponta que as TDIC em sua conexão com a rede, tornam-se um sistema de troca de informações poderoso, sendo um recurso eficaz para a busca e acesso à informação, tornando as buscas muito mais rápidas quando o objetivo do estudante é bem definido.

Nesse cenário, as TDIC devem deixar de ser apenas recursos instrumentais e passar a integrar a própria organização pedagógica. A presença de dispositivos conectados, acesso sob demanda a conteúdos multimodais e possibilidades de interação síncrona e assíncrona ampliam as estratégias de aprendizagem e favorecem maior autonomia discente (Morán, 2015; Valente, 2014). No entanto, a incorporação das TDIC no ensino superior não garante, por si só, inovação pedagógica, sendo necessário planejamento didático que alinhe objetivos, estratégias e avaliação com reorganização do tempo pedagógico, redefinição do papel do docente e reconfiguração da experiência formativa. É nesse ponto que metodologias ativas emergem como propostas estruturadas capazes de operacionalizar, de forma pedagógica, as potencialidades da cibercultura no ensino superior.

Entre as metodologias ativas que operacionalizam as potencialidades das TDIC no ensino superior, destaca-se a Sala de Aula Invertida (SAI). Conceitualmente, a SAI propõe a inversão da lógica tradicional de exposição de conteúdos, deslocando o estudo inicial para o momento pré-classe e reservando o tempo presencial para atividades de aprofundamento, resolução de problemas e aplicação prática (Bergmann; Sams, 2016; Bollela, 2017; Valente, 2018). Tal reorganização temporal busca favorecer maior participação discente e uso mais qualificado do encontro presencial.

O conceito de Sala de Aula Invertida surgiu inicialmente na Flórida, no ano de 2000, apresentado por Barker na 11ª Conferência sobre Aprendizagem no Ensino Superior (Oliveira, 2022). Eric Mazur, professor de Física Aplicada em Harvard, também foi um importante contribuinte ao propor uma metodologia que combinava leitura prévia de capítulos e atividades colaborativas em aula, promovendo interação e aprendizagem entre pares (Bollela, 2017). Em 2006, os professores de química Jonathan Bergmann e Aaron Sams implementaram a prática gravando videoaulas para que os discentes estudassem o conteúdo previamente. Essa estratégia visava otimizar o tempo em sala para aprofundar conceitos e estimular o aprendizado prático (Bergmann; Sams, 2012; Oliveira, 2022).

O padrão lógico proposto por Bottentuit Junior (2019) seguido na estrutura do modelo, conforme apresentado no Quadro 1, visa proporcionar aos estudantes a chance de adquirir os conhecimentos essenciais para realizar atividades práticas em sala de aula, além de avaliar suas aprendizagens após as intervenções práticas.

Quadro 1
Padrão lógico da metodologia Sala de Aula Invertida

Indica-se que um formato comum para atividades pré-classe é a videoaula, que, segundo Bollela (2017), deve ser gravada pelo professor responsável pela disciplina ou utilizando aquelas disponíveis online, contanto que atendam aos objetivos planejados para a discussão em sala de aula considerando sua pertinência para o aprendizado e articulação com as atividades que serão desenvolvidas presencialmente. A videoaula deve assumir uma função preparatória, oferecendo aos estudantes contato prévio com conceitos e informações necessários para que o tempo em sala de aula possa ser direcionado a atividades que demandem maior participação, discussão e aplicação dos conhecimentos.

Embora a Sala de Aula Invertida possua evidências como um método de aprendizagem eficaz, muitos estudantes por estarem habituados às aulas tradicionais, demonstram resistência a essa abordagem. O medo de uma carga de trabalho adicional e da incerteza do sucesso é a base das suas preocupações (Rotellar, 2016). Essa resistência é comum na maioria dos casos, visto que o modelo tradicional de aprendizagem deixa o estudante em uma situação passiva no seu processo de aprendizagem, logo, as mudanças causam estranheza.

