Memorial acadêmico para Professor Titular

Tânia Maria Baibich Sobre o autor

Apresentação

De tudo não falo. Não tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos; servia para quê? Quero é armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho. Por daí, então, careço de que o senhor escute bem essas passagens: da vida de Riobaldo, o jagunço. Narrei miúdo, desse dia, dessa noite, que dela nunca posso achar o esquecimento. O jagunço Riobaldo. Fui eu? Fui e não fui? Não fui! - porque não sou, não quero ser. Deus esteja!

Guimarães Rosa

No cumprimento do requisito parcial para obtenção do título de Professora Titular do Departamento de Teoria e Prática da Educação da UFPR, elaboro este Memorial Descritivo para que seja julgado por banca de professores titulares, cujos nomes e currículos foram aprovados no âmbito de meu Departamento e Setor.

Percorrer novamente a trajetória construída na vida acadêmica, agora de um gole só, para alcançar o termo da narrativa, identificando o fluxo do “sangue quando fervia” (HOLANDA; PONTES, 1975HOLANDA, C. B. de; PONTES, P. Gota d’água. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1975.) e selecionando alguns elementos fractais que logrem expressar o paradigma político-epistemológico-afetivo ao qual me vinculo, é uma viagem emocionante que encanta e dói, veste e desnuda.

Cercar e definir o memorável merecedor de fazer parte da vitrine que se apresenta como referência ao estoque construído em trajetória formativa e profissional é uma atividade prazerosa ainda que temerária. Assemelha-se às incursões que fazemos em meios que não o nosso, seja no mergulho, seja no voo.

Mesmo no caso de um memorial acadêmico, cuja comprovação de fatos e de feitos encontra-se bem ancorada em currículo formal, o texto que resulta deste exercício é tonalizado pela ideologia, sentimentos e graus de coragem do memorialista. Mostra e esconde, sublinha e apaga, criptografa e traduz.

As memórias de personagens, criações, atitudes, atribuição de sentidos de um determinado período da vida carregam, no produto, o barro ainda molhado porque o autor as recria ao contar. E, mais além, elabora vínculos dentre fases e motivos que dantes não havia elaborado, mas cuja conexão surge do desejo de reunir as memórias em uma totalidade consentânea, harmônica, íntegra, que demonstre o ela mesma que ela é.

Olhar para minha vida profissional com o propósito de elaborar uma peça desta natureza suscita uma mescla de tensões emocionais. Deparar-me com o último degrau da carreira na qualidade de autora deste Relatório de Viagem, revisitando minha própria história, me produz muito orgulho e muito me assusta, defrontando-me, agora como quem finalmente compreende, com a lição do Nobel de literatura que disse: “não há nada mais perigoso que memória escrita”. (GARCIA MÁRQUEZ, 2009GARCIA MARQUEZ, G. “Por um país ao alcance das crianças” 1974-75. In: CORONEL, L. (concepção, projeto e edição) Dicionário Gabriel García Márquez: a magia literária da América. Porto Alegre: TAB Marketing , 2009. p. 274-275., p. 160).

Dentre as decisões difíceis na elaboração de um Memorial de vida acadêmica, me deparei com a escolha da forma de apresentação das memórias. Sigo calendários, sigo funções desempenhadas, sigo a formalidade de ensino, pesquisa, extensão e gestão, sigo o coração?

“De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. [...] Têm horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.” (GUIMARÃES ROSA, 2006GUIMARÃES ROSA, J. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Nova Fronteira, 2006. , p. 90).

Pois assim eu acho, assim é que eu conto.

No princípio era o Caderno H

Ó céus de Porto Alegre! Como farei para levar-vos para o céu?

Mário Quintana

Na primeira lembrança de sedução pela literatura sem interferência de adultos, estou com sete anos, deitada no tapete da sala, sob o sol de inverno, lendo o Caderno H, do Mário Quintana, no jornal O Correio do PovoQUINTANA, M. O bonde. Caderno H. Correio do Povo, Porto Alegre, s/d. , ritual que cumpria semanalmente, de livre e espontânea vontade. A sensação de carícia na alma que a poesia, a literatura, o cinema e a música me produziriam pelo resto da vida estava lá.

A lembrança compartilhada de sedução pelo poder da literatura me encontra com oito anos, na casa de minha querida irmã, professora de português e francês, Rute Lewgoy Z”L lendo um livro de poemas do Drummond. Ao não entender alguma coisa, que não lembro o quê, busquei uma explicação e ela me ensinou o conceito de tempo psicológico. Bem assim: com denominação e tudo. Ganhei asas e creio que não parei mais de voar.

Do meu irmão do meio, Sadi Buchatski, grande enxadrista, ganhei o prazer de desvendar enigmas.

Da mãe, Rosa Trachtemberg Buchatsky, e do pai, Samuel Buchatksy, herdei a vivência genuína de uma casa com espaço para os diferentes - ainda que como judeus, sempre perseguidos, veladamente ou não. Eles tinham um padre de batina como filho duplamente adotado - que havia sido, quando criança, aluno da mãe no interior do Rio Grande do Sul - que se mudara para Porto Alegre para dirigir uma paróquia. Além deste havia grandes amigos negros; espíritas; cristãos; judeus; ricos; pobres. Ali me formei prenhe de respeito e capacidade de me imaginar no lugar do outro. Mesmo que este mundo à parte tenha dificultado, ainda mais, minha capacidade de compreender porque éramos vítimas de preconceito, também me armou de ricas possibilidades para a vida das diferenças, herança que só reconheci muitos anos depois.

Do primário, pelas mãos carinhosas e competentes da Dona Beatriz, Dona Lucy, Dona Helena, Dona Georgina e Dona Lena, dirigidas pela querida Dona Constança, de colo farto e fácil, no Grupo Escolar Luciana de Abreu, trago o gosto da Escola Pública que me tatuou para sempre misturado ao gosto do sagu com creme do refeitório onde merendávamos todos gratuitamente.

No Grupo que me parecia um grupo operativo (Pichón-Rivière) fui aluna de Educação Física, no primeiro ano, de minha mãe. Formada na segunda turma da Escola Superior de Educação Física da UFRGS , filha de imigrantes fugidos do nazismo da Europa, caçula de nove irmãos e a única que pôde estudar - dada a realidade de pobreza e dificuldades decorrentes da condição de imigrantes e a ausência da língua dos demais - e lecionar na escola. Com seis anos recém-cumpridos, pela primeira vez em uma escola, durante todo o ano não fui escolhida nenhuma vez para buscar ou levar a bola na secretaria, ao contrário dos demais. Sofri naquele e em outros vários anos pela atitude que sentia como descuido. Como professora pude compreender que provavelmente o cuidado para ser justa era tamanho que a “curvatura da vara” fora hipertrofiada. O senso de justiça, traço nodal da cultura judaica, me acompanha do berço.

Aos dez anos, aprovada no então Exame de Admissão para o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia da UFRGS, ingressei no mundo do pensamento, da crítica, da criatividade, do exercício político, mundo do qual não saí e não sairei dado que escolhi que seria o meu mundo. De lá trago também, por privilégio, amigos-irmãos e um incomensurável modelo do que a Escola Pública pode ser se efetivamente articulada com a universidade. Nas figuras da professora Vera Russomano Pires, de Rebeca Poyastro, Vera Regina de Aquino Cohen, Cícero Marcos Teixeira e Imira Damiani Pinto, homenageio todos os mestres de vida deste período, os quais viverão para sempre dentro de mim.

Tenho guardado até hoje, em papel laranja, datilografado, o poema de Augusto dos Anjos, “Ovonovelo”, na forma gráfica do ovo que recebi, ao final do mês de agosto - mês no qual os estagiários das licenciaturas da UFRGS viravam nossos professores -, na aula de Português, quando cada aluno ganhou um poema diferente. Penso que ter este poema comigo 50 anos depois é sintoma explícito do carinho que ainda me faz. Inventar, ousar, usar o conhecimento e a arte para tocar as pessoas muito aprendi do Aplicação.

Concomitantemente ao ginásio e ao colegial, fui membro do Movimento Juvenil Judaico Hashomer Hatzair, vinculado à esquerda israelense. Aquilato que a educação não formal que recebi na vida, no movimento, tem o mesmo valor para minha constituição como gente que a educação formal. História, filosofia, ética, política e grandes amigos-irmãos incluo na bagagem cujo conteúdo não pretendo me desfazer dado que constitui esta que tenha podido vir a ser. Na pessoa do amigo Mark Levy que me ensina há mais de 50 anos, manifesto minha gratidão a muitos mestres de vida.

