Open-access Educação Ambiental e Mineração sob a Perspectiva do Materialismo Histórico-Dialético: uma Revisão Sistemática

Educación Ambiental y Minería desde la Perspectiva del Materialismo Histórico-Dialéctico: Una Revisión Sistemática

RESUMO:

A Educação Ambiental (EA) emergiu da necessidade de compreender e atuar sobre as interações entre sociedade e natureza, visando processos educativos que focassem nas questões ambientais. Eventos como os rompimentos de barragens evidenciam os impactos socioambientais da mineração e a necessidade de uma Educação Ambiental Crítica (EAC). Diante disso, esta pesquisa realizou uma revisão bibliográfica sistemática categorizando os trabalhos de acordo com as macrotendências propostas por Layrargues e Lima (2014), com o objetivo de verificar como a mineração vem sendo abordada nas produções da área. A literatura revelou que, apesar do avanço das correntes críticas, há um predomínio de abordagens pragmáticas, que vinculam à EA a ideologia neoliberal, não explicitando as determinações existentes na mineração. Assim, evidencia-se a necessidade de pesquisas e organização da classe trabalhadora que favoreçam a EAC, reforçando seu papel na transformação social que considere o ambiente como categoria social e a superação do modelo societário vigente.

Palavras-chave:
Educação Ambiental Crítica; Materialismo Histórico-Dialético; Ambiente

ABSTRACT:

Environmental Education (EE) emerged from the need to understand and act upon the interactions between society and nature, aiming to foster educational processes engaged with environmental issues. Events such as dam failures expose the socio-environmental consequences of mining and underscore the need for Critical Environmental Education (CEE). Against this backdrop, this study conducted a systematic literature review, categorizing works according to the macro-tendencies proposed by Layrargues and Lima (2014), with the objective of examining how mining has been addressed in the field's academic production. The literature reveals that, despite the advance of critical currents, pragmatic perspectives remain hegemonic, subordinating EE to neoliberal ideology and failing to address the structural determinations underlying mining activity. Accordingly, the need for further research and for the organization of the working class becomes imperative in order to promote CEE, reinforcing its role in the social transformation that conceives of the environment as a social category and pursues the overcoming of the prevailing societal model.

Keywords:
Critical Environmental Education; Historical-Dialectical Materialism; Environment

RESUMEN:

La Educación Ambiental (EA) surgió de la necesidad de comprender y actuar sobre las interacciones entre sociedad y naturaleza, buscando procesos educativos enfocados en las cuestiones ambientales. Eventos como los colapsos de represas evidencian los impactos socioambientales de la minería y la necesidad de una Educación Ambiental Crítica (EAC). Frente a esto, esta investigación realizó una revisión bibliográfica sistemática categorizando los trabajos según las macrotendencias propuestas por Layrargues y Lima (2014), con el fin de analizar cómo se ha abordado la minería en las producciones del área. La literatura reveló que, a pesar del avance de las corrientes críticas, predomina un enfoque pragmático que vincula la EA a la ideología neoliberal, sin explicitar las determinaciones propias de la actividad minera. Así, se evidencia la necesidad de investigaciones y de organización de la clase trabajadora que promuevan la EAC, reforzando su papel en la transformación social que considere el ambiente como categoría social y en la superación del modelo societal vigente.

Palabras-clave:
Educación Ambiental Crítica; Materialismo Histórico-Dialéctico; Ambiente

INTRODUÇÃO

A necessidade de uma Educação Ambiental (EA) que se constituísse como um processo educativo comprometido com o reconhecimento das interações entre sociedade e natureza surgiu de influências variadas, incluindo a pressão exercida por diferentes grupos sociais e correntes políticas dentro do movimento ambientalista, como a atenção dada às questões ambientais pelos governos, organismos internacionais, mídia e empresas (De Oliveira et al., 2021).

Essa demanda foi impulsionada por problemas ambientais cada vez mais recorrentes, como os rompimentos das barragens em Minas Gerais - Mariana, Brumadinho e Itabirito - e o afundamento do solo em Maceió3. O incidente na mineração promovida pela Samarco, que resultou no rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, no subdistrito de Bento Rodrigues, representa o maior desastre desse tipo em termos de volume de rejeitos e distância percorrida pelos resíduos, afetando os estados de Minas Gerais e Espírito Santo (Bizzotto et al., 2023; Castro et al., 2018; Rodrigues & Machado, 2023).

Apesar dos desafios envolvidos na mineração e das principais técnicas utilizadas, como a pirometalurgia e a bio-hidrometalurgia, os metais extraídos são fundamentais para a fabricação de ligas metálicas, essenciais na infraestrutura das cidades e no fornecimento de insumos para diversas indústrias. Além disso, esses metais desempenham um papel crucial na produção de dispositivos eletroeletrônicos de alta tecnologia, como lâmpadas, computadores, smartphones, veículos, displays, dentre outros (Chen et al., 2024; Jorjani & Ghahreman, 2017; Joshi et al., 2025; Schippers et al., 2013; Toledo et al., 2023, 2024, 2026).

No entanto, os rompimentos de barragens são exemplos da negligência do setor privado, que frequentemente prioriza a redução de custos em detrimento de investimentos em infraestrutura adequada para prevenir desastres ambientais. Pesquisas como as de Vieira et al. (2021) e Campolina e Araújo (2022) indicam que os rompimentos de barragens de rejeitos no Brasil, bem como no Canadá, refletem um modelo de exploração mineral cujos impactos vão além do desastre em si. Esses acontecimentos não são exceções, mas processos que demonstram um modus operandi característico da mineração. De acordo com as autoras, a narrativa de progresso associada à mineração nos territórios onde atua, incluindo os programas educacionais disponibilizados por empresas mineradoras nas escolas, é questionável e contribui para as condições que resultam nessas tragédias. Esses problemas estão diretamente relacionados aos processos de mineração dentro do contexto do neocolonialismo em uma sociedade capitalista.

O imperialismo não abandonou o colonialismo desde a Segunda Guerra Mundial, em vez disso, o transformou de acordo com a lógica do neocolonialismo. Essa nova etapa é marcada pela substituição da dominação colonial direta por métodos indiretos de controle, realizados por meio de representantes locais escolhidos e treinados pelas potências imperialistas. Assim, esse é o estágio mais avançado do imperialismo, em que o capital financeiro opera em conjunto com mecanismos disfarçados que afetam as esferas política, religiosa, ideológica e cultural (Conde, 2024, MIA, 2023). Um exemplo disso é a glorificação da cultura do trabalho como meio de elevação moral a serviço do capital, além do chamado pós-extrativismo: a mineração e outras atividades ligadas à produção de commodities geram impactos ambientais negativos consideráveis, sem que haja uma melhoria proporcional nas condições de vida da população, o que agrava ainda mais as disparidades sociais (Dias, 2023; Garcia & Brasil, 2023; Guimarães & Barbosa da Paz, 2021).