As informações que outrora estavam contidas em livros, revistas e jornais passam a estar em todos os lugares com acesso à rede; a busca pelo conhecimento e informação passa a estar à distância de um clique. Para que o conhecimento seja difundido, só são necessárias as instruções por parte do professor e a perspectiva ativa do estudante no seu processo de aprendizagem, não dependendo exclusivamente do professor para adquirir os dados necessários na sua busca pelo saber (Schmitz; Reis, 2018).

Para o filósofo e sociólogo Lévy (1999), a internet e o ciberespaço tornam-se ferramentas essenciais que possibilitam uma aprendizagem mais acessível e dinâmica, introduzindo o conceito de aprendizagem coletiva, onde estudantes e professores teriam recursos disponíveis para o compartilhamento de materiais e outros dados, facilitando a cooperação nos processos de aprendizagem e unindo ambos em um propósito comum. Isso destaca visões importantes acerca dessas tecnologias, como a ideia de que o computador é um instrumento de comunicação e a percepção significativa de que o uso da informática é uma estratégia de ensino.

No campo da saúde, a SAI tem sido discutida como estratégia promissora para integrar conhecimentos teóricos e práticas clínicas ou laboratoriais, especialmente em disciplinas que demandam preparação prévia para execução técnica (Bollela, 2017). Estudos empíricos indicam que a metodologia pode estar associada a maior engajamento e melhor preparação para atividades presenciais (Han; Klein, 2019), embora os resultados variem conforme o contexto institucional, o perfil dos estudantes e o desenho pedagógico adotado.

Apesar da expansão dessas discussões, observa-se que grande parte das investigações concentra-se em relatos de implementação ou análises gerais no ensino superior, com menor incidência de estudos que explorem, de forma sistemática, sua aplicação em disciplinas laboratoriais específicas das Ciências Farmacêuticas. Em cursos profissionalizantes como Farmácia, nos quais a articulação entre fundamentos conceituais e práticas técnicas é elemento estruturante da formação, a análise situada da SAI assume relevância particular.

No caso da formação farmacêutica, a integração entre conteúdos conceituais e atividades laboratoriais constitui elemento estruturante do processo formativo. A preparação prévia dos estudantes pode impactar o desempenho acadêmico, a segurança e a qualidade da execução técnica em ambiente de laboratório. Nesse sentido, investigar estratégias pedagógicas que favoreçam estudo antecipado estruturado e uso qualificado do tempo presencial torna-se especialmente relevante.

É nesse cenário que se insere o presente estudo, ao investigar a integração estruturada entre SAI e TDIC em disciplina prática do curso de Farmácia, buscando articular referencial teórico e evidências empíricas no contexto do ensino superior em saúde.

Metodologia

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, trata-se de um estudo de abordagem mista (quali-quantitativa), exploratório, conduzido no contexto de pesquisa participante. A dimensão quantitativa compreendeu a aplicação de pré e pós-testes com análise estatística inferencial (Teste t pareado, nível de confiança de 95%), enquanto a dimensão qualitativa envolveu a coleta e interpretação das percepções dos estudantes por meio de questionário estruturado com escala Likert, visando compreender as impressões acerca da estratégia pedagógica adotada (Bauer; Gaskell, 2017; Creswell; Creswell, 2021). Utilizou-se uma amostra por conveniência de todos os discentes matriculados (22) na disciplina de Homeopatia no curso de Farmácia, em uma Universidade Federal no ano de 2022. Participaram do estudo estudantes maiores de 18 anos matriculados na disciplina, que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e possuíam dispositivos digitais, tendo como critério de exclusão aqueles que não cumprissem os critérios de inclusão ou desistissem da pesquisa.

Ingressam anualmente no curso em questão 50 estudantes. A disciplina de homeopatia é de caráter obrigatório, ofertada no segundo semestre do segundo ano de curso, no formato de módulo condensado em 5 semanas, possui carga horária de 60 horas entre aulas teóricas (40 horas) e práticas (20 horas), em que, nas aulas teóricas, é feita a aplicação da metodologia ativa Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) e as aulas práticas são desenvolvidas com a metodologia SAI, sendo a parte presencial em laboratório especializado com recursos disponibilizados pela universidade e com participação ativa dos estudantes.