Os anos eram de chumbo. O Colégio de Aplicação foi um dos que teve professores e alunos perseguidos, cassados e desaparecidos. A política estudantil era perigosa e clandestina. Aqui comecei a aprender a lutar pela democracia. Ingênua, corajosa e com muitas poucas condições de conhecimento, mas sabedora de que meu lado era aquele: o da democracia e da justiça social.

Pela vida no Movimento Juvenil, passei o ano no qual cursaria o terceiro e último ano do Colegial, em 1971, em Israel, trabalhando e estudando em dois kibutzim: Zikim, na fronteira com Gaza, e Yechiam, na fronteira com o Líbano. Sou grata à vida pelas lições que lá aprendi. No retorno, pelo então Exame de Madureza, obtive, sem cursar o terceiro ano, o certificado de conclusão do ensino médio e prestei vestibular na UFRGS para o curso de Psicologia, que havia iniciado no ano anterior.

A vida universitária, com professores brasileiros que na sua maioria não eram psicólogos, mas sim filósofos e pedagogos - dado que a Lei à época facultava -, me permitiu o contato com alguns representantes da nata da intelectualidade rio-grandense, cujo exemplo que elejo para definir é o do professor Luiz Osvaldo Leite. Também a convivência com exilados argentinos, psicólogos, e com a própria escola argentina de Psicologia, dada a condição de fronteira que meu estado natal possui, foi fundamental para minha formação na área. Devo à UFRGS muito do que sou.

Durante o curso de Psicologia tive a sorte de ganhar meus dois filhos, Ricardo e Fernando Baibich, com quem aprendi, para mais além de tudo o que aprendi e aprendo, que estudar em meio “à banda de música” é possível. Esta herança, que também tenho guardada em local especial do meu dentro, utilizo para muitas situações, inclusive hoje, quando - para minha sorte - estudo junto de neto.

A primeira atividade formal como professora sucedeu já no primeiro ano do Curso de Psicologia, quando, a convite da então Diretora do Colégio de Aplicação, então já da Faculdade de Educação da UFRGS, saudosa professora Graciema Pacheco, assumi a disciplina recém-criada: Relações Humanas para alunos do ensino médio. Não percebi à época, mas fui alvejada ali pelo cupido que me vincularia para sempre à função de ensinar.

Pelas mãos da professora doutora Léa da Cruz Fagundes, tendo sido selecionada para Bolsa de Iniciação à Pesquisa do CNPq , participei ativamente do então Grupo de Estudos Cognitivos da Faculdade de Psicologia durante todo o curso e nele permaneci mesmo já egressa do Curso. Nosso Grupo, como os outros de estudos cognitivos piagetianos do país, tinha a coordenação geral do doutor Antonio Maria Battro, argentino, que havia sido orientando de Paul Fraisse, colega de Jean Piaget.

Em 24 de outubro de 1979, em trabalho publicado com Battro, Léa Fagundes e Cibele Fagundes, fomos agraciados com a quinta concessão nacional do prêmio Emílio Mira Y López, da Fundação Getúlio Vargas, com um trabalho que tratava da Lógica Deôntica Infantil. Da monografia que fiz para ser aprovada no Grupo de Pesquisa, que tratava do desenvolvimento da moral na criança e desta pesquisa, trouxe o amor pelo estudo formal da ética e da moral que conservo até hoje.

Em 1996-97 fui convidada pelo MEC para colaborar com a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, fazendo a crítica dos conteúdos sobre moral e ética, elaborados pelo meu excelente ex-professor na USP, doutor Yves de La Taille, endereço nacional na área.

Dos textos sobre o tema que tenho produzido, gosto muito especialmente do denominado: “Ética dos Pais, diferença e genericidade nos espaços educativos: um caso de ensino de pós-graduação”, publicado pela EDIPUCRS, em 2008, no livro Trajetórias e processos de ensinar e aprender: didática e formação de professores.

O estudo aprofundado da epistemologia genética, o exercício permanente da pesquisa e os ensinamentos teórico-metodológicos e humanos que pude usufruir na companhia dos professores Léa, Battro e da colega Cibele também me fizeram muito eu. As refeições gostosas e o acolhimento familiar na casa da Léa, também pelo doutor Alcyone Z”L, seu marido, e por seus sete filhos, me ensinaram que às vezes uma sopa quente com conversa ensina muito mais do que muitos seminários.

Em 1978, o já então Laboratório de Psicologia Genética passou a embrenhar-se pelos estudos da linguagem Logo, uma linguagem de computação poderosa e amigável, que permite estudar o desenvolvimento da inteligência da criança no mundo virtual, criada pelo matemático Seymour Papert, discípulo de Paul Fraisse. Neste tema permaneci até o final do meu mestrado em Educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Curitibas

Conheço esta cidade como a palma da minha pica Sei onde o palácio sei onde a fonte fica, Só não sei da saudade a fina flor que fabrica. Ser, eu sei. Quem sabe, esta cidade me significa. Paulo Leminski

Em 1981 ocorreu, por motivos familiares, minha mudança para Curitiba. De conhecida ex-boa aluna do Aplicação e da UFRGS cheguei, praticamente desconhecida, à terra estranha, avessa a estrangeiros, apenas com o contato da professora Eny Caldeira, coordenadora do Grupo de Estudos Cognitivos do Paraná, importante nome na Educação do estado e do país, que me acolheu e com quem passei a trabalhar na qualidade de pesquisadora da FUNPAR. As tapiocas feitas pela Noeminha, sua fiel escudeira, em meio aos nossos estudos cercados pela maior pinacoteca pessoal que conheci na vida, conservam seu gosto até hoje.

De 1981 a 1982, a convite, desenvolvi trabalho de coordenação da Pré-Escola da Escola Brasileira Israelita Salomão Guelman e também trabalhei com grupos de estudo a teoria piagetiana voltados a profissionais da área da Saúde e Educação.

Em 1983 ingressei no mestrado em Educação da UFPR e, por ter sido classificada em primeiro lugar, tive a honra de receber a primeira bolsa conferida ao Programa, Bolsa da Capes, a qual veio a constituir-se a minha segunda Bolsa acadêmica (sou grata à Capes e ao CNPq, desde a iniciação científica até hoje como pesquisadora bolsista). Meu histórico escolar do mestrado tem apenas conceitos A, mas dificuldades pessoais no âmbito da saúde e da adaptação a esta nova cidade creio que me fizeram aproveitar o curso bem menos do que poderia se fosse em outras circunstâncias.

A professora doutora Zélia Pavão, landmark do Setor de Educação e da Educação no Estado e a professora mestre Martha G. de Sanchez Z”L, estiveram ao meu lado na orientação e co-orientação respectivamente. À professora Zélia devo a concessão de plena autonomia e o estímulo ao livre pensar, e à professora Martha (que por dupla adoção tornou-se minha mãe) devo o colo e a exigência, ambos fartos e bem dosados.

À professora doutora Maria Lucia Moro que assumiu a disciplina que trabalhava com a teoria piagetiana, após a aposentadoria da professora Eny, devo a liberação com créditos e nota máxima sem precisar cursar a disciplina, considerando sua avaliação de meus conhecimentos prévios. Da atitude aprendi o respeito pelo mérito do conhecimento no âmbito da academia. Hoje, toda vez que me deparo com doutorandos cujas competências muitas vezes suplantam as minhas, me sinto capaz de suportar com humildade e dignidade tal condição e auxiliar no que posso e no que tenho a ensinar.

Pelas mãos firmes e delicadas da professora Corina Lúcia da Costa Ramos, iniciei os passos da pesquisa no mestrado, momento marcante na vida e pelo qual sou sempre grata.

A dissertação, O pensamento no espelho, posteriormente publicada em livro, que trabalhou com crianças superdotadas, com dificuldades de aprendizagem, com dificuldades emocionais e com crianças “normais” utilizando a linguagem Logo, pretendia descobrir características da lógica do pensamento nesta realidade virtual. Fiz o possível para o momento, mas, como já disse, o momento difícil do ponto de vista da saúde me leva a avaliar que fiquei distante do que hoje gostaria de poder ter feito. De toda forma, para surpresa minha, estudando um livro de Pedro Demo sobre pesquisa, me vi citada devido ao trabalho da Dissertação, reputado como original.

