Os quadrinhos de Caxuxa e suas mensagens às crianças: considerações a respeito do corpo infantil na revista “Cirandinha” (anos de 1950)

Fernanda Theodoro Roveri Maria Walburga dos Santos Sobre os autores

RESUMO

A revista “Cirandinha” circulou no Brasil nos anos de 1950 e tinha como objetivo a instrução e a diversão de meninas. Durante cerca de uma década, essa publicação veiculou maneiras específicas de ser, de sentir e de se comportar às leitoras, participando da educação da infância. Este artigo discute uma das histórias em quadrinhos publicadas pela ilustradora Giselda Melo, da personagem Caxuxa, uma menina negra. Os objetivos são identificar e analisar os processos históricos-pedagógicos de educação do corpo infantil, tendo como perspectiva as representações da infância nos textos e nas imagens da revista. As peripécias da personagem Caxuxa, manifestadas em seus gestos, falas e comportamentos, permitem uma discussão, no âmbito da história cultural, de suas ambiguidades, rupturas e contradições em relação aos valores e às lições moralizantes difundidos em outras seções da revista. Como resultado, conclui-se que Caxuxa é uma personagem expressiva para a compreensão dos processos educativos mais amplos que se inscrevem sob os corpos na infância.

Palavras-chave:
Educação do corpo; Infância; Revistas infantis

ABSTRACT

Cirandinha magazine circulated in Brazil in the 1950s and aimed to educate and entertain girls. For about a decade, this publication conveyed specific ways of being, feeling, and behaving to readers, taking part in childhood education. This article discusses one of the comics published by illustrator Giselda Melo, presenting Caxuxa, a black girl. The objectives are to identify and analyze the historical and pedagogical processes of children’s body education using childhood representations in the magazine’s texts and images. The adventures of Caxuxa, manifested in her gestures, speeches, and behaviors, allow a discussion, in the context of cultural history, of her ambiguities, ruptures, and contradictions when compared to the values and moralizing lessons disseminated in other sections of the magazine. As a result, we conclude that Caxuxa is an expressive character for understanding the broader educational processes inscribed underbodies in childhood.

Keywords:
Body Education; Childhood; Children’s Magazines

A revista “Cirandinha” circulou no Brasil nos anos de 1950 e tinha como intuito tanto a instrução quanto a diversão de meninas. Durante cerca de uma década, essa publicação veiculou maneiras específicas de ser, de sentir e de se comportar às leitoras, educando-as para que correspondessem aos papéis sociais que lhes eram esperados. Considerando que a revista participou da educação da infância daquele período, apresentaremos uma das histórias em quadrinhos publicadas pela ilustradora Giselda Melo, a da menina negra Caxuxa. Os objetivos são identificar e analisar os processos históricos e pedagógicos de educação do corpo infantil, tendo como perspectiva as representações da infância nos textos e nas imagens da revista. Para isso, o corpus documental deste artigo é constituído por 16 exemplares de “Cirandinha”, presentes no Arquivo Edgard Leuenroth do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH-Unicamp) e em acervo pessoal. O levantamento bibliográfico circunscreve-se aos anos de 1950, década de publicação da revista; por meio dele, foram localizadas 14 histórias de Caxuxa.

Tendo como referência essas histórias em quadrinhos, analisaremos as práticas corporais e as formas de representação da infância, manifestadas nos gestos, nas falas, nas roupas, no comportamento e nos modos de socialização propostos. Compreendido para além de sua condição fisiológica, o corpo é marcado, desde a infância, por diversas pedagogias e carrega as marcas dos processos vividos culturalmente. Como destaca Carmen Soares (2003SOARES, Carmen Lúcia. Apresentação. Pro-Posições, Campinas, v. 14, n. 2, p. 15-19, 2003. (Dossiê: A Visibilidade do Corpo). Disponível em: Disponível em: https://www.fe.unicamp.br/pf-fe/publicacao/2189/41-dossie-soarescl.pdf . Acesso em:27 jul. 2020.
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, p. 15), “em sua visibilidade, o corpo permite, alegoricamente, ser interpretado e lido como texto escrito pela sociedade à qual pertence”.

Podemos falar, assim, de um processo de educação que marca o corpo da criança por meio de códigos, práticas, técnicas, discursos, políticas, pedagogias e processos culturais mais amplos que circundam os indivíduos e que nem sempre são facilmente percebidos (SOARES, 1998SOARES, Carmen Lúcia. Imagens da Educação no Corpo: Estudo a Partir da Ginástica Francesa no Século XIX. Campinas: Autores Associados , 1998., 2003, 2014; MORENO; SEGANTINI, 2008; ROCHA, 2009ROCHA, Heloísa Helena Pimenta. Entre a ortopedia e a civilidade: higienismo e educação do corpo no Brasil. Historia de la Educación, Salamanca, v. 28, p. 109-134, 2009. Disponível em:Disponível em:https://revistas.usal.es/index.php/0212-0267/article/view/10264 . Acesso em:20 set. 2020.
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; SANT’ANNA, 2007SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Uma História do Corpo. In: SOARES, Carmen Lúcia (org.). Pesquisas sobre o Corpo: Ciências Humanas e Educação. Campinas: Autores Associados, 2007. p. 67-80.; VAZ, 2003VAZ, Alexandre. Educação do Corpo, Conhecimento, Fronteiras. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 24, n. 2, p. 161-172, jan. 2003. Disponível em:Disponível em:http://revista.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/view/364 . Acesso em:20 set. 2020.
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). Tal como define Carmen Soares (2014SOARES, Carmen Lúcia. Verbete: Educação do Corpo. In: GONZÁLEZ, Fernando Jaime; FENSTERSEIFER, Paulo Evaldo(org.). Dicionário crítico de educação física. 3. ed. Ijui: Editora Unijui, 2014. p. 219-225., p. 219),

Compreendida como uma noção, a educação do corpo remete-nos à necessidade de precisar os elos entre corpo e educação para além da escola e implica seguir traços, apreender vestígios, esboçar contornos nem sempre nítidos, nem sempre visíveis e, mesmo, compreendidos como educativos. Trata-se, portanto, de decodificar nossa singularidade corporal e analisar como ela vem sendo investida, desde a infância e ao longo de toda a nossa vida, pelas marcas da cultura [...].