O presente estudo foi conduzido em três etapas (Figura 1). Na primeira, ocorreu a elaboração das atividades pré-classe, dos objetos avaliativos do processo ensino-aprendizagem (pré e pós-testes) e dos instrumentos investigativos de impressões dos estudantes quanto à estratégia SAI. Na segunda etapa foi aplicada a estratégia SAI aos sujeitos da pesquisa com a aplicação das atividades pré-classe e coleta dos dados por meio dos instrumentos elaborados seguindo os preceitos desta metodologia. Na terceira etapa, foi feita a análise da adequação do uso das TDIC no processo de ensino-aprendizagem por meio da metodologia ativa “SAI assistida por TDIC” a partir da avaliação dos dados. Durante todo estudo, foi garantido o acesso institucional a computadores e internet quando necessário.

Figura 1
Descrição resumida dos componentes de cada etapa da pesquisa

Vários tipos de atividades têm sido empregados como atividade pré-classe na SAI: livros, artigos científicos, filmes/documentários, simulações, videoaulas etc. Destas possibilidades, a videoaula tem-se mostrado a mais bem aceita pelos discentes, como foi observado por Han e Klein (2019), logo sendo a atividade pré-classe escolhida para este trabalho.

Foram gravadas videoaulas referentes aos assuntos abordados em cada uma das aulas práticas listadas anteriormente. Para a produção dessas videoaulas, foram utilizados recursos audiovisuais como computador, câmera, microfone, iluminação e algumas tecnologias digitais como programas de gravação e edição como o Movavi Video Editor6 e programa de apresentação de slides. As videoaulas apresentaram os fundamentos teóricos e as técnicas básicas para a boa execução das atividades práticas previstas para serem desenvolvidas pelos discentes em ambiente laboratorial.

As videoaulas contemplaram duração média de aproximadamente 15 minutos, editadas e disponibilizadas na plataforma Youtube7. Nos vídeos, foram apresentados os tópicos mais importantes aos quais os estudantes deveriam desprender maior atenção para que questões pudessem ser respondidas conforme o entendimento das informações apresentadas nos vídeos.

Foram aplicados pré e pós-testes de múltipla escolha e/ou respostas curtas presencialmente em laboratório antes e após cada atividade prática. Os instrumentos continham questões distintas entre si, porém equivalentes quanto ao nível de complexidade e alinhadas aos mesmos objetivos de aprendizagem da aula específica, avaliando conhecimentos fundamentais relacionados ao conteúdo abordado. Essa estratégia visou evitar efeito de memorização ou familiaridade com os itens, permitindo uma comparação mais adequada do desempenho dos estudantes. Cada teste tinha uma duração de 15 minutos e recebeu pontuação de 0 a 10.

Para cada aula prática, a média aritmética entre o pré-teste e o pós-teste constituiu a nota daquela atividade específica. A média das notas obtidas em todas as aulas práticas correspondeu a um terço da nota final da disciplina, compondo parte da avaliação contínua dos estudantes. Embora os testes integrassem o processo avaliativo da disciplina, sua aplicação também teve finalidade diagnóstica e investigativa no contexto da pesquisa.

Não houve controle tecnológico individualizado de visualização integral das videoaulas. A verificação do cumprimento das atividades pré-classe ocorreu de forma indireta, por meio dos resultados obtidos nos pré-testes aplicados antes das práticas laboratoriais, os quais continham questões baseadas exclusivamente nos conteúdos apresentados nos vídeos e por autorreporte no questionário da pesquisa. Dessa forma, ainda que não se tenha aferido a visualização completa do material, o desempenho nos pré-testes foi utilizado como indicador de contato prévio com o objeto de aprendizagem, enquanto os pós-testes compararam o desempenho dos mesmos ao longo da aula.