Muitas nações que obtiveram sua independência política das metrópoles europeias acabaram, na prática, sujeitas ao controle financeiro dos países considerados de primeiro mundo, por meio do endividamento externo camuflado como "ajuda" ao desenvolvimento. Dessa forma, o neocolonialismo mantém relações de poder por meio de métodos não convencionais, abrangendo também os setores econômico, político, cultural e acadêmico. Seu impacto mais significativo pode ser a mudança na subjetividade das populações colonizadas, como a brasileira, que começam a incorporar valores e referências diferentes de suas realidades locais, em favor dos interesses dos novos e antigos colonizadores (Conde, 2024; León Cedeño & Bonetti Lima, 2021).

Numa democracia, seria esperado que a esfera pública punisse os responsáveis pelos desastres resultantes dos rompimentos de barragens, que se configuram como crimes ambientais. Contudo, como disseram Marx e Engels (1998, p. 9), “O poder estatal moderno é apenas uma comissão que administra os negócios comuns do conjunto da classe burguesa”, assim sendo, quase uma década após o rompimento da barragem de Fundão, praticamente ninguém foi punido (Borges, 2024; Milagres & Mansur, 2024), e apesar da pressão popular pelo julgamento da mineradora anglo-australiana BHP Billiton (a Samarco é uma joint-venture entre a BHP Brasil e a Vale) em Londres, as mineradoras se anteciparam para assinar acordo com o governo brasileiro, a fim de protegerem seus interesses (Consultor Jurídico, 2024; Scofield, 2024; Verdélio, 2024; Villela, 2024). Além disso, numa verdadeira batalha judicial e de publicidade, as mineradoras envolvidas nesses crimes ofereceram valores para prefeitos não entrarem em ações em cursos e investiram em propagandas ilegais de autopromoção (Angelo & Bianchi, 2019; g1 Minas, 2024).

Essa batalha judicial evidencia a luta de classes, na qual os atingidos pelos rompimentos lutam por seus direitos, enquanto a burguesia faz o mesmo em função de seus interesses. Tentando contrapor a tendência da vitória da burguesia num sistema capitalista, que pode ser exemplificada pelos vultuosos lucros das mineradoras e acesso a crédito público enquanto a população segue sofrendo com contaminações de metais pesados (Agencia Brasil, 2025; Almeida, 2025; Oliveira, 2024), a EA poderia propiciar a formação humana para compreender essa realidade e também para transformá-la.

Contudo, é amplamente reconhecido que muitos dos formuladores e praticantes da EA ainda mantêm suas visões influenciadas pelas normas sociais predominantes, não questionando a estrutura social vigente em sua totalidade (Mendes, 2020). Isso se reflete, de maneira mais ou menos explícita, na promoção e sustentação do sistema produtivo e organizacional da sociedade, demonstrado pela influência da prática social global em qualquer processo educacional (Kaplan, 2024).

Assim, fica evidente a importância de uma abordagem pedagógica que questione os contextos sociais em sua interação com o ambiente. Pois, sob uma perspectiva crítica, é impossível separar os problemas ambientais dos conflitos sociais, uma vez que a crise ambiental não reflete apenas questões naturais, mas também problemas que se manifestam na sociedade em decorrência da luta de classes (Mendes, 2020), já que as raízes desses problemas estão nas relações sociais e no modelo produtivo da sociedade (Layrargues & Lima, 2014; Mendes, 2020).

Uma revisão da literatura fundamentada no Materialismo Histórico-Dialético e na Educação Ambiental Crítica (EAC) sobre o tema da mineração na EA pode contribuir para o desenvolvimento de processos educativos que busquem favorecer o entendimento concreto sobre a questão ambiental (De Oliveira et al., 2021). Além disso, considerando a influência indireta da literatura científica no currículo educacional e a preocupação com a plena compreensão dos estudantes sobre como a sociedade atual se organiza (Saviani, 2016), e das tendências educacionais de adaptabilidade e responsabilização individual (também referentes aos problemas ambientais) de caráter neoliberal (Mazetto, 2023), notabiliza-se a importância de trabalhos acadêmicos que se debruçam em levantamentos e análises que explicitem as contradições sobre tais fenômenos.

Em uma revisão prévia para verificar se a proposta se justificaria, não foram encontradas revisões sistemáticas em periódicos sobre esta temática. Portanto, orientada pelo problema de pesquisa “Como a temática sobre mineração é abordada nas produções científicas de EA?”, esta pesquisa objetivou sistematizar como a temática sobre mineração é abordada nas produções científicas de EA, por meio de uma revisão bibliográfica sistemática, possibilitando proposições e discussões teóricas na perspectiva da EAC sobre a mineração.

Para responder nosso problema de pesquisa e alcançar nosso objetivo, os trabalhos encontrados foram sintetizados, organizados e avaliados, permitindo a categorização de acordo com os critérios previamente estabelecidos por Layrargues e Lima (2014): as macrotendências Conservacionista, Pragmática e Crítica. Em relação às macrotendências de EA que orientaram a categorização dos dados cabe alguns apontamentos breves. Segundo Layrargues e Lima (2014), a tendência conservacionista, que predominou na formação do campo, tem cedido espaço às tendências pragmática e crítica. As tendências conservacionista e pragmática refletem etapas evolutivas de uma mesma linha de pensamento, atualizadas conforme as transformações do mundo contemporâneo, tais como a globalização multidimensional, a revolução tecnológica, a redução da intervenção estatal e o avanço de ideologias e políticas associadas ao mercado e ao neoliberalismo.

Por outro lado, as correntes críticas conquistaram um espaço significativo dentro do campo, mas ainda não se configuram como hegemônicas em decorrência do pragmatismo dominante na EA, que tende a converter e desviar as intenções educativas para uma lógica de mercado. A formação de mão de obra, a geração de empregos e o consumo tendem a instrumentalizar a educação como um meio de ascensão social e reprodução da lógica econômica (Layrargues & Lima, 2014). Nesse processo, impera-se a necessidade de discussão sobre as limitações existentes na literatura sobre o objeto de pesquisa e sobre as possíveis contribuições da EAC (De Oliveira et al., 2021).

FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS

As revisões sistemáticas se caracterizam por poderem ser metodicamente rigorosas e transparentes, permitindo a reprodução dos resultados. Elas também são úteis para direcionar futuras pesquisas e identificar lacunas no conhecimento existente. Diante da rápida expansão da informação científica, as revisões sistemáticas se tornam recursos valiosos para sintetizar evidências sobre intervenções específicas, auxiliando cientistas na identificação de lacunas e consensos (Batista & Kumada, 2021; de Sousa et al., 2021; Sampaio & Mancini, 2007).

