Ciência e tecnologia: urgente!

Editorial

Ciência e tecnologia - urgente!

Durante a última Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC, Belo Horizonte, 1997), foi lançada a Frente em Defesa do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, primeiro resultado do trabalho empreendido pela Frente Parlamentar em Defesa da Ciência e Tecnologia, em conjunto com entidades da sociedade civil, movimentos de docentes, pesquisadores e servidores da área.

Um ponto estratégico para o sucesso da Frente, que acarretará benefícios para os campi e institutos de pesquisa, é a divulgação de seus passos dentro e fora da comunidade científica. Contatos podem ser estabelecidos nos seguintes telefones:

* APqC, fone/fax: (019) 241 9910, com Maurilo Terra.

* Frente Parlamentar: (011) 570 2671 e 570 4209 (fax), com Marcelo Aguirre.

Transcrevemos, a seguir, o "Manifesto em Defesa do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia", firmado pela Frente Parlamentar em Defesa da Ciência e Tecnologia e documento fundador do movimento.

Manifesto em defesa do sistema nacional de ciência e tecnologia

Desenvolvimento, no sentido amplo, justo e desejável, só pode ser um processo de que resulte o bem-estar social e não apenas o enriquecimento do Estado, de corporações ou de indivíduos. Devem alinhar-se, portanto, entre suas metas prioritárias, o aumento da produção de bens materiais e a melhor distribuição da riqueza; o aprimoramento da administração pública e da legislação social; o aperfeiçoamento e a generalização do ensino; a melhoria de todo o sistema de defesa e assistência à saúde pública; a mais ampla participação da coletividade nas atividades culturais, de recreação e de lazer. Assim sendo, ganha nítidos contornos a importância do binômio Ciência e Tecnologia (C&T) para o desenvolvimento.

Em outros tempos, certamente que a técnica, empiricamente adquirida, pôde se desenvolver independentemente da ciência, ainda que por meio de um procedimento penoso e demorado. Mas a inovação tecnológica de hoje, com a rapidez que mal nos permite incorporar aos nossos hábitos coisas e processos que já vão se tornando obsoletos, somente torna-se possível, neste século, com o fantástico desenvolvimento de todas as áreas em que se costuma dividir a ciência.

É fundamental a percepção de que a C&T são partes indissociáveis do complexo cultural. Como tal, não são simplesmente produtos, mas processos com uma dinâmica própria, que encerram toda uma corrente de pensamentos, toda uma conduta de ação e, dessa forma, comparecem como fatores críticos para o desenvolvimento.

O domínio do conhecimento científico, portanto, e a conseqüente geração de tecnologia própria constituem a essência do desenvolvimento autêntico, ao contrário daquele outro - ilusório -. baseado em coisas apenas fabricadas aqui. Não por nós, no sentido mais próprio da expressão, ainda que por alguns de nós. No caso, pouco mais do que executores de um receituário importado, sem vinculações enraizadas em nosso patrimônio cultural, científico e tecnológico.

Os cientistas estão perplexos ante o notório agravamento da crise que solapa a eficiência do Sistema Nacional de C&T. Universidades e institutos de pesquisa oficiais, que deveriam ser o baluarte da construção de uma sociedade democrática, justa e desenvolvida, vivem em constante sobressalto com os radicais cortes orçamentários, as restrições burocráticas de toda ordem, a crescente perda de seus recursos humanos mais capacitados e em todos os níveis.

Em face das reconhecidas qualificações do chefe da Nação, como intelectual e, sobretudo, como cientista social, torna-se profundamente paradoxal o agravamento dessa crise, que mantém o Sistema Nacional de C&T sob a ameaça do governo de eximir-se da responsabilidade de sua manutenção. Pois não pode desconhecer, o presidente da Nação, que, nas nossas condições e considerando o interesse social coletivo, não existe sucedâneo para a atuação do Estado com vistas ao nosso desenvolvimento científico e tecnológico.

A Nação precisa ficar atenda aos riscos que advirão da eventual concretização da declarada intenção de deixar de assumir as instituições científicas. A redução do Estado e a inserção na economia global não justificam a renúncia à defesa do interesse coletivo voltado para a soberania nacional.

A posição do Estado, com relação às instituições científicas, deve ser norteada pelas características de seu trabalho, aliadas à sua importância social e econômica. Dar-lhes condições administrativas e financeiras ajustadas a tais características e importância central na economia, não deve ser considerado um privilégio. Ao contrário, deverá ser parte de um planejamento objetivo em que se atenda às condições necessárias para que essas instituições produzam os resultados que delas se esperam. É necessário, enfim, que se firme o conceito de que as instituições de pesquisa requerem um tratamento especial e prioritário, mesmo nos períodos de crise; que o corte de recursos e o rebaixamento salarial levam a uma decadência que só grandes investimentos e anos de espera podem corrigir.

Os resultados da investigação científica não são programáveis a curto prazo. Como regra geral, emergem em seu próprio tempo, como produto de um trabalho contínuo pertinaz e, quase sempre, demorado. Conseqüentemente, os investimentos em ciência e tecnologia não produzem dividendos políticos de rápido retorno. A decisão de investir na revitalização de todo um Sistema de C&T exige convicção, postura e visão de estadista, porque os resultados mais visíveis surgirão num tempo que ultrapassa o período de uma administração. Mas, certamente, não há outro caminho e, de uma tal convicção, surgiram e estão surgindo todas as grandes nações.

Conclamamos a comunidade científica brasileira a defender o papel do Estado, a soberania nacional e os interesses sociais coletivos, trabalhando, incessantemente, para conscientizar o governo em relação ao dever irremovível que lhe compete, de promover por todos os meios o desenvolvimento científico e tecnológico, abandonando o equívoco de eximir-se dessa responsabilidade e adotando uma política que atenda aos reais interesse da Nação.

Só assim conseguiremos recompor nossos sistemas científico-tecnológicos, de modo a encontrarmos - nós mesmos - soluções para nossos problemas, trajetória e sustentação para nosso desenvolvimento, e, com isso, a afirmação de nossa soberania, ou estaremos irremediavelmente condenados a ser meros carregadores de lenha e de água para os países desenvolvidos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Abr 1999
  • Data do Fascículo
    Abr 1998
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