Foi elaborado um instrumento (questionário) para avaliar as atitudes e impressões dos estudantes com relação à estratégia SAI e seu impacto no processo de aprendizagem que foi aplicado ao final da disciplina. O questionário construído com perguntas que faziam referência às impressões dos estudantes sobre as atividades pré-classe e sobre a impressão geral sobre a própria SAI. Esse instrumento foi construído empregando o Google Forms8 e disponibilizados via WhatsApp9 e/ou na página da disciplina no sistema integrado da própria universidade, assegurando o anonimato das respostas, pois o formulário Google Forms, sendo respondido por meio do link, permite que isso seja possível, sem precisar que o aluno devolva o questionário respondido ao remetente. Esse instrumento teve finalidade exploratória, sendo utilizado para captar percepções gerais dos estudantes sobre a experiência pedagógica. Todas as etapas deste projeto foram assistidas por TDIC. As videoaulas foram disponibilizadas para os estudantes pelo menos uma semana antes da atividade presencial através da publicação do link do vídeo (previamente carregado no Youtube) na página do Sistema Integrado de Gestão de Atividade Acadêmicas (SIGAA) da disciplina.

Resultados e discussão

Por se tratar de uma pesquisa de abordagem mista com intervenção pedagógica em contexto real de sala de aula, não houve cálculo prévio de tamanho amostral, sendo incluído o universo de estudantes disponíveis no componente curricular.

A amostra foi composta por todos os estudantes regularmente matriculados na disciplina de Homeopatia no ano letivo de 2022, totalizando 22 participantes. Trata-se, portanto, de uma amostra por conveniência do tipo censitária, uma vez que todos os discentes elegíveis e presentes na disciplina foram convidados a participar do estudo e todos atenderam aos critérios de inclusão assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Embora o curso de Farmácia possua ingresso anual de aproximadamente 50 estudantes, apenas 22 encontravam-se regularmente matriculados na disciplina que é ofertada no segundo semestre do segundo ano letivo do curso, no período de realização da investigação, em função da organização curricular e do fluxo acadêmico da turma talvez impactada em algum momento pela pandemia de Covid-19.

A desigualdade de acesso às tecnologias digitais e à internet entre estudantes universitários é algo que deve ser levado em consideração. Enquanto estudantes de áreas urbanas, em sua maioria, conseguem manter certa continuidade em suas atividades acadêmicas, os estudantes de áreas rurais enfrentaram obstáculos significativos, como a ausência de dispositivos adequados, infraestrutura tecnológica precária e conexões de internet instáveis ou inexistentes. Essa disparidade compromete o direito à educação e aprofunda desigualdades preexistentes, impactando diretamente a permanência e o desempenho acadêmico desses discentes (Álvarez et al., 2025).

Diante disso, inicialmente foi traçado um perfil diagnóstico do nível cibercultural dos estudantes com o objetivo de prever possíveis dificuldades relacionadas ao cumprimento das etapas do projeto que necessitavam de um certo nível de dromoaptidão por parte dos participantes e também foi garantido o acesso institucional a computadores e internet quando necessário. Tal diagnóstico foi essencial para evitar exclusões e frustrações, garantindo que todos tivessem condições mínimas de participação. A aplicação indiscriminada de práticas pedagógicas baseadas em recursos tecnológicos, sem essa análise prévia, pode acentuar desigualdades e comprometer a efetividade do processo de ensino-aprendizagem. Reconhecer a diversidade cibercultural dos estudantes é, portanto, um passo estratégico e ético para a construção de experiências educacionais mais acessíveis, justas e eficazes. Para fazer esse diagnóstico, foi perguntado aos discentes, no início da disciplina, qual a realidade de cada um quanto à disponibilidade de equipamentos, acesso à internet, facilidade com a utilização das tecnologias digitais e nível de compreensão acerca de software/aplicativo.