Utilizando a plataforma Periódicos CAPES, a literatura científica da área foi mapeada por meio de uma revisão bibliográfica sistemática (Batista & Kumada, 2021; de Sousa et al., 2021; Sampaio & Mancini, 2007). Concordando com as notas metodológicas sobre revisão propostas por Messeder Neto (2024), a revisão seguiu cinco etapas de investigação, conforme a seguinte ordem:

  1. Formulação da pergunta de pesquisa: Como a temática sobre mineração é abordada em produções científicas de EA?

  2. Busca no banco de dados: A plataforma Periódicos CAPES foi escolhida por integrar trabalhos produzidos nacionalmente e por outras editoras internacionais. Esta plataforma tem acesso a uma vasta coleção de periódicos científicos, livros, teses, dissertações, anais de conferências e outros materiais acadêmicos de diversas áreas do conhecimento, tanto nacionais quanto internacionais. A qualidade e a credibilidade das fontes são garantidas, pois a CAPES seleciona e disponibiliza publicações de renome mundial. Além disso, a plataforma é constantemente atualizada com novos periódicos, livros e outros recursos, garantindo que os usuários tenham acesso às informações mais recentes e relevantes (Miranda & Carvalho, 2017). Os descritores “Educação Ambiental” (em aspas, isto é, de maneira exata) e “mineração” foram utilizados com os filtros tipo de material: “todos os itens”, idioma: “qualquer idioma”, quanto ao recorte temporal, adotou-se o critério “qualquer ano” na base de dados consultada, o que corresponde, na prática, a todos os trabalhos indexados até a data de submissão deste manuscrito (19 de maio de 2025). Exceto aquelas sem classificação ou classificadas com nota C pelo Qualis Capes (Avaliação Quadrienal 2021-2024), todas as pesquisas encontradas foram identificadas, selecionadas, avaliadas, analisadas e sintetizadas em função da questão de pesquisa.

  3. Seleção dos trabalhos (definição de critérios de seleção bem definidos de inclusão a partir da leitura do resumo): Foram selecionados trabalhos que apresentaram os descritores “Educação Ambiental” e “mineração” no Título ou no Resumo ou nas Palavras-chave, e integrassem a classificação A ou B do Qualis Capes (Avaliação Quadrienal 2021-2024).

  4. Avaliação dos estudos incluídos: Foi realizada a leitura completa de todos os trabalhos selecionados pela plataforma de pesquisa que atenderam aos critérios de inclusão.

  5. Análise dos trabalhos: Todos os trabalhos encontrados que atenderam os critérios de inclusão foram sintetizados, organizados e avaliados em Quadros, permitindo uma análise sistemática e comparativa. Essa organização possibilitou a identificação das principais discussões, objetivos e conclusões de cada estudo, facilitando sua categorização de acordo com os critérios previamente estabelecidos por Layrargues e Lima (2014): as macrotendências Conservacionista, Pragmática e Crítica. Optou-se por apresentar neste trabalho três quadros: um com a identificação dos trabalhos analisados (Quadro 1); outro que traz uma síntese sobre duas características marcantes nas produções, a indicação dos principais responsáveis apontados pelos autores para as crises ambientais analisadas e as possíveis soluções propostas pela perspectiva de uma EA, tanto para resolver a crise ambiental, quanto para preveni-la (Quadro 2); e, por fim, um quadro que sintetiza a categorização dos trabalhos em relação às macrotendências (Quadro 3). Outros dados foram expostos e analisados a partir de trechos na íntegra que sintetizam a compreensão sobre EA, mineração e/ou ambas e a relação que estabelecem com as macrotendências de EA.

Com base nos fundamentos definidos por Layrargues e Lima (2014), os trabalhos classificados na macrotendência Conservacionista foram aqueles que objetivaram apenas despertar uma nova sensibilidade humana em relação à natureza, promovendo a conscientização e a "alfabetização" ecológica, fundamentadas na ciência ecológica. A macrotendência Pragmática englobou os trabalhos que focaram na responsabilização individual, promovendo a ideia de que é suficiente cada pessoa fazer a sua parte como uma contribuição cidadã para enfrentar a crise ambiental, ajustando-se ao contexto neoliberal, sem qualquer vínculo com as dimensões social, econômica ou aprofundamento político. Apesar de defender um desenvolvimento sustentável, não se discute como isso seria possível no modo de produção capitalista, que se baseia numa aceleração contínua de exploração e expansão de capital.

Por sua vez, a macrotendência Crítica é entendida neste trabalho pela perspectiva da luta de classes, do Materialismo Histórico-Dialético, visando a superação do modo capitalista de produção, isto é, por uma Educação Ambiental Crítica (EAC) que reconheça as determinações que incidem sobre a mineração e suas consequências (De Oliveira et al., 2021). Assim sendo, os trabalhos classificados dentro da Macrotendência Crítica se contrapõem às vertentes Conservacionista e Pragmática, adotando um enfrentamento político à problemática ambiental estudada.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Utilizando os descritores “Educação Ambiental” e “mineração”, foram encontrados inicialmente 38 resultados, tendo uma repetição (Carrilho Eichenberger & Alves Pereira, 2018), e sem a possibilidade do acesso do texto completo de cinco trabalhos (Barbosa et al., 2014; Barbosa & Silva, 2017; Figueiredo et al., 2011; Os Editores, 2012; Rodrigues, 2018).

Dentre os trabalhos, alguns foram excluídos por não contemplarem o tema da mineração (Azevedo et al., 2024; Medeiros et al., 2016; Pontes Portela & De Novais, 2024), da EA (Boitrago & Almeida, 2021; Brito et al., 2019; Vervloet & Freitas, 2024) e aqueles sem classificação ou classificadas com nota C pelo Qualis Capes, assim, foram analisados 21 trabalhos, conforme indicado no Quadro 1. Os objetivos e as conclusões de cada estudo analisado foram sintetizados e organizados, subsidiando a categorização dos trabalhos nas macrotendências e as consequentes análises, e se encontram em material suplementar (Quadros M1 e M2).

Quadro 1
Informações sobre os trabalhos analisados.

A maioria dos objetivos e conclusões se baseiam na necessidade da propagação de conhecimento pela sociedade, da preservação do ambiente, da promoção da sensibilidade e responsabilidade individual, do cumprimento de leis e cobranças de fiscalização estatal. Ainda que os trabalhos defendam um desenvolvimento sustentável, a maioria não é capaz de explicar como isso seria feito dentro da lógica de produção capitalista, na qual não há limites para a exploração e acúmulo de capital, que inevitavelmente leva a desigualdades sociais e injustiças ambientais (De Oliveira et al., 2021).