Após a defesa, fui contratada pela CELEPAR para prestar Consultoria e Orientação Psicopedagógica ao Programa de Informática Total - PRINT - LOGO, tendo sido logo (não pude perder a oportunidade da brincadeira) cedida à SEED para o desenvolvimento do projeto intitulado: “Educação e Informática no Paraná, Abertura do Debate e Sensibilização dos Professores”. O projeto constava basicamente de um “circo mambembe” que realizou dez Seminários de 24 horas em todos os Núcleos do Estado e nas, então, 168 escolas da capital, trabalhando os inícios da Educação e Informática. A culminância do trabalho deu-se em uma Feira que reuniu 600 professores e especialistas nacionais e internacionais da área. Foram implantados Centros Regionais de Oficinas Logo e formados Recursos Humanos. O projeto foi considerado como modelo nacional na época.

Do ponto de vista da produção teórica, elaboramos, eu e o professor doutor Josué da Silva Filho, coordenador do projeto na SEED, um relatório comentado distribuído às Secretarias. Além deste também o livro resultante de minha dissertação de mestrado, o primeiro sobre a linguagem Logo e a aprendizagem de crianças do país, foram distribuídos às escolas.

Meu desejo de construir uma carreira universitária se fazia claro e busquei concretizá-lo incialmente atuando junto à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Tuiuti, ministrando a Disciplina de Psicologia do Desenvolvimento I, para o curso de Psicologia, experiência que foi fundamental dado ter sido a primeira em docência no ensino superior. Logo, ao final de um ano, a PUCPR abriu concurso para o Curso de Psicologia e tive a honra de ser selecionada em primeiro lugar. Lá lecionei, de 1987 a 1989, as disciplinas de Teorias e Sistemas Psicológicos e Teorias de Aprendizagem Aplicadas à Psicologia Educacional, além de supervisionar estágio de Psicologia Educacional, todas para o curso de Psicologia. Tive ótimos alunos e alunas e excelentes colegas que muito me ensinaram a trabalhar coletivamente. Ao me desligar, quando da aprovação do concurso na UFPR, recebi uma carta elogiosa do então reitor professor Euro Brandão Z”L. Guardo a PUC em especial canto do coração.

Até o final deste período, meu foco principal foi o do desenvolvimento da inteligência na criança, tema que ao longo da vida acadêmica e pessoal, mesmo quando deixou de ser foco de estudo e ação docente e de pesquisa, permaneceu como instrumento poderoso do meu pensar.

Vida na UFPR

Essa vila [...] é afinal uma cidade estrangeira Sou forasteiro, tourist, transeunte É claro: é isso que sou Até em mim, meu Deus, até em mim. Álvaro de Campos

Em 29 de março de 1988, com média 9,62 e nota 10 na prova Didática atribuída também pela professora doutora Heloísa Lück (fato comentado por ela mesma como inédito), fui aprovada em concurso, que contou com mais de 30 candidatos inscritos, que se ofertava uma única vaga para ministrar as disciplinas de Didática, Metodologia e Prática de Ensino de Psicologia, no então Departamento de Métodos e Técnicas da Educação.

Soube posteriormente que minha inscrição para o concurso quase fora indeferida visto que só possuo Bacharelado em Psicologia e não Licenciatura. Quem argumentou a meu favor no debate, no Conselho Setorial, foi a então chefe do DEPLAE , que não me conhecia, mas que defendeu o fato de que se eu era mestre em Educação pela UFPR, seria um paradoxo a própria universidade não reconhecer o título maior do que o da licenciatura. Nome reconhecido no tema da Avaliação na Educação, já exerceu importantes cargos na instituição inclusive o de vice-reitora. Professora doutora Maria Amelia Sabbag Zainko, obrigada!

Atuei como professora contratada substituta por determinado período, sendo no dia 4 de julho de 1989 publicada minha nomeação como Professora Auxiliar Nível I, regime de trabalho de 20 horas. Na condição de mestre, passei, de forma automática, para o nível de Assistente I e, perante a apresentação e a discussão de Projeto de Pesquisa junto a meu Departamento, passei ao regime de dedicação exclusiva.

Dos primeiros alunos na graduação, destaco uma que bebia minhas aulas na primeira fila do curso de Pedagogia e que me fez, com firmeza e delicadeza que mantém viva adiante, a primeira crítica e é hoje pela segunda vez minha Diretora de Setor. Obrigada, Andréa Caldas.

Durante o estudo para o concurso, tive que me aprofundar em temas antes desconhecidos, dado que a área da Educação não era a minha. A ideia inicial, tanto minha quanto de colegas da Psicologia, seria a de ingressar na universidade e, assim que possível, tentar transferência para o curso de Psicologia para ensinar a teoria piagetiana. Entretanto, a paixão que a licenciatura me provocou matou na casca o desejo da mudança e, ainda que tenha atuado com os colegas da Psicologia por muitos anos no Colegiado do Curso, minha primeira casa ficou sendo a Educação, a despeito de que sempre senti a Psicologia como uma extensão afetiva na universidade.

Tive a honra de, recém-ingressada na instituição, eleger o professor doutor Carlos Alberto Faraco, grande mestre. À época do meu ingresso, em fase de campanha eleitoral, o então candidato veio visitar o Setor de Educação convidado pela professora doutora Maria Dativa de Salles Gonçalves, endereço de educação pública do Estado do Paraná e de nosso Setor. As falas de ambos foram suficientes para saber que aquele era o meu lugar na universidade.

Desde a primeira avaliação por mérito e nas onze avaliações subsequentes, junto a Comissão Permanente de Pessoal Docente, sempre perfiz uma média de cinco vezes a produção exigida para a progressão. Não considero que a avaliação quantitativa seja parâmetro único para merecer ou desmerecer uma produção, mas considero que seja condição necessária especialmente quando a ela se agregam os fatores relativos às avaliações qualitativas dos pares e dos estudantes.

Gostaria de reproduzir trecho da ata da Banca Examinadora de Progressão Vertical quando, ainda não doutora, solicitei ascender à classe de adjunto: “[...] os professores enalteceram o mérito da produção nacional e internacional apresentada pela professora, ressaltando que a Universidade Federal do Paraná deve sentir-se orgulhosa de ter docentes tão dedicados e produtivos como a Professora Tânia Maria Baibich.” (27/11/97).

Na gestão do professor Faraco na Reitoria, tive o privilégio de ser membro da CPPD e muito aprendi com os colegas professores da Comissão, com o servidor técnico administrativo Luís Antonio de Souza Santos, até hoje na Comissão, e com as produções dos processos dos colegas da universidade. Na ocasião, trabalhamos arduamente para elaborar uma resolução mais adequada para a avaliação das diferenças de atuação na universidade, resolução que foi aprovada pelo então CEP e passou a vigorar.

Ainda no segundo ano da Gestão Faraco e até o final da mesma, fui convidada a exercer a função de Coordenadora de Convênios e criar a Coordenadoria de Relações Internacionais na então Pró-Reitoria de Planejamento, Orçamento e Finanças (PROPLAN) coordenada pelo professor doutor José Henrique de Faria. No que tange aos convênios, o que reputo como mais importante foi a elaboração de um primeiro manual de Convênios da UFPR. Nas relações internacionais, estabelecemos vários convênios com instituições de ensino, viagem do reitor a outros países, abertura de portas para visitantes estrangeiros e participação no Fórum de Relações Internacionais das Instituições Públicas. Posso dizer que começar a vida universitária já enfronhada na universidade como um todo fez uma diferença significativa para todo o meu pensar universidade pública. Sou grata ao Faraco, ao Faria, ao servidor técnico-administrativo Luiz Carlos da Silva e ao também servidor Rubem Vieira Alves, posteriormente pró-reitor de Administração e Diretor Financeiro do Hospital de Clínicas, e aos colegas da PROPLAN com quem muito aprendi sobre a administração universitária.

Cadê a Psicologia que táva aqui?