De acordo com esse perfil, os estudantes participantes desta pesquisa, demostraram que a principal modalidade de acesso à internet reside na conectividade Wi-Fi em seus domicílios. Quando indagados quanto aos dispositivos utilizados, observou-se consenso na escolha entre desktops, notebooks ou laptops, uma vez que todos os participantes que responderam ao formulário assinalaram essa alternativa. Adicionalmente, 15% dos participantes afirmaram possuir um dispositivo eletrônico do tipo tablet, enquanto 85% possuem smartphones. Cabe salientar que todos os participantes afirmaram possuir algum nível de proficiência no manuseio de tecnologias digitais, embora sua compreensão acerca de softwares e redes seja restrita (Simões et al., 2024).

Com o intuito de verificar o cumprimento por parte dos estudantes, das atividades pré-classe, foram aplicados pré-testes antes de iniciar cada aula prática, com notas atribuídas de 0 a 10 para cada um dos testes e para observar alterações no desempenho após a realização das aulas práticas. Ao final de cada uma delas, foram aplicados os pós-testes, também com notas atribuídas de 0 a 10. As comparações estatísticas entre as médias dos pré- e pós-testes para cada uma das atividades foram realizadas através do Teste t pareado com nível de confiança de 95% empregando o software estatístico GraphPad Prism10, versão 5.01. A combinação de função formativa e somativa dos testes pode ter atuado como fator de engajamento adicional, aproximando avaliação e aprendizagem no contexto da disciplina. Os resultados dos pré e pós-testes estão demonstrados no Figura 2.

Figura 2
Comparativo das avaliações Pré teste e pós teste

A estratégia utilizada para a aplicação da metodologia Sala de Aula Invertida assistida por TDIC foi as videoaulas por ter sido demonstrado em diversos estudos vários benefícios como a possibilidade de pausar, retroceder ou assistir novamente. O alinhamento dos objetivos de aprendizagem é tido como uma das práticas mais adequadas na introdução da SAI, sendo contribuinte para a implementação bem-sucedida desta estratégia, fazendo com que o discente crie conexões com o material pré-classe e o conteúdo das aulas, direcionando seu estudo (Han; Klein, 2019).

Com os resultados expostos no Gráfico 1, é possível observar que, de modo geral, as notas dos pré-testes indicam algum grau de acerto, demonstrando que as etapas das atividades pré-classe devem ter sido cumpridas e as videoaulas assimiladas em algum nível, pois os conteúdos abordados nos vídeos não tinham sido vistos pelos estudantes em nenhum outro momento do curso, tendo sido esse o primeiro contato com os assuntos abordados. Também é possível inferir que a aula prática presencial sugere melhora no desempenho dos estudantes ao constatar a melhoria das médias dos pós-testes em comparação com as médias dos pré-testes, visto que as diferenças foram estatisticamente significativas (todos os valores de p < 0,05) empregando o Teste t pareado com nível de confiança de 95%. Os resultados sugerem uma associação positiva entre a aplicação da estratégia SAI assistida por TDIC e a melhoria do desempenho acadêmico. Entretanto, por tratar-se de um estudo conduzido em contexto real de sala de aula, os resultados devem ser analisados considerando as características próprias e contextualizadas do ambiente em que a intervenção foi implementada.

Segundo Oliveira (2020), o estudante deve ser o centro do aprendizado, unindo autonomia, reflexão, participação, trabalho em equipe e abertura às inovações. O professor, por sua vez, deve atuar como mediador nesse processo. A estrutura da SAI exige que o estudante organize previamente seu tempo de estudo, o que pode estimular processos de autorregulação da aprendizagem. Tal dimensão é particularmente relevante em cursos da área da saúde, nos quais a autonomia intelectual constitui competência essencial à formação profissional.