Nesse processo de educação que acontece para além da escola, podemos situar as revistas infantis como lugares de prescrição e veiculação de modos de falar, de caminhar, de comer, de vestir-se e de cuidar-se, elaborando aparências, condutas e comportamentos aceitos socialmente, tanto para as esferas da vida privada quanto da vida pública, a partir de marcadores ideológicos e das concepções vigentes. Assim, suas páginas permitem uma compreensão acerca dos modos como as sociedades e culturas constroem representações, imaginários e sentidos ao mundo, manifestados em palavras, objetos, imagens, práticas e discursos (PESAVENTO, 2005PESAVENTO, Sandra Jathay. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.).

As revistas, parte da cultura material, são importantes fontes de investigação, pois permitem acessar múltiplos aspectos da vida social (LUCA, 2005LUCA, Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos Periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi(org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. p.111-153.). Ao elegermos a revista como fonte de análise de práticas, comportamentos e ideias, temos como pressuposto que toda publicação é fruto de motivações diversas. A acelerada urbanização ocorrida entre o fim do século XIX e início do XX fez com que aparecessem diferentes tipos de impressos para diferentes públicos - revistas femininas, romances, material escolar, livros infantis, semanários etc. -, marcando os espaços e as sociabilidades de distintas esferas, como as ruas, as casas, os transportes, as escolas, as praças, dentre outras. A circulação da imprensa não se voltava apenas aos leitores adultos. As crianças também faziam parte dos temas de diversas publicações, aparecendo em anúncios publicitários, fotografias, histórias, prescrições médicas e páginas recreativas. Tendo como perspectiva os estudos de Roger Chartier (1991CHARTIER, Roger. O Mundo como Representação. Estudos Avançados, São Paulo, v. 5, n. 11, p. 173-191, abr. 1991. Disponível em:Disponível em:http://www.revistas.usp.br/eav/article/ view/8601/10152 . Acesso em:10 maio 2018.
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, 2002), podemos pensar na representação como um instrumento teórico-metodológico para a apreensão das classificações e das exclusões que constituem as configurações sociais, próprias de um tempo ou um espaço. De acordo com o autor, as representações são determinadas pelos interesses dos grupos que as forjam e são sempre colocadas num campo de concorrências e de competições. Nesse aspecto, consideramos a análise dos processos pelos quais a revista, um bem simbólico, constrói sentidos para a infância, lançando mão de práticas discursivas produtoras de ordenamento, de afirmação, de distâncias e divisões (CHARTIER, 2002CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre Práticas e Representações. 2. ed.Lisboa: Difel, 2002.).

Ressaltamos que, ao analisar o processo de representação, temos em conta que os leitores atribuem sentidos diversos aos textos dos quais se apropriam, visto que a leitura não é uma atividade passiva, mas “uma prática encarnada em gestos, espaço e hábitos” (CHARTIER, 1991CHARTIER, Roger. O Mundo como Representação. Estudos Avançados, São Paulo, v. 5, n. 11, p. 173-191, abr. 1991. Disponível em:Disponível em:http://www.revistas.usp.br/eav/article/ view/8601/10152 . Acesso em:10 maio 2018.
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, p. 178). No entanto, não examinaremos neste artigo a apropriação que os leitores faziam dessas revistas, o que envolveria um estudo das sensibilidades e dos processos de interpretação, atrelados aos usos e às significações, os quais podem ser múltiplos e móveis.

Ao analisarmos os discursos literários de “Cirandinha”, consideramos que eles foram organizados e produzidos por adultos, os quais dimensionam uma narrativa a respeito da infância e daquilo que se imaginam como próprio para as crianças. Assim, é importante sublinhar que, ao olharmos para essas publicações, deparamo-nos com afirmações e lacunas que trilham a história da infância. Cabe considerar que as crianças, suas experiências históricas e as produções a elas destinadas são, muitas vezes, apagadas das memórias sociais (LE GOFF, 1992LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.). Tal invisibilidade pode ser percebida também em relação aos sujeitos femininos, conforme problematiza Silvana Goellner (2007GOELLNER, Silvana Vilodre. Feminismos, Mulheres e Esportes: Questões Epistemológicas sobre o Fazer Historiográfico. Movimento, Porto Alegre, v. 13, n. 2, p. 173-196, abr. 2007. Disponível em:Disponível em:https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/3554 . Acesso em: 12 set. 2020.
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), ao tratar das mulheres na produção historiográfica. A autora ressalta a importância de diálogos da história com outros campos, como a literatura e os estudos de gênero e feministas, a fim de trazer abordagens plurais e capazes de conferir visibilidade às experiências, vidas e linguagem das mulheres. A invisibilidade de crianças negras é ainda maior. Suas imagens, no campo da publicidade ou em outros, têm sido representadas tanto de forma estereotipada ou ausente quanto pendendo “para um discurso da neutralidade, no qual o negro aparece sem que sua diferença faça diferença alguma” (ABRAMOWICZ; JOVINO; CAVALLEIRO, 2018ABRAMOWICZ, Anete; JOVINO, Ione da Silva; CAVALLEIRO, Eliane. Um debate sobre a representação e o protagonismo da criança em imagens. In: SANTOS, Maria Walburga dos; TOMAZZETTI, Cleonice Maria; MELLO, Suely Amaral (org.). Eu ainda sou criança: educação infantil e resistência. São Carlos: Edufscar, 2018. p. 265-280., p. 273).