[...] mas as coisas findas muito mais que lindas essas ficarão. Drummond de Andrade

A prova escrita do concurso, no qual fui aprovada como docente da UFPR, foi posteriormente publicada na Revista Interação em Psicologia da UFPR. Dela empresto um excerto para circunstanciar meu entendimento sobre o papel do professor de psicologia:

[...] ensinar psicologia é, em muitos aspectos, diferente do ensino de outros conteúdos, além de ser diferente de outras funções do próprio psicólogo. Em primeiro lugar, porque, como em outras ciências humanas onde a subjetividade de quem cria, compreende e ensina está tão intrinsicamente envolvida no processo, corre o risco de ver-se prejudicada se o profissional em questão não tiver o suficiente discernimento de perceber com clareza o ethos de cada sociedade, além de necessitar uma clara consciência de si mesmo. Em segundo lugar, porque o psicólogo - como um cristal que visto de diferentes ângulos reflete diferentes cores sem, no entanto, deixar de ser cristal - é visto e vê a si mesmo em diferentes posições. Como terapeuta cabe-lhe interpretar; como supervisor, ajudar seu supervisionando a lidar com as situações transferenciais de seu trabalho e, como professor, auxiliar seu aluno a alcançar o saber necessário sem ter o direito de confundir uma situação com outra, sob pena de produzir sérios prejuízos. (BAIBICH, 1989, não paginado).

Os alunos da licenciatura do curso de Psicologia - curso no qual atuei desde meu ingresso na universidade até seu término devido à aprovação apressada de novo Currículo de Bacharelado, com temporária suspensão da licenciatura que durou largos anos - costumavam ser meus alunos por três semestres consecutivos. Já na primeira turma do curso de Didática, juntamente com meus estudos, pude constatar a ausência de conhecimentos da área específica e/ou sua presença gauche no espaço de sala de aula. Possuía já na época, pelos estudos que fizera para o concurso de seleção, a clareza de que o método de trabalho didático, umbilicalmente vinculado ao método de pensamento e à relação de parceria efetiva estabelecida entre os participantes do processo de ensino e aprendizagem na universidade, deveriam integrar ensino, pesquisa e extensão, no intuito de efetivamente aproximar a formação do futuro professor do ensino médio da realidade da sala de aula do ensino médio.

Assumia também, como pressuposto, que a reflexão compartilhada sobre a prática, sob a égide da teoria como suporte epistemológico, poderia criar alternativas para transformar o ensino de psicologia no ensino médio. Para tanto, no primeiro dia de aula da disciplina de Metodologia do Ensino de Psicologia, com os alunos que tinham cursado a disciplina de Didática comigo no semestre anterior, com ótima avaliação do trabalho conjunto, apresentei a seguinte proposta de trabalho para ser discutida:

  1. a) Caracterização do aluno do ensino médio dos cursos de Magistério das escolas públicas de Curitiba (que devido à greve que se estendeu de março a junho não pode ser efetivado);

  2. b) Estudo das principais correntes psicológicas e suas consequências para o ensino;

  3. c) Análise da nova proposta do ensino de psicologia para o curso de Magistério (implantada naquele ano pela SEED) e discussão com os responsáveis por sua elaboração;

  4. d) Elaboração de artigos relativos ao ensino de psicologia para publicação;

  5. e) Promoção, em conjunto com o CRP do Paraná e com o Polo de Magistério, de um encontro de professores de Psicologia do Ensino Médio;

  6. f) Realização de uma pesquisa para diagnosticar aspectos referentes à relação objetivos X conteúdos de ensino, junto a professores de psicologia das escolas públicas e alunos egressos dos cursos de Magistério;

  7. g) Criação de “endereço reflexivo conjunto” na UFPR, capaz de congregar professores de psicologia do ensino médio, professores do ensino fundamental e alunos de licenciatura, para tratar do papel e do estado da arte do ensino de psicologia. O curso de Extensão daí resultante, denominado “Cadê a Psicologia que táva aqui?”, dado suas consequências positivas, acabou por ser conhecido como o nome do Projeto como um todo.

Para viabilizar o Projeto, os alunos foram divididos em seis grupos (a professora participava de todos), a saber: Grupo Editorial; Grupo de Pesquisa; Grupo do Encontro; Grupo do Cadê a Psicologia que táva aqui? e Grupo do Bom Professor e sua Prática.

Resumidamente, os corolários para o Ensino, a Extensão e a Produção e Disseminação do Conhecimento no processo nos seis anos que estive à frente do mesmo (me afastei quando assumi a função de Presidente Nacional do Fórum de Pró-Reitores de Extensão, devido às inúmeras viagens pelas IES, ainda que o Projeto tenha seguido nas mãos de um ex-aluno que passou em concurso para professor substituto) foram muitos. Contudo, muito provavelmente, a lição maior para todos tenha residido na criação coletiva de uma metodologia de pensamento e ação efetivamente vinculada ao nosso discurso acerca do ensino que consideramos adequado e necessário para a construção de sujeitos éticos, tecnicamente capazes e com responsabilidade social. Do Projeto destaco o nome do então aluno Achilles Delari Junior, hoje Psicólogo e Mestre em Psicologia Educacional, meu bolsista de Extensão, cujo brilhantismo já me encantou na época e me encanta até hoje, dado que é um dos maiores conhecedores da Psicologia Soviética no Brasil.

O Projeto foi reconhecido pela Pró-Reitoria de Extensão que o apresentou como modelo da UFPR em encontro de Extensão da IES da Região Sul e foi publicado, posteriormente, a convite, no livro Psicologia e Educação: multiversos sentidos, olhares e experiências, organizado pelas doutoras Cleci Maraschin, Lia Beatriz de Lucca Freitas e Diana Carvalho de Carvalho, na UFRGS, em 2003.

Na reflexão de 2003, sobre a experiência, cunhei o conceito de Didática Clínica, reforçando os vínculos entre teoria e prática, dando prioridade à prática, à intervenção ou à prática a explicar. Refiro-me também como parte do conceito a atitude de “curvar-se ao leito” como mola da ação docente, além da parceria efetiva com os alunos e professores do ensino médio, produzindo, na ação, conhecimento novo a ser disseminado.

Para alegria minha, em 2013, fui banca de uma defesa de Tese de Doutorado no Programa da UFMG , dentre os melhores da nossa área, cujo tema era a Didática Clínica nascida nos meus começos do exercício da formação de professores de psicologia.

Didática, Metodologia do Ensino Superior, Pedagogia Universitária

Queda permitido Que el pan de cada dia Tenga en el hombre la señal de su sudor. Pero que sobre todo tenga siempre el caliente sabor de la ternura. Thiago Mello

Dentre as disciplinas que ministrei na graduação, na especialização, no mestrado, no doutorado (Programa no qual ingressei em 2001) e para professores recém-ingressados na UFPR, em distintos momentos da vida acadêmica, encontram-se a Didática e a Metodologia do Ensino Superior. Da mesma forma, a Pedagogia Universitária tem sido campo sobre o qual me debruço desde 2001, sendo bolsista do CNPq desde 2010. Dentre os 192 bolsistas PQ2 do CNPq , na área da Pedagogia Universitária, sou a quinta pesquisadora em produção nacional.

Muito me orgulho da avaliação contumaz de meus alunos e orientandos de todos os níveis de ensino sobre minha capacidade de exercer o rigor acadêmico com amorosidade, característica que cultivo com a convicção de que “um galo sozinho não tece uma manhã” (MELO NETO, 2001, p. 157).

Mantendo na minha metodologia de ação docente a concepção de que ensino, pesquisa e extensão, no espaço da sala de aula, articulam a relação teoria e prática, pressuposto que defendi em minha aula de concurso para ingresso na universidade, destaco alguns dos trabalhos recentes que me parecem mais significativos:

VASCONCELLOS, S. T.; BAIBICH, T. M. Enredamentos entre leitura de imagens, produção de sentidos e politicidade. Revista GEARTE, v. 2, n. 2, ago. 2015.

ORTEGA, A.; BAIBICH, T. M. O Ensino do Desenho e a Formação do Arquiteto. In: BAIBICH, T. M (Org.). Educar em Revista, n. 57, jul. 2015.

ORTEGA, A; WEIHERMANN, S.; BAIBICH, T. M. Diálogos Gráficos: A Didática do Ateliê de Arquitetura. Revista Portuguesa de Pedagogia, Coimbra, n. 48-2, maio 2015.

FERRARO, S.; BAIBICH, T. M. O Desenho Artístico na formação do arquiteto: epistemologia da prática. Contrapontos (Online), v. 13, 2013.

BAIBICH, T. M.; SOMMER, L. H. Responsabilidade Institucional com a qualidade do ensino de graduação: pró-reitores em cena. Avaliação (UNICAMP), v. 17, 2012.

SOMMER, L. H.; BAIBICH, T. M. Ensino e Pesquisa e qualidade no ensino superior: discursos institucionais mitificando a relação. Porto, Portugal: Ed. O Porto, 2012.