Foi possível sistematizar duas características marcantes nas produções, quais sejam, a indicação dos principais responsáveis apontados pelos autores para as crises ambientais analisadas, e as possíveis soluções propostas pela perspectiva de uma EA, tanto para resolver a crise ambiental, quanto para preveni-la, indicadas a seguir (Quadro 2).

Quadro 2
Principais responsáveis apontados e soluções propostas para as problemáticas ambientais estudadas em cada trabalho.

Analisando os trabalhos na íntegra, a classificação quanto à macrotendência a qual se relacionam foi sistematizada no Quadro 3. A maioria dos trabalhos foram interpretados como pragmáticos. Essa tendência pode ser explicada pela hegemonia que mantém na área de EA, em geral, explicitando-se também na especificidade do objeto desta pesquisa. No decorrer do texto, trechos na íntegra e análises serão realizadas, sustentando a presente categorização.

Quadro 3
Classificação dos trabalhos em função dos critérios das Macrotendências Conservacionista, Pragmática e Crítica.

Embora os descritores "Mineração" e "Educação Ambiental" estivessem presentes no título ou no resumo dos 21 trabalhos analisados, seis deles (Alvarenga & Piuzana, 2011; Cabral et al., 2015; Fiorotti et al., 2013; Lima & Cunha, 2021; Luz et al., 2010; Wedy, 2019) abordaram esses temas de modo superficial ou tangencial, isto é, os conceitos são mencionados, mas não são discutidos ou explorados de forma detalhada. Contudo, eles foram analisados por apresentarem razoável nível de proximidade com os temas mineração e EA.

Para exemplificar, o trabalho de Maciel et al. (2017) pode ser classificado dentro da macrotendência pragmática, pois, apesar de na Introdução citar que as disparidades sociais e os impactos ambientais são resultantes do modelo hegemônico de desenvolvimento, no qual os problemas ambientais são socializados e os lucros se concentram para uma minoria, a Cartilha de EA desenvolvida não explicita de maneira crítica essa contradição. Em vez disso, o propósito central foi “[...] a necessidade de conhecer para preservar o uso racional dos recursos naturais e os impactos aos ecossistemas ferruginosos em decorrência da extração mineral.” (Maciel et al., 2017, p. 902), preocupando-se principalmente com a reflexão dos alunos sobre a importância do ecossistema e das ações que o estão dizimando, mas sem evidenciar a raiz do problema, e propondo como solução principal a “[...] importância de cada indivíduo (leitor) no processo de preservação do meio ambiente.” (Maciel et al., 2017, p. 907).

Bizzotto et al. (2023) também apostam numa solução individualizada, como a autoproteção e compreensão individual dos riscos envolvidos nos rompimentos de barragens, privilegiando a minimização de impactos em vez de os evitar, e propõem programas de EA (PEA) para promover a percepção dos riscos de empreendimentos minerários que apresentem barragem de rejeitos, pois, assim, os cidadãos seriam capazes de exigir a manutenção de barragens ou se proteger contra uma avalanche de milhares de toneladas de resíduos.

A falta de compreensão sobre o risco de rompimento de barragens ou sobre a redução do risco de desastres (ERRD) é importante, mas o conhecimento sozinho, sem organização da comunidade, é incapaz de pressionar por soluções reais e evitar desastres ambientais. Neste sentido, a importância da organização da população frente ao avanço de megaempreendimentos capitalistas foi mostrada por Rodrigues (2020), como o Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

A discussão de Rodrigues (2020) não se limitou à mera conscientização ambiental da população local para evitar processos de extração mineral, mas estendeu-se à organização dos trabalhadores diante das imposições capitalistas coloniais.

Para Loureiro (2012 p. 34), a educação ambiental se justifica na “ação conscientizadora é mútua, envolve capacidade crítica, diálogo e assimilação de diferentes saberes, e a transformação ativa da realidade e das condições de vida”. Ela e capaz de promover a “conscientização e esta se dá na relação entre o ‘eu’ e o ‘outro’, pela prática social reflexiva e fundamentada teoricamente”. Corrobora nessa dimensão os ensinamentos de Paulo Freire (1979: 1981), considerando o ser humano como ser social, histórico e inacabado é constituído na relação com sigo mesmo, com a natureza e com os outros, é possível concluir que ele se constitui na dinâmica cultural da qual ele está sendo inserido ao modificar o ambiente ele também se modifica (Rodrigues, 2020, p. 124).

Além disso, o autor privilegiou a luta da classe trabalhadora, fundamentada em uma educação crítica, com vistas à compreensão da possibilidade de superação da realidade, a qual visa defender o interesse dos camponeses/trabalhadores, tal como se apresenta:

O MAM não tem com pauta fechamentos de empreendimentos, O movimento trabalha no sentindo que respeitem os direitos dos trabalhadores, dos camponeses e dos bens naturais que afetem um determinado território em detrimento de uma atividade mineral, para que os recursos minerários não sejam extraídos sobrepondo e esmagando o direito dos atingidos/ameaçados (Rodrigues, 2020, p. 130).

Outras soluções de cunho pragmático foram propostas, principalmente visando à sustentabilidade. Pereira et al. (2017) defenderam um desenvolvimento sustentável ou atividades de mineração que gerem mais benefícios do que malefícios, propondo a interação de estudantes de pós-graduação com a sociedade dentro do contexto de uma EA interdisciplinar a fim de formar cidadãos críticos. Soares e Freitas (2020) também argumentaram por uma EA que favorecesse um crescimento econômico sustentável. Entretanto, não discutiram como isso seria possível no modo de produção capitalista, nem relacionaram a lógica de acúmulo de capital aos problemas ambientais.

Nesta perspectiva, por meio da efetiva participação de professores e da comunidade local em programas de EA dentro de ações da Responsabilidade Social Corporativa (RSC), Silva Costa et al. (2020) defenderam que a sensibilização, conscientização e a ação da comunidade em conjunto com as mineradoras propiciariam sustentabilidade, freando a acelerada degradação ambiental por parte dos grandes empreendimentos.

É importante estabelecer parceria entre mineradora e comunidade, para que o diálogo seja considerado uma estratégia moderna de gestão ambiental, com a promoção de práticas sustentáveis através deste (RESENDE; KAMEL, 2007). A escola pode assumir a responsabilidade de elaborar projetos ambientais com o objetivo de identificar as necessidades da comunidade e, consequentemente, ajudar a ampliar a percepção, a participação e o engajamento dos envolvidos. Posteriormente, a escola pode apresentar as demandas identificadas às mineradoras para que, juntas, possam traçar ações (Silva Costa et al., 2020, p. 124).