Tendo em vista a problemática aqui circunscrita, algumas questões podem ser colocadas, tais como: quais marcas de uma educação do corpo podem ser apreendidas nos diálogos, nas expressões, nas aparências e nas paisagens que se desenham nas histórias em quadrinhos de Caxuxa? Como esses quadrinhos se entrecruzavam aos outros discursos de “Cirandinha”? E, ainda, qual o ideário de infância que a revista constrói? Diante disso, apresentaremos as publicações infantis da editora O Malho, discorrendo acerca das perspectivas literárias configuradas em suas páginas. Em seguida, discutiremos algumas histórias em quadrinhos da personagem Caxuxa, analisando os modos de ser criança expressos tanto por essa personagem quanto pelas demais meninas retratadas na revista. A partir de uma discussão acerca da representação das crianças negras, apresentaremos alguns aspectos sobre o lugar da personagem Caxuxa na revista. Por fim, retomando o propósito educativo de “Cirandinha”, apresentaremos algumas considerações sobre a educação do corpo e da feminilidade na infância, bem como as expectativas em torno da representação da criança ideal nessa revista.

Uma leitura só para meninas: os discursos literários da revista “Cirandinha

A revista “Cirandinha” faz parte da editora carioca O Malho, que, desde o início do século XX, publicava “O Tico-Tico”, considerado o primeiro periódico com histórias em quadrinhos voltado às crianças brasileiras. Quase cinquenta anos após a publicação da revista “O Tico-Tico”, a mesma editora lançou “Cirandinha”, anunciada em abril de 1951 como a primeira revista mensal do país só para meninas. O editorial do primeiro número menciona que a nova revista representava um gesto arrojado de seus produtores, destacando que “as meninas de nossa terra não tinham, até agora, uma revista só delas, feita para elas e como todas desejavam” (CIRANDINHA, 1951CIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, abr. 1951.). A publicação totalizou 59 edições e, assim como “O Tico-Tico”, circulou até o ano de 1958 (ROSA, 2002ROSA, Zita de Paula. O Tico-Tico: meio Século de Ação Recreativa e Pedagógica. Bragança Paulista: Edusf, 2002.; ROVERI, 2014ROVERI, Fernanda Theodoro. Criança, o botão da inocência: as roupas e a educação do corpo infantil nos “anos dourados”. 2014. 190f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2014.; VERGUEIRO; SANTOS, 2008VERGUEIRO, Waldomiro; SANTOS, Roberto Elísio dos. A Postura Educativa de O Tico-Tico: uma Análise da Primeira Revista Brasileira de Histórias em Quadrinhos. Comunicação & Educação, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 23-34, ago. 2008. Disponível em: Disponível em: http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/42300 . Acesso em:17 mai. 2018.
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).

As capas de “Cirandinha” traziam ilustrações da menina em diversas esferas do lar: cuidando de plantas e animais, em brincadeiras de casinha e bonecas, fazendo costura e outros trabalhos. Os conteúdos, distribuídos em cerca de 30 páginas coloridas, reforçavam as condutas desejáveis às meninas e as qualidades da obediência, do zelo e do labor. As seções traziam histórias, poesias, culinária, piadas, quadrinhos, conselhos sobre os afazeres, confecção de objetos para o lar, costura e bordado, frases e pensamentos.

Fazia parte das intenções da editora O Malho manter o diálogo e a proximidade com a escola, trazendo conhecimentos gerais e conteúdos científicos, lições de comportamento, poemas, concursos de conhecimentos gerais, além de outros materiais utilizáveis pelos professores. Ao mesmo tempo que propunha auxiliar na escolarização, os editores também defendiam a recreação saudável, lançando mão de inúmeros personagens, histórias em quadrinhos, páginas de montar, premiações e passatempos. Dessa forma, podemos dizer que, ao se incumbir de uma recreação de cunho instrutivo, seus conteúdos estavam atrelados à moralização dos comportamentos, à diversão e também à publicidade.

Percebemos em “Cirandinha” a presença do que Becchi (1998BECCHI, Egle. Le XXe Siècle. In: BECCHI, Egle; JULIA, Dominique (dir.). Histoire de L’enfance en Occident: du XVIIIe Siècle à nos Jours. t. 2. Paris: Seuil, 1998. p. 358-433.) chama de “literatura de conselho”, prática discursiva muito veiculada para as famílias da classe média, sobretudo a partir dos anos de 1920. Os enunciados dessa literatura encontravam lugar nos diferentes meios de comunicação - livros, jornais, revistas para mulheres, rádio, publicidade, entre outros -, os quais produziam uma infância ideal, veiculando os recursos necessários para sua educação. Eles também contribuíam para a idealização da infância civilizada, educada em família e virtuosa (SOARES; ROVERI, 2013SOARES, Carmen Lúcia; ROVERI, Fernanda Theodoro. Entre laços, rendas e fitas, onde estão os botões? As roupas de crianças e a educação do corpo (década de 1950). ArtCultura, Uberlândia, v. 15, n. 26, p. 153- 168, jan./jun. 2013. Disponível em:Disponível em:http://www.seer.ufu.br/index.php/artcultura/article/view/29143 . Acesso em: 01 dez. 2020.
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). Além disso, em um período de urbanização e de anseio pelo progresso e modernidade, a imprensa se incumbiu da missão de propagar os discursos dominantes sobre a saúde, a puericultura, a alimentação e a vida no lar, regulando e normalizando os corpos e os comportamentos de mulheres e crianças (VILHENA; FERREIRA, 2014VILHENA, Carla Cardoso; FERREIRA, António Gomes. Formar bem as Mães para Criar e Educar Boas Crianças: as Revistas Portuguesas de Educação Familiar e a Difusão da Maternidade Científica (1945-1958). História da Educação, Santa Maria, v. 18, n. 44, p. 129-147, dez. 2014. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-34592014000300008&lng=en&nrm=iso . Acesso em:29 jul. 2020.
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). Na seção de “Cirandinha” “Erros que podem ser corrigidos ou evitados”, assinada pela professora Leonor Posada, uma literatura de conselho prescreve às leitoras a educação do comportamento e dos pequenos gestos. Uma das histórias discute os maus modos das meninas na rua, condenando as leitoras que correm, riem alto e gritam:

Ao ir para a escola, ou no regresso ao lar, deve a menina fazê-lo, a passo, naturalmente, conversando com as coleguinhas, mas nunca a correr como um garoto mal educado... Quantos riscos corre uma menina correndo pelas ruas, às tontas, a rir sem modo algum? E que impressão má deixa no espírito de todos aquêles que a vêm? (CIRANDINHA, 1955cCIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 5, n. 53, ago. 1955c.).