BAIBICH-FARIA. T. M; CUNHA, M. I.; ZANCHET, B. M. B. A.; SOARES, S. R.; CÓSSIO, M. F. O espaço da pós-graduação em educação: uma possibilidade de formação do docente em educação superior: culturas e compreensões dos programas de pós-graduação em educação. In: Trajetórias e lugares de formação da docência universitária: da perspectiva individual ao espaço institucional. Junqueira e Marin, 2010.

BAIBICH, T. M. A Dimensão teórica da formação dos formadores em didáticas e práticas de ensino no pensamento contemporâneo e repercussões nas práticas de formação. Avaliação (UNICAMP), v. 14, 2009.

BAIBICH-FARIA, T. M.; CARVALHO, C.; VASCONCELOS, S. T. Método como conteúdo: uma experiência de ensino de pós-graduação. In: Saberes e Práticas no Ensino Superior. V. 1. Unijuí, 2008.

BAIBICH-FARIA, T. M.; MENEGHETTI, F. K. Metodologia do Ensino Superior ou ética da ação do professor? In: Saberes e Práticas no Ensino Superior. V. 2, Unijuí, 2008.

Neste tema de pesquisa, realizei um estágio pós-doutoral com a supervisão da professora doutora Maria Isabel da Cunha, em 2008, tendo participado do grupo de pesquisa por ela coordenado, desde aquele ano até outubro de 2014, quando me afastei para cuidar de minha mãe doente. A professora Mabel, sábia, generosa, endereço da Pedagogia Universitária Brasileira na avalição da comunidade acadêmica, afetivamente me ensinou e me ensina. Dos colegas do grupo com quem muito aprendi e aprendo, além da afetividade que nos une, me refiro à professora doutora Mari Margarete dos Santos Forster e ao professor doutor Luiz Henrique Sommer. Atualmente desenvolvo uma pesquisa intitulada Orientação de Doutorado: uma relação tão delicada. Nesta pesquisa dou continuidade aos estudos no campo da Pedagogia Universitária, adentrando de forma original no terreno da orientação de doutorado em Educação. As teses defendidas no tema são três: dois de professores da casa e a terceira de professora da UNESPAR/FAP . Dos três muito me orgulho e os nomino por ordem de suas defesas: Silvana Weihermann, Artur Renato Ortega e Sonia Tramujas de Vasconcelos. Atualmente oriento uma dissertação de mestrado, da aluna Fernanda Fausto de Almeida, sobre a Extensão Universitária em Curso de Música de Universidade Pública e abri vaga de doutorado para a próxima seleção.

Em 2009, fui afetada por um problema sério nas cordas vocais, o que me afastou da sala de aula, incialmente por um tempo e, a posteriori, definitivamente. Assim minha atividade docente, não sem muita dor vital, ficou restrita quase que totalmente à orientação e à escrita. Fosse pássaro me diria sem asas, fosse peixe me diria sem nadadeiras, sendo professora, bem avaliada por mim, pelos alunos e pelos pares, me digo sem voz no mais amplo sentido do termo. Entretanto, me reinventei e, via os modos possíveis, ensino, ensino e ensino sempre com repentes nos quais aprendo!

No campo de pesquisa da Pedagogia Universitária, refiro ainda outros três trabalhos, o primeiro na organização do número sobre Pedagogia Universitária da Educar em Revista, organizado por mim e pelas professoras Maria Isabel da Cunha da UNISINOS e Carlinda Leite da Universidade do Porto em Portugal, ambas como endereços da Pedagogia Universitária Ibero-Americana, no qual também tenho um artigo, já referido anteriormente, em coautoria com Artur Renato Ortega.

O segundo, mais um trabalho com doutorando apresentado na ANPED (o quarto!), este com Sonia Tramujas Vasconcellos, intitulado Contribuições e tensões da Pesquisa Baseada em Artes Visuais na Educação, minha mais recente doutorada, recentemente na 37ª Reunião na UFSC .

O terceiro, em coautoria com minha doutoranda Francisca Adma de Oliveira Martins e com a colega do Setor professora doutora Lígia Regina Klein, intitulado, “Às Margens da Educação: difícil acesso para quem? Por quê?”, publicado em setembro de 2015 na Revista Políticas Educativas (POLED), do Grupo Associación de Universidades Grupo Montevidéo.

Também no campo das Políticas Universitárias, com os professores do Curso de Arquitetura e Urbanismo, Artur e Silvana, meus ex-doutorandos acima citados, refiro um livro intitulado A Didática do Ateliê de Arquitetura a ser publicado em 2016 pela Editora Cortez em série dedicada ao ensino superior, em fase final de revisão pela Editora.

Dos alunos da pós-graduação cito três que, não tendo sido meus orientandos, marcaram minha docência: professora doutora Cristina Carta Cardoso, luz de aluna, hoje minha colega na Linha de pesquisa, professora mestre Noemi Nascimento Ansay, três vezes minha aluna, pessoa-poema, e professor doutor Ivo Dickman um genuíno freiriano que também é um doce em forma de guri.

E de ex-aluno que se transformou em filho, por dupla adoção e coautor, cito o hoje professor da UTFPR Francis Kanashiro Meneghetti.

O preconceito nosso de cada dia

Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos de prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados.

Guimarães Rosa

Meu projeto inicial de doutorado na USP estava relacionado a questões da Epistemologia Genética. Durante o curso, em disciplina sobre arte e loucura ministrada pelo doutor João Frayze, psicanalista, fiquei fortemente interessada em enfrentar o tema do preconceito, tema de ordem vital na minha condição de judia, do qual fugira até então. Solicitei troca de tema e de orientador, pedido aceito pelos orientadores e pelo Colegiado. Importantes colaboradores durante elaboração da tese foram o professor doutor José Henrique de Faria, pela orientação metodológica e pelo apoio afetivo, o professor doutor Sergio Feldman pelas aulas de cultura judaica e pelo mestre, em Relações do Oriente Médio, Mark Levy, e pelas, também, aulas de judaísmo e antissemitismo. Para cursar o doutorado, na época, tive concedidos seis meses de licença que utilizei para a escrita da tese.

A tese, publicada em livro sob o título de Fronteiras da Identidade: o auto-ódio tropical, no Programa de Psicologia Social, versou sobre o fenômeno do auto-ódio, cópia carbono do preconceito que o sujeito carrega dentro de si e que se manifesta, como defesa que se transforma em ataque, do preconceito nutrido contra si. Tanto o processo de elaboração da tese quanto o produto me orgulham sobremaneira. Um dos romancistas judeus contemporâneos estudados foi Moacyr Scliar Z”L, de cujo prefácio do livro busco um trecho:

A literatura, por outro lado, é um espelho privilegiado para o auto-ódio como mostra Tânia Maria Baibich neste original e inspirado trabalho. Baseando-se na obra de Samuel Rawet, Clarice Lispector, Bernardo Ajzenberg e no meu próprio trabalho (o que para mim é motivo de orgulho) a autora revela esta que é uma verdadeira “face oculta” do judaísmo no Brasil. [...] O auto-ódio é um fenômeno doentio, uma espécie de fundamentalismo em que o inimigo diabólico é o próprio grupo a que a pessoa pertence. Ao abordar este tema sombrio, a literatura nos ajuda a compreendê-lo. E o mesmo faz Tânia Maria Baibich que, nesta área, realiza uma verdadeira exegese. O resultado final é um trabalho rico não apenas em termos de análise literária como, sobretudo, pela mensagem humanística, iluminadora e até consoladora que transmite.” (SCLIAR, 2001SCLIAR, M. Prefácio. In: BAIBICH, T. M. Fronteiras da Identidade: o auto-ódio tropical . Curitiba: Moinho do Verbo , 2001., p. XI).

No ano de 2001, tanto no primeiro quanto no segundo semestre, ofereci um Seminário intitulado: “Da alteridade ao estigma contra si próprio: os prismas da intolerância no ‘País da Tolerância’ ou das consequências invisíveis do preconceito na Escola”.

E, em 2002, aprovei no Departamento um Projeto de Pesquisa intitulado: “Desenvolvimento de Metodologia de Pesquisa sobre formas do preconceito na escola.”

Desde então, os estudos sobre o Preconceito na Escola, passaram a constituir, juntamente com a Pedagogia Universitária, meus temas de Pesquisa. Neste mesmo ano, publiquei artigo na Revista Educar sobre o que chamei de “Fenômeno Fred Flintstone”, conceituando o “varrer o preconceito para debaixo do tapete”. Talvez dos conceitos criados por mim seja um dos mais conhecidos, quiçá com o auxílio da Hanna Barbera!