Em nossa análise, entendemos que o principal problema não está na falta de percepção e participação de alunos e professores em programas de RSC, procurando sensibilizar ou conscientizar empresários, como sugeriram Silva Costa et al. (2020). Os autores não citam, ignoram ou não propõem antes solucionar a precarização que assola o trabalho docente, tampouco parecem reconhecer que acionistas majoritários de grandes mineradoras não acatariam sem luta qualquer proposta da comunidade local que diminuísse seus lucros. As mineradoras sabem que afundar uma cidade inteira, como aconteceu em Maceió, ou que o rompimento de barragens, como em Mariana e Brumadinho, não são de interesse da sociedade, mas também são conscientes de que o Estado burguês existe para proteger seus interesses econômicos, independente de se a comunidade local será afundada ou não por lama tóxica.

Nesse sentido, propostas de EA que se restrinjam à aproximar sujeitos envolvidos no contexto da mineração, mas com intenção, participação e objetivos diversos, pela via participativa e conscientizadora daqueles que, na luta de classes, são os mais prejudicados (comunidade em geral, professores e estudantes em específico) não é a solução concreta do problema envolvendo a mineração, nem a finalidade pedagógica mais afinada com o desvelamento dos reais problemas ambientais provenientes da mineração.

Criticando essa sustentabilidade idealizada, que não expõe ou propõe superação do modo acelerado e incessante de produção e exploração capitalista, Ribeiro Cardoso e Cosenza Rodrigues (2022), a partir da Análise Crítica do Discurso (ACD), argumentaram a necessidade de discutir os sentidos ideológicos que permeiam o campo da EA, especialmente no contexto do desenvolvimento sustentável. O estudo destacou as relações entre a EA e os impactos e conflitos ambientais decorrentes da mineração, apontando discursos ideológicos que influenciam essa área e identificando aqueles que contribuem para revelar os aspectos problemáticos da atividade mineradora.

Os autores ainda discorrem sobre o sistema econômico vigente, capitalista, colonial, causador de desigualdades e desastres ambientais, que privilegia países centrais e detentores do capital, e as mega indústrias da mineração. Assim, discutiram que a linguagem pode instrumentalizar o poder hegemônico, por exemplo pela legitimação de relações de dominação em discursos de uma suposta defesa do desenvolvimento sustentável, mas também pode ser contra hegemônica, revelando como funciona a dominação ideológica da classe dominante (Ribeiro Cardoso & Cosenza Rodrigues, 2022).

Exemplificando, Batista Henriques (2024) também criticou a comum adoção de discursos simplistas de EA em escolas, que propõe atividades desvinculadas de uma perspectiva crítica, como atividades rotineiras de confecção de brinquedos, através da reutilização de resíduos sólidos, plantio de mudas de árvores etc. O trabalho defende a apreensão do mundo de modo mais complexo a fim de criar condições de intervenção e transformação da realidade socioambiental.

A noção do ser humano separado da natureza também é discutida tanto pela ótica pragmática (De Medeiros & Assunção, 2022; Da Silva et al., 2024), quanto pela crítica (Carrilho Eichenberger & Alves Pereira, 2018; Rabelo, 2017). De Medeiros e Assunção (2022), estudando a percepção dos alunos sobre os problemas socioambientais, concluíram:

Os estudos sobre percepção ambiental por meio de mapas mentais podem contribuir para acessar a compreensão dos alunos, e sua interpretação poderá servir para organizar aulas de modo a preencher possíveis lacunas na formação discente. Deste modo, abre-se a possibilidade de se construir uma EA pautada nas relações profundas entre os sujeitos e o meio onde vivem (De Medeiros & Assunção, 2022, p. 236).

Contudo, não explicitaram se ou como essa EA orientada por profundas relações sujeito-ambiente revelariam os problemas ambientais estudados. Apesar das autoras terem dedicado um único parágrafo para criticarem a limitação da macrotendência pragmática, não há suficiente discussão crítica sobre a percepção dos alunos, da EA desenvolvida na sala de aula ou dos problemas socioambientais estudados, afastando-se também da macrotendência crítica.

Também sem revelar as reais causas de conflitos socioambientais, Da Silva et al. (2024), analisando a reestruturação de conhecimentos prévios e construídos por discentes de um curso de Licenciatura em Química pela produção de materiais didáticos para divulgação científica, concluíram que apenas a conscientização dos alunos seria suficiente para propiciar ações e soluções, sem, por exemplo, relacionar dialeticamente as determinações mais simples (problemas e conflitos socioambientais) com as mais complexas (sistema econômico vigente):

A oportunidade de envolvimento nas problemáticas apresentadas pelo tema gerador mineração da bauxita e conflitos socioambientais, possibilitou aos graduandos disposição de um novo olhar para as questões que os cercam, fazendo com que estes tomem consciência dos problemas decorrentes de um conflito socioambiental e isso consequentemente os impulsionam a buscar soluções e ações para determinada situação considerando todas as partes envolvidas no conflito (Da Silva et al., 2024, p. 113).

Por sua vez, criticando abordagens educacionais reducionistas de cunho tradicionais e pragmáticas, Rabelo (2017), num estudo de percepção ambiental dos atores sociais sobre as problemáticas sociais e ambientais que a mineração lhes impõe, buscou contribuir tanto para o desenvolvimento de ações de EA, quanto para o fortalecimento de políticas públicas.

Discutindo nossa relação cada vez mais distanciada da natureza e defendendo a superação do que chamaram de EA burguesa a fim de evoluirmos nosso pensamento ambiental e promover justiça ambiental, Carrilho Eichenberger e Alves Pereira (2018) exemplificaram o caso das comunidades de Oriximiná/PA. Os autores criticaram os paradigmas dominantes do conhecimento ambiental e da própria EA, denunciando o deslocamento de populações tradicionais de suas terras devido à exploração capitalista, como a mineração.

A formação continuada e a interdisciplinaridade também foram evocadas como possíveis estratégias para enfrentar a crise ambiental. Caldas et al. (2023) analisaram a importância do projeto “Circuito mineração nas escolas” de iniciativa da Empresa Vale S.A. em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do município de Parauapebas-PA. Por meio de questionários virtuais, acompanhamentos durante o projeto e avaliações contínuas com a assessoria da Vale, Caldas et al. (2023) defenderam a formação continuada de docentes e a interdisciplinaridade, como enriquecedoras das práticas pedagógicas:

Exitosas, as experiências oportunizadas pelo Projeto, enriquecem a prática pedagógica nas escolas da Rede Municipal de Parauapebas, desconstruindo o senso comum e elaborando novas percepções sobre o Município, sua matriz econômica predominante e a sustentabilidade (Caldas et al., 2023, p. 131).