Esse tipo de discurso, muito comum em histórias, imagens e poesias da revista, revela uma literatura escrita do ponto de vista do autor adulto, o qual manifesta sua autoridade e reprime comportamentos considerados inadequados. Conforme Ewers (1998EWERS, Hans-Heino. La Litterature Moderne pour Enfants: son Evolution Historique a Travers L’example Allemand du XVIIIe au XXe Siecle. In: BECCHI, Egle; JULIA, Dominique(dir.). Histoire de L’enfance en Occident: du XVIIIe Siècle à nos Jours. t. 2. Paris: Seuil, 1998. p. 434-460.), essa literatura configura-se como autoritária, já que os mais velhos assumem a posição dos únicos capazes de compreender os problemas das crianças, cabendo-lhes a transmissão de julgamentos e de princípios imutáveis. Muitas vezes, escritores e ilustradores utilizam personagens infantis em histórias e poemas para reforçar critérios e valores adultos. A partir dos anos de 1950, surge, com mais frequência, a escrita delineada com base no ponto de vista da criança. Ewers (1998) chama essa literatura de “antiautoritária”, na qual as experiências infantis aparecem independentemente dos valores adultos e, por vezes, em contradição a eles. Nessa perspectiva, o adulto empresta sua voz e sua arte para deixar expressar a percepção da criança, seu olhar e suas experiências. O público infantil não recebe nenhuma instrução fechada indicando como deve agir ou adaptar-se ao mundo.

Na revista “Cirandinha” a literatura autoritária é predominante. Embora exista a defesa não apenas da instrução, mas também da recreação, a moralização do comportamento ganha espaço em quase todas as histórias. Os textos que intencionam divertir utilizam-se de peripécias de cenas cotidianas ou de gracejos de linguagem, protagonizadas por personagens extravagantes e pitorescos, cujas reações são imprevisíveis. Os adultos professores, escritores, poetas e ilustradores assumem um papel de companhia, conselho e distração das meninas. O texto do editorial aparece em tom de confidência, apaziguando os problemas cotidianos das crianças, preparando-as para as dificuldades da vida e para os papéis que lhes são atribuídos socialmente.

FIGURA 1
BOM EXEMPLO

Ao representar as infâncias nos quadrinhos e nas demais histórias, fossem essas de meninas negras, brancas, estudiosas, desobedientes, prestimosas, comedidas ou galhofeiras, a revista imprime maneiras específicas de ser, de sentir e de se expressar. Por vezes as meninas de “Cirandinha” são comportadas, quietas, falam baixo, ajudam nos trabalhos da casa e respeitam os mais velhos. Outras vezes são desobedientes, não se comportam adequadamente em público, manifestam egoísmo, gula, impaciência e inveja, sendo logo corrigidas e recriminadas pelos adultos, como exemplos de condutas indesejáveis. Poucas delas são representadas a partir de uma perspectiva antiautoritária, sem esses julgamentos morais. Podemos dizer, nesse aspecto, que Caxuxa, em seus devaneios, risos e contradições, subverte a imagem dócil das leitoras aspiradas por “Cirandinha”.

Representações do corpo infantil nas histórias de Caxuxa

Giselda Melo foi uma das poucas mulheres que ilustraram as histórias das revistas infantis da editora O Malho. Seus primeiros trabalhos foram publicados em “O Tico-Tico” no ano de 1946, a partir do qual passou a produzir as histórias em quadrinhos do gato Pechincha. Mais adiante, com o lançamento de “Cirandinha”, Giselda produziu os quadrinhos de Caxuxa e Coquinho.

A palavra Caxuxa possui raízes no candomblé, sendo um termo de origem africana que designa um tratamento afetuoso para a mulher jovem (SANTOS, 2016SANTOS, Nila Michele Bastos. Paixões, Poderes e Resistências: as Relações de Poder e Afetividades entre Senhores e Escravizados no Maranhão Setecentista. 2016. 160f.Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2016.). Designa também ritmo musical, há várias citações que mencionam “caxuxa” ou “cachucha”1 1 Frequentemente, na escrita, a palavra caxuxa também assume a forma cachucha. . Na literatura, por exemplo, temos o excerto de José de Alencar (1901ALENCAR, José de. Minas de Prata. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901., p. 8) “[...] para dansar cachucha, que lhe darei eu?”. Para Silva (2011SILVA, Sandro Vasconcelos. Quando o Recife Sonhava em Ser Paris: a Mudança de Hábitos das Classes Dominantes durante o Século XIX. Saeculum - Revista de História, João Pessoa, n. 25, p. 215-225, jul./dez. 2011. Disponível em: Disponível em: https://www.academia. edu/22450585/Saeculum_-_Revista_de_Hist%C3%B3ria_-_no_25_-_Dossi%C3%AA_ Hist%C3%B3ria_e_Africanidades_-_jul._dez._2011 . Acesso em:19 jan. 2019.
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, p. 222): “a caxuxa ou cachucha era uma dança popular espanhola de par solto, sapateada e acompanhada por castanholas”. Em todo caso, seja a partir do candomblé, seja a partir da música e da dança, a palavra caxuxa estava atrelada ao convívio social e popular.

As personagens negras eram minoria na revista e não apareciam nas poesias, nos contos, nas capas e nas demais discussões voltadas aos conhecimentos científicos e aos exemplos de boas condutas. Nos quadrinhos, duas delas aparecem com mais frequência: Maria Fumaça e Caxuxa. A primeira, desenhada por Luiz Sá, é uma empregada, retratada de maneira caricata e estereotipada, envolvida em confusões causadas por sua incompreensão da linguagem e das ordens que a patroa branca lhe dá, obedecendo a lógica vigente de desprestígio social das pessoas negras. Já Caxuxa é uma criança que mora no campo com a tia Rosa e com o primo Coquinho e é retratada em situações cotidianas, das quais fazem parte as brincadeiras, os estudos, os trabalhos de casa e muitas peripécias vividas em seu entorno. Sua representação também envolve um corpo negro e carrega as marcas e preconceitos sociais que lhe são conferidos.