Durante um longo tempo pensei que teria que escolher um dos dois temas de pesquisa, dado que esta era a norma da maioria, mas o desejo me impedia. Entretanto, bem avaliada no tema da Pedagogia Universitária e sendo, dentre os 142 PQ2 do país, a primeira em produção no tema do Preconceito na Escola, me autorizei a seguir atuando em ambos.

Em 2003, na University of Michigan, junto ao Centro de Estudos Judaicos e ao Centro de Estudos Latino-Americanos, desenvolvi estágio pós-doutoral no tema do preconceito. Lá produzi material de estudo para alunos de graduação e de pós-graduação, compilando e traduzindo literatura de ponta, sistematizado em material intitulado: “Pensando Bem”, que aproveitei posteriormente com alunos de ambos os níveis.

Fato curioso que aconteceu em Ann Arbor, na University Michigan, foi ter sido convidada pela Biblioteca Central para uma reunião dos maiores usuários. Lá chegando, vi que éramos umas 12 pessoas, sendo que as demais eram, em sua maioria, funcionários das diversas bibliotecas. Fiquei muito feliz em observar que efetivamente eu estava aproveitando aquela maravilhosa base de dados.

Também em 2003, apresentei em Congresso Internacional um trabalho chamado: “Ensinando a Aprender o ‘antipreconceito’”, no qual refletia acerca da experiência que efetuara na pós-graduação, no seminário acima citado.

Durante o pós-doutorado escrevi, para meu Departamento, uma proposta de disciplina para a graduação acerca do Preconceito na Escola, cuja disciplina inexistia na UFPR, bem como em nenhuma outra universidade. A Plenária discutiu e sugeriu que eu montasse uma disciplina sobre Psicologia Social com um tópico sobre Preconceito, com a justificativa de que falar no preconceito poderia ser uma forma de promovê-lo. Discuti, por e-mail, argumentando que a literatura contemporânea aponta exatamente o contrário e deixando a Plenária decidir, mas me opondo de antemão a criar a disciplina sugerida. A Plenária anuiu com minha solicitação, entretanto, e vale sublinhar, no Setorial o tópico sobre os genocídios do século XX foi retirado dado “seu conteúdo muito forte”.

Não argumentei com o Setorial, dado que me interessava aprovar a disciplina; mas, obviamente, no espaço da sala de aula, trabalhei muitas vezes a história que, se não pensada, é repetida. Ressalto o fato, pois o reputo como ilustrativo acerca da didática sobre o preconceito.

De 2004 até 2009, quando impedida de usar a voz por problemas de adoecimento das cordas vocais, ministrei a disciplina como eletiva, tanto para a graduação quanto para a pós-graduação.

Mantendo a forma de trabalho, desenvolvi com alunos de graduação da disciplina uma pesquisa acerca do preconceito em relação aos alunos ingressados pelo PROVAR . O trabalho foi publicado pela RIES (UNICAMP, 2006) e fui chamada para debater nos Seminários sobre Democratização no Campus, desenvolvidos pelo INEP na gestão do professor doutor Dilvo Ristoff. O referido Seminário era constituído por 15 especialistas em avaliação da educação superior reunidos em Brasília para três dias de debates. Três especialistas, no primeiro dia, foram convidados a apresentar um trabalho sobre o tema. O nosso foi um dos trabalhos convidados e posteriormente a discussão foi publicada pelo MEC.

Entre 2004 e 2009, também efetuei consultoria e assessoria permanente à SEED e ao Departamento de Diversidade que contou, nos seus quadros diretivos, com a participação de mestrandos e doutorandos meus.

Esta minha linha de pesquisa já formou cinco mestrandos, quatro doutorandos e uma pós-doutora. Sendo que, dentre eles, o primeiro e único doutor negro do município de Araucária, a primeira doutora quilombola do país e a primeira surda doutora da UFPR e a primeira pós-doutora surda do país. Dos doutores, uma é professora na UTFPR, um na UEL , um em Tocantins, e cinco no estado do Paraná. Agradeço a convivência ensinadora e as lições de coragem dos hoje mestres e doutores: Claudemir Onassayo Figueiredo, Edimara Gonçalves Soares, Jair Santana, Janeslei Albuquerque, Maria José Domingues da Silva Giongo, Sílvia Andreis Witkoski e Wagner Roberto do Amaral. Atualmente oriento a dissertação da aluna Ana Carolina Moura Melo que trabalha com adolescentes negras de escolas públicas e o preconceito, tendo aberto vaga de doutorado para a próxima seleção.

À Silvia, minha ex-doutoranda e ex-supervisionanda de pós-doutorado, agradeço também a honraria de haver me batizado junto ao povo surdo com o sinal da letra T no local onde se sinaliza amor e ética, nome do qual muito me orgulho.

As minorias trabalhadas foram quilombolas, professoras negras, alunos negros, alunos surdos e alunos indígenas no nível universitário.

Trabalhar com o preconceito, é preciso que se diga, é trabalhar com quem, em geral, como a Macabéa da Clarice Lispector, se dói o tempo inteiro. Assim, tanto a disciplina quanto as orientações, muitas vezes contaram com sujeitos cuja história de vida é a história do desprezo, a história da marginalidade, a história daquele que é tido e tratado como inferior. Quem chegou ao mestrado, ao doutorado e até ao pós-doutorado chegou como sobrevivente e ainda que a universidade pública possa eventualmente acolhê-los, nosso pensar tem que ser sobre e para a multidão que, se não cuidada a tempo, não sobreviverá.

Uma ex-mestranda e ex-doutoranda me disse recentemente: “professora tu tinhas que pensar ao mesmo tempo em ensinar, orientar, dar de comer, de vestir, arranjar onde morar, arranjar computador... Como tu fazias?”

Em nossa Linha de Pesquisa, no Programa de Pós-graduação, somos vários colegas lidando com esta realidade e a micropolítica nos demanda dar conta dela como Robin Wood, ou, pelo menos, tentar dar conta dela.

No âmbito da atuação política mais ampla, há um importante caso na UFPR de um professor, agora aposentado, que reiteradamente atuava preconceituosamente no âmbito de seu curso e, quando fui procurada com denúncia, junto com os denunciantes, fizemos um grande movimento que contou com apoio de professores do Setor de Educação, com destaque ao professor doutor Marcus Levy - sempre presente na luta pela justiça -, do Curso de Psicologia, com destaque a então coordenadora do Curso professora Joanneliese Freitas, à professora doutora Lídia Dobrianskyj Weber e ao ex-Chefe de Departamento professor doutor Adriano Holanda, de Centro Acadêmico da Psicologia, de alunos, dos coordenadores do Núcleo de Direitos Humanos na UFPR, professor doutor José Antônio Peres Gediel e o professor doutor Pedro Rodolfo Bodê de Moraes. O processo de sindicância, fartamente documentado, engavetado durante bom tempo em mais de uma instância da universidade, foi concluído de forma inócua e arquivado. Entretanto, o professor entrou na justiça criminal contra mim por injúria e difamação, sendo que o Ministério Público e a juíza entenderam que valia a máxima da exceção da verdade, ou seja, eu é quem estava com a razão com o que dissera e o que fizera; e o dito professor só não restou processado porque as vítimas dos atos preconceituosos não formularam representação no prazo decadencial de seis meses.

A atitude de espectadora, para mim, na universidade pública, é a atitude cúmplice. Entretanto, o custo para a saúde e a segurança de uma atitude como esta é muito alto e o preconceito institucional é muito forte.

As produções resultantes destas lutas e estudos são várias e elenco algumas que me parecem mais significativas.

Em 2014 lancei, pela editora Unijuí, com o apoio do CNPq e do Museu do Holocausto de Curitiba, um Dicionário, o primeiro no país, com os conceitos criados em nossos trabalhos sobre preconceito na escola.

Além dos livros, o relativo à minha Tese e ao Dicionário, também refiro:

BAIBICH, T.M. Preconceito na Pós-graduação stricto sensu: um caso de estudante surda em Curso de Doutorado. In: WITKOSKI, S. A. (org.). Educação de Surdos em Debate. Editora da UTFPR, 2014.

AMARAL, W. R.; BAIBICH, T. M. A política pública de ensino para povos indígenas no Paraná: trajetórias, desafios e pertencimentos. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (impresso), 2012.

SANTANA, J.; BAIBICH, T. M.; FIGUEIREDO, C. O. A Lei 10.639/03 e a folclorização racista. Pesquisaeduca, 2010.