Entretanto, não foram explicados o que seria o senso comum desconstruído ou quais seriam essas novas percepções visando sustentabilidade. Além disso, é importante ressaltar que empresas que cometem crimes ambientais também podem ser promotoras de programas de EA, em geral, numa perspectiva pragmática, tal como a Vale (Pereira, 2011).

A interdisciplinaridade também foi advogada por Pinto et al. (2023), argumentando a importância da Geologia pela perspectiva da EA. As autoras visaram o desenvolvimento sustentável, consciência ambiental, entendimento básico de cidadania e a adequação dos estudantes de modo harmônico com o meio onde vivem. Apesar de procurarem o desenvolvimento do pensamento crítico das crianças, focaram apenas em formas de sensibilizar o indivíduo para a preservação ambiental.

A interdisciplinaridade pode ser capaz de articular as singularidades de diferentes áreas do conhecimento, visando a superação da fragmentação do saber, da realidade material e do sistema econômico vigente, e não apenas uma mera justaposição arbitrária de disciplinas (Malanchen, 2020).

Por sua vez, Rodrigues e Machado (2023), pela perspectiva da interdisciplinaridade, mostraram a possibilidade da aplicação de História Ambiental à EA, relacionando de maneira crítica os acontecimentos históricos, como os rompimentos de barragens, com a temática ambiental:

O estudo dos desastres ambientais visa diagnosticar a apropriação do uso do território, a nível local, regional e global. Além disso analisa-se quem usa, como usa, com qual intencionalidade e quais as consequências dela. Abordar os desastres ambientais no Ensino da História ajuda a compreender a relação complexa e contraditória entre os seres humanos e natureza. Devemos desnaturalizar os desastres, a começar pela nomenclatura Desastres Naturais, pois muitas vezes eles são entendidos como fatalidade, natural, consequência de um evento extremo, sem qualquer relação com o modo de ocupação e de uso desses espaços. “O desastre é sempre social” (ESPÍNDOLA, 2017, p. 238). Dessa forma, não é possível reduzir a questão ambiental a um problema estritamente ecológico, sem incorporar as demais dimensões sociais, éticas, políticas e culturais que atravessam e condicionam o fenômeno ambiental (LIMA, 2004) (Rodrigues & Machado, 2023, p. 261).

Partindo da mineração na América Portuguesa, as autoras discutiram os problemas socioambientais advindos dos rompimentos de barragens e a opção das mineradoras de diminuírem custos operacionais para aumentarem seus lucros, evidenciando a primazia da lógica de acúmulo de capital que impera no sistema econômico atual:

Além disso, relacionamos o desastre ambiental com o capitalismo e a forma perversa com que a empresa lidou com a situação. Os números gritantes do lucro mostram que mesmo com o rompimento das barragens que resultaram em perdas humanas e da biodiversidade, a empresa lucrou, ou seja, para o capitalismo o lucro é o mais importante, ainda que esse lucro seja às custas do sofrimento e do desespero das pessoas atingidas. Um estudante perguntou se alguém tinha sido preso e nós respondemos que até o momento não, mas que a empresa precisava pagar multas ao IBAMA. Outro estudante questionou se hoje a exploração do ouro ainda era grande tanto quanto na América Portuguesa e nós respondemos que ela continua sendo importante, mas que hoje o minério de ferro superou a valorização do ouro, já que ele é a matéria-prima do aço, muito usado na indústria (Rodrigues & Machado, 2023, p. 264).

Luz et al. (2010) defenderam uma EA de caráter político, mas não discutiram como seria essa educação, nem a indicaram como objeto de estudo, apenas evidenciaram a necessidade de acesso à informação por parte da comunidade local e dos funcionários na tentativa de solução dos problemas ambientais. Por sua vez, Alvarenga e Piuzana (2011) declararam que iriam propor um projeto de EA que contribuísse para o desenvolvimento local e socioambiental no decorrer do estudo, mas isso não foi feito.

Apesar de defenderem na Introdução uma EAC, transformadora e emancipatória, Fiorotti et al. (2013) não discorreram sobre as práticas pedagógicas listadas, nem as relacionaram com a luta de classes dentro do modo de produção capitalista. As práticas pedagógicas apenas citadas se basearam num “maior contato do usuário com a natureza”, em “conceitos relacionados à importância da preservação” (não especificando quais seriam esses conceitos) (Fiorotti et al., 2013, p. 25), na identificação morfológica dos vegetais e de minerais, e no acompanhamento do desenvolvimento de plantas. Além disso, sugeriram um estudo de processos de obtenção e extração de minerais e rochas e seus impactos ambientais, mas sem descrever quais seriam esses impactos ambientais, nem mostraram suas causas.

Cabral et al. (2015) afirmaram, sem detalhes, que o Projeto Educação Ambiental e Patrimonial (PEAP) favoreceu uma consciência e respeito pela natureza e a preservação do meio ambiente. Por fim, tanto Wedy (2019) quanto Lima e Cunha (2021) argumentaram que há falta de vontade política do Estado brasileiro em relação à precaução e punição dos responsáveis pelos rompimentos de barragens, e que essa problemática não é devida à ausência de conceitos jurídicos:

A lei impõe um conceito de segurança de barrage, que é a condição que visa a manutenção da sua integridade estrutural, operacional e a preservação da vida, da saúde, da propriedade e do meio ambiente. Na mesma toada, a tão falada gestão de riscos no que se refere as barragens, são as ações de caráter normativo, bem como a aplicação de medidas para prevenção, controle e mitigação da álea. E o dano potencial associado à barragem, também possui definição jurídica, sendo aquele dano que pode ocorrer devido ao rompimento, vazamento, infiltração no solo ou mau funcionamento desta (art. 2o). Não é a falta de conceitos jurídicos, portanto, a causa da má gestão de riscos nas barragens no Brasil e da eventual impunidade dos seus gestores em acidentes (Wedy, 2019, p. 4).

Os autores também defendem a promoção da EA a fim de se evitar desastres socioambientais e superar a inatividade do Estado, mas sem fornecer detalhes (Lima & Cunha, 2021; Wedy, 2019).

Ainda que a mineração seja uma atividade essencial, os rompimentos de barragens são exemplos da negligência do setor privado de mineração, que privilegiam a diminuição de custos ao invés de investirem numa infraestrutura que efetivamente evite desastres ambientais. Assim, não é alarmista afirmar que esses crimes continuarão ocorrendo nas democracias burguesas, na qual governos alinhados ao grande capital tendem a possuir leis e fiscalizações fracas devido ao lobby de capitalistas, tal como defendem Bizzotto et al. (2023), Castro et al. (2018) e Rodrigues e Machado (2023).