Nas histórias de Caxuxa, há a intencionalidade de produzir o humor, alcançado tanto por meio da ênfase nas experiências infantis quanto pela caricatura de uma personagem que se diferencia das outras de “Cirandinha” em sua linguagem, pertencimento étnico-racial, atitudes, local em que vive e relação familiar. É possível afirmar que Caxuxa é uma representação perpassada por ambiguidades e contradições. A princípio, vista em oposição à imagem idealizada das outras meninas que aparecem na revista, Caxuxa revela-se um estereótipo da criança negra, pobre e subserviente. Por outro lado, se tomarmos como perspectiva suas histórias no contexto das narrativas autoritárias e moralizantes de “Cirandinha”, descortina-se uma menina que contesta a rigidez dos adultos, suas normas e valores, imprimindo seu modo de ser, pensar e expressar-se.

Algumas evidências dessa contestação à rigidez dos adultos aparecem em diversas histórias. Em uma delas, Caxuxa e seu primo estão espiando, às escondidas, tia Rosa2 2 Tia Rosa é uma personagem que cuida de Caxuxa, sendo também negra, trabalhadora, ligada à esfera da casa, muito semelhante à Tia Nastácia, personagem de Monteiro Lobato. fazer um bolo para o Dia de Reis. Enquanto coloca o fermento na massa, a personagem afirma que faz isso para o bolo crescer. Em seguida, sai por um instante e deixa tudo sobre a mesa. Caxuxa e Coquinho pegam mais fermento e despejam na travessa do bolo, exclamando felizes: “se o fermento ‘fais’ ‘crescê’... Fermento nele a ‘valê’! Tem que ‘sê’ um bolo gigante para eu ‘podê’ ‘cumê’ bastante!”. Meia hora depois, o bolo explode no forno, tia Rosa sai correndo aos gritos: “Socorro! Entrou assombração... lá dentro do meu fogão!” (CIRANDINHA, 1954aCIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 3, n. 34, jan. 1954a., p. 18-19). As duas crianças reaparecem como se não estivessem entendendo nada. Na história, Caxuxa e seu primo manifestam a vontade de saborear um bolo delicioso e grande, elaborando as artimanhas para isso. O desejo, comum entre muitas crianças e expresso com desenvoltura por Caxuxa e Coquinho, faz parte da gama de comportamentos recriminados às leitoras da revista, conforme mencionado no editorial de outro exemplar:

Não apenas por ser dos mais feios pecados, deve a gula ser evitada. Isso seria já uma boa razão, mas acontece também que a glutoneria é, além de nociva à alma, nociva ao corpo. Quer dizer que é duplamente perigosa. [...] O excesso de gordura provocado sempre por esses abusos de alimentação descontrolada e fora de hora, torna as meninas feias, balofas, pesadonas, ridículas e impossibilitadas de praticar os esportes salutares que, em harmonia com os efeitos do estudo, realizam o ideal do “corpo são em mente sã”, que todos devemos cultivar (CIRANDINHA, 1953aCIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 3, n. 29, ago. 1953a., p. 3).

Em outra história, tia Rosa pede que Caxuxa e Coquinho vão ao rio pescar com miolos de pão para garantir um bom jantar de domingo. As duas crianças saem animadas e conseguem pegar inúmeros peixes, imaginando que à noite comerão com fartura. Porém, um guarda aparece ao longe e manda-os irem embora, pois ali não podem pescar. Caxuxa fala para o primo esconder os peixes enquanto ela conversa com o guarda. Quando ele se aproxima, a menina lhe pergunta o que estava vendo, pois ela e seu primo estavam quietinhos na beira do rio, apenas “botando o pão de molho”. O guarda desconfia e afirma que ela tem muita coragem de dizer que não está pescando: “ora, eu cá tenho olho!” (CIRANDINHA, 1953bCIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 3, n. 31, out. 1953b., p. 28-29).

A ousadia de Caxuxa de desafiar a superioridade do guarda é uma das atitudes desaprovadas em diversos textos de “Cirandinha”, conforme prescrito em um dos editoriais. Nele, os autores chamam a atenção das meninas para que contenham o mau impulso e cultivem a bondade em suas almas:

Medita, sopesa, pensa bem, ante o mau impulso, o da vingança, o da frieza egoísta, o do indiferentismo pela dor alheia [...]. É sempre grato a Deus uma sua criatura deixar que se manifeste a parte boa e bela, altruística e generosa, da personalidade que Ele deu, com o sopro da Vida (CIRANDINHA, 1956CIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 6, n. 64, jul. 1956., p. 3).

Em outra situação, a menina e seu primo conversam fora de casa a respeito de uma visita que acabara de chegar, a Chica Faladeira. Os dois mostram desgosto e ficam com pena de tia Rosa, pois a mulher é terrível, “fala... fala... noite e dia!” (CIRANDINHA, 1954bCIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 4, n. 39, jun. 1954b., p. 28). Caxuxa lembra que ouviu um vizinho comentar que Chica Faladeira só tinha medo de duas coisas: de porco e de Satanás. Então tem a ideia de ir com o primo até o chiqueiro e soltar os porcos dentro de casa, assustando e expulsando a visita que conversava com a tia no sofá da sala. As traquinagens de Caxuxa e Coquinho destoam de outras páginas de “Cirandinha”, conforme aponta o teste “Você sabe se controlar?”, proposto em outro exemplar:

Muitas vezes você ouviu falar em controle. Sabe o que é isso? A capacidade que as pessoas tem de dominar a si mesmas, disciplinando os impulsos que lhes vêm diante de fatos e situações. Vamos ver, por exemplo, você. Como você age, em determinada ocasião ou circunstância? Que procedimento você adota, diante de um fato ou de outro? [...] Uma amiga da mamãe vai à sua casa, e sua chegada inesperada vem atrapalhar seus planos. Você lhe proporciona boa acolhida? (CIRANDINHA, 1954c CIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 4, n. 43, out. 1954c., p. 8).