A antecipação dos conteúdos por meio das videoaulas pode ter contribuído para redução da sobrecarga cognitiva durante a prática laboratorial, permitindo maior foco na execução técnica e na resolução de dúvidas. Além disso, a organização das atividades pré-classe, prática laboratorial e instrumentos avaliativos demonstrou alinhamento entre objetivos de aprendizagem, estratégias didáticas e avaliação, elemento considerado central para a eficácia de intervenções pedagógicas no ensino superior.

Na pesquisa, foram analisadas as impressões dos estudantes em relação a estratégia da Sala de Aula Invertida assistida por TDIC e o seu impacto no processo de aprendizagem. Na Tabela 1, foram analisados o comprometimento dos estudantes com a estratégia SAI assistida por TDIC e a organização do docente quanto às orientações do método de ensino.

A utilização da escala de Likert é respaldada pela sua capacidade de capturar nuances em pesquisas, permitindo uma análise mais refinada das preferências, gostos e percepções dos participantes. Além disso, Feijó, Vicente e Petri (2020) salientam que essa abordagem é especialmente valiosa devido à sua simplicidade, facilitando a coleta e interpretação dos dados.

Todos os participantes responderam ter realizado todas as atividades pré-classe (videoaulas e exercícios) determinadas pela professora, o que demonstra a adesão ao método SAI assistida por TDIC proposto pelo projeto de pesquisa. Os estudantes também afirmaram ter recebido todas as orientações de forma adequada para a realização das atividades pré-classe, de forma prévia e no tempo adequado para serem completamente realizadas, demonstrando que as TDIC facilitam a estratégia SAI. Os estudantes, em sua totalidade, indicaram que as aulas possuíam boa qualidade de imagem e som, e 94,4% desses concordaram que o tempo de duração dos vídeos foi satisfatório. Conforme Teixeira (2013), o aspecto mais importante do processo não é assistir aos vídeos, mas, sim, planejar o tempo de aula e estruturá-lo com atividades que promovam a construção colaborativa do conhecimento.

Tabela 1
Respostas, via Google Forms, sobre a impressão dos estudantes a partir da escala de likert

Todos os estudantes confirmaram receber orientações claras e no prazo adequado para realizar as atividades pré-classe, evidenciando que as TDIC facilitam a estratégia de Sala de Aula Invertida. Os estudantes em sua totalidade indicaram que as aulas possuíam boa qualidade de imagem e som, e 94,4% desses concordaram que o tempo de duração dos vídeos era satisfatório.

Os questionários pré e pós-testes também foram bem avaliados: 88,9% dos participantes concordaram que o método avaliativo foi uma ferramenta útil para medir o aprendizado antes da realização da prática e após a prática em laboratório. Apenas 11,1% dos participantes foram indiferentes com as atividades pré e pós-teste. Segundo Han e Klein (2019), avaliações no material pré-aula geram percepções positivas ao fornecer feedback imediato e esclarecer pontos-chave. Os dados mostram que a comunicação remota via TDIC manteve a eficácia do método SAI ao garantir o contato prévio dos estudantes com o objeto de aprendizagem.

Os resultados mostram que os estudantes perceberam as atividades pré-classe mediadas por TDIC como importantes para o entendimento e execução das aulas práticas, com apenas 16,6% considerando-as dispensáveis. A experiência de aprendizagem foi positiva, promovendo autoconhecimento e percepção do aprendizado pelos estudantes.

Observou-se elevado nível de adesão ao método Sala de Aula Invertida, com 77,8% dos estudantes assistindo a todas as videoaulas previamente e apenas um estudante declarando nunca as ter visto. A aceitação da metodologia assistida por TDIC reflete tendências observadas em estudos e instituições internacionais. Combinada a outras metodologias ativas, essa abordagem permite aprofundar o aprendizado em sala por meio de atividades práticas, como situações-problema e estudos de caso, otimizando o processo ensino-aprendizagem (Bishop, 2013; Bergmann; Sams, 2016; Pavanelo, 2017).