Lima e Cunha (2021) e Wedy (2019) afirmam que o sistema jurídico brasileiro possui normas para a responsabilização dos culpados das catástrofes ambientais decorrentes do rompimento de barragens, da recuperação dos danos sofridos pelas vítimas e do ambiente, assim sendo, a má gestão de riscos em barragens no Brasil e a eventual impunidade de seus gestores em casos de acidentes não se devem à ausência de conceitos jurídicos. Então, a inabilidade de fiscalização e punição de grandes mineradoras evidencia a contradição do Estado (capitalista burguês) brasileiro, que é incapaz de cumprir suas próprias leis quando estas afetam a classe dominante. Como mostrou Wedy (2019, p. 3), “Observa-se, no país, no entanto, uma evidente falta de vontade política para a concretização de uma efetiva ação precautória na gestão de barragens.”.

Apesar do exposto por Lima e Cunha (2021) e Wedy (2019), ao considerarmos o Materialismo Histórico-Dialético, é necessário identificar que a inatividade do Estado diante dos diversos problemas ambientais não é apenas ineficiência ou falta de vontade política, mas reflexo do seu compromisso em atender os interesses daqueles que detêm capital, mesmo que suas leis supostamente indiquem o contrário.

Assim, consideramos que as soluções propostas por Wedy (2019) e Lima e Cunha (2021) para um desenvolvimento sustentável podem ser classificadas dentro da macrotendência pragmática. Wedy (2019, p. 16) defendeu o cumprimento efetivo e não apenas retórico das leis brasileiras, enfatizando a articulação do Brasil com a 3ª Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Redução do Risco de Catástrofes, ao afirmar que “É de se grifar, no entanto, a necessidade de observância da Lei 12.334/2010 e a concretização de uma moderna e eficiente Política Nacional de Segurança de Barragens pautada pelos princípios constitucionais da precaução e da educação ambiental.”. Em outras palavras, o autor espera que o Estado burguês brasileiro cumpra suas próprias leis e puna quando necessário as classes dominantes.

Por sua vez, Lima e Cunha (2021) defendem que as empresas irão priorizar o desenvolvimento sustentável ou, no mínimo, cumprir com as legislações ambientais em vez da lógica de acúmulo de capital só porque um conjunto de medidas chamado de compliance, segundo eles, sensibilizará e conscientizará todos os colaboradores, fornecedores e stakeholders.

Wedy (2019) e Lima e Cunha (2021) não demonstram exatamente como suas sugestões seriam aplicadas na nossa neocolônia capitalista brasileira. Neocolônia, pois, do mesmo modo que a exploração do trabalho concentra valor nas classes dominantes, o bem-estar social dos países ditos de primeiro mundo é e foi historicamente sustentada pela exploração do trabalho e de recursos dos países periféricos. Sobre a superexploração do trabalho e transferência de valor, Kaplan (2024, p. 344) discorre:

Posteriormente, com os processos de independência dos países latino-americanos, entra em curso uma divisão internacional do trabalho com economias e Estados-nação com estruturas industriais, mais diversificadas e produtivas, outras com estruturas produtoras de matérias-primas e alimentos, menos diversificadas e com baixa produtividade, o que propiciou (devido as diferenças de composição orgânica de capital), a venda de bens com preços de produção por baixo do valor por parte das economias agromineiro exportadoras pela troca de bens desde as economias industriais com preços de produção acima do valor. Estabelece-se, assim, um processo regular de intercâmbio desigual que favorece a acumulação e que orienta o desenvolvimento de umas economias e o subdesenvolvimento e a dependência de outras (Kaplan, 2024, p. 344).

Assim, os países em condição de capitalismo dependente são caracterizados pela superexploração do trabalho e transferência de valor, como a dependência de exportação de matérias-primas, como concentrados minerais, sem investimento para produzir produtos de maior valor agregado e de alta tecnologia. A produção de concentrados minerais exige a atuação de mineradoras, muitas vezes privatizadas, como a Vale, que frequentemente geram impactos socioambientais significativos nos locais de operação e, concomitantemente, se camuflam em projetos de EA para sustentar seu suposto compromisso ambiental. Contudo, os trabalhos de perspectivas pragmática e conservacionista, ignoram ou negam essa dinâmica capitalista, não relevando ou propondo superar a raiz do problema.

Tendo a realidade objetiva como referência, em um recente estudo publicado na Nature Communications, Hickel et al. (2024) empiricamente mostraram que as economias do Norte global se apropriaram, liquidamente entre 1995-2021, de 826 bilhões de horas de trabalho provenientes do Sul global, abrangendo todos os níveis de qualificação e setores, promovendo desigualdades e roubando a capacidade produtiva de suas neocolônias, que poderiam ser usada para atender às necessidades humanas locais e ao desenvolvimento. Os autores também revelaram que os salários no Norte são 87-95% mais altos do que no Sul para trabalhos de mesma habilidade.

Além disso, evidenciando a injustiça ambiental, é importante ressaltar que os maiores impactos da destruição socioambiental são sofridos pelas pessoas de maior vulnerabilidade social em comparação com a classe dominante (acionistas majoritários não vivem a jusante de barragens), que se beneficia com a maximização de lucros devido à diminuição de custos, como os relacionados com a segurança de barragens (Agencia Brasil, 2025; Almeida, 2025; Castro et al., 2018; Oliveira, 2024).

Dos trabalhos analisados, apenas seis de um total de vinte e um atribuíram o sistema econômico vigente e sua lógica de acúmulo acelerado de capital, que privilegia uma classe em detrimento de outra, como principal responsável pelos problemas ambientais modernos, ou propuseram a superação do capitalismo como solução para um verdadeiro desenvolvimento sustentável (Batista Henriques, 2024; Carrilho Eichenberger & Alves Pereira, 2018; Rabelo, 2017; Ribeiro Cardoso & Cosenza Rodrigues, 2022; Rodrigues, 2020; Rodrigues & Machado, 2023) (Quadro 3).

A prevalência da macrotendência pragmática nos trabalhos analisados não constitui um fenômeno isolado ou aleatório, mas decorre da hegemonia neoliberal. Tal hegemonia pode ser explicada pela capilaridade dos discursos neoliberais sustentados pelo capital que, ao promoverem a responsabilização individual e a ideia de sustentabilidade compatível com o mercado, despolitizam a questão ambiental e a reduzem a soluções comportamentais e gerenciais. Embora Layrargues e Lima (2014) considerem difícil diagnosticar a macrotendência predominante na EA, entendem que o pragmatismo dominante constantemente tende a subverter uma EAC:

Pela escassez de pesquisas, é sempre difícil diagnosticar as hegemonias discursivas na Educação Ambiental. Sabemos que as forças críticas conquistaram um espaço significativo no interior do campo, mas essas forças são constantemente erodidas pelo pragmatismo dominante que tende a converter e a deslocar as intenções educativas ao sentido pragmático do mercado. A formação de mão de obra, da geração de emprego e do consumo tendem a instrumentalizar a educação como um meio de ascensão social e de reprodução da lógica econômica. Nesse caminho, os objetivos de promoção da cidadania, da esfera pública e da educação política acabam sendo preteridos (Layrargues & Lima, 2014, p. 35).