A inesperada visita de Chica Faladeira causou repulsa nas crianças, que, ao contrário de tia Rosa, não se empenharam em proporcionar-lhe uma “boa acolhida”. Na contramão do que ensina o teste, Caxuxa e Coquinho exercitam o controle não dos seus próprios impulsos, mas sim da visita; é ela que, sendo para eles uma pessoa nada agradável, deve ser disciplinada.

Nos quadrinhos apresentados na figura 2, Caxuxa realiza uma ação simples e aparentemente ingênua, capaz de subverter o poder e o status social do adulto. Nessa história, outra visita, dona Beleléu, chega exibindo um chapéu novinho e aprumado, em contraste com a simplicidade da menina e de sua tia. Confiado aos cuidados de Caxuxa, o chapéu terminará em frangalhos, causando o desespero de dona Beleléu e de tia Rosa. As atitudes da menina em relação às visitas evidenciam alguns dos aborrecimentos das crianças diante do mundo adulto, no qual o olhar do outro e o preparo da casa, dos modos e das aparências tinha um lugar especial na vida cotidiana e nas sociabilidades de muitas famílias.

FIGURA 2
O CHAPÉU DE DONA BELELÉU

A ilustradora intenciona construir o humor por meio da linguagem coloquial das personagens e do diálogo com rimas, como pode ser observado nas palavras Beleléu/chapéu, cuidadinho/novinho, calô/flô, dentre outras, o que dá uma fluidez e desenvoltura ao texto. O uso de rimas nas revistas infantis do período era muito comum, sobretudo quando a intenção era transmitir conteúdos moralizantes, os quais apareciam na forma de versos e de poesias, tidos como mais fáceis de memorizar. Na história da literatura infantil brasileira, conforme discutem Lajolo e Zilberman (1985LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira: História e Histórias. São Paulo: Ática, 1985.), até a década de 1960 havia uma crença no poder comunicativo e persuasivo dos versos, que carregavam valores ideológicos emergentes. Diferentemente de outras poesias assinadas por Bastos Tigre, Olavo Bilac, Galvão de Queiroz, dentre outros autores que publicavam em “Cirandinha”, o que se vê na escrita de Giselda Melo - tanto em Caxuxa quanto nos outros quadrinhos de sua autoria - é o emprego de rimas nos diálogos informais, um uso atrelado ao divertimento e à linguagem descontraída, diferindo, por exemplo, das rimas utilizadas por Galvão de Queiroz para caracterizar a menina Raquelzinha:

Em vez de brincar, lá fora, de roda ou de amarelinha, Raquel o que mais adora é ajudar a mamãezinha. É uma ajudante perfeita nos trabalhos da cozinha. Qualquer tarefa ela aceita para ajudar a mãezinha. Enquanto trabalha, canta... E, graças à Raquelzinha, a fadiga não é tanta nos ombros da Mamãezinha (CIRANDINHA, 1954bCIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 4, n. 39, jun. 1954b., p. 7).

Meninas “agradáveis aos adultos”, tal como Raquelzinha, são abundantes na revista “Cirandinha”, conforme outro exemplar, cuja capa traz uma garota colhendo maçãs. O editorial reforça à leitora que cultive, em seu coração, a semente do bem, “para que, num milagre que agradará a Deus, de semente passe logo a árvore generosa, cujos frutos ali mesmo possam ser colhidos” (CIRANDINHA, 1956CIRANDINHA. Rio de Janeiro, ano 6, n. 64, jul. 1956., p. 3). Na página 11, a revista propõe que as leitoras realizem um trabalho manual, a confecção de um abajur para a casa, ficando assim “algumas horas quietinhas como a mamãe gosta”. Enquanto a obediente leitora de “Cirandinha” faz seu abajur, concentrando-se na montagem, no corte e na costura do objeto, preenchendo o seu tempo com uma atividade útil, mais adiante, na página 16, Caxuxa tira sua roupa e vai nadar no rio com seu primo Coquinho, exclamando feliz: “vou tomá um banho gostoso!”.

“Tá maluca negrinha?”: notas sobre o corpo de Caxuxa

As aventuras de Caxuxa trazem elementos para reflexão que dialogam com a liberdade e a transgressão das convenções vigentes num discurso que a coloca, ao mesmo tempo, à margem, na linha da exclusão social. Faremos destaque a três desses elementos: comportamento, linguagem e cultura da protagonista negra.

Na literatura, temos vários exemplos de como essa relação pode ser construída com base nos preceitos do mundo adulto que se impõem às crianças, na tentativa de transmitir e preservar ideias e valores vigentes. Como representação de uma personagem negra, Caxuxa não é uma adulta, mas uma criança que ganha destaque, nome e voz nas histórias de “Cirandinha”. Porém, em alguns momentos, a personagem ainda leva a alcunha Negrinha, conforme a Figura 2. Se compararmos com a produção lobatiana, uma menina negra, que nem nome tinha, atendia também por Negrinha. Sua saga é descrita em conto na obra com mesmo título (LOBATO, 1956LOBATO, José Bento Monteiro. Negrinha. São Paulo: Brasiliense, 1956.).