SOARES, E. G.; BAIBICH-FARIA, T. M. Da infância no Quilombo à infância na Escola: Identidade e Preconceito. ANPED SUL, 2010.

BAIBICH-FARIA, T.M.; MENEGHETTI, F. A Escola de Frankfurt e o Antipreconceito. Espaço Pedagógico, 2005.

Gestão, representação e política universitária é acadêmico

[...] Eles passarão eu passarinho! Mário Quintana

No período da Gestão Faria, entre 1994 e 1998, estive no cargo de pró-reitora de Extensão e Cultura. Foi dos períodos profissionais mais profícuos da minha vida. Ombro a ombro com a professora doutora Yvelise de Freitas Souza Arcoverde, que se transformou em irmã, a técnica administrativa Jorlene Kultchek, também amiga para sempre, como minha secretária, e uma equipe afinada e criativa, revolucionamos, na práxis, a concepção de Extensão Universitária, inserindo-a de forma irreversível como transformadora do ensino e da realidade e produtora de conhecimento novo.

Dentre as ações que destaco das muitíssimas de muitas outras de tanta importância, refiro: as mudanças regimentais da política de extensão da universidade, a avaliação de toda a extensão com discussão junto à comunidade e produção de material teórico sobre a mesma, discutida em cada Setor com especialistas de fora; o trabalho junto aos movimentos sociais, coordenado pela professora doutora Milena Martinez, companheira de lutas, a produção do Mapa da Fome de Curitiba com o IPARDES , do Caderno de Mediações Fundiárias, dos Cadernos de Avaliação da Extensão; do Caderno do Trabalho de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente, resultante de trabalho junto aos 13 CAICS do estado, os CDs do Festival da Canção da Universidade realizado em três edições; da criação do Teatro Escola; da recuperação do Teatro da Reitoria; além dos Festivais de Inverno e outras ações que foram criadas na gestão anterior.

No primeiro ano da gestão, fui eleita pelos pares da região Sul como coordenadora do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas, no segundo e no terceiro fui eleita Presidente Nacional. Ao professor doutor Ricardo Vieira Alves de Castro, atual reitor reeleito da UERJ, que me antecedeu na Presidência, agradeço, além da amizade, uma frase que até hoje muito me ensina: “o mais difícil da gestão acadêmica é gerir os pares”.

Na qualidade de Presidente, desenvolvi intensa ação político-acadêmica junto ao MEC, a ANDIFES , a ABRUEM , aos demais fóruns de pró-reitores, ao FNDE , ao governo federal (fomos o único fórum na gestão Fernando Henrique Cardoso a manter financiamento para projetos), à Capes, às várias IES (as quais assessorei), ao PAIUB (do qual participei durante dois anos, tendo a honra de ter sido presidida pelo professor doutor José Dias, à época da Unicamp, com quem muito aprendi), à Comissão de Desenvolvimento Acadêmico da ANDIFES (tendo o privilégio de ter sido presidida pelo então reitor da UFBA, professor doutor Luiz Felippe Perret Serpa Z”L, com quem muito aprendi durante os dois anos de trabalho), do Comitê Nacional dos Cadernos de Extensão, entre outros.

À época recebi da UFRGS a Medalha de Honra ao Mérito pelos préstimos à Extensão Universitária.

Em 1996, experimentei uma situação altamente desafiadora. A Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS me convidou para avaliar in loco sua Semana de Extensão Universitária, durante os três dias de atividades, exposições, apresentação de trabalhos e palestras, apresentando os resultados da avaliação em palestra de encerramento da Semana. O texto correspondente foi publicado com o título “Cultura, Universidade e Sociedade: Avaliando as atividades extensionistas da UFRGS”, nos Cadernos de Extensão da Universidade, como o primeiro texto do Caderno I, Ano I, de 1996. A experiência, que foi altamente estimulante, recebeu uma linda cereja ao final de sua apresentação para um público que lotava o teatro de congressos, inclusive com a presença do reitor, professor doutor Hélgio Trindade, importante intelectual e gestor universitário. Na plateia, encontrava-se a professora da primeira série do ginásio do Aplicação, Vera Russomano Pires, que passara um ano inteiro tentando me ensinar que “muito ótimo” era uma expressão que não existia. Bem, ao final da palestra, disse ao microfone: “Tânia muito ótima és tu”. Como diria o poeta da terra, a mensagem ficou “[...] depositada no meu ferro-velho sentimental. Aqui, parada, sonhando. [...]. (QUINTANA, O Bonde).

Como publicações do período, refiro:

O Perfil Nacional da Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (BAIBICH, SESU/ MEC,1995).

O Perfil da Extensão das Universidades Públicas da Região Sul (BAIBICH, T. M E GUIMARÃES, A. M.).

Em 1997 fui convidada pela reitora da UFRGS, professora doutora Wrana Panizi, e pelo então coordenador do curso de Psicologia, doutor Luis Osvaldo Leite, para ser cedida pela UFPR tanto para atuar como assessora da Reitoria quanto junto ao Curso de Psicologia. Confesso ter ficado muito tentada a aceitar o convite, mas, por questões de ordem pessoal, acabei decidindo não o aceitar, ficando, entretanto muito honrada.

Não poderia deixar de referir que o fato de estar apaixonada pelo então reitor que, posteriormente viria a ser meu marido, mas que quando do início da relação, como eu, também era casado, foi contundente tanto para a energia que me abastecia em borbotões para trabalhar - dada a paixão que se espraiava - quanto para que minha competência fosse desmerecida durante parte da gestão. Creio que a repercussão nacional do trabalho, e a minha, como as mudanças concretas na extensão da universidade contribuíram para que César recebesse o que lhe era devido.

No ano de 2007, estive à frente da coordenação do PPGE e tive o privilégio de homenagear os colegas que me antecederam comemorando o 20º aniversário do Programa.

Contei, na secretaria, com a colaboração técnica e o carinho da secretária Darci Tissi, fundamental para o bom andamento do Programa. Em 2008 perante a atitude considerada por mim como falta de ética da colega que ocupava a vice-coordenação, pedi publicamente exoneração do cargo. Também aqui houve alto preço para a saúde ainda que, como sempre, aprendizagem da natureza humana.

Do tempo da coordenação, refiro as seguintes publicações:

BAIBICH-FARIA, T.M. O Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR: 20 anos de lutas e conquistas. Educar em Revista, v. 29, 2007.

BAIBICH-FARIA, T.M.; FARIA, J.H., ZORZETTO FILHO, D. Trabalho docente em pós-graduação stricto sensu em educação: da síndrome datacapes à síndrome do estoicismo hercúleo. In: Pesquisa, educação e inserção social: olhares da região Sul. Editora da Ulbra, 2008.

Ainda na política universitária, gostaria de referir que em três greves fui membro da Comissão de Ética que, por sua vez, participa da coordenação do movimento. No nível sindical, gostaria de agradecer meus grandes professores, Lafaiete Neves e Milena Martinez, ambos aposentados, mas sempre atuantes. Também à época escrevi uma análise acadêmica sobre a ética na greve, texto que, infelizmente, não consegui recuperar. Entretanto, a lembrança do texto me indica - dado o sublinhar da memória - o quanto considero que a gestão universitária, formal ou sindical, não é descolada da produção acadêmica, sob pena de, em caso contrário, pasteurizar-se como uma gestão qualquer.

Nas eleições para a Reitoria, com o colega e amigo professor doutor Gilberto de Castro, coordenei a agenda do candidato na campanha do reitor Faria e coordenadora de campanha na candidatura do professor Francisco de Assis Marques, o Tic, importante pesquisador sobre a Aranha Marrom, do Departamento de Química.

Como representação da Universidade Federal do Paraná além do já citado, me apraz referir que desde 1996 sou Membro do Conselho Consultivo da Revista Pátio, da Editora Artmed; atuo como representante da Comissão de Bolsas para o Exterior, de alunos do Programa de Pós-Graduação da UTFPR, desde 2013; e também desde 2013 sou representante para as áreas de Psicologia e Educação junto à Fundação Araucária.