Assim sendo, como evidenciado no nosso estudo, os trabalhos classificados na macrotendência pragmática privilegiam promover estratégias como a conscientização ecológica descontextualizada, a autoproteção, responsabilização unicamente individual para enfrentar a crise ambiental, a participação em programas de responsabilidade social corporativa e o cumprimento da legislação ambiental, sem, contudo, problematizarem as determinações estruturais que condicionam a atividade mineradora no capitalismo. Em suma, ainda que esses trabalhos reconheçam, em alguma medida, a existência de conflitos e impactos socioambientais, suas proposições permanecem circunscritas aos limites do ordenamento social vigente, ora ignorando, ora naturalizando a lógica de acumulação acelerada de capital que propicia os desastres envolvendo a mineração. Essa constatação reforça a pertinência e a urgência de uma EAC que, ao contrário, desvele as raízes estruturais da crise ambiental e, a partir da luta de classes, suplante a ideologia dominante e desloque o equilíbrio ideológico para a superação do modo de produção capitalista.

Portanto, é imperativo o desenvolvimento de uma EA verdadeiramente Crítica tanto no âmbito da produção científica e da educação escolar, quanto entre os trabalhadores, que desvende, denuncie e proponha a superação da raiz de problemas ambientais, como aqueles vinculados à mineração, isto é, a ação mineradora sob o modo de produção capitalista (De Oliveira et al., 2021; Layrargues & Lima, 2014; Mendes, 2020). A superação do capitalismo em direção a uma sociedade sustentável, tal como é elucidado pelo prisma do ecossocialismo (Löwy, 2021; Saito, 2021), é essencial para a sobrevivência de nossa espécie, que está ameaçada pelo desequilíbrio ambiental generalizado, desertificações, falta de água potável, guerras, aquecimento global antropogênico etc. e fundamento essencial para a EAC.

CONCLUSÃO

A revisão sistemática da literatura, utilizando os descritores “Educação Ambiental” e “mineração”, revelou que a EA, em grande medida, ainda reflete a ideologia dominante, reproduzindo a lógica produtiva sem questionar suas estruturas. A análise dos trabalhos encontrados, com base nos critérios previamente estabelecidos das macrotendências político-pedagógicas Conservacionista, Pragmática e Crítica demonstrou que, de um total de 21 trabalhos, quatro foram classificados como conservacionistas, seis como críticos e 11 como pragmáticos.

O reduzido número de estudos enquadrados na tendência conservacionista pode ser explicado pelo avanço da EA no Brasil, que passou a considerar a dimensão social do ambiente. Esse desenvolvimento superou uma abordagem educativa restrita à sensibilização individual em relação à natureza, ampliando seu escopo para incluir aspectos socioambientais. Tal movimento resultou na constituição da macrotendência pragmática, hoje hegemônica no campo da EA, como pode ser verificado, também, nesta revisão. Apesar desta mudança de paradigma que aparentemente pode ser entendida como um avanço, é importante lembrar que ambas se configuram como tendências conservadoras de EA (Layrargues & Lima, 2014).

Por outro lado, apenas seis trabalhos atribuíram ao sistema econômico vigente e sua lógica de acúmulo acelerado de capital que privilegia determinados grupos em detrimento de outros, a responsabilidade central pelos problemas socioambientais contemporâneos, ou propuseram a superação do capitalismo como caminho para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável e, sobretudo, como fundamento para desenvolvimento da EA que desvele as determinações dos problemas ambientais, tal como os vinculados à mineração. Mendes (2020) relembra que a EA precisa assumir a totalidade como categoria para análise da questão ambiental e fundamento para desenvolvimento de processos educativos ambientais, evidenciando o ambiente como categoria social, isto é, como síntese da luta de classes na sociedade. A mineração não escapa deste escopo ao ser assumida como temática na EA, exigindo que seja entendida como um processo produtivo calcado na acumulação de capital por determinada classe por meio da exploração dos recursos naturais, ao mesmo tempo que gera expropriação dos indivíduos que vivem e retiram sua subsistência dos locais onde a mineração e suas consequências acontecem.

Esse cenário brasileiro insere-se em um contexto mais amplo de capitalismo dependente, caracterizado pela superexploração do trabalho e transferência de valor. Empresas mineradoras privatizadas, como a Vale e BHP Billiton, frequentemente causam impactos socioambientais severos, enquanto as economias do Norte global continuam a se beneficiar da apropriação de recursos e força de trabalho do Sul global, perpetuando desigualdades estruturais.

Além disso, as consequências da degradação socioambiental recaem desproporcionalmente sobre as populações mais vulneráveis, enquanto a classe dominante se beneficia da maximização de lucros por meio da redução de investimentos em infraestrutura e segurança, como no caso das barragens de rejeitos. Essa realidade evidencia a necessidade de uma EA que vá além da sensibilização sobre questões ambientais ou da ação individual, atuando na denúncia e na compreensão crítica das raízes estruturais dos problemas ambientais contemporâneos, como a mineração, e favorecendo a organização das classes trabalhadoras.

Portanto, torna-se imperativo fortalecer a EAC em todos os níveis de ensino, na produção científica e entre os trabalhadores, a fim de desvelar e propor alternativas à lógica produtiva vigente. A superação do modelo econômico capitalista em direção a uma outra organização social e produtiva é essencial para a sobrevivência da humanidade diante do agravamento do colapso ambiental global, marcado por processos de desertificação, desastres ambientais, escassez de água potável, conflitos geopolíticos e mudanças climáticas antropogênicas. Ao que compete à EA, somente por meio de uma perspectiva crítica, comprometida com a transformação da sociedade, será possível revelar o projeto predatório em curso e, em alguma medida, contribuir para a manutenção da vida humana no planeta.

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  • 3
    A atividade de mineração de sal desencadeou tremores e rachaduras que afetaram cinco bairros da capital alagoana (Schmidt, 2024).
  • Disponibilidade de dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • O CECIMIG agradece ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico) e à FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) pela verba para a editoração deste artigo. Os autores Agradecem ao CNPq pela bolsa concedida por meio do processo 151345/2025-2.

MATERIAL SUPLEMENTAR

Quadro M1
Síntese dos objetivos gerais dos trabalhos revisados.
Quadro M2
Síntese das conclusões dos trabalhos revisados.

Editado por

  • Editor Responsável
    Leonardo Kaplan

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Maio 2025
  • Aceito
    27 Mar 2026
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