Quanto à aplicação da Sala de Aula Invertida em outras disciplinas, observa-se que 94,4% dos participantes gostariam de sua expansão, pois ela permite maior interação e esclarecimento de dúvidas em sala, além de aumentar a confiança dos estudantes para as práticas laboratoriais, tendo em vista que nos vídeos, a professora demonstra passo a passo as práticas de homeopatia.

O nível de satisfação dos participantes com a estratégia SAI assistida por TDIC foi de 88,9%. Os estudantes concordaram que a SAI os proporcionou uma maior autonomia, deixando-os responsáveis pela construção do seu próprio conhecimento. O método de aprendizagem SAI traz como contribuição o protagonismo do estudante em seu processo de aprendizagem (Bollela, 2017).

A aceitação da estratégia pode ser compreendida à luz do perfil cibercultural contemporâneo dos estudantes, cujas práticas cotidianas envolvem acesso permanente à informação, consumo de conteúdos digitais sob demanda e interação contínua em ambientes virtuais. Esse modo de relação com o conhecimento pode contribuir para uma melhor adaptação a modelos pedagógicos que deslocam a centralidade da exposição presencial para o estudo prévio autônomo, característica fundamental da Sala de Aula Invertida.

Ficou evidente a importância da metodologia ativa Sala de Aula Invertida assistida por TDIC que apoia as constatações de Levy (1999) e Lemos (2002) quando apontam a necessidade da utilização de diferentes recursos educacionais e técnicos para a construção da nova jornada pedagógica, visando atender as reais necessidades dos estudantes por meio do ciberespaço. A SAI também demonstrou ser uma estratégia vantajosa em ambientes didáticos, incentivando a responsabilidade pessoal e a “inteligência coletiva” presente no ciberespaço, onde seus usuários podem adicionar suas contribuições pessoais, moldar ideais e serem moldados, assim melhorando o aprendizado.

Os achados da pesquisa devem ser compreendidos como evidências empíricas contextualizadas, que ampliam a discussão sobre a integração entre Sala de Aula Invertida e TDIC em disciplinas laboratoriais do ensino superior em saúde, especialmente na área farmacêutica, sugerindo possível melhora na facilidade de aprendizagem ativa dos estudantes no contexto analisado.

Por ter sido um estudo desenvolvido no próprio ambiente pedagógico da disciplina, os resultados relativos às percepções dos estudantes devem ser compreendidos à luz das especificidades do contexto investigado.

Considerações finais

A análise deste estudo permite indicar que os participantes apresentavam condições tecnológicas e cognitivas adequadas sendo considerados dromoaptos (vide nota de rodapé 2) em nível satisfatório para o desenvolvimento da estratégia proposta, aspecto relevante para intervenções pedagógicas mediadas por TDIC em contextos públicos de ensino superior. O diagnóstico prévio das condições de participação mostrou-se elemento importante para a implementação estruturada da metodologia.

A comparação entre pré e pós-testes revelou aumento estatisticamente significativo do desempenho acadêmico nas atividades práticas, sugerindo possível aprimoramento da aprendizagem no contexto investigado. Esses resultados indicam que a organização pedagógica baseada em estudo prévio mediado por videoaulas, articulado a atividades laboratoriais presenciais, pode favorecer a preparação dos estudantes para o momento prático. A alta aceitação do método ainda demonstrou o interesse dos estudantes pela inserção da estratégia Sala de Aula Invertida em outras disciplinas.

Do ponto de vista educativo, o estudo reforça a importância do alinhamento entre objetivos, estratégias didáticas e avaliação, bem como do uso planejado das tecnologias digitais como suporte à autonomia discente. Para além do caso específico da disciplina de Homeopatia, os resultados indicam que a integração estruturada entre TDIC e Sala de Aula Invertida pode ser aplicada com efetividade em disciplinas laboratoriais do ensino superior em saúde, desde que precedida de diagnóstico das condições tecnológicas dos estudantes e planejamento pedagógico adequado. O estudo contribui, portanto, com evidências empíricas contextualizadas para a implementação de metodologias ativas em cursos profissionalizantes, ampliando a discussão sobre sua viabilidade em cenários públicos e heterogêneos.