Em relação aos comportamentos, Caxuxa não fica em casa bordando quietinha “como a mamãe gosta”, mas sai com seu primo Coquinho, um menino. Ela tira a roupa e vai tomar um gostoso banho de rio, colocando seu corpo em movimento e liberdade em um dia de calor, contrariando regras sociais e à revelia das boas maneiras ensinadas às meninas brancas como Raquelzinha. Ela também é representada como “atrapalhada” ou mesmo como uma personagem que carrega traços de ignorância de traquejo social e cultural tidos como simples e de conhecimento comum - por exemplo, quando molha a flor do chapéu de Dona Beleléu, sugerindo que ela desconhece que não se trata de uma planta real. Nesse caso em específico, ainda há o componente econômico: visivelmente, na ilustração, Dona Beleléu pertence a uma classe econômica mais favorecida que Caxuxa ou tia Rosa. Dona Beléleu é “sá dona”, branca e, provavelmente, rica. Ao ser repreendida, é lembrada à Caxuxa sua condição de menina negra com o “tá maluca, negrinha?”. Ou seja, o ato é tão esdrúxulo que só pode ser coisa de maluco - ou de negrinha. Esse discurso expressa estereótipos construídos e propagados pelos quadrinhos acerca do lugar e da ignorância da menina, mulher negra. Compreendemos estereótipos tal qual Janaína Damasceno (2008DAMASCENO, Janaína. O Corpo do Outro: Construções Raciais e Imagens de Controle do Corpo Feminino Negro - o Caso da Vênus Hotentote. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, 8., 2008, Florianópolis. Anais[...]. Florianópolis: UFSC, 2008. p. 1-7. Disponível em: Disponível em: https://negrasoulblog.files.wordpress. com/2016/04/o-corpo-do-outro-construc3a7c3b5es-raciais-e-imagens-de-controle-do- corpo-feminino-negro-o-caso-da-venus-hotentote-janaina_damasceno.pdf . Acesso em: 24 jan. 2019.
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, p. 3, grifos da autora) assinala, com “caráter de reduzir, essencializar, naturalizar e fixar a diferença do Outro”.

No que diz respeito aos padrões linguísticos tidos como educados ou cultos3 3 Sobre o preconceito linguístico, que carrega outros (contra a pobreza, o nordestino, os indígenas, os estrangeiros etc.), ver Bagno e Rangel (2005), dentre outros. , Caxuxa é antítese da menina que vai à escola, borda e fala baixo. Usa expressões cotidianas, que sua criadora faz questão de deixar entre aspas, como “troço”. Seu acento, que pode ser considerado como falta de instrução formal ou ainda sotaque do interior, também é sempre marcado: “flô”, “calô”. Diferenciar a linguagem de Caxuxa, a seu tempo e na relação com as outras meninas tidas como “educadas”, marca o lugar de onde ela vem e, consequentemente, o que deve ser evitado pelas leitoras, a considerar o padrão moral da revista.

Junto ao comportamento e ao jeito de falar, há no conteúdo pistas que colocam os conhecimentos de Caxuxa em xeque ou ainda que vêm a diminuí-los. Em “Cirandinha” o contexto de vida das personagens negras remete às histórias narradas por pretas e pretos velhos. Enquanto as histórias de Caxuxa estão atreladas à literatura tida como folclórica, outras páginas da revista destacam os seres da mitologia europeia, cientistas e “vultos e heróis” da história.

Assim, conforme destaca Maria Cristina Soares Gouvêa (2005GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. Imagens do Negro na Literatura Infantil Brasileira: Análise Historiográfica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 77-89, jan./abr.2005. Disponível em:Disponível em:http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n1/a06v31n1.pdf . Acesso em: 2 mar. 2019.
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) ao analisar imagens do negro na literatura infantil, a cultura, as práticas religiosas e a tradição negras são compreendidas como manifestações inferiores, de um espaço rural situado à margem das relações urbanas. Corporificadas nos pretos e pretas velhas, esses saberes eram representados como distantes da “sociedade que buscava modernizar-se, sob a égide de uma lógica científica que recusava tais manifestações” (GOUVÊA, 2005GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. Imagens do Negro na Literatura Infantil Brasileira: Análise Historiográfica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 77-89, jan./abr.2005. Disponível em:Disponível em:http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n1/a06v31n1.pdf . Acesso em: 2 mar. 2019.
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, p. 87). Caxuxa representa essa tradição negra num Brasil marcado pelas desigualdades sociais, econômicas e pelo preconceito racial e a favor das políticas de branqueamento, conforme discussão proposta por Jerry Dávila (2006DÁVILA, Jerry. Diploma de Brancura: Política Social e Racial no Brasil (1917-1945). São Paulo: Editora Unesp, 2006.). Ana Célia Silva (2000SILVA, Ana Célia. Desconstrução da Discriminação no Livro Didático. In: MUNANGA, Kabengele (org.). Superando o Racismo na Escola. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Fundamental, 2000. p. 13-30.), ao analisar livros didáticos, sugere que a ideologia do branqueamento se estabelece na internalização de uma imagem negativa de si e de uma imagem positiva do outro, ou seja, por meio da própria rejeição atrelada à busca pelos padrões tidos como bons e ideais. No mesmo sentido, Gouvêa (2005)GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. Imagens do Negro na Literatura Infantil Brasileira: Análise Historiográfica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 77-89, jan./abr.2005. Disponível em:Disponível em:http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n1/a06v31n1.pdf . Acesso em: 2 mar. 2019.
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conclui seu trabalho de análise de representação de personagens negros na literatura apontando que estes eram desqualificados, ou seja, havia a produção de uma identificação do leitor com a cultura e estética brancas, marcadas como superiores nos textos.

As narrativas que envolvem a menina Caxuxa parecem traçar um destino comum às moças que riem alto, alegram-se, falam demais (e fora do padrão escolarizado, tido como culto e ideal) e nadam com meninos: sua liberdade, ousadia e alegria de infância não serão compensadas na vida adulta, pois o que se espera, no ideário da época, é que a menina tenha um comportamento que não dê espaço a julgamentos “maldosos” por parte dos que a cercam, a fim de garantir um bom casamento futuro. Caxuxa representa o comportamento avesso a esse discurso e, por isso, é moralmente “modelo que não se deve seguir”. Por outro lado, ela também pode representar, simbolicamente, uma ruptura a esse pensamento ou uma negação a essa estrutura: sua presença contestando padrões, mesmo restrita a poucas páginas da revista, traz a possibilidade da resistência assegurada nas brechas sutis ou nos pequenos gestos que a personagem emprega para romper, com seu corpo negro, infantil e feminino, as prescrições autoritárias dos adultos.