Todas as experiências em conselhos, Setorial quando coordenadora do PPGE; CEPE quando pró-reitora (sem voto mas com voz); Comitê de Extensão, quando pró-reitora; de Colegiado do PPGE (como representante de Linha e como coordenadora); no Comitê Nacional no Fórum de Pró-Reitores de Extensão e na CPPD; Comissão de Avaliação do PPGE como representante de Linha e como coordenadora; Comissão de Bolsas do PPGE, como representante de Linha e como coordenadora; na Plenária Departamental (até ser proibida quando da reabilitação ao trabalho com restrição) me ensinaram a importância da gestão colegiada com a possibilidade de recurso em nível superior. Agradeço aos colegas de todos os Conselhos aos quais pertenci e muito especialmente aos do meu Departamento, lócus de importantes embates enquanto pude frequentá-lo. Alguns amigos para a vida inteira encontrei lá.

Projeto gestão participativa e docência para a transformação: São Tomé e Príncipe - África

Se a água já me dá pelas barbas: Leve-leve... Se o fogo que já ronda o telhado: Leve-leve... Se o mar já se está a meter pela terra dentro: Leve-leve... E assim por diante, leve-leve, leve-leve, leve-leve...

Armindo Vaz

A convite do Itamaraty/MEC, tive a oportunidade, juntamente com a professora doutora Yvelise Arcoverde, de desenvolver com os professores de São Tomé e Príncipe, de 1997 a 1999, um Projeto de cooperação visando buscar, em conjunto, melhorias para a educação do país.

A República Democrática de São Tomé e Príncipe, à época, era considerada como pertencendo ao grupo de países de desenvolvimento humano baixo e possuía a segunda maior dívida do mundo. Dez por cento da população fazia uma refeição por dia e mais de 50% faziam duas, 100% das crianças tinham parasitas intestinais e o paludismo mantinha uma prevalência da ordem dos 87%, sendo responsável por 50% da mortalidade infantil.

Na Educação apenas 15% dos professores possuíam alguma formação, sendo que o único curso de ensino superior era recente e só havia cinco escolas de ensino médio. Contrariamente aos demais países africanos, que destinavam 3% do PIB para a educação, lá apenas 0,4% tinha esta destinação. Os dados do Banco Mundial indicavam que os professores eram os mais mal pagos do mundo (4 a 8 dólares/mês) e que o programa de merenda da Unicef havia sido cortado por mau gerenciamento.

Entre 1991 e 1998, o país contou com seis governos. O índice de analfabetismo beirava os 50%. Trabalhamos com a difícil realidade das 36 escolas do país, em duas idas nossas e uma vinda, de um mês, de professores da Educação Básica.

Aprendemos muito e, ainda que com intenso empenho e belo desenvolvimento do Projeto, analiso hoje que sequer arranhamos a realidade. Entretanto, estivemos na qualidade de convidadas na II Conferência de Ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em Brasília; fomos ao congresso latino-americano de extensão em São Paulo; fomos à Anped, enfim, o Projeto, desenvolvido com toda boa intenção e substrato teórico, não me parece um projeto viável, mas sim uma forma de mexer para manter tudo como está.

Saúde e doenças na vida universitária

Em cada um de nós coabitam, de maneira mais arbitrária, a justiça e a impunidade [...] Conforme o caso - e Deus nos livre -, todos somos capazes de tudo.

García Márquez

Nestes 26 anos de UFPR, com intensa vivência, também em âmbito nacional, me parece imprescindível compartilhar um encanto e um espanto do ponto de vista da solidariedade, do respeito, da convivência com as diferenças, da justiça, do amor e do ódio.

Há 14 anos, faço parte da Linha de Pesquisa hoje denominada Cultura, Escola e Ensino no Programa de Pós-Graduação em Educação. A linha foi criada e tem como alicerce, até hoje, três professoras doutoras, a saber em ordem alfabética: Leilah Santiago Bufrem, Maria Auxiliadora Schmidt e Tânia Maria Braga Garcia. Por mais incrível que possa parecer, a cooperação, a solidariedade, o respeito e o bem querer são atributos vivenciados todos esses anos, neste fórum, ainda que o espaço do conflito seja acolhido e preservado. Tenho profunda admiração pelo legado que as colegas deixam para nós professores e para nossos alunos e vejo com muita esperança o fato de que façamos por manter vivos os princípios que foram cultivados desde o início. Esta Linha me encanta.

Enquanto tenho o privilégio de escrever minhas memórias da vida acadêmica, pretendendo alçar o último degrau da carreira, há uma colega, renomada intelectual recentemente aposentada por doença devido a uma brutal violência sofrida no seio do nosso trabalho.

Falo da professora doutora Lígia Regina Klein, acusada de preconceito, julgada de antemão por colegas e alunos como culpada, difamada e queimada viva na fogueira perante um sem-número de espectadores.

Inocentada em todos os graus da justiça, desenvolveu um quadro emocional incapacitante a ponto de a Junta Médica da UFPR determinar que teria que se aposentar com 70% do valor do seu salário.

Na qualidade de intelectual, na acepção cunhada por Zolá: J’accuse.

Prazer em conhecer

[...] a única viagem da qual nem sempre voltamos de mãos vazias é a viagem para dentro de nós mesmos, onde não há fronteiras nem alfândega e podemos chegar até as estrelas mais distantes. Ou passear por lugares que já não existem, visitar pessoas que já não existem. Até entrar em lugares que nunca existiram, e talvez não tenham podido existir, mas onde me sinto bem.

Amós Oz

Dentre os muitos projetos e programas desenvolvidos quando na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, uma das ideias que muito gostei de ter tido foi a de um Projeto batizado com o nome de “Prazer em Conhecer”. Consistia no seguinte: cada vez um dos nossos grupos artísticos, de surpresa, fazia miniapresentações nos campi da universidade. Eu fazia questão de estar presente pelo presente que me sentia ganhando com aquela oportunidade de presentear, com o que já era nosso, a cada um de nós.

Na novela El Temblor del héroe, de Alvaro Pombo, Prêmio Nadal de 2012POMBO, Á. El Temblor del heróe. Barcelona: Ediciones Destino, 2012., há uma passagem que fala da “grandeza de ánimo [que] era nuestra por derecho desde un principio, solo que había paradójicamente que esforzar-se em alcanzarlo que ya era nuestro desde siempre.” (POMBO, 2012POMBO, Á. El Temblor del heróe. Barcelona: Ediciones Destino, 2012., p. 176).

O Memorial Descritivo da vida acadêmica, entre o que proporciona de formal e de vital, dá oportunidade ao autor, quem sabe como no autorretrato, de olhar para a peça que o encena tanto de um plano universal quanto em close.

Pelas defesas inexoráveis da própria condição humana o que se vê (mostra) é muito mais as veias do que as vísceras. Como referia de um começo, há uma montagem de uma vitrine e, ainda que o próprio estoque seja a fonte, de lá se escolhem apenas partes.

Posso dizer que a visão do estoque em sua inteireza me agradou, tanto por suas dimensões quanto por sua profundidade e grau de integração. Há nexo entre mim e eu mesma, entre meu pensamento e minha ação, entre o que sinto e o que ensino. A bandeira que desfraldo tremula também dentro de mim, há coerência, há substância, há identidade, há estética, há ética, há justiça, há energia, há afetividade, há amigos.

Todas essas qualidades foram forjadas ao longo da vida, mantendo sempre a chama intrínseca de um sujeito em ação, de um projeto em desenvolvimento, característica que reconheço minha e pela qual dou muitas “gracias a la vida” (PARRA, 2011PARRA, V. Gracias a la vita. 2011. Disponível em: <Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=w67-hlaUSIs >. Acesso em: 25 fev. 2017.
https://www.youtube.com/watch?v=w67-hlaU...
).

Mas, e mais agora, ao colocar o artificial ponto final nesse exercício de reflexão, tenho consciência dos limites que a memória, os frios documentos, a inexistência de verdades, a ideologia, os afetos e a própria condição de narrativa impõem à consecução de um Memorial Descritivo. Sinto-me agora também ainda mais sabedora das faltas, excessos, fragilidades que minha trajetória contém.

Sabia de um começo que a emoção desse trabalho somar-se-ia algo temerário, mas, como na música que constitui parte de meu DNA: “Barbaridade, isso é bão que mete medo e o que mete medo é bão. Isso é bão, barbaridade”.

Dizem que finjo ou minto Tudo o que escrevo. Não. [...]. Fernando Pessôa

Agradecimentos

Às netas e aos netos que já chegaram e aos que virão - inspiradores do meu amor maior - com o desejo de que construam seu próprio caminho e possam olhar para ele com orgulho, como olho para o meu.

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Sep 2017

Histórico

  • Recebido
    03 Mar 2017
  • Aceito
    05 Mar 2017
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