As limitações incluem o número reduzido de participantes, decorrente do quantitativo de estudantes regularmente matriculados na disciplina no período analisado, o que restringe a generalização dos resultados para outros contextos e turmas. Embora o delineamento tenha contemplado a totalidade dos discentes elegíveis, a amostra reduzida limita a diversidade de percepções e experiências analisadas. Além disso, o instrumento de avaliação das impressões dos estudantes foi estruturado predominantemente com questões fechadas, o que, embora tenha favorecido a padronização das respostas, pode ter restringido as narrativas individuais mais aprofundadas. A inclusão de questões abertas ou entrevistas semiestruturadas poderia ampliar a compreensão qualitativa do fenômeno investigado. Por fim, por tratar-se de intervenção pedagógica realizada em contexto real de sala de aula, não houve grupo controle, o que caracteriza o estudo como quase experimental e limita inferências causais mais robustas.

Para investigações futuras, recomenda-se a ampliação da amostra, inclusão de grupo comparativo e maior exploração qualitativa das percepções discentes, a fim de aprofundar a compreensão das variáveis envolvidas na implementação da Sala de Aula Invertida assistida por TDIC.

Em síntese, os achados oferecem subsídios empíricos relevantes para o debate sobre metodologias ativas no ensino superior em saúde, contribuindo para ampliar a discussão acerca da integração entre tecnologias digitais e práticas pedagógicas em cursos profissionalizantes das Ciências Farmacêuticas.

Referências

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1 Disponibilidade de dados:

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

4

Ciberespaço, segundo Pierre Lévy (1999), trata-se do ambiente virtual formado pela interconexão de redes digitais, onde ocorre o compartilhamento e a circulação de informações em escala global. Esse espaço transcende as limitações físicas e temporais, permitindo novas formas de comunicação, interação e construção coletiva do conhecimento, transformando profundamente as dinâmicas sociais e culturais.

5

Dromoaptidão: Segundo Eugênio Trivinho, a dromoaptidão é atribuída àqueles que possuem as senhas infotécnicas indispensáveis para a inclusão digital. Essas senhas, compreendem o acesso a hardware e software adequados, a condição de uso irrestrito das redes de internet, a habilidade cognitiva para manusear tecnologias e os recursos necessários, especialmente financeiros, para acompanhar as constantes atualizações tecnológicas. São considerados droimoinaptos os que não possuem essas senhas infotécnicas (Trivinho, 2007).

6

Movavi Video Editor: software de edição de vídeos desenvolvido pela Movavi, destinado à criação, edição e produção de conteúdos audiovisuais. Disponível em: https://www.movavi.com/video-editor/. Acesso em: 7 ago. 2026.

7

YouTube: plataforma digital de compartilhamento de vídeos utilizada para hospedagem, distribuição e acesso a conteúdos audiovisuais, incluindo materiais educacionais. Disponível em: https://www.youtube.com. Acesso em: 7 de agosto 2026.

8

Google Forms: recurso digital desenvolvido pelo Google para criação e aplicação de formulários e questionários on-line, permitindo a coleta e organização de respostas. Disponível em: https://forms.google.com. Acesso em: 7 ago. 2026.

9

WhatsApp: aplicativo de mensagens instantâneas desenvolvido pela Meta Platforms, que permite o envio de mensagens de texto, arquivos e conteúdos multimídia, além da realização de chamadas de voz e vídeo. Disponível em: https://www.whatsapp.com. Acesso em: 7 ago. 2026.

10

GraphPad Prism: software desenvolvido pela GraphPad Software, LLC, destinado à análise estatística e à representação gráfica de dados científicos. Disponível em: https://www.graphpad.com. Acesso em: 7 ago. 2026.

Editora:

Profa. Dra. Ana Luísa Paz

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Nov 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Mar 2025
  • Revisado
    10 Fev 2026
  • Aceito
    26 Maio 2026
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