Algumas considerações

Neste artigo, ao tomarmos como fonte de análise uma publicação destinada às meninas, mapeamos discursos em circulação que nos permitiram apreender um processo de educação dos corpos das crianças. Assim, temos como pressuposto que as diversas práticas corporais, mediadas também pelas histórias da menina negra Caxuxa, articulavam-se ao projeto de educação da leitora de “Cirandinha”. A revista, objeto da imprensa escrita e parte da cultura material, tinha como propósito educativo instruir e divertir a criança, formando-a futura mulher conforme os padrões sociais e culturais aspirados naquele período de uma nação moderna, urbana, culta e ancorada nos valores morais e familiares. Três questões principais embasaram a construção do presente artigo: quais marcas de uma educação do corpo podem ser apreendidas nas histórias em quadrinhos de Caxuxa? Como esses quadrinhos se entrecruzavam aos outros discursos de “Cirandinha”? Qual o ideário de infância que a revista constrói?

Em relação aos processos de educação do corpo, temos uma literatura autoritária que prescreve à menina maneiras adequadas de andar, de comer, de falar, de sorrir e de se apresentar corporalmente diante dos olhares dos outros. Nesse sentido, a revista apresenta-se como um manual de condutas, podendo ser categorizada como literatura normativa de civilidade, ou seja, transmissora de “códigos de conduta julgados como lícitos, ao passo que outros eram condenados por serem inapropriados às relações sociais” (SANTANA, 2014SANTANA, Flavio Carneiro. Majestosa Educação: Família e Civilidade no Segundo Reinado do Brasil (1940-1989). 2014. 327f. Tese (Doutorado em História Contemporânea) - Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Coimbra, 2014., p. 8). Além disso, a proposta de “Cirandinha” também está vinculada a uma “literatura de conselho”, conforme Becchi (1998BECCHI, Egle. Le XXe Siècle. In: BECCHI, Egle; JULIA, Dominique (dir.). Histoire de L’enfance en Occident: du XVIIIe Siècle à nos Jours. t. 2. Paris: Seuil, 1998. p. 358-433.).

Um conjunto de práticas e discursos educativos reafirma uma educação da feminilidade, marcada pelo controle das pulsões da menina. A revista alerta para os riscos de se correr pelas ruas, de rir descomedidamente e causar más impressões. Ensina a dedicação ao trabalho e, para amenizar a fadiga, o canto. Prescreve o controle da alimentação, as práticas esportivas salutares e a disciplina nos estudos, a fim de tornar corpos e mentes sãos. A representação da criança ideal era a de aparência branca, afetuosa, prestativa ao lar e generosa com os familiares e com outros adultos. A imagem de Caxuxa representava a antítese desses preceitos.

O embranquecimento da leitora, bem como as expectativas em relação à mulher e ao lugar que ela deve ocupar, são facilmente identificáveis na produção de “Cirandinha”. Esse modo de representação construía uma diferenciação entre classe social, gênero e raça. As personagens brancas de “Cirandinha”, nascidas e criadas em uma família tradicional, nuclear, de classe média, urbana e alfabetizada, como Raquelzinha, reforçavam estereótipos como de “boa filha, boa moça” e de futura “boa esposa, boa mãe”. Essas meninas, tanto nos textos escritos como nas imagens propagadas, não desapontavam a família e a sociedade. Na contramão dessas características, entrecruzam-se as atitudes de Caxuxa, representada como menina negra, da roça e pobre. Há, portanto, a intenção de construir o comportamento feminino tido como correto, e o deboche aos fazeres de Caxuxa é parte da lição, num movimento que prescrevia as condutas ideais para as garotas e que silenciava os corpos da criança e da população negra.

Considerando o contexto de ambiguidades e contradições que perpassam a representação de Caxuxa, é perceptível que sua alegria e suas atitudes provocativas diante do autoritarismo dos adultos marcam, por outro lado, a presença de uma infância que resiste e questiona as formas de ser criança, menina e negra na sociedade à qual pertence. Esse certamente não era o padrão ideal de infância construído pela revista, no entanto, possibilita enxergarmos seu modo de fazer-se presente a seu tempo, o que certamente continua a impulsionar a busca por outras reflexões acerca das imagens das infâncias na história, na literatura e na educação. Recuperar a personagem é contribuir para o movimento de compreensão da construção em torno das representações de corpo que ecoam até nós ainda na forma de preconceitos, silenciamento e invisibilidade da mulher, da menina e da negritude.

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  • VERGUEIRO, Waldomiro; SANTOS, Roberto Elísio dos. A Postura Educativa de O Tico-Tico: uma Análise da Primeira Revista Brasileira de Histórias em Quadrinhos. Comunicação & Educação, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 23-34, ago. 2008. Disponível em: Disponível em: http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/42300 Acesso em:17 mai. 2018.
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    » http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-34592014000300008&lng=en&nrm=iso

  • 1
    Frequentemente, na escrita, a palavra caxuxa também assume a forma cachucha.
  • 2
    Tia Rosa é uma personagem que cuida de Caxuxa, sendo também negra, trabalhadora, ligada à esfera da casa, muito semelhante à Tia Nastácia, personagem de Monteiro Lobato.
  • 3
    Sobre o preconceito linguístico, que carrega outros (contra a pobreza, o nordestino, os indígenas, os estrangeiros etc.), ver Bagno e Rangel (2005)BAGNO, Marcos; RANGEL, Egon de Oliveira. Tarefas da Educação Linguística no Brasil. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Belo Horizonte, v. 5, n. 1, p. 63-81, 2005. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-63982005000100004 . Acesso em:1 mar. 2019.
    http://www.scielo.br/scielo.php?script=s...
    , dentre outros.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Ago 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    24 Set 2020
  • Aceito
    27 Jan 2021
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